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quarta-feira, 18 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)



A "camarigagem" da Tabanca do Centro: vai-se reunir, pela 110ª vez, no próximo dia 27 de março.


1. O termo "camarigo" está associado ao nosso Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro. É tratado por "camarigo" e gosta de tratar a malta, o pessoal da Tabanca Grande e os da Tabanca do Centro por "camarigos" (contração das palavras "camarada" e "amigo"). 

A origem do termo e a sua adopção pela Tabanca Grande ainda não está bem averiguada. Mas, pelo que pesquisei, a palavra aparece pela primeira num poste do João Tunes, num dos primeiros postes do blogue:

20 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P230: Cooperação, caridade ou negócio ? (1) (João Tunes)

Começa assim o texto:

(...) Camarigos e estimados tertulianos,

Lembrei-me hoje, ao ler um dos Projectos dos amigos da AD, que está a ser desenvolvido em parceria com cidadãos da localidade espanhola de Elx, se esta não era uma boa inspiração para que a nossa Tertúlia promovesse um projecto semelhante com crianças guineenses de uma qualquer localidade da Guiné-Bissau (...).


(Negritos e itálicos: LG)

segunda-feira, 16 de março de 2026 às 15:59:00 WET 

2. Num texto de Joaquim Mexia Alves, escrito em 2 de março de 2006, ele termina assim:

“...sei que todos, ou pelo menos a maioria esmagadora dos meus camarigos, o farão também.”

2 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P3965: Nuvens negras sobre Bissau (7): Ao combatente Nino Veira, um poema de Joaquim Mexia Alves

 O termo consolidou-se com os encontros anuais da Tabanca Grande (primeiro, na Ameira, Montemor-O-Novo, 2006; depois, Pombal, 2007; e a seguir em Ortigosa, Leiria, 2008 e 2009; e finalmente,  em Monte Real, Leiria, a partir de 2010 até 2019). 

Um dos elementos da comissão organizadora desses encontros (a partir de 2010) era o Joaquim Mexia Alves, a par do Miguel Pessoa e do Carlos Vinhal, e eu próprio. O Miguel e o Joaquim são também cofundadores, em 2010, da Tabanca do Centro.

 3. Anos mais tarde, o Joaquim Mexia Alves escreveu um texto, no blogue da Tabanca do Centro, sobre "o porquê do 'Camarigo' ", que reproduzimos a seguir, com a devida vénia:


Tabanca do Centro > domingo, 14 de julho de 2013 > P352: O Porquê do "Camarigo"

por Joaquim Mexia Alves 

Uma tentativa de explicação para a palavra “camarigo”.

Em primeiro lugar,  o óbvio! Camarigo é a junção das palavras camarada com amigo!

Quando comecei a frequentar a Tabanca Grande, (já lá vão uns anos), comecei também a descobrir melhor uma relação com os ex-combatentes da Guiné, que não se restringia apenas àqueles com quem tinha estado, mas se alargava a todos os outros que lá estavam, não só na altura, mas também antes e depois.

O termo utilizado pelos militares para se tratarem uns aos outros é camarada, o que está certo sem dúvida, com vemos no dicionário.

Camarada: companheiro de quarto; colega; parceiro; condiscípulo; indivíduos do mesmo ofício; tratamento entre militares e entre filiados de certos partidos políticos…

Ora isto parecia-me pouco, para definir a relação que nos une como ex-combatentes, e até também porque verdadeiramente já não somos militares.

Mas fomos realmente companheiros de quarto (ainda o somos quando os mesmos sonhos ou pesadelos nos envolvem à noite), e parceiros, e colegas e sei lá mais o quê.

Mas somos muito mais do que isso!

Somos sentimento e emoção e não é raro num reencontro, numa história contada ou lida, virem-nos as lágrimas aos olhos e apetecer-nos abraçar com força aquele que conta a história, para lhe dizer que sabemos bem o que foi, o que é, e muito provavelmente o que continuará a ser.

Ora isso vai muito para além da camaradagem, pois revela sentimentos de afectividade, de compreensão, de conhecimento, enfim numa palavra: de amizade.

Quando um de nós sofre, não sofre apenas um camarada, sofre também um amigo, por isso sofremos todos com ele, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Quando um de nós se alegra, não se alegra apenas um camarada, alegra-se também um amigo, por isso nos alegramos todos com ele, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Quando um de nós morre, não morre apenas um camarada, morre também um amigo, por isso morremos nós também um pouco, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Lá longe, na Guiné, muitos de nós desabafaram com certeza aos ouvidos do outro, as alegrias e as tristezas de uma vida que se fazia longe de nós.

Um filho que nascia, uma mãe ou um pai que morria, um namoro que acabava, uma dúvida, uma incerteza, um desespero e uma alegria, enfim tudo aquilo que faz parte da vida e que tantas vezes ia parar ao ombro do que estava ao nosso lado, do que estava connosco.

E hoje isso ainda acontece, quando nos encontramos, ou quando nos procuramos num telefonema, ou numa visita oportuna.

Então era preciso para mim, procurar maneira de revelar com uma palavra aquilo que ia descobrindo, aquilo que ia tomando lugar no meu coração.

Porque o amigo também não chegava para definir essa relação:

Amigo: aquele que estima outra pessoa ou é por ela estimado; partidário; amásio; amante; afeiçoado…

E o óbvio apareceu diante de mim.

Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos!

Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos CAMARIGOS!

É isso que eu sinto e é isso que sempre pretendo transmitir em cada encontro e em cada momento em que estamos juntos e não só.

Tenho um coração mole, (graças a Deus), a lágrima fácil, e os braços com uma “tendência compulsiva” para se abrirem, por isso arranjei a palavra que servisse para expressar os meus sentimentos em relação a todos vós.

Por isso gosto de vos tratar pelo nome próprio, para estar mais perto de vós e me sentir mais perto de vós!

Por isso também, aqui fica o meu forte, enorme e camarigo abraço para todos vós.

Joaquim Mexia Alves

4. Comentário do editor LG:

Houve já quem me perguntasse: "Camarigo, que raio de palavra é esta, em português, que não vem nos dicionários ?"

É um neologismo por fusão de duas palavras, como muito bem explica o Joaquim:  "camarigo = camarada + amigo". 

A palavra surgiu no contexto da nossa tertúlia (a que passámos a chamar, mais tarde, em meados de 2006, "Tabanca Grande"). É forma de tratamento afetuosa, mas também com a sua ponta de humor tribal:  "Um alfabravo (Abraço), camarigo!”... 

Ninguém se trata assim, apenas os "amigos e camaradas da Guiné", que se sentam à sombra do poilão da Tabanca Grande. O Joaquim usa muito, de resto, a expressão "meus camarigos"

Em termos linguísticos, podemos destacar o seu  "valor semântico", que carrega três ideias ao mesmo tempo:  camaradagem  (camarada) | amizade (amigo) | igualdade e proximidade

  • amigos – pessoas próximas mas que não viveram a guerra juntos;
  • camaradas – companheiros de armas;
  • camarigos – camaradas que se tornaram amigos para toda a vida

É uma "palavra de tribo", como dizem os linguistas, que  nunca chegam aos dicionários, mas podem viver durante décadas dentro do grupo ou da tribo que as criou. 

Nasce dentro de um grupo e aí ganha sentido. São chamadas "palavras-amálgama" (em inglês, blends, misturas lexicais). 

A nossa língua tem várias: portunhol (português + espanhol) | diciopédia (dicionário + enciclopédia) | Setôr (senhor + doutor) | estagflação (estagnação + inflação) | angolês (angolano + português) | eurocrata (Europa + burocrata) | camarigagem(camaradagem + amizade).

"Camarigo" está há m
uito grafado do nosso pequeno dicionário da Tabanca Grande.  É uma palavra que tenta expressar algo que a linguagem comum não captava bem: a amizade nascida da experiência extrema da guerra e da pertença a uma tertúlia de antigos combatentes.

