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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto nãp connegiu salvaguardar o império coloniall

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
.
Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28311: Verso & reverso (4): Salazar & Caetano: conhecer ou não conhecer o "ultramar português": eis a questão ?! (António Rosinha/ Luís Graça)

 



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: António Rosinha e Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.





Guiné > Zona Leste > Bafatá > c. 1931 > "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico" , Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, n.º 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos).

Digitalização, edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2018)



1. Comentário de António Rosinha ao poste P27379 (*)


Tenho dúvidas sobre o que dizes, que o Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Luis Graça, de facto ninguém conhecia o Ultramar africano, no que diz respeito a governantes portugueses, desde ministros, caso de Marcelo que até foi ministro das colónias, aos governadores gerais, que faziam papel de mangas de alpaca em comissões de 4 anos.

Até ao Estado Novo não nos entendíamos aqui no retângulo, como depreciativamente chamavam à metrópole os estudantes do império, quanto mais sabermos navegar de jangada no Geba, no Quanza ou no Zambeze.

Mas tenho uma ideia que criei em Angola com colonialistas que gostavam dos inimigos do Salazar, e que admiravam as ideias de Henrique Galvão, Norton de Matos, e até o Marcello e outros turistas, por exemplo, e com estudantes do império, e seus pais, que conheci muitos e trabalhei com vários.

Essa ideia, em que fui acreditando, e mais tarde acreditei ser verdade, Salazar aguentou-se "até cair da cadeira", porque em 1961 deu o grito, "Para Angola, rapidamente e em força".

Mas esses colonialistas, e entre eles imensos militares, continuavam a acusar Salazar que ele não os deixava desenvolver, no caso, Angola, nossa terra, riquiiiiíssima!

Só que Salazar, não conhecendo África, e nem gostando de África, vista como uma maldita herança, ele sabia ou adivinhava, como ninguém, que quanto mais investisse maior seria o transtorno.

E viajar de jangada era bom, fabulosa aquela foto da jangada de Bafatá até Contubuel, lembrei-me do Governador refastelado em Bolama, conheci muitos jangadeiros em Angola, sempre sem pressa, como Salazar gostaria "se visse" ao vivo (ao longe, mas invisível, a partir de São Bento) os turistas a passearem-se de fato e gravata nas aguas cristalinas do Gega, e nas picadas de Angola.

Em 1961, em milhares de quilómetros, havia 60 km de asfalto, imagine-se em 1935!

Salazar não levava o império a sério, nem sequer as ilhas adjacentes, a Madeira e os Açores.

Pessoalmente tive uma prova do pouco que representava o ultramar para o Salazar. Eu como funcionário dos Serviços Geográficos, mandou-me, a mim e a vários colegas, mapear Angola, e no meu espólio, além do equipamento indispensável, ia uma injeção antiofídica vários anos caducada e uma bússula avariada, e tinha que devolver tudo integral como recebi, caso contrário tinha comprar novo.

Assim, como na tropa, de armas pesadas dei apenas 3 tiros de Mauser, e 3 tiros de pistola Parabelum, de treino na recruta. Até que rebentou o terrorismo e tive que comprar farda de furriel, e tudo mudou um pouco.

terça-feira, 4 de novembro de 2025 às 00:52:00 WET


2. Comentário de Luís Graça: conhecer ou não conhecer, eis a questão ?!

Rosinha, eu é que te disse: "Tenho dúvidas sobre o que dizes, que Marcelo Caetano 'conhecia bem o ultramar' "...

De qualquer modo, Rosinha, a pergunta é pertinente: "conhecer ou não conhecer bem o ultramar, eis a questão"...

E já não digo a Guiné ou Timor, mas Angola e Moçambique, as únicas colónias que tinham potencialidades para serem grandes "colónias de povoamento", que era aquilo que interessava às "potências colonizadoras"... Mas parecia não interressar a Salazar nem à meia-dúzia de grandes famílias que dominavam a econonia (a abundância de mão de obra, os baixos salários e a repressão não as obrigavam a modernizar as empresas e os latifúndios).

A questão que levantaste, tu e o Alberto Branquinho, é importante para se compreender as diferenças de visão, pensamento e ação entre Salazar e Marcelo Caetano, especialmente no que toca ao "fim do império" e ao modo como o Estado Novo enfrentou a descolonização e a guerra do ultramar/ guerra colonial... que foi aquela em que tu, eu e o Branquinho participámos. (Na Academia Militar, prefere-se falar em "Guerra de África", esquecendo-se a Índia Portuguesa, Timor...)

