Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta (In)citações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta (In)citações. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 31 de Agosto de 2026:


Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes

No princípio da década de 90 começaram a ter lugar os primeiros convívios de Antigos Combatentes pertencentes à mesma companhia e/ou ao mesmo batalhão. Esta iniciativa partia sempre da boa vontade de alguns antigos combatentes. Por meados da década de 90, quando os convívios já eram moda, apareceu uma nova modalidade, mas sempre com os mesmos objectivos.

Esta nova modalidade consistia de um convívio entre todos os naturais de uma mesma freguesia, que tivessem participado na guerra do ultramar. Convívios desta natureza reuniam sempre um número de presenças muito elevado, porque eram abertos a residentes e não residentes. Na freguesia de Campia, com 182 antigos combatentes, as presenças eram sempre superiores à centena. Muitas foram as freguesias que aderiram a esta modalidade, havendo mesmo casos de algumas onde à falta de iniciativa por parte de antigos combatente era a própria junta da freguesia a tomar a seu cargo a organização de um convívio, como era o caso da Freguesia de Cacia no Concelho de Aveiro.

Muitas associações de antigos combatentes como é o caso da “Tabanca Grande” tiveram e muitas ainda tem, os seus convívios anuais.

O número de convívios atingiu no ano de 2014 o valor 360, publicitados, estando esse valor reduzido para o ano 2026 a 70 convívios aproximadamente. Tudo terá um fim no dia em que todos os antigos combatentes façam parte das hostes celestes da Paz e do Amor.

O nosso camarada da Tabanca Grande, Victor Barata, alfacinha, nascido na cidade de Lisboa foi encontrar noiva na aldeia onde eu nasci. Casou com uma filha da Amélia da Laja e do padeiro de Caveirós, neta materna da Senhora Dália Campos, segunda prima direita da minha avó.

A encosta norte da serra do Caramulo é riquíssima em granitos de alta qualidade. Só para o pavimento do IP5 foram destruídos milhares de toneladas de granito azul transformadas em gravilha, sem que alguém gritasse, não destruam o património.

A Victor Barata procedeu à instalação de uma fábrica de serração de granitos e não de mármores como aparece num comentário do blogue. Só não está sepultado no cemitério de Campia por ter sido cremado na cidade de Viseu.

Nunca consegui que o camarada Victor Barata participasse nos convívios dos combatentes da freguesia de Campia. Uma divergência entre o Victor Barata e um dos quatro elementos da Comissão Organizadora de primeiro convívio realizado em Campia, Mário dos Santos Ferreira, Furriel de Transmissões da Companhia que estava sediada em Ingoré no ano de 1965.
O Mário dos Santos Ferreira, meu companheiro de carteira da primeira, dois anos, até à quarta classe não era pessoa fácil.

A divergência teve origem na aquisição de duas placas em granito, com a inscrição, “Ditosa Pátria que tais filhos tem” para serem colocadas nas campas dos dois mortos em combate, que estão sepultados no cemitério de Campia. Sendo amigo dos dois, tentei por mais que uma vez, sempre que me cabia a organização do próximo convívio, a reconciliação, mas sem resultados.

Sinto cada vez mais dificuldade em aceitar que amizades com mais de 30, 40, 50 anos, possam desaparecer por uma pequena quezília que não vale umas míseras cascas de alhos.

Como consequência destes convívios surgiu também a iniciativa do levantamento de Marcos Históricos aos antigos combatentes. Estes pequenos monumentos foram erguidos a nível de freguesia, como é o caso Campia, a nível de concelho e também a nível nacional como é o caso do Bom Sucesso em Lisboa. Também estes monumentos foram patrocinados pelos antigos combatentes como é o caso de Campia, por Autarquias Locais e também por outras entidades.


Este Monumento aos Antigos Combatentes, naturais da freguesia de Campia foi custeado pelos próprios Combatentes. A Junta de Freguesia de Campia cedeu o terreno e a Câmara Municipal de Vouzela honrou-nos com uma presença no dia da inauguração (13-11-1999).

Quase ao virar da esquina como nos indica a gíria popular, já no ano de 2025 surge uma iniciativa de um antigo combatente, Alferes Miliciano em Angola, natural de Macieira-a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra do concelho de Vale de Cambra, de seu nome Martinho Tavares de Almeida, Professor de Educação Física Aposentado. A cidade de Vale Cambra faz parte da Área Metropolitana do Porto.

Com a colaboração de um Grupo de patrocinadores encabeçado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra, este antigo combatente decidiu levar a cabo a seguinte tarefa:
Fazer uma recolha ao nível do Concelho de Vale Cambra de dados relativos a todos os naturais que tivessem participado na Guerra do Ultramar. Para além dos dados pessoais também foram recolhidos dados relativos ao Posto e à frente de combate onde teve lugar a sua participação.

À semelhança do que é pedido na adesão à Tabanca Grande também aqui foi usado o mesmo critério em relação à entrega de fotos.
A partir da recolha efectuada, foi feita a edição de um livro em formato A4 com uma primeira tiragem de 1500 exemplares, com 512 páginas e um peso superior a 2 quilos.

Cada um dos Antigos Combatentes ainda vivos, recebeu um exemplar de forma gratuita. Todos os familiares dos Antigos Combatentes já falecidos, que colaboraram com a iniciativa receberam do mesmo modo um exemplar de forma gratuita como é o meu caso.

As duas imagens a seguir mostram a frente e o verso da obra que foi feita a partir desta brilhante iniciativa.

Frente do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra
Contracapa do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra

A todos os antigos combatentes a quem foi concedido o privilégio de regressar à sua origem sem ser dentro de um caixote, lutaram para serem os melhores, para terem o reconhecimento daquilo por que passaram em defesa dos ideais da época.
De nada lhes valeu, cada vez valem menos e a cada vez que aparece algo de benesse para antigos combatentes logo aparecem as discórdias a gritarem que os antigos combatentes não são pessoas de bem.

É público de que os antigos combatentes não pagam medicamentos. Não é verdade porque apesar de existir na Constituição um Artigo 13.º que diz que somos todos iguais. Há a possibilidade de serem produzidos medicamentos para pobres e para ricos. O antigo combatente não paga medicamentos se apenas usar os medicamentos para pobres. Em caso contrário paga como pagam os outros.[1]

O livro faz referência a todas as figuras do Estado Novo que durante 13 anos conduziram a Guerra, às grandes operações, tais como a tomada da Pedra Verde e a Operação Mar Verde, às grandes catástrofes como afundamento de uma jangada que vitimou mais de uma centena[2], e a tragédia do Chão Manjaco. É de igual modo feita uma referência a todos os intervenientes do lado oposto.

Tenho muita pena que não exista em todos os restantes concelhos deste país um Alferes Martinho Tavares de Almeida com capacidade para levar a bom porto uma nau com tanta carga. Até à página 225 este livro é de uma enorme riqueza para quem gosta de História.

Nas primeiras 225 páginas há espaço para:

- 1. O Império Ultramarino e o Estado Novo
- 2. Factos que antecederam o Conflito Armado
- 3. Período anterior ao início do Conflito Armado
- 4. Início do Conflito Armado em Angola
- 5. Principais protagonistas
- 6. Teatros de operações
- 7. Movimentos independentistas
- 8. Grandes operações
- 9. Meios terrestres aéreos e navais
- 10. Quarteis e aquartelamentos
- 11. Armas de combate. Perfeita elencagem de todas as armas com ilustração de todas as armas usadas de ambos os lados.
- 12. Minas. A chamada guerra subterrânea
- 13. Alguns números da Guerra do Ultramar
- 14. As grandes tragédias
- 15. As nossas Enfermeiras na Guerra do Ultramar
- 16. A missão do movimento nacional feminino
- 17. O papel da Igreja no conflito
- 18. Factos relevantes
- 19. Personalidades que exerceram funções de chefia e comando envolvidas na guerra do ultramar
- Da página 226 até à página 463 foram colocadas todas as fotos acompanhadas de um pequeno perfil de todos os antigos combatentes do concelho de Vale de Cambra.