 Não chegou (nem provavelmente chegará)  aos dicionários. Estes e outros "neologismos identitários"  vivem e podem viver durante décadas dentro da tribo que as criou. Mas na  realidade tèm um sabor muito português: é o caso, por exemplo,  camarigagem (camaradagem + amizade).

Fazendo justiça aos nossos dois camaradas, podemos dizer que:

o João Tunes inventou ou soltou a palavra num comentário; o Joaquim Mexia Alves adoptou.a, passou a usá-la recorrentemente e popularizou-a.
 
 A palavra nasceu, portanto,  dentro da "cultura" da Tabanca Grande. O que importa é a sua adoção grupal ou coletiva. Por isso dizemos que é um "neologismo identitário": não designa apenas uma relação pessoal, mas uma identidade de pertença à Tabanca Grande.
 
 Como deves imaginar, temos gente de todos os quadrantes, sensibilidades e leituras da guerra (por isso falamos da guerra colonial, guerra do ultramar, guerra de África e luta de libertação...). E temos um slogan: "Tabanca Grande, onde todos cabemos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar"...

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série > 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27819: (in)citações (284): Os netos da guerra (Juvenal Amado)

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27819: (in)citações (284): Os netos da guerra (Juvenal Amado)

Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74)



OS NETOS DA GUERRA

Pois é, o tempo passou rapidamente e para trás ficaram os sonhos de juventude os perigos e malandragem.

Ficaram os namoricos os bailaricos os momentos com os nossos desaparecidos. Como foi possível a vida continuar após o seu desaparecimento?

Como não reviver os momentos tristes da partida e a alegria transbordante da chegada?

Sobrevivemos aos perigos e depois, à falta de grupo em que nos apoiávamos, muitos tornaram-se deserdados da vida, párias da sociedade. Muita da nossa sanidade mental ficou a dever-se à separação das coisas. Voltar e regressar a uma vida normal esquecer, distanciarmo-nos dos episódios que nos marcaram não enveredar pela autodestruição. Há milhares que o não conseguiram.

Há quem viva do passado. A vida é um processo que nos vai mostrando que ele não existe é só recordação e é triste viver de uma coisa, que não se pode alterar.

Usei uma arma até esquecer o peso, bebi demais, fumei demais só nunca amei demais, bebi a alegria da liberdade e nunca me fartei dela.

Desses tempos ficaram os desejos de Paz, a rejeição de classes a cor da pele. Numa busca desenfreada pelo que era justo fez-me abraçar causas, tentar transmitir o que era certo e o que era errado. Julgo embora algumas bravatas e arremedos guerreiros da minha geração, a guerra marcou-nos fundo a ponto de a não querermos para os nossos filhos e netos. Mas atrás dos tempos outros tempos hão de vir e a chegada aos poderes de gente com idade para serem nossos netos, a guerra voltou ao nosso quotidiano de forma feroz ao mesmo tempo que se incrementa um discurso de ódio num populismo de má memória, que nos promete empurrar para o abismo.

Os bombardeamentos, as matanças de inocentes, tudo é relativo em função dos interesses económicos e geoestratégicos. Voltaram ideologias do passado que julgávamos banidas pelas leis da Humanidade. Aplaude-se a constituição de um Mundo dominado por uma potência, que decreta como vivermos ou se vivemos. Quem compra e quem vende, quem morre e quem vive. O intolerável uso de armas nucleares é hoje aceite no cúmulo da ignorância e estupidez.

Fizemos mal o nosso trabalho? Tornamos a guerra, o caos o cortejo de fome e miséria material de interesse para as gerações mais novas como uma coisa romântica?

Estão hoje no poder os netos dos dirigentes, que reconstruíram os países após a hecatombe da II Grande Guerra, que fizeram compromissos para uma paz duradoira assente em tratados e na criação de organizações com a participação de todos os países. Declarou-se fim do colonialismo e da escravidão, enfim o fim da exploração do Homem pelo o Homem, mas estes em vez de honrarem a memória dos pais e avós encetaram uma corrida ao armamento, uma verborreia de guerra onde se medem todos os dias a importância do país pelo armamento e nunca pelos benefícios sociais.

Governos autocráticos dominam e os outros deixam-se arrastar. Discutem a liberdade de outros povos para esconder a repressão dos próprios países.

Estou demasiado velho para acreditar que há ainda volta a dar, que o bom senso voltará e que as nações unidas lutarão para erradicar a fome e a doença.

Como foi possível voltar a este estado de coisas?

Conhecem a Cantiga da Velha E dos Seus Dois Filhos?

Reza assim:

Sei Que Estou Velha E Doente
Mas Pra Ver o Mundo Girar de Forma Diferente
Ainda Sei Gritar e Arreganhar o Dente
*

Dito isto, agora vou para a hidro-ginástica e assim tentar enganar a idade, já que a água não é suficiente para limpar os maus pensamentos.

Juvenal Sacadura Amado
13/03/2026, dia em que se espera de azar, quando afinal o azar e a sorte é coisa de todos os dias.

(*) Cantiga Da Velha Mãe e Seus Dois Filhos, por José Mário Branco
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Nota do editor

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


SE A MINHA MÃE ESTIVESSE AQUI DAVA-LHE UM BEIJO

adão cruz

Depois de ser obrigado a assumir que a nossa democracia se resume a meter uma cruz dentro de um pequeno quadrado, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, fui almoçar. O restaurante rapidamente se encheu de caras mais ou menos alegres e sorridentes, deixando transparecer a satisfação do dever cumprido. No fim do almoço, vim até casa seguir o ritual a que a velhice obriga, tomar os comprimidos e fazer uma pequena sesta. Como a chuva se dignou dar uma curta trégua, resolvi pegar no carro, como faço habitualmente, nunca sabendo ao certo se é o carro que me obriga a sair, se sou eu que o obrigo a mexer-se. O dilema mantem-se por alguns momentos, até que surja a decisão de andar ou voltar para casa.

Sempre que decido, o destino é o rio, as margens do Douro, mas logo que me encontro na rua, outra indecisão aparece, nascente ou poente. Resolvo a situação, alternando. Hoje calhou ser dia de ir para poente, para o Cais do Ouro, um pouco antes da Cantareira. Parei o carro frente ao rio, que embora cheio, não transbordava, e decidi fazer uma curta caminhada. Mal cheguei à pequena casa que fica na ponta do cais, vi uma rapariga, muito magra, aí dos seus quinze anos, com um kispo e carapuço na cabeça, uma saia bege cobrindo umas calças escuras, encostada à parede virada para o rio, gesticulando e fazendo movimentos desordenados, apontando o dedo para o rio como que a culpá-lo. Por vezes parava e sossegava. A seu lado tinha uma minúscula trotineta de criança. A uma certa distância, mantive-me atento, procurando não dar nas vistas. Ao fim de algum tempo, retomou os gestos, pegou na trotineta, em cima da qual andou alguns metros, deu umas voltas pelo relvado com a trotineta na mão e desapareceu.

A chuva começou a cair de mansinho obrigando-me a voltar para o carro. A meio do caminho, a rapariga apareceu subitamente a meu lado. Não era uma rapariga, mas um rapaz, muito magro, bonito, com ar doce e uma barbicha muito rala. Um tanto acanhado, pediu-me uma moeda. Que idade tens, perguntei. Vinte e um. Pareces muito mais novo, o que fazes? Encolheu os ombros. Tens alguma doença? Encolheu novamente os ombros e disse baixinho, uns problemas. Com a droga? Encolheu de novo os ombros. Tens fome? Assentiu, com a cabeça. Toma lá cinco euros e vai comer qualquer coisa. Baixou o rosto, sorriu docemente, não sei se para fora se para dentro e disse: eu ando de saia, mas não sou… a saia é da minha mãe e é muito quentinha. Como te chamas? Carlos. Olha, Carlitos, eu gostava de conversar mais contigo, mas a chuva está a pegar. Dá-me os cinco euros e toma lá vinte. Vai comer qualquer coisa.

