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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas



Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 > Almoço de um grupo de amigos de Timor-Leste, no restaurante Foz: em primeiro plano, Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosae, e de apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passpu a ser logo o um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.


Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 


Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Foi há dias, com a Alice, visitar o Rui Chamusco ao Hospital Curry Cabral, onde esteve internado no serviço de cirurgia, depois de submetido a uma delicada intervenção.

A operação correu bem, o prognóstico parece ser favorável e a recuperação está a correr bem. Teve alta este fim de semana.  De resto,  no passado dia 12 do corrente, dominmgo, achámo-lo com "boa cara", bem disposto. Falamos com o João  Crisóstomo, que  está em Nova Iorque com a sua Vilma. (É na casa do Rui, na Lourinhã, que o casal costuma passar parte do tempo quando vem a Portugal.)

 Para já não se põe a hipótese de tão cedo o Rui voltar a Timor Leste. Mas com a fibra dele, à  sua beira, nunca ninguém diga "nunca... mais". (Nem muito menos de se estrear, aos 80 anos,  na Capeia Arraiana, a pegar o forcão, na próxima festa de agosto, lá na terra, o Sabugal.)

Desde 2016,  o Rui já foi, pago do seu bolso, seis vezes a Timor-Leste, onde geralmente fica o tempo que lhe é legalmnte autorizado, enquanto "malae" (estrangeiro), e que são três meses. Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a  pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco. Já publicámos excertos das crónicas  da I vaigem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos a publicar as da III viagem (2019). Depois mete-se a pandemia, e  só voltou  a Timor Leste em 2023 (IV  viagem) , 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Entendam, caros leitores, a publicaçãp desta série como um pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016,  por solidariedade com o povo timorense e as as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá . 

É também uma forma de a  gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós.


 Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019)

por Rui Chamusco

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral



Olá amigos do Projeto de Solidariedade e estimados sócios da Astil.

Depois de retemperadas as energias despendidas nesta longa viagem e de vencermos a fadiga provocada pelo stress das mudanças e horários, aqui estou como vos prometi para, nas minhas III Crónicas vos dar conta dos factos e acontecimentos mais relevantes relacionados com o nosso projeto de solidariedade.

De antemão, peço desde já desculpa por qualquer incómodo que possa causar a alguém nas minhas descrições, mantendo sempre o propósito da transparência e fidelidade nesta condição de pobre escritor, cujo objetivo é simplesmente manter informados todos os amigos.

Assim e sem mais demora, passo a descrever:

Os dias de viagem - 31 de janeiro (quinta feira) - 01 (sexta feira) ,02 (sábado) de fevereiro  2019 

Diz-se que “o melhor da festa é esperar por ela”. Assim sendo ou não, os dias de preparação desta viagem foram bastante agitados, correndo de uns lados para os outros, sempre com a preocupação de que nada faltasse para que esta viagem e estadia seja bem sucedida. Destaco a preciosa ajuda do amigo Dr. Ascenso que tudo fez para que nenhum papel ou documento faltasse para os efeitos pretendidos. Obrigado, amigo!

Depois, são as horas que tardam em passar, dentro ou fora do avião; são as comunicações e as mudanças nos aeroportos; são os vários chekins em cada aeroporto, alguns exigindo que se tirem os sapatos e outros quase nos deixam despidos; são os cuidados excessivos com as bagagens de mão para que nada se perca ou extravie. 

Claro que também dá para apreciar paisagens, pessoas, culturas, e quantas coisas mais... E embora o cansaço se vá apoderando de nós, nada que uma boa comida ou uma boa bebida não resolva.

Ás 14.45 horas locais pisamos de novo solo timorense, com um calor húmido bempesado. Alguns rostos conhecidos fomos encontrando no caminho para o controle dedocumentos e bagagens, e uma certa ansiedade se apoderou de nós no local de levantamento da bagagem de porão. 

Será que não há duas sem três como se costuma dizer? É que de todas as outras vezes, em 2016 e 2018 nunca a minha bagagem chegou a tempo e em forma. Enquanto estávamos assim cogitando à espera do tapete rolante que trazia as malas, em tom de brincadeira disse para o Gaspar: 

E se a minha mala fosse a primeira a aparecer? 

Pois assim foi mesmo, a primeira mala que se avistou era a minha. E fiquei tão contente que não a quis pegar logo. Deixei que desse a volta de honra a que tinha direito, e só depois, triunfante, a retirei. Tudo o resto foi fácil e agradável. O Eustáquio e a Adobe lá estavam à nossa espera para nos abraçar e beijar.

Já em Ailok Laran apareceram as crianças e os adultos que nos esperavam. Depois foi distribuir beijos e abraços sem conta, até que a tarde e a noite se foram aproximando.

Sem grande esforço o “João Pestana” apoderou-se dos nossos corpos e mentes. E, apesar da música intensa que se fez ouvir toda a noite (celebrava-se o “desluto” da professora que tinha falecido há um ano, cuja descrição de rituais consta nas minhas segundas crónicas) a noite foi “sossegada” e bem aproveitada por um sono retemperante.

