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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28196: Tabanca Grande (584): Eduardo Brito de Azevedo, ex-alf mil inf, GA 7 (dez 1973/out 1974): guardo, acima de tudo, boas recordações da Guiné, das noites africanas, das pessoas que conheci, do ambiente humano...


1. Comentáriodo novo grão-tabanqueiro, nº 917, o Eduardo Brito de Azevedo, ex-alf mil inf, GA7 (Bissau, dez 1973/out 74) (*)

Caros Camaradas e amigos 

Agradeço as vossas generosas palavras de boas-vindas à Tabanca Grande.

Conheço há muito tempo este blogue e reconheço o importante papel que tem desempenhado na preservação da memória de uma geração de portugueses que viveu a Guerra da Guiné. Num primeiro momento, e por razões óbvias, motivado pelo trabalho de recolha e de investigação do Luis Vaz, muitas vezes baseado no espólio do seu pai, coronel de cavalaria Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado Maior do CTIG/CCFAG.

Confesso, no entanto, que tenho algum pudor em escrever sobre a minha própria experiência na Guiné, seguramente menos digna de interesse, menos intensa e menos dramática do que a de muitos camaradas que conheço aqui nos Açores e da reportada em muitos dos depoimentos apresentados no blogue. 

A minha comissão decorreu numa fase muito particular, já no final da guerra, passada quase integralmente em Bissau com esporádicas deslocações ao interior (Mansoa, Porto Gole, Quinhamel...). 

Assisti, antes do 25 de Abril, ao incremento da atividade crescente do PAIGC na periferia e interior da cidade, bem como, após esta data, acompanhei a logística da retirada, tendo participado no movimento, encarregue por Bouza  Serrano (?), juntamente com o Nuno Nazaré Fernandes (BENG 447), de ocupar e promover a transição do Emissor Regional da Guiné. 


Talvez por isso, ao contrário do que transparece em muitos dos testemunhos que conheço, guardo da Guiné, acima de tudo, boas recordações

Recordações das noites africanas, das pessoas que conheci, do ambiente humano que encontrei e de um período da minha vida que, apesar das circunstâncias históricas em que decorreu, mantenho com muito agrado na minha memória.

Por todas estas razões não me sinto habilitado a contribuir de forma significativa para o blogue porque não seria honesto criar essa expectativa. Mas, sempre que considere poder dar algum contributo útil para este extraordinário repositório de memórias, fá-lo-ei com muito gosto.

Entretanto, continuarei, como mais um camarada da Tabanca Grande, a acompanhar com interesse os vossos testemunhos e reflexões.

Recebam um forte abraço amigo,
Ediuardo B. Azevedo

2. Comentários à entrada do nosso novo grão-tabanqueiro:

(i) Tabanca Grande Luís Graça

Eduardo, depois de tão calorosa e afetuosa apresentação da tua pessoa à Tabanca Grande feita pelo Carlos Vinhal (que sabe tratar como ninguém a malta da Madeira e dos Açores), só me resta reiterar os votos de boas vindas.

Não preciso de dizer que os camaradas dos Açores ficam aqui todos bem, sentados à sombra do nosso poilão. E pena que muitos deles andem dispersos e anónimos pela diáspora lusófona. ÉCongratulo-me com a tua entrada para o nosso blogue, para mais sendo também tu um homem da Academia como eu. E, além disso, "apadrinhado" pelo Luís Vaz. Mas mais importante é a tua condição de português, açoriano e antigo combatente do valoroso GA 7.

Fico na expetativa de que nos brindes com mais memórias do teu tempo de soldado do fim do Império.  



Caro Eduardo,

​É com enorme satisfação e amizade que te dou as boas-vindas à nossa "Tabanca Grande", o blog Luís Graça & Camaradas da Guiné. 

Como colaborador deste Blog há já mais de 10 anos, já vi muitas histórias cruzarem-se aqui, mas a tua chegada traz-me uma alegria muito particular.

​Recordo-me perfeitamente de que os nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez, curiosamente, lá longe na Guiné, eu um adolescente e tu um jovem militar miliciano. Fomos cunhados e a vida encarregou-se de nos apresentar naquele cenário que marcou as nossas juventudes e as nossas vidas para sempre.

​Hoje, entras nesta nossa tertúlia por direito próprio e com uma missão, tornar o nosso Blog ainda maior e mais "rico". Tenho a certeza absoluta de que o teu rigor científico, a tua capacidade de observação e as tuas memórias vão enriquecer imenso as nossas partilhas e o espólio deste nosso blog.
​Sê muito bem-vindo a este nosso ponto de encontro. Que te sintas verdadeiramente em casa entre nós.
(...)

sexta-feira, 17 de julho de 2026 às 00:28:00 WEST 

(iii) Hélder Valério 

Pois, caro amigo Eduardo, que sejas bem-vindo. Foi uma boa decisão. Estamos sempre à espera de enriquecer este espaço com memórias que nos façam "renascer". 

O escrito do Luís Vaz, aqui acima (e também o do Graça) é bem o espelho das expectativas. O nosso Blogue ganhou direito a figurar como um lugar de repositório das memórias da Guiné e é isso que pretendemos que continue a ser.