O rapaz levantou a cabeça, espantado, e sorriu abertamente. Olhou-me com toda a doçura dos seus olhos negros e com a voz mais firme disse: se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo.

Voltei para o carro e ali me mantive por algum tempo, tão triste como a chuva que começou a cair sem piedade. Pobre Carlitos, como eu gostaria que tivesses tido outra sorte. E voltei para casa a pensar nos meus netos.

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Nota do editor

Último post da série de 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)


REFLEXÃO ENTRE DOIS COPOS DE TINTOL

adão cruz

Caros amigos, já tenho escrito algumas reflexões referindo o vinho como estimulante da criatividade, pois ao contrário do que por aí se divulga, dizendo que o vinho é pior do que o tabaco e é o causador de sete cancros (!), ao fim de uma longa vida e de uma grande experiência profissional nunca de tal me dei conta. Além disso, um ou dois copinhos funcionam como uma espécie de analgésico ou anestésico, ainda que ligeiro, contra a dor causada pela barbárie e a crueldade de um mundo que começa a não ter razão de existir.

Almocei na Taberna do Doutor. “Doutor” refere-se à minha pessoa, por amizade e gentileza do meu amigo Zé Carlos, dono do restaurante. Entre dois copos de tintol, falámos de várias coisas. Ao ver entrar para o quarto de banho uma daquelas mulheres que dos sapatos ao cabelo, tendo o rabo de permeio, enquadram o tipo curvilíneo da exibição meramente física, falámos de sexo e do mais importante órgão sexual, o cérebro. Também falámos de amor, de simpatia e empatia, conceitos neurobiológicos bem diferentes. E a conversa desenrolou-se por aí fora, a sério e a brincar. Entretanto, o meu amigo recebeu um telefonema e começou a falar das suas vidas ao telefone. Foi aqui que entrei no segundo copo e a minha reflexão mudou de rumo.

Nesta idade, começo a caminhar à margem da vida, vivendo cada vez menos a vida exterior e cada vez mais a vida interior, ou por outras palavras, vivendo cada vez mais interiormente o sofrimento dos outros, dos desgraçados povos deste terrífico mundo.

 Nunca tive nem tenho a presunção de ser o que quer que seja, além de ser Eu. Penso que sou Eu, apenas Eu, e que sempre procurei na vida dar a este Eu seriedade e autenticidade. Contudo, pensando bem, eu não sou eu, eu não sou só eu, sou eu e o outro, eu e os outros.

 A vida é tanto mais vida quanto mais entrelaçada estiver com as malhas das outras vidas, com a poesia, a arte e o sonho de viver em feliz comunidade, melhor dizendo, entre as malhas do sentimento, porque é de sentimentos que se trata, do ponto de vista subjectivo, objectivo, científico e neurobiológico. O rio da nossa vida, da vida de todos nós tem todo o direito de nascer, correr mais fundo ou menos fundo, entre margens mais apertadas ou menos apertadas, até se alargar num estuário, de braços abertos, em plena liberdade, esquecendo as margens e sussurrando baixinho, quando é afagado pela brisa dolente e poética do fim da tarde, à entrada do mar.

Mais um gole, e a reflexão continuou. Uma reflexão que nada tem de profundo, mas que bate fundo ao reduzir-nos à nossa essência, de raízes bem assentes na vida, que devia gerar caules e flores distintas, mais ou menos delicadas e perfumadas, o que infelizmente nem sempre acontece. 

Falámos de mulheres, de trajes, de comportamentos, do culto do corpo acima de tudo, de vidas e outras coisas. Estas conversas de taberna não ficam atrás de palestras e debates no que respeita ao seu sentido pedagógico. As memórias da vida permitem-nos reconhecer nestas reflexões entre dois copos uma maior sintonia entre o sentimento e a sua materialização. Sobretudo, a materialização do sentimento da felicidade, muito difícil de acontecer na maioria das vidas, ao contrário do que se pensa.

 A verdadeira felicidade não é só ter a barriga cheia, ou a vida lustrosa tantas vezes vazia, ou a vida cheia… tantas vezes de nada. Por isso, eu penso que poucos seres humanos conseguem ultrapassar aquela fronteira para além da qual se encontra o sol radioso da felicidade, a qual só existe na verdadeira fruição estética da vida humana.

Assim sendo, escoei o copinho e vim até casa estender-me ao comprido, tendo apenas o tecto como horizonte.

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Nota do editor

Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27438: (in)citações (281): Os deuses também erram (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27438: (in)citações (281): Os deuses também erram (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414, Catió (1963/64) e Cabo Verde (1964/65), com data de hoje 18 de Novembro de 2025:


OS DEUSES TAMBÉM ERRAM

Mexendo nos meus velhos papéis encontrei um artigo publicado no extinto Jornal Correio de Fafe, de 15 de Janeiro de 1993, da autoria de Rui Assis e Sousa. Curioso, dado a sua actualidade.

Refere-se este distinto advogado e escritor ao Brasil de então, parafraseando alguém que não cita: Aqui os ricos são mais ricos que os ricos dos países ricos, e os pobres são mais pobres que os pobres dos países pobres.

O título do artigo fez-me lembrar o filme que vi há já bastantes anos, "Os Deuses Devem Estar Loucos".

Ontem como hoje no mundo inteiro a desproporção entre ricos e pobres é deveras assustadora. Paralelamente essa desproporção, que tende a aumentar, está na avareza, na inveja, no ódio, na falta de humanismo, acrescida de guerras, de injustiças, de morte de inocentes e de mau carácter de quem governa.

Resumindo: Os deuses também erram? Não... Os deuses estão loucos.

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Nota do editor

Último post da série de 8 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27402: (in)citações (280): A mata (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf)

sábado, 8 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27402: (in)citações (280): A mata (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf)

Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf
Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Fevereiro de 1966 > Vista aérea de Bambadinca, tirada do lado do Rio Geba e da estrada Bafatá-Bambadinca

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de 7 de Novembro de 2025:


A MATA

Caminhas, sentindo a pele molhada, quase pegajosa, por causa daquela constante humidade, por causa daquele calor sufocante.

Dentro de ti há um misto de medo e de determinação, que vai obrigando o coração a bater mais depressa, praticamente compassado com cada passo que dás.
A mata envolve-te, árvores altas, arbustos baixos, coisas que deveria ser lindo ver, não fossem as circunstâncias em que estás envolvido.

Olhas para trás e vês os teus homens que te seguem, uns com um semblante apreensivo, outros com uma calma aparente.
Querias poder transmitir-lhes paz e serenidade, mas sabes que também tu não estás tão calmo e sereno como aparentas estar.

À tua frente apenas o guia, um guineense, filho da terra, em quem confias para te guiar mata adentro.

Por um breve momento voltas a casa dos teus pais, à tua vida anterior que agora parece tão longe, e um tímido sorriso chega à tua boca, e deixas-te levar pela saudade.
Abanas a cabeça para sair desse torpor, pois sabes bem que ali, naquela mata, a distração pode ser fatal.

Queres olhar para além da vegetação que ladeia o trilho em que caminhas, mas se há espaços em que consegues ver mais longe, a maior parte do tempo apenas caminhas quase sem ter a noção certa do que te rodeia.
Levantas a cabeça, enches o peito, endireitas-te porque, caramba, és tu que tens que dar o exemplo, é a ti que os homens devem seguir com confiança e esperança.

Cada um deles, ao longo destes meses já passados, tornou-se num amigo teu e preocupa-te mais o seu bem estar naqueles tempos difíceis, que o teu próprio bem estar.

Sentes que deves a cada um deles a promessa a cumprir de os fazer regressar a todos ao aquartelamento primeiro, e depois, quando for tempo disso, regressar à casa que deixaram lá longe, ou até mais perto.

Vais ouvindo os barulhos da mata, o vento nas árvores, os animais que “falam” uns com os outros, os cheiros que já vais conhecendo bem, e continuas avançando como que a dizer que aquela mata agora é tua e de mais ninguém.

