sábado, 4 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18896: Os nossos seres, saberes e lazeres (278): De Aix-en-Provence até Marselha (10) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 10 de Maio de 2018:

Queridos amigos,
Um dia em cheio, Nîmes tem muitíssimo para ver, desde a Roma das Gálias à arquitetura contemporânea e mesmo à arquitetura do século XIX e do início do século XX é vistosa, por aqui andou a indústria das sedas e a região é opulenta em vinha, o seu produto final corre o mundo inteiro. É nítido o afã em concorrer a Património da Humanidade, as obras não param no anfiteatro, no que resta das muralhas, no castelo. Ali bem perto, em Pont du Gard, está o mais espetacular aqueduto romano já classificado pela UNESCO. É nítido que a cidade não quer ficar atrás.

Um abraço do
Mário


De Aix-en-Provence até Marselha (10)

Beja Santos

Nova etapa: Nîmes, aqui se arriba pela manhãzinha, sai-se da estação de caminho-de-ferro e dá-se de chofre com esta avenida sumptuosa, este original regato de água, as árvores à espera da primavera. Vem-se a Nîmes porque há as arenas, a famosíssima Casa Quadrada, os jardins e imensos vestígios da era romana. Mas nada de ilusões, Nîmes é muito mais que um depósito do passado, sente-se rapidamente que se reabilita e produz arquitetura nova.



Vamos bisbilhotar a Roma das Gálias, quando Nîmes se tornou colónia de direito romano, teve o seu apogeu no século II d.C., tudo andou bem até que a chegada dos Visigodos pôs termo à sua prosperidade. O viandante não sabia e guardou a referência de que no século XVII Nîmes ganhou reputação pelas manufaturas dos têxteis. E aqui surgiu um tecido, o Denim, que nós conhecemos pela sua utilização mundial nas calças de ganga. Importava-se algodão e índigo, para lhe dar cor, a sarja de Nîmes ganhou fama pela sua resistência, tinham nascido os blue jeans, no século XIX Levi Strauss lançou as calças que hoje são dos indicadores da globalização. O anfiteatro ou arenas conta-se entre os maiores da Gália Romana, 133 metros de comprimento e 101 de largura, uma fachada com 21 metros de altura, com dois níveis, cada um com 60 arcos e no interior podem sentar-se 20 mil espectadores, naquele tempo a atração empolgante eram as corridas de carros, os combates de animais e os gladiadores. Quem vem de Arles tem motivos para não andar de boca aberta mas reconheça-se o esplendor destas arenas, o viandante veio encontrar obras de reabilitação, Nîmes pretende candidatar-se a Património Mundial da Humanidade – e tem razões para isso.


Este edifício moderno, depois de um concurso muito disputado, revela-se em diálogo perfeito com o anfiteatro romano, é um projeto de Elisabeth e de Christian de Portzamparc, está envolvido por uma fachada de vidro translúcido, o edifício parece que levita e ondula face à verticalidade dos arcos e à massa imponentes do anfiteatro. É aqui que irá funcionar o Museu da Romanidade, seguramente um património arrojado a juntar à candidatura da UNESCO.


Este edifício lembra um transatlântico em chapa metálica, ferro e vidro, mas atenção são dois longos edifícios paralelos, o engenho e arte passou pelo desafio de ganhar espaço e dar conforto e luz em cada um dos seus 114 apartamentos sociais. Edifício premiado, e com razão.


O século XIX teve os seus rasgos de esplendor em Nîmes com a indústria da seda só que a concorrência vinda de Lyon foi brutal, Nîmes procurou recuperar com o setor vitivinícola, que marcou uma nova era de prosperidade, aqui ficam imagens alusivas a esse período.



Depois do anfiteatro, a Casa Quadrada é a segunda maior atração da presença romana nas Gálias em Nîmes. É impressionante, foi construída sobre um alto pódio, o templo dominava o fórum da cidade antiga, estava encravado no centro da vida pública. É uma construção do século I d.C., mas o seu nome de Casa Quadrada foi dado no século XVI. Foi dedicado a dois filhos adotivos do Imperador Augusto, Caius e Lucius César. É o único templo do mundo antigo completamente conservado. Bastava esta referência para a impressão que provoca, mas há mais: a harmonia das proporções, a elegância das colunas até aos capitéis coríntios, a finura da sua decoração. Foi alvo de um enorme restauro de 2006 a 2010. É um dos grandes trunfos para a candidatura à UNESCO.



O viandante percorre agora os Jardins da Fonte, uma criação do século XVIII, estamos num dos primeiros jardins públicos da Europa. Aspeto curioso, respeita o plano do santuário antigo organizado à volta da fonte que existia desde os fins do século I a.C. Tem o traçado de um jardim à francesa decorado de vasos e estátuas de mármore ou pedra.


Mesmo ao lado destes jardins, temos os restos do Templo de Diana, considerado o monumento mais romântico de Nîmes, estaria associado ao santuário imperial, mas é desconhecida a sua função exata.



O viandante, se dispusesse de mais tempo, iria bisbilhotar o Museu das Belas-Artes ou o Museu da Arte Contemporânea, ainda quer ir esta tarde a Pont du Gard, a seguir parte para Marselha, mas não resiste à curiosidade de pôr um pé na Catedral, foi mal sucedido, está tudo em obras, limita-se a dar este pormenor da fachada e da torre, a fazer fé no que diz o Michelin e uma brochura turística, o friso superior é considerado como uma obra-prima da escultura românica do Midi da França. Aspeto curioso, os motivos do frontão e da cornija são folhas de acanto ou cabeça de leão, inspirados na Casa Quadrada. Foi uma bela visita a Nîmes, o tempo aqueceu, o viandante tem agora uns bons quilómetros de autocarro até Pont du Gard. Espera ter coisas para contar.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 28 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18874: Os nossos seres, saberes e lazeres (277): De Aix-en-Provence até Marselha (9) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18895: Estórias de Bissau (18): Uma noite no Chez Toi: o furriel Car…rasco, meu anjo da guarda... (Luís Graça)

Luís Graça, Bambadinca, c. 1970/71
Estórias de Bissau > 

Uma noite no Chez Toi: o furriel Car…rasco, meu anjo da guarda...

por Luís Graça

[ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71]



Conheci-o no "Chez Toi", em Bissau. Ou melhor, reconheci-o, de Tavira, do CISMI, onde ambos estávamos a tirar a especialidade de armas pesadas de infantaria. Pertencíamos, ambos, à Companhia de Instrução, e ao pelotão do tenente Esteves (o tal que  nos tratava com mimos: “Rapazes, vocês são a fina flor da Nação”… e a gente repetia  "... a flor do entulho",  a rebolar-se na merda do mercado do gado bovino ou no lodo das salinas de Tavira). (*)

Ele era o matulão do furriel Carvalho, transmontano, com ar de durão, mas que gaguejava ligeiramente…. Voltaríamos a encontrarmo-nos, mais tarde, muitos anos depois… Só então me confidenciou que tinha a alcunha de Car…rasco, por ter dado o tiro de misericórdia a um balanta do PAIGC que se esvaía em sangue, sem pernas, depois de uma bazucada em cheio,  no decurso de uma operação (**)…

Em Bissau, eu estava hospedado no "Chez Toi", naquela espelunca, de paredes de tabique, que à noite funcionava como “boite”. Tinha um nome chique, em francês, "Chez Toi" ( "em tua casa"). Mas eu nunca me senti em casa, nos dois ou três dias em que lá dormi...

