sábado, 23 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22654: Os nossos seres, saberes e lazeres (473): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (14): Aquelas bibliotecas, escolas e centros escolares que ajudaram a despontar a I República (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
Os ideais de instrução pública, de ilustração e propagação da ética republicana despontaram concretamente a partir de 1880, os republicanos passavam a ter desempenho municipal, fizeram propostas a escolas e bibliotecas, de forma colateral o Partido Republicano criava centros escolares onde se ensinava e incidentalmente se disseminava o ideal republicano, forma cuidadosamente escolhendo áreas operárias, bairros populares, usaram a educação e o ensino como bandeiras. Pouco resta desse universo, os centros escolares republicanos entraram no ocaso, estranha-se a displicência com que é encarado o Centro Republicano Almirante Reis pela importância histórica que desempenhou como fermento do 5 de outubro e pelo acervo que guarda, não se entende o abandono cultural que está entregue; mas farol daquele tempo é aquela Biblioteca de São Lázaro, ali no Desterro, entre o Martim Moniz e o Campo Mártires da Pátria que hoje vos convido a visitar, é grato o dever de memória e sentir que se mantém como biblioteca vivíssima.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (14):
Aquelas bibliotecas, escolas e centros escolares que ajudaram a despontar a I República


Mário Beja Santos

Um eminente pedagogo, o professor Rogério Fernandes, investigou e publicou a história dos ideais de instrução e ensino que os próceres republicanos puseram em prática durante a Monarquia Constitucional e implantada a República. Só conhecendo esta atividade é que se poderá entender a visita que vamos fazer à primeira biblioteca municipal de Lisboa, a Biblioteca de São Lázaro, que abriu ao público em 5 de agosto de 1853, anexa à Escola Municipal N.º 1. Neste mesmo espaço já havia uma biblioteca escolar num edifício mandado erigir por Elias Garcia. Este republicano foi professor da Escola do Exército, jornalista, político, coronel de Engenharia do Exército Português. Foi vereador da Câmara Municipal, personalidade maçónica de relevo, onde esteve 38 anos, com o nome de Irmão Péricles. Morreu pobre, tudo investiu em proveito dos seus ideais republicanos e para dar vida ao jornal Democracia, de que foi fundador.

Os avatares republicanos punham no topo das prioridades a instrução, o conhecimento, a criação de estabelecimentos públicos de ensino, de bibliotecas e de centros escolares. Estes últimos foram-se extinguindo, o que é dano cultural grave, o Centro Escolar Republicano Alferes Malheiro, de que fui membro, tinha escola e sócios devotadíssimos, um deles deixou em testamento um prédio na Rua da Escola Politécnica, tais eram as suas convicções e fé no papel do ensino. Conheci igualmente o Centro Escolar Fernão Boto Machado e ali perto o Alberto Costa, completamente desaparecidos, o civismo republicano jamais soube atualizar-se por via destes ideais de instrução pública e da propaganda cívica e da ética republicana.

É a contemplar um edifício de arquitetura neoclássica, bem equilibrado, sabendo da sua importância histórica, aqui entrando para desfrutar da sua sala de leitura, magnífica, pois o ideal da instrução e da iluminação cultural exigiam construções exemplares, recorde-se a fachada da Voz do Operário, outro templo de ideais republicanos. São Lázaro é um verdadeiro ícone, tem conhecido remodelações e acréscimos que já não está circunscrita a milhares de livros encavalitados e a uma sala de leitura.


A Biblioteca de São Lázaro na atualidade
Fotografia de José Elias Garcia, vereador do Pelouro da Instrução Municipal, 1873
Uma bela tapeçaria de Almada Negreiros

A primeira biblioteca popular surge anexa à Escola Municipal n.º 1, que a partir de 1938 passou a ser designada com o nome de Biblioteca de São Lázaro. Até à instauração do Estado Novo foram proliferando em Lisboa biblioteca populares e bibliotecas municipais, em 1891 Lisboa contava com cinco bibliotecas municipais e outras três em fase de organização. Em 1926, o município contava com quatro bibliotecas: a do 1.º bairro, na Travessa de São Vicente; a do 2.º no Largo do Edifício da Escola Municipal; a do 3.º na Rua da Boa Vista; a do 4.º na Calçada da Tapada, em Alcântara. Foram todas encerradas com a chegada da Ditadura exceto a Biblioteca Municipal de São Lázaro. O seu acervo, em 1938, ultrapassava os 8 mil volumes.


A biblioteca tem tido obras, entre 1992 e 1993 foi alvo de um processo global de reestruturação, conheceu uma ampliação do espaço de uma para quatro salas, ficando dotada de um setor audiovisual e infantojuvenil. Voltou a encerrar em 2000 para receber a coleção do padre Ruela Pombo, uma coleção de livros infantis que reúne mais de cinco mil exemplares.


É muito bom percorrer este espaço que como se vê é bem aproveitado por quem estuda, é uma memória viva da popularização da cultura republicana, quando se sonhava em formar um professor culto, o ideal “missionário” capaz de empurrar os seus discentes da escola para a biblioteca. Este local do Desterro está perto da Rua de São Lázaro, se o visitante vier com tempo sobe até ao Campo dos Mártires da Pátria, tem muita arte a ver dentro da Escola de Medicina ou visitar o Goethe Institut ou percorrer a zona circundante do Jardim do Torel, desfrute de uma panorâmica magnífica; ou então descer, há muita renovação de edifícios até ao Martim Moniz, vale a pena deambular por ali, a freguesia de Arroios é a mais multiétnica de Lisboa, há para ali comes e bebes de dezenas e dezenas de países. Mas comece primeiro por ir por este cadinho de ideais republicanos, não se sentirá defraudado.


(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 16 DE OUTUBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22635: Os nossos seres, saberes e lazeres (472): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (13) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22653: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (19): ilha de Soga, arquipélago dos Bijagós, junho de 2021 (Parte I)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Soga, com as suas três tabancas: Eguebé, Etamburo e Ancaninho). Imagem: antiga carta militar do exe´exército português.

