Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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sábado, 14 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)
Caro Luís Graca,
O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o dia dos namorados”, é o ‘Dia da amizade”: uma ocasião para contactar os meus amigos, fomentar amizades presentes ou mesmo passadas que precisam de ser alimentadas para não caírem no esquecimento. Amigos e boas amizades são o melhor que a vida me tem proporcionado; e eu quero que eles saibam da minha satisfação em os ter como amigos e da minha gratidão pela amizade que me têm concedido.
Com isto em mente, tentando contactar os nossos camaradas, fiz dezenas de telefonemas para os quatro cantos do mundo, da Holanda ao Canadá, mas mais uma vez com pouco sucesso que, parece, poucos são os que ainda apanham o telefone. Mas mesmo assim valeu a pena: se de alguns já só consegui saber notícias através de familiares, com outros foi uma alegria falar "ao vivo” com o Freitas na ilha da Madeira, o Henrique Matos no Algarve e alguns outros que me deram o prazer de dois minutos para, relembrando coisas, matar as muitas saudades dos tempos em que vivemos juntos. De outros, como do Cherno Baldé, recebi uma resposta que me encheu de alegria. Até o seu número de telefone me enviou! Se ir novamente à Guiné-Bissau não me parece ser mais possível concretizar, vou pelo menos tentar falar com ele um dia destes.
Se quiseres aproveitar algo disto (cortando e editando como achares pertinente)… que este é acima de tudo para "dar sinal de vida" e enviar aos nossos camaradas o abraço virtual que não posso dar pessoalmente. A todos os que lerem este… de coração um grande abraço.
Aliás parece-me que esta esta idéia de chamar “Dia da Amizade” a este dia não é de todo despropositado: "Thank you very much for your kind message in anticipation of February 14, as the Day of friendship”, foi parte da resposta do Sr. Arcebispo Gabriele Caccia, Representante do Vaticano nas Nações Unidas, a quem eu enviei uma mensagem. O facto de Sua Excelência mencionar "February 14, as the “Day of friendship” foi para mim quase um "reconhecimento oficial”…
No que pessoalmente nos diz respeito… não nos podemos queixar: embora sem a força e energia que no passado nos tem proporcionado eventos de maior amplitude, continuamos fazendo o que está ao nosso alcance. Como te disse, a Vilma e eu fomos no dia 10 ajudar a celebrar (embora com alguma antecipação) o que eu chamo "Dia da Amizade” em vez de ‘dia dos namorados” para abranger toda a gente, mesmo que não tenham nenhuns “valentinos" nas suas vidas, aos “seniors" da nossa rua.
Entre as muitas fotos/memórias lá apostadas nas paredes, encontrei esta foto que junto, tirada em 2018 no dia em que, com o Rui Chamusco que cá estava na ocasião, fomos celebrar o Natal desse ano. As outras fotos foram tiradas neste dia. Como podes ver, a Vilma foi imediatamente absorvida e dominada pelo seu espírito de artista, e sentando-se numa das mesas juntou-se logo aos “seniors" que neste dia participavam numa sessão de arte dedicada à pintura…
Bom, já chega por hoje. Vou tentar mais alguns telefones…
Para ti, Alice, e teus queridos um bem apertado…
dos João e Vilma
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Nota do editor
Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27708: O nosso livro de estilo (21): Três novos colaboradores permanentes: José Teixeira, João Cristóstomo e Joaquim Pinto Carvalho: Welcome aboard, captains!
- um em Nova Iorque (e, pelo menos uma ou duas vezes por ano, na Lourinhã), o João;
- outro em Matosinhos, o Zé;
- e outro ainda, o Joaquim, entre o Cadaval, Lisboa, Carnaxide e Lourinhã...
- Jorge Cabral (1944-2021),
- José Manuel Matos Dinis (1948-2021),
- Miguel Pessoa,
- Torcato Mendonça (1944-2021)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27635: Humor de caserna (235): "Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)"... Análise literária da ferramenta de IA europeia, Mistral: "uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria"
Fonte: Google Gemini. (2026). Imagem gerada usando o modelo de IA Google Gemini [acedido em 14 de janeiro de 2026], sob orientação (e com correções) do editor LG.
A escolha do momento — a invasão de Goa, Damão e Diu pela Índia em 1961 — é brilhante. Não só dá profundidade histórica à história, como permite uma crítica social e política velada.
