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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28385: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XLI: Porto Gole, na margem direita do rio Geba (1)


Foto nº 1 e 1A > Vista aérea de Porto Gole, e da sua pista de aviação (!), à direita, com a bolanha ao fundo



Foto nº 2 e 2A > Porto Gole >  Quartel, pau da bandeira e monumento ao pessaol da CART 1611 (1066/68) (a que pertenceu o nosso camarada Abel Rei). O edifício ocupado pelas NT era a antuga casa do chefe de posto mais o celeiro local. Como aconteceu em muitas outras povoaçóes.  Com o início da guerra, e sobretudo a partir de 1963, a adminisytração civil ficou desarticulada...





Foto nº  3  e 3A > Quartel ao tempo da CART 2411 (Porto Gole, Bissá e Enxalé, 1968/70). Antiga casa do chefe de posto.


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI)] 




Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > s/d > E tudo o vento dfa História levou... Foto muito posterior à independència... As antigas instalações (casa do chefe de posto + celeiro, depois quartel das NT) em estado de completa ruina. A casa estava virada para o  rio (que se vê ao fundo). Imagem restaurada pela IA (ChatGPT / OpenAI), a partir de fotos de Patrício Ribeoiro (2019) e de Mário Beja Santos (s/d).



O antigo alferes graduado
capelão José Torres Neves

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pertenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). 

Hoje missionário da Concordata, reformado e nonagenário, José Torres Neves é natural de Penamacor,
a terra também do nosso atual Presidente da República, 
António José Seguro e de figuras históricas como o Sanches Ribeiro, o maior médico portuguès do séc. XVIII e uma das grandes referèncias do Iluminismo europeu.

O espólio fotográfico do José Torres Nerves tem estado à guarda do seu e  nosso amigo e camarada Ernestino Caniço (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, Fev 1970/Dez 1971; hoje, médico, foi diretor do Hospital de Tomar, 6 anos, de 1990 a 1996, e diretor clínico cumulativamente 3 anos, de 1994 a 1996, vivendo então em Abrantes; hoje vive em Tomar).
 

Excerto de foto
 do Abel Rei (2002)

Com este publicamos o poste nº 41 (em numeração romana, XLI). Já devemos ter publicado perto de 3 centenas de imagens, obtidas a partir do álbum do nosso amigo e camarada, antigo capelão. 

Tratando-se de "slides" digitalizados, as fotos em geral têm boa qualidade e resolução, permitindo-nos fazer "recortes de detalhes", como é o caso da presentes fotos  (melhoradas com recurso à IA).

Graças à paixão do padre José Torres Neves pela fotografia e ao seu amor pela Guiné e a sua gente, temos no nosso blogue uma documentação de excecional valor sobre o sector O4 )Peste 4) (Mansoa) ao tempo do BCAÇ 2885 (1969/71).

Nas fotos nºs 2 e 3 vê-se o monumento aos bravos da CART 1661 (enão aos "mortos"), que aqui estiveram em 1967/68. (A IA não conseguiu reproduzir com fidelidade a inscrição no monumento; também não se pode exigir que... adivinhe, quando a resolução das fotos é baixa; compare-se  a leitura da IA com a inscrição ao lado:  "Para testemunho de fé e de trabalho  do povo balanta (?)"... Hilariante!..

Esta visita do capelão deve ter sido feita em julho / agosto de 1969, quando se faz na Guiné o plantio do arroz (a recolha é em novembro, dezembro, janeiro); em Porto Gole estava então a CART 2411 que foi rendida em 5 de março de 1970 pela CCAÇ 2587 / BCAÇ 2885.  Deve ter-se deslocado de avioneta, de Mansoa até Porto Gole (foto nº 1). Visitou Bissá, indo até lá de sintex (!)...O nosso capelão não era homem para "capinar sentado", como se diz no Brasil. Foi a todos os sítios onde havia gente que  precisava dos seus cuidados espirituais.