O segundo da última fila é o autor desta brilhante obra (Alferes Mil Martinho Tavares de Almeida)

- Da página 464 em diante estão transcritos os louvores atribuídos a todos antigos combatentes naturais de Vale de Cambra.
- Uma lista de todos os falecidos.
- Lista de feridos graves acompanhada de alguns depoimentos.
- Notícias publicadas em alguns jornais da época.


Para terminar deixar um grande abraço com elevado reconhecimento ao Autor
Os meus mais sinceros parabéns Dr. Martinho Almeida.


Artur Conceição
SPM 2578


******************************
2 . Notas do editor Carlos Vinhal:

[1] - Peço desculpa ao amigo Artur Conceição, mas por uma questão de justiça, venho afirmar que é incorrecto dizer-se que os Antigos Combatentes só têm direito a medicamentos para pobres. Em Portugal não há medicamentos para pobres e para ricos. Uma vez que há muita falta de informação e desinformação a mais, esclareço, a título pessoal, que o Estado comparticipa os Antigos Combatentes a 100% o preço de referência de todos e quaisquer medicamentos receitados e comparticipados pelo SNS, genéricos ou de marca.
Os utentes do SNS, em geral, não saberão, nem se aperceberão, de que há medicamentos cujo PVP (preço de venda ao público) é superior ao PR (preço de referência). O SNS, nestes medicamentos, só comparticipa o PR, ficando a diferença a cargo do utente. Nunca dei conta de ver no balcão da farmácia alguém perguntar porque está a pagar aquela importância e não menos.
Com os Antigos Combatentes passa-se o mesmo, às vezes pagamos uns cêntimos por causa da tal diferença, mas porque se intuiu que nos comparticipam (sempre) 100% do preço dos medicamentos, reclamamos por falta de conhecimento.
Um exemplo prático: o reumatologista receitou-me Lepicortinolo (um medicamento de marca, não genérico), cujo preço de venda ao público é 3,82€ e o preço de referência é 2,80€. Perante isso, paguei a diferença, 1,02€, sendo comparticipado a 100% do preço de referência.
Também não é justo dizer-se que os Medicamentos Genéricos têm uma eficácia inferior aos de marca. Está provado cientificamente que é mentira. Eu sou um dos que opta sempre pelos genéricos. O SNS não nada em dinheiro, cabendo a cada um de nós zelar pela sua sobrevivência.
Aconselho a leitura atenta do nosso Poste de 6 de Janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26354: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (109): Portaria n.º 372-C/2024/1, de 31 de Dezembro que estabelece as condições de acesso dos Antigos Combatentes a uma percentagem adicional de comparticipação sobre a parcela não comparticipada dos medicamentos pelo SNS

[2] - Aqui não sei se o nosso amigo Artur se se está a referir ao desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal. Se sim, e se considerarmos vítimas os camaradas falecidos, foram 43.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)



1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de 10 de Novembro de 2022, falando-nos da sua Unidade:

Olá Carlos,
Olha, hoje levantei-me a gritar coisas más contra os governos de Portugal que nos abandonaram e escrevi estas linhas para que todos eles saibam a revolta que continuo a sentir.

Se achares que deves publicar, publica, se não achares que é importante justamente ignora.

Um abraço meu eterno amigo companheiro combatente da Guiné.
Tony Borie



Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol

…Companheiros ex-combatentes, nós, tal como vós, todos sabemos o trauma ou a angústia que sofremos mas…, as novas gerações e os políticos que nos governaram ou presentemente nos governam, (felizmente para eles), NÃO SABEM que…, lá no “posto avançado” onde estivemos pelo período de dois longos e dolorosos anos, não havia paz.

No silêncio da noite ou em qualquer outro infeliz momento, “DE REPENTE O INFERNO EXPLODIA” e…, não sabíamos se iríamos ser o próximo a ser embrulhado no nosso próprio camuflado sujo com o nosso próprio sangue.

…Assim, não sabemos as vezes que tanto nós, tal como vós companheiros ex-combatentes, estivemos perto de morrer, e nesses momentos, éramos forçados a aprender a valorizar um pouco as nossas vidas e…, éramos uns jovens de 20 e poucos anos. Às vezes pensando nisto, sentimos a pele a arrepiar-se.

…Por favor cuidem-se.
Toni Borie

_____________

Nota do editor

Último post da série de 28 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28141: (In)citações (288): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

domingo, 28 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28141: (In)citações (288): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)


1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de 26 de Junho de 2026:

Olá companheiros ex-combatentes.
Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem. Estou triste, porque acabo de chegar a casa depois de passar um dia no hospital.

…Porquê? Porque acabaram de me colocar no peito um “pass maker”, que é um marca-passo que ajuda o corpo humano a sobreviver, assumindo ou corrigindo a sinalização elétrica natural do coração e…, não bastava ser um sobrevivente da doença cancer, que há mais ou menos 12 anos me atormentou e a cujo doloroso tratamento resisti e…, há 3 anos, abriram-me o peito para me colocar 3 novas veias que roubaram a uma perna e…, reparar uma válvula no coração que não fechava.

…Isto são “coisitas”, que também a muitos de vós companheiros ex-combatentes deve ter acontecido, porque o medo, o desespero e a angústia lá naquele golfo pantanoso da Guiné, onde permanecemos por um período de dois miseráveis e longos anos, com uma alimentação igual 30 dias por mês, sem vegetais e proteínas, tal como a água lamacenta dos pântanos que se bebia, sem qualquer assistência médica, muito contribuíram.

…Mas a parte boa, é que continuamos por cá junto de uma família que nos adora, resistindo sempre e continuando a gritar, gritar e gritar aos quatro cantos do mundo, para que as novas gerações saibam que me sinto orgulhoso de ter sido um cidadão que defendeu a bandeira do país onde nasceu, lá naquela maldita guerra colonial Portuguesa em África e…, quando morrer, por favor não fiquem tristes, no entanto e se puderem, enviem-nos o desejo de flores silvestres, tal como aquelas que existiam na minha aldeia.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28049: (In)citações (287): Obrigado a todos que me deram os parabéns pelos meus 90 anos, obrigado ao Padre Bártolo e ao Virgílio Teixeira pelo livro que me mandaram de presente (Arsénio Puim, ex-alf graduado capelão, BART 2917, Bambadinca, maio 1970/maio 1971)

domingo, 24 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28049: (In)citações (287): Obrigado a todos que me deram os parabéns pelos meus 90 anos, obrigado ao Padre Bártolo e ao Virgílio Teixeira pelo livro que me mandaram de presente (Arsénio Puim, ex-alf graduado capelão, BART 2917, Bambadinca, maio 1970/maio 1971)


Arsénio Puim (n. 1936):  ilhéu, açoriano de Santa Maria,  ex- sacerdote católico, ex-capelão militar,  foi autarca, enfermeiro do SRS dos Açores, e jornalista; é  escritor,  pai, avô, amigo, cidadão do mundo. 

Foto:  Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Mesnagem de Arsénio Puim, que vive em Vila Franca do Campo, Sáo Miguel, Açores:


Data - 23 de maio de 2026 12:37
Assunto - 90 anos depois

Caríssimo amigo Luís Graça

Foi tal e qual como referiste. No da 8 de Maio celebrei os 90 anos do meu nascimento, com a minha família nuclear (já são nove pessoas) em Vila Franca do Campo. Uma semana depois, fizemos uma nova celebração, com os familiares vindos de várias partes do mundo, na freguesia de Santo Espírito de Santa Maria.

