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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27640: Memórias cruzadas da região de Gabu: as origens do desassossego em Copá e as sequelas da metralha entre o Natal de 73 e 7Jan74: a morte do furriel "Ranger" Luís Filipe Pinto Soares (Jorge Araújo)

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil Op Esp/RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)


1. Mensagem do nossos camarada Jorge Araújo com data de 15 de Janeiro de 2026:

Caro Luís, bom dia deste outro lado do mundo.
Espero que tudo esteja sob controlo, em particular com a saúde. Nós, por cá, também investimos na sua manutenção.

Seguindo a tua sugestão, enviei o texto separado das imagens que, espero, dê certo. Trata-se do tal pedido que havia feito ao camarada Eugénio sobre a morte do fur Pinto Soares, em 7 de Janeiro de 1974, já lá vão 52 anos... é incrível como o tempo passa.

Talvez, amanhã, consiga enviar-te mais uma narrativa.

Fica bem. Um forte abraço nosso desde o deserto.
Jorge Araújo.


********************

MEMÓRIAS CRUZADAS DA REGIÃO DE GABÚ:

AS ORIGENS DO DESASSOSSEGO EM COPÁ E AS SEQUELAS DA METRALHA ENTRE O NATAL’73 E 07JAN74

A MORTE DO FURRIEL “RANGER” LUÍS FILIPE PINTO SOARES

- PARTE III -

1 – INTRODUÇÃO

Como resposta ao interesse manifestado pelo jovem Rafael Gonçalves (P26616, de 25Mar2025), aluno da Escola Secundária Augusto Cabrita, no Barreiro, sobrinho/neto do nosso camarada Luís Filipe Pinto Soares, furriel de operações especiais, em aprofundar o contexto em que ocorreu a morte, em 7 de Janeiro de 1974, do seu tio/avô, fez agora cinquenta e dois anos, foi possível encontrar novos elementos que nos permitem ver, com mais clareza, o cenário do “Desassossego em Canquelifá” e suas consequências – causas versus efeitos da Guerra.


Para a elaboração deste texto, foi excelente o contributo dado pelo camarada Eugénio Pereira, furriel da CCaç 3545 (1973/1974), que, para além de imagens da época, ajudam a situar a problemática da ocorrência, peças importantes na (re)construção do puzzle das memórias, em particular, desta Unidade Metropolitana.

2 – CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Para enquadramento historiográfico desta narrativa, socorremo-nos do livro de memórias de Amadú Djaló, “Guineense, Comando, Português”, ex-alferes comando graduado (Bafatá, 1940-Lisboa, 2015), citando alguns episódios por ele vividos, em conjunto com os restantes elementos da CCAÇ 21, entre Copá e Canquelifá, no período acima titulado.

2.1 – “GUINEENSE, COMANDO, PORTUGÊS”, de Amadú Bailo Djaló

(…) No final de 1973 e início de 1974 “Canquelifá estava muito diferente. As tabancas que havia à volta, junto às fronteiras com o Senegal e com a Guiné-Conacri estavam todas arrasadas, a população tinha desaparecido. A zona estava nas mãos do PAIGC e Canquelifá agora era um local muito perigoso, sempre à espera de ataques, do lado do Senegal ou da Guiné-Conacri. As estradas estavam semeadas de minas, se Canquelifá precisasse de apoio à noite, não podia ser socorrida por estrada, de noite não se podia picar estradas. Foi nesta situação que encontrámos Canquelifá.

Estavam ali duas companhias, uma de europeus (CCAÇ 3545) e a nossa (CCAÇ 21), oito pelotões ao todo. Fizemos um programa de saídas, todos os dias de manhã saía um bigrupo nosso até a uma distância de cinco a sete kms e regressava por volta das duas da madrugada. Julgávamos que, a partir dessa hora, era mais difícil haver ataques do PAIGC. Num dia saía um bigrupo de africanos, no dia seguinte um de europeus. Desta forma, cada bigrupo descansava três dias.

Em algumas dessas saídas, deixávamos o quartel, de manhã muito cedo, na direcção de Nhunanca. Depois de andarmos um bom bocado, entrávamos numa lala (clareira), quase sem árvores, com o capim muito alto, Depois de atravessarmos para o outro lado da lala, permanecíamos aí algum tempo, até cerca das 15:00 horas, quando decidíamos abandonar o local. Caminhávamos mais dois ou três kms e emboscávamo-nos. Ocupávamos dois caminhos, o que ia para Nhunanca e o que levava a Chauara. Ficávamos durante cerca de uma hora e regressávamos, contornando o quartel e entrando pela entrada contrária à saída para Copá.

Numa dessas saídas, em 7 de Janeiro de 1974 (2.ª feira), na “Acção Minotauro”, um dos nossos bigrupos, comandado pelos alferes Ali Sada Candé e Braima Baldé, quando estava emboscado, a cerca de dois kms do aquartelamento, avistou, por volta das 16:00 horas, um grupo do PAIGC a atravessar a lala. Estavam a deslocar-se na direcção do quartel [de Canquelifá]. O nosso bigrupo foi no encalço deles, a observarem o que iam fazer. Cerca de um quilómetro andado o pessoal do PAIGC parou, debaixo de uma grande árvore. Um deles estava a preparar-se para subir a árvore, quando o nosso bigrupo os atacou, de surpresa. O pessoal do PAIGC fugiu como pôde, deixando no local três guerrilheiros mortos, as armas e um rádio Racal que, viemos a descobrir mais tarde, tinha sido perdido por nós em Morés, em 23 de Dezembro de 1971.

[Nesse dia] era a vez do meu grupo ficar no aquartelamento, mas quando começámos a ouvir o tiroteio saímos imediatamente. Quando os encontrámos o caso já estava arrumado. Ajudámo-los a trazer os corpos dos guerrilheiros que depositámos junto à parada.

Nesse mesmo dia 7 de Janeiro, por volta das 17:30 horas, o PAIGC desencadeou um ataque a Canquelifá. Ou de represália, ou porque também tinha ouvido os tiros. Um dos primeiros mísseis acertou na central eléctrica e uma grande bola de fumo negro começou a subir. De vez em quando paravam os bombardeamentos, depois recomeçavam. Durou quase a noite toda este ataque.

A tabanca ardeu e ficou completamente destruída. Morreram durante o ataque quatro pessoas, um furriel europeu [Luís Filipe Pinto Soares, da CCAÇ 3545 - P16127], um soldado negro (Donsa Boaró, da CCAÇ 21), o soldado Mica Djaló Baldé (do 6ºPelArt/GAC7) e um rapaz de cerca de 13 ou 14 anos [Iala Colubali, natural de Bajocunda, Nova Lamego] que trabalhava para o furriel europeu que tinha morrido” (op.cit., pp.268-270).


