sábado, 27 de Março de 2010

Guiné 63/74 - P6058: Convívios (208): Encontro de Confraternização da CCAÇ 763, em 22 de MAIO de 2010 – Boleiros/Fátima (Mário Fitas)

1. O nosso camarada Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 763, “Os Lassas”, Cufar, 1965/66, enviou-nos a seguinte mensagem, com data de 26 de Março de 2010:

ENCONTRO DE CONFRATERNIZAÇÃO DA COMPANHIA DE CAÇADORES 763
Camaradas,

Anexo o programa do encontro da CCAÇ 763 os "Lassas".

Solicito que seja incluída a indicação, que este encontro se encontra aberto a todos os que, em CUFAR e ao redor, colaboraram com a CCAÇ 763.


Exemplos: A CCAV 703 - CCAÇ 728 "Os Palmeirins de Catió" - a CCAÇ 1484, que muito nos ajudou quando já estávamos todos “rotos” - a 4ª. CC de Bedanda, aqueles a quem demos a instrução na fase operacional, a CCAÇ 1500, etc.


Enfim todos aqueles que connosco conviveram em CUFAR e queiram estar no nosso neste 45º Aniversário da nossa chegada à Guiné.


ANO: 2010
E Já lá vão 40 anos!!!



OPERAÇÃO ROLO

21 de Maio de 1966 – A Companhia de Caçadores 763, a 2 Grupos de Combate, sai do Quartel de Cufar, pelas 04h00, colaborando na Operação ROLO que visava a desobstrução da estrada para Bedanda. Até às 09h30 foram retiradas ou destruídas 33 abatizes de grande porte.

Enquanto a coluna auto seguia pela estrada escoltada pela CCAV. 703 que, entretanto, tinha montado a segurança, a nossa Companhia recebeu a missão de se deslocar para a região de Cabolol, tendo sido atacada pelo IN junto das povoações de Cabolol Balanta e Cabolol Lande.
Perante a nossa reacção o adversário foi posto em fuga, mas quando nos preparavamos para retirar, voltaram a atacar-nos, mas, foram de novo desalojados, em consequência do nosso contra-ataque.

Nessa operação, a Companhia que teve o apoio dos T-6, sofreu um ferido ligeiro.

Companheiros,

Quando a 13 de Fevereiro de 1965 embarcámos para a Guiné, éramos mais novos, é verdade, mas não sabíamos o que hoje sabemos.

Desde esse dia até hoje, todos vós, todos nós, temos continuado a lutar pela vida, agora, não só pela nossa, mas também por a daqueles que nos rodeiam.

A vida é dura, companheiros, mas não adianta apenas lamentarmo-nos. Afinal, ainda cá estamos e, melhor ou pior, vale a pena continuarmos vivos e, na medida do possível, aproveitar algo de positivo dessa situação.

É, exactamente, porque sabemos como é sempre um momento de alguma satisfação, que te vimos desafiar para o:
ENCONTRO DE CONFRATERNIZAÇÃO DA
COMPANHIA DE CAÇADORES 763

ESTE ANO, O NOSSO ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO VAI REALIZAR-SE NO DIA 22 de MAIO de 2010
PROGRAMA

12.00 horas – Chegada ao Restaurante TRUÃO (Estrada de Minde – Largo da Capela – Boleiros), telef. 249521542.

13.00 horas – ALMOÇO
EMENTA
  • Entradas na mesa
  • Açorda de Cherne com camarão
  • Galo c/ couves e miúdos do dito
  • Buffet de sobremesas
  • Vinhos Verde e da Região
  • Café
  • Digestivos
PREÇOS (os mesmos)
Pessoal da 763 .............. 28,00 euros
Familiares ..................... 27,00 euros
Crianças ........................ 12,00 euros

Sem ti não haverá Almoço?
Claro que há, mas não é a mesma coisa!!!
A tua presença é indispensável. Contamos contigo!!!

CONTACTOS (telemóveis):
Mário Ralheta ………….....….. 965591915
Belarmino Acúrsio ……....….. 917588896
Artur Teles ………….......….….. 969031452
Jorge Paulos ........................... 962333356

RESTAURANTE / ITINERÁRIO:
Quem vai pela A1, sai em direcção a Ourém /Fátima / Batalha. Segue pela rampa para Ourém. Na rotunda – 1ª saída para a Estrada de Minde/N360. Passa 1 rotunda e, cerca de 7 minutos depois, vira à esquerda na Est. Principal de Fátima, percorre cerca de 3 minutos e encontra Boleiros.

Um abraço do tamanho do Cumbijã,
Mário Fitas
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 763
__________
Nota de M.R.:

Vd. último poste da série em:

Guiné 63/74 - P6057: Parabéns a você (93): Os novos Notáveis do Reino, Sir Charles Vinhal & Sir Edward Mc Ribeiro, armados Cavaleiros da Tabanca Redonda (Mário Miguéis)

















Mário Miguéis da Silva (ex-Fur Mil de Rec Inf, Bissau, Bambadinca e Saltinho, 1970/72)

Texto e imagem: © Mário Miguéis da Silva (2010). Direitos reservados


1. Meus caros Marquês de Vinhal e Conde de Ribeiro Bravo:

Acabou de chegar às 4 e tal da manhã, em correio expresso, as tão desejadas "pranchas" do Barão Migas de Esposende, e Cavaleiro de Bambadinca... Noutra encarnação, Mário Miguéis da Silva. Foi fantástico, inexcedível, não quis falhar com o prometido...Estou-lhe imensamente grato. Reproduzo a seguir a "secreta" correspondência trocada com ele nestes dias. Agira sigo para Coruche. LG.

2. Mails trocados entre mim e Mário Miguéis:

(i) 16 de Maio de 2010:

Querido Mário:


Não sei se vais ao encontro, em Coruche, no dia 27 de Março, do pessoal da CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e unidades adidas... Por uma razão ou outra, nunca fui aos encontros do BART 2917... (Nada tenho hoje contra ninguém, não julgo ninguém, não condeno ninguém, incluindo o Anjos de Carvalho)...

Tenho ido a alguns encontros do batalhão anterior, o BCAÇ 2852... Se fores, encontramo-nos em Coruche. Ou então, o mais tardar em 19 ou 26 de Junho, no V Encontro Nacional da nossa Tabanca Grande,em Monte Real...

Até lá preciso de te pedir um favor... Se estiveres "inspirado" e tiveres "tempo e pachorra", gostava que me fizesses uma pequena "homenagem em BD" a dois colaboradores do nosso blogue, o Carlos e o Eduardo que fazem anos no mesmo dia.. .a 27 de Março... Uma coisa singela, mas que exprima a nossa gratidão e testemunhe a nossa camaradagem...

Utiliza apenas este endereço, para manter o "sigilo"... Um abração, Luis

(ii) 17 de Março de 2010:


Caro Luís:


Só para acusar a recepção e adiantar-te que, embora o Carlos e o Eduardo mereçam tudo de bom e mais alguma coisa, a minha colaboração (sinto-me honrado por a teres solicitado) vai ter que ser mesmo muito "singela"...É que, desta feita, tenho, precisamente desde ontem e até final do mês, em minha casa os meus dois filhos, que trabalham no estrangeiro (e quanto a disponibilidade fica tudo dito).

Um abraço,

Mário Miguéis

(iii) 17 de Março de 2010:

Mário: Mesmo singela que seja, terá a tua "dedada", a marca do teu talento... Goza plenamente a companhia dos teus filhos. Tudo de bom para eles, para ti e demais família. Luís

(iv) 24 de Março de 2010:

Caro Luís,


Regressa hoje ao estrangeiro um dos meus filhos, partindo o outro amanhã, final do dia. Entretanto, a única coisa que consegui fazer relativamente à BD solicitada foi idealizar a mini-estória*, já que a família não me dá hipóteses nenhumas (estou sempre de serviço). Só na madrugada de 26 estarei em posição de te remeter os desenhos, esperando que tenhas possibilidades de editares em tempo útil (caso contrário, "siga a marinha!...").

Optimista por natureza (quem dera!), acredito que não terei de te pedir desculpas.

Um abraço,

Mário Migueis.

* - Os dois aniversariantes são fidalgos da tua côrte e andam por esse mundo do Senhor a fazer coisas boas. Quando regressam para um aniversário em família, são armados Cavaleiros da Tabanca Redonda por Luís Henriques, O Graça (esse mesmo) pelos altos serviços prestados e passam a a figurar (os seus retratos) no Salão Nobre dos Notáveis do Reino. É só.

(v) 25 de Março de 2010:

Miguel: Estou ansioso por te rever... Não estás a pensar vir ao nosso encontro, em Monte Real, a 26 de Junho ? Quando (e se) passar por Esposende apito-te... Vou ao Norte quase todos os meses (...).

(...) Obrigado pela tua generosa e solidária resposta, dentro do melhor "espírito de Bambadinca"... Terei muito gosto em integrar a tua "prancha" no nosso texto de homenagem aos nossos dois co-editores, o Carlos e o Eduardo...Ou autonomamente. Logo verei. A ideia parece-me gira...