Esta foi uma data em que me senti muito feliz e repleto de gratidão: a Deus, que me concedeu tantas graças, aos meus familiares pelo seu amor e dedicação, a tantas pessoas amigas com quem me encontrei, convivi e aprendi - aqui, em Santa Maria, nas Paróquias, no Batalhão de Artilharia 2917 e até na terra da Guiné. 

Estou a lembrar-me especialmente daquelas mulheres e crianças que foram aprisionadas numa operação militar e trazidas para Bambadinca, onde viveram em condições extremamente precárias. No dia em que foram libertadas, uma das mulheres, na minha presença e em nome do grupo, agradeceu ao «padre capilom» porque ele «é amigo dos mininos» ( eu tinha-lhes levado pacotes de leite para a sua alimentação) e disse que iam pedir aos Irãs muitas felicidades na minha vida. Só podia dizer-lhes, comovidamente: obrigado!

Quando regressei aos Açores, não escrevi sobre a guerra na Guiné , mas publiquei vários trabalhos sobre o conceito e a realidade da guerra, «esse monstro», irreconciliável com o Evangelho e com a inteligência humana, mas sempre presente na história da humanidade e, lamentavelmente, muito presente, activo e cruel nos dias que vivemos. 

Basta de ódio, ganância, sofrimento, morte que os homens se causam mutuamente.

Luís, muito obrigado pelos teus emails, pelas tuas palavras amigas, pelo teu «horóscopo poético», muito belo e demonstrativo da capacidade literária do autor, o qual foi lido pelo meu filho Miguel no jantar do aniversário após o partir do bolo. 

Obrigado ao João Crisóstomo pelas suas palavras de amizade e compreensão, e também ao «Anónimos» (Adriano Moreira, Eduardo Francisco, José da Càmara, José Cancela), muito obrigado ao Luís Graça, ao Virgílio Teixeira e ao Padre Bártolo pela oferta dum interessante livro, escrito por uma pessoa que soube ser padre e ser militar, que respeito.
  
Hoje vivo com várias limitações de saúde, como é natural nesta idade, mas vivo a vida que tenho. Espero que um dia nos encontremos nesta casa da Figueira do Casquete,  em Vila Franca do Campo.

Para a Alice e toda a família os meus sinceros cumprimentos. Para ti, Luís, um abraço com elevada estima e os melhores votos. Arsénio Puim.

____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)


O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor

1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:

Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.

Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.

Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.

No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.

Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. 

Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.
_____________

Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

quarta-feira, 18 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)



A "camarigagem" da Tabanca do Centro: vai-se reunir, pela 110ª vez, no próximo dia 27 de março.


1. O termo "camarigo" está associado ao nosso Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro. É tratado por "camarigo" e gosta de tratar a malta, o pessoal da Tabanca Grande e os da Tabanca do Centro por "camarigos" (contração das palavras "camarada" e "amigo"). 

A origem do termo e a sua adopção pela Tabanca Grande ainda não está bem averiguada. Mas, pelo que pesquisei, a palavra aparece pela primeira num poste do João Tunes, num dos primeiros postes do blogue:

20 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P230: Cooperação, caridade ou negócio ? (1) (João Tunes)

Começa assim o texto:

(...) Camarigos e estimados tertulianos,

Lembrei-me hoje, ao ler um dos Projectos dos amigos da AD, que está a ser desenvolvido em parceria com cidadãos da localidade espanhola de Elx, se esta não era uma boa inspiração para que a nossa Tertúlia promovesse um projecto semelhante com crianças guineenses de uma qualquer localidade da Guiné-Bissau (...).


(Negritos e itálicos: LG)

segunda-feira, 16 de março de 2026 às 15:59:00 WET 

2. Num texto de Joaquim Mexia Alves, escrito em 2 de março de 2006, ele termina assim:

“...sei que todos, ou pelo menos a maioria esmagadora dos meus camarigos, o farão também.”

2 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P3965: Nuvens negras sobre Bissau (7): Ao combatente Nino Veira, um poema de Joaquim Mexia Alves

 O termo consolidou-se com os encontros anuais da Tabanca Grande (primeiro, na Ameira, Montemor-O-Novo, 2006; depois, Pombal, 2007; e a seguir em Ortigosa, Leiria, 2008 e 2009; e finalmente,  em Monte Real, Leiria, a partir de 2010 até 2019). 

Um dos elementos da comissão organizadora desses encontros (a partir de 2010) era o Joaquim Mexia Alves, a par do Miguel Pessoa e do Carlos Vinhal, e eu próprio. O Miguel e o Joaquim são também cofundadores, em 2010, da Tabanca do Centro.

 3. Anos mais tarde, o Joaquim Mexia Alves escreveu um texto, no blogue da Tabanca do Centro, sobre "o porquê do 'Camarigo' ", que reproduzimos a seguir, com a devida vénia:


Tabanca do Centro > domingo, 14 de julho de 2013 > P352: O Porquê do "Camarigo"

por Joaquim Mexia Alves 

Uma tentativa de explicação para a palavra “camarigo”.

Em primeiro lugar,  o óbvio! Camarigo é a junção das palavras camarada com amigo!

Quando comecei a frequentar a Tabanca Grande, (já lá vão uns anos), comecei também a descobrir melhor uma relação com os ex-combatentes da Guiné, que não se restringia apenas àqueles com quem tinha estado, mas se alargava a todos os outros que lá estavam, não só na altura, mas também antes e depois.

O termo utilizado pelos militares para se tratarem uns aos outros é camarada, o que está certo sem dúvida, com vemos no dicionário.

Camarada: companheiro de quarto; colega; parceiro; condiscípulo; indivíduos do mesmo ofício; tratamento entre militares e entre filiados de certos partidos políticos…

Ora isto parecia-me pouco, para definir a relação que nos une como ex-combatentes, e até também porque verdadeiramente já não somos militares.

Mas fomos realmente companheiros de quarto (ainda o somos quando os mesmos sonhos ou pesadelos nos envolvem à noite), e parceiros, e colegas e sei lá mais o quê.

Mas somos muito mais do que isso!

Somos sentimento e emoção e não é raro num reencontro, numa história contada ou lida, virem-nos as lágrimas aos olhos e apetecer-nos abraçar com força aquele que conta a história, para lhe dizer que sabemos bem o que foi, o que é, e muito provavelmente o que continuará a ser.

Ora isso vai muito para além da camaradagem, pois revela sentimentos de afectividade, de compreensão, de conhecimento, enfim numa palavra: de amizade.

Quando um de nós sofre, não sofre apenas um camarada, sofre também um amigo, por isso sofremos todos com ele, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Quando um de nós se alegra, não se alegra apenas um camarada, alegra-se também um amigo, por isso nos alegramos todos com ele, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Quando um de nós morre, não morre apenas um camarada, morre também um amigo, por isso morremos nós também um pouco, mesmo que não o conheçamos pessoalmente!

Lá longe, na Guiné, muitos de nós desabafaram com certeza aos ouvidos do outro, as alegrias e as tristezas de uma vida que se fazia longe de nós.

Um filho que nascia, uma mãe ou um pai que morria, um namoro que acabava, uma dúvida, uma incerteza, um desespero e uma alegria, enfim tudo aquilo que faz parte da vida e que tantas vezes ia parar ao ombro do que estava ao nosso lado, do que estava connosco.

E hoje isso ainda acontece, quando nos encontramos, ou quando nos procuramos num telefonema, ou numa visita oportuna.

