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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28238: Fauna e flora (31): da enorme biodiversidade à riqueza lexical e linguística da nossa... "Guinesinha" (que é, de facto, uma "África em miniatura"): dari, muntu, tucurtacar, bufre, jagudi ou cacur, sancu, macaco-cão, alma de biafada, peixe-mulher...

Elefante: o nome científico é Loxodonta cyclotis (Matsch). Os fulas chamam-lhe Nhiuá; para o futa.fula é Maubá; em madinga diz-se Samom; em manjaco, Olom; em papel, Oinga; e em saracolé, Turé. 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP ,https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs  a vista em cima de um  elefante, solitário ou em manada,  durante a guerra... A não ser o "básico de Bambadinca" que, contava-se, um dia, quando estava de sentinela, acordou todo o quartel e as tabancas à volta, aos tiros de G3 em posição de rajada...

Interpelado pelo graduado que fazia a ronda, jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...  

Há uma réstea de esperança de que o elefante não tenha desaparecido de todo no sudeste da Guiné: nos últimos anos tem sido muito esporadicamente avistado e até fotografado no corredor transfronteiriço constituído pelo  Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (Vd. infografia acima reproduzida).  

Em 1955 estava protegido por lei.   Mas a caça furtiva, o tráfico de marfim (que não foi proibido), a(s) guerra(s), e o abate das árvores de grande porte, a par da explosão demográfica humana (a Guiné passou de meio milhão para mais de 2 milhões de habitantes em menos de meio século) são alguns dos factores apontados pelo IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, da Guiné-Bissau) para o desaparecimento progressivo (e se calhar irreversível) desta espécie animal absolutamente emblemática de toda a África. 

O mesmo aconteceu, desgraçadamente,  em Angola e em Moçambique, palcos de violentos conflitos armados, países nascidos de partos com muito sangue, suor e lagrimas...  

A boa notícia é que o número de elefantes duplicou desde 2018 em Moçambique, passando agora para 22,7 mil indivíduos,

Angola terá passado de mais de 70 mil elefantes em meados dos anos 50 para 3,4 mil no princípio do sec. XXI. Uma hecatombe.





1.   Ainda sobre o Decreto n.º 40040, de 20 de janeiro de 1955, emitido pelo Ministério do Ultramar e assinado pelo ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues (*): é de facto um marco fundador na história do direito ambiental e da conservação da natureza na administração colonial portuguesa. É um extenso e detalhado diploma com preâmbulo e 134 artigos, divididos por 6 capítulos e com 2 anexos.

Preâmbulo 
I (Disposições gerais) (art 1º - art 2º) 
II (Dos órgãos superiores de proteção da natureza) (art 3º - art 9º)
III (Da proteção do solo) (art 10º - art 29º)
IV (Da proteçáo da flora) (art 30º - art 41º)
V  (Da proteção da fauna) (art 42º - art 132º) 
VI (Disposições finais) (art 133º - art 134º)
Anexos I e II


(i) Contexto histórico e internacional
 
Já falámos, no poste anterior (*), da necessidade que o Estado Portuguès sentiu, na década de 1950, de fazer o "upgrade"  da sua legislação  em matéria de "conservação da natureza" nos  territórios ultramarinos, incluindo a regulamentação da caça e da pesca. 

O diploma, que merece uma análise  mais detalhada, resulta de uma visão integrada da "proteçáo da natureza" (solo, flora e fauna). Tem, naturalmente, pontos fortes e fracos, que serão analisados em próximo poste.

Era então ministro do ultramar (1950/55) um dos  mais conceituados políticos do Estado Novo, o oficial superor Sarmento Rodrigues (promovido a capitão-de-mar-e.guerra em 1953), depois de ter sido Governador da Guiné (1945-49).

Sarmento Rodrigues trouxe uma visão pragmática baseada na sua experiência de terreno. O seu mandato será marcado por um discurso de "desenvolvimento"  e "modernização" das colónias (rebatizadas em 1951 como "províncias ultramarinas"), onde a conservação da natureza era vista como parte de um projeto civilizacional (e não apenas ecológico).

O diploma integra orientações e recomendações da Convenção de Londres de 1933, ratificada por Portugal em 1948, bem como da Conferência de Bukavu (outubro de 1953 (pontos 6 e 7 do preâmbulo do Decreto nº 40 040).

O primeiro regulamento de caça da Guiné é só de 1948, mas já tem tinha em linha de conta o espírito e a letra da Convenção de Londres. As últimas atualizações da regulamentação da caça em  Moçambique e Angola remontavam a 1941 e 1942, respetivamente. A de Cabo Verde era de 1928 e a de Timor  1935.

Para a contextualização do diploma, é importante saber que a Convenção de Londres (1933) veio estabelece classes de proteção para espécies (A, B, C), que o decreto adotou no Anexo I. Por exemplo:
  • Classe A (+): Espécies com proteção total (ex.: gorila, elefante de floresta, rinoceronte branco).
  • Classe B (×): Espécies com restrições (ex.: chimpanzé, elefante de savana com presas < 5 kg).
  • Classe C ("): Espécies com proteção parcial (ex.: pangolim, urso-formigueiro).
Por sua vez, a Conferência de Bukavu (1953) (Conferência Interafricana sobre Fauna e Flora, em que participaram a Bélgica, país anfitrião, a França,  Portugal e o Reino Unido) introduziu recomendações adicionais para a conservação, que o decreto incorpora, como a criação de zonas de proteção (parques nacionais, reservas integrais) e a regulamentação da caça utilitária. (Bukavu é una localidade da  na atual República Democrática do Congo, na altura, colónia do Congo Belga).

(ii)  Análise da Lista de Espécies Protegidas na Guiné (Anexo I)

O Anexo I estabelece a lista de animais cuja caça passava a ser estritamente proibida (frequentemente correspondendo às classes de proteção da Convenção de Londres, de 1933).

