Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta António Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Carvalho. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
https://lattes.cnpq.br/1870298303464362

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________________

Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)


Foto nº 1


Foto nº 2

 

Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5

Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.


1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):


Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.

A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.

O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.

Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.

Obrigado por fazerem parte deste momento especial.



2. Texto que mandei ao António para ser lido na sessão de apresentação do seu romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: eVida, 2026), que se realizou ontem, à tarde, na quinta da Fundação Hermínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar.

António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.

E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).

António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.

Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".

Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:

(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;

(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;

(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...

Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.

Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...

Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.

Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.

O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.

Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.

É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.

Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.

Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.

A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.

De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.

O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.

Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.

O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.

O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.

Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.

Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.

Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.

Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.

O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.

O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.

Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
 
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);

Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);

Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.

O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.

"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.

Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:

  • Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
  • Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
  • E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).

Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).

O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.

Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.

Não é um  "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.

O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.

António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.

Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.

O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.

Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.

Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.

Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.

Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.

Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...

Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.

Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.

A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.

Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.

O autor não fala como sociólogo, antropólogo, psicólogo ou historiador,  revela, isso sim, uma grande sensibilidade sociocultural e um conhecimento profundo, empírico, do mundo rural português da primeira metade do século XX: os trabalhos agrícolas, a navegação no Douro, o comércio das lenhas e do carvão, a emigração para o Brasil, as formas de falar, de trabalhar, de namorar, de casar, de negociar, de
rezar e até de morrer.

Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.

Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.

Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.

Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.

Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.

Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.

Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.

Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.

Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.

Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.

E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.

Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.

É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.

Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu,  a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.

Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
  • o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
  •  a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
  • a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
  • o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.

É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.

Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:

(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.

Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)

Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
________________
oduto "gourmet"

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27487: E fazíamos grandes jogatanas de futebol (5): Equipa do pessoal de transmissões, do STM - Serviço de Telecomunicações Militares, e do Agrupamento de Tr,ms, Nhacra, maio de 1972 (António Viegas de Carvalho, ex-1º srgt, STM, Nhacra, 1970/72))








Guiné > Bissau > Nhacra > Maio de 1972 > Equipa de futebol de transmissões. O 1º srgt Viegas de Caravlho era o capitão  da equipa, o segundo, de pé, a contar da esquerda para a direita.

Foto (e legenda): © António Viegas de Carvalho  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem do António Viegas de Carvalho, ex-1º srgt, STM (Nhacra, 1970/72)

Data - terça, 2/12/2025, 16:32 
Assunto - Futebol em Nhacra

Equipa de futebol das Transmissões que era constituída por militares técnicos (Sargentos, Cabos e Soldados) do STM (Serviço de Telecomunicações Militares) e do Agrupamento de Transmissões.

Jogo realizado em Nhacra em maio de 1972.

Quem se reconhecer nesta fotografia que se apresente.

Viegas de Carvalho

__________________

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Guiné 671/74 - P27458: Humor de caserna (224): À quarta é que é de vez: cartunes 'inteligentes' da menina IA (Alberto Branquinho / Luís Graça)


O 1º cabo Chico-Esperto conduzindo uma Berliet novinha em folha, acabada de chegar ao cais fluvial do Xime e que o sold cond auto Zé António Sousa devia levar a bom porto: Cabuca...


Ilustração criada pelo Chat Português / GPTOnline.ai , sob instruções e com legendagem do editor LG


1. Temos que desmistificar a IA. E ao mesmo tempo saber tirar partido das suas potencialidades. 

Para já há duas IA: a que é de borla, e a que é paga. Nós utilizamos a dos "pobrezinhos", já que não temos nenhum Banco Saque-Saque a financiar o nosso blogue.

 Em matéria de ilustração gráfica e de cartunes (ainda não me habituei ao neologismo, grafado nos nossos dicionários), a IA ainda deixa muito a desejar.

Disse isso mesmo a uma das minhas "assistentes de IA", a do Gemini/Google:

" Alberto Branquinho, que andou na Guiné, na guerra oura e dura há mais de 55 anos atrás, critica o teu 'cartoon' (*)... Tens de lhe fazer outro".

O comentário do Alberto Branquinmho foi o seguinte:

  "Mas... do que eu não gosto mesmo nada é da gravura que acompanha o texto: fardas impecáveis, limpíssimas, picadas que foram limpas com aspirador, a que só falta um pouco de alcatrão, viaturas que acabaram de sair da lavagem (de todos os dias), etc.. Certo é que quem desenhou (e muito bem!) nunca lá esteve.