Para os gajos do mato, desenfiados em Bissau, de tomates inchados e bolsos cheios de pesos, que não viam há meses um pedaço de carne de fêmea, branca, o "Chez Toi" devia ter um especial encanto que eu não conseguia descortinar… Mas eu também caí na esparrela de lá ir parar… Devia trazer-nos algumas reminiscências do “bas fond” de Lisboa, que o resto era paisagem no Portugal de então, tão maneirinho, tão chato, tão piegas, tão púdico, tão beato…Nesse tempo ainda era o francês de praia a língua da cultura dominante da noite…

De facto, não sei como lá fui parar, ao "Chez Toi"… Publicidade enganosa, decerto. Mas para o caso não interessa. Andei dois ou três dias “desenfiado” em Bissau, antecipando o gozo do início das férias na Metrópole. Aguardava o avião da TAP para Lisboa. Eram as primeiras férias pagas da minha vida, pagas pela Pátria, com o soldo do soldado, o patacão da guerra … (Devo dizer que não tive problemas de consciência nem devolvi, à Pátria, o “dinheiro, sujo, de mercenário”, saudação a que tive direito à chegada, num dos primeiros grafitos que me lembro de ver, naquela época, num dos muros do quartel da Avenida de Berna, em Lisboa, onde, se não me engano, funcionava uma merda da tropa ligada ao recrutamento… Ainda não havia grafitos em Lisboa, como há hoje, mas alguém pintara, com pincel grosso e tinta de parede, vermelha de sangue, o slogan provocatório: “Mais vale, em Paris, operário, do que na guerra, mercenário”… Era um óbvio apelo à deserção,)

Estávamos em plena época das chuvas, em junho ou julho de 1970, já não me recordo bem ao certo. A atmosfera em Bissau era asfixiante. E eu deixava para trás um ano de intensa actividade operacional. Nessa noite fui dar uma volta ao “bas fond”, como estava na moda dizer-se. Intelectualóide que se prezasse, falava francês, ou pelo menos usava expressões coloquiais em francês, como o “vachement bête”, ou “emmerder”, “copain”, “copine”, “salut”… (Ecos serôdios e longínquos do Maio de 68 em Paris, que nos chegava tarde, a Lisboa e  a Bissau, ao nosso pequeno Vietname). Mas o “bas fonds” em Bissau era, para a tropa-macaca, o Pilão. E um dos atos de "heroísmo"  da malta do mato, desenfiada em Bissau, era dormir uma noite inteira no Pilão… Sem guarad-costas nem arma,,,, Enfim, pura bravata, provocação ou leviandade!...

Por azar, no “Chez Toio”, logo na primeira noite, alguém arrombou a porta do meu quarto, forçou o cadeado da mala de cartão e fanou-me uma Dimple que no mercado local representava um salário um salário e meio de um lavandeira ano mato… Duas ou três garrafas de uísque, velho, era toda a riqueza que eu levaria a bordo para a Metrópole, para além de algumas peças, baratas, de quinquilharia e artesanato, que ainda tencionava comprar no Taufik Saad.

Nessa mesma noite, tive uma conversa (deveras desagradável) com o gordo do gerente do “Chez Toi”, sebento, empertigado na defesa da honra e do bom nome da casa. As suspeitas recaíram logo num dos rapazes, "papel do Biombo", se não me engano, que fazia o serviço de quartos. Ali não havia criadas, só criados, como no resto de África. Alguns clientes, à civil, mais exaltados, de copo de uísque na mão, juntaram-se a nós, a mim e mais o meu parceiro do Pilão, em azeda discussão com o gerente. E aí, às tantas, o clima começou a ficar propício à pancadaria e ao linchamento. É a famosa lei de Gresham do conflito, a bola de neve que amplifica o conflito e faz perder de vista o pomo da discórdia e os protagonistas iniciais.

Eu e o sacana do gerente já tínhamos chegado a um arremedo de acordo de cavalheiros, e o ladrãozeco de uísque suava por todos os poros, ao ver que não tinha nenhum buraco no chão para se enfiar. Foi quando alguém mandou um copo ao chão e berrou, alto e bom som, um chorrilho de asneiras e provocações racistas:
- Filhos da puta de nharros, cambada de barrotes queimados, turras de um cabrão!... E anda aqui um gajo a foder o coirão no mato para o Spínola lhes proteger as costas em Bissau!...

O garnisé que cantava de galo àquela hora da noite era um gajo, branco, seguramente militar, trajando à civil, de estatura meã, mais baixo do que eu, mas mais entroncado. Estava visivelmente embriagado. Tive então a infeliz ideia de responder à sua provocação:
- O camarada vai-me desculpar mas a conversa não é consigo, nem o assunto lhe diz respeito… Além disso, eu estou numa companhia de africanos, lá no mato, no leste, e não gosto de ouvir expressões como nharros ou barrotes queimados, porque são racistas, ofensivas para com…

O tipo não me deixou sequer completar a frase, saltou como uma onça de garras afiadas, direitinhas à minha carótidas… Foi a primeira (e única) cena de porrada, a sério, em que eu me vi envolvido na tropa e no teatro de operações da Guiné, com luta corpo a corpo… De facto, nunca tinha sentido o "inimigo" tão perto, olhos nos olhos, as unhas enfiadas no meu pobre pescoço…

Providencialmente foi nessa altura que ele apareceu, fardado, o meu anjo da guarda... Com divisas de furriel, segurando o energúmeno com autoridade e classe, e salvando-me daquela situação de embaraço e apuro... Escusado será dizer que o meu agressor também era militar e, ao que parece, estava em Bissau, de férias, noutra pensão rasca, ali ao lado. Os amigos, de ocasião, que o acompanhavam, tiveram o bom senso de o levar até ao Geba e apanhar o ar mais fresco da madrugada, antes que aparecesse a ramona… Quando me dei conta eram duas e tal da manhã…

Ele, o meu salvador, que por sinal também estava hospedado no "Chez Toi", era nem mais nem menos do que o meu camarada de pelotão, de Tavira, com quem eu de resto ainda tinha umas velhas contas por saldar… Furriel Carvalho, lembrei-me do nome... Estava numa compamhia lá para os lados de Quínara, depois de ter passado pelo leste, região de Gabu, se não erro... Resumidamente, aqui a vai a minha versão dessa história que me estava atravessada e que remontava a 1968, em Tavira, e que depois fiquei a rememorar durante o resto da noite no “Chez Toi”…

Numa das sessões de treino de boxe, que fazia parte da nossa instrução, dada pelo famoso tenente Esteves, levei dele uns socos valentes nos queixos. Eu tinha adotado uma atitude claramente passiva de quem não estava disposto nem a aleijar nem a ser aleijado… Esperava que o meu parceiro, com mais cabedal do que eu, 12 cm mais alto do que eu, entrasse no jogo do faz de conta… Mas qual quê!... Ele assim não o entendeu (ou não quis). Pelo contrário, assumiu logo de início uma postura viril, de combate. Sabia que estava a ser observado pelo instrutor e que aquilo era um teste de agressividade. Estava obcecado com a ideia de vir a poder ser um dos cinco melhores do curso, e assim, eventualmente, livrar-se de ir parar ao Ultramar, gorada a hipótese de ter ido para a Polícia Militar… por ter chumbado nos testes psicotécnicos ou, mais provavelmente, por ter sido ultrapassado por um gajo com cunha.

Devo confessar que, depois desse dia, fiquei-lhe com um pó dos diabos!... Não tinha, pois,  grandes razões para me lembrar dele como um dos bons camaradas de tropa, bem pelo contrário!... Acabei por perdê-lo de vista, até ao dia em que o Niassa levou as nossas duas companhias para a Guiné (ou ele ia em rendição individual, já não me recordo).

Como nunca fui um gajo de ressentimentos, fui buscar uma das garrafas de uísque que ainda sobravam da mala de cartão arrombada e lá ficámos à conversa, até de madrugada, contando as nossas peripécias de heróis da Pátria… Sei que no dia seguinte o gerente do “Chez Toi” mandou-me consertar a mala e repor a garrafa roubada… Honra lhe seja feita.  
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Notas do editor:

(*) Vd. a série Estórias de Bissau (com 17 postes até agora publicados, entre novembro de 2006 e dezembro de 2008):

11 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1266: Estórias de Bissau (1): Cabrito pé de rocha, manga di sabe (Vitor Junqueira)

11 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1267: Estórias de Bissau (2): A minha primeira máquina fotográfica (Humberto Reis); as minhas tainadas (A. Marques Lopes)

14 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1278: Estórias de Bissau (3): éramos todos bons rapazes (A.Marques Lopes / Torcato Mendonça)

17 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1286: Estórias de Bissau (4): A economia de guerra (Carlos Vinhal)

18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1288: Estórias de Bissau (5): saudosismos (Sousa de Castro)

18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1289: Estórias de Bissau (6): os prazeres... da memória (Torcato Mendonça)

18 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1290: Estórias de Bissau (7): Pilão, os dez quartos (Jorge Cabral)

24 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1314: Estórias de Bissau (8): Roteiro da noite: Orion, Chez Toi, Pilão (Paulo Santiago)

22 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1391: Estórias de Bissau (9): Uma noite no Grande Hotel (José Casimiro Carvalho / Luís Graça)

2 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1484: Estórias de Bissau (10): do Pilão a Guidaje... ou as (des)venturas de um periquito (Albano Costa)

10 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1512: Estórias de Bissau (11): Paras, Fuzos e...Parafuzos (Tino Neves)

31 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1639: Estórias de Bissau (12): uma cidade militarizada (Rui Alexandrino Ferreira)

