quarta-feira, 4 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14319: Os nossos seres, saberes e lazeres (77): A arquitetura de Haia em visita de médico (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2015:

Queridos amigos,
Diz o editor e os seus coeditores que dá sempre jeito o registo de viagens, mesmo que as mesmas não incluam savanas, porcos de mato, tarrafo ou macaréu.
Imprevistamente, passei dois dias em Haia, há pelo menos 35 anos que não visitava a cidade. Nas nesgas do programa, captei imagens que vos ofereço. Adoro aquele país, o seu modo de vida, a sua arte, há ali qualquer coisa de saxónico mas suavizado, e há uma alegria de viver, uma bonomia que me lembra os países do Sul. E, acima de tudo, aquele torvelinho de bicicletas...

Um abraço do
Mário


A arquitetura de Haia em visita de médico

Beja Santos

Fui pela primeira vez a Haia em 1978, vinha de Londres depois de um estágio na BBC (TV e rádio), fora o pedido que fizera à administração da RTP, quando recebi o convite para a primeira série de programas que ali fiz sobre defesa do consumidor, intitulada “10 milhões de consumidores”. Contactara entretanto a então a IOCU, hoje Internacional dos Consumidores, tinha nesse tempo sede em Haia, pedi-lhes uma resma de filmes de várias procedências, necessitava de termos de comparação para os filmes a realizar em Portugal. Viajei de Heathrow para Schipool (Amesterdão), à saída apanhei um autocarro para Haia. A impressão que me ficou da cidade foi de resguardo e boa manutenção da arquitetura típica dos Países Baixos Setentrionais, com imensas afinidades, como é óbvio, com a arquitetura flamenga. Meses depois, foi devolver o material fílmico, passei por Haia de raspão anos vindo de Utrecht, continuava a ser a cidade do Governo e do Parlamento, tudo muito cuidado, o que é compreensível se nos recordamos que a Holanda teve a felicidade de não ser afetada pela I Guerra Mundial e na guerra relâmpago de 1940 os alemães concentraram o seu dispositivo destruidor sobre Roterdão, que reduziram a cinzas.

Volto agora em menos de 48 horas para participar numa conferência, venho cheio de curiosidade, já me falaram em prodígios arquitetónicos, vou então arranjar, dê por onde der, uma hora de luz para cirandar entre as lembranças daquele antigo que retive na memória e as audácias e arrojos da moderna Haia, pujante de vida, prazenteira se bem que buliçosa.


Saí do EasyJet Hotel, vou esfomeado mas esta imagem não me escapa até porque aquele raiar vermelho é de pouca dura, daqui a um bocado tudo vai ficar cinzento e assim será até à noite escura. Temos aqui a mistura do antigo e do moderno, caminha para as oito da manhã, está friozinho mas não há chuva, toca a deambular.


Temos aqui a natureza silenciosa no inverno rigoroso, os patos já estão em movimento, o inacreditável é que frente ao parque erguem-se como colmeias os arranha-céus e aqueles edifícios que não se sabe se são escritórios ou de habitação que se espalmam por quarteirões, fascina o arrojado com um toque de antigo, às vezes até parece que anda por ali a mão de Gaudi, vejam só.


Pode gerar atração ou repulsa, mas não nos deixa indiferentes, estão sabiamente implantados, há espaço para a arquitetura, e para as diferentes situações, não esquecer que os peões andam paralelos às bicicletas e outros velocípedes, é timbre da cultura holandesa dar ao pedal, magros, com bom peso ou gorduchos andam à desfilada, constituem uma artéria circular que ao princípio confunde o forasteiro, mas ele habitua-se depressa, a Holanda é a Holanda.


Num outro ângulo apanhei esta mostra de arte pública, fiquei satisfeito, não há paredes grafitadas nem as esculturas estão esmurradas, agora vou para o hotel onde vai começar a conferência, e ainda tenho que meter uma bucha à boca, com este peso ainda caio para o lado desfalecido.


Alto lá, as proporções deste edifício geram harmonia, e até pasmo como todo este quarteirão moderno não tem um só resquício de desumanidade ou desolação, já atravessei algumas ruas com arquitetura vernacular, mas toda esta arte contemporânea embrinca e, pasme-se, não é mastodôntica, apela à escala humana. Basta de festa, agora vou trabalhador.


Acabou o primeiro dia de conferência, um elemento da terra esclareceu-me que ainda tenho luz por cerca de uma hora. É agora ou nunca, enfarpelo-me para resistir aos 4ºC, e vou para a giraldinha, ninguém me agarra até à hora em que regressar para o jantar oferecido pelo Ministério da Saúde da Holanda. É ocioso dizer que ando por aqui ao acaso, o que me cai na rede é peixe, é do que gosto e o que gosto registo para partilhar. Comecei aqui.


Dobrei a esquina e pumba, não me passou pela cabeça brincar com os reflexos, o que aqui se registou foi puro acaso, há horas de sorte para os fotógrafos amadores, e vou já atravessar a rua, há ali outra construção que me está a encher o olho.


Passei por aqui ontem, até captei aquela peça de arte urbana, talvez se recordem. Não me virei ao fundo da rua para ver o efeito desta fachada, gosto muito. Ah, será mesmo possível o que eu estou a ver?


Destes escritórios aqui à volta, não tardam muito, vão sair corretores, informáticos, contabilistas, analistas e tudo o mais de que a civilização precisa, vão transmutar-se em ciclistas, muitos deles, conforme a gravura junta, vão buscar as crianças à creche. As cidades planas e os países planos ditam esta locomoção que se traduz numa maneira de viver pragmática, autónoma, dita a bonomia destes holandeses que têm pouco de germânico mas que também não se aparentam com os mediterrânicos. Parece que têm pouco a esconder, janelas não estão entaipadas, podemos ver o recheio e os movimentos de quem lá vive. E quando calcorreamos as ruas vem à mente a pintura holandesa, com aquela malta bem-disposta, a beber uns copos, tudo suave, sem agressividade. É assim.


Disseram-me aonde estava a Gare Central, apontaram o edifício e comentaram que era um ex-libris da cidade. Não se é ou não é, o que gostei foi do ângulo, e como tenho mais de uma hora por minha conta antes de partir para o aeroporto, vou mostrar-vos as coisas antigas de que gostei com as últimas imagens do moderno que mais me cativou.


Dá para ver perfeitamente o antigo entalado no moderno, não provoca escândalo.


A moral protestante transparece nestas linhas austeras, não se mostra ao público o interior da casa, haja o luxo que houver. O puritanismo é para se ver e recomenda-se.





Aqui ficam imagens de diferentes épocas, andei a saltitar entre a velha Flandres e esta alegria de viver dos burgueses com boas habitações em Haia, Arte Nova, Arte Deco e a arte aparentada entre as guerras. Dá para regalar a vista, consola ver esta construção bem tratada.