Na lista que reproduzimos no poste anterior, e no que diz respeito apenas à Guiné,  havia  valiosos pormenores taxonómicos, vernáculos e ecológicos, que merecem ser recordados ou conhecidos Para os mais interessados, e eventual pesquisa de informação adicional, aqui ficam os nomes vernáculos e científicos das espécies dos mamíferos e aves protegidas em 1955. (Poderão observá-los, numa próxima ida ao Jardim Zoológico, com os netos.)
 
  • Pangolim / Papa-formigas de escama (Smutsia, Phataginus, Uromanis)
  • Urso formigueiro / Porco formigueiro (Orycteropus afer)
  • Chimpanzé (Pan troglodytes)
  • Macaco bijagó / Macaco de nariz branco (Cercopithecus nictitans)
  • Macaco fidalgo (Colobus polycomos polycomos)
  • Gato almiscarado / Civeta (Civettictis civetta)
  • Leopardo ou onça (Felis pardus)
  • Elefante de floresta (Loxodonta cyclotis)
  • Manatim ou peixe-mulher / peixe-boi (Trichechus senegalensis)
  • Cabra grande / Muntual (Cephalophus silvicultor)
  • Elande gigante (Taurotragus derbianus)
  • Oribi / Gazela da pedra (Ourebia ourebi quadriscopa)
  • Palanca vermelha / Boca branca / Matagaiça (Hippotragus equinus)
  • Sitatonga / Inhala das lagoas (Limnotragus spekii selousi)
  • Tancon (Alcelaphus buselaphus major) ou alcefe da África Ocidental)
  • Abutres / Jagudis (Gyps, Pseudogyps, Trigonoceps, Neophron, Necrosyrtes)
  • Andorinhas (Hirundo, Petrochelidon, etc.)
  • Calaus / Alma de biafada / Peru do mato (Bucorvus abyssinicus)
  • Cegonhas (Ciconia)
  • Estorninhos (Cinnyricinclus, Lamprocolius, Lamprotornis, etc.)
  • Galinha azul / Galinha de poupa (Guttera edouardi pallasi)
  • Garças brancas / Carraceiras (Bubulcus ibis, Casmerodius, etc.)
  • Marabu (Leptoptilos crumeniferus)
  • Papagaio cinzento (Psittacus erithacus timneh), endémico/característico do arquipélago dos Bijagós
  • Pavão gigante (Corythaeola cristata),  o Turaco-gigante)
  • Pratíncolas / Aves das locustas (Glareola, Galachrysia)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Desenhados nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento em Iemberém

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 >  Alguns dos animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Fotos de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guile modje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(iii) Observações Histórico-Ecológicas

Nomenclatura vernácula local:  a Guiné-Bissau, apesar de muitos erros do passado e do presente, ainda é uma "Africa em miniatura": a sua riqueza, nomeadamente faunística, vai a par da riqueza lexical e linguística, resultante da existência do português, do crioulo e de dezenas de línguas locais... Tome-se como exemplo o búfalo, que eu nunca vi na natureza (e também nunca fui caçador):
  • nome científico: Syncerus manus planiceros (Bly); 
  • em crioulo, Bufre;  
  • em balanta, Impungde; 
  • em fula, Edá; 
  • e Siô, em mandinga.
O documento acima citada (Decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955)  é muito rico ao registar nomes tradicionais e crioulos da Guiné. Termos que refletem a assimilação e catalogação da fauna pela administração com recurso aos conhecimentos locais. Alguns destes termos, em crioulo, já nos eram familiares na Guiné, com o coloquial "sancu" (macaco):
  • "Jagudi" para abutre (em crioulo, cacur);
  • "Alma de biafada" para calau;
  • "Boca branca" ou "Matagaiça" para a palanca vermelha;
  • "Muntual" ou "Muntu" para a cabra grande;
  • "Fatango" e "Macaco fidalgo" para os colobos;
  • "Onça" para o leopardo;
  • "Peixe.mulher" para o manatim;
  • "Tucurtacar" para o pangolim;
  • "Lobo" para a hiena (nos contos tradicionais guineenses);
  • "Dari" para chimpanzé; 
  • "Sancu" (macaco, em geral; babuino ou "macaco-cão", em especialidade), etc.
Biogeografia  do território: a  inclusão de mamíferos como o manatim (comum nos ecossistemas estuarinos e no arquipélago dos Bijagós), do chimpanzé (florestas do sul) e do elande gigante e tancon (savanas do interior/Leste) demonstra uma visão abrangente da diversidade de biomas guineenses (desde os mangais e florestas costeiras às savanas do interior).

Impacto do regime de caça utilitária e aborígene: o diploma distingue expressamente os direitos de caça dos indígenas (usando "armas gentílicas" para subsistência em terrenos abertos) da caça recreativa ou utilitária praticada por colonos ou turistas mediante licenças pagas.

Legado na conservação: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a criação da rede de parques nacionais e naturais da Guiné-Bissau, no pós-.independência. 

Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini / Google)
(Condenação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28235: Fauna e flora (30): O decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar, não é apenas um regulamento "colonialista" da caça, mas sim um diploma pioneiro (e premonitório) sem o qual os guineenses não teriam hoje Parques Nacionais como os do Cantanhez, João Vieira e Poilão (marinho), Ilhas de Orango, ou os parques naturais como os dos Tarrafes do Rio Cacheu ou das Lagoas de Cufada , ou o Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (corredor transfronteiriço)

 

Angola > c. anos 30 > "A Exma. Esposa  do Coronel Félix montada num búfalo-pacaça, que, minutos antes, ela própria abatera a tiro de rifle"  (Joaquim António da Silva Félix era ofcial do exército, coronel, industrial, agricultor e publicista, dono da fazenda Glória, colaborador do Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, que congregava parte da "intelligentsia" do colonialismo republicano, radicada no Brasil)

Fonte: Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, nº 8, janeiro e março de 1934, pág. 35.