19 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2281: Estórias de Bissau (13) : O Pilão, a Nônô e o chulo da Nônô (Torcato Mendonça)

21 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2290: Estórias de Bissau (14) : O Pilão, a menina, o Jesus e os pesos que tinha esquecido (Virgínio Briote)

6 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2509: Estórias de Bissau (15): Na esplanada do Pelicano, a ouvir embrulhar lá longe (Hélder Sousa) 


Sobre a série Galeria dos meus heróis, vd postes anteriores:

13 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - P168: A galeria dos meus heróis (1): o Campanhã (Luís Graça)

13 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1366: A galeria dos meus heróis (6): Por este rio acima, com o Bolha d'Água, o Furriel Enfermeiro Martins (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P18894: Parabéns a você (1475): José Nunes, ex-1.º Cabo Mecânico-Electricista do BENG 447 (Guiné, 1968/70) e TCor Inf Ref Rui Alexandrino Ferreira (ex- Alf Mil Inf da CCAÇ 1420 - Guiné 1965/67 e Cap Inf, CMDT da CCAÇ 18 - Guiné 1970/72)


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Nota do editor

Último poste da série de 31 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18883: Parabéns a você (1474): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350 (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18893: Estórias avulsas (90): o meu amigo da Cheret que foi substituir um velhinho que tinha sido apanhado à mão mas que acabou por 'fintar' o PAIGC (Virgílio Teixeira)

1. Mensagens de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) [natural do Porto, vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado; tem já cerca de 7 dezenas de referências no nosso blogue]:

Data: 2 de agosto de 2018 às 17:44
Assunto: CHERET

 Luís, lamento o incómodo das férias, mas eu não me dou sem fazer nada, e não gosto de praia, e não tenho quintas. (...)

Ontem estive aqui na biblioteca [em Vila do Conde] onde passo a maior parte do tempo a escrever, não gosto de estar em casa fechado, e encontrei um amigo de longa data e até já falei dele, há poucos dias.

É um rapaz da minha idade, formado antes de ir para a tropa em Engenharia Electrotécnica, opção de Tecnologias Avançadas, mas diz-me que raramente vai ao computador, e o telemóvel dele é mesmo igual ao meu, o mais simples Nokia do mercado, com teclas.

Veio viver para Vila do Conde, mora agora aqui perto, e vai frequentar a Biblioteca, mas só para ler. É um tarado em leituras, e não precisa nada disto porque é de boas famílias. E diz ele que a sua nova companheira - deve ter tido 10 casamentos e 100 companheiras - vive aqui, e ele mudou-se do Porto para cá, é um do grupo do Café Cenáculo, Campo Lindo, Porto 1961.

Ele é um óptimo rapaz, mas deve ter uma 'panca' qualquer que desconheço. É muito inteligente. Fez a tropa mais ou menos na mesma época que eu, esteve na Trafaria e a especialidade dele, não sei explicar bem, mas era o responsável pela segurança das Transmissões, e vivia num bunker no QG de Santa Luzia. Encriptava e desencriptava, não sei bem. Perguntei-lhe agora finalmente qual era a sua missão na Guiné, estava então no CHERET - perguntei-lhe o que era aquilo e ele também não sabia decifrar o que era, fiz umas pesquisas, incluindo o blogue e lá encontrei.

A 'panca' dele começa logo por aqui. Foi mobilizado para a Guiné, casou-se - a primeira vez - com uma miúda linda e jeitosa, que vim a conhecer na Pensão da Dona Berta em Bissau. 

Em vez de viajar de barco por conta da tropa, e porque tinha posses, foi mesmo na TAP e lá chegou 6 dias antes do navio, que ele nem sabe o nome. Quando chegou ao aeroporto com a mulher, em Lua de Mel, perguntaram para onde ia ficar, ele conhecia vagamente o nome do Grande Hotel e lá deu essa morada, e esteve lá um ou dois dias. Depois passou para a Dona Berta, ficava mesmo na Avenida do Império , Praça da República que ia dar à Parça do Império], ao lado do Bento e da Catedral de Bissau, tinha vistas do 1º andar privilegiadas.

Foi passeando e conhecendo a terra, Bissau diga-se, nunca se dirigiu ao QG, ele andava em Lua de Mel, e o clima queima!

Estive uma ou duas vezes com eles, e depois devo ter ido para a minha terra, ele nem sabe em que mês ou dia foi lá parar, passa-lhe tudo ao largo. E assim os dias foram passando, uma semana, duas etc, estava ele um dia com a mulher, no cais do Porto de Bissau sentado a olhar o mar. Ao lado estava outro militar, já velhinho, a olhar também para o mar a ver se chegava o navio com o seu substituto, pois já deveria ter vindo. E contou ao meu amigo que estava ali sem saber o que fazer pois o gajo que o vinha substituir desaparecera, estava dado como desertor. Mas qual é a função dele ali? Era da CHERET, o homem que ia substituir, Com uma calma ele, o meu amigo, lá disse então: "Sou eu mas nem me lembrava o que tinha de fazer"....

Agora é só para ver o que lhe foi acontecendo, era uma missão em que só poderia andar de avião, não era permitido viajar de estrada nem por rios. Foi parar a Catió numa LDM, e depois despachado para Piche, mais ou menos na altura do desastre do Cheche [, que foi em 6 de fevereiro de 1969], e do grande ataque da guerrilha em Piche.

Depois foi evacuado para o HM 241 em Bissau, para a Psiquiatria em Maio de 69, no mesmo mês e datas onde eu também lá estava mas não nos cruzámos, veio evacuado com outro amigo nosso que também estava na Psiquiatria, chegaram a Lisboa e em vez do Hospital da Estrela foram passar uns dias ao Algarve...

Isto talvez tenha pano para mangas, deve ser um caso interessante. Diz algo
Um Ab,
VT

Data: 2 de agosto de 2018 às 17:44
Assunto: CHERET

Voltando ao tema da CHERET, já sei que se chama... "Chefia do Serviço de Reconhecimento das Transmissões2!

Como escrevi depressa, esqueci algumas coisas. Aqui vai a versão, corrigida, da história:

Um elemento da CHERET, um alferes miliciano, numa coluna, em que não devia ir, foi capturado à mão e levado para os santuários do PAIGC.

Feita a lavagem ao cérebro, eles lá sabiam ou souberam a missão secreta dele, e apertaram o dito coitado Cheret.

Ele,  pelos vistos,  embrulhou bem os gajos do PAIGC, trocou-lhes as voltas, pelo que passado pouco tempo todas as comunicações e transmissões do PAIGC eram interceptadas pelas nossas tropas, por qualquer um, não precisavam de ajuda para desencriptar, não sei se é este o termo.

Daí a proibição deste pessoal deslocar-se a pé ou em coluna por terra ou via marítima, só mesmo aérea.

Pelos vistos,  mais tarde a este colega meu [, que enconteri em Bissau e me contou esta história,]  andou sempre em todos os meios menos avião. Ele era tão 'apanhado'  que nem sequer andava de arma, explicou que era muito pesada, não sei o que aconteceu, tenho de explorar bem isto. Mas só o faço se isto tiver algum interesse bloguístico e não sei se ele quer contar mais, mas posso sempre pressionar.

Além de vários problemas na vida dele, e sempre foi professor universitário, com as sucessivas mudanças de mulheres, um filho dele acabou por se suicidar. Quando me contou, nem sabia o que dizer.

Esta função para mim era desconhecida, são aqueles que estão fechados a 7 chaves.

Um Ab, e boas férias, de vez em quando vou chateando para acalmar.
Virgilio Teixeira


2. Comentário do editor LG:

Virgílio, como deves imaginar, nos meses de verão (julho e agosto), em que o pessoal vai a "banhos", o blogue anda muito mais calma, tanto em termos de postes publicados como de acessos e comentários. Pelo que histórias como aquela que  acabas de contar, serão sempre bem vindas... Não precisas de identificar o camarasda, mas dá mais detalhes, se possível, para a a história ser credível: poe exemplo, como é que o 'velhinho'  do PAIGC, depois de ter sido apangado à mão e depois de os ter 'fintado' ?  Deve haver registos de um alferes miliiciano, para mais da arma de transmissões, apanhado à unha pelo PAIGC... Vê zse sabes exatamente quando e onde...