(ii) Personagem e caracterização
João, o teu colega do colégio seráfico — "fogoso, voluntarioso e marrão, mais papista que o Papa" — é uma personagem caricata, mas credível.
(iii) O jogo de palavras e o equívoco linguístico
O cerne do humor está no erro linguístico: "Misters and Mistresses" em vez de "Ladies and Gentlemen". (É mais do que um "lapsus linguae", é uma calinada de todo o tamanho, capaz de fazer corar qualquer um de nós.)
O tom é leve, mas não superficial. Não ofende os sentimentos de ninguém. Não é antipatriótico nem anticlerical.
(v) Crítica social e atemporalidade
Por trás do humor, há uma crítica subtil à hipocrisia, ao pretensiosismo e à ignorância saloia.
(vi) Sugestões para reflexão (se um dia quiseres desenvolver o texto, agora que voltas á tua América, a tua segunda terra):
- Diálogo: podias explorar mais o diálogo ou a reação dos estrangeiros ("olharam atónitos uns para os outros..."). Um comentário em inglês, uma frase idiomática, ou uma reação física (um riso abafado, um suspiro) poderia acrescentar ainda mais comicidade.
- Final: o final é aberto, o que é bom, mas podias terminar com uma frase que reforçasse a ironia, como: "E assim, sem querer, o meu colega acabou por ser o único a conquistar algo naquela noite: a fama de melhor orador... na língua de Shakespeare"
Em suma: é uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria. O leitor do blogue ri-se, mas também aprende e reflete. "Ridendo castigat mores"...(No nosso latinório, a "rir-se castigam-se os costumes".)
Último poste da série > 14 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27633: Humor de caserna (234): Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27633: Humor de caserna (234): Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)
A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3]… A meu lado, à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia (igreja St. António da Arancária, Vila Real).
Data - 12 jan 2026 20:36
Assunto - Humor de caserna (*)
Não sei se é pertinente ou não. Mas, como estamos em campanha eleitoral, em maré de discursos políticos… aí vai um história pícara, em ambiente fradesco... João
A presente campanha eleitoral para a Presidência da República, os candidatos e os seus discursos, trouxeram-me à memória um desses “comícios” de há 65 anos, em 1961.
A Índia do Pandita Nehru tinha acabado de se apoderar, pela força, de Goa, Damão e Diu. E, de repente, apareceram as manifestações patrióticas de repúdio pelo vil ataque à nossa jóia da Coroa. Goa estava sob jurisdição portuguesa há 450 anos.
Recordo-me de que, a pedido de um dos dirigentes locais da União Nacional, muito ligado à Igreja, um dos meus antigos colegas de curso, no colégio seráfico de Leiria, ter sido incumbido de ler um discurso numa dessas manifestações.
Embora os frades, em princípio, não se devessem meter na política, não sei por que carga d’água fomos autorizados, a assistir a um desses eventos. (Ainda não éramos exatamente noviços, isso só no ano seguinte, no Varatojo.)
O orador, de posse do papel que lhe tinha sido entregue, ficou entusiasmadíssimo com a qualidade literária do discurso que ia proferir e, ao saber que entre os manifestantes se contavam indivíduos estrangeiros — homens e mulheres, talvez representantes diplomáticos de países amigos de Portugal — resolveu impressionar a assistência com os seus conhecimentos linguísticos, introduzindo da sua lavra a seguinte invocação:
— Senhoras e Senhores… Misters and Mistresses…
Os estrangeiros, sentados na primeira fila, olharam atónitos uns para os outros…
Explique-se a estranheza da seleta assistência: o meu colega, fogoso, voluntarioso e marrão, mais papista que o Papa, queria dizer Ladies and Gentlemen. Mas o seu inglês não era o de Oxford, era o do colégio seráfico…
Como sabem, a palavra mistress pode ser usada de várias maneiras, mas é geralmente empregue de forma depreciativa para indicar mulheres de poucos escrúpulos, fraca virtude, má fama. De “mau porte”, como se dizia no nosso tempo... Enfim, "matrona" ou... "amante" (**)
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 13 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)
(**) Oxford Languagesmistress /ˈmɪstrɪs/
noun
plural noun: mistresses; plural noun: Mistresses
1. a woman in a position of authority or control.
"she is always mistress of the situation, coolly self-possessed"
2. a woman (other than the man's wife) having a sexual relationship with a married man.