Infografia: Patrício Ribeiro / Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2021)



Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Junho de 2021 > Em primeiro plano, o Patrício Ribeiro, no sue bote, a caminho da Ilha de Soga,



Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Soga >  Junho de 2021 > Hitel cinco estreas: tenda reforçada com oleado (em caso de chuva)



Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Eguebé > Mulher



Foto nº 4.1 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Eguebé > Almoço



Foto nº 4.2 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Eguebé > Poilão


Foto nº 4.3  > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Eguebé > Homem Grande



Foto nº  5 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Safra do caju



Foto nº  6 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Fonte a céu aberto


Foto nº  6.1 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Painéis solares



Foto nº  6.2 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Eguebé > Bomba



Foto nº  6.3 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Bomba solar



Foto nº  7 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Abertura de poços e horta conunitária



Foto nº  8 > Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós >  Junho de 2021 > Ilha de Soga > Tabanca de Etamburo > Jardiim de infância


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. M
ensagem de Patrício Ribeiro (português, natural de Águeda, da colheita de 1947, criado e casado em Nova Lisboa, hoje Huambo, Angola, ex-fuzileiro em Angola durante a guerra colonial, a viver na Guiné-Bissau desde meados dos anos 80 do séc. XX, fundador, sócio-gerente e director técnico da firma Impar, Lda; membro da nossa Tabanca Grande, com cerca de 110 referências no blogue):



Data - 17 out 2021, 13:40

Assunto - Fosto da ilha de Soga

Junto mais umas fotos, da Ilha de Soga “quem vai, já não sai”. ( Foto nº 1, mapa de Soga, arqupélago dos Bijagós)

1ª Parte

Nos meus passeios nos finais de Junho de 2021, desta vez pelos Bijagós, resolvi ir acampar na ilha de Soga, (Foto nº 2,  bote) como a chuva andava perto reforcei o telhado com uma lona. (Foto nº 3, tenda)

Esta ilha, composta por 3 tabancas (Ancaninho, Etamburo e Eguebé, as mesmas da carta militar (ver foto) está bastante preservada culturalmente: muitas casas de palha, muitos animais domésticos a passear por toda a ilha, vacas, porcos, cabras etc. (Fotos nºs 4, 4.1, 4.2, 4.3)

Nesta época do ano o negócio, era a castanha de caju, as adegas do vinho de palma já estavam vazias tinha havido grande consumo nos meses anteriores (Foto nº 5)

Como por toda a Guiné nesta época, na ilha é muito difícil encontrar água, existem uns poços a céu aberto, sem proteções contra a caída dos animais ou pessoas, junto ao mar onde as mulheres e raparigas a vão apanhar muito longe, a 2 Km da tabanca. (oto nº 6)

Existe um projeto que a ONG AIDA Espanhola, com financiamento da União Europeia,  está a instalar água potável, com fontanários nas 3 tabancas da ilha, com furos aproximadamente a 40 mt de profundidade. Pediram-nos a nossa colaboração, para o sistema de bombagem solar. (Fotos nºs 6.1, 6.2, 6.3).

Nas mesmas tabancas, estão a ser criadas hortas comunitárias, vedadas com rede metálica, (há muitos animais soltos pelo mato), daí, uma equipa de poceiros da Tabanca de Cambaju, no  nordeste, estar a abrir em cada horta, diversos poços com mais de 20 mt de profundidade, para apanharem água manualmente e a população vai beneficiar muito de produtos cultivados na própria ilha (Foto nº 7).

Nesta ilha, como em outras ilhas, quando as crianças falam comigo, falam em português. Provavelmente é porque entre eles falam o Bijagó e não o Criolo. Depois nas escolas é-lhes ensinado o português, por professores dedicados.

Existem algumas escolas, nas diversas Tabancas. Na tabanca de Etamburo, há escolas. Com o apoio da “ONG SOGA” portuguesa, com fundos próprios de alguns amigos (Foto nº 8).

Vamos,  por estes dias, instalar iluminação solar, para aulas noturnas e projeções de conteúdos. Não há iluminação na ilha, nem para carregar o telemóvel.

Segue o restante em outro email

Abraço, 
Patricio Ribeiro

impar_bissau@hotmail.com

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de outubro de 2021 > Guiné 61/74 - P22614: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (18): as meninas do rio Gambiel, no regulado do Cuor, à pesca...

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22652: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (75): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Outubro de 202

Queridos amigos,
Paulo responde a um pedido de esclarecimento de Annette, ela não sabe em rigor o que é o fenómeno do macaréu, e interroga também o estado de espírito de Paulo numa fase em que a comissão militar pode acabar a qualquer momento, ela sente uma profunda melancolia, há muita gente a partir e que o acompanhou ao longo destes quase dois anos, vive-se naquela permanente estafa de patrulhas de reconhecimento, colunas ao Xitole, visitas às tabancas em autodefesa, vigilância no novo ordenamento dos Nhabijões, atividades operacionais avulsas, é nisto que o major de operações do novo batalhão o previne que ele e os seus homens, mesmo adoentados, vão garantir a segurança a quem trabalha no alcatroamento da estrada entre Xime e Bambadinca, uma vigilância que consome doze horas consecutivas. E como lhes disse o novo major de operações, chegado ao fim de julho, logo se verá, se não receber informação sobre o fim da comissão irá para um destacamento, nessa altura toma-se a decisão de qual.

Um abraço do
Mário



Rua do Eclipse (75): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Boa noite, minha estrela da manhã. Julgo importante tecer alguns comentários aos elementos que te enviei relativamente ao período sobrante de junho e dar-te uma panorâmica das minhas atividades no mês de julho, como te referi no início de agosto recebo o guia de marcha para Bissau, onde fico a aguardar transporte, virei no navio Carvalho Araújo que atracará na mesma doca de onde parti em 24 de julho de 1968. E tentarei dar algumas respostas a questões que tu me pões. Sentes-te intrigada com o fenómeno do macaréu, que é bastante raro e circunscrito a um conjunto de rios em todo o mundo. Curiosamente, na minha última passagem por Bissau, por razões do julgamento de Quebá Sissé, estive no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, sabes bem que tinha sempre um caderninho no bolso, bem repimpado numa cadeira destas instalações dei comigo a ler uma conferência que foi proferida na Sociedade de Geografia de Lisboa em maio de 1946, na sessão solene comemorativa do V Centenário do Descobrimento da Guiné. O autor, de nome Marques Mano, logo me encantou pela embriaguez das suas sonoridades a descrever o macaréu, é brilhante na movimentação, prende-nos do princípio ao fim, gostei tanto que tomei nota de tudo, transcrevo o que tanto me deslumbrou e continua a deslumbrar:
“Para ir tão longe, a maré não encontra a sua frente leitos abertos e vazios; encontra nos dois rios doces que convergem na testa do estuário central, leitos onde, de margem a margem, corre uma toalha de água doce que desce com rapidez. Deste modo é obrigada a subir em macaréu. A maré-cheia, empurrada do largo estuário para o rio estreito, encontra-se com aquela corrente contrária que lhe trava os filetes da água inferiores e os que, correndo livremente sobre esses, vão cair sobre ela. Deste modo, a maré é continuamente represada ao longo do percurso do rio, a água que chega galga a represa, para ser também travada, e a altura da enchente sobre a vazante aumenta deste modo incessantemente, até que a enchente se enrola numa vaga grossa poderosa que corre sobre a vazante… O trovejar da enorme vaga ouve-se a alguns quilómetros de distância ainda lá no fundo da floresta. Calam-se os homens e os animais bravios para escutar o monstro que sobe o rio correndo. Quando chega, as cordas de água precipitam-se em vertiginosa desordem contra a vazante, contra as margens, contra as árvores ribeirinhas, espadanando, enrolando-se em remoinhos, arrastando à sua frente quanto se lhe oponha. Passa, e o corpo líquido, sinuoso e rápido do monstro, enche o leito do rio e continua correndo e rugindo”.