Vou comer uma sardinhada com uns amigos, como uma por ti e bebo um copo à tua saúde (e à saúde do teu amigo, agora reencontrado). Aqui, na Lourinhã, podias vir à praia e ficar na biblioteca, a ler e a escrever... Sobre a aguardente DOC da Lourinhã, tens aqui os  sítios dos pordutores: só há dois, a Adega Coperativa da Lourinhã e a Quinta do Rol... Os preços são variáveis (e altos demais para a minha carteira...) mas o produto é excelente, garanto-te: 

"Durante mais de duzentos anos, as casas produtoras dos melhores Vinhos do Porto beneficiaram da Aguardente de Lourinhã para produzir os seus afamados vinhos licorosos. Nos últimos trinta anos com o apoio científico da Estação Vitivinícola Nacional sediada em Dois Portos foi testada e confirmada a sua superior qualidade, a qual apenas encontra paralelo, a nível europeu nas aguardentes francesas das regiões do Cognac e do  Armagnac".

Há uma confraria que faz a promoção deste produto, e de que faz parte a minha mulher: a Colegiada de Nossa Senhora da Anunciação da Lourinhã... Eu vou aos jantares e festas deles (e delas), e vou aprendendo alguma coisa com estes "confrades"...
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Guiné 61/74 - P18892: Notas de leitura (1088): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (45) (Mário Beja Santos)

Câmara Municipal de Bolama


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2018:

Queridos amigos,
Estava-se num período de grandes dificuldades, as empresas queixavam-se da falta de dinheiro papel para Lisboa, Lisboa tomava medidas rigorosas proibindo todas as dependências do banco do império de sacarem sem cobertura imediata sobre a metrópole ou o estrangeiro.
Os trabalhadores metropolitanos queixavam-se do poder de compra exíguo e ameaçavam regressar a Portugal caso não fossem contempladas as suas reivindicações e dois gerentes da Sociedade Guiné Comercial, Lda, tratavam as desavenças ao pontapé e à estalada, chegando ao cúmulo de um criado indígena dar palmatoadas no empregado branco, o mundo colonial estava virado do avesso...
E data desse ano de 1923 a primeira referência à Companhia de Fomento Nacional, sediada em Aldeia do Cuor, quando folheei este papel não contive a emoção, estavam finalmente explicados os vestígios de grandes construções em pedra que conheci em 4 de Agosto de 1968 e que ninguém, em todo o Cuor, me deu explicação razoável. Esta Companhia de Fomento Nacional antecede a Sociedade Comercial do Gambiel, ali trabalhou Armando Zuzarte Cortesão, eminente cartógrafo, à chegada a Missirá ofereceram-me a sua cama em ferro, mandei fazer um colchão de folhelho, tudo durou até 19 de Março de 1969, uma granada incendiária só deixou uns ferros calcinados.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (45)

Beja Santos

Introdução 
De V. Senhorias para V. Exas.

A documentação referente a esta época releva a escassez e a penúria que paira sobre a Guiné. Logo em 14 de Fevereiro de 1921, trabalhadores metropolitanos recrutados para obras no banco em Bissau dirigem-se ao gerente pedindo aumento de vencimentos, “visto que tudo tem aumentado a tal ponto que os nossos vencimentos descontando as mesadas que enviamos às nossas famílias não chegam para a nossa manutenção e como tudo dia-a-dia vai num crescente ameaçador, vimo-nos na contingência de vir pedir a V. Exa. que se dine a tender o nosso pedido. Em Lisboa, quando fomos contratados os salários que nos foram dados eram do triplo que se pagava lá; agora, como em Lisboa se está pagando seis escudos por dia, é justo que sejamos aumentados na proporção acima, pois que de contrário não nos valerá a pena estarmos aqui sacrificando as nossas saúdes e o bem-estar das nossas famílias para mais tarde quando voltarmos à metrópole irmos sem saúde e sem dinheiro para nos tratarmos”.

De facto, havia obras no edifício da agência em Bissau, ali se trabalhava afanosamente segundo a planta do senhor Felgueiras, o mestre e de obras, o gerente recomendava que o construtor do mobiliário falasse com ele. E seguia-se a lista das necessidades de móveis e utensílios: para o salão do primeiro andar, uma mesa de centro, um sofá inglês, algumas cadeiras simples e outras estofadas, dois contadores, um espelho biselado, duas colunas, várias carpetes e galerias com sanefas; no hall um bilhar, bancos estilo império e 4 mesas para chá (servindo para bridge); para a sala de jantar uma mesa elástica para 12 pessoas, um guarda-prata, 2 trinchantes, um aparador, 12 cadeiras e 2 vasos para begónias; no gabinete de trabalho, uma secretária de ministro, uma cadeira giratória, uma mesa para máquina de escreve, cadeiras, um pequeno armário classificador, uma pequena estante rotativa, uma coluna para busto e um relógio; na livraria, duas estantes, uma pequena mesa simples e duas cadeiras; no quarto de vestir, uma cómoda, um guarda-fato, uma chaise-longue, uma mesa de centro e cadeiras… Lista altamente pormenorizada, abarcando quartos, o quarto de criadas, vestíbulo, cozinha, gabinete de gerência, sala de espera, área de atendimento público e tesouraria. Desconhecemos qual tenha sido a reação de Lisboa a tais pedidos.

Não escapa a esta correspondência algumas cenas truculentas, podem meter tiros, denúncia de imoralidades ou história de vigarices. É o caso do ofício enviado em 14 de Outubro de 1921 com o título Celorico Gil.
Começa com o texto de dois telegramas, e o gerente de Bissau explica-se:
“O procedimento do senhor Celorico Gil é deveras inexplicável, e só o podemos classificar de idiota, pois é impróprio de um advogado que se preze. Já tínhamos conhecimento de que este senhor andava propagando aqui que ia processar o Banco e exigir uma indemnização de 100 contos, mas nunca supusemos que dissesse tal baboseira a sério.
Para responder a V. Exas, aguardámos o regresso a Bissau do senhor Celorico Gil que na ocasião se encontrava em Bolama; procurámo-lo na Casa Gouveia, onde habitava, e negou-se a receber-nos, alegando nada ter a tratar com o Sr. Rolão. Insistimos, mandando-lhe dizer que não era o Sr. Rolão que o procurava mas sim o gerente do Banco, para assunto oficial; persistiu na recusa.
Que pretendeu o Sr. Celorico Gil telegrafando a V. Exas? Visar o signatário? Com mentiras e insinuações, que nós com a maior facilidade desfazemos com documentos, foi tolice porque gastou dinheiro no telegrama e demonstra que muito pouco vale como carácter e como advogado.

Este senhor não podia ver, e o seu rancor chegava a ponto de afirmar a toda a gente que logo que chegasse a Lisboa procuraria o nosso Governador, Dr. João Ulrich, de quem pessoalmente é amigo, e que havia de conseguir a imediata demissão do signatário!
Nós só podemos encarar tão estulta vaidade rindo-nos, tanto mais que nem nós quereríamos estar exercendo um cargo de confiança e responsabilidade dependentes do primeiro parvenu¸ como o grotesco Sr. Celorico, pessoa que aliás não conhecemos, a quem nunca fomos apresentados e com que nunca trocámos sequer uma palavra.
Que mal nos podia fazer este cavalheiro se o processo ainda está correndo e o exame de peritos é desfavorável aos sírios Sóda Frères? Que responsabilidade temos nós na prisão dos inculpados, se não fomos nós que os acusámos nem os mandámos prender?

A assinatura do cheque falsificado está perfeitamente limitada, e portanto nem sequer temos responsabilidade pelo seu pagamento. Não temos nenhum interesse que os falsificadores fossem os sírios Sodas ou outrem, o que queremos é que o assunto se arrume.
O Sr. Celorico atreveu-se a insinuar maldosamente, como tivemos conhecimento pelo nosso guarda-livros, que estava convencido de que o cheque teria sido falsificado no próprio Banco, por algum empregado! Um cheque que primitivamente e antes de ser pago tinha sido visado, pois o caso ocorreu o ano passado, quando a nossa emissão se esgotou!
Repetimos e confirmamos o que declarámos já no nosso telegrama: assumimos inteira responsabilidade pessoalmente pela nossa parte no processo, que se limitou a participar os factos ocorridos.
Pena temos nós de não termos elementos mais concretos sobre as insinuações a respeito do nosso pessoal, porque talvez o Sr. Celorico se arrependesse da leviandade e infâmia”.