Trabalharei na noite de 26 para 27, se necessário... Não tem problema... (Às 9h30 de sábado, vou a caminho de Coruche, para participar pela 1ª vez no encontro da malta do BART 2917 + unidades adidas... Ia adorar encontrar o Anjos de Carvalho, que me quis dar um porrada e/ou mandar para a psiquiatria por causa do "Assassinos, criminosos de guerra, limpo o cú às folhas do RDM", nesse trágico dia de 26 de Novembro de 1971 (em que tivemos seis mortos e 9 feridos graves a caminho da Ponta do Inglês... Sei que já tem aparecido... Não lhe guardo qualquer rancor... Dar-lhe-ei um abraço, como faço a qualquer camarada de Bambadinca...War is over...).

A caixa de correio está aberta 24 horas por dia... Por razões de segurança, usa também os meus mails, o pessoal e o profissional (...).

Um chicoração. Curte os teus filhos, que é o melhor que a gente tem (Eles vivem e trabalham no estrangeiro ? Ou estudam ainda ?)

PS - E a propósito de BD, tens obra "publicada" ? Talento, a jorros, não te falta...

(vi) 17 de Março de 2010, às 4h10:

Caro Luís,


Pelas minhas contas, as idades do Vinhal e do Magalhães Ribeiro que estás a indicar não correspondem (Terão 52 e 48, respectivamente).

Acabo de reparar numa msg do sistema, que me faz duvidar da boa expedição do m/e-mail de 26 com a "BD"; recebeste bem?...

Mário Miguéis

Observ.: 2º reenvio, às 4 e tal da manhã, em boas condições...

(vii) 27 de Março de 2010, às 8h00:

Mário: Foste Fantástico... Just in time... Vou editar... Depois falo contigo...E depois sigo para Coruche.. Abração do tamanho Geba e do Corubal. Luís

Guiné 63/74 - P6056: Parabéns a você (92): Carlos Vinhal, 62 anos, o braço direito do nosso blogue, um incansável trabalhador da nossa Tabanca Grande (Luís Graça)


Guiné > Região do Oio > Mansaba > CART 2732 (Mansabá, 1970/72)> Foto de Outubro de 1970 (seis meses de comissão) : 3º Pelotão, secção do Fur Mil Vinhal (primeira fila, à direita, ladeado pelo seu amigo Ornelas).

Foto: © Carlos Vinhal (2006). Direitos reservados


1. O Carlos Vinhal está connosco desde 25 de Março de 2006, ou seja, desde a I Série do nosso blogue, o que significa que é um sénior, integrando desde então a nossa Tabanca Grande... Entrou cerimonioso, educado, e discreto, como continua a ser o seu timbre, tratando-me por você (*):

"Caro Luís Graça: Entrei recentemente no seu site e, como antigo combatente da Guiné, queria deixar o meu modesto contributo para aumentar o número daqueles que não têm complexos em assumir-se como antigos combatentes de uma guerra que, a não querendo, dela não fugiram. (...)



 "Passo a apresentar-me: (i) chamo-me Carlos Esteves Vinhal, fui Furriel Miliciano Atirador com a especialidade de Minas e Armadilhas; (ii) fui incorporado como instruendo do CSM em Abril de 1969 nas Caldas da Rainha (RI5); (iii) a especialidade de Atirador tirei-a em Vendas Novas (EPA); (iv) em Novembro fui para Tancos (EPE) onde tirei o 33.º Curso de Minas e Armadilhas; (v) em Dezembro rumei para o Funchal onde ajudei a dar a Especialidade de Atirador a um grupo de militares madeirenses com os quais se formaram as duas primeiras Companhias do Grupo de Artilharia de Guarnição n.º 2 (GAG2) a irem para o Ultramar: a CART2731 foi para Angola e a minha, a CART2732, embarcou no Cais do Funchal para a Guiné no dia 13 de Abril de 1970, chegando a 17; (vi) uns quantos dias em Brá e no dia 21 do mesmo mês seguimos para Mansabá, situada entre Mansoa e Farim, onde permanecemos até finais de Fevereiro de 1972.


"Como se tratava de uma Companhia independente ficámos dependentes administrativa e operacionalmente ao BCAÇ 2885, sediado em Mansoa. Os Oficiais, Sargentos, Cabos e Soldados especialistas eram todos continentais. Os madeirenses, homens de comprovada bravura, eram aquilo que poderíamos chamar a carne para canhão. A verdade é que muitos deles foram feridos em combate mais de uma vez e nunca viraram a cara à luta. Verdadeiros heróis anónimos, embora alguns reconhecidos e louvados até pelo General e Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné.


"Perdemos três militares madeirenses, dois em combate quase no fim da comissão (o Vieira e o Barbosa) e um por acidente (o Silvestre). O soldado Malcata, oriundo do continente, morreu de doença. Perdemos também o Alferes Couto que, tendo como eu o Curso de Minas e Armadilhas, viu-lhe rebentar nas mãos uma mina antipessoal. (...)

"É com muita honra e a título de homenagem aos meus valorosos camaradas madeirenses da CART2732 e em particular ao meu 3º Pelotão que anexo duas fotografias [,  uma da minha Secção e outra do meu Pelotão]. (...)

"Refira-se que nesta altura - e só tínhamos 6 meses de comissão - já a Companhia se encontrava desfalcada. Já havia morrido o Alferes Couto e estava hospitalizado o Alferes Bento,  comandante do meu Pelotão, vítimas do mesmo incidente. (...)."

Nessa altura, a entrada de um novo camarada na nossa tertúlia era saudada com um simples olá, sem  mais paleio... Foi isso que eu fiz: "Amigos e camaradas de tertúlia: Abram aulas para receber mais um camarada da Guiné. Aqui vai o testemunho do Carlos Vinhal, ex-furriel miliciano da CART 2732 (Mansabá, 1970/72)"...

Estava longe de imaginar que ele ia ser o meu primeiro co-editor e o meu braço direito, absolutamente imprescindível, sem o qual o nosso blogue não teria tido a longevidade que já atingiu, perfazendo seis anos, daqui a menos de um mês, a 23 de Abril de 2010... (Naturalmente não posso esquecer o contributo fundamental da restante equipa editorial, que inclui o Eduardo Magalhães Ribeiro e o Virgínio Briote,  este em licença sabática).







Guiné > Região do Oio > Mansabá > CART 2732 ( 1970/72) > Estrada Mansambá-Farim >O Carlos Vinhal e o Sousa à sua esquerda, segurando uma mina anticarro detectada a tempo e levantada.


Foto: © Carlos Vinhal (2006). Direitos reservados


2. Só o ano passado, imaginem, é que eu descobri, por mero acaso, que o nosso querido co-editor Carlos Vinhal fazia anos a 27 de Março... Em 2008 ele pagou a respectiva jóia e entrou para o Clube dos Sexas (**)... Como continua com as quotas em dia, tem direito a comemoração especial... A série Parabéns a Você foi criada por mim, em 20 de Dezembro de 2007, para celebrar o 61º aniversário de outro dinossauro do nosso blogue, o Humberto Reis, o meu querido amigo e vizinho de Alfragide, e duplo camarada de Bambadinca (partilhámos o mesmo quarto e pertencíamos à mesma companhia independente, a CCAÇ 12)(***).

Esta série não teve continuidade em 2008 e foi preciso o génio organizativo do Carlos para, em 2009, passarmos a ter o champanhe pronto a saltar, sempre que se sabia de alguém que fazia anos... E com esta história toda já lá vão mais de 90 postes, os últimos dos quais dedicados ao Rui Silva e, ainda há minutos, ao Eduardo MR  (****)...

O Carlos tem sido, no desempenho desta tarefa, um verdadeiro gentleman, mais do que o mordomo da festa, o verdadeiro anfitrião da Tabanca Grande... É ele também quem, habitualmente, faz as honras à casa, acolhendo na Tabanca Grande os novos "amigos e camaradas da Guiné" ... Como só ele sabe fazer: com eficiência e discrição mas com sempre com acúçar e com afecto.

Devo dizer que, desde a primeira hora (Abril de 2006), ele interpretou muito bem, e interiorizou melhor ainda,  o espírito do blogue e o seu core business que não é discutir a guerra colonial, mas dar voz aos que a fizeram, de um lado e do outro.

Trabalhador incansável, o Carlos é a formiga bagabaga da nossa Tabanca Grande, fazendo um trabalho subterrâneo, muitas vezes  invisível mas absolutamente fundamental para a organização e funcionamento do nosso blogue (desde o expediente à gestão da nossa base de dados: nomes, emails, telefones, postos e unidades, datas de nascimento, etc.; desde a edição de inúmeras séries à organização dos nossos encontros anuais...).