Espero, meu adorado amor, que este texto te sensibilize para a grandiosidade deste espetáculo da natureza. Sobre os tornados, mandei-te também outra documentação, acredita que assisti a um ainda na margem do Geba, na bolanha de Finete, aquelas ventanias furiosas que açoitavam e atormentavam as gentes em Bambadinca, o faiscar dos relâmpagos, a sensação de que aquele ciclone tem a velocidade de um tufão, desfaz as árvores, levanta os telhados, as chapas zincadas parecem voar como folhas de papel e subitamente o ciclone cala-se, volta o calor, o céu limpo, o ar imóvel parece ter feito desaparecer a tormenta que assolou os homens, a vegetação, os edifícios.

Quero-te confessar o meu estado de espírito neste tempo, estamos em plena época das chuvas, saiu e entrou muita gente no meu pelotão, continuo naquela girândola de colunas ao Xitole, escoltas, patrulhamentos noturnos, acompanhamento das obras intensas nos Nhabijões. Há separações que me custam muito, por exemplo o Teixeira das transmissões, o Barbosa da boina verde, até ao Domingos Silva, o meu intérprete quando converso com alguém que fala exclusivamente crioulo. Apercebo-me que estou a viver uma situação um tanto semelhante àquela que um querido amigo meu, o pintor Manuel Botelho, desenvolveu num trabalho em torno de uma farta correspondência que adquiriu na Feira da Ladra, ela em Lisboa, num bairro popular, ele no Bachile, um recôndito para lá do Cacheu. Ao princípio, a narrativa dele é acalorada, é um descobridor que faz crónica para a sua namorada, fala-lhe do que é o quartel, o arvoredo, a comida, a população local, as amizades nascentes; ela responde, sempre marcando a prosa pelos caminhos da saudade, fala-lhe do trabalho e da família, põe-lhe perguntas, pede-lhe encarecidamente que seja prudente, ama-o de todo o coração. E nesta correspondência trocada ao longo do ano sentimos a palpitação e o confronto que um vai dando ao outro. A partir do segundo ano começa-se a notar que há um cansaço, há muita emoção estafada, ela pede-lhe por amor de Deus que escreva mais e que lhe diga se a ama como quando partiu para a guerra, ele queixa-se da dureza da vida, começamos a ver aquele correio a rarear, as frases curtas, a secura, a profunda melancolia, ele não esconde que tem medo do futuro. O Manuel Botelho transformou toda esta correspondência numa instalação, impressionou-me profundamente, criou um ambiente alusivo à guerra de um lado e a um ambiente doméstico do outro lado, e vamos sentindo a passagem da vivacidade à dolência, parece que as palavras se vão gastando, a distância tornou-se devastadora, imobilizou aqueles dois jovens amantes, são dois confidentes em plena solidão. E o talento do artista é deixar-nos em suspenso sobre o que representará o regresso do combatente e se ainda haverá vida e amor que baste naquela relação.

A melancolia, aquele sabor amargo da rotina, a partida daquela gente do batalhão com quem me relacionara na perfeição, a chegada de nova gente, a perceção de que era inútil falar-lhes do que eu pensava do Xime ou das populações em autodefesa, em muito contribuiu para que eu mantivesse a preocupação de cumprir à risca o que os novos comandos ordenassem. E é por isso que volto àquele ataque a Demba Taco, de que falámos recentemente. Em resumo, voltei daquele patrulhamento na região de Semba Silate, lá comprovei a existência de indícios de gente da guerrilha que por aqui passava, caminhava-se para o fim do dia e dirigi-me a passo estugado para Amedalai, daí podíamos regressar de viatura, neste tempo já se picava a estrada até à Ponte de Undunduma, num ápice estaríamos em Bambadinca. É nisto que começamos a ouvir deflagrar estampidos em cadência, pomos o ouvido à escuta, distinguem-se perfeitamente as saídas dos canhões sem recuo, os morteiros 82, a cantilena das costureirinhas, nome por que tratávamos as pistolas-metralhadoras cujo som se aparenta com o das máquinas de costura. Converso com Mamadu Bari, o comandante da milícia de Amedalai, é Demba Taco que está sob fogo. Decido não regressar a Bambadinca, comunica-se pelas transmissões e pede-se que ao nascer do dia venham viaturas até Amedalai, iremos ajudar quem está sob a tormenta, manda a prudência que não nos devemos pôr a caminho na noite escura, há que pensar em minas e emboscadas. E vamos assistindo ao fogo nos céus, há seguramente moranças atingidas.

Com a alva, vieram dois Unimog, uma secção em cada uma deles, já está gente a picar a estrada, há gente a pé e gente sentada, vamos todos preparados para o pior, mas não há sinal de guerrilha até chegarmos à tabanca em autodefesa de Taibatá, aqui está tudo calmo, continuamos a picar e o vento traz-nos o odor a queimado, entra-se em Demba Taco, sente-se no olhar de toda aquela gente o reconhecimento pela nossa vinda, Cherno Baldé, o comandante da milícia local, a máscara da exaustão, acompanha-nos na visita aos escombros do ataque devastador. E aqui te deixo, minha adorada Annette, outra reflexão, será que esta guerra é exclusivamente de libertação ou não é também uma guerra civil, já que esta população, predominantemente Beafada, jurou não querer participar na guerrilha, dizem-se portugueses, lembro-me do que vivi no Cuor, um régulo que foi ameaçado e que não aceitou as exigências do PAIGC, como todos estes seres nascidos na Guiné pilham e raptam, lançam o terror, vivem no estado absoluto da intimidação. Regressa-se prontamente a Bambadinca e nessa mesma tarde se trouxe o que de Demba Taco precisava: cunhetes de munições, rolos de arame farpado, tesouras corta-arame, uma prenda em sacos de arroz. Cherno Baldé não se cansa de me dizer que estão a pagar o abandono de Moricanhe, que nosso alfero me desculpe, não ter dado meios para os de Moricanhe continuarem a lutar aumentou confiança da gente do mato, haverá mais perigo para o Xitole e nós vamos sofrer mais.