De repente percebes que um silêncio profundo se instalou.
Não se ouve nada, nem vento, nem animais, parece que até os cheiros deixaram de cheirar.

Numa fracção de segundo tomas consciência de que algo está errado, e gritas para os teus homens se prepararem para aquilo que vai acontecer.

Os cheiros regressam, mas são cheiros de pólvora.
Os animais já não “falam”, mas ouvem-se os gritos dos homens e a “voz” das armas.

Num instante, que parece uma eternidade, tudo termina.

Olhas apreensivo para todos e todos te devolvem o olhar, alguns com o medo espelhado nos olhos, outros com um olhar de alívio imenso.

Olhas para o céu, por entre as árvores, e tu, que nem costumas rezar, pensas apenas: Obrigado, meu Deus!

Marinha Grande, 7 de Novembro de 2025
Joaquim Mexia Alves

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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27245: (in)citações (279): Por favor, cuidem-se (Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27245: (in)citações (279): Por favor, cuidem-se (Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto)


1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de hoje, 23 de Setembro de 2025:

Olá companheiros

Obrigado por se lembrarem.
Continuamos a fazer anos. Quantos? Muitos, mesmo muitos. É uma história de vida já longa.
Nascidos nos anos quarenta do século passado e ainda crianças, iniciámos esta “tarefa da vida” e…, vindos pela mão da saudosa avó Agar assistir à missa ao domingo na igreja da então vila de Águeda, de entre as pessoas (quase todas vestidas de cores escuras e as senhoras de lenço na cabeça, quase encobrindo o seu rosto), tentando sempre olhar para cima, porque em frente e dado que éramos crianças, era impossível ver o senhor padre lá no altar, que ia lendo a epístola.

E nas paredes havia aquelas imagens dos ANJOS. Vendo-as, ficávamos na dúvida. Porquê? Porque tinham asas e não sabiam voar, pelo menos nunca tínhamos visto nenhum a voar lá na nossa aldeia. E mais, a saudosa avó Agar dizia-nos que estavam no céu e não pertenciam à terra.

Talvez fosse verdade, porque uma vez, lá naquela maldita guerra colonial, nas savanas e pântanos do golfo da então Guiné Portuguesa, debaixo de um ataque furioso do inimigo, num estado de sofrimento onde havia medo e angustia, com a mente toldada pela fúria do combate e da sobrevivência, pensando que íamos mesmo morrer, olhámos o céu e vimos um ANJO, (daqueles cuja imagem estava lá na parede da igreja), que estava voando na nossa frente, sempre a fugir de nós, para fora do pântano, em direção ao terreno seguro e…, cremos mesmo que nos salvou.

Eram outros tempos, em que se acreditava que as crianças vinham embrulhadas e penduradas no bico de uma cegonha e, não eram o resultado do amor entre os humanos, que dá lugar à multiplicação e..., elas que iam nascendo talvez fossem mais felizes, porque pensavam que os adultos e os ANJOS, as protegiam de todos os males. Infelizmente hoje, em algumas partes do mundo, ainda morrem abandonadas ou pelos estilhaços das bombas que vão explodindo junto de si e…, algumas até à fome, porque os seus pais, olhando à sua volta dizem: “Agora não temos nada, só bombas".

Enfim, nós éramos crianças que despertávamos e ainda acreditávamos, talvez perdidas no nosso tempo e hoje…, principalmente pela avançada idade, somos vozes apagadas pelo pó dos anos.

Mais uma vez obrigado do coração por se lembrarem e…, por favor, cuidem-se.
Tony Borie

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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27199: (in)citações (278): Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros? (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Operações Especiais)

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27199: (in)citações (278): Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros? (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Operações Especiais)

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de hoje, 9 de Setembro de 2025:


Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros?

Vejo e leio muitas vezes aqui na Tabanca Grande textos sobre os “os males” provocados pelas Forças Armadas Portuguesas na Guiné, e não só, (como recentemente o uso do napalm), mas raramente, ou nunca, se encontram por aqui textos relatando “os males” que o PAIGC, e não só, provocou nos militares portugueses e nas populações durante a guerra, porque sobre o acontecido depois do 25 de Abril até há alguns textos sobre o que então se passou.

Escreve-se sobre coisas que uma grande parte das vezes apenas se ouviu falar, histórias contadas e que terão sido praticadas pelos militares portugueses, mas sobre coisas semelhantes praticadas pelos militares do PAIGC, pouco ou nada se diz.

Eu, por exemplo, ouvi contar várias histórias que terão acontecido durante e depois de emboscadas feitas pelo PAIGC, mormente no conhecido “carreiro da morte”, mas, porque de tal não sou testemunha presencial e são histórias muitas vezes repetidas, evito falar ou escrever sobre as mesmas.

Mas com tanta gente que aqui vem todos os dias, não haverá ninguém que escreva e dê testemunho sobre isso?

Calculo que não seja politicamente correcto, como hoje em dia se diz, mas se este espaço se quer considerar um repositório mais ou menos fiel dos acontecimentos da guerra na Guiné, não deveria também ter essas histórias do “outro lado” aqui contadas?

É uma espécie de desafio que aqui deixo, para que a verdade não exista só para um dos lados, mas para ambos, pois a paz só se constrói verdadeiramente na verdade.

Marinha Grande, 9 de Setembro de 2025
Joaquim Mexia Alves

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Nota do editor

Último post da série de 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)



O CÉREBRO TAMBÉM PODE APODRECER

adão cruz

Já o tenho dito muitas vezes, mas não me canso de o repetir. O nosso cérebro, encerrado completamente às escuras numa dura caixa óssea, é a estrutura mais complexa e mais difícil de entender, no planeta e no Universo conhecido. O simples cérebro de uma formiga é uma estrutura mais complexa e difícil de entender do que uma estrela. O nosso cérebro é composto por 86.000 milhões de células, ou neurónios, ligados entre si por biliões de ramificações. Um milímetro cúbico de córtex cerebral contém mais conexões do que seres humanos à superfície da terra. Este nosso admirável e soberano órgão realiza provavelmente triliões de ligações e cálculos durante os nossos raciocínios do dia-a-dia.

E todos nós o desprezamos, considerando-o pouco mais do que um instrumento de discussão futebolística. Porém, não é propriamente esta mensagem numérica o que aqui quero deixar. Gostaria que ficasse retida a sua essência, isto é, o reconhecimento da poderosíssima arma e riqueza da nossa estrutura mental, do nosso pensamento e da nossa razão.

Diante de tudo o que se passa actualmente no mundo, especialmente o silêncio e a indiferença perante a crueldade e a barbaridade nunca vistas, a desumanidade elevada ao mais alto grau, a morte lenta da solidariedade e justiça sociais, o hedonismo absoluto e o espezinhar de toda a ética e dignidade, como vemos inacreditavelmente e diariamente nos ditos líderes europeus e não só, sou levado a pensar que uma boa parte do cérebro humano da nossa sociedade está envolta numa nuvem de poeira ou mesmo enferrujada ou até apodrecida. Como se fora uma maçã, meio sã e meio podre. Simplesmente, a parte sã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã apodreça por completo.

Se a parte podre e a parte sã da sociedade fossem bem definidas e houvesse uma hipótese cirúrgica de as separar, seria a única solução terapêutica, permitindo extirpar a metade podre, deitando-a repugnantemente ao lixo. A forma de o fazer, como é óbvio, não seria fácil de imaginar. Porém, o são e o podre da humanidade não estão, provavelmente, separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre pode estar infiltrado no meio do são e o são infiltrado no meio do podre, o que nos leva a pensar que a vitória da parte sã se tornaria ainda muito mais difícil ou impossível.