Ponto final na viagem a Haia e a este registo de arquitetura, a Gare Central está ali à esquina, depois encafuo-me num comboio, vou meia hora a ver pólderes e saio diretamente no aeroporto e daqui regresso a Lisboa. Espero que tenham gostado como eu tanto gostei de ter imprevistamente voltado a Haia e captado tais e tantas diferenças numa cidade que não visitava há mais de três décadas. É este um dos sais da vida.
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14155: Os nossos seres, saberes e lazeres (76): O vício da pesca desportiva à linha (Juvenal Amado)

Guiné 63/74 - P14318: Lembrete (10): Apresentação do livro "As Mulheres e a Guerra Colonial", da autoria de Sofia Branco, hoje, dia 4 de Março de 2015, pelas 19h00, na Associação 25 de Abril (A25A), em Lisboa

Lembrete para a apresentação do livro "As Mulheres e a Guerra Colonial", da autoria de Sofia Branco, hoje, dia 4 de Março de 2015, pelas 19h00, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 95, Lisboa.





OBS: - Três nossas amigas colaboram neste livro, a saber: Deonilde de Jesus (esposa do nosso camarada Manuel Joaquim), Dulcinea Cerqueira (esposa do nosso camarada Henrique Cerqueira) e Maria Alice Carneiro (esposa do nosso Editor Luís Graça).
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13940: Lembrete (9): Convívo de Novembro, e de Natal, da Tabanca do Centro, dia 28 de Novembro de 2014 em Monte Real

terça-feira, 3 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14317: Historiografia da presença portuguesa em África (60): O caso da empresa Nunes & Irmão Lda., dos irmãos Gentil e Artur Nunes GENTIL E ARTUR NUNES. (Jorge Araújo)

1. O nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/1974), enviou-nos a seguinte em 26 de Fevereiro: 

HISTORIOGRAFIA DA PRESENÇA PORTUGUESA NA GUINÉ
-O CASO DA EMPRESA NUNES & IRMÃO, LDA. - 
[GENTIL E ARTUR NUNES]

1– INTRODUÇÃO 

Venho acompanhando com alguma curiosidade a publicação dos diversos postes da autoria do camarada Mário Vasconcelos [1.º-P14164…],estruturados a partir do conteúdo da Revista “Turismo” n.º 2, de Jan-Fev/1956, onde estão anunciadas algumas das casas comerciais existentes, naquela época, na então província portuguesa da Guiné. 

Entretanto, a recente morte do nosso camarada guineense Amadu Bailo Jaló (1940-2015), nascido no mesmo dia que eu, mas uma década antes [10.Nov], levou-me a fazer nova consulta ao baú de memórias e imagens, recuando a 1973 – ano em que Amadu Jaló foi condecorado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª Classe. 

Ao recorrer a este elemento de certificação histórica, para recordar a sua CCmds Africanos em desfile militar, em Bissau, quisemos-lhe prestar uma singela homenagem [P14284], uma vez que a ele tinha assistido [desfile] dias antes do início do Julgamento Militar [7DEC1973] relacionado com o «Naufrágio no Rio Geba de 10AGO1972», sendo, por isso, pertinente que o considere no âmbito do programa das comemorações do 1.º de Dezembro desse ano. 

De uma dezena de fotos guardadas desse evento de 1973, reproduzimos metade relacionando-as com cada um dos parágrafos anteriores, e que no seu conjunto servem para legitimar o título desta narrativa.


2– AS FOTOS SELECCIONADAS 


Foto 1 – Bissau> DEZ1973 – A Companhia de Comandos Africanos no desfile militar realizado no âmbito das comemorações do 1.º de Dezembro de 1973, que contou com a presença de efectivos dos três ramos das Forças Armadas em missão ultramarina no CTIG.


Foto 2 – Bissau> DEZ1973 – Elementos da 38.ª Companhia de Comandos [1972/74] no mesmo desfile militar na Avenida da República [hoje Av. Amílcar Cabral] em 1DEC1973.


Foto 3 – Bissau> DEZ1973 – Rectaguarda do desfile militar na Avenida da República [hoje Av. Amílcar Cabral] realizado no âmbito das comemorações do 1.º de Dezembro de 1973. 


Foto 4 – Bissau> DEZ1973 – Peças de Obus integradas no desfile militar na Avenida da República realizado em DEC1973. Ao centro, no painel de publicidade, faz-se referência à firma Salgado & Tomé, empresa que consta na Revista anteriormente citada [2.º-P14167]. 


Foto 5 – Bissau> DEZ1973 – Fanfarra do Exército constituída integralmente por guineenses após concluído o desfile militar na Avenida da República [hoje, Av. Amílcar Cabral], aguardando ordens para destroçar. À esquerda, um polícia sinaleiro [um ícone daquela época]. 

Na rectaguarda dos militares é possível identificar a loja da firma Nunes & Irmão, empresa dedicada ao comércio geral [Importações/Exportações], cuja referência não consta na mesma Revista… Porquê?


3– A BISSAU DOS ANOS 50, QUE EU CONHECI (MÁRIO DIAS) 

A propósito da interrogação suscitada pela ausência de referências na Revista “Turismo”à empresa Nunes & Irmão [foto acima],e na procura de resposta[s] a esta curiosidade em saber o que esteve na sua génese e qual a origem destes compatriotas lusos, realizei, com algum sucesso, uma pequena investigação cujos resultados partilho agora convosco. 

A primeira fonte consultada, como não podia deixar de ser pelo extraordinário espólio histórico que disponibiliza, foi o blogue da nossa «Tabanca Grande», onde o camarada Mário Dias [ex-sargento comando e instruendo no 1.º CSM realizado em Bissau, em 1959 – P2343] nos caracteriza sumariamente a Bissau dos Anos 50 [P2691].  

Com efeito, a firma Nunes & Irmão e as suas instalações sede [edifício da foto 5] são identificadas por Mário Dias na foto abaixo pelo telhado. De referir, que entre as duas fotos [4 e 5] existe uma diferença temporal de duas décadas.


Foto 6 - Bissau> Anos 50> Perspectiva da Avenida da República [hoje, Av. Amílcar Cabral] obtida a partir da torre da catedral já ao final do dia. O primeiro edifício, de que se vê pouco mais que o telhado, é a sede de uma das importantes firmas comerciais da Guiné: Nunes & Irmão. Mais ao fundo, do lado direito, o cinema UDIB e o palácio do governador na praça do Império. O edifício da Associação Comercial (hoje PAIGC) situado na mesma praça, ainda não existia (MD), [P2691, 27Mar2008 – com a devida vénia].