Claro que antes da deita dei uns passos a olhar para as estrelas, tentando descobrir nocéu pontos de observação que nos unem em qualquer parte do mundo: a úrsula maior e a úrsula menor (com incidência na estrela polar); a “santíssima Trindade”; o “sete estrelo”; etc.., etc...

E com o ”boa noiti” familiar nos despedimos até ao dia seguinte.

03.02.2019, domimgo - O encontro ansiosamente esperado

Se há acontecimentos desejados, o encontro com o sr. comandante de fragata Rui Pedro Ferreira está na lista muito bem posicionado. Então passo a explicar:

O Rui Pedro Ferreira é filho de uma prima com ascendência em Malcata, a Ti Rosa Nita e o Ti Zé Feliz, ambos primos direitos da minha mãe Laurentina. Por motivos profissionais o Rui Pedro foi destacado durante um ano para serviços em Timor Leste, e que começou em Setembro do ano passado.

Sabendo os seus pais Maria de Deus e Carlos Ferreira que nós estamos a desenvolver um projeto de solidariedade em Timor Leste e que viajamos de vez em quando para este país, procuraram de imediato que estabelecêssemos relações, neste caso através do facebook, o que não foi difícil, e assim nos mantivemos até este dia.

Assim, à hora marcada para o nosso primeiro encontro (foi a primeira vez que nos abraçámos) e por coincidência, o estacionamento dos carros foi á beira um do outro, pois o Rui Pedro mesmo ainda sem parar chamou pelo meu nome. Depois de um forte e afetivo abraço cada um de nós apresentou os seus companheiros, no meu caso o Gaspar e o Eustáquio Sobral), e dirigimo-nos para o Hotel Timor, onde amavelmente o Rui Pedro nos ofereceu o almoço. 

Claro que eu fui portador dos “miminhos da mamã”, e tive um enorme prazer de lhe entregar esta preciosa encomenda, que tão bem sabe a quase 25.000 quilómetros de distância. Foram momentos únicos e muito apreciados de parte a parte, pois a comitiva do Rui Pedro é gente de muito valor e que vale bem a pena ouvir. Ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar para vivermos as grandes surpresas que este país nos oferece, sem esquecer claro está asimpressionantes paisagens e as sorridentes crianças que nos cativam pelos seussorrisos e necessidades.

Caro amigo Rui, caro primo: um enorme obrigado pela tua simpatia e atenção para com todos nós, e particularmente para com este Rui que já é katuas. Enquanto por aqui estivermos não nos iremos esquecer nem separar.

03.02.2019 - Rosas com espinhos

Há notícias que nos abalam. Agora mesmo passou em frente ao pátio da casa que nos alberga o Valente, filho do falecido Vitor, e que o ano passado foi personagem muito descrito nas minhas crónicas. 

Lembram-se de toda a sua história e reintegração escolar que em Fevereiro do ano passado aconteceu? Pois bem. O Valente passou, foi interpelado pelos presentes para que nos viesse cumprimentar, mas ele com ar altivo e surdo seguiu o seu caminho em direção de não sei que destino. Explicaram-me então que o protegido Valente, rapaz de 15 anos, abandonou a escola, e que neste momento é um jovem “vadio” que sai de casa (barraca) e só regressa às tantas da noite. Pobre mãe que já não tem mão nos filhos que tem! Que falta faz o pai senhor Vitor.!... Mas até nisto a vida é madrasta para alguns.

E agora, que podemos nós fazer?... Confesso que, após trinta e tal anos de docência, me sinto incapaz de resolver este problema. Não é por mim que o digo, mas lembrei-me imediatamente do ditado popular “não há rosas sem espinhos”. E bem me parece que neste caso, os espinhos abafaram a rosa e são agressivos para quem a queiraproteger.

Ai Valente, Valente! Que Deus te proteja e faça de ti um Homem, com o H grandecomo era o teu pai.

04.02.2019, segunda feira  - Tanta coisa para fazer!...

Hoje, sob um calor abafado e muito húmido, passamos a manhã a tratar de papeis. O Gaspar na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) foi apresentar-se, com a credencial na mão, para entregar na reitoria. Segundo ele tudo correu bem, e está à spera que lhe comuniquem o horário e as disciplinas que vai lecionar. O Eustáquio e eu nas paróquias de Balide e Motael procurando a autentificação de certidões para documentos oficiais. Voltaremos amanhã porque não conseguimos despachar-nos hoje.

De tarde eu e o Eustáquio fizemos uma revisão da contabilidade e programamos os próximos passos a dar quanto ao programa de apadrinhamento, à funcionalidade da escola de São Francisco em Boebau, à reconstrução da “casa” de família do senhor Vitor.

Vamos tudo fazer para que a obra avance, pois as necessidades são evidentes. Oacordo está feito: nós (ASTIL) forneceremos os materiais de construção e os filhos, família e amigos darão a mão de obra. Como sinal de aceitação e agradecimento, a senhora Julieta, esposa do falecido senhor Vitor, expressou um enorme sorriso, que é a melhor paga do nosso empenhamento por esta obra social.

05.02.2019, terça feira  - Tolerância

Hoje é feriado em Timor Leste. Tal como em Portugal, há gente que, por ignorância, e pergunta porquê? Pois aqui está a explicação: começa hoje, o calendário chinês, que este ano 2019 é dominado pelo porco.

E aqui está a razão deste pequeno relato. Ao longo destes vinte anos de independência, os sucessivos governos deste país têm sido exemplares no respeito pelas diferentes religiões e povos que aqui residem. Cristãos (católicos, protestantes), muçulmanos; chineses, portugueses, indonésios, australianos, japoneses, etc.. Todos são tratados em igualdade de circunstâncias, ou seja: respeito com deveres e direitos.

Por isso em dias como hoje, escolas, serviços públicos sobretudo têm tolerância de ponto, e por isso estão fechados. E ainda que a igreja católica seja dominante no contexto das religiões, todos sabem que o respeito mútuo é um dos melhores bens que este povo tem. Graças a Deus que assim é... E já agora, que o ano chinês do porco traga prosperidade a esta gente.

06.02.2019, quarta feira  - Tão longe e tão perto...

O amigo João Crisóstomo não descansa, sempre e no intuito de ajudar. Como já sesabe, o João vive em New Yort/USA, a muitos quilómetros e muitas horas de viagemdaqui. Na impossibilidade de estar aqui connosco no desenvolvimento do nosso projeto de solidariedade, quase todos os dias entra en contacto, dando ideias, promovendo encontros, facilitando contactos através dos seus muitos conhecimentos e boas relações com gente importante deste país. O João é um homem de ação: ou vaiou racha! Quem o conhece sabe bem a paixão e a energia que ele põe nestas causas.

Por isso, imaginem o seu sofrimento de não poder estar onde ele quer. Tão longe e tãoperto... Ausente, mas presente... Não te inquietes João, porque a tua ausência físicanestá bem compensada com a tua presença e apoio constante. Onde nós estivermos, tuestarás também. És uma pessoa fundamental no nosso projeto.

07.02.2019, quinta feira - Santa paciência!...

Se alguma virtude (ou defeito) tem muita expressão em Timor Leste, é a paciência para a qual são preparados todos os timorenses, em virtude de a isso serem obrigados.

 Então não é que já fomos três vezes à igreja de Motael para que o párocon assinasse uma certidão de batismo e ainda o não conseguimos!... Se é de manhã, dizem-nos para vir à tarde; se é de tarde, dizem-nos para vir de amanhã. Santa paciência! 

Até nisto o povo continua a sofrer. As razões são sempre as mesmas: o senhor padre não está; o senhor padre está doente... Mas não haverá competência para suprir tamanha ausência? Saber esperar, mesmo que seja uma virtude, também cansa.

E convenhamos que estar à espera sob um calor húmido e abafador custa um bocado, a  nós adultos já bem treinados pelas dificuldades da vida, mas sobretudo às mães com crianças a cargo, crianças ao colo. E embora haja gente inconformada, a verdade é que não existe livro de reclamações em nenhum lado. “Ó Cristo, vem cá abaixo ver isto.” Que Deus nos valha!...

08.02.2019, sexat feira - Rua da Amargura

Destas ruas há em toda a parte, em todo o mundo. Até Cristo Jesus, a caminho do calvário, teve de passar por elas. E caiu três vezes segundo os relatos evangélicos.

Pois aqui nos arredores de Dili, mesmo em contexto de capital, existe a rua de AilokLaran em que, se Cristo por cá passasse, carregado com a cru, z teria caído com certeza mais de meia dúzia de vezes. Com tanto trânsito e tamanha confusão, que só é de estranhar que os acidentes não sejam em cadeia devido ao trânsito de peões e veículos motorizados. Dizem que já por cá passaram ministros e outras pessoas importantes.

Mas então não se deram conta da miséria em que está este piso? Há quem diga que é uma vingança devido aos estatuto revolucionário de que o Bairro Pité tem fama.

Receio que, se não houver uma intervenção rápida nesta rua, ferros, chapas, ossos etripas serão aos molhos. Mais a mais esta é uma rua de mercado. Imaginem pois asmercadorias. Há que ter um estômago bem forte para ver e deixar passar o que aqui sepassa...

08.02.2019 - Buah Naga / fruta dragão

Nem tudo o que luz é ouro.. Ou então quem vê caras não vê corações. Isto vem a propósito de uma fruta que hoje encontramos no Jaco, superfície comercial, bastante bonita e atraente mas que só abrindo-a e saboreando se tem a verdadeira noção do que estamos falando. Pelo sim e pelo não, comprou-se uma metade, por sinal nada barato, a que depois em casa lhe testamos o sabor. Pois é! As aparências iludem, e de que maneira. 

A Buah Naga (fruta dragão por o seu exterior ser parecido com a pele de dragão), embora atraente por dentro e por fora, é uma fruta desensabida a saber anada, que não justifica qualquer investimento, a não ser a curiosidade.

08.02.2019 - Até que enfim!...

Até que enfim o orçamento geral do estado 2019 foi aprovado. 

Um parto difícil mas muito desejado. Já lá vão passados quase nove meses, e era realmente o tempo de dar à luz. Até eu que teoricamente nada tenho a lucrar com esta aprovação, tenho sentido a ansiedade que este atraso tem provocado. Sempre a mesma explicação a qualquer solicitação: “não há dinheiro porque ainda não foi aprovado o orçamento”. 

O espectro de ter de enfrentar a vida em regime de pagamento de duodécimos aflige todos os sectores, sobretudo as gentes mais necessitadas, porque quem ganha bem tem reservas que lhe permitam qualquer oscilação económica. Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Por isso penso em todos os pobres deste país, os mais carentes e necessitados, que precisam do pão para a boca como do ar para respirar.

Oxalá que este orçamento seja benéfico para toda a gente, Que os governantes tenhama sensibilidade e a coragem de, com ou sem protocolos, acudir às necessidadesbásicas de cada povo, de cada pessoa. E estou a pensar na canção do Sérgio Godinho: “a paz, o pão, saúde e habitação...”

08.02.2019 - Sicut Magister

O amigo Gaspar começou hoje as suas aulas de direito na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste). 

Com o grau de mestre e a preparar o doutoramento, esta é uma das etapas necessárias: trabalho de campo que o Gaspar, com orientação da universidade de Coimbra, decidiu que fosse na sua terra natal, aqui em Timor. Assim poderá ser útil ao seu país, enquanto que esta experiência enriquecerá também o seu currículo.

Com alunos do terceiro e quarto anos, com salas cheias, o novo professor debita palavras e palavras que vão dando formação e engenho a estes jovens ouvintes. Já se queixa que a voz lhe falha, que as cordas vocais se esforçaram demais, que assim vai perder a voz. Ossos do ofício meu amigo! Eu bem lhe digo que compre rebuçados "Bayard”... Que trate do que é seu, porque “rouxinol sem bico não pode cantar”.

Tenho a certeza de que ele vai cumprir fielmente a sua missão...

09.02.2019, sábado - Tão perto e tão longe

Uma das prioridades da nossa ação em Timor Leste é a Escola de São Francisco em Boebau, que dista mais ou menos a oito quilómetros de Liquiçá, e que se demora à volta de duas horas para percorrer este caminho.

É sempre nossa intenção irmos a Boebau o mais rápido possível, o que desta vez ainda não aconteceu. Informaram-nos que, devido às chuvadas de que este tempo é fértil, os caminhos estão intransitáveis, andando os populares a deitar terra para que se possa passar. 

Aguardamos melhores notícias para que logo que possível, possamos rumar para as montanhas de Liquiçá, com destino a Manati / Boebau.

09.02.2019 - Ajudas divinas

Quem diria que o programa de apadrinhamento de crianças e jovens necessitados, começado em princípios de Maio de 2016 , tivesse o alcance até agora demonstrado?

Neste momento há quarenta e dois “apadrinhamentos”, e mais alguns que estão àespera de serem concretizados. Graças a este programa algumas crianças voltaram à escola e alguns jovens conseguiram entrar ou continuar na universidade. 

Cada padrinho / madrinha tenta apoiar o seu afilhado(a) da forma que achar mais conveniente, embora saibamos que o apoio económico é dos mais desejados. Oobjetivo deste programa é claro: criar laços, relações afetivas e culturais; dar apoio noincremento e divulgação da língua portuguesa.

Hoje mesmo tivemos a alegre notícia de um apadrinhamento vindo de uma família venezuelana, a viver em Portugal. Graças também a este apoio a Eza (Zinomia), uma jovem linda e muito inteligente, vai regressar à universidade para continuar os seus estudos. Mas há mais que esperam ansiosamente por estas “ajudas divinas”.

E quanto a nós só temos de nos congratular e agradecer a Deus ter posto a Adobe no meu caminho, e ter dado origem a este ato solidário de se poder ajudar quem mais precisa.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


Timor-Leste > Liquiçá / Manati / Boebau > 22 de março de 2025 > Visita do 1º ministro Xanana  Gusmão à Escola de São Francisco de Assis

A foto e a legenda é da página do Facebook do Nunes José Nunes Martins, com data de 27 de março ·

"Imagem com história verdadeira:  Primeiro Ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, visita surpresa e celebra com a comunidade o 7ºaniversário da Escola São Francisco de Assis "Paz e Bem". Rui Chamusco sorri ao ver Xanana com tanto interesse na concertina aos ombros da menina que alegremente o recebe.

A imagem vale por mil palavras! (Nota: trata-se uma das  imagens oficiais do Governo de Timor!)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem


Lisboa > Largo da Madalena > 15 de novembro de 2009 > Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena... Se não forem os nossos amigos calceteiros, portugueses, de origem cabo-verdiana, já não há ninguém a faça... F*da-se, dá cabo das costas e dos joelhos!