Uma tão ciclópica tarefa, a ser tentada, só poderia ser levada a cabo no seio daquela parte da sociedade, cujo cérebro ainda saudável fosse capaz de lutar diariamente com as armas mais poderosas do ser humano, o pensamento e a razão, único detergente com poder para limpar as zonas podres da nossa mentalidade. Porém, tal detergente, aquele que a ignóbil e prostituída comunicação social não permite, é substituído por outro mais fraco, uma espécie de linha branca, fazendo pouca espuma e deixando o cérebro permanentemente untuoso de gordura. Seria indispensável conhecermos o mais profundamente possível e enfrentarmos como cidadãos conscientes os factores necróticos da degenerescência humana e os catalisadores da putrefação, que são incomensuráveis.

Desde a diabólica corrupção à criminalidade social dos que nunca foram filhos e nunca tiveram nada, até aos crimes bem mais graves e socialmente destrutivos de muitos dos que sempre tiveram pais e tiveram tudo. Desde as mentiras, distorções, falsidades e obscurantismos de toda a espécie, à monumental hipocrisia e crimes das instituições, nomeadamente religiosas, consideradas impenetráveis à desonra, mas mostrando-se ao mundo como campeãs em muita podridão, nomeadamente a que respeita a um dos mais hediondos crimes, a pedofilia.

Podemos pensar que se trata de um trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente anquilosada, atrofiada, de neurónios quase murchos, difíceis de reanimar, nos quais os poderes instituídos fecharam o fluxo da razão a sete chaves, a razão fruto do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, contra a injustiça, contra a mentira, contra a falta de ética e moral, contra a estupidificação institucionalizada e contra a falsa cultura, ...a cínica madrasta de um sociedade livre.

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Nota do editor

Último post da série de 21 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)


1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de 20 de Julho de 2025:


OS SINAIS DE DEUS

Era para ser uma consulta normal de oftalmologia.
Na quarta feira a caminho de Lisboa, pareceu-me sentir algo diferente na minha vista direita mas não dei importância por já ter alguns problemazitos anteriores que eram, aliás, motivo da consulta.
Na consulta a médica, muito simpática e competente, (amiga do meu filho mais velho e da minha nora), mandou-me ler com a vista direita as habituais letras do quadro e foi então que percebi que não via nada daquela vista, estava tudo negro, excepto uma pequena nesga do lado direito que ainda tinha imagem.
O susto foi enorme e feitos os exames competentes logo se chegou ao diagnóstico de um grave descolamento da retina que necessitava de intervenção cirúrgica urgente.
A competência e dedicação da médica foram inexcedíveis e conseguiu que uma sua colega arranjasse tempo para me operar no fim da manhã seguinte.

Assim aconteceu e, para encurtar razões, já me encontro em casa, em repouso prolongado para garantir o bom êxito da operação.
Como em tudo o que me acontece hoje em dia tento sempre ver a presença de Deus e o que Ele me quer dizer no que me vai acontecendo.
Assim escrevo este texto que vai ser o último destes próximos dias.

Os sinais de Deus
A mão de Deus


Esta consulta já tinha sido adiada por mim.
Se fosse quando estava marcada inicialmente o problema não teria sido detectado.
A mão de Deus guiou-me para o tempo certo e as circunstâncias certas.
Nas coisas de Deus não há coincidências, há “deuscidências”.

Sinal de Deus

A constatação de que nada via da vista direita, como se fosse uma cortina preta, excepto a pequena nesga do lado direito, levou-me a reflectir que muitas vezes nós colocamos essas “cortinas” na nossa relação com Deus e apenas O queremos ver em pequenas partes das nossas vidas.
Também precisamos de uma “operação espiritual” que remova essas “cortinas” da nossa visão de Deus.

A presença de Deus

Depois do enorme susto de perceber a perda da visão naquela vista, sobreveio uma grande serenidade, aceitação e entrega à vontade de Deus.
Entreguei tudo por aqueles que podendo ver Deus querem continuar cegos à Sua presença nas suas vidas.
Nas horas que fui passando nos cadeirões e macas, fui invocando o Espírito Santo e servindo-me dos dedos das mãos para ir contando as contas do Rosário, sentindo assim bem viva a Sua presença com Maria nossa Mãe junto de mim.

O amor de Deus

As médicas, as enfermeiras, auxiliares, administrativos daquele Hospital dos Lusíadas, foram de uma simpatia e dedicação a toda a prova, (e reparei que não era só comigo), e isso foi para mim o amor de Deus a rodear-me.
A minha comunidade paroquial da Marinha Grande com os seus grupos a que pertenço com enormes amizades, as minhas amigas e amigos do Renovamento Carismático Católico, no CHARIS, Pneuma, Comunidade Emanuel também do Alpha com as suas orações, foram também, sem dúvida, sinal visível do amor de Deus para mim.
O meu “velho” grupo de amigos de Lisboa com o Grupo de Forcados de Montemor e não só, já desde a juventude, com a sua amizade e solidariedade, foram uma expressão muito sentida deste amor de Deus que une os amigos. Um deles até escreveu logo que esperava um texto sobre o “acontecimento”!
Os meus filhos, nora e genro, a minha mulher, a minha irmã e irmãos, a minha família e ligados a ela, com o seu carinho e ternura foram e são sempre a parte mais visível e próxima do amor de Deus na minha vida.

A todos, muito, muito obrigado.
Guardo-vos nas minhas orações
Deus vos abençoe, proteja e guarde sempre.
Realmente o amor de Deus não tem largura nem comprimento, é incomensurável, eterno e manifesta-se das mais variadas formas.
Obrigado meu Deus por tanto que me dás e eu dou-Te tão pouco.

Marinha Grande, 19 de Julho de 2025
Joaquim Mexia Alves

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Notas do editor

- Este texto pode ser lido na página do facebook do nosso amigo Joaquim Mexia Alves, clicando no título

- Último post da série de 4 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P26982: (in)citações (275): Jorge Ferreira, "um dos nossos mais velhos"... "Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... É só preciso ter cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (Luís Graça)

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26982: (in)citações (275): Jorge Ferreira, "um dos nossos mais velhos"... "Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... É só preciso ter cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (Luís Graça)


1. O Jorge Ferreira faz hoje 87 aninhos! É da colheita de 1938... É capaz de ser "um dos nossos mais velhos", a par do António Rosinha, do George Freire, do Mário Arada  Pinheiro , do Alberto Nascimento (cito de cor) ...  Falo dos nossos grão-tabanqueiros que ainda continuam ativos, saudáveis, produtivos e proativos!...  Enfim, o Jorge é uma figura sempre presente na Magnífica Tabanca da Linha e, de vez em quando, telefonamo-nos. E na Tabanca Grande a idade é um posto. 

Tenho por ele uma grande estima e carinho. É um vê-cè-cê, um veteraníssimo, ainda do tempo da farda amarela, que honra a nossa Tabanca Grande. E merece, hoje, um destaque especial.

Tive o privilégio de o apresentar à Tabanca Grande em 19/9/2016 nestes termos (**):

(...) o Jorge, veteraníssimo camarada que esteve um ano em Buruntuma, entre novembro de 1961 e julho de 1962, quando ainda a guerra não tinha começado oficialmente, tem um livro lindíssimo sobre aquela terra e as suas gentes que ficaram no nosso coração (...)

Conhecemo-nos há dias, pessoalmente, embora já desde meados de junho que temos vindo a falar ao telefone. (...)

Eu e o Jorge Ferreira, que mora no concelho de Oeiras, para além da Guiné, temos várias coisas em comum: 

(i) a frequência do ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde ele se licenciou depois de ter vindo da Guiné, (e onde eu frequentei o 1º ano da licenciatura em ciências sociais, em 1975/76, na mesma altura em que lá esteve o cap cav Salgueiro Maia); 

(ii) vários amigos do Instituto de Informática do Ministério das Finanças e da DGOA - Direção Geral de Organização Administrativa);

(iii) a paixão pela fotografia, etc...

 Trabalhou, depois do regresso, em maio de 1963, da Guiné , nos serviços mecanográficos do exército até 1972 onde teve, entre outros, como colega o Manuel Barão da Cunha, conhecido escritor da guerra de África, bem como o seu irmão Francisco.