 


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Primatas do Cantanhez: o "fatango" (macaco-fidalgo)... Desenhado nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento, em Iemberém. (Para saber mais, ver  Guia_Mamiferos_Cantanhez_web-res_2017.pdf .)

No Cantanhez, há  o macaco fidalgo vermelho (Piliocolobus badius).  e o  macaco fidalgo preto (Colobus polykomos). Em crioulo, ambos são fatango.

Nomes locais, para o macaco fidalgo vermelho: Mane (nalu) | Nhandjo (fula) |  Tugdu-hanz (balanta).

Nomes locais para o macaco fidalgo preto: Madisom/Dossé (nalu) | Bando (fula) | Tugdu-mon (balanta).



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > A "onça" [leopardo-africano], um animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Era abundante em tempos, foi sobrecaçada, por causa da beleza da sua pele (e não só:  metia-se onde não devia, por exemplo no perímetro armadilhado dos nossos aquartelamentos)... E hoje o seu habitat vai-se degradando... 

Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Decreto nº 40 040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar. Anexo I:  Animais cuja caça é proibida.


1. Julgamos que é a primeira lista, aprovada por diploma legal, proibindo a caça de certas espécies animais protegidas nos territórios ultramarinos, de Cabo Verde a Timor... Na Guiné,  contemplam -se, pelo menos, 16 espécies de mamíferos e 11 de aves (incluindo os abutres ou jagudis):

Este diploma merece ser visto como um marco histórico . O Decreto n.º 40 040, de 20 de janeiro de 1955, da autoria do Ministério do Ultramar, sob tutela de Manuel Sarmento Rodrigues (1899-1979), é provavelmente o primeiro grande diploma português que estabelece uma política sistemática de proteção da natureza e regulamentação da caça em todas as províncias ultramarinas.

O contexto é importante. Estamos em 1955, numa época em que a palavra "ecologia" praticamente não fazia parte do discurso político. A preocupação dominante era a gestão cinegética, mas o diploma vai muito além disso: cria reservas, coutadas, fiscalização, serviços veterinários especializados e comissões de caça, prevendo inclusivamente investigação científica e medidas de conservação da fauna. 

Para a época, é um documento bastante avançado. Pioneiro. E premonitório.

No preâmbulo e no articulado, a fauna é apresentada como um património que importa conservar, fomentar e aproveitar racionalmente, evitando a sua destruição indiscriminada. A proteção das espécies aparece ligada tanto ao interesse científico como ao interesse económico e ao equilíbrio dos ecossistemas.

Importa, todavia, sublinhar que, na década de 1950, o regime do Estado Novo enfrentava já crescentes pressões internacionais em relação aos seus territórios ultramarinos. 

Ao mesmo tempo, no plano da conservação, consolidava-se a diplomacia ambiental europeia em África.

 O preâmbulo do diploma refere explicitamente a Convenção de Londres de 1933 (focada na preservação da fauna e flora no continente africano) e a Conferência de Bukavu de 1953.

Com este decreto, o Estado português procurava modernizar a sua legislação ambiental nas colónias (que passaram a "províncias ultramarinas" em 1951) para se alinhar com as recomendações das potências coloniais vizinhas  (Grã-Bretanha, França e Bélgica) e demonstrar uma gestão "científica" e "civilizada" do território.


No caso da Guiné, a lista das espécies totalmente protegidas revela bem o conhecimento zoológico existente na época.
 
Mamíferos protegidos na Guiné

Entre as 16 espécies de mamíferos figuram espécies emblemáticas:
  • pangolim;
  • urso-formigueiro (aardvark);
  • chimpanzé;
  • lémure;
  • macaco-de-nariz-branco (macaco bijagó);
  • macaco-fidalgo;
  • gato-almiscarado;
  • leopardo ("onça");
  • elefante-da-floresta;
  • manatim (ou peixe-bice);
  • cabra-grande (bongo);
  • elande-gigante;
  • oribi;
  • palanca-vermelha;
  • sitatonga;
  • ancon (alcélafo-maior).
O anexo identifica estas espécies pelo respetivo nome científico e pelo nome local ( crioulo), e indica também a sua distribuição por províncias ultramarinas: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, Macau  e Timor.

É interessante notar que muitas destas espécies continuam hoje classificadas como vulneráveis ou ameaçadas (ou até extintas, no território).

Também a lista das 11 aves é reveladora:
  • abutres (jagudis);
  • andorinhas;
  • calaus;
  • cegonhas;
  • estorninhos;
  • galinha-azul;
  • garças-brancas;
  • marabus;
  • papagaio-cinzento;
  • pavão-gigante;
  • pratíncolas.

Há aqui algumas escolhas curiosas:

(i) os abutres, por exemplo, eram protegidos numa época em que, para muitas populações rurais, eram vistos apenas como aves necrófagas, desprezíveis, sem valor;  já sabíamos, nós, os militares,  que desempenhavam um papel sanitário fundamental na eliminação de carcaças e no controlo da disseminação de doenças;

(ii) o papagaio-cinzento africano é hoje uma das aves mais ameaçadas pelo comércio ilegal;

(iii) o pavão-gigante africano continua a ser uma espécie rara das florestas húmidas da Alta Guiné;

(iv) quanto à galinha-azul (Guttera edouardi pallasi), trata-se de uma ave florestal de grande interesse biogeográfico.

2. Um diploma pioneiro... 

Visto à distância de setenta anos, impressiona encontrar disposições que hoje associaríamos à biologia da conservação, denotando uma visão "integrada e sistémica" do problema.