Alçado tipo de topo do quartel militar (duas fotografias de Francisco Nogueira retiradas do livro “Bijagós Património Arquitetónico”, edições Tinta-da-China, 2016)

De 1922 para 1923, sentem-se novas dificuldades na Guiné, surgem reclamações, algumas de teor bem curioso, é o caso de uma carta datada de Bissau, de 24 de 4 de Fevereiro de 1922, da empresa Huilerie de Copenhaga dirigida à administração em Lisboa protestando com a falta de dinheiro papel, queixando-se de que não podiam pagar aos indígenas com cheques visados e perguntava-se:
“Havendo dinheiro em Bolama, que, se não é o suficiente para fazer face aos encargos do comércio, com a actual depreciação da moeda, de forma alguma remediaria quem neste momento não tem nenhum, por que motivo não dão V. Exas. as competentes ordens para pôr em circulação tal dinheiro?
Além disso, queremos também frisar o caso do senhor gerente da filial de Bissau, de não tratar com a devida correcção os agentes das casas comerciais, bem como sabemos também que o dinheiro ainda não acabou no banco, pois há sempre meio de satisfazer pequenos cheques para pagamento ao gentio e todavia não nos foi pago um cheque de um fornecimento feito ao Estado, senão metade, ficando o resto em depósito”.

As dificuldades financeiras sentidas na metrópole são comunicadas a Bissau e pede-se o maior rigor, como se pode ler no documento reservado que o BNU em Lisboa envia em 31 de Julho de 1923:
“A situação extremamente melindrosa a que nos estavam conduzindo os intermináveis saques a descoberto das Dependências do Ultramar – já por nós mais de uma vez denunciada – levou-nos a tomar medidas de rigor extremo, nomeadamente com as Dependências de Angola e Moçambique que são aquelas que de uma maneira mais sufocante pesam sobre esta Sede com saldos devedores que, em seu conjunto, se elevam já a uma verdadeira enormidade.
A primeira dessas medidas, como naturalmente estava indicado, foi a proibição rigorosa que fizemos a todas as dependências daquelas Províncias de sacarem sem cobertura imediata sobre a Metrópole ou Estrangeiro, proibição essa que agora tornamos extensiva a essa Filial.
Todas as operações que se traduzam em transferências para a Metrópole ou Estrangeiro igualmente ficam absolutamente proibidas sem a respectiva contrapartida”.

Imagem retirada da revista “Mundo Português”, que era publicada pela Agência Geral das Colónias

Nesse mesmo ano de 1923 Lisboa pede ao gerente de Bissau que ponha o seu maior empenho em conseguir uma solução digna para o conflito com os gerentes da Sociedade Guiné Comercial, Limitada.
Recorreu-se a um intermediário, o diretor interino da Agrimensura, que era muito íntimo deles, foram desagradáveis, e o gerente de Bissau adianta as suas razões:
“Os gerentes da Sociedade Guiné Comercial, Lda há muito que vinham sendo acusados de agredirem empregados europeus e de gozarem de poucas simpatias na praça, não só pela sua falta de educação, que os levava a frequentes inconveniências, mas também por terem sempre, como supremo argumento, a imposição dos seus músculos de montanheses.
Chegaram ao cúmulo de segurarem um empregado branco para que, às suas ordens, e intimidado sob ameaças, um criado preto lhe desse palmatoadas!
Este ato, indefensável por indigno, revoltou justificadamente os europeus de todas as nacionalidades representadas nesta colónia, que pediram a expulsão dos acusados, tendo o governador da Província comunicado o caso para o Ministério das Colónias.
Confidencialmente, o Administrador do Conselho, Adolfo de Jesus Leopoldo, Tenente do Exército Metropolitano, que procedeu às investigações, informou-nos que são absolutamente verdadeiras as acusações lançadas sobre os gerentes da Sociedade Guiné Comercial, Lda.
Consta-nos que um deles, José Barbosa, o principal responsável e o mais antipático, forjou telegramas falsos para a sua sede, conseguindo ainda manter-se mais algum tempo. Já embarcou para Lisboa e o outro deve também retirar-se brevemente”.

(Continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 20 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18861: Notas de leitura (1085): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (44) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 30 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18880: Notas de leitura (1087): “Máscaras de Marte”, por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2018 (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18891: Tabanca Grande (466): Manuel Gonçalves, ex-alf mil manutenção, CCS / BCAÇ 3852, Aldeia Formosa, 1971/73; ex-aluno dos Pupilos do Exército, transmontano, vive em Carcavelos, Cascais. Senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 776.



Manuel Gonçalves, novo membro da nossa Tabanca Grande, nº 776


1. Mensagem de Manuel Gonçalves, ex-alf mil Manutençaõ,  CC S/BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73),

Data - 1 de agosto de 2018. 11:23
Assunto -  Inscrição no blogue

 Luís Graça:

Em primeiro lugar,  tenho a dizer que gostei muito de te ter revisto a ti e à Alice. Foi um bocadinho de fim de semana muito agradável. Depois dou finalmente cumprimento a uma decisão tão simples e que peca por tardia. Segue em anexo uma pequena história e as respetivas fotos.

Um grande abraço e um beijinho à Alice.
Manuel Gonçalves


2. Resposta do editor LG:

Manel: Obrigado, em nome de toda a Tabanca Grande... Serás o grã-tabnqueiro nº 776 (*) a sentar-se à sombra do nosso mágico e fraterno poilão... Como sabes, não há tabanca sem poilão... Fico muito feliz por te ter aqui ao nosso lado; para além de um bom camarada, és já um grande amigo, e o companheiro de uma grande amiga nossa,a Tucha, que eu e a Alice conhecemos muito primeiro do que tu...  Mesmo em férias, vou caprichar na tua apresentação...

Finalmente, desde o passo  desejado e prometido desde pelo menos o nosso primeiro encontro em Monte Real, por ocasião do VIII Encontro Nacional da Tabanca Grande (2008) (**). Com, pelo menos, já 3 encontros, em que estivemos juntos, em Monte Real.

Estás, portanto, em casa... Além disso, não estás só: da tua companhia, há pelo menos o Manuel Carmelita que nos honra, de há muito, com a sua presença... (Foi fur mil radiomontador e vive em Vila do Conde.)... E estamos à espera que o João Marcelino também se junte a nós... (Esteve connosco em 2013, em Monte Real; não tenho sabido notícias dele;  ele mora ou morava no concelho da Lourinhã.)

Manel, tivemos, no fim de semana, uma conversa cheia de cumplicidades e confidências, como se fôssemos já velhos  amigos de uma vida... Esse, é resto, o nosso timbre, o do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Gostei muito da  história que nos contas, da tua despedida de Lisboa antes da hora do embarque... Em próximo acrescentarei mais algo sobre ti e a tua passagem por Aldeia Formosa.

Um xicoração fraterno para ti e para a Tucha.
Luís


3. Pedido de inscrição na Tabanca Grande:

Finalmente decidi-me a proceder a um gesto bem simples, o de enviar duas fotografias e contar uma pequena história. A isto não é estranho o facto de nos termos encontrado na Lourinhã, no domingo passado e termos falado no assunto. Nesse mesmo instante, decidi que, estando em dívida para com o Blogue, deveria dar um passo em frente e aqui estou eu a fazê-lo.

Frequentei o Instituto dos Pupilos do Exército, de 1960 a 1970. Concluído o Curso de Electrotecnia e Máquinas, entrei na EPSM (Escola Prática do Serviço de Material), em Sacavém, onde estive de Junho de 1970 a Junho de 1971. Durante esse tempo ministrei aos soldados, duas especialidades de Mecânica Auto, uma de Carpintaria e outra de Pintura de Automóveis.

Depois rumei a Chaves, para me integrar no BCAÇ 3852, fazendo parte da sua CCS. Na tarde noite de 25 de Junho de 1971, partíamos de comboio rumo ao cais de Alcântara, para embarcarmos para a Guiné a bordo do Niassa. A largada do Cais, deu-se no dia 26 de Junho às 12h00. Aqui é que entra outra pequena história dentro da grande história que é a nossa ida para a guerra, sem sabermos se a viagem seria de ida e volta.

Estavam as tropas em pleno cais de Alcântara fazendo os últimos preparativos para ordeiramente embarcarem, quando me ocorreu a ideia de me despedir da cidade, onde tinha vivido os últimos e mais importantes anos da minha vida. Acto contínuo, chamei um táxi. À pergunta do taxista, ainda mal refeito da surpresa, pensando talvez estar a transportar um desertor, perguntou-me para onde queria ir. Eu, mal ouvindo a pergunta, pois os meus pensamentos estavam noutros mundos, respondi-lhe que desse a volta a Lisboa e me viesse deixar no mesmo sítio.