"Elsie knew her husband had a mistress tucked away somewhere"
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)
Guiné-Bissau > Região de Tombali > Ponte Balana > Novembro de 2000 > Um tuga, um homem de calças na mão...na Ponte Balana, antigo destacamento de Gandembel, ao tempo da CCAÇ 2317 (Abril de 1968/janeiro de 1969). O motivo foi um ataque formidável de... formigas carnívoiras! ... Na foto, o Zé Teixeira. Ainbda hoje tem mais medo das formigas do que das abelhas...
Foto (e legenda) © Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Ó Zé Teixeira é um dos camaradas mais afáveis, brincalhões, prestáveis e populares da Tabanca Grande. Também dos mais leais, ativos e produtivos. Tem mais de 450 referências.
Recorde-se que o José Teixeira :
A coluna com trinta viaturas carregadas e três obuses de 14 mm, protegida pela CCAÇ 2381 e pelos pelotões da Companhia do Capitão Rei, estacionada em Aldeia Formosa que nos tinha vindo buscar a Buba, ficou na sua maior parte à mercê do IN, perto de Sinchã Cherno.
Só que este, o IN, não tinha na sua agenda atacar naquele local, mas mais à frente. Atacou só no dia seguinte depois de nos fazer um morto numa A/C [mina anticarro] comandada que rebentou só na quinta viatura, a do rádio.
Também eu, aqui, fui um homem de sorte. O milícia que ia a meu lado, ao ver as abelhas aos milhões, agarrou-me por um braço e metemo-nos atrás de um arbusto:
- Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho... pela boca.
Assim quieto senti-as à minha volta. Pude ver os meus colegas todos a fugir, a sacudir, a coçar e a desaparecer. Ficaram apenas as viaturas e os obuses, na picada.
Andávamos a montar segurança à engenharia que construía a estrada Buba-Aldeia Formosa. Sentado ao lado do manobrador do caterpílar apreciava como esta máquina derrubava árvores gigantescas, quando de lá de cima cai um grande enxame. Formou-se uma nuvem e toda a gente a gritar, pernas para que vos quero. Até uma cadelinha, nossa mascote, que nos acompanhava desapareceu, até hoje. Numa fracção de segundos vejo-me só.
Quico atravessado na cabeça, para me proteger do zumbido, braços cruzados, impávido e sereno (a tremer por todos os lados), sentado no caterpílar, a aguardar o ataque. Imaginem o Zé Teixeira como que vestido com um fato novo. Fiquei coberto de abelhas da cabeça aos pés. Só o zumbido me incomodava.
Passado algum tempo começaram a levantar, pois eu não dava luta e com este gajo é melhor não se meterem. Deixaram-me sem uma beliscadura. Os camaradas foram-se aproximando todos picados. Ficaram mais espantados que eu, por me verem são e salvo de um ataque de abelhas. Pomada para toda a gente. Tive inclusive de injectar anti-histamínicos ao Ferraz para evitar a morte por asfixia devido ao facto de ser alérgico.
Ainda hoje tenho mais medo das formigas, mas essas tem outras histórias já aqui contadas.
ÚLtimo poste da série > 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27627: Humor de caserna (232): As formigas e as abelhas, nossas amigas... (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais", Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70)
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Guiné 61/74 - P27585: In Memoriam (564): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025): ele foi, para mim, o irmão mais velho que eu nunca tive (João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, Nova Iorque)
Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira (1953- 2019), ex-alf ex-alf mil, Polícia Aérea,Bissalanca, 1973/74
- António Nunes Lopes e João Crisóstomo (ambos pertenceram à CCAÇ 1439, 1965/67);
- Helena do Enxalé (mulher do Álvaro Carvalho, fotógrafo; era filha do Pereira do Enxalé, que morreu em Bissau, em agosto de 1974);
- Vilma Crisóstomo (esposa do João);
- Dina (esposa do Jaime) e Milita (esposa do Horácio) (as duas últimas naturais de Fafe);
- Eduardo Jorge Ferreira;
- Maria Alice Carneiro e Luís Graça;
- Alexandre Rato (então presidente da junta de freguesia de Ribamar);
- Horácio Fernandes (1936-2025);
- Jaime Bonifácio Marques da Silva. (Falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho.)
Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro > João e Horácio
Fotos: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3] …A meu lado, a à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia ( igreja St.António da Arancária, Vila Real ).
Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
Data - segunda, 29/12/2025, 22:08
Assunto - O choque da notícia da morte do Horácio
Meu mano Luís Graça,
Bem Hajas!