Reitero os votos de BOM ANO.
Obrigado pela atenção
Um abraço.
Jorge Araújo.
AD; 15.Jan.2026

Foto 1 - A kalach capturada ao Tenente Ramón Maestre Infante (cubano), um dos dois mortos recuperados pelas NT. O outro era o Jaime Mota (cabo-verdiano).
Foto 2 – O fur. Soares com elementos do seu Gr Comb (é o 5.º da esq.)
Foto 3 – O fur Soares é o 1.º da dtª.
Foto 4 – O fur Soares é o 5.º em baixo (esq/dtª)
Foto 5 – localização do abrigo do fur Soares, com vala de segurança
Foto 6 – Os nomes dos elementos do abrigo do fur Soares
Foto 7 – as urnas dos dois mortos do dia 7 de Janeiro de 1974
_____________

Notas do editor:

Vd. postes de:

15 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P23001: Memórias cruzadas da região de Gabu: as origens do desassossego em Copá e as sequelas da metralha entre o Natal de 73 e 7Jan74 (Jorge Araújo)
e
25 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26616: Em Homenagem a Luís Filipe Pinto Soares (1950-1974), Fur Mil Op Esp da CCAÇ 3545/BCAÇ 3883, que faleceu em combate no dia 7 de Janeiro de 1974 (Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp)

terça-feira, 25 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26616: Em Homenagem a Luís Filipe Pinto Soares (1950-1974), Fur Mil Op Esp da CCAÇ 3545/BCAÇ 3883, que faleceu em combate no dia 7 de Janeiro de 1974 (Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp)

GUINÉ
Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op. Esp./RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)

Canquelifá; 7Jan1974 > Foi aqui que tudo aconteceu (Foto do álbum do Fur Eugénio Pereira, da CCaç 3545, com a devida vénia)


1. – INTRODUÇÃO

Quando em 23 de Abril de 2004, data da abertura da «Tabanca Grande», o camarada Luís Graça, ao prestar homenagem às mulheres portuguesas, deu início a uma nova (co)missão colectiva, acto que, numa perspectiva temporal, está a poucos dias de completar o seu 21.º Aniversário.

O propósito de sensibilizar os antigos combatentes, das diferentes épocas e especialidades, para a partilha das suas memórias da guerra colonial ou guerra do ultramar, em particular da Guiné, foi bem-sucedido, e os cerca de vinte e sete mil postes, já publicados, validam a importância que, em crescendo, vem sendo atribuído ao nosso espólio historiográfico.

No Início, onde os diferentes contributos, cada um com a sua dimensão, ajudaram na reconstrução do “puzzle da guerra”, hoje, cada “peça desse puzzle” pode transformar-se em objecto de estudo (investigação), como provam alguns trabalhos académicos, nacionais e internacionais (mestrados e doutoramentos), que utilizaram o nosso blogue como fonte de informação.

Na busca de referências sobre a morte do tio/avô, o meu/nosso camarada de operações especiais, furriel Luís Filipe Pinto Soares, ocorrida em 7Jan1974, em Canquelifá, o jovem Rafael Gonçalves, aluno da Escola Secundária Augusto Cabrita, no Barreiro, acabaria por ver recompensada a sua resiliência ao encontrar no P16127, de 27.Maio.2016[1], o início do seu aprofundamento.

Com o apoio da sua avó Lurdes, cunhada do Pinto Soares, o Rafael encontrou a fonte de contacto no Blogue, e sem hesitar contactou-me (estava eu nos EAU - Emiratos Árabes Unidos) apresentando-me o seu projecto, que mereceu a minha melhor atenção e solidariedade.

Com a sua autorização, torno público o seu desejo, que não se esgota nos conteúdos já publicados, esperando obter outros que lhe venham a ser endereçados por camaradas da sua Unidade – a CCAÇ 3545 (1972-1974).

Pelo exposto, e recuperando o seu desejo, já tivemos dois encontros em Almada, ficando abertos os canais de comunicação sempre que se justifique.



2. – CRONOLOGIA DOS CONTACTOS EMAILS

► O 1.º enviado pelo Rafael, em 7.11.2024, às 19:48h

Boa tarde, senhor Jorge Araújo, vou me identificar: sou sobrinho/neto de Luís Filipe Pinto Soares e venho por este meio pedir se me pode dar algumas informações sobe o que se passou, porque ando a fazer um livro sobre a guerra do ultramar. Cumprimentos.

◘ Resposta em 8.11.2024, às 07:03h

Caro Rafael, bom dia. Este teu contacto merece, em primeiro lugar, um elogio pelo facto de manifestar intenção (e interesse) em escrever um livro, e no caso particular, sobre a "Guerra do Ultramar" (1961/1974), onde pretendes incluir os factos relacionados com a morte de um teu familiar - Luís Filipe Pinto Soares.

Depois, em segundo lugar, para te dizer que estou completamente disponível para o apoio de que necessitas. Entretanto, uma curiosidade: como chegaste ao meu endereço email? Certamente que foi através da tua pesquisa no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné", onde escrevo com frequência sobre esta temática, e, simultaneamente, como coeditor. 

Quanto aos teus objectivos do presente contacto, terás de me indicar o que pretendes saber ou que tipo de apoio esperas obter, uma vez que desconheço o âmbito e a estrutura específica do teu trabalho de investigação.

Sobre o teu familiar Pinto Soares, dou-te conta que foram muitos os momentos e os contextos em que estivemos juntos no âmbito militar. Acrescento que a tua bisavó, creio, Deolinda Soares, era amiga da minha mãe, e ambas, por vezes, encontravam-se e saiam juntas, na medida em que os seus dois filhos eram camaradas de armas, percorrendo os mesmos itinerários desde a primeira hora, quer na recruta, quer na especialidade, quer, ainda, pelo facto de terem sido mobilizados para a mesma província ultramarina – a Guiné.

Uma vez que me encontro a viver períodos do ano no estrangeiro, como acontece com o actual, terás de fazer o favor de me dar conta do que precisas.

Ainda, assim, podes ver a minha narrativa referente à morte do Pinto Soares no P16127, de 13.5.2016, no blogue, e outras no marcador da esquerda da CCAÇ 3545, a sua Unidade de mobilização.

Caso estejas de acordo em divulgar, e como curiosidade, quem são (ou foram) os teus antepassados de 1.º e 2.º grau?

Termino agradecendo o teu contacto, reiterando a disponibilidade para o apoio. Com votos de muitos sucessos e muita saúde, Jorge Araújo.

► O 2.º enviado pelo Rafael, em 9.11.2024, às 20:41h

Boa noite, senhor Jorge Araújo, sou filho de Joana Soares e António Gonçalves. Em questão aos avós maternos são Carlos Soares e Lurdes Simão, da parte paterna Luiza Santos e António Gonçalves (avô paterno). Quando o senhor estiver disponível e possa falar comigo agradeço que me volte a comunicar. Cumprimentos.

► O 3.º enviado pelo Rafael, em 12.11.2024, às 18:16h

Boas Jorge, desculpe, não lhe cheguei a mencionar que tinha encontrado o seu email no site Luís Graça e que pretendia falar consigo pessoalmente. Cumprimentos e desculpe pelo incómodo do terceiro email. Cumprimentos.

► O 4.º enviado pelo Rafael, em 17.11.2024, às 14:53h

Boa tarde, Jorge, não sei se o senhor se encontra ocupado, mas não gostava que a nossa conversa acabasse por aqui, gostava de esclarecer todas as minhas dúvidas consigo, visto que o senhor é uma das poucas pessoas que esteve, pessoalmente, com um antigo familiar meu. Cumprimentos.

◘ Resposta em 18.11.2024, às 16:53h

Caro Rafael, Boa noite (aí serão menos 4 horas).

Agradeço os últimos contactos de 12 e 17 do crt., cujas respostas da minha parte tardaram um pouco, pois, como referi anteriormente, encontro-me a residir na arábia, mais concretamente nos Emirados Árabes Unidos, onde o quotidiano é bem diferente daquele que temos em Portugal. Li com atenção as tuas notas, das quais relevo o desejo de nos encontrarmos pessoalmente de forma a esclarecer todas as tuas dúvidas, que devem ser muitas, acredito.