Disseste tu, Rosinha: "Caetano foi ministro das colónias, com visita prolongada às colónias, e tinha ideias bem claras, e opostas ao pensamento de Salazar"...

Eu sei que és um leitor apaixonado da história do nosso país, e atento ao que se escreve e se publica sobre o período do Estado Novo e em especial sobre a colonização e a descolonização da "menina dos teus olhos", que era Angola... (Descolonização que foi, estamos os dois inteiramente de acordo, uma tragédia imensa, para todos; a história poderia e deveria ter sido escrita de outra maneira.)

Claro que entre Salazar e o seu sucessor político (e que chegou a ser o seu "delfim") havia diferenças substanciais na maneira de ser, pensar, sentir, estar, falar e fazer... Substanciais mas não antagónicas...

Um era ruralista, provinciano, nacionalista, conservador, autoritário-paternalista, admirador e Mussolini; o outro era industralista, tecnocrata, luso-tropicalista, europeizante, paternalista-autoritário... 

Ambos eram professores, brilhantes, um de Coimbra, outro de Lisboa, um "fiscalista", outro "administrativista"... Ambos governaram em ditadura, obrigaram-nos a fazer uma guerra
inútil, desgastante e estúpida e perderam o comboio da História...

Afinal, "a solução na continuidade", com Marcello Caetano, acabou por nos levar a um beco sem saída, com o regime alienando o apoio (que era lhe vital) das Forças Armadas.

Eu também tenho dúvidas quando alguém me diz que Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Seguramente que conhecia melhor que o Salazar, o qual que nunca sujou as botas de elástico com a terra vermelha de África, nunca lá foi, de resto, nunca saiu praticamente do país.

Caetano fez um périplo pelo Império (África Ocidental) em 1935 com estudantes, um cruzeiro turístico-cultural; foi comissário nacional da Mocidade Portuguesa (1940–1944); em 1945, realizou uma longa viagem a África, visitando territórios como Angola e Moçambique, além de se deslocar à então União Sul-Africana, na qualidade de minisro das Colónias (1944–1947); em 1969, fez uma visita oficial aos territórios em guerra (Guiné, Angola e Moçambique).

Marcello Caetano tinha a obrigação de conhecer melhor o Ultramar português, e nomeadamente África... Muito melhor do que Salazar, por muito bem "informado" que este pudesse estar através da leitura de dossiês, relatórios, reportagens, da audição de testemunhos, do visionamento de filmes (embora fosse pouco cinéfilo), etc.

De facto, a relação pessoal, afetiva, emocional e intelectual de cada um com o Ultramar é uma chave interpretativa fundamental.

Salazar não era um "africanista", como tu, Rosinha, o foste... E tantos outros a que mais tarde chamaremos, impropriamente, "retornados" (porque já nascidos em África ou lá crescidos e educados, desde pequeninos).

Tenho amigos/as nascidos/as em Angola... Angola continua a ser a sua "pele", a sua "idiossincrasia", a sua" cultura", a sua "musiquinha", as suas "comidinhas", etc.... independentemente da sua cor... Temo-los aqui no Blogue, a começar por ti, pelo Patrício Ribeiro, etc.

Marcello, intelectualmente, sim, era um "africanista" (o termo é extramente ambíguo), mesmo nunca lá tendo vivido... E mais: era um adepto do luso-tropicalismo, formulado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire...

Era um "académico", que veio do "downstairs" (pai sargento), apanhou o ascensor social... Por mérito próprio, sem dúvida. Tal como os seminaristas Salazar e Cerejeira. Nenhum deles nasceu em berço de ouro. E, no fundo, os três desprezavam as elites (económicas e sociais).

Vejamos algumas diferenças entre os dois homens a quem calhou a "batata quente" da gestão do fim do império (ou fim de "ciclo histórico") mas que fizeram como a avestruz, enterraram a cabeça na areia. Física e simbolicamente. Julgo que é assim que a História os irá julgar, daqui a 50, 100 anos... (No fundo, líderes cegos que conduziram um povo de cegos quase até ao abismo, tal como o Dom Sebastião ...)

(i) Salazar: o império “abstrato”, com a cabeça, 
tronco e até membros (!)... no Terreiro do Paço 
(e no Palácio de São Bento)

O facto de nunca ter saído de Portugal continental (com exceção de algumas deslocações curtas dentro da Península) diz muito... E de Portugal, o que é que ele conhecia ? Nem sequer a Madeira ou os Açores... E nunca foi ao Pulo do Lobo, como o prof Cavaco Silva.