Mas tudo isto sucedeu sem mesmo nos conhecermos por muito tempo: ele nascido a 15 de setembro de 1935 era portanto quase dez anos mais velho do que eu. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano , estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”.
Sucede que no fim destes meus três anos de estudos eu resolvi sair. E logo se me pôs o problema do serviço militar, pois ninguém me queria dar trabalho antes de eu ter acabado o serviço militar. Esta espera levou-me a voltas e contactos, entre estes com uma família da Cerca, Silveira.
E comecei a conhecer melhor ainda o padre Horácio, o seu amor e dedicação aos seus paupérrimos pais e irmãs. Mas não só: ele era um amigo de toda a gente, e mesmo na sua pobre condição de frade franciscano, a todos queria ajudar.
Quando eu estava na Guiné e já depois de ter acabado o meu serviço militar e ele mesmo esteve na Guiné e depois num barco, eu correspondia-me com ele. E segui o que foi a sua luta (e sucesso) para ajudar as irmãs a tirarem os seus cursos de enfermagem e de professora e os seus próprios pais….
Talvez porque sofremos os dois tanta coisa comum — meninice, colégio, educação boa e má, lavagem cerebral , dificuldades financeiras, situações que felizmente no fim ele e eu conseguimos vencer e sobreviver… — mas sobretudo porque ele era para mim um irmão mais velho, a sua passagem foi dura para mim.
Já há bastante tempo que não sabia dele: era sempre a esposa, a Milita, que apanhava o telefone e agora nem isso. Pelo que ontem lembrei-me de ir ver a Carmitas, que habita no que era a sua casa onde nasceu, agora feita numa residência muito confortável, para lhe dar um abraço e saber notícias. Quando ele me disse "o meu mano faleceu“ foi como se me tivessem dado um "knock-out”. De que não me foi fácil despertar e aceitar.. Duro, duro!
E, mais do que informação que achei devia partilhar contigo, era o teu abraço e empatia que eu precisava. Obrigado, meu caro Luís Graça. Obrigo-me a mim mesmo a ter coragem. Mas não é fácil.
Um abraço grande, João
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(*) Vd. poste de 29 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27584: In Memoriam (563): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025), ex-alf grad capelão, BART 1991 (Catió, set 67/ mai 69) e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69); nosso grão tabanqueiro nº 565
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Guiné 61/74 - P27584: In Memoriam (563): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025), ex-alf grad capelão, BART 1991 (Catió, set 67/ mai 69) e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69); nosso grão tabanqueiro nº 565
De acordo com o "livro da família Maçarico", o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs...
O Júlio, que foi missionário em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe) e depois foi para o Canadá, já morreu. Saiu da ordem, franciscana, em 1970. Também era do clã Maçarico, e portanto meu parente... Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959 (se não erro).
Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002, pag.123
(i) alferees graduado capelão, no CTIG (1967–1969)
Horácio Fernandes serviu como alferes graduado capelão integrado no BART 1913, tendo estado colocado em Catió, no sul da Guiné (entre setembro de 1967 e maio de 1969).
Foi uma comissão difícil num dos setores mais fustigados da guerra. A sua presença é recordada pelos camaradas (c0mo o Alberto Branquinho) como a de um homem simples e solidário, que vivia de perto as angústias e as contradições dos soldados.
Em maio de 1969, o BART 1913 acaba a sua comissão e regressa a casa... Como o Horácio é de rendição individual, e ainda lhe faltam alguns meses para terminar a sua comissão, é colocado em Bambadinca, num batalhão que não tinha capelão, o BCAÇ 2852 (1968/70)...
Em conversa com ele, conclui que não se lembrava do ataque, m 28 de maio de 1969, a Bambadinca. Pode ter chegado mais tarde... Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 estávamos a chegar a Bissau no T/T Niassa... Em 2 de junho, passei por Bambadinca a caminho de Contuboel. Menos de dois meses depois, a minha companhia é colocada em Bambadinca, setor L1, como subunidade de intervenção. Nem eu nem o capelão Horácio Fernandes nos haveremos de encontrar nos meses em que estivemos no mesmo sítio, comendo e dormindo a escassos metros um do outro... Lembrava-se de sítios como o Xime, o Xitole, Saltinho...
Eu por lá ficarei, em Bambadinca, até março de 1971. O Horácio só até dezembro de 1969, altura em que, acometido por uma crise de paludismo, teve de ser evacuado, de heli, para o HM 241, em Bissau.