4– HISTÓRIAS DE VIDAS PORTUGUESAS NUM POBRE PARAÍSO

Uma segunda fonte de informação, e que acabou por esclarecer as questões de partida, foi obtida por via de uma reportagem realizada por jornalista (?) do matutino Correio da Manhã, publicada em 15 de março de 2009, com o título abaixo repetido [www.cmjornal.xl.pt].


A reportagem faz a ponte entre o antes e o depois da independência da Guiné-Bissau, onde se afirma que os portugueses “chegaram há muitos anos e resistiram a todos os conflitos nesta antiga colónia portuguesa. Aconteça o que acontecer, nada os fará regressar a Portugal. Insurgem-se até contra a imagem exterior da terra que adoptaram. Para estes portugueses, a Guiné-Bissau, país entre os dez mais pobres do mundo, é um pedaço do paraíso na Terra”.

Quanto à história de vida da família Nunes, fundadora da firma Nunes & Irmão e, depois, da Residencial Coimbra, os testemunhos foram divulgados na entrevista dada por Francelina Nunes, nora de Gentil Nunes. Este e o seu irmão Artur Nunes acabariam criar a sua primeira empresa nos anos vinte do século passado.

Transcrevemos, na íntegra e com a devida vénia, o que está escrito sobre a história de vida desta família de portugueses.

“Francelina Nunes, 64 anos, [1945-] deixou Góis, em Coimbra, em 1964, com apenas 19 anos, para juntar-se ao marido, repetindo um trajecto iniciado pelo sogro, Gentil Nunes, e o irmão, Artur Nunes, nos primeiros anos do século XX. Em 1920, depois de trabalharem na mais famosa empresa do País naqueles anos, a Casa Gouveia, conseguiram juntar um pé-de-meia que lhes permitisse criar uma empresa.

Assim nasceu a Nunes & Irmão, uma imagem de marca da Guiné com rosto luso. A residencial Coimbra é a face mais visível deste projecto empresarial, com 86 anos de vida. "Somos a terceira geração da família à frente dos negócios", diz Francelina Nunes, muito longe de se arrepender de, há 44 anos, ter deixado Portugal. "Foi fácil gostar da Guiné porque, quando cheguei, Bissau era uma cidade viva e o clima era óptimo.

Nestes anos todos, a única tragédia foi a guerra de 1998, entre Nino Vieira e Ansumane Mané. A guerra colonial era feita longe daqui, no campo, esta aconteceu mesmo na cidade. E foi horrível".

Francelina surpreendeu-se com a sua própria coragem, entre os escombros de Bissau, quando empreendeu acções merecedoras da condecoração do então Presidente da República, Jorge Sampaio: "Tivemos muita gente refugiada em nossa casa e, talvez por isso, o Presidente tenha decidido condecorar-me. Se nunca passámos fome foi porque tivemos ajuda humanitária. As organizações sabiam que havia muita gente aqui e ajudavam-nos".

Habituada a ver portugueses chegarem a Bissau, Francelina garante que há uma excelente relação entre os nacionais e os forasteiros. "Quase todos os portugueses que vêm para cá fazem-no no âmbito de projectos e chegam com vontade de ajudar este povo. Converso com muitos, que se hospedam no nosso hotel, e nunca vi nenhum muito contrariado por aqui estar. A verdade é que também não se metem na vida política local".

Francelina diz que a imagem que a comunidade internacional tem da Guiné-Bissau é distorcida: "Sabemos que isto não é um mar de rosas, mas passam imagens tristes do país. Mesmo na Europa, a vida não está fácil. Se um europeu não tiver um bom ordenado e uma vidinha organizada, também passa por dificuldades. Bissau enfrenta problemas com a luz e a água, mas em matéria de alimentação, móveis e bens de primeira necessidade, não falta nada. Não se formam filas em lado nenhum, tudo pode ser comprado. A Guiné não é um país pobre. Pobres são aqueles que nem têm uma folhinha verde".

Francelina não pára o novelo cor-de-rosa que desenrola sobre o país de adopção. "Pode haver um ou outro roubo de telemóvel, mas aqui não acontece nada de especial. O problema aqui é a instabilidade política. Há sempre um golpe ou outro problema parecido e isso contribui para que os brancos sintam medo".

O amor de Francelina Nunes pela Guiné é secundado por Alexandre ‘Xia’ Nunes, 40 anos [1969-], um dos dois filhos de Francelina e extremamente popular na cidade. Tanto ele como o irmão, Miguel, 44 anos [1973-], nasceram na Guiné-Bissau, embora os estudos tenham sido feitos em Portugal. Em 1990 optaram pelo país de origem. "Estudei em Coimbra até ao 2.º ano de Informática, mas decidi regressar. Durante 12 anos de escolaridade, estudei sempre com a ideia de voltar à Guiné e não estou nada arrependido. A vida na Europa é muito cansativa, há demasiado stress. Tenho lá muitos amigos e percebo que a vida deles não é nada fácil". ‘Xia’ defende que a Guiné é um país de oportunidades, à espera da estabilidade política.

"Em Portugal pensam que isto é o fim do mundo, é uma ideia transmitida às pessoas que não corresponde à realidade. Não devem ser as coisas fúteis, como cinemas e centros comerciais, motivos de escolha de uma terra".

Na opinião deste luso-descendente, os guineenses são os mais hospitaleiros entre todos os naturais dos países africanos de expressão portuguesa. Só a instabilidade política trava o arranque definitivo do desenvolvimento do país. "Cada vez que há uma situação como esta, que redundou nos assassínios de Nino Vieira e Tagmé na Waié [no início deste mês], os investimentos estrangeiros deixam de ser feitos e volta tudo à estaca zero. É chato um governo estabelecer contractos com a Guiné-Bissau e de repente cair tudo por terra porque houve uma mudança de dirigentes, em apenas três ou quatro meses. Assim é difícil, mas acredito que a Guiné-Bissau tem condições para evoluir". 

‘Xia’ Nunes reconhece, no entanto, que há dois pólos de desenvolvimento que devem merecer atenção especial, para atrair estrangeiros: "O principal problema é a falta de escolas e hospitais. Qualquer pessoa que venha trabalhar para aqui quer ter os filhos consigo. Tem de haver escolas e serem complementadas com uma boa política de saúde. Não há necessidade de, por tudo e por nada, às vezes coisas mínimas, se ter de transportar um doente para Dakar ou Lisboa. Por que razão hei-de estar aqui e ter os filhos em Coimbra?".

Quanto à Residencial Coimbra, esta localiza-se no centro da cidade de Bissau, junto à Catedral de Bissau, sobre a firma Nunes & Irmão, Lda. [foto 5]. Compõe-se de 16 quartos amplos, equipados com casa de banho privativa, duche, água quente, água e luz, ar condicionado, cofre, mini bar, tv, video e dvd. Quartos duplos e quartos simples, alguns voltados para a Avenida Amílcar Cabral [antiga Avenida da República], outros voltados para um terraço tropical interior. Dispõe, ainda, de sala de pequenos-almoços, ampla, voltada para a avenida principal e de uma sala de convívio com bar, mesa de jogos, internet, tv e um amplo terraço para lazer e repouso. 