O Jorge [da Silva] Ferreira, que passa a ser o nº grã-tabanqueiro nº 728 , tem um blogue de fotografia que merece ser divulgado e conhecido. 

 É um homem culto e viajado. e que cultiva a memória. No seu blogue, diz com modéstia que não é "um fotógrafo profissional nem mesmo um amador". Descreve-se apenas como um" caçador de imagens" (...) "que desde muito jovem se sentiu atraído pela fotografia, passando a fazer parte do [seu] quotidiano". 

Retomou a fotografia depois de enviuvar há 5 anos, fazendo do seu blogue também uma tocante homenagem à sua companheira de uma vida, Gabriela, e mãe do seu filho  (...)

2. Em plena pandemia, há 5 anos atrás, quando estávamos a olhar o mundo através do vidro embaciado da janela, trancados em casa, à espera que o pesadelo da pandemia de covid-19 passasse, escrevi ao Jorge as seguintes quadras (estava "desenfiado" na Quinta de Candoz, a quase 400 km do meu poiso habitual). É uma forma de lembrar quão resistentes, afinal, temos sabido ser,  e graças também ao nosso humor, às nossas tabancas, às nossas tertúlias (físicas e virtuais)...

Reitero os votos que sempre lhe faço, desde que nos encontrámos, em 2016: Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... Cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (***)


Ao Jorge Ferreira (e aos demais aniversariantes da nossa Tabanca Grande que foram obrigados a cantar "os parabéns a você", sozinhos em casa):


Amigo Jorge Ferreira,
És dos nossos veteranos,
Mas não caias na asneira,
De dizer que fazes anos.

Não há copos p’ra celebrar,
Nem na Tabanca da Linha,
Mas logo que a crise passar,
Abre o Resende a cozinha.

Em Buruntuma, as bajudas
Foram todas retratadas,
Fossem belas ou feiudas,
Solteirinhas ou casadas.

Desse tempo tens saudade,
Até marcos tu puseste,
Não te pesava a idade,
Grande alfero lá do Leste.

Retificaste a fronteira
C’o a Guiné-Conacri,
E juraste p’la bandeira:
 “Sou eu quem manda aqui”.

Saia um  peixinho da bolanha,
Feito à maneira, no forno,
Quem não tinha arte e manha,
Apanhava com um corno.

Paludismo, hepatite,
E até bilharziose,
Não faltava o apetite,
Cada um c’o sua dose.

De Paunca até Pirada,
Do Gabu até Bolama,
Não me queixo, camarada,
Dormi no mato e na cama.

Tive farda de caqui,
E chapéu colonial,
Mas só de amores morri
Pl' aquela terra, afinal.

Convivi com  o Sané,
Senhor de Canquelifá,
Percorri meia Guiné,
Fiz amigos como os de cá.

Em resorts de muitas estrelas,
Deixei pedaços de mim,
Não me lembro das caravelas,
Mas a história foi assim.

Buruntuma, hás de ser grande,
Não importa em que ano ou dia,
Seja o povo quem mais mande,
Em passando a pandemia.

Hoje o Jorge é menininho,
Vai ter ronco na tabanca,
Toda a gente, preta ou branca,
Lhe vai dar um miminho.

Luís Graça, 
Tabanca de Candoz, 4 de julho de 2020 (****)
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Notas do editor LG:

(****) Vd. poste de 4 de julho de 2020 > Guiné 61/74- P21140: E as nossas palmas vão para... (20): o veteraníssimo Jorge Ferreira, que hoje faz anos, e foi o etnofotógrafo da Buruntuma de 1961/63 que não existe mais...

sábado, 14 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26921: (In)citações (274): Brancos, pretos e morenos (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR)


1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74), com data de 13 de Junho de 2025:


Brancos, pretos e morenos

Numa noite de Dezembro, há 54 anos, num dia de calor asfixiante, chegamos à entrada da barra do porto de Bissau de águas barrentas, e atmosfera tensa, de quem não sabe para onde vai, se íamos desembarcar directamente num cenário de guerra generalizada onde todos andavam armados em posição de reacção a qualquer confronto.

Ficamos pois admirados, porque quem conduziu o Angra do Heroísmo até ao cais foram pilotos nativos negros, nas suas vestes pouco menos que andrajosas, e quando amanheceu, na vez de viaturas militares onde seríamos prontamente inseridos no dispositivo militar pronto para tudo, estavam viaturas civis de mercadorias, conduzidas também por africanos. Sem escolta fomos transportados durante 40 quilómetros até ao Cumeré.

Fez-se noite no caminho. Nós, mais três companhias madeirenses, chegamos e fomos alojados nas longas casernas. Era véspera de Natal e umas cervejas fizeram a festa até ao inesperado disparo das antiaéreas, que nos fez acordar para uma guerra que havia por ali, quase ao virar da esquina. Nessa noite o PAIGC atacou 16 destacamentos, entre eles Nhacra. Aprendemos assim como eram festejados os nossos dias mais queridos, o PAGC fornecia o fogo de artificio com que se iniciavam os festejos.

A partir daí Geba acima, aproveitando a enchente do Macaréu, fomos transportados para Leste até ao Xime e de lá, transportados novamente em camionetas civis até Galomaro, Dulombi, Cancolim e Saltinho. Tinha começado o nosso relacionamento com as populações, baseado nos serviços que nos prestavam na medida em que lhes pagávamos. O expoente máximo do comércio era entre nós e as lavadeiras, mais as vendedoras de mancarra e, no tempo dele, de caju. Os mais afoitos começaram a visitar os locais onde se bebia vinho de palma e até uma ou duas prostitutas. O bar do Regala era também um dos sítios mais cobiçados com as suas cervejas de litro bem frescas e um bitoque confeccionado pela Dona Maria, que não ficava nada atrás dos que por cá comíamos.

A ligação com as pessoas da tabanca era pois constante e nas colunas de abastecimento era comum camionetas civis fazerem connosco os reabastecimentos aos destacamentos mais isolados.

Depois começamos com os reordenamentos, que de muitas maneiras estreitou as nossas relações com as populações com negociações por vezes hilariantes, onde o homem grande prometia duas galinhas para ser o primeiro a ser contemplado com a sua morança concluída. Bem no final havia sempre muita discussão porque nós dizíamos duas galinhas e ele nem uma queria dar.

Nós fomos cidadãos do Mundo desde 1500. Convivemos e cruzamo-nos com todas as raças sem preconceito se era negra, índia, asiática ou indiana. Diz-se por graça que Deus criou o homem e mulher, os portugueses a mestiçagem tal são os traços do resultado que deixamos pelo Mundo. Também nós emigramos à procura de vida melhor fugindo à guerra ou à miséria e falta de horizontes.

Que sempre houve racismo, é verdade, mas não era generalizado. Hoje assistimos a esse fenómeno, onde parte da nossa sociedade tenta segregar a outra, rejeitando-a, esquecendo que essa gente que habita nos nossos piores bairros, que tem os piores transportes e os piores empregos, são descendentes dos que connosco conviveram, muitos dos quais combateram ao nosso lado e sofreram dores tamanhas.

A sua música e sabores, os idiomas, as suas práticas religiosas, a sua arte, fazem Portugal albergar o Mundo inteiro neste pequeno rectângulo. O Portugal plurirracial é hoje posto em causa por quem antigamente o usava para prolongar aquela guerra sem sentido.

Usam-no para colher votos, achincalham as instituições, provocam, agridem gratuitamente nas ruas com violência das biqueira de aço e poluem os nossos ouvidos com sua constante aparição nas TVs, onde vomitam ódio, muitas vezes às claras.

Albergam-se em partidos que beneficiam da democracia para acabar com ela.

Fazem bandeira dos não assunto, mentem descaradamente e arrastam atrás de si veteranos que acreditam nas suas patranhas usando as nossas justas aspirações.

Como podem resolver o que está mal se eles são o mal?