Excerto da foto original do
José Torres Neves (2026)
Em 07nov68, rendendo a CART 1661,  a  CART 2411 assumiu a responsabilidade do subsector de Porto Gole, com destacamentos em Bissá e Enxalé (este até à suapassagem para a zona de acção do BCaç 2852,sector L1, Bambadinca,  em 290ut69) e ficando integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 1912 e depois do BCAÇ 2885.

O João Crisóstomo (que pertenceu à CCAÇ 1439, 1965/67) vai ficar feliz ao rever o Porto Gole do seu tempo... E o Abel Rei também. (Temos mais fotos.)

Guiné 61/74 - P28384: Tabanca da Diáspora Lusófona (45): O regúlo que chega à terra dos seus antepassados Crisóstomos & Crispins para passar o outono /outubro connosco...



Foto nº 2


Foto nº 2

Guiné > Região do Óio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965-67) > s/d > O alf mil João Crisóstomo  e o capitão de 2.ª linha Abna Na Onça. A foto nº 2, original, é a preto e branco, e faz parte do álbum João Crisóstomo, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67). Restauro, melhoria técnica e colorização digital: ChatGPT/OpenAI, 2026.   Na colorização procurou-se, tanto quanto possível, respeitar as características das fardas da época: João Cristóvão surge com a farda de trabalho n.º 3, de sarja, mais para o branco sujo. Abna Na Onça com farda camuflada verde.  A foto nº 1 é uma montagem também com recurso à IA (ChatGPT/OpenAI), a partir de uma foto do padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (de um lote de fotos sobre Porto Gole, a publicar dentro de dias)  e da foto nº 2, original, do João Crisóstomo (2019).



Guiné > Carta de Fulacunda (1955) > Escala 1/50 mil > Pormenor: posição relativa de Porto Gole e Bissá, e de outras povoações na margem direita do rio Geba, algumas abandonadas com a guerra.

Segundo o nosso camarada Abel de Jesus Carreira Rei, autor do livro "Entre o Paraíso e o Inferno: De Fá a Bissá: Memórias da Guiné, 1967/1968" (Prefácio do ten gen Júlio Faria de Oliveira, edição de autor, 2002, 171 pp. Execução gráfica: Tipografia Lousanense, Lousã), a ocupação de Bissá pelas NT remontava a 7 de abril de 1967. 

Passaria a ser um destacamento, guarnecido por um pelotão (-) da CART 1661 e uma companhia (-) da Polícia Administrativa de Porto Gole, comandandada pelo valente capitão de 2ª linha, e régulo balanta, Abna Na Onça.  

Uma semana depois, na noite de 14 para 15 de abril de 1967, um ataque do PAIGC a Bissá, de duas horas,  faria sete mortos e cinco feridos. Entre os mortos, contou-se o Abna Na Onça.  Na sequência deste desastre, o destacamento foi (temporariamente) abandonado e depois reocupado pelas NT.

Infografia; Blogue Luís Graça & Canmaradas da Guiné (2019) 

 1. É uma pequena homenagem ao nosso amigo e camarada, luso-americano, João Crisóstomo, que acabou de chegar este fim de semana de Nova Iorque, terra onde vive há meio século: como muitos outros  camaradas nossos, depois da "peluda" (em 1967), correu mundo à procura de melhores condições de vida. Acabou por ir parar à Terra do Tio Sam, onde nasceram os seus dois filhos. Em 2013 casou, em segundas núpcias, com  s nossa amiga,  a esloveno-americana Vilma Kracun, que também se senta à sombra do nosso poilão.

O João é uma figura conhecida de (e estimada por)  todos nós. Vem regularmente a Portugal. É o régulo, "por decreto", da Tabanca da Diáspora Lusófona.

Recentemente, mandou-me um mail a que, indecentemente, ainda não respondi. Estive fora do "escritório", mais de 3 semanas (no Norte, nas vindimas).

Resumo do mail: (i) o João propõe almoço de aniversário do Manuel Resende a 10 de outubro, sábado, no restaurante Caravela de Ouro; e (ii) solicita envio de cartas físicas ao Primeiro-Ministro de Portugal protestando contra o projeto de exploração mineira em Peniche.

Ele não conseguiu chegar a tempo de participar, como tencionava, no último almoço-convívio da Tabanca da Linha no passado dia 24 de setembro. Quer, entretanto, tirar o máximo partido da sua estadia em Portugal. Tem já uma agenda cheia. Vamos a ver como conseguiremos compaginá-la com a nossa e a de outros camaradas e amigos.

Data - 06/09/2026, 09:23

Assuntos - Dois assuntos : um deles , um "SOS"! Paremos a "mina de desgraças" em Portugal!


(...) "Quando já tinha comprado os bilhetes de viagem e tudo o mais, recebi instruções para estar livre durante a semana da Assembleia Geral das Nações Unidas para poder encontrar-me com um dos participantes que quer falar comigo.´

Só poderei ir nos últimos dias de setembro, e vou estar aí o mês de outubro. Mas não quero deixar de fazer coisas importantes como o de me encontrar com os familiares e amigos que estiverem ao meu alcance durante o mês de outubro.

Como o Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha, faz anos no dia 10 de outubro, um sábado, eu gostava de o ver nesse dia e pergunto-me se seria possível convidar quem  estiver disponível... Podíamo-nos encontrar então nesse dia para almoçar no mesmo restaurante, o Caravela de Ouro, onde ele organiza os convívios da Tabanca da Linha. Para simplificar cada um pede o que quiser do menu normal da casa e cada um paga por si… Que achas ? Diz algo sim? (...)"


Por outro lado, o João  não deixou, em Queens, Nova Iorque, as suas "armas de ativista social"... Onde há um "boa causa", direta ou indiretamente relacionada com a sua terra natal, e a terra dos seus antepassados Crisóstomos &  Cripins, que até Torres Vedras, Oeste, Estremadura, Portugal, ele aí está, inquieto e pronto para inquietar-nos e mobilizar-nos para a ação.

(...) "Segundo: muito importante, sobre essa malfadada mina de desgraças que estão a pensar explorar em Portugal. E logo pertinho de nós, no Oeste … Essa... Não!
´
Aqui vai o que estou a fazer e a enviar a todos a quem posso chegar. Neste caso os meus camaradas da Guiné, na esperança de que cada Tabanca participe, e cada régulo envie uma carta (real de papel, com selo, pelo correio normal), e   cada carta com várias assinaturas, ao nosso Primeiro Ministro (...)

Segue, no mail,  a minuta, que depois divulgaremos, por mail, se for caso disso: temos de fazer o ponto da situação e concertar estratégias, além de discutir se essa petição pública tem cabimento no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, tendo em conta as nossas regras editoriais.

Para já saúdo, em meu nome pessoal e da Alice,  bem como de toda a Tabanca Grande, a chegada do João e da Vilma, que entretanto espero  poder abraçar e com eles "partir mantenhas"  dentro de  dias na Lourinhã, que é uma extensão da sua terra natal.

 Welcome to Portugal, John and Vilma!

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), Queens, New York, USA, to John (Bonifacio), Oshawa, Ontario, Canada




Bandeiras de Portugal, Canadá e EUA
 
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

João Crisóstomo.
Cartoon: Gemini IA / Google + LG

1. Mensagem que o João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, mandou a partir da sua casa em Queens, Nova Iorque, para o João Bonifácio, que vive em Oshawa, 60 km a nordeste de Toronto, Onta5rio, Canadá, e  que foi fur mil SAM,  CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (*):


Sent: Monday, August 24, 2026 5:46 AM
To: John Bonifacio 
Subject: Hello de Nova Iorque

Caro Bonifácio,

Oxalá recebas este. Manda-me o teu número de telefone para podermos cavaquear um pouco, Ok? Se quiseres, o meu telefone é o (...),

Um grande abraço dum velhote ( eu sou de 1965-67) e já fiz os meus 82… E, como tu, acarretando as maleitas de que falas…

João, Nova Iorque
John Crisostomo

2. O João Bonifácio (de quem, espantosamente, ainda não temos nenhuma foto atual no blogue...) respondeu nestes termos (conforme cópia que o João Crisóstomo  nos facultou):
 

 On Aug 24, 2026, at 11:30 PM, John Bonifacio wrote:

Olá, John,

Acuso recebido o teu e-mail, que agradeço e me admiro do teu interesse em comunicar comigo. Lembro-me dos e-mails anteriores e nunca percebi como chegaste à minha morada, e do mesmo modo, como tens passado a tua vida, e com os contatos que ganhaste ao longo da vida.

Os meus 81 anos e as dores nas pernas como resultado do Covid19, tiram-me um pouco da liberdade que sempre tive de explorar outros terrenos. Sou uma pessoa pacata que um dia resolveu escrever as suas histórias na Guiné-Bissau. Não sei se foi por aí que tudo iniciou, mas na verdade, apenas tenho uma vaga ideia do teu passado, dos trabalhos, como vieste para os USA. Aliás o teu currículo ~´e muito rico e variado, e por isso eu,  não sabendo dos detalhes, achei que não seria correto trocar ideias por este meio.

Estou no Canadá desde fevereiro de 1974, mas não sei porque aqui vim parar. Talvez porque sabia de tudo do nosso 25 de Abril e,  mesmo não sendo politico, tive o meu primeiro trabalho em Lisboa como escriturário do Dr Arlindo Vicente, que com o gen Humberto Delgado formaram as candidaturas para Presidente da Republica , em 1958.

Nessa altura estudava eu em Castelo Branco.

A partir desta altura, foi um desenrolar de emoções, que vou deixar para outra vez. Hoje foi um dia complicado e perdoa por ter de parar por aqui. Voltarei em breve.

Um abraço e Obrigado.
João


3. Resposta do João Crisóstomo ao João Bonifácio (e que partilhou connosco, recebida por nós na terça, 25/08/2026, 13:15):

Bom dia, Bonifácio,

"Me admiro do teu interesse em comunicar comigo": comungar a nossa vida com outros parece-me ser a coisa mais natural deste mundo. Faz parte do nosso ADN. Creio que qualquer pessoa que se encontrasse numa ilha sozinho, numa situação de completo isolamento, a coisa que mais desejaria seria não só o de encontrar alguém, como de poder partilhar —dar e receber —a sua vida com outros. 

Portanto não te admires do meu interesse de comunicar. Ao fazê-lo estou dar seguimento a um instinto natural, de alguma maneira na esperança de um "viver mútuo”. Creio por exemplo que se alguém descobrir que outra pessoa precisa de alguma coisa (maneira de curar uma doença,satisfazer uma deficiência, "dar de beber a quem tem sede e de comer a quem tem fome”, e coisas assim), a primeira coisa que quer fazer é satisfazer essa deficiência, de poder talvez ajudar outros com a sua vida e ao mesmo tempo beneficiar da vida de outros. 

É isso que todos nós fazemos todos os dias conscientemente ou não. Relatar e escrever as nossas vidas e ler as experiências e vidas de outros …E por isso este nosso blogue veio preencher uma lacuna, agora bem mais pequena, quebrado que foi o isolamento em que muitos de nós, camaradas que fomos na Guiné, nos encontrávamos.

Espero com muito interesse a tua  história acerca da tua vivência no Canadá, onde chegaste  em fevereiro de 1974.
 
Depois do que escrevi , curioso, fui investigar no nosso blogue a tua participação. E vim a encontrar o muito que escreveste em 2007 e anos seguintes,  ainda eu nem sabia da existência deste blogue. "Shame on me"! (Que vergonha!),  como se costuma dizer, pois, se sou desculpado por não ter lido o que escreveste nessa altura, não tenho desculpas de não ter lido vários outros “posts” teus, inclusive sobre a tua experiência de teres regressado a Portugal e, desiludido, teres voltado de novo para o Canadá.

Mas agora não vou deixar de ler tudo isso. Tanto mais que eu, mais que uma vez, também cheguei a pensar voltar; mas por uma razão ou outra (várias, aliás) acabei sempre por decidir ficar por cá.

Bom! aqui fica mais uma vez o meu número de telefone (....).

Se me quiseres dar o teu número eu ligo-te e podemos falar pelo telefone, que é ainda a melhor maneira de cavaquear, possibilitando trocas instantâneas de informações nem sempre possíveis de outra maneira.

Um abraço amigo,
João


4. Publicaremos, em poste a seguir, a mensagem que o João Bonifácio escreveu com um resumo da sua história de vida. 

Recorde-se que o João Bonifácio foi, "de facto et de jiure", membro da nossa Tabanca Grande em 1/12/2006. Portanto é um dos nossos veteraníssimos (**). Embora, excecionalmente, não tenhamos nenhuma foto dele, atual, no blogue. Passa a ser também membro da Tabanca da Diáspora Lusófona (***)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28166 Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (10): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte I: Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte







"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"




1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral,  do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos... 

E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. 

O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote" como no Portugal de antigamente ( e ainda hoje, em certos grupos sociais); é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Estas duas palavras em tétum, fetosan e umane designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
  • Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
  • Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais),  arroz e dinheiro (prática conhecida como barlaque).
Não se trata, pois, de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. 

Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática".

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... 

Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"),  num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".


São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.


(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação). 

 Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". 

Em contrapartida, uma mulher que tentasse sê-lo,  era logo apodada de feiticeira, bruxa, adúltera, prostituta,   "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa)  a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun",
francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: 

  • a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); 
  • a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); 
  • a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); 
  • o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
  • a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. 

O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: 

  • fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; 
  • fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça,  quem está sob as luzes da ribalta;
  • fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos  bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
  • fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja,  de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)

 _______________


(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28160: S(C)em Comentários (91): As toponímias do Xime, estações do nosso calvário: Madina Colhido, Gundagué Beafada, Darsalame (Baio), Buruntoni, Ponta Varela, Poindom, Ponta do Inglês...


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L12 (Bambadinca) > Xime > CART 2520 (1969/70) > José do Nascimento em Madina Colhido (à esquerda) e o fur mil enf Costa (à direita) [Augusto Tavares Ribeiro Costa], equipado com pistola Walther

Foto (e legenda): © José Nascimento (2017). Todos os direitos resevados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário da Tabanca Grande Luís Graça (*):

Meu caro João: estava com insónias, editei o teu poste às tantas da madrugada... E de repente estava a reviver as estações do calvário do Xime... A minha alma ainda sangra quando "volto lá"... As mais trágicas recordações da Guiné estão associadas a toda essa toponímia: Madina Colhido, Gundagué Beafada, Darsalame (Baio), Buruntoni, Ponta Varela, Poindom, Ponta do Inglês...

E, no fim, eu dei a falar sozinho para comigo, teu editor, às 3 e tal da madrugada: 

- Bolas, tudo isto, para quê ? Esta maldita guerra, os mortos e os feridos do Xime, os teus, os meus, os de todos nós... Quantas vezes ao longo da guerra andámos por essas estações do calvário... Tu em 1965/67, eu em 1969/1970, outros depois... Porquê ? Para quê, João?

Já não consegui dormi mais... Fui rever alguns dos postes que publiquei aqui há muito, com a história da minha CCAÇ 12... Desisti de procurar mais, vão aqui 3 referências  (#)... Aquilo, o Xime, o subsector do Xime, era um verdadeiro "fojo do lobo"...A partir de Madina Colhido, estavas a levar (e a dar) porrada... Porquê, para quê, meu mano ?!...(**)


(#) Vd. postes de


Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários (  ): O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)

Guiné 61/74 - P28159: In Memoriam (582): António Nunes Lopes (1942-2026), ex-fur mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Porto Gole, Enxalé e Missirá, 1965/67), e cruz de guerra de 3ª classe: senta-se simbolicamente, a título póstumo, no lugar nº 916, à sombra do nosso poilão

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro > O António Nunes Lopes (1942-2026) e João Crisóstomo. Ambos foram condecorados com a Cruz de Guerra, de 3ª e 4ª classe, respetivamente, por feitos em combate no decurso da Op Avante (30 de agosto de 1965).

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira (1953- 2019), ex-alf mil, PA - Polícia Aérea, Bissalanca, 1973/74.


(i) Da esquerda para a direita, na primeira fila:
  • António Nunes Lopes (1942-2026)  e João Crisóstomo (ambos pertenceram à CCAÇ 1439, 1965/67); 
  • Helena do Enxalé (mulher do Álvaro Carvalho, fotógrafo; era filha  do Pereira do Enxalé, que morreu em Bissau, em agosto de 1974);
  • Vilma Crisóstomo (esposa do João);
  • Dina   (esposa do Jaime, já falecida) e Milita (esposa do Horácio) (as duas últimas naturais de Fafe); 
(ii) na segunda fila:
  • Eduardo Jorge Ferreira (193-2019);
  • Maria Alice Carneiro e  Luís Graça;
  • Alexandre Rato (então presidente da junta de freguesia de Ribamar);
  • Horácio Fernandes (1936-2025);
  • Jaime Bonifácio Marques da Silva. (Falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho.)

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro >De pé o Álvaro Carvalho... Sentados, da esquerda para a direita: Luís Graça, João Crisóstomo e o António Nunes Lopes (estava convidado, desde essa data,  para integrar a nossa Tabanca Grande, mas não tinha endereço de email, ficando nós a aguardar o da esposa, o que nunca se chegou a concretizar.)

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro  "Recordar é viver", diz o João Crisóstomo, para o Luís Graça e o António Nunes Lopes.

Fotos: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Crachá da CCAÇ 1439
(1965/67)
1. A triste notícia chegou-nos de Nova Iorque: o João Crisóstomo, pesaroso, telefonou-me a comunicar que só agora, 4 meses depois, é que tivera notícia da morte do António Nunes Lopes (*). Por intermédio da sua viúva. 

O António Lopes nasceu a 23/3/1942 e  morreu a 23/2/2026, ia completar 84 anos. Foi fur mil at inf, pertencia ao pelotão comandado pelo João Crisótomo na madeirense CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Porto Gole, Enxalé e Missirá, 1965/67).

O João Crisóstomo e o António Nunes Lopes haveriam de encontrar-se ao fim de quase meio século, na Praia de Porto Dinheiro, Ribamar, Lourinhã, por ocasião do convívio da Tabanca de Porto Dinheiro, em 12 de julho de 2015... Pertenceram ambos à mesma companhia e ao mesmo pelotão... 

No vídeo abaixo, gravado na altura (2015), e que voltamos a reproduzir, os dois  evocam aqui,  de maneira muito viva e emocionada,  uma dos mais duros episódios de guerra por que passaram, em 30 de agosto de 1965, no decurso da Op Avante, em Darsalame (Baio), na zona de Baio/Buruntoni, no Xime, sctor L1 (Bambadinca). Era um ponto que o PAIGC sempre "controlou" durante toda a guerra, e onde era inevitável haver "contacto" com as NT, em operações de contrapenetração ou em patrulhamentos ofensivos...


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Xime > CCAÇ 1439 (1965/67) > 30 de agosto de 1965 > O Armando Assunção Coutinho, de  alcunha o "Pênalti", soldado do BCAÇ 697,adido à CCAÇ 1439,  ferido no decurso da Op Avante. Foto: fonte desconhecida.

No vídeo fala-se também do "Pênálti", que terá sido simultaneamente herói e desertor, segundo a "vox populi" (**)..


Vídeo (7' 31''). Alojado em You Tube > Luís Graça 


Lourinhã > Ribamar > Praia de Porto Dinheiro > Convívio da Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > O João Crisóstomo e o António Nunes Lopes  evocam aqui, com uma espantosa precisão de detalhes, e grande emoção,  uma dos mais duros episódios de guerra por que passaram, em 1965, em Darsalame (Baio), na zona de Baio/Buruntoni, no subsector do Xime (Sector L1 / Bambadinca) (Op Avante, 15 de agosto de 1965).(**)

João Crisóstomo, que é natural de uma freguesia vizinha, A-dos-Cunhados, do concelho de Torres Vedras, fez-se à vida depois do regresso da guerra (em 1967). Andou pela Europa e Brasil, até se fixar em 1975, nos EUA, onde hoje vive (em Queens, Nova Iorque) e que é a sua segunda pátria. 