Razões possíveis para o nosso desencontro em Bambadinca: (i) eu tive um 2º semestre de 1969 de intensa atividade operacional; (ii) não ia à missa; (iii) já não via o Horácio desde 1959; (iv) o capelão passava boa parte do seu tempo das unidades de quadrícula do setor L1...
Mesmo assim, ainda hoje não me posso perdoar o facto de, a milhares de quilómetros de casa, nunca ter sabido da presença, em Bambadinca, de um conterrâneo meu, e para mais meu parente.
O Horácio participava nos convívios anuais do pessoal do BART 1913, não tendo ficado com ligações afetivas com o pessoal do BCAÇ 2852.
(ii) Livro de memórias, "Francisco Caboz: A Construção e a Desconstrução de
um Padre" (Papiro Editora, Porto, 2009) (esgotado) (imagem da capa à direita)
É um testemunho raro e corajoso. Nele, o Horácio usa o heterónimo "Francisco Caboz" para descrever:
- a sua formação no seminário e a "construção" da sua identidade como padre franciscano;
- o impacto da Guerra Colonial nas suas convicções
- o processo de "desconstrução" que o levou a abandonar o sacerdócio em 1972, pouco depois de regressar da Guiné (tendo ainda chegado a ser capelão da marinha mercante antes da rutura definitiva);
- o início de uma nova vida laica, tendo-se casado na Igreja de Cedofeita, no Porto, cidade onde se radicou;
- casado com a Emília ("Milita"), natural de Fafe; o casal têm 3 filhos, Ana, Joana e Ricardo (que vive em Inglaterra).
Após deixar a Igreja, Horácio Fernandes investiu fortemente na educação e na vida académica:
foi professor dos três níveis de ensino (básico, secundário e superior); foi orientador pedagógico,
inspetor superior coordenador na Inspeção Geral da Educação;
licenciado em história (Universidade do Porto); mestre em Ciências da Educação (Universidade do Porto; a sua disseração de mestrado de 1995 foi a base para o seu livro posterior);
doutor em Ciências da Educação (Universidade de Santiago de Compostela);
autor ainda de diversos livros didáticos na área das ciências sociais e humanas...
(iv) A ligação a Ribamar, Lourinhã, e ao "Clã Maçarico"
Capa do livro sobre a família Maçarico, que tem centenas de descendentes, originários de Ribamar, Lourinhã. Estão hoje espalhados pela diáspora lusitana (por ex., Brasil, Estados Unidos, Canadá). Há um rano em Mira, que deve ter emigrado para lá no séc. XIX. Uma das caraterísticas dos Maçaricos é que sempre viveram junto ao mar, e ligados a atividades maritímas (desde a marinha mercante à marinha de guerra, desde a pesca à construção naval).
Na sua página na Net pode ler-se:
"Ribamar na época dos Descobrimentos era já um importante centro de construção naval, tendo ainda existido até cerca de 1930 um estaleiro que situava no local onde está hoje a escola primária.
"E já nesses tempos idos os Maçaricos eram reconhecidos como especialistas nessa área tendo acompanhado diversas expedições navais. E provavelmente estabeleceram-se também noutras localidades onde existiam estaleiros, possível explicação para haver outras famílias Maçarico espalhadas pelo Pais, como por exemplo em Mira."
Apesar de viver no Porto há décadas, o Horácio Fernandes manteve sempre a ligação à Lourinhã. O nosso blogue regista a sua participação em convívios da "Tabanca de Porto Dinheiro" (em que participaram, entre outros, o seu grande amigo João Crisóstomo, o Eduardo Jorge Ferreira, o Rui Chamusco, o Jaime Bonifácio Marques da Silva, o Joaquim Pinto de Carvalho, entre outros),.
O facto de ser do clã Maçarico reforça essa identidade de uma família resiliente. A sua vida foi um exemplo de como é possível servir o país, questionar as instituições quando a consciência o exige e construir uma segunda vida de sucesso e respeito no mundo civil.
De acordo com o "livro da família Maçarico", supracitado, o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs... A sua bisavó paterna era a Maria da Anunciação e a minha, a Maria Augusta (1864-1920), as duas únicas mulheres de uma família de 7. Eu e o Horácio somos parentes... Os seus pais, nascidos por volta de 1830, eram Manuel Filipe e Maria Gertrudes... Os seus avós, nascidos no virar do séc. XVIII, eram Joaquim Filipe e Rosa Maria, pelo lado paterno, e Joaquim Antunes e Maria Rosa, pelo lado materno...