Esse encontro só será possível quando estiver em Lisboa, regresso que está previsto para final de Janeiro'25. Como moro em Almada, teremos de acordar o local, dia e hora, em que o encontro possa ocorrer... OK?

Nesta oportunidade, aproveito para te informar que conheci, também, o teu avô (Carlos Soares), que era mais velho que o Luís Soares. Não tenho memória da imagem da tua avó, que à data em que nos conhecemos, morava no Barreiro, creio. Eles ainda estão vivos? Se sim dá-lhes os meus cumprimentos.

Para terminar, reitero a minha disponibilidade para te apoiar no teu projecto. Ab.

► O 5.º enviado pelo Rafael, em 18.11.2024, às 19:41h

Boa noite, Jorge. Estava mortinho que o senhor me respondesse. Claro que sim, ainda nos encontramos no Barreiro. Felizmente ainda estão vivos, curiosamente o dia 25 de Janeiro é o meu dia de aniversário. Se o senhor se encontrar comigo pessoalmente era o melhor presente que me podiam oferecer. Em relação ao local, pode ser em local a combinar em Almada visto que é onde mora. Deixo o meu contacto telefónico caso seja necessário. Cumprimentos Rafael.

◘ Resposta em 22.11.2024, às 05:36h

Caro Rafael, bom dia desde as arábias (aí ainda estão a dormir).

A minha memória de longo prazo parece dar sinais de que o "disco rígido" ainda está a funcionar. Perante os nossos dois contextos - a distância e o teu desejo de realizar um encontro entre nós - assim que estejam reunidas as condições operacionais logo combinamos o dia e o local. Até lá, vai pensando nas questões que me queiras colocar, fazendo uma lista para que nenhuma fique por abordar. Se quiseres, envia-me três ou quatro para eu reflectir e estar mais bem preparado, quem sabe, se será necessário consultar os meus apontamentos. Fica bem, bom fim-de-semana e cumprimentos aos restantes familiares. Um abraço.

► O 6.º enviado pelo Rafael, em 24.11.2024, às 17:10h

Boas Jorge, vou sim, já estava a planear criar um apontamento com algumas perguntas. Já estamos quase em Dezembro, mais alguns dias e é Natal, se a gente não trocar mais mensagens, desejo-lhe umas boas festas. Cumprimentos.

► O 7.º enviado pelo Rafael, em 02.12.2024, às 19:44h

Boa tarde, Jorge, já estamos em Dezembro! Estive a pensar melhor e decidi fazer-lhe uma proposta: se você não se importar, eu gostaria que você trouxesse os seus apontamentos para que nada fique por dizer! Tive a oportunidade de encontrar nestes últimos dias um livro sobre a Guiné; se você quiser, eu poderia levá-lo. Deve ter muita gente do seu conhecimento, visto que lida com muita gente que esteve lá devido ao site Luís Graça. Cumprimentos.

► O 8.º enviado pelo Rafael, em 17.01.2025, às 21:47h

Boa noite, senhor Jorge Araújo, como é que se encontra o senhor? Sempre tem marcada a sua viagem para Portugal para este mês? Cumprimentos e um abraço.

◘ Resposta em 18.01.2025, às 22:07h

Caro Rafael, boa noite. Amanhã ou 2ª feira darei notícias. Ok. Abraço.



3. – DO “BAÚ DE MINHA MÃE”

Considerando a amizade iniciada na recruta, continuada nos Rangers e, depois, na Guiné, e da relação de proximidade, com troca de correspondência e interacção entre as nossas duas famílias, nomeadamente a D.ª Deolinda, sua mãe, e a minha, Georgina Araújo (1928-2015), reproduzo a carta por ele enviada de Bissau, em 26.7.1972, e que irá fazer parte do espólio do Rafael.


Vamos ajudar o Rafael…. Obrigado!
Com um forte abraço de amizade e muita saúde.
Jorge Araújo.
23MAR2025.

_____________

Nota do editor

[1] - Vd. post de 23 de Maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16127: (De)Caras (41): A Canquelifá da CCAÇ 3545 (1972-1974) e os acontecimentos de janeiro de 1974: a morte do "ranger" fur mil op esp Luís Filipe Pinto Soares (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/74)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26316: Casos: a verdade sobre... (51): a terrível emboscada na estrada Ponte Caium-Piche, em 14/6/1973 (ex-sold cond auto, Florimundo Rocha, c. 1950-2024; ex-fur mill Ribeiro, natrural de Braga, CCAÇ 35446, Piche, 1972/74)



Guiné-Bissau > Região de Gabu > Piche > Ponte Caium > Dezembro de 2015 > O que resta do célebre memorial do 3º Gr Com da CCAÇ 3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974)), dedicado aos seus mortos: "Honra e Glória: Fur Mil Cardoso, 1º Cabo Torrão, Sold Gonçalves, Fernandes, Santos, Sold AP Dani Silva. 3º Gr Comb, Fantasmas e Lestos (?). Guiné- 72/74" (***)...

O Fur Mil Op Esp Amândio de Morais Cardoso, natural de Valpaços, morreu aqui, vítima de uma armadilha que ele montava e desmontava com regularidade, na margem do rio... A trágica ocorrência foi no dia 19 de fevereiro de 1973...  O 1º cabo Torrão, e os soldados Gonçalves, Fernandes e Santos morreram numa emboscada entre a Ponte Caium e Piche, em 14 de junho de 1973).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



A CCAÇ 3544 (Piche e Pontre Caium, 1972/74) pertencia 
ao BCAÇ 3883 (Piche, 1972/74) (***)



Florimundo Rocha
(c. 1950-2024)
1. Morreu há dois meses o nosso camarada Florimundo Rocha (ex-sold cond auto, CCAÇ 3546, Piche e Ponte Caium, 1972/74, natural de Lagoa, membro da Tabanca Grande, desde 11/4/2011 [foto à direita, Ponte Caium, 1973] (*):

Ele era um dos sobreiventes dos ocupantes do Unimog 411 ("burrinho"), que ia à frente da pequena coluna  que foi emboscada em  14/6/73, a escassos quilómetros de Pixhe.  Ele era o condutor.

Em sua homenagem, voltamos aqui a reproduzir a reconstituição desse confronto com o IN, juntando a também a versão d0 fur mil Ribeiro (natural de Braga) que ia ao lado do condutor, e que foi gravemente ferido. (**)


I. O Rocha já não se lembra do número de viaturas que seguiam na coluna, nesse dia fatídico, de 14/6/1973.


Ele ia à frente a conduzir o seu Unimog 411, o “burrinho do mato”, que lhe estava distribuído. A seu lado, de pé, ia o Charlô (alcunha do Carlos Alberto Graça Gonçalves, natural de Lisboa, Alfama) . E atrás, sentados nos bancos, os restantes camaradas do pelotão que haveriam de morrer nesse dia e hora, numa curva da estrada para Piche, a escassos 3 quilómetros da sede da unidade, a CCAÇ 3546/BCAÇ 3883… A saber: o Torrão, o Fernandes e o Santos…

II. Também não pode precisar a hora exata, mas terá sido depois das 9 da manhã. "Foi seguramente da parte da manhã".

Antes de partirem para Piche, uns tinham jogado à bola, e outros (uma secção) tinham ido à lenha, como era habitual… Eram actividades que eles faziam pela fresca. Lembra-se que o Torrão nesse dia estava de serviço à lenha. Quanto ao futebol, costumavam jogar, de manhã, pela fresca. O Rocha não falhava um jogo, aliás veio continuar, depois da peluda, a jogar futebol, em clubes da 2ª e 3ª divisões, no Algarve. (Ele era naturaçl de Lagoa.)