Assim aconteceu, percorri quase toda a Lisboa e quando cheguei, já a maior parte das tropas tinham embarcado. Eu cheguei, indiferente ao mundo que me rodeava e embarquei também, não sem ter dado satisfação à raiva que me ia na Alma. Claro que um acto destes deve-me ter marcado, porque durante a comissão tive alguns vislumbres disso mesmo. Aliás no momento em que apanhei o Táxi, devo ter sido logo seguido por algum dos PIDES que ali estavam para vigiar as tropas.

Aqui fica esta pequena história para juntar a tantas outras, bem mais importantes, de camaradas meus.

Um abraço e até sempre

Carcavelos 30 de Julho de 2018
Manuel dos Santos Gonçalves   
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(*) Vd. postes de:


12 de julho de  2018 > Guiné 61/74 - P18839: In Memoriam (317): João [Alfredo Teixeira da] Rocha (Ilha de Moçambique, 1944 - Porto, 2018), nosso grã-tabanqueiro n.º 775, a titulo póstumo (Luís Graça / Jaime Machado / Carlos Silva / Tabanca de Matosinhos / António Pimentel)

(**) Vd. postes de:

1 de maio de  2017 > Guiné 61/74 - P17302: XII Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 29 de Abril de 2017 (11): novos e velhos amigos e camaradas (Fotos de Luís Graça)

19 de junho de 2014 Guiné 63/74 - P13305: IX Encontro Nacional da Tabanca Grande (38): "Caras novas" em Monte Real... E algumas de camaradas que ainda não se sentam à sombra do nosso poilão

14  de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13285: IX Encontro Nacional da Tabanca Grande (25): Reencontrando a nossa amiga Tucha... que se volta a inscrever este ano com o Manuel Santos Gonçalves... É caso para dizer que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande! (Luís Graça / Alice Carneiro)

Guiné 61/74 - P18890: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (31): Junto às dunas

Um pôr- do- sol em Espinho


1. O nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), em mensagem do dia 14 de Julho de 2018 enviou-nos mais uma memória da sua guerra.


Outras memórias da minha guerra

31 - Junto às dunas

Pintura do mar de Paramos

Sempre que sinto necessidade de espairecer as ideias ou de relaxar o físico, vem-me à cabeça a proximidade do mar, da sua brisa iodada, do ruído musical das ondas, das areias e das suas dunas. E quase instintivamente me encaminho para lá, para as proximidades de Espinho. É pena que agora, por questões de saúde, não possa resistir ao vento e à baixa temperatura e tenha que regressar, grande parte das vezes.

Ali chegado, instintivamente, faço o meu zapping panorâmico sobre o mar azul, verde ou prateado e deleito-me a olhar as ondas, ora lentas, sussurrantes e preguiçosas, ora apressadas, resmungonas e revoltadas. Sempre as compreendi e sempre as aceitei como são. É que são milhões e milhões de anos de experiência que não podemos nem devemos sequer contestar. De seguida, olho a praia, nua ou quase, seca ou molhada, ao longo do horizonte, seja na direcção de Espinho, Aguda, Silvalde ou de Esmoriz. Quase sempre vislumbro algum casal de humanos, aparentemente em relação amorosa. Digo “aparentemente”, porque no meu tempo o amor parecia-me uma coisa mais forte.

Passadiço a ser engolido pelas areias das dunas

Desta vez, apesar de já estarmos em fins de Junho, ainda é raro apanhar um dia de sol aberto. Havia optado por Paramos. Respiro fundo várias vezes, absorvendo aquele ar salgado da brisa do norte, inigualável, com que me identifico a “snifar” desde criança. Dali, junto à Capela de S. João, aproveito o passadiço de madeira e sigo na direcção de Esmoriz. Todavia, já se me torna difícil chegar à Barrinha, àquela zona beneficiada pelo programa Polis Litoral Ria de Aveiro. Os melhoramentos são bem evidentes, mas nunca capazes de nos fazer reviver aqueles belos tempos dos anos 60.

A Barrinha de outrora está assoreada e cheia de arbustos

Por vezes, quando me sinto mais forte, sigo pela margem direita (norte) da Barrinha, passo pela zona outrora mais isolada (apesar de descoberta e bem visível, os “espreitas” rastejavam até junto dos carros) e sigo, aproximando-me do ao antigo Bar Motel e do actual Restaurante Hélice, nas instalações do Aero Clube de Espinho, onde se come um excelente Bacalhau Assado com Broa.

Por falar em comer, tenho que referir também o Restaurante Casarão, propriedade do Camarada da Guerra na Guiné, Orlando Santos, especializado aqui, em Polvo à Lagareiro e grelhados de peixe.

Restaurante do camarada Orlando, com o GACA 3 ao fundo

Pois, desta vez, limitei-me ao trivial: caminhar calmamente numa distância de aproximadamente uns 500 metros e deixar-me envolver pelas dunas onde, outrora saboreava horas de enlevo e de enredo, de mais ou menos intensidade. Por mais que me esforce, nunca vejo as mesmas dunas desse tempo. Estas, que aparentam ser iguais, não me conseguem mostrar os sítios mais ou menos côncavos onde muitas vezes me abriguei. Também são belas e acolhedoras. Porém, mesmo familiares das outras, já serão de outra geração e possivelmente também bem acolhedoras como as suas antepassadas.

Plantas rastejantes nas dunas

Enquanto os tufos de estorno continuam a abanar-se na sua luta permanente pela detenção das finas e esvoaçantes areias, cardos, cactos e chorões, sobressaem bem posicionados e bem protegidos pelos ventos agrestes.

Noutro tempo, quando embebidos nos enredos amorosos,“ouvíamos” e mostrávamos apreço às habituais dissertações poéticas das nossas companheiras. Elas, num nítido ritual de inocente sedução, mostravam-nos plantas, conchas, búzios e flores de vários tamanhos e matizes. Recitavam poemas e frases profundas, todavia, qual o instinto matador do macho latino, a nossa sensibilidade de momento exponenciava-se obcecada e exageradamente, através do “tesão” e do acumular de esperma nos “reservatórios”, já doridos de tanto encherem.

Dunas na direcção de Esmoriz

É claro que as dunas sempre nos deram uma ideia de extensão não arável, de areias mortas e de deserto.
Mais tarde, em pleno deserto do Kalahari, testemunhei a imensidão de vida e beleza que nelas podemos verificar.
E é isso que agora muito valorizo. Agora há tempo de sobra, a sensibilidade alterou-se e o “tesão” foi-se (afastando), deixando-nos ocupados na conquista de algumas boas… fotos.

Chorões das dunas de Paramos

Feita a caminhada/passeio, dirijo-me ao pequeno Bar improvisadamente instalado na parte mais alta da praia. Devido à brisa fresca, sentei-me de costas para o mar, encostado à divisão protectora e virado para o “nosso” GACA 3.

Agora, recordo as histórias ali vividas onde, algumas delas se relacionavam fortemente com as redondezas do Quartel. E delas, hoje, devo destacar esta, que segue.

Foi naquele Sábado, 23 de Junho do ano de 1966. Era a véspera do S. João, início de fim-de-semana propício aos maiores “desenfianços”. Eu estava de Sargento-Dia ao Batalhão, mas não faltei aos famosos festejos da noitada "imbiqueta". Junto ao Apeadeiro de Paramos, haviam instalado um altifalante voltado para o Quartel que, desde o início da tarde, botava música popular em elevados decibéis, aparentemente arranhados pela areia entranhada nas ranhuras dos discos vinil.
Cerca das 15H00 entrou o Comandante Calejo que deixou indicações para que o Piquete reunisse às 16H00.

A notícia bem correu, mas o pessoal, maioritariamente, não apareceu. Para não fazer estragos, o CMDT deu uma hora ao jovem Oficial de Piquete, para ter a “chance” de mandar regressar ao Quartel os dançarinos que estavam em gostosa actuação.
Mesmo assim, informados da situação, os dançarinos, garbosamente vestidos à sua moda (sapatos e camisa civil e calças e boinas da tropa), agarrados às moças, gozam o Estafeta com divertidas respostas em voz alta:
- Diz ao Aspirante que somos velhinhos. Temos 31 meses e estamos à espera da peluda;
- Explica a esse morcon que a velhice é um posto;
- Que faça queixa ao Comandante;
- Que traga a namorada p’rá gente.

Tocou a Piquete, mas às 17H15, continuavam em falta 3 militares – o trio que continuava inebriado no bailarico de S. João.
Sei que foram castigados e que, perante tal desobediência, seguiram para uma Unidade de Mobilização.