Então era preciso para mim, procurar maneira de revelar com uma palavra aquilo que ia descobrindo, aquilo que ia tomando lugar no meu coração.

Porque o amigo também não chegava para definir essa relação:

Amigo: aquele que estima outra pessoa ou é por ela estimado; partidário; amásio; amante; afeiçoado…

E o óbvio apareceu diante de mim.

Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos!

Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos CAMARIGOS!

É isso que eu sinto e é isso que sempre pretendo transmitir em cada encontro e em cada momento em que estamos juntos e não só.

Tenho um coração mole, (graças a Deus), a lágrima fácil, e os braços com uma “tendência compulsiva” para se abrirem, por isso arranjei a palavra que servisse para expressar os meus sentimentos em relação a todos vós.

Por isso gosto de vos tratar pelo nome próprio, para estar mais perto de vós e me sentir mais perto de vós!

Por isso também, aqui fica o meu forte, enorme e camarigo abraço para todos vós.

Joaquim Mexia Alves

4. Comentário do editor LG:

Houve já quem me perguntasse: "Camarigo, que raio de palavra é esta, em português, que não vem nos dicionários ?"

É um neologismo por fusão de duas palavras, como muito bem explica o Joaquim:  "camarigo = camarada + amigo". 

A palavra surgiu no contexto da nossa tertúlia (a que passámos a chamar, mais tarde, em meados de 2006, "Tabanca Grande"). É forma de tratamento afetuosa, mas também com a sua ponta de humor tribal:  "Um alfabravo (Abraço), camarigo!”... 

Ninguém se trata assim, apenas os "amigos e camaradas da Guiné", que se sentam à sombra do poilão da Tabanca Grande. O Joaquim usa muito, de resto, a expressão "meus camarigos"

Em termos linguísticos, podemos destacar o seu  "valor semântico", que carrega três ideias ao mesmo tempo:  camaradagem  (camarada) | amizade (amigo) | igualdade e proximidade

  • amigos – pessoas próximas mas que não viveram a guerra juntos;
  • camaradas – companheiros de armas;
  • camarigos – camaradas que se tornaram amigos para toda a vida

É uma "palavra de tribo", como dizem os linguistas, que  nunca chegam aos dicionários, mas podem viver durante décadas dentro do grupo ou da tribo que as criou. 

Nasce dentro de um grupo e aí ganha sentido. São chamadas "palavras-amálgama" (em inglês, blends, misturas lexicais). 

A nossa língua tem várias: portunhol (português + espanhol) | diciopédia (dicionário + enciclopédia) | Setôr (senhor + doutor) | estagflação (estagnação + inflação) | angolês (angolano + português) | eurocrata (Europa + burocrata) | camarigagem(camaradagem + amizade).

"Camarigo" está há m
uito grafado do nosso pequeno dicionário da Tabanca Grande.  É uma palavra que tenta expressar algo que a linguagem comum não captava bem: a amizade nascida da experiência extrema da guerra e da pertença a uma tertúlia de antigos combatentes.

 Não chegou (nem provavelmente chegará)  aos dicionários. Estes e outros "neologismos identitários"  vivem e podem viver durante décadas dentro da tribo que as criou. Mas na  realidade tèm um sabor muito português: é o caso, por exemplo,  camarigagem (camaradagem + amizade).

Fazendo justiça aos nossos dois camaradas, podemos dizer que:

o João Tunes inventou ou soltou a palavra num comentário; o Joaquim Mexia Alves adoptou.a, passou a usá-la recorrentemente e popularizou-a.
 
 A palavra nasceu, portanto,  dentro da "cultura" da Tabanca Grande. O que importa é a sua adoção grupal ou coletiva. Por isso dizemos que é um "neologismo identitário": não designa apenas uma relação pessoal, mas uma identidade de pertença à Tabanca Grande.
 
 Como deves imaginar, temos gente de todos os quadrantes, sensibilidades e leituras da guerra (por isso falamos da guerra colonial, guerra do ultramar, guerra de África e luta de libertação...). E temos um slogan: "Tabanca Grande, onde todos cabemos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar"...

_________________

Nota do editor LG:

Ultimo poste da série > 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27819: (in)citações (284): Os netos da guerra (Juvenal Amado)

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27819: (in)citações (284): Os netos da guerra (Juvenal Amado)

Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74)



OS NETOS DA GUERRA

Pois é, o tempo passou rapidamente e para trás ficaram os sonhos de juventude os perigos e malandragem.

Ficaram os namoricos os bailaricos os momentos com os nossos desaparecidos. Como foi possível a vida continuar após o seu desaparecimento?

Como não reviver os momentos tristes da partida e a alegria transbordante da chegada?

Sobrevivemos aos perigos e depois, à falta de grupo em que nos apoiávamos, muitos tornaram-se deserdados da vida, párias da sociedade. Muita da nossa sanidade mental ficou a dever-se à separação das coisas. Voltar e regressar a uma vida normal esquecer, distanciarmo-nos dos episódios que nos marcaram não enveredar pela autodestruição. Há milhares que o não conseguiram.

Há quem viva do passado. A vida é um processo que nos vai mostrando que ele não existe é só recordação e é triste viver de uma coisa, que não se pode alterar.

Usei uma arma até esquecer o peso, bebi demais, fumei demais só nunca amei demais, bebi a alegria da liberdade e nunca me fartei dela.

Desses tempos ficaram os desejos de Paz, a rejeição de classes a cor da pele. Numa busca desenfreada pelo que era justo fez-me abraçar causas, tentar transmitir o que era certo e o que era errado. Julgo embora algumas bravatas e arremedos guerreiros da minha geração, a guerra marcou-nos fundo a ponto de a não querermos para os nossos filhos e netos. Mas atrás dos tempos outros tempos hão de vir e a chegada aos poderes de gente com idade para serem nossos netos, a guerra voltou ao nosso quotidiano de forma feroz ao mesmo tempo que se incrementa um discurso de ódio num populismo de má memória, que nos promete empurrar para o abismo.

Os bombardeamentos, as matanças de inocentes, tudo é relativo em função dos interesses económicos e geoestratégicos. Voltaram ideologias do passado que julgávamos banidas pelas leis da Humanidade. Aplaude-se a constituição de um Mundo dominado por uma potência, que decreta como vivermos ou se vivemos. Quem compra e quem vende, quem morre e quem vive. O intolerável uso de armas nucleares é hoje aceite no cúmulo da ignorância e estupidez.

Fizemos mal o nosso trabalho? Tornamos a guerra, o caos o cortejo de fome e miséria material de interesse para as gerações mais novas como uma coisa romântica?

Estão hoje no poder os netos dos dirigentes, que reconstruíram os países após a hecatombe da II Grande Guerra, que fizeram compromissos para uma paz duradoira assente em tratados e na criação de organizações com a participação de todos os países. Declarou-se fim do colonialismo e da escravidão, enfim o fim da exploração do Homem pelo o Homem, mas estes em vez de honrarem a memória dos pais e avós encetaram uma corrida ao armamento, uma verborreia de guerra onde se medem todos os dias a importância do país pelo armamento e nunca pelos benefícios sociais.

Governos autocráticos dominam e os outros deixam-se arrastar. Discutem a liberdade de outros povos para esconder a repressão dos próprios países.

Estou demasiado velho para acreditar que há ainda volta a dar, que o bom senso voltará e que as nações unidas lutarão para erradicar a fome e a doença.

Como foi possível voltar a este estado de coisas?

Conhecem a Cantiga da Velha E dos Seus Dois Filhos?

Reza assim:

Sei Que Estou Velha E Doente
Mas Pra Ver o Mundo Girar de Forma Diferente
Ainda Sei Gritar e Arreganhar o Dente
*

Dito isto, agora vou para a hidro-ginástica e assim tentar enganar a idade, já que a água não é suficiente para limpar os maus pensamentos.