É verdade que no seu tempo, no seu auge, ainda as viagens não eram rápidas nem cómodas...E as estradas mal começavam a ser alcatroadas.

E depois, bolas, o raio do império ficava longe, bem longe: do Minho a Timor eram 20 mil quilómetros de distância, um mês de barco... Tudo somado eram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, coisa que fazia bem ao ego do Zé Povinho (mesmo que este não soubesse nada de geografia, onde ficava Buruntuma, o rio Quanza ou a ilha de Ataúro, etc).

O império era uma construção abstrata, ideológica e simbólica, não uma experiência vivida. Para Salazar, Angola e Moçambique não tinham cheiros, sabores, cores, lama, sangue, mijo, esperma, suor, lágrimas, drama, comédia, tragédia... Só as conhecia do mapa dos geógrafos (e dos mapas da contabilidade publica).

Salazar via o império como um "instrumento de legitimação nacional", um "desígnio da providência" (logo, do domínio do sagrado, inalienável), um eixo da “unidade pluricontinental e plurirracial" que dava grandeza ao Estado Novo e a Portugal no seio das Nações.

Era, todavia, uma "herança histórica", um "património", cuja manutenção era dispendiosa, para a sua contabilidade de perito em finanças... Era um "luxo", caro... Era uma "amante", cara...

Daí a política colonial de Salazar ser "fortemente doutrinária, ideológica e centralizadora", reforçando-se, com a propaganda, a falsa ideia da "missão civilizadora", fazendo -se tábua rasa do passado das civilizações africanas (e outras), recusando-se quaisquer concessões à autonomia dos povos, índigenas, colonos e assimilados...

A Exposição do Mundo Português, em 1940, foi a sua coroa de glória. E depois do que viu, não precisava mais de ter a maçada de ir a África e à Ásia, "perder tempo e dinheiro"...

 O branco de Angola, como o Rosinha, seria sempre um português de 2ª... Tal como os portugueses da metróple, tirando a elite dirigente e a classe dominante, eram cidadãos de 2ª classe (e as mulheres de 3ª classe).

Salazar nunca viu, ao vivo, "in situ", uma roça de cacau, uma fazenda de café, um plantação de algodão ou de chá, um campo de mancarra, uma bolanha, uma tabanca, uma bajuda de mama firme, um régulo, um soba ou um liurai, um doente de paludismo ou da doença do sono, uma mina da África do Sul (para onde se mandavam os desgraçados dos moçambicanos)...

Nem sequer um leão ou um elefante ao vivo (a menos que tenha ido ao Jardim Zoológico de Lisboa, o que eu até duvido...).

Salazar era um ruralista de Santa Comba Dão, um provinciano de Coimbra, e, aqui, enquanto pôde, travou os impulsos de modernização e industrialização dos "tecnocratas" do regime, de Lisboa, como Ferreira Dias, Marcello Caetano, etc.

(ii) Marcelo Caetano e a experiência 
direta ou indireta do Ultramar

Marcello, além da sua viagem turístico-cultural em 1935 às colónias do "Ocidente" (e repare-se que até 1951 a palavra "colónias" fazia parte do discurso dominante, da realidade económica, jurídica, administrativa e política, sem quaisquer complexos!), foi ele próprio Ministro das Colónias (1944–1947), num período ainda marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo início do fim dos "impérios coloniais", tal como eles foram brutalmente desenhados, a régua e esquadro, na Conferência de Berlim, 60 anos antes, pelos ingleses, franceses, alemães, esses, sim, os verdeiros colonialistas, as três grandes potências europeias da 1ª era do capitalismo industrial. Conhecia relativamente bem Angola e Moçambique.

Caetanto era um jurista e, como tal, interessou-se pelo direito colonial, fez trabalhos sobre a administração colonial, etc. Mas estava habituado a "mudar por decreto". Como os colonialistas europeus que desenhavam territórios a régua e esquadro.

Estava informado, e no início da década de 1960 era um dos intelectuais ("orgânicos") do regime que percebia a inevitabilidade das mudanças... e também conhecia as vulnerabilidades do império e do Portugal macrocéfalo, em vias de desenvolvimento acelerado.

Deve ter feito uma análise de tipo SWAT, dos pontos fortes e fracos de Portugal e do império de pés de barro, ameaças e oportunidades...As ameaças eram muitas, e não apenas exógenas, vindas de fora, mas também endógenas, vindas de dentro...