5– FOTOGALERIA DA RESIDENCIAL COIMBRA





Depois da triangulação entre três temas e algumas fotos, resta-me terminar citando o que é habitual dizer-se nas tertúlias: “as conversas são como as cerejas…” isto é, encadeiam-se umas nas outras, o mesmo acontece com a escrita… é difícil parar.

Um forte abraço, com amizade, do
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
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Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: 


Guiné 63/74 - P14316: Meu pai, meu velho, meu camarada (40): Torcato Prudêncio da Silva (1915-1977) faria 100 anos no passado dia 28 de fevereiro... Na tropa (entre 1936/37 e 1943), foi da arma de artilharia, como o filho que o recorda hoje com muita saudade (Torcato Mendonça, ex-alf mil art, CART 2339, Mansambo, 1968/69)


Cascais > GACA 1 > c. 1940&43 > Foto nº 1 A > Torcato Prudêncio da Silva (1915-1977) > Segundo os especialistas em artilharia, os cor Nuno Rubim e Costa Matos a peça que aparece na foto é uma Anti Aérea (AA 9,4), pertencente ao quartel de Cascais, sediado na Cidadela [Grupo de Artilharia Contra Aeronaves, criado em 1935, depois GACA 1, em 1939, assim se mantendo até 1959, quando passou a  Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea e de Costa (CIAAC), que veio a ser extinto em 2004].


Cascais > GACA 1 > c. 1940&43 > Foto nº 1 >  Torcato Prudêncio da Silva (1915-1977) > Na altura deveria ser furriel ou sargento miliciano,,,

O nosso camarada Torcato Mendonça não tem informação sobre a a data e o local. Possivelmente estas quatro primeiras fotos foram tiradas  num contexto de exercícios de campo, algures na Estremadura ou no Ribatejo. O pai do Torcato que deve ter feito a recruta e instrução de especialidade em 1936/37 em Évora,  terá sido chamado depois para operar com a AA 9,4 cm, m/940, fornecida pelos ingleses...

Sobre a Peça AA 9,4 cm m/940, de origem inglesa > Calibre: 94 mm L50 | Comprimento: 4.96m  | Comprimento do Tubo: 4,7 m  | Peso: 9.317 Kg  | Munição: 12.7 kg (total)  | Velocidade Inicial: 792 m/seg.  | Alcance Máximo: 18.000 m (horizontal) e 9.000 m (teto)  | Cadência de Fogo: 10 a 20 tiros por minuto (prático) | Guarnição: 7  | Quantidade total recebida: 54  (Fonte: ForumDefesa.com > Arilharia Aérea Portuguesa > 26 de outubro de 2007).


Cascais > GACA 1 > c. 1940 >  Foto nº 2 >  Torcato Prudêncio da Silva (1915-1977) é o segundo a contar da direita... A peça AA 9.4 cm m/940 tinha uma guarnição de 7 homens...


Cascais > GACA 1 > c. 1940 >  Foto nº 3 > Torcato Prudêncio da Silva (1915-1977) é "o 2º a contar da direita, em cabelo (descoberto)"; ele e os restantes à sua direita são um grupo de 4 graduados... (*) [Percebe-se que são graduados pelo uso de bota alta, tal como na cavalaria].



Cascais > GACA 1 > c. 1940 > Foto nº 4 > O "Matador" que rebocava a antiaérea AA 9,4. Também as havia no CTIG, as viaturas de transporte AEC Matador,  para rebocar a artilharia (obus 14 e 10.5, peça 11.4) e  até para transporte de tropas (**)...  O pai do Torcato é  "o que está sentado na cabine do Matador com o braço de fora"...


Évora > Regimento de Artilharia Ligeira (RAL) 1 (que passou depois a 3) > c. 1936/37 > . "O meu pai serviu no RAL 1 [Évora]... Ele deve ter entrado em 1936/37, saiu, veio a guerra, o entra sai e só em 43 se livrou daquilo. Por isso eu sou um jovem de 44" (TM)...


Évora > Regimento de Artilharia Ligeira (RAL) 1 (RAL 3, ao tempo da guerra colonial ) > c, 1936/37 (*) > A artilharia hipomóvel (puxada a cavalos...) ainda do tempo da I Guerra Mundial!...


Évora > Regimento de Artilharia Ligeira (RAL) 1 (RAL 3, ao tempo da guerra colonial) > c. 1936/37 > O pai do Torcato é   "o primeiro da esquerda, com o boné do RAL 1"... Possivelmente ainda na fase da recruta ou na instrução de especialidade. Sobre a história da reorganização do exército,  e da artilharia em particular, no Estado Novo, vd. Abreu (2008) (***).

Fotos (e legendas): © Torcato Mendonça (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: LG]


1. Fotos do álbum de família do Torcato Mendonça que me mandou as velhas fotos do tempo da tropa do pai dele... Évora, RAL1 e depois Cascais, GACA1. Presume-se que ele tenha sido chamado, mais do que uma vez pela tropa, e nomeadamente já no período da II Guerra Mundial para aprender a operar com a artilharia antiaérea fornecida ao exército pelos nossos aliados ingleses...  Diz o Torcato que o pai só passou à peluda em 1943, ano em que pôde finalmente casar... As fotos claramente dizem respeito a dois períodos distintos; Évora, 1936/37; e Cascais, c. 1940/43...

En passant, diga-se que a primeira unidade de Artilharia Antiaérea em Portugal foi o Grupo de Artilharia Contra Aeronaves (GACA), criado em 1935 na cidadela de Cascais. No ano seguinte, passou a incluir designar-se GACA 1.

O Torcato recorda com muita saudade o pai, o amigo e o camarada... Era algarvio, de Armação de Pêra, trabalhoui depois como técnico na Junta  Autónoma das Estradas... Morreu cedo, em 1977. Cabe-nos aqui evocar e honrar a sua memória (****)
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Notas do editor:

(*) 18 de abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2773: Álbum das Glórias (44): A viatura AEC Matador 4x4 e outras peças do museu da artilharia (Nuno Rubim / Torcato Mendonça)

(**) 17 de abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2768: Pensar em voz alta (Torcato Mendonça) (10): A nossa por vezes difícil mas sempre boa con(v)ivência

(***) Vd.    ABREU; Filipe da Silva - As Principais Reorganizações do Exército do Século
XVIII ao Século XXI. Reflexos para a Artilharia. [Em linha] Amadora: Academia Militar, Direção de Ensino, Curso de Artilharia, julho de 2008, 41 pp + IV [Consult. 1 mar 20154]. Disponível aqui [em formato pdf].