Em Bambadinca, relatei ao novo major de operações o que vi e ouvi, não tinha ilusões que iria ficar tudo na mesma, o novo batalhão estava em fase de adaptação e não queria ousadias. À saída, o dito major informou-me que vou andar mais uns dias entre a ponte de Undunduma e estadias nos Nhabijões, durante o mês de julho ser-nos-á dado como principal incumbência a segurança diária nos trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. São as notas que eu agora estou a preparar, minha adorada Annette, infelizmente só guardei recordações, não encontro qualquer referência no meu caderninho desse tempo. É muito tarde, recebi hoje mensagem que tenho que telefonar amanhã com urgência para Bruxelas, o responsável pelo departamento dos consumidores da Confederação Europeia dos Sindicatos, o alemão Gottfried Scholtak, quer falar comigo. E à noite telefono-te, bisous milles, plus milles et plus milles, Paulo.

(continua)

O macaréu
Neste local, à direita, junto da paliçada, ocorreu em outubro de 1969 uma mina anticarro que me mudou a vida. Tirei esta fotografia um bom par de anos depois, na verdade o homem é capaz de transformar a natureza e fazer esquecer que naquele ponto houve muito sangue derramado
Vista aérea do Xime
A estrada Xime-Bambadinca e a picada Amedalai-Taibatá-Demba Taco, prosseguia até Moricanhe
Os trabalhos da TECNIL na estrada entre Xime e Bambadinca
O espetro de uma mina, aguarela de Manuel Botelho
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Nota do editor

Último poste da série de 15 DE OUTUBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22632: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (74): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P22651: "Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar" (texto cedido pelo escritor ao José Martins para publicação no blogue) - Parte IX: Bissau e Contuboel. Consulta de psiquiatria. Poema "O Menino de Sua Mãe". Nascimento do primeiro filho. Exame em Bafatá de militares sem a instrução primária. Sedução da senhora professora, cabo-verdiana... (Set - dez 1966)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Contuboel > 16 de Dezembro de 2009 > O João Graça, médico (, hoje psiquiatra e psicooncologista)  e músico, posando ao lado do dignitário Braima Sissé. Por cima deste, a foto emoldurada de Fodé Irama Sissé, um importante letrado e membro da confraria quadriyya [, islamismo sunita, seguido pela maior parte dos mandingas da Guiné; tem o seu centro de influência em Jabicunda, a sul de Contuboel; a outra confraria tidjanya, é seguida pela maior parte dos fulas].

O Braima Sissé foi apresentado ao João Graça como sendo um estudioso corânico, filho de uma importante personalidade da região, amigo dos portugueses na época colonial [, presume-se que fosse o próprio Fodé Irama Sissé].

Foto: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da (re)publicação do "Diário de Guerra", do nosso camarada açoriano e escritor Cristóvão de Aguiar (1940-2021), que faleceu na passada dia 5, aos 81 anos (*).

Organização: José Martins; revisão e fixação de texto (para efeitos de publicação no nosso blogue): Virgínio Briote (,a partir da parte VI, Carlos Vinhal).

Estes excertos, que o autor cedeu amavalmente ao José Martins, para divulgação no blogue, fazem parte do seu livro "Relação de Bordo (1964-1988)" (Porto, Campo das Letras, 1999, 425 pp). (**)



Cristóvão de Aguiar.
Foto: Wook (com a devida vénia...)


Diário de Guerra

por Cristóvão de Aguiar

(Continuação)


Bissau, 20 de Setembro de 1966


A Otília embarcou hoje para Lisboa. Viemos de cima, do mato, há três dias. Seguiu há pouco num avião militar, com uma bar­riga enorme de quase sete meses. Deve nascer o pimpolho em fins de Novembro, princípios de Dezembro. Vou ficar em Bissau durante mais uns tempos para me tratar, que não consegui aguentar-ne nas canetas psicológicas.

Bissau, 26 de Setembro de 1966

Poema para minha Mãe, que faz hoje quarenta e sete anos de vida:

“O MENINO DE SUA MÃE”

- Mãe, que é do teu menino,
Tão breve,
Brincando no caminho,
Em corridas de pé leve,
Guindando as poças da chuva,
Que caía em desatino
E logo estiava num instantinho?
- Que será feito do arco e do pião
E da fieira que se apertava no bojo como uma luva
Que o teu menino, à mão, zunindo, o lançava,
E da Lua clara que nem lampião,
Que, vagarosa, no céu viajava?

- Onde o marulho do mar
Que aquietava o teu menino,
E dos barcos de papel
Nas valetas rasas de água a cirandar?
Que lhe destinaram do destino
De flores e mel
Que lhe afian­çaste outrora?
E da Paz das noites benditas,
Do Deus em que ainda acreditas
E que o teu menino foi esquecendo,
Não O compreendendo
Por desdita agora?

- Onde o berço
Em que o embalavas,
E das preces da hora do deitar
- Nunca o terço! 
-
(Com Deus me deito, com Deus me levanto...)
E dos casos que lhe con­tavas,
E das cantigas soando a mar
(Assim era o teu canto!)
Que devagarinho en­toavas
Para teu menino nanar?
- Dize-me, Mãe, onde morreste
O teu menino?, em que desvão o escondeste
Para o ir procurar?

- Sabes, Mãe, o teu menino está tão di­ferente:
Velho e absorto
E sobretudo tão ausente
(Dir-se-ia quase morto)...
O teu menino
Já não salta ao eixo
Rebaldeixo
No adro paroquial,
Nem no ci­mento da Avenida...
Nem tão-pouco joga (o que é o destino),
O seu pião de fieira colo­rida,
Que há tanto tempo se rachou...
E o arco de ferro forjado,
Com a sa­pata feita do mesmo metal,
Foram-se enferrujando num recanto
Da encantada casa-de-trás...
Depressa 
- o tempo foge -,
O teu menino tornou-se rapaz
E dá a viva ideia de que é hoje
Uma visão alucinada de soldado...

Onde já lá vão as guer­reias
Tra­vadas na Canada da Sabina
Em que havia muita pedrada,
Baba e ranho, alarido e arengada,
Chegando o sangue a esguichar das veias?...

Ficava a Canada quase em frente
Da casa de madrinha Rufina,
Que um dia se despediu da gente
E se foi para a Amé­rica no voo da carreira...
Tudo então se passava entre o rapazio:
Os de Cima e os de Baixo, que, cheios de brio,
Defendiam à tapona e à porrada
A rigorosa fron­teira
Que separava os de cada lado da Canada...

Entre­tanto toda a vida se en­rodi­lhou,
E ela tem agora um travo a puro fel...
Só da noite mais noite é te­cido o teu menino,
Vive ainda em maior escuridão que o destino,
Que se não cum­priu e ficou em ruínas
- São as nossas sinas 
-
Mas nunca se há-de ele es­quecer
Que um dia que já não existe
De teres prometido ao teu menino
(Ele não se lem­bra agora se já então era triste),
Embarcado em seu batel de ilusão
E de papel,
O tal des­tino
Que, como vara de condão,
O haveria de transmu­dar em flores e mel...
Todavia, cá dentro, ele perma­neceu e continua refém...
Há-de ser resgatado, quem sabe, na Banda do Além...