As eleições de 1958 (e o "terrorismo" em Angola, em março de 1961, e depois o "desastre" da Índia Portuguesa, em dezembro desse ano horrível para todos nós) fizeram soar as campainhas para os homens do Estado Novo (pelos menos para os mais lúcidos, como Marcello Caetano, Adriano Moreira, Correia de Oliveira, Teotónio Pereira; e do lados dos militares, Botelho Moniz, Costa Gomes...).

E nada seria depois como dantes, quando Portugal se abre, economicamente, ao exterior, com a adesão, ainda em 1960, à EFTA (a Associação Europeia do Comércio Livre). Aí Salazar, que tinha horror, não apenas ao "comunismo" soviético como ao "capitalismo" americano e à sua "democracia liberal", perdeu o controlo dos acontecimentos...(se é que não perdera já antes, em 1945, com a vitória dos Aliados ).

(iii) O pós-salazarismo e a "evolução 
na continuidade"

A partir de 1968, sentado na cadeira de São Bento, manietado pela extrema-direita do regime e com um guerra cada vez mais "feia" e impopular em Angola, Guiné e Moçambique, Caetano inventou a política de “evolução na continuidade”, as "conversas em família" e a "cosmética reformista", mantendo embora o fomentismo, o desenvolvimentismo, enfim, o esforço da modernização da economia e da sociedade portuguesas... O país crescia a um ritmo que dava para ir pagando a guerra...até 1973 (a par das remessas dos emigrantes em França e na Alemanha).

Em África, a palavra de ordem era: 

 (i) manter a defesa do império, a todo o custo;
 (ii) desenvolver demográfica e economicamente os territórios; 
 (iii) abrir-se ao capital estrangeiro; (iv) modernizar a administração ultramarina...

Demasiado tarde: o falhanço das tímidas reformas políticas do marcelismo (a fugaz "primavera política") e o contexto internacional (ONU, OUA, guerra fria, luta armada na Áfria Austral, apartheid, crise petrololífera de 1973, a primeira grande crise do capitalismo pós-guerra, etc....), vieram condenar-nos definitivamente "ao orgulhosamente sós", ao ostracismo internacional, e inviabilizar qualquer experiência de descolonização gradual dentro do quadro do regime (como se viu na Guiné, com Spínola)...

Acredito que ele, Marcello Caetano, tinha também uma relação emocional e intelectual forte ao "Ultramar português"... O que terá também contribuido para bloquear, a par do travão da extrema direita do regime, qualquer tentativa de ensaiar ou apoiar soluções políticas que levassem a médio e longo prazo a uma progressiva autonomia dos territórios ultramarinos (como pretendia Spínola em "Portugal e o Futuro") e depois a uma verdadeira descolonização em que todos ganhassem...

Prisioneiro dos mitos imperiais, paralisado pelos constrangimentos da realidade, preferindo o suicídio coletivo do exército na Guiné à perda das"joias da coroa" (Angola e Moçambique), Marcello Caetano revelou-se um líder fraco, deixou-se cair, não fisicamente da cadeira, mas politicamente na secretária da inércia trágica, esticando a corda da guerra até 1974 (o seu annus horribilis). Morreu no exílio, no Brasil, a fazer aquilo de que gostava, que era dar aulas de "direito administrativo".

Reconhecido como o "pai" do direito administrativo moderno portugues, importou e adaptou as metodologias da ciência jurídica europeia (sobretudo francesa, alemã e italiana) para erguer um edifício conceptual lógico, claro e articulado. Crou uma escola, deixou discípulos.

Mas o seu direito administrativo não deixou de refletir formalmente a matriz ideológica do regime corporativo e autoritário, que ele serviu, de alma e corção. Mais: foi útil para enquadrar legal e ideologicamente a administração colonial e o conceito de "Portugal pluricontinental e multirracial", sustentando juridicamente a presença portuguesa em África e a negação da autodeterminação dos territórios e povos ultramarinos. (**)

____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 2 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27379: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte I: um grande evento social e político

(**) Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto e fotos: Sílvia Es+írito-Santo

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




Cartaz de propaganda do MNF - Movimento Nacional Feminino. In: Presença, nº 2, 1964. pág. 15. (Reproduzido, com a devida vénia, do livro de Silvia Espírito-Santo, "Cecília Supico Pinto: o rosto do movimento nacional feminino”. Lisboa: A Esfera do Livro, 2008, pág. 145)


1. Do cap. VIII ("Na retaguarda da guerra"), do livro supracitado (a única biografia académica que conhecemos da presidente do MNF), tomamos a liberdade de reproduzir o seguinte excerto, sobre "os artistas que animaram a guerra"(pp. 143-146):

 [Cilinha] incentivou o desporto. promovendo jogos de futebol entre unidades militares (...). Deu voz ao jovem Eusébio, então uma estrela emergente do 'desporto nacional' (...). Levou a música, o futebol e a cultura ao mato, sem nunca se esquecer de promover Salazar  junto dos militares ou das populações. Ela foi a ponte entre Salazar e África, entre os militares e o ditador.