(***) Último poste da série >  4 de julho de 2013 > Guiné 63/74 - P11803: Meu pai, meu velho meu camarada (39): Amadeu Simões Picado, ilhavense, 1º cabo quarteleiro, da arma de engenharia, integrou o corpo expedicionário português, em França, na I Guerra Mundial (1917/18), e emigrou depois para os EUA onde trabalhou quase sempre como pescador... Só o conheci aos 9 anos, em 1946... (Jorge Picado)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14315: Agenda cultural (381): Apresentação do livro "O Soldado Clarim", da autoria do Cor Paraquedista Nuno Mira Vaz, dia 5 de Março, pelas 15 horas, na Messe de Oficiais, Praça da Batalha, Porto (Manuel Barão da Cunha)

C O N V I T E

Apresentação do livro "O Soldado Clarim", da autoria do Cor Paraquedista Nuno Mira Vaz, que terá lugar no próximo dia 5 de Março de 2015, pelas 15 horas, na Messe de Oficiais, Praça da Batalha, Porto.



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O Soldado Clarim
de Nuno Mira Vaz
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 228
Editor: DG Edições
ISBN: 9789898661104
PVP: 15€

Sinopse
O presente livro é um romance histórico, cheio de contrastes e que envolve três gerações, incluindo a personagem principal, o soldado Clarim Ramiro Espada, um português nascido, em 1885, num planalto no centro de Angola. Incorporado em 1904, acompanhou o lendário capitão João de Almeida nas campanhas do Cuamato e dos Dembos, o que acabou por proporcionar ter-se tornado, posteriormente, um importante fazendeiro de café.

OBS: Com a devida vénia a WOOK
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Nota do editor

Último poste da série de 27 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14304: Agenda cultural (384): V. N. Famalicão, Museu Bernardino Machado: ciclo de conferências 2015: Portugal na 1ª Guerra Mundial, pelo Cor Aniceto Afonso, hoje, às 21h30

Guiné 63/74 - P14314: Efemérides (181): Recordando o dia 2 de Março de 1974, dia de horror, impotência e luto em Cufar (Armando Faria)

1. A propósito do dia de hoje que lembra o rebentamento de duas minas em Cufar de que resultaram baixas civis e militares, recebemos do nosso camarada Armando Faria (ex-Fur Mil Inf Minas e Armadilhas da CCAÇ 4740, Cufar, 1972/74) a seguinte mensagem:

Bom dias camaradas 
Porque há coisas que a memória não esquece, hoje é um daqueles dias. 
Se acharem por bem coloquem para que se HONRE a memória daqueles nossos companheiros.

Um abraço 
Armando Faria, 
Fur. Mil. 
CCAÇ 4740


Os dias sucedem-se num “correr” sem fim e deles nem tudo a memória regista, mas…
Ficam-nos momentos inolvidáveis que a gente se deleita em recordar…
Outros que nós desejaríamos apagar para sempre…
Mas foram esses dias e são essas memórias que nos construíram…
Hoje recordamos o dia 02 Março de 1974 e fazemos memória daqueles que dali partiram do nosso convívio.


“DITOSOS OS DIGNOS DE MEMÓRIA”

Guiné - Região de Tombali - Cufar - Horror, impotência e luto. 
Foto: © António Graça de Abreu (2009). Todos os direitos reservados.

“A 02 Março, pelas 16h30, é accionada uma mina anticarro no percurso de acesso ao porto de Cufar-Rio Manterunga pelo jeep do Pelotão de Intendência 9288.

O jeep “voou”, os corpos dos seus cinco ocupantes ficaram espalhados em redor num cenário dantesco tal foi a violência da carga explosiva que o atingiu.
A cratera aberta no solo ficou com um diâmetro de cerca de 2 metros por quase outros tantos de profundidade, pude confirmar como especialista de MA, fiz o reconhecimento ao local nos minutos que se seguiram.

Ali de imediato foi ceifada a vida de 4 homens, o soldado caixeiro RODRIGO OLIVEIRA SANTOS, natural de Romariz, Santa Maria Da Feira, onde está sepultado, mais 3 estivadores africanos que foram sepultados no cemitério de Cufar.

A registar mais 01 ferido grave, o Fur. Mil. CARLOS ALBERTO PITA DA SILVA, que face à gravidade dos ferimentos sofridos veio a falecer no HM 241 a 17 Março.
Era natural do Monte, Funchal,  e está sepultado no cemitério das Angústias.

Guiné - Região de Tombali - Cufar - Porto do rio Manterunga - 2 de março de 1974 - Batelão ao serviço do BINT (Batalhão da Intendência, de Bissau), em chamas, depois de ter accionado uma mina. 
Foto: © António Graça de Abreu (2009). Todos os direitos reservados.

Pelas 22h00, com o baixar da maré dá-se novo rebentamento, agora é uma mina que estava colocada no leito do Rio Manterunga, foi accionada pelos barcos que estavam a ser descarregados no porto, tendo originado a morte de mais 3 civis estivadores e ferido 13 que são recolhidos, há ainda a registar 18 civis considerados mortos, carbonizados ou desaparecidos".

Muitos de nós estávamos lá!

Armando Faria,
Fur. Mil.
C CAÇ 4740
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14002: Efemérides (180): A grande invasão a Conakry foi há 44 anos - Artigo da autoria de Luís Alberto Bettencourt publicado no "Açoriano Oriental" (Luís Paulino)

Guiné 63/74 - P14313: Historiografia da presença portuguesa em África (59): A oficialização do ensino liceal, por portaria de 10 de abril de 1950, ao tempo do governador Raimundo Serrão, dando origem ao Liceu Honório Barreto


A portaria que vem oficializar o ensino secundário (ou liceal) na então colónia da Guiné. O nº de estudantes ainda era todavia diminuto para se justificar a criação oficial de um liceu...Daí a designação de colégio-liceu onde a nossa decana, centenária, dra. Clara Schwarz da Silva foi professora de francês, durante quase duas décadas...



Guiné > Bissau > c. junho 1950 > "Na varanda e no jardim do palácio do Governo a multidão reclama a presença de Sua Excelência o Governador a quem deseja agradecer a publicação da portaria nº 13.124 que oficializou na Guiné o ensino secundário"



Guiné > Bissau > c. julho de 1950 > "A população civilizada (sic) da cidade de Bissau concentra-se junto da Câmara Municipal para em grandiosa manifestação ir agradecer a Sua Excelência o Governador a oficialização do ensino secundário na Guiné"...

Fotos e legendas:  Boletim Cultural da Guiné Portuguesavolume 19, julhio de 1950, pp. 463 e ss. [Reproduzidas com a devida vénia de Memórias d' África e d'Oriente > Boletim Cultural da Guiné e do sítio de João Schwarz da Silva, Des Gens Intéressantes] [Edição: LG]



1. Artur Augusto Silva, advogado, e Clara Schwarz da Silva, professora, pais do nosso saudoso amigo Pepito (1949-2014) foram dois dos  fundadores do Colégio Liceu de Bissau (mais tarde, Liceu Honório Barreto).