Juvenal Sacadura Amado
13/03/2026, dia em que se espera de azar, quando afinal o azar e a sorte é coisa de todos os dias.

(*) Cantiga Da Velha Mãe e Seus Dois Filhos, por José Mário Branco
_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


SE A MINHA MÃE ESTIVESSE AQUI DAVA-LHE UM BEIJO

adão cruz

Depois de ser obrigado a assumir que a nossa democracia se resume a meter uma cruz dentro de um pequeno quadrado, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, fui almoçar. O restaurante rapidamente se encheu de caras mais ou menos alegres e sorridentes, deixando transparecer a satisfação do dever cumprido. No fim do almoço, vim até casa seguir o ritual a que a velhice obriga, tomar os comprimidos e fazer uma pequena sesta. Como a chuva se dignou dar uma curta trégua, resolvi pegar no carro, como faço habitualmente, nunca sabendo ao certo se é o carro que me obriga a sair, se sou eu que o obrigo a mexer-se. O dilema mantem-se por alguns momentos, até que surja a decisão de andar ou voltar para casa.

Sempre que decido, o destino é o rio, as margens do Douro, mas logo que me encontro na rua, outra indecisão aparece, nascente ou poente. Resolvo a situação, alternando. Hoje calhou ser dia de ir para poente, para o Cais do Ouro, um pouco antes da Cantareira. Parei o carro frente ao rio, que embora cheio, não transbordava, e decidi fazer uma curta caminhada. Mal cheguei à pequena casa que fica na ponta do cais, vi uma rapariga, muito magra, aí dos seus quinze anos, com um kispo e carapuço na cabeça, uma saia bege cobrindo umas calças escuras, encostada à parede virada para o rio, gesticulando e fazendo movimentos desordenados, apontando o dedo para o rio como que a culpá-lo. Por vezes parava e sossegava. A seu lado tinha uma minúscula trotineta de criança. A uma certa distância, mantive-me atento, procurando não dar nas vistas. Ao fim de algum tempo, retomou os gestos, pegou na trotineta, em cima da qual andou alguns metros, deu umas voltas pelo relvado com a trotineta na mão e desapareceu.

A chuva começou a cair de mansinho obrigando-me a voltar para o carro. A meio do caminho, a rapariga apareceu subitamente a meu lado. Não era uma rapariga, mas um rapaz, muito magro, bonito, com ar doce e uma barbicha muito rala. Um tanto acanhado, pediu-me uma moeda. Que idade tens, perguntei. Vinte e um. Pareces muito mais novo, o que fazes? Encolheu os ombros. Tens alguma doença? Encolheu novamente os ombros e disse baixinho, uns problemas. Com a droga? Encolheu de novo os ombros. Tens fome? Assentiu, com a cabeça. Toma lá cinco euros e vai comer qualquer coisa. Baixou o rosto, sorriu docemente, não sei se para fora se para dentro e disse: eu ando de saia, mas não sou… a saia é da minha mãe e é muito quentinha. Como te chamas? Carlos. Olha, Carlitos, eu gostava de conversar mais contigo, mas a chuva está a pegar. Dá-me os cinco euros e toma lá vinte. Vai comer qualquer coisa.

O rapaz levantou a cabeça, espantado, e sorriu abertamente. Olhou-me com toda a doçura dos seus olhos negros e com a voz mais firme disse: se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo.

Voltei para o carro e ali me mantive por algum tempo, tão triste como a chuva que começou a cair sem piedade. Pobre Carlitos, como eu gostaria que tivesses tido outra sorte. E voltei para casa a pensar nos meus netos.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)


REFLEXÃO ENTRE DOIS COPOS DE TINTOL

adão cruz

Caros amigos, já tenho escrito algumas reflexões referindo o vinho como estimulante da criatividade, pois ao contrário do que por aí se divulga, dizendo que o vinho é pior do que o tabaco e é o causador de sete cancros (!), ao fim de uma longa vida e de uma grande experiência profissional nunca de tal me dei conta. Além disso, um ou dois copinhos funcionam como uma espécie de analgésico ou anestésico, ainda que ligeiro, contra a dor causada pela barbárie e a crueldade de um mundo que começa a não ter razão de existir.

Almocei na Taberna do Doutor. “Doutor” refere-se à minha pessoa, por amizade e gentileza do meu amigo Zé Carlos, dono do restaurante. Entre dois copos de tintol, falámos de várias coisas. Ao ver entrar para o quarto de banho uma daquelas mulheres que dos sapatos ao cabelo, tendo o rabo de permeio, enquadram o tipo curvilíneo da exibição meramente física, falámos de sexo e do mais importante órgão sexual, o cérebro. Também falámos de amor, de simpatia e empatia, conceitos neurobiológicos bem diferentes. E a conversa desenrolou-se por aí fora, a sério e a brincar. Entretanto, o meu amigo recebeu um telefonema e começou a falar das suas vidas ao telefone. Foi aqui que entrei no segundo copo e a minha reflexão mudou de rumo.

Nesta idade, começo a caminhar à margem da vida, vivendo cada vez menos a vida exterior e cada vez mais a vida interior, ou por outras palavras, vivendo cada vez mais interiormente o sofrimento dos outros, dos desgraçados povos deste terrífico mundo.

 Nunca tive nem tenho a presunção de ser o que quer que seja, além de ser Eu. Penso que sou Eu, apenas Eu, e que sempre procurei na vida dar a este Eu seriedade e autenticidade. Contudo, pensando bem, eu não sou eu, eu não sou só eu, sou eu e o outro, eu e os outros.

 A vida é tanto mais vida quanto mais entrelaçada estiver com as malhas das outras vidas, com a poesia, a arte e o sonho de viver em feliz comunidade, melhor dizendo, entre as malhas do sentimento, porque é de sentimentos que se trata, do ponto de vista subjectivo, objectivo, científico e neurobiológico. O rio da nossa vida, da vida de todos nós tem todo o direito de nascer, correr mais fundo ou menos fundo, entre margens mais apertadas ou menos apertadas, até se alargar num estuário, de braços abertos, em plena liberdade, esquecendo as margens e sussurrando baixinho, quando é afagado pela brisa dolente e poética do fim da tarde, à entrada do mar.

Mais um gole, e a reflexão continuou. Uma reflexão que nada tem de profundo, mas que bate fundo ao reduzir-nos à nossa essência, de raízes bem assentes na vida, que devia gerar caules e flores distintas, mais ou menos delicadas e perfumadas, o que infelizmente nem sempre acontece. 

Falámos de mulheres, de trajes, de comportamentos, do culto do corpo acima de tudo, de vidas e outras coisas. Estas conversas de taberna não ficam atrás de palestras e debates no que respeita ao seu sentido pedagógico. As memórias da vida permitem-nos reconhecer nestas reflexões entre dois copos uma maior sintonia entre o sentimento e a sua materialização. Sobretudo, a materialização do sentimento da felicidade, muito difícil de acontecer na maioria das vidas, ao contrário do que se pensa.

 A verdadeira felicidade não é só ter a barriga cheia, ou a vida lustrosa tantas vezes vazia, ou a vida cheia… tantas vezes de nada. Por isso, eu penso que poucos seres humanos conseguem ultrapassar aquela fronteira para além da qual se encontra o sol radioso da felicidade, a qual só existe na verdadeira fruição estética da vida humana.