De facto, uma das grandes inovações deste diploma para a época foi integrar, num único corpo legal, a proteção do solo, da flora e da fauna. 

O preâmbulo justifica abertamente essa opção: «pretendeu-se traduzir na lei a unidade que no campo da natureza existe entre o solo, o seu revestimento vegetal e os animais selvagens».

 Criou-se também em cada província um Conselho de Protecção da Natureza (gerido sob a alçada dos governadores) e dividiram-se as zonas protegidas em parques nacionais, reservas naturais integrais, reservas parciais e reservas especiais, a par de:
  • fiscalização especializada;
  • estudos científicos sobre a fauna;
  • controlo das migrações;
  • combate às doenças da fauna selvagem;
  • repovoamento cinegético;
  • estações experimentais de domesticação;
  • limitação do abate de espécies protegidas.

Naturalmente, havia também uma lógica utilitária e colonial: conservar para permitir um aproveitamento futuro dos recursos naturais. Não era ainda uma conservação baseada na biodiversidade enquanto valor intrínseco. Também não sabemos como, na prática, no terreno, o diploma foi implementado...

Todavia, para quem, como nós, viveu na Guiné ( e alguns, em Cabo Verde, Angola ou Moçambique)  dois anos (ou mais),   esta lista desperta inevitavelmente memórias.

É curioso verificar que os jagudis, tantas vezes lembrados nas histórias de humor de caserna (quase sempre associados às lixeiras das tabancas e dos nossos aquartelamentos) figuravam afinal entre as aves legalmente protegidas desde 1955. 

A imagem popular do jagudi como simples "almeida" (=varredor do lixo) escondia a sua enorme importância ecológica como necrófago.

Também impressiona pensar que espécies como o elefante-da-floresta, o chimpanzé, o manatim ou o pangolim, relativamente bem conhecidas na Guiné dos anos 1950, sofreram depois uma forte regressão devido à caça, à destruição do habitat e ao crescimento demográfico. 

Em suma, o Decreto n.º 40 040 representa um documento pioneiro na história da conservação da natureza nos territórios portugueses de África. Embora concebido numa perspetiva colonial e cinegética, antecipou em vários aspetos princípios que só décadas mais tarde se tornariam correntes na política internacional de conservação da biodiversidade. 

A lista de espécies protegidas da Guiné constitui, além disso, um valioso retrato da riqueza faunística do território em meados do século XX.

3. Um diploma também premonitório...

Com a guerra (1961/74), o elefante-da-floresta deixou de aparecer. Mas pode não ter desaparecido completamente da Guiné-Bissau, como aconteceu com o leão.

Durante muitos anos pensou-se que sim, que o elefante-da-.floresta tinha desaparecido mas trabalhos de campo realizados entre 2020 e 2022 confirmaram a sobrevivência de um núcleo minúsculo, provavelmente de apenas alguns indivíduos, na região fronteiriça do sul, entre o Cantanhez, o Corubal e a Guiné-Conacri. É uma das populações mais pequenas e isoladas de toda a África Ocidental, sendo vital a criação e/ou a manutenção de um corredor transfronteiriço ( como é o caso do Complexo Dulombi-Boé - Cheche).

De qualquer modo, há muito que o elefante deixou de fazer parte da paisagem guineense. Um caçador profissional dos anos 1950 ainda podia sonhar encontrar um elefante; hoje seria um acontecimento absolutamente excecional. Os miúdos das escolas do poderão conhecê-lo, mas só para nos livros.

Quanto às outras espécies, a evolução destes 70 anos é dramática.

(i) Praticamente desaparecidas ou funcionalmente extintas
  • Elande-gigante (Taurotragus derbianus): muito provavelmente desapareceu da Guiné-Bissau ainda no século XX; os últimos registos credíveis são antigos e admite-se que apenas aparecessem animais errantes vindos do Senegal ou da Guiné-Conacri;
  • Bongo ("cabra grande"): era uma espécie típica das florestas húmidas; hoje é considerado extinto na Guiné-Bissau;
  • Leopardo ("onça"): sobrevive apenas através de relatos ocasionais; não existe confirmação recente de uma população viável;
  • Palanca-vermelha e sitatonga: sofreram um colapso muito acentuado; sobrevivem, se sobreviverem, apenas em bolsas muito localizadas.

(ii) Espécies muito reduzidas:

  • Chimpanzé: o contrário do que se receava nos anos 1980, não desapareceu; os estudos mais recentes apontam para várias centenas de indivíduos, concentrados sobretudo no Cantanhez e no Boé; o Boé poderá albergar cerca de 700 chimpanzés, e o total nacional ronda aproximadamente 600–1.000 indivíduos, embora as estimativas variem; 
  • Manatim: continua presente nos estuários do Cacheu, Geba, Corubal e Cacine, mas é hoje muito raro devido às capturas acidentais em redes, caça e degradação dos mangais;
  • Pangolim: continua a existir, mas tornou-se muito mais raro por causa da caça para consumo e do comércio ilegal.

(iii) Espécies relativamente resistentes:

  • Macacos (fidalgo, bijagó, patas, babuínos): ainda persistem em várias regiões, embora com densidades muito inferiores às de há meio século;
  • Calaus, garças, marabus e muitos abutres ainda existem, mas algumas populações diminuíram significativamente.

(iv) Porquê esta diminuição drástica da fauna da Guiné-Bissau, em 70 anos ?

Haverá pelo menos umas cinco causas principais, de resto já sobejamente conhecidas: 
  • Caça, primeiro para subsistência e depois para abastecer os mercados urbanos (onde espécies com o macaco-cão, por exenplo, são produto gourmet);.
  • Armas de fogo cada vez mais acessíveis (durante da guerra de independência);
  • Explosão demográfica: a população da Guiné-Bissau passou de cerca de meio milhão de habitantes nos anos 1950 para mais de dois milhões atualmente;
  • Destruição do habitat, especialmente pela expansão dos cajueiros, agricultura itinerante, produção de carvão, abertura de estradas e mineração;
  • Fragmentação das florestas, isolando pequenas populações incapazes de manter diversidade genética.