De 1949 a 1956, este estabelecimento de ensino ocupou algumas salas do  Museu da Guiné (criado em 1947 num edifício junto do Palácio do Governador). Só a partir do inicio do ano letivo 1956 é que o Liceu  Honório Barreto passou a poder contar com instalações próprias.

Era então governador da colónia Raimundo [António Rodrigues] Serrão (1949-1953), capitão de engenharia na situação de reserva (com quase duas décadas de serviço em Angola), tendo sucedidido a Sarmento Rodrigues [que fora chamado a desempenhar funções governativas como ministro das colónias (e, depois de 1951, ministro do ultramar); sabe-se que a escolha de Sr5amento Rodrigues como Governador da Guiné foi da iniciativa, pessoal e política, de Marcelo Caetano)].

Raimundo Serrão fora  nomeado por decreto de 2 de junho de 1949, tendo dado continuado ao trabalho (meritório) de Sarmento Rodrigues.

Em julho (?) de 1950, o governador foi alvo de uma "grandiosa manifestação" de agradecimento por parte da população local.  Excertos dos discursos então proferidos estão disponíveis no Boletim Cultural da Guiné, acima citado (vol. 19, julho de 1950, pp. 463 e ss.).


2. Sobre o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, pode ler-se o seguinte na valiosíssima biblioteca digital de O Portal das Memórias de África e do Oriente:

(i) O Portal das Memórias de África e do Oriente é um projecto da Fundação Portugal-África desenvolvido e mantido pela Universidade de Aveiro e pelo Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento desde 1997. É um instrumento fundamental e pioneiro na tentativa de potenciar a memória histórica dos laços que unem Portugal e a Lusofonia, sendo deste modo uma ponte com o nosso passado comum na construção de um identidade colectiva aos povos de todos esses países.
(ii) O Boletim Cultural da Guiné,  "órgão de Informação e Cultura da Colónia", foi criado pelo então Governador da Colónia, Sarmento Rodrigues, em 21 de Julho de 1945, conforme portaria publicada no primeiro volume.


O António Estácio em Bissau, em 1964

O Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publicou durante 28 anos, entre 1946 e 1973, 110 números normais e um número especial do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Esta obra é considerada pela generalidade dos investigadores como a melhor publicação científica de todas as ex-colónias portuguesas.

Esta colecção de obras foi digitalizada e incorporada na Memória de África Digital com autorização do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP) da Guiné-Bissau, entidade que sucede ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e, portanto, a actual detentora dos direitos sobre esta publicação.

A sua utilização segue o referido nos direitos de utilização do material.

3. O nosso camarada e grã-tabanqueiro António Estácio, natural de Bissau,  é autor de uma publicação sobre o Liceu Honório Barreto, publicada em 1992, em Macau, e assim referenciada na PORBASE [Base Nacional de Dados Bibliográficos]


PASSADAS : RECORDAÇÕES DE UM ALUNO DO LICEU HONÓRIO BARRETO, EM BISSAU, 1958-1964 / ANTÓNIO JÚLIO EMERENCIANO ESTÁCIO

AUTOR(ES):
Estácio, António Júlio E., 1947-

PUBLICAÇÃO:
Macau : A.J.E. Estácio, 1992 ( Macau : -- Tip. Welfare)

DESCR. FÍSICA:
199, [5] p. : il. ; 21 cm

ASSUNTOS:
Liceu Honório Barreto (Guiné-Bissau) -- Alunos -- 1958-1964 -- [Memórias]

CDU:
371.2(665.7)"1958/1964"
373.4/.5(665.7)"1958/1964"
929 A/Z"1958/1964"

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Nota do editor:

Último poste da série >  5 de fevereiro de 2015 >  Guiné 63/74 - P14221: Historiografia da presença portuguesa em África (53): Revista de Turismo, jan-fev 1956, número especial dedicado à então província portuguesa da Guiné: anúncios de casas comerciais - Parte IX (Mário Vasconcelos): o madeireiro Manuel Ribeiro de Carvalho (Binta, Farim) e a carpintaria mecânica de Humberto Félix da Silva (Bissau)

Guiné 63/74 - P14312: Notas de leitura (686): “Nós, Enfermeiras Paraquedistas”, coordenação de Rosa Serra e prefácio do Prof Adriano Moreira, Fronteira do Caos, 2014 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2015:

Queridos amigos,
Está aqui o melhor do que até hoje se publicou sobre as nossas extremosas enfermeiras.
Depõem na primeira pessoa do singular, vão cativar-nos. Obviamente que nem tudo é inesperado, esta bibliografia já não é tão pequena quanto isso, mas o arco histórico aparece totalmente preenchido, a Guiné tem páginas desenvoltas, histórias assombrosas, há episódios em que acompanhamos as lágrimas das narradoras, são coisas muito nossas, estão ali bem impressivos códigos de sofrimento que sabemos entender.
Este livro é de leitura obrigatória e é um documento imorredoiro, obrigatório, do que elas sofreram e viram sofrer.
Honra às enfermeiras paraquedistas portuguesas!

Um abraço do
Mário


Nós, enfermeiras paraquedistas

Beja Santos

“Nós, Enfermeiras Paraquedistas”, coordenação de Rosa Serra, Fronteira do Caos, 2014, é seguramente, entre a bibliografia já publicada sobre as extremosas mulheres que acudiam aos militares em sofrimento na guerra que travámos em África, a obra mais abrangente, mais exaustiva e mais terna. Temos aqui as enfermeiras na primeira pessoa, com os seus registos de compaixão e brandura. Homenageando os socorristas das unidades de combate, logo no pórtico da narrativa, dizendo:  
“Eles acompanhavam os combatentes pelas picadas, apeados ou em viaturas, em colunas de todos os tipos ou em operações penosas ou arriscadas. Na sua quase totalidade tinham escassos conhecimentos de enfermagem e dispunham de meios materiais reduzidíssimos para prestarem os primeiros-socorros aos seus camaradas feridos ou doentes. Atuavam sempre em estado de tensão nervosa. Eram geralmente os primeiros a chegar junto dos seus companheiros feridos, prestando-lhes o primeiro auxílio, tantas vezes debaixo de fogo intenso! Em algumas ocasiões, os socorristas também eram o seu único resguardo, protegendo-os, em prejuízo da sua própria segurança”.
Só gente de qualidade se lembraria desta homenagem, porque a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam.