Assim sendo, escoei o copinho e vim até casa estender-me ao comprido, tendo apenas o tecto como horizonte.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27438: (in)citações (281): Os deuses também erram (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27438: (in)citações (281): Os deuses também erram (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414, Catió (1963/64) e Cabo Verde (1964/65), com data de hoje 18 de Novembro de 2025:


OS DEUSES TAMBÉM ERRAM

Mexendo nos meus velhos papéis encontrei um artigo publicado no extinto Jornal Correio de Fafe, de 15 de Janeiro de 1993, da autoria de Rui Assis e Sousa. Curioso, dado a sua actualidade.

Refere-se este distinto advogado e escritor ao Brasil de então, parafraseando alguém que não cita: Aqui os ricos são mais ricos que os ricos dos países ricos, e os pobres são mais pobres que os pobres dos países pobres.

O título do artigo fez-me lembrar o filme que vi há já bastantes anos, "Os Deuses Devem Estar Loucos".

Ontem como hoje no mundo inteiro a desproporção entre ricos e pobres é deveras assustadora. Paralelamente essa desproporção, que tende a aumentar, está na avareza, na inveja, no ódio, na falta de humanismo, acrescida de guerras, de injustiças, de morte de inocentes e de mau carácter de quem governa.

Resumindo: Os deuses também erram? Não... Os deuses estão loucos.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 8 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27402: (in)citações (280): A mata (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf)

sábado, 8 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27402: (in)citações (280): A mata (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf)

Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Inf
Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Fevereiro de 1966 > Vista aérea de Bambadinca, tirada do lado do Rio Geba e da estrada Bafatá-Bambadinca

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de 7 de Novembro de 2025:


A MATA

Caminhas, sentindo a pele molhada, quase pegajosa, por causa daquela constante humidade, por causa daquele calor sufocante.

Dentro de ti há um misto de medo e de determinação, que vai obrigando o coração a bater mais depressa, praticamente compassado com cada passo que dás.
A mata envolve-te, árvores altas, arbustos baixos, coisas que deveria ser lindo ver, não fossem as circunstâncias em que estás envolvido.

Olhas para trás e vês os teus homens que te seguem, uns com um semblante apreensivo, outros com uma calma aparente.
Querias poder transmitir-lhes paz e serenidade, mas sabes que também tu não estás tão calmo e sereno como aparentas estar.

À tua frente apenas o guia, um guineense, filho da terra, em quem confias para te guiar mata adentro.

Por um breve momento voltas a casa dos teus pais, à tua vida anterior que agora parece tão longe, e um tímido sorriso chega à tua boca, e deixas-te levar pela saudade.
Abanas a cabeça para sair desse torpor, pois sabes bem que ali, naquela mata, a distração pode ser fatal.

Queres olhar para além da vegetação que ladeia o trilho em que caminhas, mas se há espaços em que consegues ver mais longe, a maior parte do tempo apenas caminhas quase sem ter a noção certa do que te rodeia.
Levantas a cabeça, enches o peito, endireitas-te porque, caramba, és tu que tens que dar o exemplo, é a ti que os homens devem seguir com confiança e esperança.

Cada um deles, ao longo destes meses já passados, tornou-se num amigo teu e preocupa-te mais o seu bem estar naqueles tempos difíceis, que o teu próprio bem estar.

Sentes que deves a cada um deles a promessa a cumprir de os fazer regressar a todos ao aquartelamento primeiro, e depois, quando for tempo disso, regressar à casa que deixaram lá longe, ou até mais perto.

Vais ouvindo os barulhos da mata, o vento nas árvores, os animais que “falam” uns com os outros, os cheiros que já vais conhecendo bem, e continuas avançando como que a dizer que aquela mata agora é tua e de mais ninguém.

De repente percebes que um silêncio profundo se instalou.
Não se ouve nada, nem vento, nem animais, parece que até os cheiros deixaram de cheirar.

Numa fracção de segundo tomas consciência de que algo está errado, e gritas para os teus homens se prepararem para aquilo que vai acontecer.

Os cheiros regressam, mas são cheiros de pólvora.
Os animais já não “falam”, mas ouvem-se os gritos dos homens e a “voz” das armas.

Num instante, que parece uma eternidade, tudo termina.

Olhas apreensivo para todos e todos te devolvem o olhar, alguns com o medo espelhado nos olhos, outros com um olhar de alívio imenso.

Olhas para o céu, por entre as árvores, e tu, que nem costumas rezar, pensas apenas: Obrigado, meu Deus!

Marinha Grande, 7 de Novembro de 2025
Joaquim Mexia Alves

_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27245: (in)citações (279): Por favor, cuidem-se (Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27245: (in)citações (279): Por favor, cuidem-se (Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto)


1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de hoje, 23 de Setembro de 2025:

Olá companheiros

Obrigado por se lembrarem.
Continuamos a fazer anos. Quantos? Muitos, mesmo muitos. É uma história de vida já longa.
Nascidos nos anos quarenta do século passado e ainda crianças, iniciámos esta “tarefa da vida” e…, vindos pela mão da saudosa avó Agar assistir à missa ao domingo na igreja da então vila de Águeda, de entre as pessoas (quase todas vestidas de cores escuras e as senhoras de lenço na cabeça, quase encobrindo o seu rosto), tentando sempre olhar para cima, porque em frente e dado que éramos crianças, era impossível ver o senhor padre lá no altar, que ia lendo a epístola.

E nas paredes havia aquelas imagens dos ANJOS. Vendo-as, ficávamos na dúvida. Porquê? Porque tinham asas e não sabiam voar, pelo menos nunca tínhamos visto nenhum a voar lá na nossa aldeia. E mais, a saudosa avó Agar dizia-nos que estavam no céu e não pertenciam à terra.

Talvez fosse verdade, porque uma vez, lá naquela maldita guerra colonial, nas savanas e pântanos do golfo da então Guiné Portuguesa, debaixo de um ataque furioso do inimigo, num estado de sofrimento onde havia medo e angustia, com a mente toldada pela fúria do combate e da sobrevivência, pensando que íamos mesmo morrer, olhámos o céu e vimos um ANJO, (daqueles cuja imagem estava lá na parede da igreja), que estava voando na nossa frente, sempre a fugir de nós, para fora do pântano, em direção ao terreno seguro e…, cremos mesmo que nos salvou.

Eram outros tempos, em que se acreditava que as crianças vinham embrulhadas e penduradas no bico de uma cegonha e, não eram o resultado do amor entre os humanos, que dá lugar à multiplicação e..., elas que iam nascendo talvez fossem mais felizes, porque pensavam que os adultos e os ANJOS, as protegiam de todos os males. Infelizmente hoje, em algumas partes do mundo, ainda morrem abandonadas ou pelos estilhaços das bombas que vão explodindo junto de si e…, algumas até à fome, porque os seus pais, olhando à sua volta dizem: “Agora não temos nada, só bombas".

Enfim, nós éramos crianças que despertávamos e ainda acreditávamos, talvez perdidas no nosso tempo e hoje…, principalmente pela avançada idade, somos vozes apagadas pelo pó dos anos.

Mais uma vez obrigado do coração por se lembrarem e…, por favor, cuidem-se.
Tony Borie

_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27199: (in)citações (278): Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros? (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Operações Especiais)

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27199: (in)citações (278): Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros? (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Operações Especiais)

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de hoje, 9 de Setembro de 2025:


Dos nossos “males” sabemos, pelo visto. E dos “males” dos outros?

Vejo e leio muitas vezes aqui na Tabanca Grande textos sobre os “os males” provocados pelas Forças Armadas Portuguesas na Guiné, e não só, (como recentemente o uso do napalm), mas raramente, ou nunca, se encontram por aqui textos relatando “os males” que o PAIGC, e não só, provocou nos militares portugueses e nas populações durante a guerra, porque sobre o acontecido depois do 25 de Abril até há alguns textos sobre o que então se passou.