Juvenal Sacadura Amado
13/06/2025

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Nota do editor

Último post da série de 10 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26906: (In)citações (273): Envelhecer... com dignidade?!? (Joseph Belo, José para os "tugas")

terça-feira, 10 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26906: (In)citações (273): Envelhecer... com dignidade ?!? (Joseph Belo, José para os "tugas")









O José Belo, no seu melhor...


Foto: © José Belo  (2025. Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]


1. Mensagem de Mr. Joseph Belo  (José para os "tugas") que, tem como Deus, o dom da ubiquidade (a par da arte da camuflagem), conseguindo estar ao mesmo tempo 
 pelo menos em 3 ou até mais sítios (Lapónia / Suécia, Estocolmo / Suécia, Key West / Florida / USA, Tabanca Grande...).  

O que muito nos apraz. O seu sentido de humor, a sua sabedoria de cidadão  do mundo, a sua capacidade de "destilar" e beber o melhor da cultura  dos povos com  quem tem lidado, a sua resiliência, ...,. enriquecem também a nossa Tabanca Grande, ajudam-nos a lidar melhor com as nossas diferenças (reais ou imaginárias),  tornam-nos mais tolerantes e até mais empáticos... 

Tenho aprendido com ele, sobretudo, a capacidade de saber ouvir...  Deus deu-nos o sentido do ouvido, mas não nos ensinou a saber ouvir...o outro. 

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades (que continua a fazer sentido celebrar... com amor & humor), fica aqui o seu pequeno contributo para que a nossa tertúlia continue a ser um elo de ligação entre nós e as nossas "sete partidas"... (E a cumprir mais um ano de calendário: fizemos 21 anos, no passado 23 de abril, sem pompa nem circunstância...).

Gosto da imagem das 7 partidas... Isto quer dizer também que chegámos (quando conseguimos chegar) às mais desvairadas partes do mundo... Não foram 7 partidas, e 7 chegadas. Chegámos, ficámos, voltámos a partir, demos um oontributo importante para a universalidade da cultura humana.. Isto quer dizer também que ficámos mais ricos depois de chegar do que antes de partir...Ricos, em termos mais imateriais do que materiais. 


Data - sábado, 7/06, 11:57 (há 3 dias)
Assunto - Envelhecer...com dignidade ?!? (*)


Logicamente o blogue sofre os inexoráveis “atritos” relacionados com a passagem das já muitas décadas.

O envelhecimento dos participantes, a somar-se a uma diminuição da popularidade dos blogues em geral (e a queda em convenientes “evitar balançar o barco” ) poderá levar a uma diminuição de “militância”.

A aparente incapacidade de muitos de, por saudáveis minutos, não levarem as opiniões próprias (ou alheias) demasiado “a sério",  acabará por contribuir para alguns dos afastamentos.

Os já quase cinquenta anos de afastamento das realidades portuguesas do dia a dia talvez acabem por contribuir para uma mais “desinibida apreciação”, seja ela desde Key West/Florida ou do extremo norte sueco.

Talvez.

Um abraço
J. Belo


2. O pretexto do comentário acima foi o comentário, abaixo, que eu fiz há uns dias ao poste do Zé Teixeira  (*):

Zés, Josés, Zé Teixeira, Zé Belo: andamos a blogar há mais de 20 anos (desde 2004, ano que praticamente não conta, publicámos "apenas" 4 postes")... 

Este poste do Zé Teixeira é o P26888 (!)...Publicamos, em média, mais de 1300 postes por ano... Todos os dias (!), como se fosse um jornal diário, o nosso blogue muda de cara, há sempre "coisas novas", mais interessantes ou menos interessantes, que chamam a atenção do leitor...

Ao fim de 20 anos, há naturalmente um "cansaço bloguístico"... Já fizemos pelo menos 10 "comissões na Guiné", cada uma de 2 anos... Não há "tuga" nem "turra" que aguente!... 

Tudo isto para dizer que é uma pena o texto intimista do Zé Teixeira passar um pouco ao lado, na voragem dos dias... Merecia ter, pelo menos, uma boa meia dúzia de comentários... Há uns anos atrás tê-los-ia... Desculpas ? Estamos "velhos e cansados"... Não vale a pena arranjar desculpas !...

O Zé Belo, distante, enigmático, lapónico..., interpelou-nos, mais um vez com uma questão existencial: "Será possível regressar de onde nunca se chegou para o que já não existe?"... 

A esta hora da manhã, sem tomar o meu pequeno almoço ("uma salada de banana, maçã reineta ou pera rocha, morangos, nozes da Califórnia e iogurte grego"... + um café!), não me atrevo a sequer a equacioná-la... quanto mais a tentar respondê-la... Mas mexe com a gente..., mexeu comigo!...

Como mexeu a leitura, a primeira que fiz hoje (e só hoje!, às 7 da manhã), da reflexão, pungente, do Zé Teixeira:

"A guerra nunca acaba, fica connosco"... 

Levei um murro no estômago vazio!...Revi-me em grande parte na história de vida do Zé, o seu percurso foi o de muitos de nós... Um calvário doloroso que cada um de nós, antigos combatentes, percorreu... antes, durante e depois da Guiné....Solitário!...

Mesmo nos momentos mais exaltantes das nossas vidas, pessoais, familiares e coletivas, tivemos de pôr entre parênteses a p*ta da guerra que fomos obrigados a fazer e da qual regressámos com um sentimento, pesado, opressivo... Regressámos com vida, mas, muitos de nós, com a "morte na alma"... Cumprimos o "dever para com a Pátria! (!)" (que está sempre acima dos regimes políticos), ou seja, pagámos-lhe o "imposto de sangue" que ela nos exigiu... Retomámos o nosso lugar (que já não era o mesmo!), continuámos a ter o direito de viver aqui e agora, mesmo que muitos também tenham optado por seguir os caminhos da diáspora (e de "novos exílios", como o Zé Belo)...

Zé Teixeira, está lá tudo. De facto, a guerra nunca acaba, fica connosco. Nenhum de nós faria melhor. E arrematas com um sorriso e uma nota de esperança e de fé, reveladores da tua grandeza humana... Por outras palavras, e parafraseando o Pablo Neruda, disseste o que é importante: "Confesso que vivi"...(Horrível, ou pelo menos "chato", é chegar à porta do São Pedro, de mãos vazias, sem nada para negociar...).

C/ um alfabravo fraterno, Luís

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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 5 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26888: (In)citações (272): "A guerra nunca acaba, fica connosco" (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro)

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26888: (In)citações (272): "A guerra nunca acaba, fica connosco" (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro)

1. Mensagem do nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, QueboMampatá e Empada, 1968/70) com data de 2 de Junho de 2025:


"A guerra nunca acaba, fica connosco"
Arturo Pérez-Reverte

Era eu um jovem, feito homem, quando fui convocado para prestar o serviço militar. Passado um ano, fui forçado a partir para a Guiné (hoje, República da Guiné-Bissau) para, como diziam os mandantes da Pátria, defender o solo pátrio do ultramar, por outras palavras; defender a soberania portuguesa, e porque não; os interesses dos senhores do grande capital.

Tinha duas hipóteses: aceitar, a contragosto, e pegar em armas, ou despedir-me da família, dos amigos, da Pátria que me viu nascer, e fugir para o estrangeiro, até ao fim da vida, sob o risco, de no caso de ser preso, partir de imediato para os locais onde a guerra era mais impetuosa.
Empada - José Teixeira escrevendo

Apenas dois anos dados à Pátria, os quais rapidamente recuperávamos, graças à nossa juventude, diziam os mandantes.

Mas não foi bem assim. Andei dois anos perdido, é um facto. Vivi situações de difícil descrição. Vi morrer, sem poder valer. Salvei vidas de militares e civis vítimas da guerra que ninguém queria. Salvei vidas de crianças (bebés) com crises de paludismo, que atingiam 42ºC de temperatura corporal. Consegui fazer daqueles dois anos um tempo de vitórias e algumas derrotas, de algumas alegrias no meio de muito sofrimento. Vivi momentos em que senti a morte a meu lado, nos estilhaços cravados na terra a centímetros da minha cabeça, nas balas que passavam a assobiar e se cravavam na árvore, onde me protegia, da mina anticarro que destruiu a viatura da qual tinha saltado segundos antes…

Passados dois anos regressei à “mãe pátria” e tentei esquecer aquele amargurado tempo que nunca mais passava, mas a guerra ficou cá dentro, e nunca mais acabou.