Este livro é um extraordinário compêndio da ética do cuidado, neste caso nos afãs da guerra. Elas contam como foi, as suas origens, o que as levou a decidir uma profissão na saúde, como se processou a preparação militar, como se adaptaram aos serviços de saúde militares e depois como rumaram para África. Decidiram pôr por escrito experiências inolvidáveis, tantas vezes dolorosas, descrevem o trágico e o profundamente íntimo, entre sorrisos e lágrimas: os primeiros dias em África, as primeiras missões de serviço, as primeiras comissões, preponderam as narrativas a partir de Bissau e de Mueda, fala-se do apoio às populações e os episódios ficam mais acalorados com as evacuações, saltar do helicóptero e presenciar a tragédia, confortar um soldado com o pé esfacelado que responde com sentida emoção:  “Senhora enfermeira, com pé ou sem pé, estou vivo. O que me preocupa é a dor da minha mãe”; e há as evacuações de longo curso, conferidos em delírio, outros absortos, em estado de choque, porque perderam as pernas ou as mãos; e há a consciências nos riscos que viveram; aterragens forçadas no meio do inimigo e até a visão da morte de uma outra enfermeira como foi o caso da Celeste, em plena base de Bissalanca, uma enfermeira depõe:  
“A pouco mais de um metro de um DO-27, corpo brutalmente danificado, reconhecemos ser a Celeste, já cadáver. Olhámos para ela, e tinha um corte profundo desde o queixo, passando pelo meio da cabeça, e terminava na parte posterior da omoplata; o braço estava preso por alguns tendões, ou nervos. Olhámos para o lado e vimos a massa encefálica espalhada por ali. A Eugénia e eu sem abrirmos a boca, e mesmo em choque, reagimos de imediato e começamos a apanhar a massa encefálica…”.

Estes depoimentos são um presente valiosíssimo para a história da guerra, um trabalho muito bem sistematizado onde não faltam os aspetos humanos, os episódios mais rocambolescos, a presença do feminino num espaço tipicamente masculino. E há o jeito de contar, envolvente, como se estivéssemos todos à volta de uma lareira e se desfiassem aquelas histórias que já conhecemos por outras bocas mas que aqui riscam como diamante. É o caso da narrativa e que se parte para uma evacuação em Gadamael-Porto, após a aterragem a enfermeira vê aproximar-se um militar, é um alferes que comunica que o capitão morreu, a enfermeira com a ajuda dois ou três militares prepararam o corpo. Quando a maca é levada até ao avião, levanta-se um tumulto, um protesto: “O nosso comandante não sai daqui sem um velório digno, feito por nós!”.
O alferes soluça, debulha-se em lágrimas: “…Desculpe, senhora enfermeira, desculpe…”.
E as lágrimas continuavam correndo livremente pelo seu rosto. E a narradora despe a alma, sente-se tocada pelos militares de Gadamael terem visto que ela também sentira um profundo desgosto pela morte do seu capitão:
“E reparei que houve neles um sentimento de gratidão, não apenas por ter ajudado a compor e a dar dignidade ao cadáver, mas também por me ter disposto a assumir a responsabilidade de fazer aquilo que, e eles sabiam-no, as normas não permitiam. Naqueles momentos em que percorremos a distância entre a improvisada morgue e a pista, todos os militares e eu própria nos sentimos envolvidos pela mesma emoção, como se um invisível abraço de partilha e aconchego nos unisse nesse pesado episódio. Depois descolámos em direção à nossa Base, informando o piloto que o ferido tinha morrido. Tocou-me e comoveu-me muito a admirável atitude da guarnição de Gadamael-Porto. Foi tal o apreço por aquele gesto que ainda hoje, ao descrevê-lo me comovo ao lembrar tão elevados sentimentos que aqueles militares demonstraram em relação ao seu comandante”.
De tudo encontramos nestes relatos: guerrilheiros agradecidos, reconhecimentos de civis, alguém que pede o último cigarro, enfermeiras feitas madrinhas de guerra.

O prefácio do professor Adriano Moreira vem à altura deste monumental trabalho sobre as enfermeiras paraquedistas:  
“No caso português, esta iniciativa levou à criação das Enfermeiras Paraquedistas, devida ao general Kaúlza de Arrigada, ainda teve que vencer a resistência cultural que se traduzia em que nem Jefferson, na Declaração de Filadélfia, conseguiu eliminar, que era a condição separada, jurídica e socialmente inferior, das mulheres. A sua persistência conseguiu vencer, e certamente foi uma iluminação coletiva da Nação em armas, verificar a resposta decidida, corajosa, exemplar, das voluntárias que entraram na história por direito, não apenas pelo contingente, mas individualizadas, orientadas pelo saber de que cada ser socorrido, em condições inesperadas de risco e de também escassos recursos, é um fenómeno que não se repete na história da humanidade”.
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Notas o editor

(*) Vd. poste de 23 de Fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14287: Agenda cultural (381): Está de novo à venda o livro "Nós Enfermeiras Paraquedistas", que tem apresentações marcadas em Aveiro, no dia 26 de Março, e no Porto, no dia 9 de Abril

Último poste da série de 27 de Fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14306: Notas de leitura (685): “Crónica do descobrimento e conquista da Guiné”, por Gomes Eanes da Zurara, adaptação de Frederico Alves, edição da Agência Geral das Colónias (2) (Mário Beja Santos)

domingo, 1 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14311: Libertando-me (Tony Borié) (6): Quando fomos à Sede das Nações Unidas

Sexto episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66.



Antes de tudo, queremos dizer que estamos a falar da nossa “station wagon Malibu Classic”, ou seja da nossa “carrinha”, tinha sido nova em 1976, era robusta, com linhas um pouco a fugir para o modernismo, nunca se lastimava com a neve, frio, calor, chuva ou vento, que constantemente sofria, circulava pelas estradas ou ruas da cidade, carregava com tudo o que dentro dela colocassem, todos a usavam, ensinou os filhos a conduzir, no verão, levava-nos alguns fins de semana à praia, carregava o fogareiro, panelas, tachos e outros utensílios de praia, assim como a família, o cão e, às vezes os filhos do vizinho “Açoriano”, que, tanto ele como a esposa, trabalhavam por turnos e, quando chegavam a casa era para dormir, trazia os géneros alimentícios para casa, tinha muito espaço, era confortável, sendo uma autêntica “street girl”, ou seja “rapariga da rua”, de quem todos gostavam.

Mais tarde, já velha, com alguns acidentes, consumindo muito mal o combustível que necessitava para circular, com algumas amolgadelas aqui e ali, a “cor da pele”, já não era original, ficou quase encostada, mas sempre na família, continuando sempre a ajudar, principalmente nas “emergências”.

Dizia, continuando sempre a ajudar, principalmente nas emergências e, não tendo nada a ver uma coisa com a outra, uma personagem portuguesa, de quem nós por aqui, pelo menos nessa altura, sentíamos muito orgulho, presidiu à 50.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas e, quando da sua despedida, houve algumas celebrações, onde vieram entidades do Governo de Portugal, onde também participou o Coro dos Antigos Alunos da Universidade de Coimbra.