Escreve-se sobre coisas que uma grande parte das vezes apenas se ouviu falar, histórias contadas e que terão sido praticadas pelos militares portugueses, mas sobre coisas semelhantes praticadas pelos militares do PAIGC, pouco ou nada se diz.

Eu, por exemplo, ouvi contar várias histórias que terão acontecido durante e depois de emboscadas feitas pelo PAIGC, mormente no conhecido “carreiro da morte”, mas, porque de tal não sou testemunha presencial e são histórias muitas vezes repetidas, evito falar ou escrever sobre as mesmas.

Mas com tanta gente que aqui vem todos os dias, não haverá ninguém que escreva e dê testemunho sobre isso?

Calculo que não seja politicamente correcto, como hoje em dia se diz, mas se este espaço se quer considerar um repositório mais ou menos fiel dos acontecimentos da guerra na Guiné, não deveria também ter essas histórias do “outro lado” aqui contadas?

É uma espécie de desafio que aqui deixo, para que a verdade não exista só para um dos lados, mas para ambos, pois a paz só se constrói verdadeiramente na verdade.

Marinha Grande, 9 de Setembro de 2025
Joaquim Mexia Alves

_____________

Nota do editor

Último post da série de 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)



O CÉREBRO TAMBÉM PODE APODRECER

adão cruz

Já o tenho dito muitas vezes, mas não me canso de o repetir. O nosso cérebro, encerrado completamente às escuras numa dura caixa óssea, é a estrutura mais complexa e mais difícil de entender, no planeta e no Universo conhecido. O simples cérebro de uma formiga é uma estrutura mais complexa e difícil de entender do que uma estrela. O nosso cérebro é composto por 86.000 milhões de células, ou neurónios, ligados entre si por biliões de ramificações. Um milímetro cúbico de córtex cerebral contém mais conexões do que seres humanos à superfície da terra. Este nosso admirável e soberano órgão realiza provavelmente triliões de ligações e cálculos durante os nossos raciocínios do dia-a-dia.

E todos nós o desprezamos, considerando-o pouco mais do que um instrumento de discussão futebolística. Porém, não é propriamente esta mensagem numérica o que aqui quero deixar. Gostaria que ficasse retida a sua essência, isto é, o reconhecimento da poderosíssima arma e riqueza da nossa estrutura mental, do nosso pensamento e da nossa razão.

Diante de tudo o que se passa actualmente no mundo, especialmente o silêncio e a indiferença perante a crueldade e a barbaridade nunca vistas, a desumanidade elevada ao mais alto grau, a morte lenta da solidariedade e justiça sociais, o hedonismo absoluto e o espezinhar de toda a ética e dignidade, como vemos inacreditavelmente e diariamente nos ditos líderes europeus e não só, sou levado a pensar que uma boa parte do cérebro humano da nossa sociedade está envolta numa nuvem de poeira ou mesmo enferrujada ou até apodrecida. Como se fora uma maçã, meio sã e meio podre. Simplesmente, a parte sã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã apodreça por completo.

Se a parte podre e a parte sã da sociedade fossem bem definidas e houvesse uma hipótese cirúrgica de as separar, seria a única solução terapêutica, permitindo extirpar a metade podre, deitando-a repugnantemente ao lixo. A forma de o fazer, como é óbvio, não seria fácil de imaginar. Porém, o são e o podre da humanidade não estão, provavelmente, separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre pode estar infiltrado no meio do são e o são infiltrado no meio do podre, o que nos leva a pensar que a vitória da parte sã se tornaria ainda muito mais difícil ou impossível.

Uma tão ciclópica tarefa, a ser tentada, só poderia ser levada a cabo no seio daquela parte da sociedade, cujo cérebro ainda saudável fosse capaz de lutar diariamente com as armas mais poderosas do ser humano, o pensamento e a razão, único detergente com poder para limpar as zonas podres da nossa mentalidade. Porém, tal detergente, aquele que a ignóbil e prostituída comunicação social não permite, é substituído por outro mais fraco, uma espécie de linha branca, fazendo pouca espuma e deixando o cérebro permanentemente untuoso de gordura. Seria indispensável conhecermos o mais profundamente possível e enfrentarmos como cidadãos conscientes os factores necróticos da degenerescência humana e os catalisadores da putrefação, que são incomensuráveis.

Desde a diabólica corrupção à criminalidade social dos que nunca foram filhos e nunca tiveram nada, até aos crimes bem mais graves e socialmente destrutivos de muitos dos que sempre tiveram pais e tiveram tudo. Desde as mentiras, distorções, falsidades e obscurantismos de toda a espécie, à monumental hipocrisia e crimes das instituições, nomeadamente religiosas, consideradas impenetráveis à desonra, mas mostrando-se ao mundo como campeãs em muita podridão, nomeadamente a que respeita a um dos mais hediondos crimes, a pedofilia.

Podemos pensar que se trata de um trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente anquilosada, atrofiada, de neurónios quase murchos, difíceis de reanimar, nos quais os poderes instituídos fecharam o fluxo da razão a sete chaves, a razão fruto do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, contra a injustiça, contra a mentira, contra a falta de ética e moral, contra a estupidificação institucionalizada e contra a falsa cultura, ...a cínica madrasta de um sociedade livre.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 21 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)


1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves (ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73) com data de 20 de Julho de 2025:


OS SINAIS DE DEUS

Era para ser uma consulta normal de oftalmologia.
Na quarta feira a caminho de Lisboa, pareceu-me sentir algo diferente na minha vista direita mas não dei importância por já ter alguns problemazitos anteriores que eram, aliás, motivo da consulta.
Na consulta a médica, muito simpática e competente, (amiga do meu filho mais velho e da minha nora), mandou-me ler com a vista direita as habituais letras do quadro e foi então que percebi que não via nada daquela vista, estava tudo negro, excepto uma pequena nesga do lado direito que ainda tinha imagem.
O susto foi enorme e feitos os exames competentes logo se chegou ao diagnóstico de um grave descolamento da retina que necessitava de intervenção cirúrgica urgente.
A competência e dedicação da médica foram inexcedíveis e conseguiu que uma sua colega arranjasse tempo para me operar no fim da manhã seguinte.

Assim aconteceu e, para encurtar razões, já me encontro em casa, em repouso prolongado para garantir o bom êxito da operação.
Como em tudo o que me acontece hoje em dia tento sempre ver a presença de Deus e o que Ele me quer dizer no que me vai acontecendo.
Assim escrevo este texto que vai ser o último destes próximos dias.

Os sinais de Deus
A mão de Deus


Esta consulta já tinha sido adiada por mim.
Se fosse quando estava marcada inicialmente o problema não teria sido detectado.
A mão de Deus guiou-me para o tempo certo e as circunstâncias certas.
Nas coisas de Deus não há coincidências, há “deuscidências”.

Sinal de Deus

A constatação de que nada via da vista direita, como se fosse uma cortina preta, excepto a pequena nesga do lado direito, levou-me a reflectir que muitas vezes nós colocamos essas “cortinas” na nossa relação com Deus e apenas O queremos ver em pequenas partes das nossas vidas.
Também precisamos de uma “operação espiritual” que remova essas “cortinas” da nossa visão de Deus.

A presença de Deus

Depois do enorme susto de perceber a perda da visão naquela vista, sobreveio uma grande serenidade, aceitação e entrega à vontade de Deus.
Entreguei tudo por aqueles que podendo ver Deus querem continuar cegos à Sua presença nas suas vidas.
Nas horas que fui passando nos cadeirões e macas, fui invocando o Espírito Santo e servindo-me dos dedos das mãos para ir contando as contas do Rosário, sentindo assim bem viva a Sua presença com Maria nossa Mãe junto de mim.