A tua bênção me cubra, minha Mãe!


Bissau, 27 de Setembro de 1966

Aqui estou há mais de uma semana em trata­mento psiquiátrico. Vejo tudo envolto numa película de sono saboroso! Comecei por matar vacas e carneiros a tiro de Walter e de G3. Faziam barulho, mééé, e eu não su­portava o mínimo ruído, sobretudo de noite. Havia, porém, quem matasse carreiros de formigas com a G3. Mas eu pagava o prejuízo aos seus donos. Se era alta noite, gri­tava pelo cozinheiro e seus ajudan­tes e mandava que esquarte­jassem os animais, para que depois a carne servisse para o nosso sustento. Chamava depois os indígenas, seus do­nos, logo de manhã ao quartel, per­guntava-lhes o preço dos ani­mais e pagava o que me pediam. Matava gatos também, mas esses ti­nham sete fô­legos e levavam muito tempo a morrer: esper­nea­vam e miavam de tal ma­neira, que quase me en­doideciam. O pior foi o ensaio de pancadaria com cavalo mari­nho que dei num furriel. Mandei a Otí­lia para casa de um comerciante cuja mulher convivia por vezes com a minha, pre­tex­tando-lhe que queria ter uma conversa em particular com um militar. 

Foi a gota de água que fez com que o médico da com­pa­nhia me vi­es­se a sugerir, com muito bons modos, que, quando fosse a Bissau levar a Otília, ficasse por lá, a fim de des­cansar. Estava com o meu grupo de com­bate em Sonaco há mais de um mês. Ali era o re­pouso do guerreiro. Tinha um cachorro lindo, arra­çado de setter. Andava um dia a passear, ao lusco-fusco, na rua com­prida de So­naco, quando ouço atrás de mim o jipe da patrulha. Não deram por mim, que an­dava na berma. Só enxergaram o cachorro, que vinha no meio do caminho. E ouço então o furriel a dizer para o con­dutor: "Mata o cão do nosso alferes. " Não foi pre­ciso mais nada. Denunciei a minha pre­sença e ordenei-lhe que se apre­sen­tasse no quartel imediatamente. Obedeceu. Depois levei-o até à minha palhota. E foi en­tão que lhe toquei a pavana com o ca­valo marinho. Mas, não há dúvida, os medica­mentos que estou to­mando estão produzindo bom efeito. Já vou exercendo autocrí­tica sobre os meus actos passa­dos.


Bissau, 5 de Outubro de 1966

ALMA DOLENTE

A tristeza das coisas ao sol poente,
Falando, muda, numa voz precisa,
Escuta-a quem tem a alma dolente
E a dor de uma ânsia que se eterniza.

O Universo absoluto é uma ferida,
Lateja, arde, geme, sem compasso...
Dói tudo no silêncio, e a própria vida
Escorre vagarosa em gotas de cansaço...

Oh negrume tropical, noite africana,
Oh escuridão do medo em cada esquina
Com a vida enforcada em pó e lama,

Arranca do ventre tuas vinganças
E este ódio que as almas assassina
E deixa o Sol brincar com as crianças...


Contuboel, 7 de Outubro de 1966

O Dakota militar, vindo de Bissau, fez-se à pista térrea de Bafatá. Mas, quando tocou no solo, foi-se desviando para o mato, meio desasado. Parou a tempo de não haver desgraça. Tinha rebentado um pneu de uma das rodas do trem de aterragem. 

Como era dia de santo correio, estavam um jipe e um Unimog da minha companhia no aeródromo e assim aproveitei a boleia e vim logo para casa, que já tinha saudades dos meus cães e dos serões ouvindo a Voz da Liberdade e das tertúlias poéticas, em que lia, em voz alta, para um grupinho muito restrito, os versos da Praça da Canção, de Manuel Alegre, e também da Antologia da Poesia Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, que, por tal facto, teve de responder em tribunal, tendo a obra sido apreendida. Mandou-ma um elemento do Movimento Nacional Feminino, quando aqui esteve uma delegação de três meninas universitárias. Pedi-a no gozo. Nunca julgava que, ao fim de um mês, tivesse nas mãos uma obra proibida pela PIDE, enviada por quem foi.

[Imagem à esquerda: Capa da 1ª edição da "Poesia Portuguesa Erótica e Satírica", Lisboa, Afrodite,  organizada em 1965 por Natália Correia (1923-1993), com ilustrações de Cruzeiro Seixas (1920-2020). O atrevimento da açoriana, também de São Miguel, valeu-lhe, em 1970, a condenação a 90 de prisão correccional, no Tribunal da Boa Hira, com pena suspensa por 3 anos, por ofensa aos bons costumes. Editor e autores também foram condenados. Lembro-me. nos meus 18 anos,  da corrida à 1ª edição, de 1965,  que rapidamente se esgotou antes de ser apreendida pela PIDE. Cortesia de Livraria Trindade]. 


Contuboel, 10 de Outubro de 1966

Chegou há semanas, estava ainda em tratamento em Bissau, uma ordem do comando-chefe, via batalhão de Bafatá, destinada a todas as unidades do mato, sobretudo àquelas prestes a partir, avisando que os soldados que não sabem ler nem escrever terão de embarcar da Guiné pelo menos com o exame do primeiro grau, ou seja, a terceira classe da instrução primária; caso contrário, quando chegarem à Metrópole, não poderão ser desmobilizados e ficarão nas respectivas unidades até concluírem aquele exame. 
O mesmo acontecerá àqueles que, tendo embora o exame do primeiro grau, saírem daqui sem o diploma do exame da quarta classe. 

É uma ordem injusta, não por ela em si nem pelo seu alcance, mas pelo facto de estarmos a pouco mais de três meses do regresso e não haver tempo suficiente nem condições psicológicas para uma intensiva preparação escolar dos soldados em tamanho estado de indigência cultural. 

Por outro lado, também não se percebe muito bem o súbito interesse das hierarquias militares pelos seus homens analfabetos e pelos outros que só têm a terceira classe. Deve ser para dar alimento às estatísticas. O capitão pôs logo mãos à obra, isto é, nomeou alguns voluntários e já se começou há tempos a dar escola. Dois furriéis milicianos e um alferes (eu próprio, que me juntei há pouco), iniciaram então a tarefa de mestre-escola. 

Garanto que toda a gente irá embarcar com o seu diploma na mão, custe o que custar. Por desmobilizar é que não ficam, não senhor. Era o que faltava, depois de uma comissão desta natureza, permanecerem os pobres coitados retidos no Regimento de Infantaria 15, em Tomar, até completarem os estudos. Os alunos são em número de dez: seis que não enxergam uma letra e os outros quatro pouco mais sabem, pois têm um primeiro grau muito atrasado e esquecido.