Em 1955, o legislador protegeu espécies como o elefante, o chimpanzé, o bongo, o manatim ou o pangolim porque já reconhecia que eram raras ou vulneráveis. Setenta anos depois, percebe-se que essa lista tinha um valor quase premonitório: muitas das espécies então protegidas são precisamente aquelas que mais sofreram ou desapareceram da fauna guineense, como se pode ver na comparação a seguir:

Espécie protegida em 1955 | Situação aproximada em 2026
  • Elefante-da-floresta > Restam apenas alguns indivíduos, se a população sobreviver
  • Chimpanzé  > Algumas centenas, sobretudo Boé e Cantanhez
  • Bongo (cabra-grande) > Extinto no país
  • Elande-gigante  > Extinto no país
  • Leopardo  > Eventualmente residual, sem população confirmada
  • Manatim > Muito raro
  • Pangolim > Em forte declínio
  • Papagaio-cinzento  > Em declínio devido à captura e perda de habitat

Essa comparação tem ajuda-nos a valorizar, a nós, portugueses e guineenses, a importância histórica, legal e ecológica deste diploma do "colonialista" Sarmento Rodrigues e a a sua equipa: c
omo é que  como um documento colonial de 1955, pensado para regular a caça, acabou por se transformar involuntariamente num testemunho da extraordinária riqueza faunística que a Guiné-Bissau possuía antes da grande transformação ecológica da segunda metade do século XX.

E mais: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a delimitação posterior de coutadas e áreas de proteção na Guiné,  cujos ecossistemas viriam mais tarde a sofrer forte impacto com o eclosão da guerra colonial / guerra de libertação (1961/74), mas cujas bases de inventariação serviram de referência para a rede de Parques Nacionais e Naturais da Guiné-Bissau pós-independência, geridos pelo IBAP - Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas.

(Continua)

Pesquisa: LG + Blogue + IBAP + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links: LG.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27240: No céu não há disto: Comes & bebes; sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (49): Peixinhos fritos, no Douro Bar Petiscaria, junto à Barragem do Carrapatelo; à mesa, os fantasmas do Zé do Telhado e do Serpa Pinto


Foto nº 1 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Entrada: fritada de peixe-rei e diversos ciprinídeos, apresentada com limão e salsa. 



Foto nº 2 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Entrada: enguias fritas... (durante muito tempo a enguia andou desaparecida do rio Douro, devido às barragens, tal como a lampreia e o sável)


Foto nº 3 > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Prato principal: peixe frito (boga, lúcio e outros), acompanhado com arroz de tomate e feijão.




Foto nº 4 e 4A > Cinfães > São Cristóvão da Nogueira > Barragem do Carrapatelo > Douro Bar Petiscaria > 18 de setembro de 2025 > Vinho de autor, "Terras de  Serpa Pinto" (*)... Um agradável surpresa.

Fotos (e  legendas): © Luís Graça  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Cinfães, em matéria de viticultura, pertence à subregião de Baião, Região Demarcada dos Vinhos Verdes... enquanto a nossa Quinta de Candoz pertence à subregião de Amarante...  Em São Cristóvão de Nogueira, na margem esquerda do rio Douro, junto à Barragem do Carrapatelo, fui lá descobrir duas coisas que não há no céu:

(i) peixinho do rio Douro (!), frito, incluindo como entrada umas "enguias fritas" que estavam simplesmente  "divinais" (parece que a enguia-.europeia já estava  a voltar ao Carrapatelo em 2022, diz a EDP!)

(ii) um vinho branco, de autor (!), "Terras de Serpa Pinto"...

Éramos seis (cinco mulheres, incluindo a "chef" Alice, mais eu)... As entradinhas foram uma travessa de peixinhos fritos, juvenis, só com molho de limão e salsa, e mais um prato de enguias fritas; "peixe-rei", disse-me a simpática jovem senhora que nos serviu à mesa, cá fora, sob um toldo, em dia de calor, com vista para a albufeira e a Casa do Carrapatelo (na outra margem).

 E quem diz Casa do Carrapatelo diz logo ( ou pensa no) Zé do Telhado, cujo fantasma continua a povoar a serra de Montedeiras e estas terras das bacias do Douro, Tâmega e Sousa (**).

O prato principal foi uma travessona de peixe frito do rio (lúcio, boga e outros), acompanhada de um tacho de arroz de tomate e feijão... 

Bebemos duas... garrafas do "Terras de Serpa Pinto". Mais o pão,  a salada e os cafés. No final, pagámos 110 euros, com gorjeta.

 Seguramente que no céu, condomínio de luxo, será mais caro (***)...

Aqui fica o nome e o endereço deste achado: 

Douro Bar Petiscaria,
São Cristovão da Nogueira, Cinfães,  
Telemóvel: + 351 916 093 515


Tem página no Facebook. Diz que está sempre aberto. Mas não: fecha á terça.

2. Os nossos "vagomestres" deviam ser  especialistas em peixe de rio (e de... bolanha). Mas infelizmente não o são...

Aqui vão então algumas dicas para suprir essa falha. Com a ajuda do assistente de IA / Perplexity.

O melhor peixe do rio Douro, especificamente na albufeira da Barragem do Carrapatelo, para fritar, é a boga.  É de pequeno porte e sabor delicado. É tradicionalmente servida frita em casas ribeirinhas da região que deviam abundar, em tempos, mas hoje não. 