Por tudo, o Carlos é merecedor da toda a minha estima, apreço, camaradagem e, desde que o conheço pessoalmente, amizade. Aconselho-me frequentemente com ele e ele comigo, quando surgem problemas delicados no blogue, que é preciso tratar com pinças e não com alicates... A sua formação e experiência em minas e armadilhas têm-me sido úteis, a mim e ao nosso blogue... Sou testemunha, por outro lado, do apuramento e refinamento da sua escrita... Todavia, tenho pena que ele, com toda a carga de trabalho diário a que está sujeito, acabe por não ter tempo e vagar para nos deliciar com mais textos seus sobre as suas emoções, vivências e factos da Guiné que ele conheceu.

Aproveito também para saudar a sua querida Dina, a bajuda com quem ele casou e é feliz há muitos anos... Telefono-lhes, com frequência, para casa, em Leça da Palmeira, e nunca, em vez nenhum, ouvi dela uma palavra de censura, queixa ou ressentimento pelo tempo que a gente acaba por roubar ao convívio do casal... Por outro lado, a Dina tem sido sempre uma entusiástica companheira e uma constante presença nos nossos convívios, desde a primeira hora...

Hoje, o nosso Carlos faz 62 anos. Ele merece tudo de bom na  vida, a começar pela manifestação da nossa estima, reconhecimento e agradecimento... Estou seguro de interpretar os sentimentos da generalidade dos amigos e camaradas da Guiné, reunidos debaixo do nosso poilão:  ele já tem um lugar muito especial neste espaço, talvez único (não me compete dizê-lo...), que temos vindo a construir na blogosfera...

Não tenho outra maneira de mostrar-lhe a minha gratidão, senão dizer-lhe tudo isto, em público, neste dia e neste lugar... Não vou repetir o que escrevi o ano passado, neste dia, e muito menos voltar a chamar-lhe "o rapaz de Leça [da Palmeira] que desmontava minas em Mansabá"...

Primeiro, ele já está há dois anos no Clube dos Sexas, e depois já foi promovido a general desta guerra que travamos todos os dias contra a ignorância, o cinismo,  o esquecimento, a indiferença de muitos dos nossos conterrâneos  em relação à guerra colonial e, quer queiramos quer não, contra o nosso próprio envelhecimento, a progressiva deterioração das nossas redes (neuronais, sociais...).

Também não vou repetir as quadras que lhe escrevi o ano passado... a não ser a última, que vou recitar-lhe, ao mesmo tempo que, simbolicamente, ergo a minha taça, em nome de toda a tabanca:

Viva a vida, viva o Norte,
Viva o nosso camarada,
Saúde e muita sorte,
Para o resto da caminhada.


____________

Notas de L.G.:

(*) 25 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLI: A madeirense CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

(**) 27 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4084: Parabéns a você (2): Carlos Vinhal, nosso co-editor, um rapaz de Leça, que desmontava minas em Mansabá (Luís Graça)

(***) 20 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2367: Parabéns a você (1): Humberto Reis, CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71): born in Portugal, December 19th, 1946 (Luís Graça)

(****) Vd. postes de:

25 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P6044: Parabéns a você (90): Rui Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 816 (Os Editores)

27 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P6055: Parabéns a você (91): Eduardo José Magalhães Ribeiro, ou simplesmente o ranger MR, ou apenas o Pira de Mansoa, nosso querido camarada, amigo e co-editor: faz hoje... 59 anos!

Guiné 63/74 - P6055: Parabéns a você (91): Eduardo José Magalhães Ribeiro, ou simplesmente o ranger MR, ou apenas o Pira de Mansoa, nosso querido camarada, amigo e co-editor: faz hoje... 58 anos!



Correio da Manha, revista "Domingo", série "A minha guerra" > 25 de Janeiro de 2009 > O Eduardo José Magalhães Ribeiro teve direito a título de caixa alta... Fur Mil Op Esp, CCS, BCAÇ 4612/74, teve o seu "momento de glória" no dia 9 de Setembro de 1974, em Mansoa,  onde arriou, com emoção e dignidade, a bandeira verde rubra, perante as autoridades portugueses e os novos senhores do território, o PAIGC, culminando assim o processo de transferência dos nossos aquartelamentos para o inimigo de ontem...  A recolha do depoimento é da autoria do jornalista Carlos Ferreira.







Guiné > Região do Oio > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 > Duas fotos para a história: O Fur Mil Op Esp  Ribeiro arriando a bandeira verde rubra; um guerrilheiro do PAIGC (ainda por identificar...) a hastear a nova bandeira da Guiné-Bissau... Esta terá sido a última cerimónia do arriar da bandeira portuguesa, no TO da Guiné, pelo menos com "honras de Estado", isto é, em cerimónia oficial, com altos representantes, de um lado e do outro... Diz-me o Eduardo que esteja prevista, inclusive, a presença do 'Nino' Vieira, anulada à última hora por razões (compreensíveis) de segurança.

Esta última foto aparece no Canal História, na série "Fotos com Historia", tendo já vista 7150 vezes:

El ondear de la primera bandera de Guinea-Bissau

Mansôa/Guinea
9 de septiembre de 1974
Eduardo Ribeiro
Porto,
Categoría: Guerra

Fotos: ©  Magalhães Ribeiro (2005). Direitos reservados



Guine-Bissau >Região do Oio > Mansoa > O Eduardo com um quadro do PAIGC. Foto do nosso co-editor, reproduzida no Correio da Manhã, edição supracitada. Posteriormente, o Eduardo disse-me que se tratava do comandante do bigrupo na região de Mansoa, de nome Antero Sá (a viver actualmente em Portugal).

Trata-se de um indivíduo mestiço, natural de Mansoa, que pertenceu às NT (exército, presumo), e que terá desertado para o PAIGC, na sequência de  um alegado e grave conflito com um superior hierárquico. O Eduardo conviveu com ele "ainda umas semanas"... Tornaram-se amigos: ambos eram "rangers", um do lado, outro do outro... O Eduardo, quando substituiu temporariamente o furril vague-mestre da CCS do BCAÇ 4612/7, chegou arranjar alguma comida e cigarros para os homens do bigrupo do comandante Sá...

Espero que o Eduardo aceite o meu convite para escrever sobre este período de sobreposição das duas forças, em Mansoa, nas últimas semanas antes da sua partida para a Metrópole... Ele tem mais umas dezenas  de fotos deste período de convívio com o inimigo de ontem, em Mansoa...


Excertos do depoimento do Eduardo Magalhães Rodrigues, publicada na edição do Correio da Manhã, revista "Domingo", série "A minha guerra", de 25 de Janeiro de 2009...





O Eduardo faz aqui referência ao comandante do bigrupo que actuava na região de Mansoa - Antero Sá ( a viver actualmente em Portugal), e ao Comandante Operacional na mesma zona - Manuel Nandinga... 

Fonte: Blogue Coisas do MR > 31 de Janeiro de 2009 > M52 - O autor em reportagem de Carlos Ferreira, do jornal Correio da Manhã, de 25 de Janeiro de 2009


Guiné > Região do Oio > Mansoa >  CCS/BCAÇ 2885 ( Mansoa, 1969/71) > Instalações militares...  Foto do nosso camarada César Dias, ex-Fur Mil Sapador...

Foto:  Blogue Coisas do MR (com a devida vénia...)

1. O Eduardo Magalhães Ribeiro (ou simplesmente, MR) é um sénior do nosso blogue, o que significa ter chegado antes de Junho de 2006... Eu já contei como foi:

" Fui hoje contactado, por telefone, por um ex-furriel miliciano, ranger, Eduardo Magalhães Ribeiro (que trabalha no Porto, na EDP) e que esteve na CCS do último batalhão da Guiné, em Mansoa (BCAÇ 4612)... Ele considera-se o mais periquito dos periquitos da Guiné: foi para a Guiné já depois do 25 de Abril em 'missão liquidatária'...

"Na realidade, tratava-se de fazer a entrega (simbólica) do território aos novos senhores da Guiné e, ao mesmo tempo, assegurar a retirada, ordeira, digna e segura, das últimas tropas portuguesas. Mansoa, em pleno coração do território, serviu perfeitamente para esse duplo propósito" (....).

E acrescentava: "Presumo que tenha sido uma experiência não menos dolorosa [do que a guerra, propriamente dita, ] para muitos jovens portugueses, numa época não isenta de riscos, tensões e contradições... Pessoalmente confesso que não gostaria de lá ter estado, fardado, no pós-25 de Abril de 1974... Fez-se história nesse dia já longínquo de 9 de Setembro de 1974" (*)...

Depois disso, e ainda na I Série do blogue, publiquei-lhe muitos dos seus versos, sob a série "Cancioneiro de Mansoa" (entretanto reunida no seu próprio blogue, sob a série "A minha poesia em África")... 

O Eduardo é um rapaz de múltiplos talentos, profissionais e extra-profissionais, saberes e lazeres, e que vão desde o gosto pela poesia popular até à prática de desportos radicais... Passou por Lamego, fez  o curso de Operações Especiais, e essa foi também um das experiências marcantes da sua vida, para além do 9 de Setembro, em Mansoa... Tem o culto, à outrance, da figura e da filosofia do ranger. Fora isso, trabalha no duro, na EDP, muitas vezes no "fundo" das nossas barragens hidroeléctricas... Este inverno, com tanta água, não o deixaram respirar à superfície...