Contuboel, 23 de Novembro de 1966

Estava sentado no estabelecimento do comerciante português, lendo O Arauto, o pasquim da província, e fumando intensivamente cigarro atrás de cigarro, quando chega o nosso capitão com um papel numa das mãos. Era um telegrama que tinha vindo via rádio, anunciando-me que era pai. Fiquei néscio e sucinto. Pai! E escrevi, num aerograma amarelo, um poema ao meu filho José Manuel, a primeira missiva que recebe na vida, que ainda agora principiou...


Bafatá, 12 de Dezembro de 1966

Exame dos alunos da Companhia de Caçadores 800. Cometi um acto sacrílego, mas não havia outra escapatória. Sacrilégio maior seria deixar que estes homens ficassem na tropa mais alguns meses, ou um ano, sei lá bem, depois de terem sofrido o que sofreram nesta guerrilha diabólica de nervos e do resto, que foi ainda pior. 

Falei com a senhora professora, uma cabo-verdiana lindíssima, de fazer refrear a respiração. Disse-lhe da minha justiça e das minhas intenções. Ela, com o seu brio profissional à flor da pele sedosa:

- Não, senhor alferes, não posso consentir numa palhaçada dessa natureza, pelo amor de Deus. 

Principiei a seduzi-la e ela foi caindo de tal modo na esparrela, que, quando a convidei a sair da sala de exame, obedeceu, sem pestanejar. Depois. Olha, depois! Depois, encarreguei-me eu próprio de fazer o exame escrito, com caligrafia de principiante, a condizer, dos seis semi-analfabetos, que o tempo de aprendizagem e a disposição de ensinar foram mesmo muito escassos, enquanto os meus camaradas se incumbiram dos restantes. 

No fim, ficaram todos aprovados e a professora, ao entrar na sala após ter sido avisada de que terminara a prova para lhe entregarmos as respostas, lançou-me uns olhos tão doces, que me deu vontade de lhe tomar lições de qualquer disciplina.

Contuboel, 25 de Dezembro de 1966

Uma noite de Natal já com um grão de esperança no seu ventre e outro bem pesado na asa. Daqui a menos de um mês, vamos de abalada. Até parece mentira. As cruzinhas estão chegando ao fim. (**)

(Continua)

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22650: In Memoriam (415): Torcato Mendonça (1944-2021), ex-Alf Mil Inf da CART 2339, falecido em 13 de Outubro - Agradecimento da família e mensagens de condolências dos camaradas e amigos



1. Agradecimento público da família do nosso camarada Torcato Mendonça, falecido no passado dia 13 de Outubo, enviado ao Blogue pela nossa amiga Ana Mendonça através do WhatsApp:

Boa tarde Carlos Vinhal
Envio PDF do anúncio de agradecimento do Torcato porque sei que o TM ia gostar, fazemos referência aos amigos da Guiné através do blog.
Beijinhos nossos
Ana



2. Seguem-se os comentários de condolências, deixados no poste do dia 13 de Outubro de 2021 Guiné 61/74 - P22625: In Memoriam (412): Torcato Mendonça (1944-2021), ex-Alf Mil Art da CART 2339 (Mansambo, 1968/69). Este poste tem mais de 3 centenas de visualizações e mais 3 dezenas de comentários.


José Marcelino Martins disse...
Mais um que parte.
Condolências.
Perde-se um amigo e camarada.
13 de outubro de 2021 às 11:24

Joaquim Mexia Alves disse:
Francamente depois das últimas mensagens não esperava esta triste notícia.
À Ana e a toda a família o meu abraço forte, amigo e sentido nestas horas tão difíceis.
Coloco o nosso camarigo Torcato e a sua família nas minhas orações.
Que descanse em paz.
13 de outubro de 2021 às 11:28

José Botelho Colaço disse...
Sentidos pêsames á família enlutada.
13 de outubro de 2021 às 11:31

Zé Manel Cancela disse...
Os meus sentidos pêsames a toda a família.
Descansa em paz,camarada...
13 de outubro de 2021 às 12:03

José Colaço (by email)
13 out 2021 11:16
Luís:
Que notícia tão triste! Para a família e para as pessoas que com o senhor Torcato Mendonça tinham conversas de critica construtiva, pautadas pela elevação. Do senhor Torcato, guardo a memória da disponibilidade e ajuda descomprometidas nos tempos áureos da Rádio Jornal do Fundão. E também recordo o cavalheiro e homem romântico que surpreendia a sua cara metade com inspiração e afetividade. Aqui deixo um abraço fraterno à Ana Mendonça e aos seus filhos Pedro e Ricardo. Que a terra lhe seja leve!
Luís: É o nosso Torcato?
13 de outubro de 2021

José Câmara disse:
O Torcato Mendonça, meu companheiro em dia de aniversário natalício, partiu em patrulha sem regresso. Certamente deixa saudades e o nosso blogue fica bem mais pobre.
Ao longo dos tempos trocámos alguma correspondência particular. Nessa correspondência havia algo que nos unia, o Fundão. Alguém da minha família havia vivido por aqueles lados e ele tentou ajudar-me a descobrir algum membro familiar que por ali ainda vivesse. Não o conseguimos, mas ficou sempre a minha gratidão.
As minhas condolências para os familiares e amigos.
Descansa em Paz companheiro.
13 de outubro de 2021 às 14:33

Juvenal Amado disse...
É uma notícia que me deixa numa grande tristeza. Estive com ele pessoalmente uma vez onde compreendi como um grande ser. Dele lembro os seus escritos e muitos dos seus comentários que escreveu a respeito dos que eu escrevi para o blogue.
Á esposa e família e porque nos faz falta a todo blogue onde foi sempre uma pena brilhante.
13 de outubro de 2021 às 14:38

João Carlos Silva disse...
Lamento muito. Sentidos pêsames aos familiares e amigos.
Que descanse em Paz.
13 de outubro de 2021 às 14:39

Luís de Sousa disse:
Mais um "dos nossos" que se foi. Apenas o conhecia de aqui, mas pareceu.me sempre conciso, justo, afável. Infelizmente iremos mais tarde ou mais cedo segui-lo. As minhas condolências á família.
13 de outubro de 2021 às 15:03

Hélder Sousa disse:
Muito sinceramente, não estava à espera. Pelo menos, por agora.
Desde as últimas indicações e tal como refere o Joaquim Mexia, tinha ficado um bocado mais descansado.
Agora, esta notícia é como um murro no estômago.
Sim, eu sei que esta situação nos está reservada, a todos, mas custa sempre.
Em comentários anteriores já foram feitos os elogios e caracterizações do Torcato.
Tudo verdade.
Tudo certo.
Lamento profundamente o sucedido.
Para os familiares, as minhas condolências.
Para o Torcato um "até um dia"!
Hélder Sousa
13 de outubro de 2021 às 15:21

Luís Dias disse:
É com tristeza que assisto à partida de mais um companheiro, de mais um combatente.
Sentidos pêsames a toda a sua família e que a sua alma possa estar em paz.
Até um dia destes, caro Torcato.
13 de outubro de 2021 às 15:38

Paulo Santiago disse...
Os meus sentimentos à familia.
Descansa em paz,camarada Torcato
13 de outubro de 2021 às 17:51

Francisco Godinho disse:
Pois é amigo e camarigo Vinhal, mais um dos nossos que parte. Desta vez (há-de tocar a todos, infelizmente) tocou ao Torcato, o alentejanito que em tempos trocou a planície, pelas terras fecundas da cova da Beira. Desta vez até os "Irãns" da terra vermelha de Mansambo (creio não errar), onde o n/alfero Torcato "provou lágrimas, suor e sangue" , (a igual que nós todos, os camarigos da Guiné, e doutros "chãos", outrora , e cada um no seu habitat temporal e temporário, também o "provaram" ) se voltaram para a sua "Meca" e soltaram, (eles os Irãns),o seu "oráculo" e quem sabe?, a sua lagrimita. Até um dia, camarada Torcato Mendonça!.
13 de outubro de 2021 às 18:25

Manuel Resende disse:
Triste notícia esta.
Já partiste amigo Torcato, um pouco cedo. Só nos resta lembrar-te e rezar por ti.
Para a amiga Ana e filhos os meus sinceros e sentidos pêsames.
13 de outubro de 2021 às 19:09

Carlos Silva 
disse:
É sempre com grande constrangimento que recebemos estas tristes notícias da partida de mais um dos nossos camaradas.
Do Torcato para além dos seus escritos aqui no Blogue, recordo principalmente os nossos encontros em Armação de Pêra onde possuía casa.
Como sempre quer na praia, quer fora dela, os nossos bate-papos descambava sempre para a Guiné.
As minhas sinceras condolências à família enlutada, com um abraço solidário nesta hora de dor.
13 de outubro de 2021 às 19:12

Virgínio Briote disse:
Do Torcato fica-me uma boa lembrança.
Um abraço de solidariedade à Família, nesta hora triste para todos nós.
13 de outubro de 2021 às 19:34

Felismina Mealha disse:
Aqui conheci o amigo Torcato e troquei com ele alguns comentários, quando ele descobriu, que era-mos "vizinhos naquele Alentejo sem fim"!
Estabeleceu-se assim, uma amizade fraterna, que hoje me faz sentir desgosto pela sua partida.
Envio a toda a família e amigos o meu abraço solidário nesta hora de dor.
13 de outubro de 2021 às 19:44

Francisco Baptista d
isse:
Fiquei triste pela sua partida. Nunca fomos muito próximos mas pelo que conheci dele, em comentários, textos e outros disseram, sempre tive um grande respeito e admiração pelo Torcato Mendonça um bom camarada, inteligente e de grande carácter.
Apresento os meus sentidos pêsames à esposa, filhos e a todos os que conviveram mais de perto com ele.
13 de outubro de 2021 às 21:01

José Belo disse:
Quantas vezes nos últimos anos me tenho perguntado: Por onde andará o Torcato?
Saudade dos seus textos,histórias,do seu forte caráter e personalidade.
Hoje sei “ por onde não anda” o Torcato!
Fiquei triste ao perder mais um amigo sincero.
Solidário abraço à Família
13 de outubro de 2021 às 21:51

Luís Graça disse:
Desobriu o nosso blogue por volta de maio de 2006... e nunca mais nos deixou, enquanto a saúde o permitiu...
Recordo o que aqui nos disse em 15/5/2006, no nosso livro de visitas:
(...) O [Carlos] Marques dos Santos deu-me a conhecer este blogue. Há muito que a guerra acabou para mim, só que quase diariamente ela aparece…! Não resisti, fui à Net e tenho navegado pelo blogue. (...)
E pôs as suas fotos a falar!... E ressuscitar as suas memórias... Não foi um rio, foi uma torrente de memórias. São dele alguns dos melhores postes aqui publicados. Sei que morreu de pneumonia no hospital. Há mais de um ano, falei-lhe sem desconfiar que seria a última vez... Não fico certo que ele me tenha reconhecido... Fico com um nó na garganta: ainda tive esperança de o poder rever no Fundão, depois do nosso encontro em 27 de janeiro de 2007. A minha irmã mais nova, que é enfermeira no CS Fundão disse-me que o tinha vacinado contra Covid h+a uns meses atrás... Fui a última vez que o viu...
Vou ver se consigo reunir alguns dos seus espantosos escritos e selecionar algumas das suas melhores fotos. Preciso de tempo (e saúde) para essa tarefa exigente.
À Ana Mendonça, sua companheira de uma vida, e mulher de grande sensibilidade e coragem, mando um especial chicoração fraterno. E também aos seus filhos que nunca cheguei a conhecer mas de que ele me falava com muito orgulho.
A vida é tramada, mas é a morte que nos prega a partida. Tal como na Guiné, ao virar da esquina, do bagabaga, do bissilão, da curca do rio...Até sempre, camarada e amigo Torcato. Há conversas que tivemos e que ficaram interrompidas. Há segredos que partilhaste só comigo e que levas agora para a cova funda...Tinhas os teus princípios éticos, que eu me comprometi a respeitar...
A Tabanca Grande perde um dos seus históricos, um dos seus "homens grandes"... Também já tínhamos perdido o teu e nosso camarada Carlos Marques dos Santos. Tu e ele foram dois dos melhores "Viriatos" da CART 2339, fundadores de Monsanto...
Espero que saibamos honrar a vossa melhória.
13 de outubro de 2021 às 22:26

Adriano Moreira disse:
No dia em que fui acompanhar um camarada da minha CART 2412 à sua última morada, recebo a triste notícia do falecimento do Torcato Mendonça, que muito considerava.
Lamento profundamente este triste acontecimento e apresento as minhas condolências a todos os seus familiares.
13 de outubro de 2021 às 22:35

José Nascimento disse:
Tive oportunidade de conhecer o Torcato Mendonça quando o meu pelotão tirou o treino operacional em Mansambo em Junho de 1969 e até tenho uma foto de um pequeno grupo em que ele está. Creio que era amigo do furriel Amílcar Barradas da minha Companhia, natural de Almodôvar.
À família deste camarada de armas, apresento os meus sentidos pêsames.
13 de outubro de 2021 às 22:36