O amor de Deus

As médicas, as enfermeiras, auxiliares, administrativos daquele Hospital dos Lusíadas, foram de uma simpatia e dedicação a toda a prova, (e reparei que não era só comigo), e isso foi para mim o amor de Deus a rodear-me.
A minha comunidade paroquial da Marinha Grande com os seus grupos a que pertenço com enormes amizades, as minhas amigas e amigos do Renovamento Carismático Católico, no CHARIS, Pneuma, Comunidade Emanuel também do Alpha com as suas orações, foram também, sem dúvida, sinal visível do amor de Deus para mim.
O meu “velho” grupo de amigos de Lisboa com o Grupo de Forcados de Montemor e não só, já desde a juventude, com a sua amizade e solidariedade, foram uma expressão muito sentida deste amor de Deus que une os amigos. Um deles até escreveu logo que esperava um texto sobre o “acontecimento”!
Os meus filhos, nora e genro, a minha mulher, a minha irmã e irmãos, a minha família e ligados a ela, com o seu carinho e ternura foram e são sempre a parte mais visível e próxima do amor de Deus na minha vida.

A todos, muito, muito obrigado.
Guardo-vos nas minhas orações
Deus vos abençoe, proteja e guarde sempre.
Realmente o amor de Deus não tem largura nem comprimento, é incomensurável, eterno e manifesta-se das mais variadas formas.
Obrigado meu Deus por tanto que me dás e eu dou-Te tão pouco.

Marinha Grande, 19 de Julho de 2025
Joaquim Mexia Alves

_____________

Notas do editor

- Este texto pode ser lido na página do facebook do nosso amigo Joaquim Mexia Alves, clicando no título

- Último post da série de 4 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P26982: (in)citações (275): Jorge Ferreira, "um dos nossos mais velhos"... "Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... É só preciso ter cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (Luís Graça)

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26982: (in)citações (275): Jorge Ferreira, "um dos nossos mais velhos"... "Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... É só preciso ter cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (Luís Graça)


1. O Jorge Ferreira faz hoje 87 aninhos! É da colheita de 1938... É capaz de ser "um dos nossos mais velhos", a par do António Rosinha, do George Freire, do Mário Arada  Pinheiro , do Alberto Nascimento (cito de cor), do Mário Magalhães ...   
Falo dos nossos grão-tabanqueiros que ainda continuam ativos, saudáveis, produtivos e proativos!...  Enfim, o Jorge é uma figura sempre presente na Magnífica Tabanca da Linha e, de vez em quando, telefonamo-nos. E na Tabanca Grande a idade é um posto. 

Tenho por ele uma grande estima e carinho. É um vê-cè-cê, um veteraníssimo, ainda do tempo da farda amarela, que honra a nossa Tabanca Grande. E merece, hoje, um destaque especial.

Tive o privilégio de o apresentar à Tabanca Grande em 19/9/2016 nestes termos (**):

(...) o Jorge, veteraníssimo camarada que esteve um ano em Buruntuma, entre novembro de 1961 e julho de 1962, quando ainda a guerra não tinha começado oficialmente, tem um livro lindíssimo sobre aquela terra e as suas gentes que ficaram no nosso coração (...)

Conhecemo-nos há dias, pessoalmente, embora já desde meados de junho que temos vindo a falar ao telefone. (...)

Eu e o Jorge Ferreira, que mora no concelho de Oeiras, para além da Guiné, temos várias coisas em comum: 

(i) a frequência do ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde ele se licenciou depois de ter vindo da Guiné, (e onde eu frequentei o 1º ano da licenciatura em ciências sociais, em 1975/76, na mesma altura em que lá esteve o cap cav Salgueiro Maia); 

(ii) vários amigos do Instituto de Informática do Ministério das Finanças e da DGOA - Direção Geral de Organização Administrativa);

(iii) a paixão pela fotografia, etc...

 Trabalhou, depois do regresso, em maio de 1963, da Guiné , nos serviços mecanográficos do exército até 1972 onde teve, entre outros, como colega o Manuel Barão da Cunha, conhecido escritor da guerra de África, bem como o seu irmão Francisco.

O Jorge [da Silva] Ferreira, que passa a ser o nº grã-tabanqueiro nº 728 , tem um blogue de fotografia que merece ser divulgado e conhecido. 

 É um homem culto e viajado. e que cultiva a memória. No seu blogue, diz com modéstia que não é "um fotógrafo profissional nem mesmo um amador". Descreve-se apenas como um" caçador de imagens" (...) "que desde muito jovem se sentiu atraído pela fotografia, passando a fazer parte do [seu] quotidiano". 

Retomou a fotografia depois de enviuvar há 5 anos, fazendo do seu blogue também uma tocante homenagem à sua companheira de uma vida, Gabriela, e mãe do seu filho  (...)

2. Em plena pandemia, há 5 anos atrás, quando estávamos a olhar o mundo através do vidro embaciado da janela, trancados em casa, à espera que o pesadelo da pandemia de covid-19 passasse, escrevi ao Jorge as seguintes quadras (estava "desenfiado" na Quinta de Candoz, a quase 400 km do meu poiso habitual). É uma forma de lembrar quão resistentes, afinal, temos sabido ser,  e graças também ao nosso humor, às nossas tabancas, às nossas tertúlias (físicas e virtuais)...

Reitero os votos que sempre lhe faço, desde que nos encontrámos, em 2016: Jorge, até aos 100 é sempre em frente!... Cuidado com as minas e armadilhas!... E um dia Buruntuma ainda será grande!" (***)


Ao Jorge Ferreira (e aos demais aniversariantes da nossa Tabanca Grande que foram obrigados a cantar "os parabéns a você", sozinhos em casa):


Amigo Jorge Ferreira,
És dos nossos veteranos,
Mas não caias na asneira,
De dizer que fazes anos.

Não há copos p’ra celebrar,
Nem na Tabanca da Linha,
Mas logo que a crise passar,
Abre o Resende a cozinha.

Em Buruntuma, as bajudas
Foram todas retratadas,
Fossem belas ou feiudas,
Solteirinhas ou casadas.

Desse tempo tens saudade,
Até marcos tu puseste,
Não te pesava a idade,
Grande alfero lá do Leste.

Retificaste a fronteira
C’o a Guiné-Conacri,
E juraste p’la bandeira:
 “Sou eu quem manda aqui”.

Saia um  peixinho da bolanha,
Feito à maneira, no forno,
Quem não tinha arte e manha,
Apanhava com um corno.

Paludismo, hepatite,
E até bilharziose,
Não faltava o apetite,
Cada um c’o sua dose.

De Paunca até Pirada,
Do Gabu até Bolama,
Não me queixo, camarada,
Dormi no mato e na cama.

Tive farda de caqui,
E chapéu colonial,
Mas só de amores morri
Pl' aquela terra, afinal.

Convivi com  o Sané,
Senhor de Canquelifá,
Percorri meia Guiné,
Fiz amigos como os de cá.

Em resorts de muitas estrelas,
Deixei pedaços de mim,
Não me lembro das caravelas,
Mas a história foi assim.

Buruntuma, hás de ser grande,
Não importa em que ano ou dia,
Seja o povo quem mais mande,
Em passando a pandemia.

Hoje o Jorge é menininho,
Vai ter ronco na tabanca,
Toda a gente, preta ou branca,
Lhe vai dar um miminho.

Luís Graça, 
Tabanca de Candoz, 4 de julho de 2020 (****)
___________

Notas do editor LG:

(****) Vd. poste de 4 de julho de 2020 > Guiné 61/74- P21140: E as nossas palmas vão para... (20): o veteraníssimo Jorge Ferreira, que hoje faz anos, e foi o etnofotógrafo da Buruntuma de 1961/63 que não existe mais...