III. Já não tem a certeza, mas atrás de si, devia vir uma Berliet, com restos de materiais de construção ou madeiras.


Também não se lembra se havia mais viaturas. Tem ideia que “malta de Buruntuma [CCAÇ 3544], ou de Camajabá [outro destacamento de Piche, CCAÇ 3546]” também vinha atrás, numa terceira viatura…

O "Wolkswagen" (alcunha de um camarada que ficará ferido) vinha atrás, numa outra viatura. O Rocha não o deixou vir com ele, no Unimog 411. Nessa altura as relações entre ambos não eram as melhores.

IV. A distância entre a primeira viatura (o Unimog 411) e a segunda (talvez a Berliet) deveria ser de “80 metros”. Ele, Rocha, não ia a mais de 70 km, que era o máximo que o “burrinho” dava, em estrada alcatroada.

O asfalto ia até à Ponte. Trabalho da Tecnil, cujas máquinas chegaram a ser atacadas e algumas incendiadas pelo PAIGC. As bermas estavam limpas, o capim cortado. Estamos no início da época das chuvas. E foi “na curva” que o Rocha começou a ver cabeças, de gente emboscada. “Eles tinham-se entrincheirado nos morros de terra deixados pelas máquinas da Tecnil”… Pelo número de efectivos (falava-se no fim “em mais de 200”), está visto que a emboscada “não era para eles”, mas sim para o pessoal de Piche.

V. Quando o 411, conduzido pelo Rocha, entrou na “zona de morte”, na curva, os primeiros tiros (ou roquetadas) furaram-lhe os pneus. A malta foi projectada. A viatura capotou. 

O Rocha ficou caído no lado direito da estrada. Os tipos do PAIGC estavam do lado esquerdo (da estrada Ponte Caiuu- Piche).  O fogachal foi tremendo. Ele ainda conseguiu proteger-se atrás da viatura que ficou a trabalhar, de pernas para o ar. Lembra-se de ter pegado em duas ou três G3, dos camaradas feridos, e de ter respondido ao fogo do IN.

VI. A emboscada poderá ter demorado “15 a 20 minutos”… O IN teve tempo para tudo: meio escondido, a uns 50 metros já da viatura sinistrada e dos camaradas feridos, viu uns gajos "brancos", “cubanos”, a falar espanhol, a saltar para a estrada… Já não pode precisar quantos eram, mas eram sobretudo “brancos”, poucos negros… Falavam em voz alta, e diziam qualquer coisa, em espanhol, como “condutor morto, condutor morto”… 

Completamente impotente, sem poder intervir, viu com os seus próprios olhos o espectáculo macabro, os tiros de misericórdia que acabaram com a vida dos camaradas moribundos, tiros na nuca ou na boca. Confirma o que já tínhamos dito antes: os corpos foram depois retalhados, por rajadas de Kalash…

VII. Ainda se lembra da chegada das chaimites de Piche, que fizeram fogo contra as forças inimigas, que ripostaram, já no final dos combates. Talvez meia hora depois do início da emboscada.

 Ainda se lembra, dos 3 ou 4 feridos que foram evacuados, de heli, em Piche. Houve alguém que sugeriu que ele aproveitasse a boleia e se fizesse maluco. Mas ele recusou. Nesse mesmo dia regressaria à Ponte Caium. Não se lembra de ter tido o conforto de nenhum superior hierárquico. Uma simples palavra, muito menos um louvor. Voltou para a ponte e dormiu, como “dormia todos os dias, como ainda hoje dorme” (sem pesadelos ?..., não me respondeu à pergunta)…





Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Piche > CCAÇ3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > Destacamento da Ponte Caium > Da esquerda para a direita: O 1º Cabo Pinto, e os soldados Ramos, Cristina (segurando granadas de morteiro 60), o "Wolkswagen#, o Fernandes, de pé (outro que morreu na emboscada de 14/6/1973) e o Silva ("que percorreu 18 km com um tiro no pé!")... Foto e legenda do Jacinto Cristina: falta identificar o condutor do Unimog 404.

Foto: © Jacinto Cristina (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


VIII. A única versão que até agora tínhamos desta emboscada, era a do Cristina (que ficou no destacamento e que, portanto, só pode contar o que lhe contaram os sobreviventes; ou do que se lembra dessas versões, e que já aqui resumimos, em tempos:

(...) “Em data que o Cristina já não pode precisar, a sua companhia sofreu uma violenta emboscada, entre Piche e Buruntuma, montada por um grupo ‘estimado em 400’ elementos IN (ou ‘turras, como a gente lhe chamava’)...Um RPG 7 atingiu a viatura da frente da coluna, que ia relativamente distanciada do grosso da coluna, e que explodiu...Houve de imediato 4 mortos: O Charlô e o Fernandes foram dois deles... Dos outros dois o Cristina já não se lembra.

(...) “Com as granadas de mão dos mortos, o 'Wolkswagen' conseguiu aguentar o ímpeto da emboscada, mas chegou a ter uma Kalash apontada à cabeça... Ninguém sabe como ele se safou... O Silva por sua vez levo um tiro no pé, fugiu, e mesmo ferido fez 18 km até ao aquartelamento”...


IX… E voltamos ao monumento erigido à memória dos mortos da Ponte Caium (vd. foto acima). A ideia, não há dúvida, “foi do Alexandre”, do Carlos Alexandre, o "Peniche". que tinham conhecimentos de moldes por trabalhar na construção naval, na sua terra, Peniche.

 Ele, Rocha, também deu uma ajuda. Mas não lhe perguntem datas nem pormenores. Disse-lhe que o Cristina já não se lembrava de nada e que o Alexandre estava furioso por causa da amnésia dos camaradas.

X. Disse-me, por outro lado, que a filha ia mandar-nos as fotos pedidas, para poder entrar na nossa Tabanca Grande.

 Sentiu-se muito bem em falar comigo e contar toda esta tragédia. Estava mais calmo do que da primeira vez, em que me falou desta tragédia, emocionadíssimo. É um homem simples e franco. Pu-lo à vontade, mas ainda não consegui que ele me tratasse por tu… “Muito obrigado, o senhor (sic) tem aqui uma casa às suas ordens, quando vier a Lagoa”…

XI. Da nossa conversa, à noite ao telefone (foi ele que me ligou), fiquei a saber que, em janeiro de 1973, tinha vindo de férias à Metrópole. 

Estava, de regresso, em Piche quando se deu a tragédia que matou o furriel Cardoso, já em 19 de fevereiro de 1973. Só depois dessa data é que foi para a ponte, para onde ninguém gostava de ir. E por lá ficou até ao fim da comissão.

XII. Mas logo a seguir, aconteceu outra tragédia: a morte do Silva, apontador de canhão sem recuo… 

Morreu na sua viatura quando tentaram levá-lo, moribundo, até ao helicóptero, foram pela estrada fora, sem picar, sem segurança. Tarde demais. Um estúpido acidente, que marcou muito o grupo.