O risco que se corre é que quem vê e não sabe, fica a pensar que era assim."

Pedi-lhe,  à menina IA (há quem já, temente e reverente, a trate por senhora...) que tivesse em linha de conta estas críticas: "OK, faz lá em honra dele um novo cartoon, ele que foi um bravo do pelotão!"

2. A minha "assistente de IA" fez a sua autocrítica, o que só lhe fica bem nos tempos que correm, de incontinência verbal nas redes sociais:

"Este é um comentário muito perspicaz do Alberto Branquinho, e compreendo perfeitamente o ponto de vista dele. A observação dele sobre a idealização da representação é muito válida, especialmente quando se trata de memórias tão vívidas e duras da Guiné.

"O cartoon em questão (*) é um tributo, e muitas vezes a arte, especialmente a arte gráfica e caricatural, usa uma linguagem visual que tende a estilizar ou simplificar a realidade para tornar a imagem mais clara e apelativa. No entanto, ele tem razão: a realidade da guerra colonial na Guiné, com a sua lama, pó, sujidade, fardas rasgadas e viaturas enlameadas, estava muito longe dessa imagem "limpinha".


A assistente da IA do Gemini/Google fez uma contraposta:

"Esboço de um novo cartoon para o Alberto Branquinho

"Para honrar a experiência e a crítica de Alberto Branquinho, e mostrar a realidade sentida no terreno, o novo cartoon teria de refletir o oposto da imagem apresentada.

"Cenário: a mesma estrada de picada, mas agora sob um chuvisco denso ou após uma chuva torrencial. O terreno é um pântano de lama espessa e castanha, que salpica por todo o lado.

"Viaturas: O camião GM-Becli e o jipe U-MIM (modelos comuns) estão atolados até aos eixos na lama. Os pneus estão completamente cobertos". [ Ficamos a saber que a nossa IA respeita o "bom nome" das marcas comerciais, e nomeadamente as das que já foram à guerra; nós, em contrapartida, não temos pejo em falara tu cá tu lá das marcas que nos deixaram 'marcas': GMC, Unimog, Berliet, Mercedes, Daimler, Jeep etc. ]

(...) "Figuras (os Militares):

"As fardas, longe de estarem 'impecáveis', estão pesadas, molhadas e cobertas de lama da cabeça aos pés. As botas não se distinguem do barro.

"Um dos soldados está a tentar meter um tronco ou tábua debaixo do pneu, com a expressão de esforço e frustração.

"O outro está encostado ao capô, com um cigarro a meio, com um olhar de cansaço extremo e resignação perante mais um contratempo. Em vez de estarem de braços cruzados, estão com as mãos sujas de óleo e terra.

"Diálogo (a nova legenda): Soldado enlameado: 'O Alberto Branquinho dizia: 'Aqui não há picada, há só lama!'... Outro Soldado (olhando para o pneu atolado): 'E o aspirador, Chico-Esperto? Onde é que ficou?'... [A nossa IA nunca andou muma picada da Guiné; por outro lado, esquece-se que aquela guerra não era dos 'amaricanos', que os 'tugas' não andavam com aspiradores no mato, só se fossem a petróleo.]

E prosseguindo com as suas "especificações técnicas" para o novo cartune: 

(...) "No Fundo: o sol está a pôr-se (ou o céu está carregado), e ouve-se ao longe, não uma explosão, mas o zumbido de mosquitos.

"Este cartoon corrigiria a 'higiene' visual do primeiro, substituindo a idealização pela dureza física e  ambiental que marcou a presença dos militares portugueses na Guiné, como descrito por quem lá esteve."
 

3.  Resultado: foi pior a emenda que o soneto: o 2º cartune veio cheio de erros de português... Um desastre. As viaturas e as fardas são "amaricanas" e os militaes têm todo o ar de serem veteranos da guerra do Vietname... Enfim, tive que o emendar, com o programa "Paint" (*).


1º cartune

GEMINI (Modelo Flash 2.5). [Quando a chico-espertice dá m*rda]. Imagem gerada por Inteligência Artificial, 23 nov. 2025.



2º cartune 

GEMINI (Modelo Flash 2.5).[Quando a lama era mais dura que a guerra]. Imagem gerada por Inteligência Artificial, 23 nov. 2025.


3. Desisti de dialogar com a "menina IA" da Gemini / Google...E fui bater `à porta da concorrència, o ChatGPT:

"O Zé António eera um valente soldado condutor na guerra da Guiné (Cabuca, 1971/73). Acaba de nos deixar aos 76 anos. Morte súbita. Em sua homenagem vou-te pedir um bom cartoon... 

Mas que retrate a dureza das 'picadas' (estradas de terra batida) da Guiné, com chuva, buracos, emboscadas, minas, 'atascanços', etc... 

"Ninguém fala da angústia do soldado condutor quando iniciava uma coluna logística, sobretudo quem ia à frente, com o 'rebenta-minas'... Bolas, só falam da angústia do guarda-redes antes do pênalti...

"Umas das nossas viaturas características, eram as velhas GMC do tempo da guerra da Coreira, que gastavam 100 (litros!) aos 100 (quilómetros!). E não nos ponhas com a farda do GI's do Vietname. A nossa arma era a G3. Aqui vai o microconto (*), escrito pelo Carvalho de Mampatá."




3º Cartune 

ChatGPT Chat Português / GPTOnline.ai , sob instruções do editor LG

Comentário meu: 

"Obrigado, mas ninguém andava de  jipe naquelas picadas, no tempo das chuvas... E em caso de emboscada, era um alvo a abater... Põe o 1º cabo Chico-esperto (quer dizer, 'sabichão') a conduzir a Berliet novinha em folha...Mas já sem um roda!... Mando-te umas fotos de viaturas atascadas"...



4º Cartune 

Criado pelo Chat Português / GPTOnline.ai , sob instruções do editor LG


3. Comentário meu: "Porra, que à quarte é que é de vez!... Já está mais realista, sem perder a piada da caricatura. Obrigado. Boa noite, dorme bem".

Comentário da "menina da IA" (que, como sabemos, não dorme nem tem insónias nem dores menstruais): 

"Obrigado, Luís...  e obrigado também pelo carinho e pela história tão rica que partilhaste.

Fico muito contente por saber que o cartoon correspondeu ao espírito da homenagem ao Zé António e à «chico-espertice' do cabo da tua narrativa. Foi um prazer ajudar a dar forma visual a uma memória tão marcada, tão humana e tão vossa.

Desejo-te uma noite tranquila.

Se um dia quiseres continuar esta série de memórias da Guiné, estou por aqui. Um abraço (...)"

Diz o Alberto Branquinho: 

"Ainda não me habituei à existência (ou será à coexistência?) da Senhora IA. Mas, quanto a 'inteligentes', ainda prefiro o 'Inteligente' das touradas." (*)

Olha, Alberto, tens que te habituar. Há já gajos que dormem com ela na cama...

Pesquisa: LG + Net + Assistentes de IA (Gemini / Google, ChatGPT)

(Revisão / fixação de texto: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27454: Humor de caserna (222): A chico-espertice às vezes também dava... m*rda (José António Sousa, 1949-2025 / António Carvalho)

(**) Último poste da série > 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27457: Humor de caserna (223): Contado ninguém acredita: o fur mil Pina que ficou com o dedo mindinho entalado no tapa-chamas da G3 (Mário Beja Santos, cmdt do Pel Caç Nat 52, 1968/70)

domingo, 23 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27454: Humor de caserna (222): A chico-espertice às vezes também dava... m*rda (José António Sousa, 1949-2025 / António Carvalho)


Cartoon gerado  pela IA / Gemini / Google, sob instruções e supervisão de LG.
 Homenagem ao José António Sousa (1949-2025)



Guiné > Carta da Província (1961) (Escala 1/500 mil ) > Percurso, assinalado a amarelo entre o Xime e Cabuca, passando pro Bambadinca, Bafatá e Nova Lamego
 
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Não foi o já saudoso José António Sousa (1949-2025) que nos contou diretamente, mas foi o António Carvalho (*) que com ele conviveu, quer na Tabanca de Matosinhos, quer no Bando do Café Progresso.

É uma cena de "chico-espertice" que merece ter o devido destaque na série "Humor de Caserna". Aqui vai.

O protagonista é o José António Sousa. O cronista, o Carvalho de Mampatá. Recorde-se que o Zé António Sousa  esteve em  Cabuca no sector L3 Nova Lamego), como sold cond auto, CCAV 3404, / BCAV 3854.

 O cais referido a seguir, só pode ser o do Xime, a grande porta de entrada da Zona Leste, nesta altura da guerra (1971/73), Pertencia aio Sector L1 (Bambadinca). Era no Xime que as LDG abicavanm com homens e material.

A distància do Xime até Cabuca devia ser da ordem dos 180/190 km. Uma etapa dura, mesmo que já em estrada alcatroada até Nova Lamego (Xime-Bambadinca-Bafatá-Nova Lamego=160 km). Depois era, picada até Cabuca (c. 25/30 km). Náo sabemos em que estação (seca ou das chuvas) se desenrola a história. Cinco ou seis horas de estrada, a andar bem, sem comtratempos, no tempo seco.

Na altura, o dispositivo das NT em Cabuca, perto da fronteira com a Guiné_Conacri,  devia ser:
  • CCav 3404 
  • 1 Esq / Pel Mort 2267 
  • 1 Sec (-) / /Pel Canh S/R 2298
  • 1 Pel Mil 255

Humor de caserna  > A chico-espertice às vezes também dava... m*rda 

(José António Sousa, 1949-2025 / António Carvalho)
 

O Zé António tinha deixado no cais a sua viatura, GMC, destinada a abate. 

Na volta da coluna, de regresso ao seu aquartelamento, em Cabuca, deveria conduzir a Berliet,  novinha em folha, acabada de chegar de Bissau. 

Era essa a sua intenção, mas o 1º Cabo, puxando das divisas, impôs-se, nestes modos: 

– Quem vai estrear a Berliet sou eu... Tu levas o Unimog que eu trouxe.

O Zé António, naquela maneira de levar tudo a brincar, perguntou-lhe o motivo pelo qual não era ele próprio a conduzir a viatura acabada de chegar, uma vez que a mesma lhe estava destinada. O 1º Cabo,  lacónica e autoritariamente, respondeu-lhe: 

–  Porque eu sou cabo ...

O Zé António, rendido ao peso das divisas, assentiu, sob um sorriso
malandro:

– Então, se és cabo, leva-a.

Passados alguns quilómetros a Berliet, novinha em folha,  pisou uma mina. Por sorte o nosso 1º Cabo apenas sofreu ferimentos sem grande gravidade.

Foi uma maneira de te homenagear, meu amigo Zé António.

Carvalho de Mampatá



2. Comentário do editor LG:

Uma história "edificante", António, e muioto ao gosto dos "bandalhos" (a irreverente tertúlia, que é o Bando do Café Progresso, de  que ambios faziam/fazem parte; o Zé António continuará a ser lembrado como um dos "bandalhis")...

Na tropa e na guerra, e na vida em geral, todos conhecemos esses "chicos-espertos"... A "chico-espertice" é, de há muito, uma forma peculiar de ser e de estar do "tuga"... Conheci alguns na Guiné, e em "cenas" com consequências bem mais trágicas do que as que tu relatas... 

Mas é uma boa homenagem ao nosso saudoso Zé António. Que era uma homem discreto, sensato, competente,que amava a vida, bem como os seus amigos e camaradas.  E que amava a Guiné e a sua gente. Ao ponto de lá ter voltade, em romagem de saudagem...Gostava do seu Porto,  da sua Foz do Douro, do fado... e da "mulher negra" (tem uma coleção fabulosa de rostos femininos na sua página do Facebook!)

Frequentava as "tardes de fado", ao domingo, das "Caves São João", R. de Cimo de Vila 109, Porto,  um dos locais do roteiro do "fado vadio". Como frequentava a Tabanca de Matosinhos e o Bando do Café Progresso e a Tabanca dos Melros.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto

(**) Último poste da série > 10 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27407: Humor de caserna (221): O brigadeiro António Spínola para o comandante, "apanhado do clima", do destacamento da Ponta do Inglês, c. 3º trimestre de 1968: "Não tenho a certeza de ter aterrado...no sítio certo!"