Foto (e legenda): Luís Graça (2009). Direitos reservados


A maratona da amizade e da camaradagem

por Luís Graça

O João Crisóstomo
o mais famoso dos mordomos portugueses de Nova Iorque,
e agora régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona,
instituiu o dia 14 de fevereiro 
como o Dia da Amizade... e da Camaradagem (*), 
Pois que seja o Dia do Camarigo, por causa das confusões.

E eu lembrei-me da maratona
que vamos fazendo,
trilhando velhas picadas, 
cada um até ao seu dia,
cada um de nós, os amigos e camaradas da Guiné.
Lembrei-me, 
revisitando um velho, longo poema
que estava no baú das minhas blogarias (**).

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
A amizade e a camaradagem
(que só pode existir na guerra
e noutras situações-limite).

É verdade, Abel, Abílio, Acácio, Adão, Adelaide, Adelino, 
Adélio, Adolfo, Adriano, Afonso, Agostinho ?!

Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões ?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ? Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas  ?
A paz e a guerra ?

 ... Albano, Albertino,  Alberto, Alcides, 
Alexandre, Alfredo, Alice, Almeida,   

Ou tudo isso é letra morta, treta?!
Que os amigos conhecem-se
na adversidade, diz o provérbio.

Almiro,  Altamiro, Álvaro, Amaral, Amaro,  
Américo,  Amílcar, Ana, Anabela,  
Angelino Aníbal, Anselmo, Antero ?!

E os camaradas, na guerra,
dizia o senhor doutor Lobo Antunes.
E os colegas nas tainadas e nas putas,
dizia o teu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.

Dizem que sim com a cabeça, 
António, Arlindo, Armandino, Armando, 
Arménio, Armindo,  Augusto, Áurea

Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.


Sairá ou não,
Belarmino, Belmiro, Benito, Benjamim, 
Benvindo, Bernardino, Braima ?!

Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da tua rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,


que poderia ter sido escrito
o que é que vocês acham ?!,
p'lo Campelo, Cândido, Carlos,
se tivessem nascido em Macau,
filhos desventrados e desventurados
do Fernão Mentes Minto ?!

Oh, Galissá, Galissá, 
que no céu se fazem amigos;
e, no inferno da guerra, inimigos,
canta o poeta, cego, da tua rua,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Gabu.

Lembram-se Carmelino, Carvalhido, Casimiro, 
Cátia, Célia, César, Cherno, 
Cláudio, Conceição, Constantino, Cristina ?!

Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente,
que era o nome de guerra de alguém,
quando bom escoteiro em Ingoré, 
lá no Norte da Guiné.

Pelo menos assim te contaram, 
Daniel, David, Delfim, Diamantino. 

Não, vocês, não passaram por Ingoré.
Mas passaram por outros sítios da Guiné 
onde Jesus Cristo nunca parou.
Nem Alá.

Diana, Dina, Domingos,  Duarte e Durval.

No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa é a verdade,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião de quem em Bissorã teve um cão.

Dizem que um cão é uma boa companhia,
Edgar, Eduardo, Egídio, Ernestino, Ernesto, 
Estêvão, Eugénio, Evaristo,
que nunca tiveram cão de guerra.

Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade,
E os camaradas a camaragem.
E os camaradas que são amigos
a camaradagem.

Felismina, Fernandino, Fernando, 
Ferreira, Filomena, Fradique.

Tal como os caminhos que, se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas, moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, bagabagas, 
cabeços, colinas, montanhas.

Vero ?!... Gabriel, Garcez, George, Germano, 
Gil, Gilda, Gina, Giselda.

Ou na versão de um velho homem grande, 
mandinga de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
"a amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias".
Disse-te ele um dia.

Gonçalo, Graciela, Gualberto, 
Guilherme, Gumerzindo, Gustavo.

Não aceito que digas:
"Amigo não empata amigo",
porque o amigo é isso,  
tens toda a razão, camarigo,
que o amigo é para se usar, se guardar
e se resguardar.

 
Achas que sim ou que não ?!, 
Hélder, Henrique, Herlânder, 
Hernâni, Hilário, Hugo, Humberto. 

Para se resguardar das pontadas de ar, 
dos tiros tensos do canhão sem recuo 
e das emboscadas
e dos estilhaços do "jato do povo"-
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma da picada armadilhada.

Ah!, Idálio, Ildeberto, Inácio, Inês,
Ah!, Isabel, Ismael... 

A amizade não é um objecto descartável,
manda o profeta dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego, antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.

Ah!, Jota A, Jota C, Jota F, Jota L., Jota M.
 
E já que tens físico amigo,
queres dizer médico no antigamente,
manda-o a casa do teu inimigo.
Escreveu o Dom Dinis, 
que foi rei, e régulo da Tabanca da Linha, 
e já morreu, em plena pandemia,
mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer,
além do pinhal de Leiria.
Quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Ah! Jacinto, Jaime, Jean, Jéssica, João
Joaquim, Jochen,
será que vocês assinam por baixo ?

Mas, atenção, 

amigo disfarçado, inimigo dobrado.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta, 
Jorge ?

Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mano,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?