Hoje em dia  aqui apanham-se várias espécies de peixe, tanto autóctones como exóticas.  As principais espécies invasoras são o lúcio-perca, o achigã e o lúcio. A sua introdução nas nossas albufeiras teve um impacto muito negativo.

Peixinhos bons  par fritar: 

  • a boga (Pseudochondrostoma polylepis) é muito apreciada frita, crocante por fora, é tradicional nas margens do Douro;
  • barbo (Barbus bocagei) também pode ser preparado frito ou em caldeiradas, sendo consistente e saboroso; 
  • enguia (Anguilla anguilla), embora menos comum, também é servida; 
  • peixinhos do rio (vários ciprinídeos, da família da Carpa,  de pequeno tamanho), usados para frituras rápidas, apresentados, com limão e salsa, e normalmente acompanhados com arroz de tomate ou migas.

Espécies que se apanham hoje (mas um crescente número são espécies exóticas):

Os peixes nativos de maior destaque são o barbo, a boga e a enguia:
  • Barbos (Barbus spp.);
  • Boga (Pseudochondrostoma polylepis);
  • Enguia (Anguilla anguilla).

A carpa (Cyprinus carpio) não é nativa.  Entre os peixes exóticos capturados, nomeadamente na pesca desportiva e artesanal, estão: achigã, lúcio-perca, carpa e pimpão, sobretudo nas zonas profundas da albufeira:
  • o siluro (Silurus glanis), o grande peixe-gato europeu, predador de topo, pode chegar a medir mais de 2 metros e pesar até 100 kg: é uma ameaça crescente para o rio Douro;
  • o achigã (Micropterus salmoides) é outra "praga", sendo originário da América do Norte: é um predador voraz de ovos e juvenis de peixes nativos; 
  • o lúcio (Esox lucius): espécie da Europa Central e Norte da Ásia, foi introduzida para a pesca desportiva.
Todos estes peixes têm valor algum comercial e são apreciados na gastronomia local. E inclusive já aparece nas bancas de peixe dos nossos hipermercados.

Outras espécies exóticas que representam ameaça ao ecossistem
a: 
  • Lúcio-perca (Sander lucioperca)
  • Ruivaco (Rutilus rutilus)
  • Alburno (Alburnus alburnus)
  • Pimpão (Carassius carassius)

3. A  EDP  diz que está a fazer a  monitorização das eclusas de peixes no Douro (esperemos que não seja "show-off"). É  um mecanismo que facilita a migração de peixes no rio; os resultados recentes são positivos e mostram que há espécies nativas a transpor as barragens; o projeto da EDP esteve em destaque na celebração do "World Fish Migration Day",  em 2022.


Num artigo publicado há mais de 3 anos, a EDP Global disse:

(...) Criadas para facilitar a passagem de peixes, as eclusas são um mecanismo essencial para garantir a biodiversidade e a proteção das espécies fluviais. 

A monitorização da ictiofauna que utiliza as eclusas de peixes está atualmente em operação em cinco barragens: Crestuma-Lever, Carrapatelo, Régua, Valeira e Pocinho.

Os resultados deste projeto demonstram, por exemplo, que uma espécie migradora em risco de desaparecimento, como é o caso da enguia-europeia, tem utilizado as eclusas para chegar à albufeira da Valeira, a 145 quilómetros da foz do rio Douro. 

É nas áreas a montante que crescem e se preparam para voltar ao mar, onde se reproduzem – no espaço de ano e meio, foram contabilizadas quase 25 mil enguias na barragem de Carrapatelo.

 Também já se observou o aparecimento de outras espécies nativas, como a solha das pedras, a truta marisca, o peixe-rei ou o robalo-legítimo.(...)

O investimento que foi feito para modernizar o funcionamento das eclusas, espera-se que venha a contribuir para que "outras espécies migradoras, como a lampreia e o sável, possam também transpor as barragens do Douro num número expressivo". 

Oxalá assim seja, senhores da EDP, de quem eu sou fidelíssimo cliente até agora!

 O projeto também permite detectar a presença de espécies invasoras (como a achigã ou o peixe-gato-negro).

(...) A presença do lúcio, lúcio-perca e achigã na bacia do Douro representa um dos principais desafios ecológicos contemporâneos da região. 

Proteger as espécies autóctones exige um esforço coordenado entre cientistas, autoridades locais e a sociedade civil. (...)

(Pesquisa: LG + Assistente de IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto,(1846-1900),  militar, explorador e administrador colonial, é filho de Cinfães.

(**) Vd. poste de 21 de setembro de 2025 Guiné 61/74 - P27238 : As nossas geografias emocionais (58): Rio Douro: Nos caminhos do Zé do Telhado: Barragem e Casa do Carrapatelo

(***) Último poste da série : 7 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27193: No céu não há disto: Comes & bebes; sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (48): Jaquinzinhos da "arte xávega" da Praia da Vieira, azeitonas, arrozinho de tomate, pão, e vinho... Um home mata a sua fome e a sua sede..

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26475: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (54): a caminho de Bubaque, contando os 30 navios de pesca industrial junto à ilha de Rei e à illha dos Pássaros, fora as centenas de canoas nhomincas...


Foto nº 1






Foto nº 2, 2A e 2B

Guiné-Bissau > Bissau >  Canal do Geba, frente à Ilha de Rei > 7 de fevereiro de 2025 > c. 09h00 > A frota pesqueira estrangeira pronta para a faina do alto mar...

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de enviada ontem pelo Patrício Ribeiro (o "embaixador em Bissau" da Tabanca Grande, ums dos nossos 111 históricos, nosso colaborador permanente para as questões do ambiente, economia e geografia da Guiné-Bissau, onde vive desde 1984, e onde é empresário, fundador e antigo diretor técnico da Impar Lda; tem c. de 185 referências no blogue; autor da série, entre outras, "Bom dia desde Bssau" (*):



Data - sexta, 7/02/2025, 10:20

Assunto - Mais uma viagem de Bissau a Bubaque

Luís,

Mais um comentário, para as tuas reportagens sobre Bissau desta semana.