XIII. Os furriéis só iam um de cada vez para ponte: o Cardoso, que foi vítima da explosão de uma armadiha; o Ribeiro, de Braga; o Barrroca, alentejano… No dia da embocada, estava o Ribeiro na ponte. Mais o Cristina, municiador, do morteiro “grande”, o 81…

O Rocha esclarece ainda que na foto de grupo [vd. poste P8029], não é o Santiago (que é da Covilhã), mas sim o Serra (que é de Barcelos), quem aparece à esquerda, de pé…

XIV. Nunca foi a um convívio do batalhão ou da companhia. Voltei a dar-lhe os contactos telefónicos do Jacinto Cristina. Tentara ligar para o fixo, mas ninguém atendeu. Em, contrapartida, já tinha falado com o Alexandre (ou o Alexandre com ele), o "Peniche"….

Sobre a ponte diz que era de boa construção, dos princípios dos anos 60. “Até se dizia que tinha sido construída pelo Amílcar Cabral”… Rectifiquei: o Cabral não era engenheiro de pontes, mas agrónomo… Não bate certo…

XV.  Outras memórias da ponte: O gen Spínola um dia aterrou lá, estavam a jogar futebol… Usavam todos barba e cabelo compridos. 

Não havia barbeiro. O Spínola deu uma piada qualquer, ia de heli para Buruntuma.

XVI. Despedi-me do Rocha, para o poupar, mas com a promessa de voltarmos a falar, com mais tempo e vagar. Percebo que lhe fazia bem. 

E que, por outro lado, só lhe interessa a verdade dos factos… Parece ter boa memória fotográfica.



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > CCAÇ 3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > 3º Grupo de Combate (Os Fantasmas do Leste) > Destacamento da Ponte de Caium > 1973 > Álbum fotográfico do Florimundo Rocha >  A famosa equipa de futebol: 

"Em primeiro, ao centro, o Rocha, o dono da bola, à direita o José Alberto, à esquerda o Pinto [que o Jacinto Cristina voltou a reencontrar 38 anos depois]. 

"De pé, na segunda fila, à direita, o Barbeiro, o furriel Barroca, o Santiago que tem a fita na cabeça, e o furriel Ribeiro" (Legenda: Carlos Alexandre, Peniche).


Foto: © Florimundo Rocha (2011). Todos os direitos reservados .
[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Reproduzimos a seguir o comentário do ex-fur mil Ribeiro, que vive hoje em Braga, e que pertencia ao 3º Gr Comb ("os Fantasmas do Leste") da CCAÇ 3546 (Piche e Ponte Caium, 1972/74), ao poste P8061 (****). 

É pena não haver mais versões,  que nos permitissem, por exemplo, confirmar a alegada participação de cubanos e a  crueldade dos tiros de misericórdia aos moribundos (cujos cadáveres terão sido depois retalhados com rajadas de Kalash, com requintes de selvageria) (*****).

A única informação de dispomos, do lado do exército, é a que é reproduzido pela CECA (2015):  não bate certo com as versões aqui apresentadas, que falam em quatro mortos (o 1º cabo Torrão, e os soldados Gonçalves, Fernandes e Santos), quatro feridos graves, evacuados para o HM 241 (o fur mil Ribeiro, mais o   Algés, o Silva e o Rolo), e um Unimog 411 destruído por LGFog RPG...

Além disso, os militares emboscados não podiam perfazer dois grupos de combate: só havia um destacado na Ponte Caium (er alguns militares tiveram que lá ficar para assegurar a sua defesa, como foi o caso do Jacinto Cristina, que era municiador de morteiro 81, e o Sobral, que era o apontador)...  

Segundo o testemunho reproduzido a seguir, do ex-fur mil Ribeiro (e que bate certo com a informação que me deu em tempo o Jacinto Cristina), o destacamento da Ponte Caium foi a Piche com um "seção reforçada", num Unimog 411 (e uma Berliet de Camabajá (carregada com materiais de construção). 

Fazer uma coluna destas, numa distância de mais de 20 km, com um "burrinho" e uma secção, era temerário... Dá impressão que alguém (o comando do BCAÇ 3833, ou o comandante da CCAC 3546) quis "branquear" a situação... 

"Acção - 14Jun73

Pelas 08h45, na região de Copiró 
 [e não Capiró] sector L4, na área de Piche, 2 GComb / CCaç 3546 foram emboscados por um grupo inimigo que causou às NT 3 mortos, 2 feridos graves e 14 feridos ligeiros na região de Copiró. 1 viatura "Unimog" das NT ficou danificada."


Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pág. 302 (Com a devida vénia...).


3. Comentário do fur mil Ribeiro, 3º Gr Com / CCAÇ 3546 (****):

Caro amigo Florimundo Rocha, gostava de fazer algumas correcções ao teu comentário sobre a fatídica emboscada de 14/6/1973:

Ponto nº I:

(…) “O Rocha já se lembra do número de viaturas que seguiam na coluna, nesse dia fatídico, de 14/6/1973. Ele ia à frente a conduzir o seu Unimog 411, o ‘burrinho do mato’, que lhe estava distribuído. A seu lado, de pé, ia o Charlô (alcunha do Carlos Alberto Graça Gonçalves, natural de Lisboa. Alfama) . E atrás, sentados nos bancos, os restantes camaradas do pelotão que haveriam de morrer nesse dia e hora, numa curva da estrada para Piche, a escassos 3 quilómetros da sede da unidade, a CCAÇ 3546/BCAÇ 3883… A saber: o Torrão, o Fernandes e o Santos” (…) (FR).


Quem ia de pé ao teu lado era eu, furriel Ribeiro; atrás, sentados do lado esquerdo (da morte), ia o Fernandes, o Torrão, o Charlô e o Santos, todos estes camaradas morreram; e do lado direito ia o Rolo, o Algés, o Silva e não me lembro quem era o outro que falta.


Ponto nº III :

(…) “Já não tem a certeza, mas atrás de si, devia vir uma Berliet, com restos de materiais de construção ou madeiras. Também não se lembra se havia mais viaturas. Tem ideia que ‘malta de Buruntuma [CCAÇ 3544, ], ou de Camajabá [outro destacamento de Piche, CCAÇ 3546]’ também vinha atrás, numa terceira viatura… O 'Wolkswagen' (alcunha de um camarada que ficará ferido) vinha atrás, numa outra viatura. O Rocha não o deixou vir com ele. Nessa altura as relações entre ambos não eram as melhores” (…) (FR).


Nós fomos a Piche porque já não havia mantimentos, o alferes Afonso, do 1º pelotão, chegou à Ponte Caium e pediu-me para eu lhe disponibilizar uma secção e um Unimog para ir a Piche buscar alguns mantimentos. Não vinha ninguém de Buruntuma, apenas vinha uma Berliet de Camajabá.

Ponto nº IV:

(…) “A distância entre a primeira viatura (o 411) e a segunda (talvez a Berliet) deveria ser de ‘80 metros’. Ele, Rocha, não ia a mais de 70 km, que era o máximo que o ‘burrinho’ dava, em estrada alcatroada. O asfalto ia até à Ponte. Trabalho da Tecnil, cujas máquinas chegaram a ser atacadas e algumas incendiadas pelo PAIGC. As bermas estavam limpas, o capim cortado. Estamos no início da época das chuvas. E foi ‘na curva’ que o Rocha começou a ver cabeças, de gente emboscada. ‘Eles tinham-se entrincheirado nos morros de terra deixados pelas máquinas da Tecnil’… Pelo número de efectivos (falava-se no fim ‘em mais de 200’), está visto que a emboscada ‘não era para eles’, mas sim para o pessoal de Piche. (…) (FR).