Que se percam, pouco importa!
proclama pela telegrafia sem fios
o coro dos Josés de A a Z

Não sei o que é que vocês pensam:
"Os amigos têm prazo de validade" ?

Joviano, Júlia, Júlio, Juvenal.
 
Uma questão que nada tem de metafísica:
ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.


Lázaro, Leão, Leonel, Lia, 
Libério, Lígia, Luciana, 
Luciano, Lucinda, Luís com s ou com z, 
conforme o desacordo ortográfico.

Amigo, vinho e azeite... o mais antigo,
garante quem passou por Buruntuma
onde não havia azeite (ou se o havia, era o de dendê)
nem vinho... mas havia amigos.

Mamadu, Manuéis de A a Z,  
Margarida, Maria, Mário.

O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o outro Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farás dos teus novos amigos, Virgílio,
que não fazem anos no mesmo dia que tu ?

Marisa, Marta, Martins, 
Maurício, Maximino, Melo, Miguel,
 
Faz como o vinho, Zé Manel da Régua,
se for bom mete-o a envelhecer
em cascos de carvalho.
Francês.
Ou castanho.
Português.
A amizade não tem pátria 
Nem é chauvinista. 
Nem é racista.

Garantem o Natalino, o Nelson, o Norberto, 
mais o Nunes e o Nuno,

E por que é que os amigos dos teus amigos 
teus amigos são ?
É como os filhos do teu filho, serão dele ou não…
Que ao menos,
Jorge, 
cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sabem vocês, 
que sabemos nós, 
amigos e camaradas da Guiné ?!
Só sabíamos do desalento, 
e do vento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos do mato, 
os camaradas mortos,
às costas...


Orlando, Orlando, Osvaldo, Otacílio.

Só damos valor às coisas,  
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.
E já perdemos tantos, "alfero" Cabral",
tantos de A a Z
camaradas como tu e o António, 
ou amigas como a Zélia!

São tantos os estereótipos, 
amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
E os camaradas.

Pacífico, Patrício, Paula,  Paulo, Pedro.

Sem falar do 'Nino', e do Pires, e do Mané, e do Manecas, e do Indjai, 
dos teus inimigos, que, esses, afinal
eram os mais previsíveis,
estavam sempre do outro lado da ponte...

Que à volta eles cá te esperam,
Amílcar Cabral,
aliás Abel Djassi.
Bolas, vocês até podiam ter sido,
se não amigos,  bons vizinhos!
Que camaradas, salvo seja,
cada "dari" ou chimpanzé no seu galho!
Que chimpanzé não é macaco,
era ferreiro castigado por Alá 
por trabalhar ao sábado 
e andar a fazer drones e espadas de guerra
em vez de arados para lavrar a terra.

Ramiro, Raul, Ribeiro, Ricardo, 
Rogé, Rogério, Rosa, Rui.

Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Djaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos "tugas",
tu a quem já te acusaram de mercenário.

Mas vale a morte que tal sorte, Marcelino,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, 
devias ter voltado para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão
Zé Carlos Suleimane Baldé.

O próximo teste,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão, ao comprido:
será que lá terás todos os gatos pingados da companhia ?

Sadibo, Santos, Sebastião, Sérgio, Serra,  
Silvério, Sílvia, Sílvio, Souleimane, Sousa, Susana, 

Antes boa que má companhia, 
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro,
que chegou a "mandjor"...

Tibério, Timóteo, Tina, Tomané, Tomás, Tony.

Afinal, quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
leste uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.

Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar,
Carlos ?
Longe da cidade, tanto melhor, diz o
Vinhal,
que é da vila de Leça da Palmeira.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo, 
e mesmo que se chame José, o viking.

Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.

Os camaradas, comandos, páras e fuzos, dizem: 
"Connosco ninguém fica para trás"...
Aquele que te tira do perigo, é teu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha...
Defeitos do teu amigo ?

Lamento, meu caro Mário, mas não maldigo
o teu nome de guerra, "Tigre de Missirá"
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Patrício,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico mortal.
Ou de fobia,
acrescenta aí, "Duque do Cadaval".

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo  Jaquim,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e de Caim.
Afinal foi Jesus Cristo que nos mandou
amar a Deus acima de todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos.
Mas parece muito mais fácil 
cumprir o primeiro mandamento do que o segundo,
dizia o camarigo  Jero
Ora, bolas, como podemos amar a Deus que não vemos, 
se não amarmos o próximo que está à nossa frente, 
pergunta o capelão Puim?!

Guardem-se, entretanto, do alvoroço do povo, 
todo os Josés e todo os Joões,
mais os Martins,
e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo 
do que o mês de julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua,
Lena, Hiena, de Bafatá.

Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto Jorge dos Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais,
ó herói de Gadamel, agora tabanqueiro na Maia;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Onde é que já leste isto, Gil,
da Tabanca dos Melros ?

Valente, Valentim, Vasco, Victor (com c e sem c).

Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
O Torcato Mendonça "dixit", 
da sua janela do Fundão
que dava para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a Cova da Beira.