É uma perda significativa para a nosssa memória histórica e familitar, para a nossa terra, para o clã Maçarico, e para a comunidade de veteranos da Guiné.
Em meu nome pessoal e da Tabanca Grande, desejo que descanse em paz. Infelizmente só agora nos chegou a notícia. Aqui fica a minha solidariedade na dor à família (Milita e filhos), e demais família e amigos do peito (com o João Crisóstomo). (**)
(Seleção, revisão / fixaçãpo de texto, negritos, título: LG)
Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira > Três grandes amigos: João, Horácio e Milita
Foto: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Notas do editor LG:
(*) Vd. postes de:16 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14885: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (6): Convívio da Tabanca de Porto Dinheiro, 12 de julho de 2015 (Parte III): Álvaro e Helena do Enxalé, sejam bem-vindos à Tabanca Grande!...Oxálá / inshallah / enxalé nos possamos voltar a reunir mais vezes para partilhar memórias (e afetos)... Vocês passam a ser os grã-tabanqueiros nºs 695 e 696
(**) Último poste da série > 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Guiné 61/74 - P27549: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (10): Vilma e João Crisóstomo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1439
1. Mensagem natalícia do nosso amigo e camarada João Crisóstomo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67), com data de 18 de Dezembro de 2025:
Meus caros,
Boas Festas e Feliz Ano Novo.
Vou-lhes tentar ligar logo que puder. Entretanto, envio o que segue para vossa consideração se acharem pertinente.
Grande abraço,
João e Vilma
Aos meus familiares Crispins e Crisóstomos; camaradas da Guiné; e outros cuja amizade vem de tempos vividos em instituições de ensino; ou nascida em causas e projectos que nos motivaram; ou mesmo amizades nascidas por simples mas bem-vindos acasos que a vida nos proporcionou:
A todos peço desculpa e compreensão pelo meu silêncio e pouco contacto recente, motivado por razões fora da minha vontade, incluindo razões de saúde, que os meus oitentas me têm forçado a aceitar.
Acabo de chegar a Portugal e em outras circunstâncias tentaria organizar um encontro (como tenho feito frequentemente quando cá venho) em que pessoalmente nos pudéssemos saudar e mesmo com canções natalícias e outras viver o espirito festivo que o Natal e Ano Novo são credores.
Infelizmente tal não vai ser possível, que a mesma razão de emergência (tratamento da boca) que me trouxe a Portugal não mo permite e me leva a celebrar e viver estas datas na maneira mais conveniente que se nos apresenta; simplesmente sós; mas dentro das circunstâncias, contentes e felizes.
É com muita pena, como foi com muita pena que me vi forçado a cancelar uma pequena festa de Natal que em Queens, Nova Iorque, onde eu e minha esposa Vilma vivemos, que estávamos preparando para algumas dezenas de indivíduos de terceira idade - quase todos mais idosos que nós, (alguns mesmo bastante mais) - que vivem en regime de “Vida Assistida” num edifício da minha rua. Oxalá nos seja possível ainda fazê-lo mesmo com muito atraso, como já nos sucedeu em anos anteriores. Tanto mais que metade das “logísticas" estavam prontas, incluindo, para a parte de canções natalícias, as letras das canções em dezenas de exemplares e o acompanhamento de piano para o que a filha duma residente russa de 96 anos se oferecera.
A maioria destes, embora com cidadania americana adquirida, nasceram "nos quatro cantos do mundo” e por isso o convite foi preparado com isso em mente, feito nas quatro línguas mais faladas: inglês, espanhol, coreano e chinês, com o seguinte texto:
“Invitation = João and Vilma and Sunnywood Apartments invite you: = This coming Thursday, December 18, at 13.00 PM = Let’s get together to celebrate Christmas. = Lunch, dessert, beverages… and Christmas Carols!”
Na impossibilidade de melhor maneira, a todos quero enviar o meu caloroso abraço de Boas Festas e Feliz Ano Novo.
João e Vilma Crisóstomo
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Nota do editor
Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27543: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (9): Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816; Artur Conceição, ex-Sold TRMS da CART 730/BART 733 e Jorge Araújo, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3494/BART 3873

