A emboscada não era para nós mas sim para uma coluna de grande reabastecimento de munições para Buruntuma que, não se sabe porquê!, foi anulada em Nova Lamego.


Ponto nº V:

(…) “Quando o 411, conduzido pelo Rocha, entrou na ‘zona de morte’, na curva, os primeiros tiros (ou roquetadas) furaram-lhe os pneus. A malta foi projectada. A viatura capotou. O Rocha ficou caído no lado direito da estrada. Os tipos do PAIGC estavam do lado esquerdo. O fogachal foi tremendo. Ele ainda conseguiu proteger-se atrás da viatura que ficou a trabalhar, de pernas para o ar. Lembra-se de ter pegado em duas ou três G3, dos camaradas feridos, e de ter respondido ao fogo do IN. (…) (FR).


O nosso burrinho foi atingido com um RPG 7 na parte de trás do banco do condutor na chapa da carroçaria e com outro RPG 7 no gancho do reboque, foi isto que fez com que o Unimog saltasse, e o pessoal foi cuspido e perdemos as G3 mas tu apanhaste 2 ou 3 e uma delas era a minha, obrigado Rocha.

 Ponto VII:

(…) Ainda se lembra da chegada das chaimites de Piche, que fizeram fogo contra as forças inimigas, que ripostaram, já no final dos combates. Talvez meia hora depois do início da emboscada. Ainda se lembra, dos 3 ou 4 feridos que foram evacuados, de heli, em Piche. Houve alguém que sugeriu que ele aproveitasse a boleia e se fizesse maluco. Mas ele recusou. Nesse mesmo dia regressaria à Ponte Caium. Não se lembra de ter tido o conforto de nenhum superior hierárquico. Uma simples palavra, muito menos um louvor. Voltou para a ponte e dormiu, como ‘dormia todos os dias, como ainda hoje dorme’ (sem pesadelos ?..., não me respondeu à pergunta)… (FR).


Ó Rocha, não tiveste o meu conforto porque eu não to pude dar, visto eu ter sido evacuado para o hospital em Bissau, com o Algés, o Silva e o Rolo, e todos nós estávamos tão chocados como tu.


Ponto XIII:

(…) “Os furriéis só iam um de cada vez para ponte: o Cardoso, que foi vítima da explosão de uma armadiha; o Ribeiro, de Braga; o Barrroca, alentejano… No dia da embocada, estava o Ribeiro na ponte. Mais o Cristina, municiador, do morteiro ‘grande’,  o 81” (…) (FR).


Os Furriéis estavam sempre juntos na ponte, primeiro foi o furriel Cardoso que foi tomar conta da passagem do destacamento do 4º para o 3º pelotão; passada uma semana foi o pelotão com o furriel Barroca para a Ponte Caium e eu, furriel Ribeiro,  fui uma semana mais tarde porque fiquei a aprender a fazer e a ler […] (codificar e descodificar mensagens ). Estivemos sempre juntos e no dia da emboscada quem estava na Ponte Caium era o furriel Barroca.



4.  Comentário do editor:

Não temos aqté  agora (passados 13 anos!) qualquer contacto do Ribeiro (telemóvel, telefone, email...), a não ser este comentário. Dizem-nos que vive em Braga. Mas sabemos que é leitor do nosso blogue. 

Aproveitámos, na altura, em 2011,  para lhe agradecer os preciosos esclarecimentos adicionais que veio trazer sobre esta emboscada de que ele felizmente escapou, embora ferido com gravidade.

 Não é fácil "voltar ao passado" e reviver momentos terríveis como este. Mais um razão para o Ribeiro se juntar â nossa Tabanca Grande, composta na sua grande maioria por camaradas da Guiné, de diferentes épocas da guerra, de 1961 a 1974, e de diferentes lugares, de norte a sul, de leste a oeste... Continua  de pé o nosso convite,s e por acaso ele nos voltar a ler.
 




Guiné > Zona Leste >  Região de Gabu > Carta de Piche (1957) (escala 1/50 mil) > Local provável, assinalado a vermelho,  na zona de Copiró, da emboscada, levada a cabo por um forte dispositivoo do PAIGC, integrando "cubanos", a "três ou quatro quilómetros de Piche", a seguir a a um curva, do lado esquerdo da estrada (alcatroada) Ponte Caium-Piche, em 14 de junho de 1973. 

 O troço Ponte Caium-Buruntuma não estava alcatroado em 1974 (segundo o depoimento do Rocha). Repare-se que estamos perto da fronteira com a Guiné Conacri, na direcção sudeste (para onde terão retirado as forças do PAIGC, que seriam  c. de 200, segundo a versão do Rocha, um número de qualquer modo impossível de confirmar).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024)

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Notas do editor:



Vd. também poste de 24 de março de 2010 > Guiné 64/74 - P6042: Tabanca Grande (209 ): Jacinto Cristina, natural de Ferreira do Alentejo, CCAÇ 3546 (Piche e Caium, 1972/74): Foi soldado atirador, mas a guerra fê-lo padeiro...

(*****) Último poste da série > 4 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26230: Casos: a verdade sobre ... (50): António Lobato, sete anos prisioneiro de Amílcar Cabral e Sékou Touré / L' affaire Antonio Lobato, sept années prisionnier d' Amilcar Cabral et de Sékou Touré

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26313: In Memoriam (530): Florimundo Rocha (C. 1950 - 2024), ex-Soldado Condutor Auto Rodas da CCAÇ 3546 / BCAÇ 3883 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972/74)

IN MEMORIAM
FLORIMUNDO ROCHA († Lagoa, 22 de Outubro de 2024)
Ex-Soldado Condutor Auto Rodas da CCAÇ 3546 / BCAÇ 3883 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972/74)


A funesta notícia do falecimento do nosso camarada Florimundo (Flor) Rocha chegou até nós através do nosso amigo Arménio Estorninho, que mora em Lagoa, tal como o Flor até ao seu falecimento.

O Flor inscreveu-se na tertúlia em 11 de Abril de 2011, por intermédio da sua filha Susana.
Era um dos sobreviventes da trágica emboscada a uma coluna auto, em 14 de Junho de 1973, no itinerário Ponte Caium-Piche.
Num contacto telefónico com o nosso editor Luís Graça, ele, que conduzia a primeira viatura, um Unimog 411 (burrito) que capotou ao entrar na zona de morte, contou os pormenores do acontecimento, tal como ainda se lembrava.
Consultar o poste de 7 de Abril de 2011 > Guiné 63/74 - P8061: (De)Caras (7): Reconstituição da emboscada do dia 14/6/73, a 3 Km de Piche, pelo sold cond auto Florimundo Rocha (CCAÇ 3546, Piche e Ponte Caium, 1972/74).

Embora atrasadas, aqui deixamos as nossas mais sentidas condolências à familia do nosso camarada e amigo Flor, na pessoa da sua filha Susana que o trouxe o seu pai até nós no longínquo ano de 2011.