Estou a enviar as minhas fotos de dentro do barco de transporte que a cooperação portuguesa ofereceu conforme postes anteriores (**). E a quem a população chama o nome do atual presidente.

São 9h da manhã, o céu cheio de neblinas e areia do Sarah.

Nas primeiras fotos que envio, podemos â ver saída de Bissau, 25 navios de pesca industrial junto à ilha do Rei e mais 5 junto à ilha dos Pássaros. Fora as centenas de canoas, de grande capacidade, que estão no porto de pesca, que também podem pescar no alto mar.

O arquipélago dos Bijagós com as 88 ilhas e ilhéus ainda é um bom refúgio para desova das diversas espécies de pescado.

Por este motivo vêm pescadores de cana de todo o mundo para os diversos hoteis na ilhas, para tentarem bater recorde mundiais de algumas espécies.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25368: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (33): Na Praia de Varela, pescando para o prato em dia de Sexta Feira Santa...

Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Praia de Varela >  29 de março de 2024 > Pescando para o  prato... e mostrando também o avanço do mar e a erosão costeira, que o Patrício tem denunciado há muito... Mas é a sua praia de eleição (*).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2024) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. O Patrício Ribeiro não se esqueceu de nos mandar votos de Boa Páscoa. No passado dia 29 de março, às 17:46, há treze dias atrás... 29 foi sexta feira, Sexta Feira Santa para os cristãos. E o Domingo de Páscoa foi a 31... 

Nós é que não conseguimos, em tempo oportuno, fazer o devido poste e agardecer-lhe as "amêndoas"... Do incumprimento pedimos desculpa ao "pai dos tugas", um dos "homens grandes" da Guiné-Bissau, e nosso colaborador permanente.


A mensagem era do seguinte teor:

Boa Páscoa para todos.
Junto uma foto da praia de Varela.
Por aqui, sempre está mais quente e sem chuva.
Como estamos ainda estamos na Quaresma, há que pescar para o prato.
Abraço


Aqui fica o registo possível, com a nossa boa vontade e votos de boas pescarias...Aproveitamos para publicar mais um poste na série "Bom dia desde Bissau"... O último foide 15 de janeiro (**).

2. No passado dia 8 de março, eu tinha-lhe mandado um pedido, esperançado que ele já estivese por Bissau, mas afinal não estava:


Data - 8 de março de 2024, 16:44
Assunto - Joaquim Pinto Carvalho: Hotel Coimbra, Bissau, de 9 a 13 do corrente

Patrício, "pai dos tugas":

Não tens dado notícias... Imagino que estejas a passar o "inv(f)erno" em Bissau... Sempre é mais "quentinho" do que em Águeda... A menos que tenhas vindo "botar" aqui no "Puto", no dia 10....

Se sim, partindo do princípio que estás em Bissau, vou dar o teu contacto, ou melhor, o da tua empresa a um amigo meu e nosso camarada, membro da Tabanca Grande, que vai aí uns dias, em "romagem de saudade"... Ele foi alf mil nos idos anos de 1971/73, em Buba (CCAÇ 3398) e em Bedanda (CCAÇ 6). Hoje é advogado, meu vizinho e "amigo do peito". Nome: Joaquim Pinto Carvalho (...). Tem mais de 60 referências no nosso blogue:

Ele vai, com mais uns antigos graduados da companhia de Buba (CCAÇ 3398) (que fez a IAO em Bolama), incluindo o capitão, hoje coronel (Filipe Ferreira Lopes), mais um alferes e uns tantos furriéis. Vão estar alojados no Hotel Coimbra. E têm uma visita, creio que de um dia, a Buba (e, se der, a Bedanda). Penso que também querem revisitar Bolama, que tu conheces bem... Partem amanhã de manhã, de avião, e regressam na 4ª feira.

Dou ao Joaquim o teu contacto sem ter falado contigo antes. Sei que tu és sempre, nestas circunstâncias, o nosso "embaixador da amizade e da camaradagem" e seguramente a melhor e a mais fidedigna fonte de informação sobre a Guiné-Bissau.

É apenas um "contacto de emergência" ou de "agência", no caso do grupo precisar de alguma informação ou "dica" especial da tua parte (por ex, onde comer um "pitchipatche" ou caldo de ostras).

Eles nunca mais voltaram aí, desde há 50 anos... Se for preciso, o Joaquim pode contactar-te a partir do Hotel Coimbra, cuja gerência tu conheces bem... E até pode acontecer chegarem a conhecer-se, apesar da agenda apertada do grupo (que ficará, todas as noites, no Hotel Coimbra).

Mantenhas. 
Luís

No mesmo dia, na volta do correio, às 20:20, o Patrício respondeu-me com conhecimento ao Joaquim Pinto Carvalho:

Boa noite, Luís.

O teu email foi parar ao lixo só agora o vi. Este ano não fui passar o Carnaval a Bissau, foram já 39.

Ainda estou em Pt, quase sempre por Águeda. Algumas consultas e outros assuntos.

Como deixei de ser solteiro, faz agora 50 anos..., também não os podia passar sozinho...

Vou para a semana para Bissau, o meu filho está lá.

Sobre os teus amigos:

O Miguel Nunes do Hotel Coimbra e a sua família vão tomar bem conta deles.

Também devem ir fazer algumas refeições no restaurante o Porto, em frente do hotel, do casal meu amigo Federico e Anabela, onde se come muito bem. O resto é mato, conforme eles sabem.

Têm alguns hotéis para dormirem em Buba. Para a comida fazem como eu... no restaurante, pedem a perna daquela cabra ainda viva... e mandam assar no carvão, ao fim de uma hora está pronta.