E no meio de tudo isto, generoso, leal, dedicado,  o Eduardo ainda consegue arranjar um tempinho para editar e publicar os postes do nosso blogue que os leitores ou eu lhe vamos remetendo... Além de ir actualizando o seu blogue, Coisas do MR... Ainda há um bocado fui surpreendido por um dos poemas dele, Em fila indiana, no trilho de uma emboscada (... Merece uma visita e uma leitura atenta!).

É, desde Abril de 2009, co-editor do nosso blogue (**). Nessa altura as boas-vindas foram-lhe dadas pelo Carlos Vinhal:

"O Eduardo, desde o fim do mês de Abril, é co-editor do nosso Blogue. O eterno Pira de Mansoa é periquito na idade, na Guiné e no grupo dos editores. Temos que lhe arranjar um poleiro na Tabanca.
A sua colaboração vai ser muito importante, dada a necessidade que tínhamos de mais alguém para nos ajudar a levar a cabo este trabalho diário, muito desgastante" (...).


Há 35 anos atrás, ele estava mobilizado para a Guiné, estava em Tomar quando aconteceu o 25 de Abril,  que eu achou um oportuníssimo milagre... Mas mesmo assim não se livrou de "ir beber a água da bolanha"... Foi dos últimos a partir para (e a regressar de) a Guiné... Recentemente ele confidenciou-nos:

"O meu filho nasceu em 4 de Novembro de 1973, estava eu mais que mobilizado para a Guiné e recebendo notícias,  umas atrás das outras, das baixas que íamos sofrendo, aqui e ali. A angústia de deixar viúva a minha mulher era diária. A minha mulher ficou só e a criar o filho. Há realmente mulheres de guerra... Felizmente deu-se o 25A74, senão não sei se estaria aqui a teclar neste momento"...

Até agora o Eduardo é um caso único na nossa Tabanca Grande: se não erro, é mesmo o mais pira dos piras... Daí escrever, com toda a propriedade,. o nosso Carlos Vinhal (**): "Ainda não tínhamos um testemunho de alguém que, estando na Metrópole, já mobilizado, à espera de embarque para a Guiné, tivesse assistido ao 25 de Abril. O Eduardo deixa-nos aqui as suas impressões em cima do acontecimento, numa carta que enviou ao seu (nosso) camarada Marques, este sim em Mansoa, à espera de ser rendido" (...).


2. Não se surpreendam, por isso, meus amigos e camaradas da Guiné por o nosso pira de Mansoa ainda não entar, este ano, para o Clube dos Sexas... Estará à bica, a partir de hoje, dia em que faz 59 aninhos... Mesmo ficando ele, ainda,   de fora do Clube, a gente - os Sexas - vem cá, à rua, trazer-lhe o champanhe e o bolo, porque ele merece, é uma jóia de moço, como se dia cá terra dos mouros, e tem revelado uma grande maturidade e sensatez no trabalho como co-editor do nosso blogue, para além de dedicação, lealdade, generosidade e...sentido de humor (que eu também aprecio nele)...


Eduardo, estamos felizes por poderes estar entre nós. Contamos contigo, na terra, no mar ou no ar, e até mesmo quando estás, incomunicável,  no fundo das tuas barragens...  

Sabemos que esta chuva que nos persegue há meses, enchendo as tuas barragens, está-te a a dar cabo da mona, e deixar-te indeciso quanto a inscreveres antecipadamente para o nosso V Encontro Nacional, em Monte Real, em 26 de Junho... E se vier o dilúvio, perguntas tu ? 

"(...) Só nos princípios de Junho poderei inscrever-me, pois detesto inscrever-me no que quer que seja e depois desistir.

"Como podeis adivinhar, trabalhando eu na manutenção dos grupos geradores das grandes e pequenas barragens nacionais, com esta chuvinha toda que tem caído é um ver se te avias, a produzir energia 24horas/dia, e a rebentarem-me com as  minhas/nossas/vossas, maquinazinhas geradoras.

"Assim, trabalho não me falta, a mim,  e a quatro  stressados engenheiros, que me acompanham neste indispensável e útil trabalhinho.

"Resumindo o paleómetro a poucas palavras, logo que tiver a certeza que estou livre nesse dia,  faço a minha marcação atempada,  ok!? Um abraço Amigo do MR".

... E, imaginem, manda-nas três postais ilustrados das estâncias turísticas por onde tem andado, desenfiado, este inverno: as barragens do Aguieira, Alto Lindoso e Pocinho... Hoje, dia em que deves ser tu a receber prendas, és tu a dá-las a todos nós... Mais uma vez, e como sempre, és um homem generoso e bom. Que tenhas um grande dia junto da tua mulher, filho e restante família. Um grande Alfa Bravo do Luís, do Carlos (também aniversariante) e do Virgínio, em nosso nome e em nome dos mais de 400 tabanqueiros, que te estimam, acarinham e mandam muitos parabéns.


Barragem da Aguieira, no Rio Mondego


Barragem do Alto Lindoso, no rio Lima


Barragem do Pocinho, no rio Douro

Fotos: ©  Magalhães Ribeiro (2010). Direitos reservados
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sexta-feira, 26 de Março de 2010

Guiné 63/74 - P6054: Controvérsias (68): Preciso de entender coisas que não alcanço (Hélder Sousa)

1. Mensagem de Hélder Sousa (ex-Fur Mil de TRMS TSF, Piche e Bissau, 1970/72), com data de 23 de Março de 2010:

Caros Editor e Co-Editores
Envio-vos este pequeno texto, fruto de algumas reflexões que tenho vindo a fazer, face a vários comentários que vão surgindo no Blogue a pretexto dos trabalhos do Beja Santos e que, como é natural, têm toda a liberdade para utilizar, caso achem que possa ter cabimento.

Devo dizer, para que não hajam equívocos, que não concordo com tudo o que ele apresenta, com as suas observações ou conclusões. Mas, é claro, respeito "as suas opiniões", concedendo-me a mim o direito a ter as minhas e como não entendo o nosso Blogue como sendo um espaço de discussão literária, daí que opte por receber a apreciação, tomar boa nota do que ele entende e apenas isso, deixando para outro espaço a eventual discussão que possa ter lugar.

Um grande abraço para toda a 'Tabanca'
Hélder Sousa


AJUDEM-ME A PERCEBER

Caros camaradas, amigos e outros

Preciso da vossa ajuda!


Preciso de entender coisas que não alcanço com o meu pouco discernimento e tenho esperanças que me possam valer.

Isto vem ao caso motivado pelo seguinte:

O nosso camarada Beja Santos tem vindo sistematicamente a dar conta da tarefa de ler ou apreciar vários livros, de várias proveniências, de várias ‘sensibilidades’ de vários estilos e a transmitir as suas observações e opiniões para publicação no nosso Blogue. O traço comum aos diversos livros é, como não podia deixar de ser, a Guiné, a problemática da guerra que foi nossa contemporânea, situações várias que estão sempre relacionadas com o mesmo tema, em relatos históricos, em romances, em poesia, etc.

Por diversos comentários que são colocados nos ‘postes’ das suas apresentações e que tenho lido, dá-me às vezes a impressão que ‘essa’ guerra ainda não acabou, tal o empolgamento com que alguns camaradas se referem a situações passadas e até pretendem que o que se passou não se devia ter passado assim, mas sim como entendem (e aqui não faço juízos de valor, apenas quero salientar o absurdo da situação) que se deveria ter passado…

As opiniões do Beja Santos são isso mesmo, as opiniões do Beja Santos e, por isso, fico perplexo e tenho dificuldade em entender, daí necessitar da vossa ajuda, as por vezes ferozes e violentas críticas que lhe são feitas.

Será que não é uma coisa boa haver quem leia um livro sobre um tema que nos é caro e que apresente as suas conclusões?

Será que o Beja Santos pode ter a sua opinião e pode exprimi-la ou terá que pesar o que os ‘bernardos’ gostariam que ele pensasse e exprimisse esses seus (deles) pensamentos?

Por mim, porque não tenho a capacidade de ler ao ritmo alucinante com que ele o faz, fico agradecido que alguém tenha esse trabalho. Que leia, que interprete, que resuma, que dê o sentido DA SUA OPINIÃO…

Então eu, depois, por mim, tendo por base o que ele relata do ‘miolo’, do tema, da trama, do livro, se tiver tempo e oportunidade, irei lê-lo e formar A MINHA PRÓPRIA OPINIÃO.

Será que farei bem? Será que isto é correcto?

Um abraço para toda a Tabanca!
Hélder Sousa
Fur Mil Transmissões TSF
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 9 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P5961: A Guiné aos olhos das actuais gerações (1): Marta Ceitil, cooperante na área da Formação (Hélder Sousa)

Vd. último poste da série de 19 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5841: Controvérsias (67): Como diria o meu avô Samuel, há orações que os lábios murmuram, mas o coração não sente (Carlos Schwarz)

Guiné 63/74 - P6053: Agenda cultural (68): Museu Militar, Lisboa, 15 de Abril, 18h: Lançamento do livro do Amadu Djaló, Guineense, comando, português


1. Convite que nos chega através do Virgínio Briote (*):

A Associação de Comandos tem o prazer de convidar os membros da nossa Tabanca Grande e os demais leitores do nosso blogue para o lançamento da obra:


Guineense, Comando, Português:
1º volume:
Comandos Africanos, 1964-1974


Autor: Amadú Bailo Djaló (*)

Local: Caves Manuelinas, Museu Militar, 
Rua Museu da Artilharia - Lisboa (junto a Santa Apolónia)

Data e hora: 15 de Abril, 18H00.