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Nota do editor

Último post da série de 19 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 – P26291: In Memoriam (529): Comandante Almada Contreiras (1941-2024), um antigo camarada que conheceu as terras da Guiné, e um dos militares do 25 de Abr (José Saúde)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25168: A 23ª hora: Memórias do consulado do Gen Bettencourt Rodrigues, Governador e Com-chefe do CTIG (21 de setembro de 1973-26 de abril de 1974) - Parte III: a CCAÇ 3545, de Canquelifá, no início de abril de 1974, "à beira da exaustão física e emocional"


Lisboa > Base Naval do Alfeite > 30 de abril de 1974 > Da esquerda para a direita: Coronel António Vaz Antunes, Brigadeiro Leitão Marques, General Bethencourt Rodrigues e Coronel Hugo Rodrigues, todos oficiais afastados no Golpe Militar de 26 de Abril em Bissau. Fotografia obtida já no Alfeite, em Lisboa no dia 30 de Abril de 1974. Fonte: arquivo do filho do cor inf António Vaz Antunes, o engº Fernando Vaz Antunes (que vive em Mafra), e a quem agradecemos a gentileza  (*).

Foto (e legenda): © Fernando Vaz Antunes (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A 23ª hora, a das "hienas", o da "lobo" (nome da hiena na Guiné-Bissau, conforme a linguagem dos contos populares em crioulo)...

Também o último governador e com-chefe do CTIG, gen Bethencourt Rodriges, subtituto do lendário Spínola, teve a sua 23ª hora...  E acabou por ser derrotado não pelos "leões", mas pelas "hienas"...

Sem querer denegrir a sua folha de serviços (foi um brilhante militar, como tantos outros   
que "serviram Portugal em África", uma frase "redonda" e "barroca"...), achamos que foi sobretudo um erro de "casting": acabou por ser sacrificado no "altar da Pátria" pela visão míope de um senhor professor catedrático, especialista em direito administrativo, Marcello Caetano, delfim mal amado de Salazar, prisioneiro da extrema-direita do regime do Estado Novo, a quem faltou o golpe de génio, a grande leitura da história de Portugal e do Mundo, o rasgo de liderança dos "homens grandes" da Pátria,  para enfrentar, ética, moral, estratégica e politicamente, uma situação de guerra que se estava a degradar a olhos vistos, nomeadamente na Guiné e em Moçambique...  

O "herói do leste de Angola", o gen Bethencourt Rodrigues, o melhor do seu curso da Escola do Exército (que reminou em 1939),  atolou-se nas "bolanhas" da Guiné, e nas arnadilhas da política (ou do seu vazio...) e sobretudo foi incapaz de acrescentar um "suplemento de alma" a um exército (metade metropolitano e metade guineense, como ele ele próprio reconheceu mais tarde, em 1977, no seu "testamento político-militar" ("traído, vencido e pouco convencido") (**),  que estava cansado da guerra, e de combater sem um fim à vista e sem novos meios para fazer frente à nova estratégica do PAIGC (e dos seus poderosos aliados), que era a do tradicional "bate e foge", mas agora a partir das fronteiras (refugiando-se impunemente nos seus  santuários do Senegal e da Guiné-Conacri, onde Portugfal não poderia atuar, retaliando, sob pena de graves sanções internacionais, e de escalada do conflito,  sobretudo depois da desastrada Op Mar Verde, de 22 de novembro de 1970).

Nada correu bem a Bethencourt Rodrigues, para mais quando vai tomar posse a seguir à declaração unilateral da independência da Guiné-Bissau, e passado um mês e tal  começa a "época seca" (novembro-maio), altura em que o "urso" do PAIGC saía da sua letargia,,, retomando a sua atividade operacional... As "hienas" sempre foram um predador oportunístico... E o Amílcr Cabral, nunca tendo "cão", depressa ensinou os seus correlegionários a caçar com "gato"...

Bethencourt Rodrigues podia ter fechado a guerra com chave de ouro, abrindo as portas da paz e da solução política, negociada, do conflito, eventualmente com intermediação internacional... Mas, não, foi mais um militar político,  prisioneiro da estratégia suicidária do "orgulhosamente sós"...Em 26 de abril de 1974 acaba "nas teias da traição"... Sem honra nem glória. (*)

Mas voltemos à situação no terreno: o próprio general reconhece que "a gravidade (sic) da situação  militar que se vivia na Guiné nº 1º trimestre de 1974" (in "África: a vitória traída", op. cit, 2007, pág.  140).  E a prova disso foi a obssessão do general com a alterações do dispositivo: "planeava converter as 225 guarnições em 80 e tal. A dispersão é inimiga da eficácia. Mas já não tive tempo" (disse ele, nos "Estudos Gerais da Arrábida > A descolonização portuguesa > Painel dedicado à Guiné (29 de Julho de 1997) > Depoimento do general Bethencourt Rodrigues, link infelizmente descontinuado e não salvagurdao pelo Arquivo.pt) (***).

2. Tomemos um exemplo, constante do livro da CECA  (2015), onde se dá conta das dificuldades das NT no nordeste da Guiné (CAOP 2): por exemplo, a CCAÇ 3545 (Canquelifá) / BCAÇ 3883 (Piche) estaria mesmo "à beira de uma ataque de nervos" (isto é, isto é, com sinais gritantes de exaustão física e emocional) (****).


"Decisões do Comandante-Chefe

"Não foi possível encontrar as Directivas do Comandante-Chefe das FAG
relativas a 1974. No Arquivo Histórico-Militar estão compiladas decisões do
Cmdt-Chefe.

"Apresentam-se as mais importantes (pág. 462):

(...) • Decisão de 2Abr74 - Alteração do dispositivo (pp. 470/471)

"1. Por decisão de 1Abr74, foi o CAOP 2 reforçado com 2 CCaç Paras / BCP 21 a seguir por meios fluviais, em 3Abr, e determinando que constituísse, no mais curto prazo, com tropa da zona, uma reserva com efectivo mínimo de 3 GComb para alternar ou reforçar a acção do BCP 12.

2. Entretanto foram recebidas mensagens da CCaç 3545 (Canquelifá), do BCaç 3883 (Piche) e do CAOP 2 (Nova Lamego) do seguinte teor:

a. Da CCaç 3545: NT completamente extenuadas psicofisicamente não permitem que se desenvolva uma reacção conforme situação.

NT estão a revelar indícios de intoxicação causados por gazes libertados sentindo vómitos e náuseas. Solicito intervenção imediata forças especiais durante longo período de tempo e reforço esta com mais 1 CCaç. Para cumprimento eficaz missão que está incumbido este Comando cumpre-lhe expor situação para salvaguardar defesa mesmo.

b. DO BCaç 3883: CCaç 3545 revela situação psicológica pessoal altamente preocupante receando-se reacções incontroláveis e imprevisíveis caso futuras flagelações. Solicito imediata decisão fim garantir segurança e acautelar desenvolvimento situação de gravíssimas consequências à qual não poderemos fazer face.

Insisto necessidade urgentíssima resolução propostas urgente rendição CCaç 3545 e intervenção Canquelifá Flnterv.

c. Do CAOP 2: Virtude potencial revelado pelo ln este Comando não tem possibilidade de fazer face à situação.

3. Em conformidade, em reunião de Comandos no Cmd-Chefe em 021000Abr74, decidi o seguinte:

a. Fazer deslocar durante o dia 2Abr    por via aérea conforme solicitado pelo Cmdt do CAOP 2 dada a extrema gravidade da situação (Msg referida em 2. a.);

b. Fazer deslocar cerca 10Abrpara a Zona Leste a 1a/BCaç 4516/73 comandada pelo oficial de operações do Batalhão.