Em 1964, nas vésperas de partir para Angola, fui ao Forte [de Santo António da Barra, em São João do Estoril, Cascais], despedir-me do Dr. Salazar e vi que tinha partido um pé. Quando indaguei da sua saúde, respondeu-me:

−  Oh!, menina O meu pé não tem importância nenhuma, agora se fosse o do Eusébio, aí sim, aí é que podia ser um desastre nacional!

− Ora aí está uma boa história para eu contar aos rapazes, eles vão gostar de saber  que o Sr. Dr. também está a torcer pela nossa equipa (...) [Em itálico, no original]  

Foram histórias como esta que Cilinha levou na bagagem" (pág. 144). (...)

(Revisão / fixação de texto: LG)


2. Comentário do editor LG:

Isto é humor do melhor: não sei o que mais apreciar,  se a "falsa modéstia" de Salazar, se  a "grande lata" da Cilinha...  Os três já morreram. Em pleno Campeonato Mundial de Futebol (2026), é justo recordar o "nosso grande Eusébio", que também foi soldado, como nós... mas teve a sorte de não ir parar à Guiné... O António Simões, outro dos "Magriços",  teve de pagar 150 contos a um caramelo, o Ivo,  para não ir à guerra, e poder estar presente no Campeonato Mundial de Futebol de 1966 (na Inglaterra)...


Foto nº "42. Oliveira Salazar apreciava a alegria e frontalidade de Cecília Supico Pinto que o considerava 'um verdadeiro príncipe'. Foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida (Arquivo do Diário de Notícias)". (Reproduzida, com a devida vénia, do livro supracitado.)
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28095: Humor de caserna (273): Ao Tony, vocalista da banda "Os Bambas D'Incas", com votos de que ainda continue vivo, e romântico mas... "não trôpego"

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”. 

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com  162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..

Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos


Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.

Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.

Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.

Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?

Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.

Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.

E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev,  disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.

E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.

Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".

Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.

E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.

Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.

Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.

Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um  coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.

A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.

Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.

A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.

Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.

Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.

Fico por aqui.

Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.

Cumprimentos

Antº Rosinha

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

domingo, 25 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19: E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG, que forneceu à "artista" várias fotos... Trata-se de um mau exemplo do que é a História Contrafactual...

1. Agora que se passaram 50 anos da independência de Cabo Verde... Que ninguém contesta, embora o processo pudesse ter sido mais "maneirinho", "amigável", com mais "morabeza", com fado, morna, coladera, grogue e vinho verde à mistura... Uns anos antes.

Que pena termos perdido, na devida altura, essa oportunidade histórica de dar ou reconhecer aos cabo-verdianos o direito à autodeterminação.  

Enfim, a história nos julgará, a todos, aos "mandrongos" e aos filhos da terra, ou "patrícios"... onde temos muitos e bons amigos.

Bom, valha-nos ao menos a consolação de hoje sermos países democráticos, "irmãos" e "amigos", falando a mesma língua, sem contencioso... Que as "pedrinhas nos sapatos" que ficaram na memória dos bons e maus momentos da nossa convivência passada, não nos impeça hoje de continuar a celebrar os 50 anos da independência do arquipélago (1975-2025), terra da morna, da coladera, da morabeza, do doce crioulo, do sol, do sal, do sul do nosso imaginário... Terra do Travadinha,  do Bana, da Cize... De grandes poetas e músicos.

Pessoalmente, tenho orgulho em Cabo Verde, onde o meu pai foi, por dever patriótico, expedicionário, em 1941/43. O meu pai e o pai dos nossos amigos e camaradas Hélder Sousa, Luís Dias, Augusto Silva Santos, Nelson Herbert... 

E há tanto ainda para saber e contar... Da nossa história comum 

Claro, já estou a ouvir ao longe os mais críticos e radicais (de ambos os extremos do espetro político): "pedrinhas"... ou "pedregulhos" ? 

Não, nos compete, a nós, antigos combatentes, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, entrar nesse jogo de "ajustes de contas"...  Os regimes políticos passam, os povos ficam. De pé, como as árvores, com as suas fundas raízes, os seus ramos, as  suas flores, os seus frutos... Ramos que também têm de ser podados.

Lembrei-me , isso, sim, de apresentar à "menina IA" (aliás, a duas, uma "americana" e outra "europeia, francesa"), mais uma questão do domínio do  "sexo dos anjos", neste caso da "história contrafactual":  "E se...?"

E se... Cabo Verde tivesse sido invadido ?

Não foi, felizmente, nem foi invadido nem ocupado nem atacado  por nenhum dos beligerantes durante a II Guerra Mundial. Os que morreram lá (6 dezenas de "expedicionários", "nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas"), foi por doença, acidente, desgosto, saudade, tristeza, fome, sede,  paixão, morabeza... 

E ainda bem que não foi atacado, invadido e ocupado (falo por mim, que tinha lá o meu futuro progenitor, entre 1941 e 1943; se o 1o. cabo  Luís Henriques tivesse morrido ou sido aprisionado, talvez eu não tivesse nascido, em 1947, nem muito menos conhecido a "cova do lagarto", que era Bambadinca, na antiga Guiné portuguesa...).

Mas se fosse, ou tivesse sido.... atacado, invadido, ocupado durante a II Guerra Mundial ? Poderia, sim,  forma condicional do verbo poder. Felizmente não o foi. Mas,  pelo menos, essa possibilidade foi seriamente ponderada tanto pelos Aliados como pelo Eixo, sobretudo devido ao valor estratégico das ilhas de São Vicente e Sal. 

Bom, o resto do arquipélago poderia ser vendido em leilão aos ratos da especulação imobiliária, com exceção talvez de Santo Antão que tinha água e milho, e Santiago, onde já havia um campo de concentração, no Tarrafal, coisa que dava sempre jeito aos novos senhorios...

O que é  que as meninas da  IA (ChatGPT/OpenAI e Le Chat/Mistral) dizem sobre isto ?

Aqui vai uma "condensação" do que apurei da minha amena  conversa com elas, as "meninas  da IA" (a americana, e a francesa)... Sobre a Gronelândia, não sei o que pensam (se é que elas "pensam mesmo")...Mas sobre a hipótese pouco provável de uma invasão duas ilhas em causa (São Vicente e Sal), elas parece que estão de acordo. 

Muito doutoralmente, dizem-me  o que eu já sabia:  que "há vários factores políticos, militares e geoestratégicos" (sic) que fizeram com que "isso nunca se concretizasse". 

E a acontecer, seria mais provável que a iniciativa pudesse vir do lado... dos Aliados. Imaginem!...Logo os "democratas". (Agora, percebo por que é que o Salazar, que era bimbo, e pouco ou nada,  republicano, e muito menos laico,  não gostasse mesmo nada dos americanos, protestantes, capitalistas e demoliberais!)... 

Mas vamos por pontos.


(i) Valor estratégico (relativo) de Cabo Verde

Cabo Verde ocupava (e ocupa ainda) uma posição crítica no Atlântico médio, particularmente relevante durante a guerra naval e aérea (e, nomeadamente, durante a II Guerra Mundial, em plena Batalha do Atlântico, quando ainda não havia misseis balísticos hipersónicos, intercontinentais..com ogivas nucleares.

  • São Vicente (leia-se: Porto Grande – Mindelo): um dos melhores portos naturais do Atlântico; importante ponto de reabastecimento de carvão, desde meados do séc. XIX, com a navegação a vapor, mais tarde, com combustíveis líquidos, como a nafta e o fuelóleo; nó de cabos telegráficos submarinos, vitais para comunicações internacionais, e nomeadamente de ligação entre a Europa, a África e o Novo Mundo;

  • Ilha do Sal: uma ilha plana, sem montes,  mas também sem água doce, excelente para a aviação de longo curso; potencial base aérea para controlo de rotas entre a Europa e a África, e a Europa e a América do Sul; valor acrescentado com a evolução da guerra aérea, e já dotada de um aeródromo construído antes da guerra pelos italianos, em tempo recorde;
  • está bem, amigos e manos mindelenses,  o Porto Grande não era assim tão grande, visto pelos olhos dos beligerantes,  era um porto importante, sim, mas a sua ocupação não traria vantagens decisivas para nenhuma das partes; as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o seu interesse estratégico; enfim,  eram "peanuts";
  • e depois as ilhas eram, naquele tempo, pobrezinhas, nem uma couve nem uma alface, enfim, ausência de recursos críticos: ao contrário de outras colónias (com "pitróleo", no Norte de África, sem falar das matérias-primas do Congo Belga, . Seetc.); a vossa santa terrinha não possuía recursos naturais que justificassem uma invasão de grande envergadura; e já bastava a fome de criar bicho, que lá se passava em anos de seca, desgraça e mortandade como foram os de 1942/43;
Mesmo assim,  Cabo Verde estava "debaixo de olho" dos beligerantes, ou seja,  no radar estratégico de Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Porque quando um gajo começa uma guerra, não gosta de perder (nem que seja a feijões!)


(ii) Interesse das potências do Eixo

  • Alemanha nazi: a Kriegsmarine e a Luftwaffe viam Cabo Verde como uma possível base de apoio aos U-boots (submarinos), a famigerada alcateia  dos "lobos cinzentos" mais temidos da história; ponto de interdição / interceção das rotas marítimas dos Aliadas; enfim, parece terem existido estudos preliminares (no papel) sobre ocupações de ilhas atlânticas (os alemães, nazis,  não brincavam em serviço, e eram duros de roer);
  • Itália fascista: interesse mais teórico e dependente do apoio do poderoso aliado alemão; ao Mussolini garganta, bravata, fanfarronada,  blá-blá, não lhe faltava, mas a "Grande Itália" também era um império de papel, de opereta,  como o de Salazar,   sem capacidade naval e muito menos aérea para uma operação autónoma tão distante (de Roma ao Mindelo eram mais de 5 mil quilómetros, hoje é tudo ao virar da esquina com o GPS, o Google Earth, a IA);
  • limitações decisivas do Eixo: falta de superioridade naval no Atlântico; ausência de bases próximas (África Ocidental); dificuldade extrema em manter linhas de abastecimento; risco de resposta imediata britânica; a Kriegsmarine estava já sobrecarregada com a Batalha do Atlântico e a Regia Aeronautica italiana tinha limitações operacionais fora do Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos romanos.
Na prática, uma invasão do Eixo era altamente improvável, embora fosse temida (em Lisboa e em Londres) (Afinal, "quem tem cu, tem medo".)

(iii) Interesse dos Aliados (Reino Unido e EUA)

Paradoxalmente, o maior risco para a soberania portuguesa em Cabo Verde vinha dos... Aliados, não do Eixo.

  • Reino Unido: tinha "planos de contingência" para ocupar "preventivamente" Cabo Verde, evitando que caísse nas mãos do megalómano do Hitler que queria construir o "Reich dos Mil anos" e de quem de resto o Salazar não gostava muito, por não ir à missa nem se confessar na Quaresma, aliás achava que era uma bárbaro,  identificando-se muitio mais com o Mussolini, embora este fosse demasiado histriónico, espalhafatoso e  demagógico para o seu gosto (e estragava a sagrada tríade, Deus, Pátria e Família: tinha uma  amante);
  • era uma estratégia, a britânica,  semelhante portanto à da ocupação, em 1940, da Islândia e das ilhas Faroé; 
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte), de maior valor estratégico que Cabo Verde (que não tinha vacas leiteiras); uma invasão deste arquipélago, de resto disperso, poderia comprometer essa relação, mesmo que fosse "paternalista" e "enviesada" (para invocar quando desse jeito aos "bifes");
  • Estados Unidos: após 1941, os EUA consideraram Cabo Verde (e mais ainda os Açores) crucial para a protecção de comboios; patrulhamento anti-submarino; enfim, havia planos (não executados) para ocupação caso Portugal não cooperasse com os Aliados, e sobretudo com os EUA;
  • os americanos (ainda o Trump não era nascido...) exerceram pressão diplomática sobre Salazar para que Portugal não cedesse bases aos "boches"; em troca, prometiam apoio económico e militar, o que, garantem as meninas da IA,  desincentivou qualquer eventual movimento do Eixo sobre Cabo Verde (e os Açores);
  • medo de uma reação em cadeia: uma invasão de Cabo Verde poderia levar a uma escalada indesejada, com Portugal a alinhar-se formalmente com o Eixo ou a permitir a utilização de outras bases (como as de Angola ou Moçambique, riscos em sais minerais, desculpem, em diamantes, minérios, petróleo, gás natural);
  • mas havia outras prioridades (tal como no caso de Timor): os EUA e o Reino Unido focaram-se em teatros de operação mais críticos, como o Norte de África, a invasão da Itália e a preparação para o Dia D; uma operação em Cabo Verde seria um desvio de recursos sem um ganho estratégico claro, significativo; "o quê, ir fazer uma operação anfíbia no Porto Grande, só para beber um grogue e ouvir a Césaria Évora cantar uma morna ?!... Ah, I'm sorry, pensava que a Cize já tinha nascido nessa época...Desculpem, nasceu em 27 de agosto de 1941, vou tomar boa nota", diz a menina da ChatGPT.
(iv) Porque é que, afinal,  Cabo Verde nunca foi ocupado? Ou pelo menos Mindelo e o seu "Porto Grande" ?