O António Nunes Lopes, "seu furriel", e por ele sempre muito acarinhado, fora convidado na altura a integrar a Tabanca Grande, convite que ele aceitou de bom grado. Ficou, entretanto, de nos mandar o endereço de emaiçl da esposa, o que nunca chegou a acontecer. Perdemos o contacto, veio a pandemia (em 2022), nunca mais nos encontrámos, e entretanto começoiu a sofrer de doença crónica degenerativa. 

Mas é justo, e para mais sendo um dos "bravos do pelotão" do nosso João Crisóstomo, juntá-lo no nosso "panteão": senta-se simbolicamente, a título póstumo, no lugar nº 916, à sombra do nosso fraterno poilão. É mais um amigo e camarada da Guiné, que em vida interagiu connosco, e que não podemos deixar "ficar inumado na vala comum do esquecimento". 


Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Susetor do Xime > Carta do Xime  (1961) > Escala de 1/50 mil > Posição relativa do Xime e Darsalame (Baio) onde o pelotão do João Crisóstomo (alferes) e do António Nunes Lopes (furriel) sofreram uma violenta emboscada, em 1966, e tiveram um comportamento heróico, eles e os seus homens... Na zona de Poindom / Ponta do Inglês, havia população que cultivava as bolanhas, na margem direita do R Corubal e que "apoiava" a guerrilha... Também eu ali iria conhecer o inferno, três ou quatro anos mais tarde, em 1969/71... (LG).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015).


2. O nosso camarada António Nunes Lopes foi condecorada com a Cruz de Guerra de 3ª classe por feitos em combate no decurso da Op Avante (Subsetor do Xime / Sector L1, 15 de agosto de 1965) (***)

■ Furriel Miliciano de Infantaria - ANTÓNIO NUNES LOPES 
 -  Companhia de Caçadores nº 1439 - BII 19 – 3ª CLASSE 


Transcrição da Portaria publicada na Ordem do Exército nº 29, 3ª série, de 1966. Por Portaria de 20 de setembro de 1966:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3ª classe, ao abrigo dos artigos 9º e 10º do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província da Guiné Portuguesa: O Furriel Miliciano de Infantaria, António Nunes Lopes, da Companhia de Caçadores nº 1439 / Batalhão de Caçadores nº 694 - Batalhão Independente de Infantaria nº 19.

Transcrição do louvor que originou a condecoração. Publicado na OS nº 89, de 29 de outubro de 1965, do QG/CTIG:

Louvo o Furriel Miliciano, António Nunes Lopes, da Companhia de Caçadores nº 1439, porque, na operação "Avante", quando as NT se encontravam debaixo de nutrido e violento fogo Inimigo, em terreno que nos era manifestamente desfavorável, fez parte, com a sua secção reforçada, do grupo que, sob o comando do comandante da operação, executou uma arrancada heróica ao encontro do inimigo oculto, do que resultou a suspensão do seu fogo e o consequente alívio da situação das NT (Nossas Tropas), tornando-se em sucesso para nós, embora com baixas, o que podia ter sido um desastre.

Durante esta acção incutiu no seu grupo a necessidade de avançar, a fim de descobrir e aniquilar um dos grupos do IN que mais flagelava as NT com o que demonstrou a sua coragem e decisão de enfrentar o perigo, a sua serena energia e sangue frio debaixo de fogo, bem como a sua valentia e bravura perante o IN traiçoeiro, nada tendo havido que conseguisse quebrar o seu ânimo, nem mesmo a morte de um dos seus melhores elementos ou o sibilar das balas à sua volta.

________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28064: In Memoriam (580): Major-general Paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026): cerimónias fúnebres hoje, às 13h00, na Igreja da Força Aérea, em São Domingos de Benfica, seguindo depois o funeral para o crematório dos Olivais

(**) Vd. poste de 24 de abril de 2021 > Guiné 61/74 - P22131: CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): A “história” como eu a lembro e vivi (João Crisóstomo, ex-alf mil, Nova Iorque) - Parte VI: O baptismo de fogo no Xime (17/8/1965, e a Op Avante, ao Buruntoni (em 29-30/8/1965) com os primeiros mortos