A obra será apresentada pelo Dr. Nuno Rogeiro, jornalista,  e  pelo Cor Inf Ref Manuel Bernardo,  sendo também interveniente no acto o Coronel Comando Ref Raúl Folques.

Associação de Comandos
Avenida Duque de Ávila, 124, 4º Esq
1050-084 LISBOA
assoc.cmds@mail.telepac.pt 

(Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, terá de activar o Javascript para o visualizar)

Telef. 213 538 373 / 213 570 051 / Horário: 2ª a 6ª Feira: 09:30-12:30 e 14:30-19:00
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Guiné 63/74 - P6052: Notas de leitura (82): Império, Nação, Revolução de Riccardo Marchi (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Março de 2010:

Queridos amigos,
Não se pode ignorar que a literatura dos combatentes teve uma perspectiva da direita radical, toda ela convergente para a defesa do Império.
Há uma antologia poética publicada ao tempo em que se realizou o 1.º Congresso dos Combatentes, realizado em 1973, altamente polémico e contestado.
Irei preparar um comentário sobre esta poesia e envio-vos, a pretexto de um livro extremamente útil para a compreensão deste fenómeno que saiu há pouco tempo.
Creio que será um bom pano de fundo para a compreensão dos tertulianos.

Um abraço do
Mário


As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo

Beja Santos

O Estado Novo de Salazar e Caetano conhece na década de 60 uma evolução tumultuosa, decorrente das eleições de 1958, da contestação do colonialismo à esfera internacional e nacional, da reorganização das oposições, da movimentação estudantil das várias famílias da esquerda, de um processo de desenvolvimento que vai afastando progressivamente o regime dos diferentes ideários a que se propusera dos anos 30 em diante. No fundo, uma mudança dramática da modernização da economia e da sociedade e a escalada das frentes africanas que foram erodindo o regime, lançando-o no ocaso. “Império, Nação, Revolução, As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1959-1974) ” é um livro precioso – pelo rigor e abrangência – para compreender o comportamento da extrema-direita mais ou menos neofascista, em Portugal, quais as suas forças motrizes ideológicas, as suas motivações imperiais, quais as suas relações com as estruturas do mando ao tempo de Salazar e Caetano (por Riccardo Marchi, Texto Editores, 2009).

A primeira manifestação estudada pelo investigador é a revista Tempo Presente, impulsionada por discípulos de Alfredo Pimenta, um intelectual de referência dos neofascistas (Pimenta tem uma esclarecedora correspondência trocada com Salazar, que permite perceber como o ditador era muito sensível às suas mensagens). Intelectuais da direita radical como Amândio César, António José de Brito, Fernando Guedes, Couto Viana e Goulart Nogueira convergem para o projecto da revista Tempo Presente. O regime, através do SNI, irá financiar a revista. A publicação revelará qualidade, pauta-se pelos ideais nacionalistas, entrará mesmo nalguma colisão com os sustentáculos do regime que, no Verão de 1961, levarão à sua extinção. A Tempo Presente era uma publicação cultural com uma relativa abertura: revelou o abstraccionismo geométrico do pintor Fernando Lanhas, a poesia experimental, as vanguardas poéticas anglo-saxónicas, do mesmo modo que retomou os mitos do fascismo como Ezra Pound ou Drieu La Rochelle e Robert Brasillach. Não se escondia a defesa do Estado totalitário, o corporativismo e fazia-se a contestação política do que se passava na Europa do pós-guerra, advogando-se um nacionalismo de carácter universalista como se supunha ser o português, denominado a Euráfrica. A Europa é que estava em crise, a sua raça branca perdera o sentido de missão.

A questão colonial irá envolver a Tempo Presente, os seus editores irão apoiar as decisões de Salazar, no início de 1961. A revista participa em vários eventos e entrará em polémicas com os meios monárquicos e com ortodoxia do regime. Alguns destes nacionalistas radicais, como António José de Brito, revelam-se teóricos verrinosos, alertam para os perigos que assediam o catolicismo, o personalismo cristão, a abertura democrática, a tolerância liberal. Brito irá revelar-se indiscutivelmente um teórico com produção autónoma em torno do nacionalismo, definindo-o sem hesitar como antiliberal, antidemocrático, anti-partidário, adepto da homogeneidade racial e anti-semita. Assim, vai-se caminhando para o conceito imperial que é o suporte do Portugal do Minho a Timor.
Importância menor teve a criação do Centro de Estudos Alfredo Pimenta, fundado em 1972. Para ele convergem figuras da outra geração como João Ameal e Amândio César, António José de Brito, Fernando Guedes, entre outros. É uma referência para o meio neofascista, nele irão intervir figuras como David Gagean, Manuel Múrias, Artur Anselmo, colaboracionistas fascistas franceses, entre outros.

O Movimento Jovem Portugal marca, no início dos anos 60, a ascensão de um nacionalismo revolucionário desta nova geração, liderado por Zarco Moniz Ferreira. Os promotores deste Movimento atacam as Nações Unidas e a sua política de descolonização, criam a revista Ofensiva (sempre com ligações ao neofascismo europeu), recebem apoios da Legião Portuguesa e de altos dirigentes da PIDE, Zarco vive constantemente em fricções com os outros elementos da direcção. Aparece depois uma outra publicação, Ataque, que não terá projecção, e o movimento envolve-se em contenda com os grupos de esquerda em meios universitários, assaltando mesmo a Sociedade Portuguesa de Escritores, depois da atribuição de um prémio a Luandino Vieira. Os problemas do Jovem Portugal serão infindáveis, até porque Zarco vai propor o Nacional-Sindicalismo (cópia das doutrinas de Primo de Rivera) como a única oportunidade face ao marxismo e ao capitalismo. O que na verdade se estava a passar era os neofascistas sentirem a abertura do regime de Salazar ao capitalismo internacional como tentativa de modernização, o que eles consideravam intolerável. Mais próximo do regime estava a FEN – Frente dos Estudantes Nacionalistas, que também teve uma história curta e que implodiu por incapacidade de diálogo entre as suas facções. O regime queria organizações nacionalistas respeitáveis susceptíveis de atrair a massa estudantil apolítica e à PIDE interessava uma organização operativa até com capacidade para recolher informações no ambiente estudantil. Outra organização que surgiu ao tempo das lutas emancipalistas em Angola foi o Jovem Europa, copiado de uma experiência belga e que constituía numa proposta de um nacionalismo revolucionário europeu capaz de conter as superpotências instaladas no Continente. Todos estes grupos tiveram más relações entre si, agrediam-se nas suas publicações e nunca foram capazes de estabelecer em concreto uma plataforma ideológica.

Coimbra constituiu um caso aparte no fenómeno nacional-revolucionário. É no meio académico que nasce a revista Combate a que está ligado Valle de Figueiredo, nome importante do neofascismo português, colaborador das revistas 57, Cidadela e Itinerário, esta, dirigida, entre outros, por João Conde Veiga, autor de uma poesia importante para estes neofascistas:

Não fugi à guerra, não fui para Paris,
Não fugi da terra, não traí o povo, ´
Eu fui ao combate debaixo do sol
E voltei de novo

Posso aquecer-me com o sol mais quente,
Que me enche as veias, vinho de raiz,
Não se vai à guerra e volta de novo
Sem se sentir dentro a voz do país.

Riccardo Marchi explica detalhadamente toda a luta do movimento associativo coimbrão, nas diferentes fases da crise académica, e revertendo sempre para a noção de Império, questão central destes movimentos neofascistas.

Após identificar um conjunto de organizações menores da direita radical, o autor detém-se no semanário Agora, igualmente subsidiado pelas forças do regime. O anti-semitismo e o antiamericanismo vão ser duas constantes do jornal, várias vezes suspenso pela censura, Salazar não aceitava este excesso de críticas. Em Coimbra, os neofascistas ganham novo alento com o aparecimento de dirigentes mais jovens como José Miguel Júdice, Cruz Vilaça e Lucas Pires. Igualmente a vida deste movimento é pormenorizada tal como a revista Cidadela e o Centro de Estudos Sociais Vector, este de âmbito mais alargado e com sede em Lisboa. No fim da década de 60 surge a revista Política cujo director será Jaime Nogueira Pinto, sempre com apoios do regime (por exemplo, assinaturas feitas pela PIDE/DGS). “Política” procura um grande arco político do nacionalismo português, apresenta-se como uma frente nacional fiel ao Ultramar, contestará a tendência liberal de Caetano e os seus projectos da reorganização ultramarina, com certa tinta emancipadora. Com tónica menor, o autor regista ainda como expressões das direitas radicais o Movimento Vanguardista e o periódico Vanguarda (financiados pela PIDE) e finalmente o I Congresso dos Combatentes, a última batalha dos nacionais-revolucionários.