Regressei com uma sensação de vazio dentro de mim, e encontrei vazios muitos dos espaços, onde antes de partir, centrava a minha vida. Até a família, apesar do intenso calor humano e amor, com que fui recebido, estava diferente. Tinham feito caminhos que eu não palmilhei. Sentia-me estranhamente só. Os amigos e amigas tinham partido para outras aventuras onde não eu estive. Perdi-os. Já não tinha lugar junto deles. Estava com um atraso de dois anos. Tive de conquistar de novo, a pulso, o meu lugar, onde me foi possível.

Do emprego recebi um não. Não havia lugar para mim. Tive de aceitar a parca indemnização que me ofereceram e partir para outra aventura. Na valorização académica, foi um começar de novo, com muito esforço. A mente parece que tinha adormecido e recusava-se a retomar o caminho da aprendizagem que precisava de fazer para construir o futuro.

Tantas outras barreiras que tive de ultrapassar para me encontrar!

Será que me consegui encontrar? Não!

Fui caminhando ao meu encontro. Reconstruir a vida era o desafio mais cativante e absorvente. Encontrar caminhos novos, caminhos diferentes, seguir novas pistas e sorrir para a esperança. Uma vida longa, com muitos momentos gratificantes, faz-me sentir um homem realizado, diferente do jovem que partiu para a Guiné.

Dentro de mim, tentava apagar os resíduos da guerra, mas quando pensava que tinha enterrado uns, apareciam outros. E, assim tem sido pela vida fora.

Recordo que quinze dias depois de regressar apareci debaixo da cama, sem saber como fui lá parar. Apenas uma porta tinha batido com um pouco de violência, provocada pelo vento.

Nos primeiros tempos tentava recusar-me a pensar na Guiné. Nem sequer falar ou ouvir falar de guerra. Qualquer cena de guerra na TV me angustiava. Os meus filhos dizem (muito mais tarde) que me viam chorar frente à TV a preto e branco, quando passava filmes de guerra, ou reportagens sobre conflitos armados, que infelizmente continuaram a surgir em várias partes do mundo).

Com a Revolução de Abril, surgiu como que um abafado silêncio, talvez medo, perante as correntes que denunciavam a guerra colonial e os seus efeitos, enquanto defendiam, e muito bem, a autodeterminação e independência para as colónias. Nós, os veteranos que tínhamos sido forçados a viver essa guerra, sentíamos uns olhares acusativos, como fossemos nós os culpados.

Depois, surgiu uma necessidade tremenda de falar, de contar o que me tinha acontecido, mas logo notei que não era compreendido. As pessoas não conseguiam entender. Ouviam. Ouviam… como para mim bastasse que ouvissem. Nem eu sabia o que queria com aqueles desabafos.

Passados cerca de vinte anos senti a carência das amizades que nasceram e frutificaram naqueles dois anos, os camaradas de aventura, os companheiros da minha Companhia Militar, e toca a tentar encontrá-los. Cerca de cinquenta atenderam a chamada. Três não responderam. Tinham tombado para sempre na Guiné. Outros já tinham partido no caminho que não tem retorno. Muitos, tinham emigrado. Houve, também, quem tentasse pôr uma pedra definitiva sobre os tempos de guerra, mas o encontro fez-se, e vieram as mulheres e os filhos. Depois, os netos e bisnetos. Vieram as dores, as enxaquecas, as artroses, indícios da velhice que não perdoa. Vieram as dores ao ver alguns partirem para a eternidade. Mas, continuamos a reservar um dia por ano para nos encontrarmos, falarmos de nós, da guerra que vivemos, das barreiras que tivemos de ultrapassar, dos caminhos novos que tivemos de construir, dos tempos que correm e que não entendemos. Da crueza das guerras que rebentam por todo a terra e que nós sentimos como ninguém, porque também vivemos uma guerra. Sabemos que quem as faz, não as quer fazer. Quem as manda fazer, não padece no corpo, os seus efeitos. Quem sofre os seus efeitos é o povo, as gentes humildes que querem viver em paz.

Para tentar acabar com a “guerra” que vagueia dentro de mim, parti para a Guiné, em romagem aos locais onde senti de perto os seus efeitos, onde a vivi. Procurei os lugares onde mais sofri. Os locais onde vi camaradas partirem para a eternidade sem lhes poder valer, locais onde acolhi e tratei feridos. Chorei as dores, que não tivera tempo de chorar no momento dos acontecimentos.

Procurei os amigos que por serem guineenses por lá ficaram na guerra. Tinham vindo comigo, no coração. Receberam-me em abraços. Muitos já tinham partido, alguns dos quais barbaramente assassinados, pelos conquistadores da “liberdade” da Pátria Guineense, por terem sido cobardemente abandonados por Portugal, que os considerava filhos e os motivara para a guerra na sua terra contra os seus irmãos de sangue, para os abandonar e lhes tirar a cidadania, entregando-os nas mãos dos combatentes contra quem tinham lutado, por Portugal. Trouxeram-me a família, mulheres, filhos, netos. Passei a ser “ermon di coração”. Seus filhos viram em mim o pai, seus netos, o avô.

Encontrei, em sã convivência, antigos guerrilheiros que me saudaram sem qualquer remorso, que tentavam localizar encontros de guerra, batalhas de frente a frente, sem nos vermos. Recordamos o ruido das armas, os mortos e feridos de ambas as partes. Ainda foram alguns, esses desencontros de outrora que tanto nos fizeram sofrer, a mim e a eles. Estranhamente sentimos necessidade de contarmos pormenores, localizarmos posições, historiarmos aqueles momentos, tal como fazemos quando encontramos algum camarada que partilhou connosco a terrível aventura da guerra. A necessidade de darmos o abraço da paz, apossou-se de nós em cada encontro. A frase “discurpa ermon, mas guerra é guerra” bailou nos nossos lábios, por ordem expressa do coração. Nos nossos olhos brilhava a luz da paz, do reencontro de “ermons” desavindos, e a amizade ganhou vida.
Ingoré, 2015, José Teixeira rodeado de crianças

Visitei as tabancas que me tinham acolhido, de quem retenho boas memórias. As “bajudas” raparigas de então, hoje, esposas, mães e avós. Fui reconhecido, chamado pelo nome. Sucederam-se os abraços, os ajuntamentos familiares, a festa cheia de sorrisos tão quentes como os de outrora. Recordamos tempos em que no ar pairava o medo da morte, a dúvida, a insegurança, ao lado da esperança do fim de uma guerra injusta. Hoje, respira-se paz e harmonia entre as gentes da Guiné, tão divididas naquele tempo. Há o bem-estar possível, num país continuamente adiado, mas onde a alegria caraterística dos povos africanos expressa nos ritmos e batuques, ocupou de novo o seu lugar.

A Tabanca de Matosinhos surgiu da necessidade de nos encontramos, os que passaram pela Guiné, de falarmos de nós, das nossas “guerras” numa linguagem que só nós entendemos. De convivermos numa “caserna” real, onde todas as semanas há sempre novidades da guerra. Já se passaram vinte anos, mas continua bem viva.
Uma quarta-feira na Tabanca de Matosinhos

O blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné foi outro espaço de reencontro comigo, com camaradas que viveram dramas idênticos, e como eu continuam a sentir a guerra dentro de si e a pôr em comum dramas e aventuras, momentos bons e momentos menos bons da sua guerra.

Voltei à Guiné, mais tarde, outra e outra vez, à procura da paz interior, mas a guerra nunca acabou. Continua cá dentro.

José Teixeira
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Nota do editor

Último post da série de 21 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26828: (In)citações (271): Eu vivo na Lisboa que amo (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR)