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domingo, 31 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28062: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (5): Lagos, entre o Infante Dom Henrique e el-rei dom Sebstião, entre o "ice-cream" e a "bica escaldada"









Algarve > Barlavento > Lagos > 27 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Sem título. Ilustração: Luís Graça (1999)


1. Estou em Lagos, Barlavento, Algarve. Já não vinha aqui desde 1981. E mesmo quando estive em Tavira (em 1968), nunca aqui vim. Tenho, de um lado, a estátua de El Rei Dom Sebastião, datada de 1973, da autoria do João Cutileiro (1937-2021), e acho-a uma obra-prima da arte portuguesa do séc. XX; e por outro, a escassas centenas de metros, a estátua do Infante Dom Henrique, de estética "estado-novista", inaugurada em 1960 (é do escultor Leopoldo de Almeida, 1898-1975).

Lagos, apesar de tudo (do cilindro compressor do turismo e do camartelo camarário) ainda conserva um secreto encanto. E é um repositório da nossa memória.

Foi uma das nossas portas para o mundo, mas também uma das rotas da escravatura...Tal como o Cacheu, na Guiné. Visitei o museu. Como antigo combatente da guerra colonial, tive acesso de borla... Mas fico sempre "deprimido", ao puxar do cartão e ao lembrar-me que também faço parte desta história, desse "filme de longa metragem"..., a história, o filme do fim de um ciclo de 600 anos.

Estou num lugar que é, ao mesmo tempo, um bilhete-postal ilustrado do meu país e um palco de memórias incómodas.

 Lagos, com a sua luz branca que cega, o seu mar azul, a sua praça coberta de jacarandás em flor, as torres brancas das suas igrejas, o casario e os restos das suas muralhas. Mas Lagos é também um espelho das sombras, pesadelos, perplexidades, misérias e grandezas da História do meu país.

Por um lado, o Infante que abriu a primeira "autoestrada da globalização" e com ela o conhecimento, a unificação dos mares, continentes e povos, o comércio, mas também as portas ao tráfico de seres humanos (e que ficou com o seu "quinhão", do primeiro carregamento de 235 escravos, aqui aportados, em agosto de 1443, a pretexto de lhes querer "salvar as almas"!). E, por outro, o rei, imberbe, "rambo", que se perdeu em Alcácer Quibir (e que nos perdeu).

E em plano de fundo, a guerra colonial que me marcou a mim e a tantos outros rapazes da minha geração, como um sacrifício estúpido, gratuito e inútil. 

 Pergunto-me todos os dias: para que é que morreram dez mil dos nossos na Guiné, Angola e Moçambique ? E as dezenas de milhares, do MPLA, da UPA, da FNLA, da UNITA, do PAIGC, da FRELIMO, que matámos ? E as centenas de milhares de angolanos, guineenses, moçambicanos e timorenses que se mataram uns aos outros, em guerras fratricidas no pós-independência ?

Conheço o peso da história do meu país na pele (e não só nos livros, é no corpo, é na alma). Não é só a estátua do D. Sebastião ou a do Infante que me incomodam, é o que elas representam. 

Afinal, a história não é só "feia" no património edificado (temos, de resto tantos "mamarrachos" por esse país fora, em granito, em mármore, em bronze)... É "feia" naquilo que ela faz connosco, naquilo que nos obriga a carregar, nas nossas memórias.

A história não é o "passado", é um fio que se estende até hoje e se prolonga no futuro: nas desigualdades, nas cicatrizes da guerra, nas narrativas desencontradas, no turismo que devora a alma dos homens e a identidade dos lugares, na "gentrificação" da nossa terra.

Apesar de tudo, encontro beleza na arte de um Cutileiro (que, ironicamente, imortalizou um rei que eu sempre detestei). E manifestei o meu apreço ao município de Lagos por ter sabido preservar o antigo mercado de escravos. Pelo menos o "casco velho" de Lagos, não foi totalmente devorado pelo desastre  urbanístico,  a ganância imobiliária e o capitalismo selvagem.

A estátua do Infante D. Henrique é pesada, afirmativa, hierática. O corpo compacto, o gesto imóvel, a monumentalidade austera: tudo nela fala a linguagem estética do Estado Novo. Não é apenas uma representação histórica; é um "programa ideológico em bronze". 

Inaugurada na efeméride dos 500 anos da morte do Infante Dom Henrique (1460-1960), ela diz muito (até pelo que omite) sobre o navegador visionário, a "escola de Sagres", o império, a "missão civilizadora", o “destino atlântico”, a honra e a glória dos grandes feitos marítimos, bla- lá.... 

Mas, talvez até mais,  ela fala de um regime que se "apoderou despudoradamente" dos nossos heróis, dos nossos maiores... 

De qualquer modo, precisamos de mitos fundadores. Todos os povos precisam de (e cultivam) os mitos-fundadores.

E o facto de eu (e o meu amigo Jaime Silva, antigo paraquedista que fez a guerra de Angola) ter entrado de borla no museu, como antigo combatente, também tem algo de simbólico: estou aqui, de algum modo, a reclamar o meu discreto  lugar na narrativa sobre o making of" do império, e a exigir que a memória não seja apagada.

Faço parte desta história, não como herói, nem como vítima passiva, mas como simples peão,   como alguém que ainda cá está, aos 79 anos, um "marginal-secante" que também reivindica o direito de não deixar que a estátua de um rei ou de um infante apaguem as vozes dos que "ficaram para trás" (navegadores, soldados, marinheiros, fidalgos, mercadores, missionários, mas também pessoas escravizadas, e nomeadamente negros de África). 

Recuso-me a glorificar o passado sem o olhar de frente, não quero fazer tábua rasa nem das nossas misérias nem das nossas grandezas. Que as temos, como qualquer outro povo.

O que fazer com a minha raiva e minha melancolia, perdido em Lagos, numa multidão de turistas que come "ice-cream" e que está aqui, uns dias, no Algarve português para carregar as "baterias da felicidade" ?

Depois da difícil tarefa que é sempre estacionar o carro nestes lugares (coitado do Jaime!), caminho de  canadianas, até à Praça Gil Eanes e encontro o "meu velho conhecido" D. Sebastião, do João Cutileiro.

Fotografo a estátua: aqui já não há pose imperial. Nem bronze triunfante. Nem honra nem oria, Nem rumo nem destino. Há apenas a  beleza e a fragilidade do mármore. Há alienação. Há um fantasma. O nosso fantasma nacional (depois do Velho do Restelo). 

O rei, despojado da parafernália guerreira, o helmo inútil  a seus pés, perdido no deserto, num campo de batalha, a batalha dos três reis, mas que ainda há de voltar numa manhã de nevoeiro. A Lagos, donde partiu. 

O contraste não podia ser mais brutal: o Infante, empoderado, altivo,  é a narrativa da ascensão; D. Sebastião, a nossa má consciência da queda, do desastre, da culpa, da impotência.

O Infante foi uma figura da nossa História que sempre me acompanhou desde os bancos da escola até à Guiné: repetida "ad nauseam". O Infante tornou-se uma liturgia cívica do Estado-Novo. Dom Sebastião era enxotado para o sótão dos nossos pesadelos, o que deixou a porta escancarada á dinastia dos Filipes de Espanha.

O Infante Dom Fernando e el-rei Dom Sebastião: o alfa e o ómega, o primeiro e o último atos da nossa tragicomédia. (Toda a História dos homens tem tragédia e comédia; a nossa também tem.)

Preciso de um café. Entro numa gelataria. Leio na parede, em letras garrafais: “You can't buy happiness, but you can buy ice cream, and that's kind of the same thing.” (em português: “Não podes comprar a felicidade, mas podes comprar um gelado, o que é quase a mesma coisa")...

Reconheço a frase popularucha, 'kitch', desde "Berlim Leste", é uma variante do provérbio que os ricos gostam de repetir, caritativamente, aos pobres: "Meus filhos, o dinheiro não compra a felicidade"... Uma outra variante decorava o meu quarto de hotel de 3 estrelas, quando lá voltei em março de 2015, a Berlim, na parte leste onde viviam os alemães de 2a.

Não gosto de gelados. Mas a bica veio fria (e eu pedira-a escaldada), ao fim de meia-hora. Há três bichas: a da esplanada, a dos gelados e a das "bicas" (para os clientes da terra, lacrobrigenses, cada vez mais raros, e os turistas nacionais como eu). 

O empregado de mesa, "indostânico" (?), não sabe o que é uma "bica escaldada", e sua, isso, sim, em bica, com tanta azáfama e calor matinal. Não tem quatro braços, como as poderosas deusas da sua terra.

O Largo do Infante fica junto do antigo mercado de escravos, um dos primeiros espaços de comércio esclavagista da Europa moderna.  O Museu de Lagos  é de visita obrigatória. Não existia em 1981.

 A História raramente é limpa quando regressamos aos lugares décadas depois. Os sítios acumulam não só pó, mas também memória pessoal, enviesamento, propaganda, ruído, silêncio, culpa, nostalgia, perda. 

E às vezes o que sangra não é exatamente a História nacional, é a (re)descoberta da distância entre aquilo em que nos ensinaram na escolinha, quando éramos "meninos e moços" e  aquilo que hoje vemos (ou que nos deixam ver).

Voltar 45 anos depois a Lagos  é  como encontrar uma versão antiga de mim  próprio, a caminhar penosamente pelas ruas empedradas. As estátuas já lá estavam, em 1981,  a do Infante nem sequer dei conta. As estátuas permanecem, mas quem as olha já não é o mesmo. Eu já não sou o mesmo. 

Desta vez, nem sequer consegui comer um xarém de conquilhas. Nem carapaus alimados. Nem um arroz de lingueirão. E as ameijoas boas da Ria Formosa estavam pela hora da morte: não tive coragem de as comprar, no mercado municipal de Portimão, a 38 euros o quilo. 

Há um Algarve de 1968 (quando fiz tropa em Tavira) que já não existe. Tal como a Lagos de 1981. Tal como o meu país e o mundo, que  já não são os mesmos de quando nasci, em 1947. 

Acho que devia ter pedido um "ice-cream" em vez da "bica escaldada".




Lagos, 1981 > Junto à estátua do rei Dom Sebastião, de José Cutileiro (1973): da esquerda para a direita, Gusto (meu cunhado), Filipe (meu sobrinho), Cristina (sobrinha da Nita e da Alice), Nita (1947-2023), Joana (minha filha), Chita (Alice, minha mulher),  Béu (minha mana mais nova)… (Ainda estavam para nascer o João, meu filho, e o Tiago, meu sobrinho, hoje ambos médicos). Dizem que a estátua nunca foi oficialmente inaugurada. De visita a Lagos, em 1973, o último presidente da República do Estado Novo, fez questão de a ignorar completamente.

Foto (e legenda): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26913: Efemérides (459): Discurso de Lídia Jorge, Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho de 2025, em Lagos

Lídia Jorge, Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho de 2025, em Lagos

Discurso de Lídia Jorge no Dia 10 de Junho em Lagos:

«Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D.Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui,no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que, em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.»

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Nota do editor

Último post da série de 10 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26903: Efemérides (458): foi há 52 anos, o 10 de junho de 1973, Dia de Portugal, o último sob o regime do Estado Novo ("Diário de Lisboa", 11 de junho de 1973)