  • Neutralidade portuguesa: Salazar, que não era "saloio" mas beirão,  manteve uma "neutralidade pragmática"; essa neutralidade era mais favorável aos Aliados, mas cuidadosamente equilibrada.
  • Aliança Luso-Britânica: a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor (Tratado de Windsor, 1373) funcionou como forte travão político a uma ocupação aliada directa: uma invasão de território português poderia arrastar Portugal para o conflito, cenário que nem os Aliados nem o Eixo afinal desejavam;
  • a Alemanha e a Itália não tinham interesse em violar essa neutralidade, o que levaria a uma reação britânica ou mesmo à entrada de Portugal na guerra do lado dos Aliados, complicando ainda mais o raio do "tabuleiro de xadrez"  da II Guerra Mundial;
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte); para quê estragar uma relação que até nem funcionava mal de todo (tirando a "magna questão do volfrâmio", vendido aos alemães para fabricar bombas!);
  • diplomacia: Portugal acabou por permitir o uso de bases nos Açores (em agosto de 1943, com efeitoa a partir de outubro,  quando o Salazar, que não era parvo, viu que a sorte das armas estava traçada), e isso reduziu drasticamente a necessidade de ocupar Cabo Verde; permitiu aos Aliados controlar as rotas do Atlântico Norte e monitorizar os movimentos da Kriegsmarine (marinha alemã);
  • custos militares: a ocupação das ilhas atlânticas portuguesas violaria a neutralidade portuguesa, criaria problemas diplomáticos desnecessários, exigiria forças que os Aliados (ou as potências do Eixo) preferiram empregar noutros teatros, teria custos militares e humanos acrescidos, enfim, era mais uma "chatice";
  • lealdade das populações: a população local era leal a Portugal, garante a menina da IA francesa, apesar de a Pátria portuguesa ser mais "madrasta" do que "mãe" para os cabo-verdianos;  e, além disso, havia uma força militar, não negligenciável de 6 mil e tal homens (mal equipada, é verdade, mas sempre era um regimento, com porta-estandarte, corneteiro e tudo!), que ofereceriam alguma resistência a uma eventual invasão, implicando sempre um acréscimo de custos humanos e logísticos para qualquer potência invasora;
  • falta de infraestruturas: embora Mindelo fosse um porto natural relevante, as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o interesse estratégico; a engenharia militar teria que trabalhar no duro, a fazer horas extraordinárias, sem  cerveja, só "grogue", mornas e coladeras...

(v) Conclusão

Sim, teoricamente, Cabo Verde podia ter sido invadido ou ocupado durante a II Guerra Mundial, especialmente São Vicente e e até o Sal (sem falar em Santo Antão, que era a "horta" do Mindelo). Houve planos no papel e receios reais, sobretudo por parte dos Aliados. Mas o Eixo não tinha capacidade real para o fazer, embora não se importasse nada de "abocanhar" tanto os Açores como Cabo Verde.  A diplomacia (portuguesa, britânica, americana...) foi decisiva para evitar esse cenário.

Cabo Verde era, afinal, uma alternativa menos crítica: embora fosse importante para a navegação e a aviação, a sua localização mais a sul do Atlântico tornava-a menos prioritária do que os Açores para o controle das rotas entre a Europa e a América do Norte. 

Cabo Verde acabou por ser um exemplo clássico de território estratégico, protegido mais pela diplomacia do que pela força militar. 

Concluindo o nosso TPC (que deu um trabalho do caraças): meninos e meninas do Mindelo, a não-invasão de Cabo Verde pode ser explicada  por um conjunto de factores:  

  • neutralidade portuguesa e o respeito por essa neutralidade (que o respeitinho naquele tempo ainda era muito bonito); 
  •  prioridades estratégicas dos Aliados e do Eixo noutros teatros de operação (a tropa deles tinha mais que fazer); 
  • limitações logísticas e militares; 
  • diplomacia e negociações que evitaram a escalada do conflito; 
  • valor estratégico relativo das ilhas face a outros territórios.

Cabo Verde acabou por ser um "ponto cego" estratégico (gosto desta metáfora!), onde nenhuma das partes viu vantagem suficiente para justificar uma invasão.  

Desculpem lá, se dececionamos os "mandrongos" e os "patrícios"...

Pesquisa: LG + ChatGPT / OpenAI | Le Chat / Mistral

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG
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Nota do editor LG:

Último  poste ds série > 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II