Vilma,Virgílio, Virgínio,   Zé.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem,
escreveste tu isto no teu diário,
nas páginas dos feriados 
e dos Dias de Todos os Santos guerreiros...

Mas não menos sábia 
do que a do teu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
o vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
"Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
'O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer'".

Resta-nos a agridoce memória do passado,
as toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolama a Buba,
de Gandembel a Guileje,
de São Domingos a Catió,
sem esquecer o Cheche, 

e o Paulo, e o Rui, e o Aparício 

O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar, 
conclui o cadete da Academia,
na fria pedra de mármore de Vila Viçosa.

Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!

Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para ti, não é como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória, da fama, da riqueza 
ou da eternidade,
lá no Olimpo dos Camarigos

Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E "In Hoc Signo Vinces".

Não, nunca digas:
"Chega-te para lá, que me tapas o meu sol".
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,

Arminda, Rosa, Áurea, Giselda, Ivone, Zulmira,

para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
se elas não estiverem vazias,
diz o teu guru do Tibete, agrilhoado.
Os amigos escolhe-os tu,
os parentes são os que Deus te deu.
Quando estás certo, ninguém se lembra;
quando estás errado, ninguém esquece.

Amigos e camaradas paraquedistas,
poucos e loucos mas bons,
que não são do arre-macho
nem da tropa-macaca,
que também é gente e primata,

Volta o teu rosto na direção do sol, 
tu, Miguel, que és o mais "strelado" de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás, 
E não caias do céu aos trambolhões, 
tu, tenente pilav que chegaste a general.

À laia de conclusão,
amigos e camaradas da Tabanca Grande, de A a Z,
sintam-se todos evocados e convocados,
para esta maratona da amizade e camaradagem.
E honrados.

Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
"Para os erros alheios,  
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios, 
os olhos da toupeira".
 
 
PS - Requiem para os amigos e camaradas da Tabanca Grande
que já se despediram da Terra da Alegria

A. Marques Lopes (1944-2024) 
Agostinho Jesus (1950-2016) 
Alberto Bastos (1948-2022) 
Alcídio Marinho (1940-2021) 
Alfredo Dinis Tapado (1949-2010) 
Alfredo Roque Gameiro Martins Barata (1938-2017) 
Amadu Bailo Jaló (1940-2015) 
Américo Marques (1951-2019) 
Américo Russa (1950-2025) 
António Branquinho (1947-2023)
António Cunha ("Tony") (c.1950 - c. 2022)  
António da Silva Batista (1950-2016) 
António Dias das Neves (1947-2001) 
António Domingos Rodrigues (1947-2010) 
António Eduardo Ferreira (1950 - 2023)
António Estácio (1947-2022) 
António José Matias (1949-2022)
António Manuel Carlão (1947-2018) 
António Manuel Martins Branquinho (1947-2013) 
António Manuel Sucena Rodrigues (1951-2018) 
António Medina (1939-2025) 
António Rebelo (1950-2014) 
António Teixeira (1948-2013) 
António Vaz (1936-2015) 
Armandino Alves (1944-2014) 
Armando Tavares da Silva (1939-2023) 
Armando Teixeira da Silva (1944-2018) 
Augusto Lenine Gonçalves Abreu (1933-2012) 
Aurélio Duarte (1947-2017) 

Carlos Alberto Machado Brito (1932-2025)
Carlos Alberto Cruz (1941-2023) 
Carlos Azeredo (1930-2021) 
Carlos Cordeiro (1946-2018) 
Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai) (1929-2021) 
Carlos Filipe Coelho (1950-2017) 
Carlos Geraldes (1941-2012) 
Carlos Marques dos Santos (1943-2019) 
Carlos Rebelo (1948-2009) 
Carlos Schwarz da Silva, 'Pepito' (1949-2012) 
Carronda Rodrigues (1948-2023) 
Celestino Bandeira (1946-2021) 
Clara Schwarz da Silva (1915-2016) 
Cláudio Ferreira (1950-2021) 
Coutinho e Lima (1935-2022) 
Cristina Allen (1943-2021) 
Cristóvão de Aguiar (1940-2021) 
Cunha Ribeiro (1936-2023) 
Daniel Matos (1949-2011) 
Domingos Fernandes (1946-2020) 
Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) 
Elisabete Silva (1945-2024) 
Ernesto Marques (1949-2021) 

Fernando Brito (1932-2014) 
Fernando Calado (1945-2025)
Fernando Costa (1951-2018) 
Fernando [de Sousa] Henriques (1949-2011) 
Fernando Franco (1951-2020) 
Fernando Magro (1936 - 2023) 
Fernando Rodrigues (1933-2013) 
Florimundo Rocha (1950-2024)
Francisco Parreira (1948-2012) 
Francisco Pinho da Costa (1937-2022) 
Francisco Silva (1948-2023)
França Soares (1949-2009) 
Gertrudes da Silva (1943-2018) 
Horácio Fernandes (1935-2025)
Humberto Duarte (1951-2010) 
Humberto Trigo de Xavier Bordalo (1935-2024) 
Inácio J. Carola Figueira (1950-2017) 
Isabel Levezinho (1953-2020) 
Ivo da Silva Correia (c. 1974-2017) 