Este valioso estudo de Riccardo Marchi permite captar em cheio o que foram as minorias em que se organizaram as direitas radicais e como, de um modo geral, estabeleceram um relacionamento equivoco com os regimes de Salazar e Caetano. Tiveram poucos ideólogos de grande mérito, a sua grande maioria desapareceu ou está agora inactiva. Na ribalta, devidamente reciclados, estão José Miguel Júdice e Jaime Nogueira Pinto. O que os uniu sempre foi um princípio intransigente, o de nunca querer sacrificar o Império, espírito e forma do “Portugal eterno”.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 21 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P6035: Notas de leitura (81): O Pé na Paisagem, de Filipe Leandro Martins (Beja Santos)

Guiné 63/74 – P6051: Agenda Cultural (67): Conferência «Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização»,15/16/Abril, ISCTE-IUL (Joacine Moreira)

1. Com data de 24 de Março de 2010, recebemos de Joacine Katar Moreira o seguinte pedido de divulgação, sobre a Conferência «Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização», que vai decorrer nos próximos dias 15 e 16 de Abril, no ISCTE-IUL, Auditório B 203 – Edifício II -, em Lisboa:

Caros Senhores,

Agradecemos a divulgação do colóquio Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização, a realizar no ISCTE-IUL nos próximos dias 15 e 16 de Abril de 2010, no Anfiteatro B203.

Em relevo a presença do historiador francês René Pelissier que após duas décadas regressa a Portugal pela mão desta organização. O colóquio contará com a presença de diversos especialistas e testemunhos do período em análise.

Enviamos em anexo o Programa e o Cartaz do Colóquio.

Para as inscrições, utilizar o e-mail: joacine.moreira@gmail.com


P´la Organização,
Joacine Katar Moreira
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

13 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P5989: Agenda Cultural (66): Homenagem aos ex-combatentes da Guerra Colonial do Concelho de Moura, dia 10 de Abril (Francisco Godinho)

quinta-feira, 25 de Março de 2010

Guiné 63/74 - P6050: O grave incidente, com repercussões no Conselho de Segurança da ONU, provocado pela incursão no Senegal da pequena força portuguesa comandada pelo Cap Cav Alves Boltelho (Esq Rec Fox 3431), em 12/10/1972


Guiné > Zona Leste > Galomaro > CCS do BCAÇ 3872 (1972/74) > Chaimites durante uma visita do General Spínola... Data provável: início de 1973... Estas viaturas blindadas pertenciam ao Esq Rec Fox, com sede em Bafatá...  Quem sabe se alguma delas não terá estado envolvida no incidente, na região fronteiriça de Pirada,  que levou à desgraça do Cap Cav Alves Botelho...  As autoridades militares portuguesas tentaram, publicamente, branquear o caso, remetendo a explicação para o insólito comportamento do oficial de cavalaria para  um "caso de perturbação mental" (sic)...

Já aqui reproduzimos  excertos do depoimento do Sérgio Marques, que foi testemunha do acontecimento, em reportagem publicada no Correio da Manhã,  revista "Domingo", na conhecida série "A Minha Guerra"  (*):

(...) Foi uma tarde louca, aquela de [12 ] Outubro de 1972, em Pirada, no Leste da Guiné, na fronteira com o Senegal. Eu integrava um pelotão de reconhecimento composto por duas viaturas blindadas, uma ‘White’ e uma ‘Chaimite’, que fazia escolta ao comandante do Batalhão de Caçadores (BCAÇ) 3884, a Uacaba, Mafanco, Sonaco, Paúnca e Pirada.  A certa altura, no intervalo de uma reunião de oficiais, o nosso comandante, o capitão de Cavalaria Manuel Eduardo Alves Botelho, diz: 'Venham comigo, vamos dar uma volta!' Fomos, éramos uma dezena de homens.


"Passámos a fronteira e penetrámos quatro ou cinco quilómetros no Senegal. Nenhum de nós adivinhava a intenção do capitão, que continuava entusiasmado a conduzir-nos por território estrangeiro adentro. A certa altura, avistámos um acampamento militar de senegaleses [, em Niano] . A ‘White’ foi obrigada a interromper a marcha, por causa das valas feitas pelos militares estrangeiros, mas a ‘Chaimite’, que tudo passa, entrou no acampamento" (...).

Foto: ©  Juvenal Amado (2008). Direitos reservados


1. Em relação ao "incidente fronteiriço" provocado, em 12 de Outubro de 1972,  pelo primeiro comandante do Esq Rec Fox 3431 (Bafatá, 1972/74), o Cap Cav Alves Botelho, já aqui referido em postes anteriores (*), veja-se algumas das repercussões que teve a nível diplomático e militar: (i) apresentação de queixa do Senegal na ONU; (ii) condenação de Portugal no Conselho de Segurança da ONU; (ii)  pedido de desculpas ao Senegal  por parte do Com-Chefe Gen Spínola e oferta de indemnização às vítimas;  (iii) prisão imediata do ofiicial português e seu posterior julgamento em tribunal militar e sua muito provável expulsão do exército, se não fora o golpe militar de 25 de Abril de 1974...


"Em relação ao Senegal, Portugal continuou[, em 1972] empenhado em manter um canal de comunicação  confidencial com Senghor, pois era um meio seguro e secreto de chegar ao PAIGC.

"Em Março realizaram-se contactos bilaterais entrre delegações dos dois países para a criação de uma comissão mista que controlasse a fronteira comum, mas esta não chegou a concretizar-se porque o Senegal queria estabelecer uma relação directa entre a segurança e a perpectiva de uma paz duradora para o confllito da Guiné-Bissau, com a participação do PAIGC. Para o discutir, Spínola e Senghor chegaram a encontrar-se dois meses mais tarde.

Mas a recusa do Governo português em modificar o estatuto do território levou a um aumento da actividade militar que, por sua vez, resultou  numa incursão das forças portuguesas ao posto senegalês de Niano, a 12 de Outubro [de 1972].

Este facto provocou um protesto de Dacar no Conselho  de Segurança, o qual condenou Portugal por não respeitar nem a integridade do Senegal, nem os  países vizinhos das suas colónias. A resolução obteve 12 votos a favor e três abstenções, dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Bélgica."

A 15 de Outubro de 1972, o jornal Le Monde, editado em Paris, publica excertos de um comunicado do Comando-Chefe das Forças Armadas Portugueses, no TO da Guiné, Gen Spínola, "apresentando as suas desculpas ao Senegal depois de um incidente de fronteira" (sic).(**)

"Le  12 octobre, dit le communiqué, une unité de l'armée portuguaise composé de trois véhicules blindés a violé la fontière du Sénegal, dans la région de Pirada, causant un morte  et un blessé dans un détachement  de l'armée du Sénegal et provocant égalemet la morte d'un civil portugais.

"Le commandement en chefe des forces armées de Guiné déplore profondément ce qui est arrivé, et a adressé un constat du délit au commandant de cette unité en vue de le traduire ultérieurement  devant um conseil de guerra. On suppose qu'il s'agit d'un cas de perturbation mentale du commandant de cette unité, étant donné qu'il  a agi em dehors de sa zone d'action et contre toutes les directives supérieures.

"Le commandement en chef est entré immédiatement en contact ave c les autorités sénégalaises afind e leur présentar ses excuses et de les assurer que toutes les indemnisations seront payées comme cela est juste". (***)

O jornal acrescentava que o Senegal, país francófono, como se sabe, tinha apresentado queixa contra Portugal à ONU na sequência deste incidente fronteiriço, e que no passado estas incursões em território senegalês eram frequentes, com os portugueses a invocar a legítima defesa ou o direito de perseguir os nacionalistas do PAIGC, acoitados no país vizinho...

A propósito do importante depoimento do nosso camarada Sérgio Marques [dos Santos], gostaríamos de o poder contactar e confirmar a sua versão. Sabemos que ele é (ou era) taxista da praça do Porto e que, em 2007, o seu telemóvel era o 914 181 777. Talvez alguém da Tabanca de Matosinhos o possa contactar e falar com ele pessoalmente...para tentar saber mais pormenores desta estranha história... Fica desde já feito o convite para ele ingressar na nossa Tabanca Grande: se ele aceitar, será o primeiro camarada do Esq Rec Fox 3431 (Bafatá, 1972/74) a pertencer ao nosso blogue...

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Notas de L.G.:


(*) Vd. último poste, 23 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P6039: (Ex)citações (53): O desvario de um capitão de cavalaria, que matou a tiro um militar e um civil, no Senegal, e que apanhou 12 meses de presídio militar (Carlos Cordeiro)


(**) Extractos de: Sanchez Cervelló, Joseph [ foto à esquerda,]: 1972: Da reeleição de Américo Tomás a Wiriyamu.