Praia sul, junto à capela

Ao regressar à actualidade/realidade, verifico que, na minha frente, uma jovem trintona, bastante nutrida e de biquíni pouco “suficiente”, se fora sentar em atitude aparentemente provocadora.

De pernas abertas, com as avantajadas mamas quase saídas do biquíni e pousadas sobre a pequena mesa, com os cotovelos a protegê-las, ela, agarrava afincadamente, com as duas mãos, um enorme corneto-gelado castanho, que lambia gulosamente, em posições diversas. Ao mesmo tempo que lhe escorriam pingos do gelado derretido pelo rego das mamas, ela sacudia a madeixa de cabelo que lhe ia entrando pelo canto da boca.
Eu não queria ser influenciado pela “actuação” da rapariga. Porém, pensei:
- Será que o meu Don Quixote, apesar de capado, resistiria a tal espectáculo?

JFSilva da Cart 1689

Praia sul de Paramos

Capela de S. João de Paramos e um pôr-do-sol

Passadiço sobre as dunas de Silvalde, na direcção de Espinho
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Nota do editor

Último poste da série de 3 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18807: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (30): O anjo excomungado

Guiné 61/74 - P18889: A travessia do Rio Corubal em Cheche: inquérito (1): resposta de Domingos Gonçalves (ex-alf mil da CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)



Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada, de reserva, com sobreviventes da tragédia de Cheche, no Rio Corubal, na retirada de Madina do Boé (*)

Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Resposta, de ontem, às 8h55,  do Domingos Gonçalves Gonçalves ao nosso inquérito sobre a travessia do rio Corubal em Cheche.

[Foto à direita: Domingos Gonçalves foi alf mil da CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68): tem cerca de 6 dezenas de referências no nosso blogue]
Bom dia,

A jangada era manobrada por um nativo, que residia no Che-Che. Em 1966 transitávamos com alguma segurança do Gabú, até ao Che-Che.


Não tinham lugar emboscadas, nem havia colocação de minas. Os problemas, graves, começavam depois da travessia do rio.

A jangada daquela época era insegura. O pessoal passava para o outro lado em pequenos grupos.

Recordo-me de pelo menos uma viatura carregada de munições ter caído no rio, com a respectiva carga.

Um abraço


2. Inquérito sobre a travessia do rio Corubal em Cheche:  questões a responder, no todo ou em parte,  por quem lá esteve ou por lá passou até ao trágico dia 6 de fevereiro de 1969 (Op Mabecos Bravios, retirada do aquartelamento de Madina do Boé e do destacamento de Cheche):

(i) quem manobrava a jangada ?

(ii) em princípio havia duas jangadas, sendo uma de reserva ?

(iii) também havia m sintex ou equivalente para ligar as duas margens ?

(iv) qual era a lotação habitual da jangada ? E a máxima ? Dois pelotões, 60 homens ? Menos, talvez 40 ?

(v) no caso das viaturas, a jangada podia transportar quantas e quais de cada vez ? Uma GMC ? Dois Unimog 404 ? Três Unimog 411 (burrinhos) ?

(vi) havia instruções  (explícitas, escritas ou orais) de segurança ?

(vi) no teu tempo, havia uma tabanca, em Che-Che, na margem esquerda (ou margem sul)  ? Eram fulas ? Era grande ou era pequena ? Quantas moranças tinha ? Havia milícias, abrigos, população em autodefesa ?

(vii) de que lado é que podia vir uma emboscada ou flagelação ? Da margem esquerda/sul (tabanca Cheche) ou do lado direita/norte  (destacamento de Checje / estrada de Canjadude) ? Ou de ambos ? 

(viii) alguma vez apanharam com minas anfíbias, minas /AC, minas A/P ou armadilhas, no rio, no ancoradouro, ou nas margens, ou na picada que leva até lá ?

(ix) imagino que os reabastecimentos fossem um inferno, e pior ainda no tempo das chuvas...

 (x)  quem guarnecia o destacamento de Cheche ? Talvez a CCAÇ 5, que estava em Canjadude, "Os Gatos Pretos", uma africana, a que pertenceu o nosso camarada e colaborador permanente, o José Marcelino Martins, fur mil trms ? Ou era outra subunidade ?

(xi) quantos homens tinha o destacamento de Cheche ?  Um pelotão ? Tinha armas pesadas (morteiro 81, metralhadora pesada, canhão s/r...) ?

(xii) quando se vinha do norte (estrada de Gabu e Canjadude) e  se fazia a trasvessia para o outro lado (tabanca de Cheche, destacamento de Béli, quartel de  Madina),  ficava  uma força a fazer a segurança ?... Era só o destacamento de Cheche ?  ou havia reforço da guarnição ?

 (xiii) O cabo que atrvessava o rio,  não era de aço, mas sim de  corda... Certo ? De aço seria pesadíssimo... E estava sempre montado e esticado ?

(xiv) e a jangada tinha motor auxiliar ? A jangada também era puxada a força de braço ? 

(xv) houve, no teu tempo, algum acidente ou incidente com a jangada ? Alguém (ou viatura) caído ao rio ?

(xvi) qual seria a largura e a profundidade do rio em Cheche ? No tempo seco e no tempo das chuvas
? (O desastre do dia 6/2/1969 foi no tempo seco...).

(xvii) Mais algum comentário ou observação:

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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Guiné 61/74 - P18888: Memória dos lugares (377): Fontes de água viva - Fonte Frondosa de Empada (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)

Eduardo Moutinho dos Santos e José Teixeira


1. Em mensagem do dia 25 de Julho de 2018, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 2381, Buba, QueboMampatá e Empada, 1968/70) fala-nos da Fonte Frondosa de Empada:


Fontes de água viva

Fonte Frondosa de Empada

José Teixeira

Naquele tempo, todos nós gostávamos de ir até à Fonte Frondosa em Empada, que por sinal tinha sido construída no ano do meu nascimento. Era lá que as bajudas "lavanderas" lavavam a nossa roupa. Era lá que tomavam banho e quantos de nós, incluído eu tomávamos banho. Outros, apenas se sentavam nas escadas de acesso para apreciar a paisagem e mandar os piropos da ordem.

Ficava bem lá no fundo a uns trezentos metros do aquartelamento.

Fonte Frondosa de Empada

O Chefe de Posto gostava de alimentar o seu ego aplicando castigos aos nativos que por qualquer motivo caíam na malha da sua justiça, obrigando-os a carregar pipos de água meio cheios para regar o jardim da sua casa. Um dia meteu-se com um africano que nos ajudava na enfermaria por um prato de comida, o saudoso Kebá, falecido em 2007, e correu-lhe mal. Ao terceiro dia em falta, na enfermaria, fui procurá-lo e dei com ele a transportar uma barrica de água. Não tinha pago o imposto "pé descalço" e foi a castigo.

Fiquei indignado e agi. Virei a tropa contra o Chefe de Posto e íamos cercar-lhe a casa e libertar o homem quando chegou o Capitão. Apercebeu-se da situação. Acalmou-nos, libertou o homem e escreveu. A Tabanca teve um prémio. O Chefe de Posto foi enviado, sob prisão, para Bissau e o Capitão Moutinho Santos - o da fotografia - foi nomeado Chefe de Posto interinamente. Escusado será dizer que muita coisa mudou quer na relação com as pessoas, quer em melhorias para a Tabanca. Bendita hora em que eu, aquele que não levava arma nas saídas para o mato para não ser tentado a dar fogo, reagi com dureza. Talvez pela primeira e ultima vez, que me recorde.

Voltámos lá com os meus filhos em 2011 em romagem de saudade e acabamos por almoçar em casa de uma antiga "lavandera" que nos preparou um bom frango com arroz à sua moda e comido à mão para honrarmos a tradição.

Note-se que o pobre Kebá tinha ficado sem as suas duas mulheres que foram apanhadas pelo PAIGC com os filhos. Sei que ele ainda as tentou recuperar assentando-se por uns tempos de Empada, para onde tinha fugido, mas não conseguiu, suponho que por elas se terem recusado a voltar com ele. Não aceitou ir para a milícia, segundo ele, para não ter de enfrentar os filhos e as esposas, mas era em excelente enfermeiro que nos ajudava na enfermaria no apoio à população.
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18663: Memória dos lugares (376): Cheche , rio Corubal e Madina do Boé, uma trilogia trágica (Xico Allen / Zélia Neno / Albano Costa)

Guiné 61/74 - P18887: Historiografia da presença portuguesa em África (125): 1917: O BNU na Guiné e as convulsões republicanas (2) (Mário Beja Santos)

Um tocador de tambor

Imagem de 1954, na obra de propaganda “Fotografias Guiné, Início de um Governo”, referente à chegada à Guiné do Governador Mello e Alvim.