João Barge (1945-2010) 
João Cupido (1936-2021)
João Caramba (1950-2013)
João Diniz (1941-2021)
João Henrique Pinho dos Santos (1941-2014)
João Meneses (1948-2020)
João Rebola (1945-2018) 
João Rocha (1944-2018) 
João Silva (1950-2022)
Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010) 
Joaquim da Silva Correia (1946-2021) 
Joaquim Peixoto (1949-2018) 
Joaquim Sequeira (1944-2024) 
Joaquim Vicente Silva (1951-2011) 
Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015) 
Jorge Cabral (1944-2021) 
Jorge Rosales (1939-2019)
Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) 
José António Almeida Rodrigues (1950-2016) 
José António Paradela (1937-2023) 
José Augusto Ribeiro (1939-2020) 
José Barreto Pires (1945-2020) 
José Carlos Suleimane Baldé (c.1951-2022) 
José Ceitil (1947-2020) 
José Eduardo Alves (1950-2016) 
José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021) 
José Fernando de Andrade Rodrigues (1947-2014) 
José Luís Pombo Rodrigues (1934-2017)
José Manuel Amaral Soares (1945-2024)
José Manuel Dinis (1948-2021) 
José Manuel P. Quadrado (1947-2016) 
José Marcelino Sousa (1949 - 2023) 
José Martins Rosado Piça (1933-2021) 
José Maria da Silva Valente (1946-2020) 
José Marques Alves (1947-2013) 
José Moreira (1943-2016) 
José (ou Zé) Neto (1929-2007) 
José Pardete Ferreira (1941-2021) 
Júlio Martins Pereira (1944-2022) 

Leite Rodrigues (1945-2025) 
Leopoldo Amado (1960-2021) 
Leopoldo Correia (1941-2024)
Libório Tavares (Padre) (1933-2020) 
Lúcio Vieira (1943-2020) 
Luís Borrega (1948-2013) 
Luís Encarnação (1948-2018) 
Luís Faria (1948-2013) 
Luís F. Moreira (1948-2013) 
Luís Henriques (1920-2012) 
Luís Rosa (1939-2020) 
Luiz Fonseca (1949-2024)
Mamadu Camará (c. 1940-2021) 
Manuel Amaral Campos (1945-2021) 
Manuel Carneiro (1952-2018) 
Manuel Castro Sampaio (1949-2006) 
Manuel Dias Sequeira (1944-2008)
Manuel Marinho (1950-2022) 
Manuel Martins (1950-2013)
Manuel Moreira (1945-2014) 
Manuel Moreira de Castro (1946-2015) 
Manuel Varanda Lucas (1942-2010) 
Manuel Gonçalves (Nela (1946-2019 (*) 
Marcelino da Mata (1940-2021) 
Maria da Piedade Gouveia (1939-2011) 
Maria Ivone Reis (1929-2022) 
Maria Manuela Pinheiro (1950-2014) 
Mário de Oliveira (Padre) (1937-2022) 
Mário Gaspar (1943-2025)
Mário Gualter Pinto (1945-2019)
Mário Vasconcelos (1945-2017)
Nelson Batalha (1948-2017) 
Nuno Dempster (1944-2026)
Nuno Rubim (1938-2023)

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021) 
Paulo Fragoso (c.1947-2021) 
Queta Baldé (1943-2021) 
Raul Albino (1945-2020) 
Renato Monteiro (1946-2021)
Regina Gouveia (1945-2024) 
Rogério da Silva Leitão (1935-2010) 
Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022) 
Rui Baptista (1951-2023) 
Suleimane Baldé (1938-2025)
Teresa Reis (1947-2011) 
Torcato Mendonça (1944-2021)
Umaru Baldé (1953-2004) 
Valdemar Queiroz (1945-2025)
Vasco Pires (1948-2016) 
Veríssimo Ferreira (1942-2022) 
Victor Alves (1949-2016) 
Victor Barata (1951-2021) 
Victor Condeço (1943-2010) 
Victor David (1944-2024) 
Vítor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) 
Xico Allen (1950-2022) 
Zélia Neno (1953 - 2023)
_________

Luís Graça (2009). O original foi escrito num noite de insónias,
há muitos anos (**).

Revisto e melhorado em 14/3/2026,
o dia em que a minha neta Rosa Klut Graça começou a andar,
às 20:15, na casa da Graça.
30 pequenos passos de gigante.
O primeiro "sprint" da sua vida. Aos 13 meses e meio.
E eu, por sorte, registei em vídeo esse momento único.
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

João, já existe o Dia Internacional do Amigo e da Amizade. A Assembleia Geral das Nações Unidas resolveu convidar todos os países membros a celebrar o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho. Só temos 365 dias por anos (mais um,  nos bissextos). O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é...Grande. Por causa das confusões, fica o Dia do Camarigo, no dia 14 de fevereiro.

(**) Vd. poste 21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

(***) Último poste da série > 
16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!