470

Esta CCaç, reforçada com 1 GComb do BCaç 3883, deverá render em Canquelifá as CCaç 3545 e 33/BCaç 4516/73, à ordem do Cmdt CAOP;

c. A CCaç 3545 fica estacionada em Piche mantendo-se integrada no BCaç 3883;

A 33/BCaç 4516/73 recolhe a Bissau logo que rendida, conforme instruções especiais para o deslocamento;

d. Fica ao critério do Cmdt do CAOP 2 a troca da guarnição do Pel Art de Canquelifá pela do Pel Art de Piche.

4. O CTIG dará instruções de carácter administrativo logístico. [... ]"

Fonte: Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 6º volume: aspectos da actividade operacionaç Tomo II: Guiné, Livro III, Lisboa: 2015, pp. 462 e 470/471.

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 1 de maio de 2014 > Guiné 63/74 - P13078: O golpe militar de 26 de abril de 1974 no TO da Guiné: memorando dos acontecimentos, pelo cor inf António Vaz Antunes (1923-1998) (Fernando Vaz Antunes / Luís Gonçalves Vaz): Parte I 

(**) Vd, no livro escrito a quatro mãos, "África: a vitória traída" (Lisboa, Editorial Intervenção, 1977, 276 pp.): o depoimento do gen Bethencourt Rodrigues sobre a Guiné (pp. 103-143).

(***) Vd. poste de 4 de maio de 2014 > Guiné 63/74 - P13097: (Ex)citações (230): Estudos Gerais da Arrábida > A descolonização portuguesa > Painel dedicado à Guiné (29 de Julho de 1997) > Depoimento do general Bethencourt Rodrigues (Excertos, com a devida vénia...)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25056: Fichas de unidade (33): BCAÇ 3883 (Piche, 1972/74), CCAÇ 3544 (Buruntuma), CCAÇ 3545 (Canquelifá) e CCAÇ 3546 (Piche)




Brasões do BCAÇ 3883 e duas das suas uidades de quadrícula, CCÇ 3544 e 3545

Cortesia de Carlos Coutinho (2009)



Guiné-Bissau > Região de Gabu > Piche > Ponte Caium > Dezembro de 2015 > O que resta do célebre memorial do 3º Gr Com da CCAÇ 3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974)), dedicado aos seus mortos: "Honra e Glória: Fur Mil Cardoso, 1º Cabo Torrão, Sold Gonçalves, Fernandes, Santos, Sold AP Dani Silva. 3º Gr Comb, Fantasmas e Lestos (?). Guiné- 72/74"...

O Fur Mil Op Esp Amândio de Morais Cardoso, natural de Valpaços,  morreu aqui, vítima de uma armadilha que ele montava e desmontava com regularidade, na margem do rio... A trágica ocorrência foi no dia 19 de fevereiro de 1973... Os restantes morreram numa emboscada entre a Ponte Caium e Piche, em 14 de junho de 1973. 

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Fichas de unidade > Batalhão de Caçadores n.º 3883

Identificação: BCaç 3883

Unidade Mob: RI 2 - Abrantes

Cmdt: TCor Inf Manuel António Dantas

2.° Cmdt: Maj Inf Manuel Azevedo Morujão e Oliveira

OInfOp/Adj: Maj Inf José Luís Guerreiro Portela

Cmdts Comp:

CCS: Cap Inf Joaquim Pinheiro da Costa

Cap Mil Inf José do Nascimento Leal Varela

CCaç 3544: Cap Mil Inf Luís Manuel Teixeira Neves de Carvalho | Cap Mil Inf José Carlos Guerra Nunes

CCaç 3545: Cap Mil Inf Fernando Peixinho de Cristo

CCaç 3546: Cap QEO José Carlos Duarte Ferreira

Divisa: "Nobreza no Dever"

Partida: Embarque em 19mar72 (Cmd e CCS), 20Mar72 (CCaç 3544), 22Mar72 (CCaç 3545) e 23mar72 (CCaç 3546); desembarque em 19, 22, 23 e 24mar72  |  Regresso: Embarque em 19, 21, 22, e 23jun74

A retrqação do dispositivo das NT, no caso das unidades mais afastadas do Sector Leste - Buruntuma e Canquelifá, foi realizada  em 5 de julho de 1974, seguindo  Camajabá e Ponte do Rio Caium em 8 desse mês.- 15 de Julho, início


Síntese da Actividade Operacional

Após realização da IAO, de 27Mar72 a 22Abr72, no CIM, em Bolama, seguiu em 24abr72, com as suas subunidades, para o sector de Piche, a fim de efectuar o treino operacional e sobreposição com o BCav 2922.

Em 24mai72, assumiu a responsabilidade do referido Sector L4, com a sede em Piche e abrangendo os subsectores de Buruntuma, Piche e Canquelifá. 

Em 29Mai73, por subdivisão do subsector de Buruntuma, foi criado o subsector de Camajabá. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional de patrulhamento, reconhecimentos, de vigilância da fronteira e de defesa e segurança dos aquartelamentos e aldeamentos, que foram alvo e fortes e frequentes flagelações, particularmente a partir de agosto de 1973. 

Actuou ainda em numerosas missões de protecção e segurança a trabalhos nos reordenamentos e de reparação de itinerários, e ainda na asfaltagem da estrada Piche-Buruntuma; a par de uma decidida colaboração na promoção socioeconómica das populações da região e organização do sistema de autodefesa.

Dentre o material capturado mais significativo, salienta-se: 

  • 4 espingardas,
  • 9 granadas de armas pesadas,
  • e a detecção e levantamento de 29 minas.

Em 31mai74, foi rendido no sector pelo BCaç 4610/73 e recolheu a Bissau para embarque.

***

A CCaç 3544, após treino operacional e sobreposição com a CCav 2747, assumiu, em 24mai72, a responsabilidade do subsector de Buruntuma, com um pelotão destacado em Camajabá e onde se manteve após a criação do respectivo subsector em reforço da respectiva guarnição até meados de ago73.

Em 26jan74, por troca com a 2ª Comp/BCav 8323/73, foi colocada em Piche, tendo então assumido a responsabilidade do respectivo subsector e cumulativamente as funções de subunidade de intervenção e reserva do sector, tendo efectuado acções de patrulhamento, emboscadas e escoltas a colunas.

Em 31mai74, foi rendida pela 3ª Comp/BCaç 4610/73 e recolheu a Bissau para sempre.

* * *

A CCaç 3545, após treino operacional e sobreposição com a CCav 2748, assumiu, em 24mai72, a responsabilidade do subsector de Canquelifá, com um pelotão destacado em Dunane.

Em 19abr74, foi rendida pela 2ª Comp/BCaç 4516/73 e colocada temporariamente em Piche, tendo seguido em 27mai74 para Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

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A CCaç 3546, após o treino operacional e sobreposição com a CCav 2749, assumiu, em 24mai72, a responsabilidade do subsector de Piche, com pelotões destacados na ponte do rio Caium e Cambor, este até 18mar73.

Em 29mai73, por criação do subsector de Camajabá, assumiu a sua responsabilidade, mantendo então o destacamento da ponte do rio Caium, tendo a CCS/BCaç 3883, reforçada com pelotões de outras subunidades, assumido transitoriamente, a responsabilidade do subsector de Piche, até à chegada da CCav 3463.

Em 29mai74, foi rendida pela 2ª Comp/BCaç 4610/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 104 - 2.ª Div/4ª Sec, do AHM). 

Fonte: Adapt de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: fichas das unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 161.162