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Fevereiro de 2018:

Queridos amigos,
Período de turbulência, o que antecede a entrada de Portugal na I Guerra Mundial, graves conflitos na governação e chega um inspetor vindo de Benguela para apurar das contas da agência em Bolama e dá notícia de como começou a funcionar a recém-criada filial de Bissau, tão desejada pelos comerciantes da localidade. Vale a pena insistir na faculdade que era concedida a estes homens para falarem desassombradamente dos políticos, do funcionamento da praça e dos funcionários do BNU, punham-se descaradamente em bicos de pés face à administração em Lisboa e não poupavam críticas brutais, havendo de quê. O inspetor David desembesta sobre o gerente Moreira e com a maior candura indica para sua substituição Cristóvão Ribeiro, que merece todos os elogios e ainda por cima priva na intimidade com António José de Almeida, o prestigiado líder republicano…
Está tudo dito.

Um abraço do
Mário


1917: O BNU na Guiné e as convulsões republicanas (2)

Beja Santos

Julgo que o leitor beneficiará, para melhor entendimento do que politicamente se passava na Guiné nesta altura, passar os olhos pelo que escreveu Armando Tavares da Silva no seu livro “A Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar, 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016.

O inspetor David, como se escreveu anteriormente, está em Bolama para avaliar a situação e escreve regularmente para a Sede.
Em 9 de junho de 1917 refere-se nos seguintes modos ao gerente Moreira:
“Acompanhado da família, partiu ontem definitivamente para Bissau, a fim de inaugurar a nova agência no próximo dia 14. Fiz-lhe sérias recomendações a respeito da sua norma de proceder no exercício do seu novo cargo, tendo-me prometido que V. Exas. não teriam motivos de queixa a seu respeito. Não confio porém no cumprimento da sua promessa. O conflito, a intriga e a má educação são apanágio do Sr. Moreira. Tive o desgosto de me sentar à sua mesa. Nada lhe fico devendo nem à sua família, a não ser a mais ligeira consideração e estima dispensada ao representante directo de V. Exas.”

Em 10 de julho segue para Lisboa um documento recheado de detalhes, merece a nossa atenção, o gerente Moreira fora repreendido por se meter em política, infringira o regulamento do BNU, escreve-se textualmente:
“Subscreveu em nome do Banco telegramas expedidos ao Senador Gouveia e Ministro das Colónias pedindo a recondução do Coronel Coelho como Governador da Guiné. Só agora tive conhecimento do facto pelos jornais recebidos de Lisboa!
Representa este facto um absoluto desprezo pelas ordens de V. Exas, reincidindo conscientemente em tal falta, não falando do desprimor para comigo, a que aliás o Sr. Moreira e família me habituaram.
O Sr. Moreira que tem grande receio de ver aqui o Governador Sequeira e Secretário do Governo Sebastião Barbosa, que por todas as formas o desconsideraram, não só subscreveu o telegrama como sugeriu a ideia e a patrocinou. Acompanha o mesmo o gerente Carvalho da Casa Salomão, Pereira, Neves & C.ª no acto da expedição.
O telegrama foi expedido um tanto a contento de quase todos os comerciantes de Bissau, porque atrás do pedido de recondução do Governador Coelho sabe-se que este prometeu a transferência da sede do Governo e da capital da Província de Bolama para Bissau! Aqui é que está a gravidade do acto praticado por Moreira, porque os comerciantes e proprietários de Bolama, sabedores do caso, têm manifestado o seu desagrado para com aquele gerente, que, dizem eles, abusando da sua função, pretende arruinar Bolama, intrometendo-se em assuntos que devem ser alheios ao Banco.
Em que situação fica o Sr. Moreira se amanhã regressar ao seu posto o governador efetivo Sequeira, ou outro, que não seja o Coronel Coelho?
Não cessarão as queixas contra aquele senhor, e desta vez bem justificadas. O Sr. Coronel Coelho deseja realmente voltar em Outubro próximo depois de fazer exame e tirocínio para general”.

Coronel Manuel Maria Coelho, Governador Interino da Guiné

E a carta retoma as atuações do gerente Moreira:

“A circunstância do Sr. Moreira ter apresentado bons lucros no ano passado e no corrente foi devido unicamente a três casos absolutamente favoráveis, a saber:
1º - a coadjuvação constante de V. Exas, abrindo amiudados créditos a favor de Salomão, Pereira, Neves e C.ª e outros – todos eles para a compra de géneros em que a agência obtém lucros provenientes de letras;
2º - constante alta na Europa dos preços da mancarra, couros, cera e na borracha desta colónia;
3º - gradual e constante alta de câmbios que nos proporcionaram belos lucros. Estes três factores é que são a causa imediata dos lucros auferidos e não o zelo do gerente, que é bem medíocre.
Falo assim, porque ao fim de três meses tive tempo suficiente para avaliar as qualidades do Sr. Moreira, e direi mais, estou convencido que em toda a parte o Sr. Moreira há-de dar desgostos a V. Exas.
Ele pretende ir para o Brasil por mão do Sr. Cabrita, que mais ou menos se assume em seu protector. Ficam V. Exas. avisados das intenções do Sr. Moreira.”

Seguidamente o inspetor David vai falar de Cristóvão Ribeiro, do gerente Cotter, da sua licença e do coronel Coelho.
Cristóvão Ribeiro é apresentado como um nome bem posicionado para a gerência de Bissau:
“Se V. Exas. tiverem necessidade de gerente para Bissau, visto que o Sr. Moreira pensa em pedir licença daqui a alguns meses, lembrava como muito competente para aquela praça o Sr. Cristóvão Ribeiro que em Benguela exercia o cargo de agente das Companhias da Pesca da Baleia, exportava e comprava géneros à consignação e era vice-cônsul da Noruega. O Sr. Cristóvão Ribeiro dispõe de aptidões para exercer o cargo que indico em Bissau, porque está habituado a lidar com estrangeiros. Conhece bem os negócios de géneros, o que ali é muito preciso, e julgo-o honesto. Com tempo, creio que se interessou por ele o Dr. António José de Almeida. Creio que o Sr. Cristóvão Ribeiro se encontra actualmente em Portugal, mas não sei em que ponto. Se tanto for preciso, eu prontifico-me – como aliás é do meu dever, - a ir a Bissau para elucidar e encaminhar o Sr. Cristóvão Ribeiro durante as primeiras semanas da sua gerência, evitando deste modo que o Sr. Moreira permaneça ao lado do seu sucessor durante dois compridos meses (o intervalo de um suceder ao outro) por ser pernicioso o convívio do futuro novo gerente (aquele ou outro qualquer) com o Sr. Moreira. Este, desde que se visse substituído usaria da maior deslealdade.”

E na carta fala-se do seguinte modo quanto ao gerente Cotter:
“Com prazer comunico a V. Exas. que estou satisfeitíssimo com o procedimento deste novo gerente. Instruído, inteligente, falando e escrevendo o francês e o inglês, compreendendo muito bem os negócios, metódico e trabalhador, dispõe de aptidões que devem fazer dele um bom gerente, até mesmo para dirigir uma dependência de maior responsabilidade. Um verdadeiro contraste com o seu desmazelado antecessor”.

E aborda o assunto da sua licença:
“Usando aqui a licença que V. Exas. dignaram conceder-me, sigo no Vapor Bolama para a Madeira, com transbordo em S. Vicente, onde talvez seja forçado a demorar alguns dias. Quando chegar à Madeira telegrafarei a V. Exas. – pedindo no entretanto que escrevam para aquela ilha ao cuidado do correspondente do Banco ou por posta-restante. Ali permanecerei à inteira disposição de V. Exas.”

Não deixa de alertar Lisboa de que os negócios da agência estão a correr bem e a contento da praça. E quanto ao Governador-Coronel Coelho presta a seguinte informação:
“Acaba de me afirmar o Capitão Monteiro, ajudante do Coronel Coelho, que este, assim que teve conhecimento dos telegramas pedindo a sua recondução telegrafou ao Ministro das Colónias pedindo-lhe para não fazer caso algum do que se solicitava a seu respeito”.

Eu peço ao leitor que não se esqueça que aqui é invocado o nome de um dos políticos republicanos mais conhecidos na época, António José de Almeida, não terá sido um acaso, ligava-se sempre alguém a altos conhecimentos, neste caso Cristóvão Ribeiro, nome tão louvado para vir a ser gerente em Bissau.
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Nota do editor

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