In:  GOMES, Carlos Matos, e  AFONSO, Aniceto - Os anos da guerra: volume 13: 1972:  negar uma solução política para a guerra. QuidNovi: Matosinhos. 2009. pp. 95-96.



(***) Tradução de L.G.:

(...) "Em 12 de Outubro, diz o comunicado, uma unidade do exército português, composta por três veículos blindados,  violou a  fronteira do Senegal,  na região de Pirada, causando um morto e um ferido num destacamento do exército do Senegal  e provocando igualmente um  morto civil português.

" O comando das forças armadas da Guiné lamenta profundamente o que aconteceu e enviou uma cópia do auto de corpo de delito levantado  ao comandante desta unidade que deverá ser presente a tribunal de guerra. Presume-se que se trata de um caso de perturbação mental , por parte do comandante da unidade, uma vez que agiu fora de sua área de ação e contra todas as ordens superiores.

"O comando-chefe entrou imediatamente em contaco com as autoridades senegalesas a fim de les apresentar o seu pedido de desculpas e garantir que todas as indemnizações serão pagas como de direito ".  (...)

Guiné 63/74 - P6049: Contraponto (Alberto Branquinho) (7): Macaco fidalgo, inimigo?

1. Mensagem de Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 21 de Março de 2010:

Caro Carlos Vinhal
Junto vai um texto (Contraponto 7) que fala de um macaco fidalgo que não era vermelho como os que, no Blogue; têm sido referidos como habitantes da área do Cantanhez.

Um abraço do
Alberto Branquinho



CONTRAPONTO (7)

Macaco fidalgo – inimigo?


O itinerário estava picado e a tropa já há muito estava instalada de um lado e do outro, fazendo a segurança à movimentação das viaturas para abastecimento de um quartel do Batalhão.

A coluna auto nunca mais passava e seriam necessárias duas ou três viagens de carga e descarga. Mas nem se ouviam, ainda, os motores ao longe.

O cabo Garcia estava a acomodar-se melhor, deitado sobre o peito dentro da cavidade do tronco do poilão, a ajeitar a G3 para ficar mais confortável, quando apareceu aquela sombra a descer, a descer no meio da folhagem. E, de repente, surgiu a cabeça, que parou a olhar para ele com aqueles olhos redondos e vivos, quase metálicos. Sentiu-se como que trespassado de um lado ao outro da cabeça. Estaria aí a uns oito, dez metros. Ficaram muito tempo a olhar-se. O macaco fidalgo estava assente nas patas dianteiras, de cabeça para baixo e com a longa cauda enrolada num ramo mais alto. O cabo ficou com a arma aperrada, embora de lado, com a culatra debaixo do ombro direito.

O macaco fidalgo desceu as patas traseiras e ficou mais visível. Curioso, aumentou a intensidade do olhar, visando, agora, o cabo bem de frente.

O cabo soergueu-se, incomodado com o olhar do macaco e, segurando a arma com a mão esquerda, fez, com a direita, o gesto para se afastar, dizendo em surdina: “ Vai embora!”

O macaco movimentou-se lentamente, colocou-se quase de cócoras num ramo, com o rabo pendente, olhando-o sempre. O cabo entreviu no focinho do bicho um ar inquiridor, de cabeça atirada para a frente, com um olhar de raios-x, que o incomodava. Exasperado, fez-lhe, por duas vezes, sinal para que se afastasse.

O soldado que estava instalado do lado esquerdo do poilão, que não se apercebera da situação, notou, então, o que se estava a passar.

O macaco avançou um pouco nos ramos, sempre a olhar o cabo. Este sentiu que o macaco tomava uma atitude sarcástica ou de desprezo, que o irritou ainda mais: “Está a gozar comigo” - pensou. Apontou-lhe a arma e o macaco ergueu-se nas patas traseiras, parecendo ao cabo que ele estava com ares de superioridade. Baixou a arma e o macaco baixou as patas superiores, olhou para os lados e fixou, de novo, o cabo.

Voltou a fazer-lhe sinal para ir embora. O macaco pareceu, finalmente, entender. Rodou a parte dianteira do corpo, parecendo ir afastar-se, mas, num repente, saltou de ramo em ramo e ficou no chão, a quatro patas, com a cauda toda erguida, de frente para o cabo, que sentiu, de novo, um olhar de desprezo e superioridade. Sentiu um arrepio na espinha e ficou entre medo e raiva. Depois de um instante parado, o macaco girou sobre si mesmo dando pequenos saltos, postando-se, depois, bem de frente para o cabo. Com a cauda ainda erguida, dava mostras de ir caminhar na sua direcção. Abriu a boca, com aspecto agressivo, mostrando os pequenos dentes. Pareceu ao cabo que se preparava para saltar na sua direcção. Com dois tiros secos atingiu-o em cheio e caiu morto.

Imediatamente rebentou tiroteio de um lado e do outro da estrada. O cabo levantou-se e desatou a berrar para a direita e para a esquerda: “Pára!!! Pára!!! Pára fogo!!!”

O fogo demorou a suster-se.

Chegou o alferes:

- Que é que se passou?

- Foi o Garcia que matou um macaco.

- Ó sua besta! Fazer fogo aqui por causa de um macaco?!

- Ó meu alferes, parecia que era um gajo… deles.
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Nota de CV:

Vd. último poste de 23 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5873: Contraponto (Alberto Branquinho) (6): (Especial) Os seis anos do Blogue

Guiné 63/74 - P6048: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (23): Diário da ida à Guiné - 03/03/2010 - dia zero

1. Mensagem de Fernando Gouveia (ex-Alf Mil Rec e Inf, Bafatá, 1968/70), chegado recentemente de uma visita à Guiné, com data de 23 de Março de 2010:

Caro Carlos Vinhal
Caro Luís Graça
Camaradas:

Cheguei da Guiné-Bissau há quatro dias e só agora estou em condições de dar notícias devido ao cansaço do dia a dia frenético, lá vivido.
Fui com oito dias “na bagagem” mas acabei por estar lá quinze… Se não fosse por ter cá assuntos para resolver, inadiáveis, ficaria um mês ou mais… Achei tudo fantástico, principalmente asgentes, mas também os locais, só agora possíveis de visitar. O clima é o que se sabe, apanha um camarada.

Tenho que dizer que todo o prazer que senti nesta viagem (e foi muito, até às lágrimas) o devo:

1.º - Ao ter ouvido, há cerca de um ano, numa entrevista, o Beja Santos referir o Blog do Luís Graça.

2.º - Serem o Blog, o Luís Graça e os editores o que são.

3.º - Ao telefonema do António Pimentel, sensibilizado com as primeiras estórias que mandei para o Blog e ao convite para aparecer na tabanca de Matosinhos às Quartas-feiras.

4.º - Aos camaradas que me deram apoio na Guiné-Bissau: Pimentel, Mesquita, Pires e o seu filho que carregaram as minhas malas por causa da minha coluna, e sobretudo ao Chico Allen que me aturou (e eu a ele claro) principalmente na última semana, a viver sozinhos no Anura Club, meio abandonado.

5.º - À excepcional afabilidade do povo guineense.

Fui encontrar uma Guiné que pouco tem a ver com a que conheci há quarenta anos embora a minha definição seja a de um país100% surrealista e em certos aspectos, de faz de conta. Como podem imaginar, tenho estórias para contar do “arco da velha”.

Penso contá-las ao longo do relato diário (quinze episódios), se os chefes de tabanca mo permitirem.

A par desse diário, que o Carlos postará com a periodicidade que entender, tenho também uma outra estória baseada em factos reais passados na Guiné-Bissau e não só, que por envolver pessoas reais terá de ser ficcionada. Será contada por capítulos. A minha ideia é, logo que possa, começar a mandá-la independentemente do “diário dos quinze dias”

Esta nova estória, ou mais precisamente seriado, terá o título: NA KONTRA KA KONTRA

Apesar de pensar vertê-la para crioulo, mais tarde, irá, por facilidade minha, ser escrita em português e neste caso o título traduzido será: ENCONTROS E DESENCONTROS

Já mostrei a maqueta a pessoas entendidas e tive opiniões muito favoráveis.

Hoje segue apenas, em anexo, o relato do dia zero (03-03-2010 Quarta-feira – Viagem Porto Lisboa Bissau).

Brevemente mandarei o 1.º capítulo de: NA KONTRA KA KONTRA

Abraços para todos.
Fernando Gouveia


A GUERRA VISTA DE BÁFATA - 23

Diário da ida à Guiné – Dia zero (03-03-2010)

(Este relato do dia zero foi escrito no avião e em papel de jornal)


Dia da viagem para a Guiné-Bissau. Até as 21h e 30m, início do voo de Lisboa para Bissau, nada aconteceu que mexesse comigo. No aeroporto do Porto, e contrariamente ao de Lisboa, tive a oportunidade de ter um PC à disposição para navegar um pouco na NET. Consultei então uma última vez a minha caixa de correio, onde tinha um e-mail do camarada Albano Costa a tecer algumas considerações agradáveis sobre viagem que ia iniciar, inserindo três fotos de Báfata.