Claro que nem tudo são rosas... mas, com vontade, as diferenças que sempre aparecem, são na generalidade resolvidas. (...)

sexta-feira, 17 de julho de 2026 às 10:11:00 WEST

_____________________

Nota do editor LG:

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28149: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, edifício dos CTT, ao tempo do Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70)



Foto nº 1 e 1A > Guiné >  Bambadinca >  CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones): à porta, presume-se que seja um funcionário (talvez cabo-verdiano) à espera de...clientes. Naquela época, os clientes seriam, na sua grande maioria, os militares. Só nos CTT podíamos fazer "chamadas particulares" (para a família, a namorada, um ou outro amigo...). Era preciso marcar data e hora. Em geral, de véspera. Era uma exercício de paciência e persistência, de um  lado e do outro...



Foto nº 2  e 2A> Guiné > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT, sito no lado direito, descendente, da rua principal da povoação... A rua, de terra batida,  vinha do quartel (construído num pequeno promontório à cota 33)  seguia para o rio, o porto fluvial e a estrada de Bafatá, a nordeste.


Foto nº 3 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT  > Outra perspetiva da rua que dividia a tabanca ao meio, e era muito movimentada (peões, animais  e viaturas; vê-se ao fundo um jipe que se dirige ao quartel que ficava num pequeno promontório)


Foto nº 4 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Vista (parcial)  da tabanca  e da zona ribeirinha de Bambadinca. Pontos de referência: o edifício dos CTT, o fontenário, e o rio Geba Estreito.


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (1)


Foto nº 6  > Guiné-Bissau >  Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (2) e moranças vizinhas


Foto nº 7  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (3) e aspeto parcial da rua, já então em desuso


Foto nº 8  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá >  Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (4)...  A povoação deve ter passado dos 1500 habitanets em 1970 para os 8 mil em 2010...Hoje, todo o setor de Bambadinca (cidade e comnunidades rurais) deve ter nmais de 32 mil. Bambadinca cresceu ao longo da nova estrada, alcatroada que circunda a bolanha.

Fotos do álbum do Jaime Machado.

Fotos: © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 9 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) >  Vista aérea: do lado esquerdo parte (nordeste) do quartel e posto administrativo; ao centro, a tabanca; ao fundo, o caprichoso rio Geba Estreito, o porto fluvial, o destacamento da intendência (Pel Int) e o início da bolanha de Finete (na margem norte do rio), já no regulado do Cuor; e, do lado direito, a nova estrada em construção que ligará o Xime a Bafatá, e que em Bamdinca, contornava a bolanha (que ficava a sul), a grande bolanda de Bambadinca (cujo nome em mandinga quer dizer "cova do lagarto", ou seja, do crocodilo).


Foto nº 10 > Guiné > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea(1): Legendas: 

Parte do recinto do quartel (1) e rede de arame farpado, a leste e nordeste; porta de armas,com cavalo de frisa (4); casa e loja do Rendeiro (3); edifício dos CTT (5) e fontenário (6) (e logo a seguir o edifício do mercado), ambos na antiga rua principal; nova estrada, circundando a tabanca pelo lado leste/nordeste (7); ligação ao porto fluvial à esquerda e à estrada (já existente, alcatroada) de Bafatá (11); porto fluvial / cais (8); rio Geba (9); destacamento da Intendência (10).


Foto nº 11 >  Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea (2): Legendas: 

Rio Geba (1), destacamento da Intendência (2), porto fluvial / cais (3), bolanha de Finete (4), rampa de acesso ao quartel e posto administrativo (5), loga e casa do Rendeiro (6), edifício dos CTT (7), fontenário (8) .


Foto nº 12 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Entrada principal, pelo lado nordeste  (sentido Bafatá), do aquartelamento. O fontenário está sinalizado com um círculo a vermelho, ficava a uns 50 metros da casa e estabelecimento comercial do Rendeiro; do outro lado, ficava o edifício dos CTT. Nesta rampa (íngreme)  ia perdendo a vida o major Ribeiro, o "major elétrico", º comandante do BCAÇ 2852 (de nome completo, Ângelo Augusto da Cunha Ribeiro, já falecido):  o seu jipe ficou debaixo de toros de madeira que se desprenderam de uma camioneta (civil ?) que terá perdido os travões ou parado na subida da rampa...


Foto nº 13 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da rua principal que atravessava tabanca de Bambadinca, e que descia do quartel (cota 33) até ao Rio Geba... Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário... O edifício dos CTT não é visível, mas ficava do lado  direito, logo a seguir ao edifício com muro branco, no canto inferior direito da foto...  No final da rua, do lado direito ficava a loja e o bar do Zé Maria (comerciante branco, de quem se dizia, justa ou injustamente, que jogava com um pau de dois bicos, como qualquer comercinte numa situação de guerra).


Foto nº 14 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da tabanca de Bambadinca, com o Rio Geba ao fundo. Foto tirada do lado nordeste. Em primeiro plano, contígua ao arame farpado, a casa e o estabelecimento comercial do Rodrigo Rendeiro, um dos poucos comerciantes  portugueses que conhecemos na Guiné, em 1969/71. (Mas parece que havia 11 estabelecimentos comerciais.) Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário de Bambadinca, melhoramento inaugurado em 1948.  Nunca lá parei  para beber água (só hoje sei donde é que vinha...). 

Fotos do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil OE/ranger, CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio 69/março 1971). 

Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Machado, foto atual,
na Senhora da Hora,
Matosinhos
1. No tempo do Jaime Machado, alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968/fevereiro de 1970), bem como no meu/nosso tempo (CCAÇ 2590/CCAÇ 12, 1969/71), o edifício dos CTT era um edifício moderno, funcional, bastante utilizado pelo pessoal militar, e nomeadamente para se fazer chamadas telefónicas para a metrópole. 

Nunca lá entrei. As ligações nem sempre eram fáceis, e tinham de ser pedidas de um dia para o outro. 

Havia CTT nas principais povoações da Guiné, e noemdamente das sedes de circunscrição e nalguns postos administrativos mais importantes. No caso de Bambadinca, desconheço a data da sua instalação, mas deve ser de meados da década de 1950.

O Beja Santos, que lá voltou a Bambadinca, também em 2010, recorda o nome da empregada dos CTT, a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). Presumo que a senhora fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária ,a  Dona Violante, e o chefe de posto (de quem não me lembro o nome).

Contrariamente à capela, à escola  e ao posto administrativo, o edifício dos CTT  ficava fora do recinto do quartel de Bambadinca (como se infere das fotos publicadas acima)... Mais exatamente,  ficava no lado direito da rua principal que, descendo do quartel, atravessava a tabanca de Bambadinca, dando acesso do lado esquerdo ao porto fluvial (e destacamento da Intendência) e do lado direito à  estrada (alcatroada) para que seguia Bafatá (c. 30 km)... 


Mansoa : Anos 60 >Edifício
dos CTT. Fonte: Arquivo do Blogue
O edifício dos CTT ficava do lado oposto da casa e loja do Rodrigo Rendeiro (comerciante, branco, natural da Murtosa)... Mais à frente, também do lado esquerdo ficava o fontenário (foto nº 14). [Vd. também aqui fotos do fontenário, construído em 1948]. 

No nosso tempo (CCAÇ 12, julho 69/mar 71), Bambadinca nunca foi atacada... Desde o último ataque (28/5/1969), melhorou o dispositivo de segurança. E a presença de uma companhia de intervenção, de pessoal fula, mantinha o PAIGC em respeito, à distância... 

Os nossos soldados do recrutamento local viviam nas duas tabancas,  Bambadinca e Bambadincazinha. Com as suas famílias. E a G3 ao alcance da mão. 


2. Ainda não sei a data de construção do edifício dos CTT de Bambadinca. De acordo com  carta de 1: 50 mil, em 1955 Bambadinca já tinha, além de posto sanitário (S), um serviço telégrafo-postal (TP), mas ainda não tinha serviço telefónico (T). 

O edifício dos CTT de Bafatá é de 1969 e é da mesma tipologia do de Nova Lamego/Gabu, Mansoa e Cacheu (iremos comparar as duas tipologias em próximo poste):
Parece poder concluir-se que a rede de postos dos CTT só se desenvolve  nos anos 60, com a guerra... E, de resto, em Portugal, o telefone (particular) ainda era um luxo. Telefonar, do interior da Guiné para a Metrópole, era uma privilégio, só para alguns. Quem tinha telefone em casa ?!... Mas é também dos anos anos 60 a rede de postos de CTT construídos em Portugal nas cidades e vilas mais importantes (recordo-me ainda da construção do da minha terra, Lourinhã).


Bambadinca: fachada do edifício dos CTT,
foto de José Carçlso Lopes, c. 1968/0
O modelo de Mansoa, Gabu, Cacheu, Bafatá, etc., muito divulgado na época, era do "estilo tradicional português", desenhado como os t0dos os edifícios públicos pelos arquitetos do Gabinete de Urbanização Colonial (GUC), criado ainda durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, por Marcelo Caetano, então ministro das Colónias.

Em 1951 o GUC passa a Gabinete de Urbanização do Ultramar (GUU) e, em 1957, a Direcção de Serviços de Habitação e Urbanismo da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações
(DSUH-DGOPC) do Ministério do Ultramar.

O ediffício típico dos CTT, na Guiné (e nos rest5anjtes territórios), nos anos 60/70, era um pavilhão térreo, de composição simétrica, coberto por amplo telhado, apresentando fachada rematada por um frontão curvo, sobrepujado por beiral; uma varanda alongada, ao modo de alpendre, a toda a largura da frontaria...

Sabemos que o de Bafatá é de 1969. É uma arquitetura pública do Estado Novo tardio (anos 60/70).

O de Bambadinca deve ser, anterior, já de meados dos anos 50. Recorde-se que a sede dos CTT, em Bissau, é dessa época:

 (...) Insere-se numa estratégia geral de intervenção do Estado Novo, durante o período em que Sarmento Rodrigues era Ministro do Ultramar (1950-1955), que releva a importância das ligações telegráficas com o propósito de dotar o território guineense de uma infraestrutura de equipamentos e serviços públicos adequados.

" Lucínio Cruz desenha em 1950 a primeira versão e em 1955 o projecto final do Edifício dos C.T.T.. O edifício ocupa o lote inicialmente previsto para construção da Câmara Municipal, um projeto do mesmo arquiteto apresentado em 1948, que acabará por não se concretizar.

"A localização é proposta para o eixo monumental, em frente à Sé, onde se encontram diversos equipamentos públicos." (...) (Fonte: HPIP)



Fontenário de Bambadinca (c. 1968/70).
Crédito fotográfico:  Jaime Machado (2015)


3. Voltando ao edifíicio dos CTT de Bambadinca... Em janeiro de 1974,  foi objeto de arremesso de uma  granada de mão,  defensiva, de origem chinesa... mas sem consequências de maior... Foi mais exatamente no dia 18/1/1974, às 20h45

O efeito foi mais psicológico.  Após buscas pelas NT, foram encontradas mais duas granadas, do mesmo tipo, chinesas, que não rebentaram ou que provavelmente foram arremessadas com cavilha de segurança, por algum tosco aprendiz de guerrilheiro...

Tudo indicava que havia, por esta altura, uma célula ativa do PAIGC na localidade de Bambadinca... Essa hipótese já tinha sido levantada pelo comando do BART 3873 quando em novembnro de 1972,  a PIDE/DGS [, de Bafatá,] efetuara uma prisão, de um elemento ligado à comunidade cabo-verdiana, prisão essa que foi seguida de distribuíção de planfletos denunciando a atuação da polícia política. 

Tanto para o PAIGC como para as NT, Bambadinca era uma posição estratégica, porta de entrada para o leste (mas também para o sul), económica, demográfica e militarmente muito relevante. Mas tudo indica que, nessa altura, o PAIGC estava tentado em multiplicar as ações de "terrorismo urbano":
  • 21/1/1974: primeira acção do PAIGC na cidade de Bissau, com lançamento de engenhos explosivos contra autocarros da Força Aérea; 
  • 26/2/1974: atentado no recinto do café Ronda, em Bissau: duas granadas de mão defensivas com disparador de atraso explodiram no recinto do café, causando cinco feridos graves e 44 feridos ligeiros entre os militares e um morto e 13 feridos entre os civis.
Em 2010, o Jaime Machado voltou a Bambadinca ( tal como o Beja Santos em 2010, e  eu, em 2008). A antiga rua principal, outrora animada e ladeada de casas de habitação e de comércio de estilo colonial, era agora uma desolação... O edifício dos CTT estava em ruínas. O Humberto Reis, em 1997, também por lá passara, e já era tudo  uma ruína... A bonita Bambadinca que nós conhecêramos, já não existia...
 ______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27278: Memórias dos últimos soldados do império (7): os "últimos moicanos" - Parte IV: "Já na estrada do aeroporto, olhei para trás. Duas lágrimas saltaram-me dos olhos, recordando o sangue português derramado naquelas paragens. Era estrangeiro numa nova nação." (Albano Mendes de Matos, ex-ten SGE, GA/ e QG/CTIG,1972/74, hoje ten cor ref e escritor)




O então tenente SGE em Bissau, no QG/CTIG, c. 1972/74

Foto (e legenda): © Albano Mendes de Matos (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Albano Mendes de Matos:

(i)  nasceu em Castelo Novo, Fundão, em 1932;

(ii)  é tenente-coronel do Exército na reforma;

(iii) há muito que, infelizmente, não temos notícias dele;

(iv) é membro da Tabanca desde 2008 (nº 652, ao lado do Silvério Dias), tendo 25 referências no nosso blogue;

(v) fez  2 comissões em Angola como sargento (em 1961/63 e em 1965/68), tendo  frequentado depois a  antiga Escola Central de Sargentos, em Águeda;

(vi) esteve no CTIG, já como tenente SGE (GA 7 e QG/CTIG - Secção de Milicias e Chefe de Contabilidade, 1972/74);

(vii) na Guiné, a par das tarefas militares, organizou festivais de poesia e representações teatrais, bem como os «Cadernos de Poesias POILÃO», com autores guineenses, cabo -verdianos e portugueses da metrópole;

(Viii) já em Angola, havia publicado,  em 1973, o caderno de contos africanos «O Jangadeiro», dos quais foram apreendidos 300 exemplares pela PIDE/DGS;

(ix) é  também licenciado em Antropologia Cultural e Social e mestre em Ciências Antropológicas;

(x) foi professor na Universidade Moderna;

(xi) estreou-se no romance em 2008, com a obra «A Casa Grande» (Prémio Literário Aquilino Ribeiro);


 
1. Os nossos "cronistas" do "fim do império", no nosso blogue, são:

  • o Eduardo Magalhães Ribeiro (nosso coeditor) (ex-fur mil OE, CCS / BCaç 4612/74, Cumeré, Mansoa e Brá; seguiu para a Guiné já depois do 25 de Abril, tendo regressado na última viagem, no T/T Uíge, em 15/10/74; de alcunha, "o pira de Mansoa);
  • o Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, Chefia do Serviço de Justiça e Disciplina (CSJD), QG/CTIG, março 1973/ setembro 1974);
  • o Albano Mendes de Matos, entáo tenente SGE, GA/ e QG/CTIG - Secçáo de Milícias e Chefe de Contabilidade, 1972/74, hoje ren.cor ref; natural do Fundão, vive em Oeiras,.

Também não  podemos esquecer o valioso contributo  do nosso amigo  Luís Gonçalves Vaz,  membro da nossa Tabanca Grande (nº 530)  e filho do cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (último Chefe do Estado-Maior do CTIG - 1973/74) (que deixou Bissau, às 2h30 do dia 14 de outubro de 1974, tendo viajado nos TAM com o brigadeiro graduado Carlos Fabião e restantes militares 


; tinha 13 anos e estava em Bissau quando se deu o 25 de Abril; teve acesso privilegiado a documentos classificados dessa época bem como ao diário do seu pai). Já não estva lá em 14 de outubro de 1974 (o pai recambiou a família para a metrópole, na devida altura...) mas traz-nos  também , para o blogue, fotos e outras recordaões do seu primo Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz,  ex-Marinheiro Radiotelegrafista  812/70, membroda guarnição da LFG "Lira", preciosa  testemunha da Missão “Retirada Final” em 14/10/1974... Vamos ter oprotunidade de repubicar esse poste, P16461 (*). 

A NRP "Lira" foi uma das unidades que fez a segurança de retaguarda, durante o embarque dos últimos militares portugueses na Guiné.

A qualquer deles, incluindo o Manuel Belexa Ferraz, se aplica a expressão " o último dos moicanos" (leia-se: soldados do império): o Abílio Mgro, rgressado a casa em fins de setembro, nos TAM; o Albano Mendes Matos, a 14, também de de avião; e o Eduardo, a 15, no T/T Uíge.

O texto que republicamos a seguir, agora nesta sérien (*), é um dos textos mais pungentes que eu já li sobre sobre a saída das NT. Escrito com rigor jornalístico, mas também grande sensibilidade, ou não fora o autor um escritor de talento



Memórias dos últimos soldados do império (6): os "últimos moicanos" - Parte III:  "Já na estrada do aeroporto, olhei para trás. Duas lágrimas saltaram-me dos olhos, recordando o sangue português derramado naquelas paragens. Era estrangeiro numa nova nação." 

por Albano Mendes de Matos



Foi um momento emocionante o meu último dia na Guiné-Bissau, em 13 de outubro de 1974.

O pessoal que restava do meu serviço, Contabilidade, saiu para o aeroporto de Bissalanca, logo pela manhã, como quase todos os militares que ainda lá se encontravam. Levaram rações de combate para as refeições. Creio que com receio de algum acontecimento. 

Permaneci no local do meu serviço, para entregar as instalações e materiais às tropas do PAIGC, com guias de entrega e tudo, como estava combinado.

Fiquei apenas com um jipe e um condutor, militar português, para me transportar  do Quartel-General de Santa Luzia (QG/CTIG) para Bissau e, depois, para o aeroporto.

Cerca das 11 horas, chegaram 6 negros, escoltados por uma secção das tropas do PAIGC, a pedirem os vencimentos a que tinham direito, porque tinham sido soldados portugueses. Tinham direito aos vencimentos de abril a dezembro de 1974, como fora acordado. 

Os ex-soldados portugueses tinham fugido para o Senegal após o 25 de Abril, porque tinham receio que os prendessem ou fuzilassem.

As famílias avisaram esses ex-soldados para se deslocarem a Bissau, para exigirem o pagamento. Eu tinha pedido à Emissora da Guiné para avisar todas as pessoas, militares e civis, e as empresas que tivessem a receber alguma coisa do Exército Português, que o comunicassem até, creio, ao dia 10 de outubro [de 1974].

Interessante foi o caso de uma Casa de Instrumentos Musicais pedir o pagamento de 6 clarins que tinham sido fornecidos ao Comando Militar da Guiné... em 1940.

Disse aos ex-soldados que já não havia dinheiro e o tesoureiro já se encontrava em Portugal.

Responderam-me que eu queria era ir para Portugal gozar com o dinheiro deles. Levei-os à tesouraria e mostrei-lhes os cofres abertos, sem dinheiro.

Disse-lhes que poderia promover o envio do dinheiro, quando chegasse a Portugal, para a Embaixada na Guiné. Tomei nota dos números, nomes e da Unidade a que pertenceram. Entreguei-lhes uma declaração assinada por mim e pelo comandante da secção militar do PAIGC.

Em novembro/dezembro [de 1974] enviei o dinheiro devido ao 6 militares, não tendo conhecimento se o receberam.

Chegadas as 13 horas, sem que tivesse aparecido qualquer elemento do PAIGC, nem o meu condutor, como lhe havia dito, para me conduzir a casa de um locutor da Emissora, português que ficou na Guiné, para almoçar. [Tratava-se do 1º srgt Silvério Dias, ex-locutor do PIFAS, nosso grão -tabanqueiro nº 651]. 

Com uma pequena mala, resolvi ir, a pé, para o forte da Amura, junto ao Cais do Pindjiguiti, onde tinha a minha bagagem.

Quando, na estrada, me preparava para caminhar, surgiu um jipe com um militar do PAIGC, mulato, de meia-idade, que me disse:

 −  Camarada, para onde vai?

Contei-lhe o sucedido e logo se prontificou levar-me à Amura, mas que lhe ensinasse o caminho, porque só tinha ido a Bissau, durante a guerrilha, uma vez, de noite, ao cinema na UDIB (União Desportiva Internacional de Bissau). 

Perguntando-lhe quem era, respondeu que era um comandante do Exército do PAIGC, que fora ver as instalações do Comando do Quartel-General, onde se iria instalar, ainda nesse dia.

Conduziu-me no jipe,  não à Amura, mas a um restaurante de um primo do meu condutor, português a quem o Governo da Guiné pediu para não sair, porque era o chefe da fábrica de descasque de arroz, situada numa ilhota, no rio Geba, em frente de Bissau  [, o ilhéu do Rei ].

 Lá encontrei o meu condutor com uma grande bebedeira, não podendo conduzir o jipe. Disse-lhe que não se embebedasse mais, porque às 11 horas da noite tinha que estar junto do jipe, em frente do restaurante do primo, para irmos para o aeroporto.

Almocei e jantei na casa do referido locutor [o Silvério Dias].  e andei pelas ruas e pelos bares de Bissau. Só encontrava guineenses que me cumprimentavam e desejavam boa viagem e muita sorte.

Dei por mim a olhar para as memórias portuguesas que ficavam por aquelas paragens: edifícios, estátuas, toponímia. E a recordar a história que me tinham ensinado, com navegadores, guerreiros, missionários e pacificadores. Imaginei os primeiros portugueses a chegar àquelas terras. E eu, agora, o último a passear pelas ruas de Bissau, no fim do Império.

Estavam lá mais portugueses, o Governador e alguns militares, mas não saíam à rua.  Às 23 horas  [do dia 13 de outubro de 1974, domingo ]. , foram sob escolta para o aeroporto. 

Também estava um navio com um Batalhão nas proximidades do porto  [aliás dois, o T/T Niassa e o T/T Uíge]. , para zarpar quando o último avião da Guiné estivesse no ar, para a última viagem aérea de uma parte do Império.

Um pouco depois das 11 horas da noite, dirigi-me para o jipe. O condutor estava melhor da bebedeira. Com ele estava o primo. Alguns negros param a olhar para nós. Aproximaram-se. O jipe arrancou. Os guineenses ficaram a acenar, de braços levantados. Descemos pela avenida principal, subimos pelo lado do campo de futebol.

Sentia uma sensação estranha. Já na estrada do aeroporto, olhei para trás. Duas lágrimas saltaram-me dos olhos, recordando o sangue português derramado naquelas paragens. Era estrangeiro numa nova nação.

Já perto do aeroporto, o condutor perguntou-me:

   Meu tenente, onde deixo o jipe?

 Atira-o para uma barreira!

Parámos à entrada do parque do aeroporto. Desci com a pequena mala. O condutor colocou uma sacola no chão, subiu para o jipe e conduziu-o até uma pequena ladeira, ao lado da estrada, um pouco antes do aeroporto, para onde o encaminhou com um pequeno empurrão.

No aeroporto, para entrarem no último avião da Guiné, estavam o Governador, o Comandante Militar, alguns militares coadjuvantes, oficiais, sargentos e meia dúzia de soldados.

Para apresentarem cumprimentos de despedida, chegaram alguns chefes militares do Exército do PAIGC e o Presidente da Câmara Municipal de Bissau.

Era o fim da colónia ou província portuguesa da Guiné, já independente desde o mês de Agosto.


Albano Mendes de Matos

(Revisao / fixação de texto, título: VB/LG)
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Notas do editor LG:



(*) Último poste da série > 2 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27277: Memórias dos últimos soldados do império (6): os "últimos moicanos" - Parte III: a viagem Bissau-Lisboa, a bordo do T/T Uíge, em 15 de outubro de 1974 (Eduardo Magalhães Ribeiro / Luís Graça)

 Vd. postes anteriores:



Guiné 61/74 - P27277: Memórias dos últimos soldados do império (6): os "últimos moicanos" - Parte III: a viagem Bissau-Lisboa, a bordo do T/T Uíge, em 15 de outubro de 1974 (Eduardo Magalhães Ribeiro / Luís Graça)

 




Documento nº 1 


Documento nº 1A


Documento nº 1B



Documento nº 2




Documento nº 3



Documento nº 4

T/T Uíge, viagem Bissau - Lisboa, de 15 a 20 de outubro de 1974. Documentação distribuída a bordo.



Fotos (e legendas): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Sabemos que esta foi a última viagem do T/T Uíge, de Bissau a Lisboa, ao serviço do Exército. Oficialmente... 

Levou os "últimos soldados do império". O nosso amigo e camarada Eduardo Magalhães Ribeiro, coeditor do blogue, foi um dos passageiros da "classe turística", reservada aos sargentos. E guardou, no seu baú, esta documentação preciosa, respeitante a essa viagem histórica.

Ao que se sabe (mas não por esta documentação),  o navio, T/T Uíge, que estava ao largo (houve outro, o T/T Niassa, que também zarpou de Bissau nesse dia),  deixou a zona às 10h00 do dia 15 de outubro.

Não sabemos quantos militares levava (e de que unidades). O T/T Niassa, por exemplo,  transportou pessoal da 2ª Companhia do BCAV 8320/73. 

Boa parte do pessoal que foi no T/T Uíge deviam ser militares do QG/CTIG (Santa Luzia) e do QG/CCFAG (Amura), as últimas instalações das NT a serem entregues ao PAIGC, os "novos senhores da guerra". 

Deduz-de que o T/T Uíge ia a "rebentar pelas costuras". Havia 4 refeições a bordo (para oficiais e sargentos), em horários diferidos:

  • 08h30 | 13h00 | 17h00 | 20h00 (para os oficiais, que eram em menor número)
  • 07h30 | 11h30 | 16h00 | 19h30 (para os sargentos, que eram em maior número)

As praças, que iam no porão, comiam por turnos: havia 4 mesas... Os horários iam das o7h00 (pequeno almoço) (1ª mesa) às 20h15 (jantar) (4ª mesa), com intervalos de 30 m (pequeno-almoço) e 45 m (almoço e jantar)... A 1ª mesa jantava às 18h00, a última às 20h15...

O consumo de água (banhos, lavagens...)  e a barbearia também tinham horários estipulados, de acordo com o documento nº 4. Em suma, logística complicada. 

O capitão de bandeira era o cap-ten Alexandre de Carvalho Wandschneider.

Mas tudo correu bem (serviços a bordo e comportamentos dos militares), a avaliar pelo teor da mensagem de despedida, com data de 20 de outubro de 1974, à chegada a Lisboa, assinada pelo comandante militar de bordo, o cor António A. Marques Lopes (documentos  nº 2 e 3).

Dito por si:
No dia 15, na classe turística sabemos que foi servido ao almoço (documento nº 1): 

(i) sopa de coentros; (ii) peixe: bacalhau à Gomes de Sá; (iii) entrada: fígado com arroz de manteiga | pastelão à portugesa; (iv) queijo, fruta, chá, café, leite... 

Nada mau, para desenjoar da comida da tropa, do rancho, da ração de combate...

A vida a bordo também foi  "animada" nesse dia da partida: no bar da classe turística, às 16h30 havia jogo do loto... E à noite, às 21h30, "cinema ao ar livre"...

O filme em cartaz, "As 4 chaves" (documento nº 1B)... Erro tipográfico:  devia ser o filme brasileiro de 1971, "As Quatro Chaves Mágicas", do realizador Alberto Salvá.  Filme do género aventura & fantasia,  "é uma recriação do conto de fadas João e Maria, dos Irmãos Grimm"...

E assim tudo acabou: a guerra, a Guiné ("verde-rubra"), o Império, o Uíge, o Niassa... E nós, também estamos a acabar, nós, a geração dos últimos soldados do império, os "últimos moicanos"...

2. Comentário do editor LG:

Em 2/2/1974. o N/M Uíge passou a pertencer à CMT - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos SARL, por fusão da CCN - Companhia Colonial de Navegação (criada em 1922) com a Empresa Insulana de Navegação (mais antiga, de 1871).  

Fez 4 viagens às Ilhas em 1974, e ainda em junho de 1975 a única que realizou a Moçambique (fretado pelo Exército, para transporte de tropas). 

Em 23/11/1975 fez também a última viagem a Angola, a  sua ultima também como T/T, ao serviço do Exército. 

Ainda fará 3  viagens a Cabo Verde para repatriamento de cidadãos portugueses, cabo-verdianos, também fretado pelo Exército. 

Ao fim de 2 dezenas de anos (tinha sido lançado ao mar em 1954), tem o destino cruel de todos os navios: em 1976 fica imobilizado no Mar da Palha, no estuário do Tejo...Será desmantelado no Cais Novo de Alhos Vedros, em 1979/80...
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27227: Memórias dos últimos soldados do império (5): os "últimos moicanos" - Parte II (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, Bissau, mar 1973/ set 74)

 


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > CCAÇ 2479 (1968/69) (futrura CART 11) > Centro de Instrução Militar (CIM) > Um instruendo, de etnia fula, cuja identificação se desconhece... (mas bem podia  ter sido o Djassi desta história...).

 Foto (e legenda) : © Renato Monteiro (2007). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1.   "Djassi, o ordenança", da autoria do Abílio Magro,  é outro testemunho sobre os últimos dias da nossa presença na Guiné. Faz parte da série "Um amanuense em terras de Kako Baldé" (de que se  publicaram  15 postes entre  janeiro de 2013 e março de  2016, e que estamos agora a revisitar). 

O título não deixa perceber, de imediato,  o drama, pungente,  relatado na segunda parte: o dos soldados do recrutamento local que foram abandonados à sua sorte. Como o Djassi, antigo operacional, que acabou a sua "carreira militar", incapacitado, nos serviços auxiliares,  como "ordenança" na CSJD/QG/CTIG.  E que  a partir de agosto fora obrigado a passar à "peluda"...

A cena passa-se em Bissau, já na segunda quinzena de setembro de 1974. Mas antes vamos ver o Abílio Magro, com "outro moicano", na azáfama, febril e ciclópica, de manhã à noite, de queimar todos os papéis (sensíveis) do seu serviço, em troca da vaga promessa do chefe, um tenente-coronel, de conseguirem chegar a casa uns dias mais cedo... 


Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG (Bissasu 1973/74)



Os "últimos moicanos" - Parte II

por Abílio Magro


Recorde-se que havia dois QG (Quartéis Generais) em Bissau;

  • QG/CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné), instalado em  Santa Luzia,
  •  QG/CCFAG (Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné), na fortaleza da Amura.
Eu prestei serviço na CSJD (Chefia do Serviço de Justiça e Disciplina) do QG/CTIG, em Santa Luzia.
 
No tempo em que por ali andei (1973/74), o primeiro era comandado pelo brigadeiro Alberto da Silva Banazol e depois pelo brigadeiro Galvão de Figueiredo; o segundo pelo general Spínola e depois pelo general Bettencourt Rodrigues.

Em agosto de 1974 na CSJD tínhamos um ordenança, o Djassi, soldado nativo que aparentava ter já ultrapassado os 30 anos de idade e que, enquanto operacional, fora gravemente ferido, tendo-lhe sido retirado um pulmão e integrado nos serviços auxiliares. Estava ali colocado para efectuar pequenas tarefas relacionados com aquele Serviço.

O Djassi apresentava invariavelmente um semblante carregado e raramente esboçava qualquer sorriso, denotando, porventura, algum sofrimento pelo seu débil estado de saúde, mas era um indivíduo afável, educado, disciplinado e prestável. Dava gosto lidar com ele. Nunca o vi aceitar com azedume qualquer tarefa, oficial ou particular, que se lhe solicitasse.

Nessa altura, agosto de 1974, já muitas companhias tinham abandonado os seus quartéis no mato e regressado à Metrópole, e outras encontravam-se estacionadas em Bissau a aguardar igual destino.

Por essa razão, estavamos assoberbados com papelada decorrente do "fecho de contas" daquelas companhias,  o que indiciava que nós, os do "ar condicionado", seríamos talvez os últimos a "abandonar o barco".
 
A situação era confusa. Sabíamos que iríamos abandonar a Guiné, mas não sabíamos como, nem se o faríamos definitivamente, nem quando.

Começou a correr a informação de que a partir de finais de agosto não seriam autorizadas férias a ninguém. Ora, eu e o meu camarada Silva,  do Barreiro, nessa altura já os mais "velhinhos" da CSJD, com excepção do tenente-coronel e  do major, estávamos há já mais de um ano sem gozar férias e começámos logo a tratar da papelada para o efeito.
 
Lá viemos de férias em meados de agosto e, entretanto, o "êxodo" continuava e com maior cadência.

Findas as férias, regressámos à Guiné dois dias  depois da data em que foi reconhecida a independência por parte de Portugal - 10 de setembro de 1974.

As patrulhas na cidade eram efetuadas pela PM (Polícia Militar),  conjuntamente com elementos do PAIGC, muitos estabelecimentos tinham encerrado, a tropa que ainda restava era composta de "piras" (ou "piriquitos"), oriundos das companhias mais recentemente chegadas à Guiné.

Na CSJD só o tenente-coronel e o major não tinham ainda sido substituídos, os bens escasseavam, na messe de sargentos só se encontravam "piriquitos", etc., etc.... Ou seja: eu e o Silva estávamos completamente deslocados e, se não tivéssemos tido a estúpida ideia de meter férias naquela altura, teríamos certamente regressado definitivamente, sem necessidade de desembolsar os "pesos" que nos custou a viagem.

Logo tratámos de, junto do tenente-coronel, dar conhecimento da nossa "triste" situação e efetuar o "choradinho" adequado.
 
Fomos então incumbidos de queimar todo o arquivo morto da CSJD que ocupava totalmente uma daquelas pequenas vivendas tipo colonial e que era composto por processos instaurados desde o tempo em que ainda não havia guerra na "Província", após o que poderíamos "meter os papéis" para regressar à Metrópole...

A tarefa impunha alguma responsabilidade e cuidado pois não podia ficar qualquer fração de papel por arder, o que, nos processos mais volumosos, nos obrigava quase a arrancar folha por folha.

Ali estivemos quinze dias a queimar papel que, quando amontoado, nos obrigava a remexê-lo com um pau para que não se apagasse e, no fim de cada dia, só abandonávamos o local quando existissem apenas cinzas.
 
De quando em vez, um ou outro processo despertava a nossa curiosidade pelos objetos de prova que continha e cheguei mesmo à tentação de desviar alguns, mas o desejo de regressar a casa depressa e bem, falava mais alto.

A nossa vontade em terminar a tarefa o mais rapidamente possível era tanta que logo que o sol dava sinais de vida, lá íamos nós p'ra "incineradora" e um dia tivemos a sorte de nos cruzarmos com o ten-cor que, talvez sensibilizado pela nossa madrugadora atividade, nos mandou chamar para que "metêssemos a papelada para bazar dali".

A tarefa ainda não estava terminada, mas o ten-cor, face à nossa proficiência e empenho, achou por bem mandar para lá alguém mais "piriquito" e nós lá regressámos à Metrópole quinze dias depois de lá termos vindo no final das férias.

E foi numa deslocação a Bissau para, no mercado negro, "despachar" os últimos pesos que tinha comigo (na messe de sargentos de Santa Luzia já nada havia para comprar),  que encontrei o Djassi, já civil, e que me interpelou de uma maneira agressiva como nunca imaginei que fosse capaz, confrontando-me com a situação para a qual o Exército Português o tinha atirado e dando-me a entender que, naquele momento, para ele, eu era o representante daquele Exército e exigia-me explicações que eu não lhe podia dar.

  Furriel, eu fui ensinado a respeitar a bandeira portuguesa desde que nasci, andei muitos anos no mato a lutar por Portugal, fui ferido várias vezes, fiquei sem um pulmão, sou português, sempre me considerei português!
 
E prosseguindo:

E agora, dão-me dinheiro e vão-se todos embora?!... O que vai ser de mim?!... O que é que o PAIGC vai fazer comigo?!

Naquele momento senti-me envergonhado por ainda pertencer ao Exército que abandonara à sua sorte o exemplar militar português que era o Djassi.
 
Emudeci e não me recordo de lhe ter dirigido grandes palavras de conforto para além de um lacónico: 

− Calma, vai correr tudo bem!...

Cabisbaixo e algo deprimido, retirei-me do local, mas confesso que, minutos depois, o egoísmo veio ao de cima e já só pensava nas "voltas" a dar no sentido de embarcar com destino à Metrópole o mais depressa possível.

Quando, tempos depois, já na Metrópole, comecei a ouvir os noticiários sobre os fuzilamentos de antigos militares portugueses da Guiné, muitas vezes me veio à memória (e continua a vir quando se fala no assunto) o exemplar militar Djassi e questiono-me sobre o destino que teria tido e se os capitães de Abril (na altura no poder) não teriam podido fazer mais por aqueles que combateram ao nosso lado.

Há muito que tinha em mente falar sobre o Djassi, ordenança da CSJD/QG/CTIG, mas como tenho o hábito de salpicar a minha "prosa" com tiradas pseudo-humorísticas (está-me no sangue), tenho alguma dificuldade de escrita para assuntos mais sérios como este. 

Dispus-me agora a fazê-lo, reconhecendo, no entanto, que este episódio era merecedor de uma escrita mais adequada ao fim a que me propus: 

− Prestar uma sentida homenagem a todos os "Djassis" da Guiné-Bissau!

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27225: Memórias dos últimos soldados do império (4): os "últimos moicanos" - Parte I (Abílio Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG, Bissau, mar 1973/ set 74)