De Buba podem ir diretos para Bolama..."grande canseira" com a picada, mas chegam vivos.
Regresso, ou de canoa, ou voltam via Sr. João para Enchudé, onde apanham o barco de carreira para Bissau.



3. Comentário do editor LG:

O Pinto de Carvalho e os seus/nossos camaradas da CCAÇ 3398 lá estiveram na Guiné-Bissau, de 9 a 13 do corrente, hospedados no Hotel Coimbra e foram a Buba, com passagem pelo Saltinho, que não conheciam.

O Pinto Carvalho não conseguiu ir a Bendanda (onde esteve na CCAÇ 5, em 1972/73), porque eram mais 3 horas para cada lado e em picada em mau estado.

O Patrício, mesmo à distância, e desta vez no "Puto", continuou a mostrar que não deixa os seus créditos por mãos alheias. As suas dicas e conselhos são sempre úteis. E toda a gente sabe que ele em Bissau é sempre um "porto de abrigo"... para os amigos e camaradas da Guiné. Obrigado, "homem grande". E vai continuando a dar-nos notícias dessa terra quente e verde-rubra.
__________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 9 de agosto de 2021 > Guiné 61/74 - P22443: Memória dos lugares (424): a bela e interminável praia de Varela, a 5 horas de Bissau... (Patrício Ribeiro)

domingo, 3 de março de 2024

Guiné 61/74 - P25231: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (20): A abetarda que não é mais desastrada...


A abetarda (Otis tarda),uma espécie eurasiática, parecida com  o peru ("Estado de conservação: Em perigo, em Portugal, pouco preocupante na Europa e vulnerável internacionalmente, segundo a Lista Vermelha da IUNC – União Internacional para a Conservação da Natureza"). 

Fonte: Biodiversidade, by The Navigator Company > Biogaleria > Conheça a Espécie > Abetarda) (Com a devdia vénia...)


1. Aos veteranos, antigos combatentes da Guerra dos Cem Anos,  desculpa-se muita coisa, aos velhos quase tudo e aos avós tolera-se todas as bizarrias... 

Estava eu a frequentar um curso "on line" sobre escrita para crianças, uma organização da empresa escrever escrever, quando tive a 29 passado, na véspera do último dia do curso, de ser operado a uma catarata (senil), um autêntico "pedregulho", segundo a oftalmologista que me operou. 

Durante 72 horas (que ainda decorrem) não posso expôr-me de todo a écrãs...  A ultima sessão do curso, de duas horas e meia (4 sessões, ao todo, semanais), foi sacrificada. Mas já tinha o TPC feito... Partilho, com a vossa paciência e tolerância, uma das historietas que escrevi... e que dedico à minha neta Clara Klut Graça, ou só Clarinha, de 4 anos e meio.  Amanhã retomo as atividades bloguísticas. 

É um microconto que é dedicado aos avós, e sobretudo aos nossos netos, com votos de que haja para eles (e para a abertarda) um melhor lugar do que aquele que nos coube, ao nascermos, no velhinho Portugal que continuamos, apesar de tudo,  a amar.

A abetarda que não é mais desastrada…

por Luís Graça


Foi num passeio ao Baixo Alentejo que a Clarinha viu, pela primeira vez, as “abetardas”. Ao vivo e a cores.

O avô tinha-lhe mostrado um vídeo com o “abetardo” a querer namorar com a “abetarda”.

− Ó avô, não gosto do “abetardo”!

− Não gostas ?!... Mas é tão fofinho!... Com aquele casaco de penas…

E lá explicou o avô à neta que as “abetardas”, eles e elas, os machos e as fêmeas, são um bocado pesadões, e por isso difíceis de ver a voar, aos bandos… Além disso, fazem os ninhos no chão, nos campos de trigo (que agora já não há, substituídos por quilómnetros de vinhas e olivais). 

− E depois vêm as máquinas, e zás!, estragam os ninhos. E os filhotes, coitadinhos, fogem com dói-dóis, cheios de medo…

− Mas, ó avô, a tua história é da abetarda… ”desastrada”…

− Mas já não é mais “desastrada”, porque tu agora vais ajudá-la a salvar-se!

− Não tem cuidado, e atravessa a estrada com o sinal vermelho, é isso, avô?!

− Ora vês?!... E depois é atropelada!

E o avô, passando-lhe os binóculos, lá contou que ela não tem culpa, porque ela já lá estava, na sua casinha, com os seus filhotes, muito antes da estrada, e dos campos de trigo, dos vinhedos e dos olivais, e das máquinas pesadas que andam nos campos…

− Então, vamos ajudá-la… Eu só não gosto é do “abetardo”, que parece um pavão.

− Gosta de namorar, como tu!

− O meu namorado é o Peter Pan, não é o “abertado”… Vou casar com ele quando for grande… Já pedi liença ao meu pai...

E lá chegaram a uma ideia de salvar a “abetarda” e os filhotes, incluindo o pai, que era o “abetardo”…

Com outros meninos e meninas de Castro Verde, uma terra que fica no Baixo Alentejo e tem umas minas muito grandes de cobre e zinco, fizeram um "herdade" só para as “abertadas”… Lá não entram carros nem máquinas… E todas as “abertadas”, eles e elas, são felizes na sua nova casinha com jardim…

Cansada, mas também muito feliz pela sua boa ação, a Clarinha contou depois à Laura e às sus amigas da Escolinha (o Peter Pan agora está na Terra do Nunca), que a “abertada” já não é mais “desastrada”…

− Já não é atropelada na estrada… 

E lá combinaram, ela e as amigas, virem um dia, nas férias grandes do verão, brincar com as “abetardas” que agora já não são mais “desastradas”…
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Nota do editor

Último poste da série > 29 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25226: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (19): O Braço e a Perna...