Nós fomos convidados num dia em que os filhos queriam sair com os companheiros, possivelmente para se  divertirem, tendo portanto levado o carro de serviço e, a “nossa carrinha”, a tal “station wagon Malibu Classic”, já velha, lá estava pronta para as tais “emergências”.


Algum combustível, um pouco de óleo, pois já quase no fim da sua vida, gastava quase tanto combustível como óleo, lá nos levou, entre um trânsito rápido e agressivo, mas nunca desistindo, atravessando as pontes de Nova Jersey, entrando no Holland Tunnel, nunca se lastimando, deixando algum rasto de fumo, chegando com algum atraso ao edifício das Nações Unidas, na cidade de Nova Iorque, onde o funcionário encarregue pelo estacionamento e inspecção dos veículos, antes de entrar no parque do edifício das Nações Unidas, ao lhe entregarmos as chaves da “nossa carrinha”, abanou com a mão aberta na frente da sua cara, sacudindo algum fumo, nos olhou com um sorriso maroto, pensando talvez, “o que andam por aqui a fazer estes Portugueses, lá da antiga Europa”?


Tony Borie, Fevereiro de 2015
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14283: Libertando-me (Tony Borié) (5): 50 anos depois

Guiné 63/74 - P14310: (Ex)citações (264): Sondagem: Ao fim destes 40/50 anos, mudei muito, física e psicologicamente - Resposta múltipla (Mário Vitorino Gaspar)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 24 de Fevereiro de 2015:

Caros Camaradas e Amigos
Envio-lhes este texto, escrito à pressão.
Eu, trapezista Mário Vitorino Gaspar, executei este número, e sem rede, saiu um pequeno e escasso rascunho de resumo do tema solicitado.

Cumprimentos à Tabanca Grande, e um grande abraço de amizade
Mário Vitorino Gaspar


Ao fim destes 40/50 anos, mudei muito, física e psicologicamente 
(Resposta múltipla)

Jorge Rosa Pedreiro, Manuel Ferreira Jorge e eu

Passados que foram 47 anos do dia em que terminámos a Comissão, e chegámos ao cais de Alcântara desembarcando no paquete Uíge, a minha Família que era a CART 1659, separou-se. Sendo oriundos de diferentes pontos do país, só por mero acaso existia um encontro.

Recordações não faltavam, tinha memorizado cada um dos camaradas. Diariamente encontrava-me, nos dias de hoje, com eles. Vendo-lhe os rostos, esqueço os nomes. Se lembro os nomes esqueço os rostos de jovens que éramos.

No Livro “O Corredor da Morte", escrevi:
“Os intervenientes, portanto Oficiais, Sargentos e Praças não possuem rosto, nem nome, embora em alguns casos se possam reconhecer”.

Encontro-me com o Jorge em Massamá. Igualzinho ao Amigo Manuel Ferreira Jorge que bebera comigo tanta cerveja. E os belos momentos passados. O Natal festejado a 23 de Dezembro, porque a 25 íamos ser vítimas de um ataque em Gadamael Porto do PAIGC, quando passava das 3 da manhã trajados com as túnicas dos muçulmanos, e ajoelhados junto à cama do Capitão, pedimos:
– Alá, Alá… Vinho para cá!...

Quando ouvia o meu nome da boca de alguém, parecia ter visto um desconhecido.

– Mudei assim tanto? – Perguntava-me o camarada.
Ficava quedo, tristonho e envergonhado.

Quando mirava o homem que pronunciara o meu nome, perguntava:
– Conhecemo-nos?
– Eu sou!…

Abraçava-o, respondendo:
– Passou tanto tempo, mas afinal és…

Teria eu mudado? Não, decerto que não! Fulano reconheceu-me, porque não o reconheci? Eu mudara, estava mais maduro. Casara, era pai.

Psicologicamente? Não era a mesma pessoa. Diferente daquilo que fora. A guerra? Talvez tenha influenciado, sou rígido, frio por vezes… Desconfiado, muito desconfiado. Ai, ai daquele que se aproxima por detrás, pareço ter radares. Os meus olhos observam os passos perdidos na retaguarda. Reajo e parece mais querer esbofetear o agressor. Mas não é decerto um agressor. É um amigo.
– Nunca faças isso… Viste bem o que poderia dar?

Mas, outras vezes, encontros diferentes:
– Conheço-te perfeitamente, és o… Não digas nada...

Após o sinal positivo do velho amigo:
– Sabia que eras tu! Estou mais gordo. Estou muito contente por te ver. Como vai a tua vida, o que fazes?

Ficava imensamente feliz.

Tenho de confessar não ser aquele ser sonhador. Deixei de ler; de ir ao Cinema e Teatro; não escrevo uma linha. Tudo aquilo que adorava fazer, abandonei.

Preocupado com o bem-estar da Família, o trabalho é uma outra Família, mas nada que se compare à Família da Guiné: aos camaradas da Companhia e todos os amigos dos aquartelamentos que percorria operacionalmente: Guileje; Mejo; Sangonhá; Cacoca; Cameconde; Cacine e, mais tarde Gandembel.

Encontros houve, reconheci o camarada de imediato. Era uma festa, voltavam as cervejas fresquinhas, sempre fresquinhas. Depois o adeus e…

Um dia não reconheci o meu grande amigo Jorge Pedreiro, um técnico da Indústria Vidreira da Marinha Grande, no único almoço de confraternização organizado pela CART 1659, os sempre ZORBAS. “Os homens não morrem” era o lema.
Olhava para ele, que diariamente confraternizava comigo na fome, na sede, na solidão. Olhei-o. Mas quem é? Ele também não me dirigiu a palavra, possivelmente julgara que estava zangado. Zangado com o mundo sim, com ele nunca. Quando o reconheci juntei a alegria com a tristeza. Muito contente de o ver. Estava diferente, muito diferente, mas arreliado por não o reconhecer. Como podia esquecer o Pedreiro? Verdade seja dita, no dia do Lançamento do meu Livro “O Corredor da Morte”, não reconheci alguns camaradas. Custa-me ter voltado a não reconhecer Jorge Rosa Pedreiro. Pedi-lhe desculpa, não mereço perdão!
Perdoou-me, há pouco tempo falámos…
Acho que mudei. Não tenho o direito de esquecer os meus amigos.

Na minha vida, em primeiro lugar a Família, e em segundo os Amigos.

Mário Vitorino Gaspar
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Nota do editor

Último poste da série de 27 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14307: (Ex)citações (263): Eu respondi à sondagem "4. Não, não mudei muito"... Mas acho que mudei, não sei se para melhor, se para pior (Hélder Sousa, ex-fur mil, trms TSF, Piche e Bissau, 1970/72)