Como ia dizendo, ainda nada tinha mexido comigo até ao anúncio de que os estrangeiros tinham que preencher uma ficha para entregar no desembarque. Já muitas vezes tive que fazer isso quando das minhas viagens de férias para certos países, mas agora para a Guiné… só ao fim de alguns segundos é que tive consciência da realidade que acabava de se me deparar… eu era um estrangeiro.

Já em estória anterior referi que o povo da Guiné-Bissau, por força da Globalização, aspira hoje em dia a bens que o Global não lhes pode dar. Ao meu lado vai um guineense que, segundo ele, tem trabalhado em Portugal, mas regressava por causa da falta de trabalho. Tive que o ajudar a preencher a dita ficha, mas o que realmente quero dizer é que quando anunciaram que se tinham que desligar os telemóveis, ele começou a ficar atrapalhado pois não sabia como se desligava um dos dois que levava. Teve que ser uma hospedeira a fazê-lo...! Perguntando-lhe se há muito tempo não vinha à Guiné a resposta foi que a última vez tinha sido há quinze dias…!

Espero que o residente Chico Allen e os viajantes por terra, Figueiredo, Pires, etc. estejam à minha espera no aeroporto. O Allen disse-me que nem sempre há táxis para ir para Bissau e que o normal é uma pessoa pedir boleia a alguém. O avião chega à uma e meia da manhã e em Bissau, como é sabido, não há energia eléctrica pública. É a escuridão total a essa hora…

Também me disse que possivelmente teria que ir ao aeroporto pois no mesmo avião iam duas ou três pessoas suas conhecidas. Já consegui contactar duas mas não contam que ele as vá esperar.

Segundo o LCD informativo estamos a uma hora e meia de Bissau, com vento pela frente a rondar os 120 Km por hora (atraso, pela certa). Devemos estar a atravessar o Sara na vertical da Mauritânia. Tenho muita pena que seja noite. Nas três viagens que fiz (de dia) há quarenta anos, em plena era Salazarista, o avião não podia sobrevoar os países africanos vindo sempre a sobrevoar o mar junto à costa pelo que só se vislumbravam as bordas do deserto.

O LCD mostra agora o avião numa posição enviesada por força do vento meio lateral. Apesar de não apontar o nariz para Bissau acredito piamente que lá chegará embora não pelo Norte, mas por Noroeste ou Nordeste.

O meu companheiro de viagem, Djau ( soube o seu nome ao preencher-lhe a ficha), acabou de me explicar como posso por o meu telemóvel desbloqueado, a funcionar numa das duas redes de lá: Por cerca de 500 francos CFA (moeda comunitária de alguns países da África Ocidental sendo um euro = 660 francos CFA) compro um cartão da rede que escolher (MTN ou Orange) e um outro cartão, de recarga, com o valor de chamadas que entender e onde, com uma raspadinha, fico a saber o PIN para aceder à rede.

Disse-me ainda que por lá há Máquinas Multibanco, nomeadamente uma em Báfata, junto da casa onde morei. Tudo isto que venho referindo poderá ser útil a outros camaradas que futuramente venham à Guiné-Bissau..

Bissau já aparece no LCD informativo. Falta cerca de meia hora para, ao sair do avião, sentir aquele cheiro de há quarenta anos.

Por agora termino e francamente não sei se enquanto estiver na Guiné-Bissau conseguirei arranjar tempo para escrever o que quer que seja. Mais tarde, as fotos e os filmes que penso fazer, ajudar-me-ão a reconstituir o diário de “bordo”.

Acabam de anunciar a temperatura em Bissau: 24º C. Ouvem-se os trens de aterragem a descer.

Até amanhã Camaradas.
Fernando Gouveia
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 25 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5882: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (22): Ida à Guiné, a pé

Guiné 63/74 – P6047: Estórias avulsas (29): Encontros imediatos com IN na picada de Jumbembem (Manuel Marinho)

1. Mensagem de Manuel Marinho* (ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4512, Nema/Farim e Binta, 1972/74), com data de 10 de Março de 2010:


DESNECESSÁRIOS ENCONTROS COM O IN

Mês de Abril de 1973 – Dia 24

Nema/Farim

Protecção descontínua à coluna de Jumbembem e Cuntima

1.º GComb


Não muito distante do aquartelamento de Nema na picada para Jumbembem havia numa zona do mato uns frutos que nos abriam o apetite sempre que por aí passávamos, começava a ser uma obsessão, porque não sendo em muita quantidade desafiava a nossa vontade, mas os nossos afazeres não permitiam a colheita dos mesmos e eram os macacos a tratar deles.

Como era hábito, saímos ao alvorecer para mais uma protecção descontínua às colunas, que vinham a Farim abastecer e depois regressavam aos seus aquartelamentos.

Depois da picagem até perto do corredor de Lamel feita sem incidentes, lá ficamos a aguardar a sua passagem, que era saudada com algum alvoroço de parte a parte, e algumas “bocas” à mistura, já que era malta do nosso Batalhão, já nossa conhecida.

O que era normal acontecer nessas protecções era ficarmos a emboscar até ao regresso das mesmas, normalmente toda a parte da manhã e às vezes pela tarde dentro, dependia da rapidez da malta da manutenção, e já agora das batatas fritas com bifes ou frango, que o “Pedro Turra” servia em Farim, e que os nossos camaradas aproveitando a viagem, tiravam a barriga de misérias.

Mas nesse dia e para fugir da rotina enquanto esperávamos, mais uma vez tentamos convencer o alferes a irmos apanhar os ditos frutos, afinal seria rápido porque aproveitávamos o facto de termos as viaturas, e de o terreno já estar picado.

Depois sempre podíamos dizer que fizemos um pequeno patrulhamento, porque havia algo de suspeito e para tirar dúvidas tínhamos recuado quase até à partida, este argumento era o mais sustentável por isso fica a possibilidade de ser este o motivo que convenceu o alferes, que foi sempre muito rigoroso e pouco dado a “passeios”.

Naqueles três meses até nem tinha acontecido nada de especial naquela picada, o que nos dava a ilusão de já sermos uns tipos experientes, enfim só levando porrada se aprende….

Então lá fomos, não se perdeu tempo pois só recuamos um bocado com as viaturas, e lá chegados, apanhamos as respectivas “mangas”(?) que nos souberam muito bem, e voltamos onde era nosso dever estar.

Voltamos a ocupar os nossos lugares ainda faltava tempo, e descontraímos, era pouco provável haver problemas com o IN. nos dias em que havia colunas, o mais que se esperava eram minas, e mais adiante, havia malta de Jumbembem também a fazer protecção.

Eis senão quando um nosso camarada fica estarrecido ao avistar uma coluna IN encabeçada por um indivíduo branco provavelmente cubano, a preparar-se para atravessar a picada, só tem tempo de avisar de forma precipitada o alferes:

- Alferes vêem aí “turras”!

Nessa ocasião estava eu ao lado do camarada da bazuca, ele faz pontaria quando eu me apercebo que estou debaixo da zona de fogo atrás da dita bazuca no momento do disparo, dou um berro:

- Cuidado! Ao mesmo tempo que me lançava ao chão.

O resultado foi ficar um bocado enfarruscado e a perguntar aos meus camaradas se estava “queimado”, porque a distância foi muito curta e eu apanhei ainda com uma espécie de fuligem e o fumo quente da bazuca.

Rapidamente e com alguma precipitação abrimos fogo sobre o IN que perante a surpresa de nos encontrarem ali, puseram-se em fuga disparando na retirada tiros de metralhadora, nós ainda esboçamos a perseguição mas de imediato foi pedido fogo de Artilharia sobre o itinerário da fuga que foi prontamente atendido, e aí acabou a escaramuça.

Batida a zona mais tarde, encontrou-se uma mochila com materiais diversos, sendo de prever que o IN teve feridos.

A coluna por essa altura estava retida em Farim esperando o desenrolar dos acontecimentos, pois tinham sido avisados que tivéramos contacto com o IN.

Depois de serenados os ânimos tudo seguiu o curso normal, a coluna passou e os camaradas que nela seguiam perguntavam o que tinha acontecido, nós dissemos que nada de especial, apenas uma troca de tiros, e nada mais.

A conclusão que tiramos foi a de que enquanto retiramos para ir à fruta, o elemento de vigia IN provavelmente caiu no engano de que já teríamos abandonado o local e daí mandar avançar que o caminho estava livre.

Felizmente não houve problemas de maior mas foi uma lição que aprendemos, até porque mesmo a não se dizer nada sobre a nossa ausência do local que originou o avanço do IN tudo se sabe, e houve mais trabalho nos dias seguintes.

Um grande abraço
Manuel Marinho

Marinho ainda pira


Em Nema/Jumbembem
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Notas de CV:

(*) Vd. poste com data de 27 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5893: O 6º aniversário do nosso Blogue (8): Como é que se consegue pôr centenas de ex-combatentes a falar? (Manuel Marinho)

Vd. último poste da série de 21 de Março de 2010 > Guiné 63/74 – P6033: Estórias avulsas (78): O meu álbum de fotos 2 (Alfredo Dinis)