Luís Graça disse...
Um e outro, o Torcato e a Ana passaram, em vida, pro algumas "provas de fogo", com a saúde (e a vida) em xeque... Veja-se, pro exemplo, o poste de 19 de Dezembro de 2008 Guiné 63/74 - P3652: Blogoterapia (72): Voltamos a pôr a Ana (e o José...) a sorrir, na nossa fotogaleria (Luís Graça)
Deram provas de capacidade de sofrimento e de superação... A reação da Ana Lourdes Mendonça ao nosso poste P3652, é bem reveladora de uma mulher de superior nível moral e intelectual... Disse-nos apenas esta coisa, tão simples e tão linda:
(...) Obrigada, amigos.
Parafraseando um grande poeta:
“Amigos verdadeiros não são os que nos secam as lágrimas...
são sim os que não nos as deixam cair…”
BOAS FESTAS, FELIZ ANO 2009 (...)
20 DE DEZEMBRO DE 2008 Guiné 63/74 - P3657: (Ex)citações (8): As lágrimas e os amigos (Ana Mendonça)
13 de outubro de 2021 às 23:26

Luís Graça disse...
A frase ou a máxima é atribuída a Pietra Pacobello, que eu não sei quem é... Pode até ser apócrifa, mas a ideia define bem a essência da amizade... Há uma diferença, semântica e conceptual, entre "secar as lágrimas" e "não deixar cair as lágrimas"...
A nós, homens e antigos combatentes, não deixaram chorar, ou melhor, não nos ensinaram a chorar... Ou pior: proibiram-nos chorar...
13 de outubro de 2021 às 23:38

Artur Soares disse:
Mais um Camarada que parte.
Descansa em paz, Camarada Torcato.
A toda a família, as minhas mais sentidas condolências.
14 de outubro de 2021 às 00:55

Mário Bravo disse...
Sentidas condolências à Família.
Paz à sua Alma.
14 de outubro de 2021 às 00:59

António Graça de Abreu d
isse:
Descansa em paz, Torcato, eras dos melhores entre nós. Fazes falta.
14 de outubro de 2021 às 01:22

Jorge Aráujo disse:
Eis mais uma notícia que ninguém está preparado para receber.
Para a família e amigos do camarada Torcato Mendonça (meu antecessor em Mansambo), envio as minhas mais sentidas condolências pela sua morte.
Descansa em Paz.
14 de outubro de 2021 às 05:55

Jorge Cabral disse:
Toda a minha Solidariedade para a Família!
Adeus Torcato...
14 de outubro de 2021 às 17:35

Carlos Pinheiro disse:
Depois de saber da partida do nosso camarigo Torcato Mendonça tenho estado a reler o Blog e a reler, algumas horas, e creiam que me faltam as aplavras que possam expressar o que me vai na alma. Os meus senimentos à familia neste hora de dor e de lutoa.
Que descanse em paz.
14 de outubro de 2021 às 23:41

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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE OUTUBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22641: In Memoriam (414): José Manuel Matos Dinis (1948-2021), ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2679, (Bajocunda, 1970/71), falecido ontem, dia 17 de Outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22649: Convívios (919): Convívio do pessoal da 35.ª C. Comandos, dia 27 de Novembro de 2021, em Ançã, Coimbra (Ramiro Jesus, ex-Fur Mil CMD)

1. Em mensagem de 16 de Outubro de 2021, o nosso camarada Ramiro Jesus (ex-Fur Mil Comando da 35.ª CComandos, Teixeira Pinto, Bula e Bissau, 1971/73), pede que anunciemos o Convívio da sua 35.ª CC, a levar a efeito no dia 27 de Novembro em Ançã.


C O N V Í V I O S


Convívio anual da 35ª C. Comandos

Próximo dia 27 de Novembro de 2021

ANÇÃ, na zona de Coimbra

Nos 50 anos da viagem para a Guiné, no paquete Angra do Heroísmo, que decorreu de 24 a 29 de Novembro de 1971.
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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22581: Convívios (918): Cerca de 70 participantes no XXV Convívio Anual da CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, "Os Incendiários" (Buba, 1971/73)... Comemorou-se também os 50 anos da sua formação e mobilização para o CTIG (Joaquim Pinto Carvalho)

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22648: Humor de caserna (42): "Então, Jau, o que é que aconteceu ao teu belo cabelo?" (pergunta a esposa do Capitão, na messe do Quartel de Baixo, Nova Lamego)..." Sinora, Jau cá sabe, mas agora tá manga de furido!" (respondeu o Arfan Jau, no seu melhor português tripeiro) (Valdemar Queiróz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, 1969/70)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Contuboel > CIM de Contuboel > 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > > O Valdemar Queiroz, com os recrutas Cherno Baldé , Sori (Jau ou Baldé) e Umaru Baldé (que, feita a recruta, irão depois para a CCAÇ 2590, futura CCAÇ 12, a partir de 18 de junho de 1970). Estes mancebos aparentavam ter 16 ou menos anos de idade (!). Eram do recrutamento local e, originalmente, não falavam português.-

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A (des)propósito de se levar as nossas senhoras (, quem era casado, de papel passado...) para o "mato" (e nem todos os "resorts turísticos" do CTIG aceitavam senhoras, casadas, e muito menos grávidas), o Valdemar Queirós conta-nos esta história simplesmente deliciosa (*):

Sobre o Capitão  Miliciano Analido Aniceto Pinto,  da nossa CART 2479/ CART 11 (1969/70) ter a sua esposa a viver com ele, em Contuboel,  não tenho dúvidas nenhumas, eles viveram juntos em Nova Lamego. 

Já quanto ao estar grávida em Contuboel,  não tenho a certeza absoluta, mas de facto o que se passou com o soldado básico, tinha a sua lógica, digamos básica: "Prá mulher do capitão que está prenha,  houve evacuação para a metrópole,  e pra mim não, já vamos ver..." - disse ele antes de dar um tiro no pé.

É uma pérola rara o diálogo entre a esposa do capitão e o Arfan Jau,  soldado fula da nossa CART 11.

O Arfan Jau, do meu Pelotão, um dos recrutados em Contubel, era um mancebo corpulento e bom lutador, levou uma carecada por ser refilão com o alf mil Pina Cabral que o deixou desprestigiado para lutar. 

O Arfan veio duma pequena tabanca e não falava português nem sequer crioulo, mas lá foi aprendendo com os soldados metropolitanos algumas elementares palavras de português, na maioria palavras do léxio do Norte do país.

Em Nova Lamego, oficiais, sargentos e a esposa do capitão almoçávamos todos juntos na messe, numa bela varanda do edifício do nosso Quartel de Baixo. Certo dia, durante o almoço, apareceu o Arfan Jau para falar com o fur mil  Macias e educadamente tirou o quico, ficando de careca à mostra.

− Então,  Jau, o que é que aconteceu ao teu belo cabelo ? . perguntou a esposa do Capitão.
Sinora,  cá sabe, mas agora tá manga de furido  respondeu humildemente o Arfan,  com as mãos agarrando o quico.

Foi um silêncio geral por uns segundos e, a seguir,  uma explosão de gargalhadas.

− Manga do furido!  repetiu  o Arfan Jau (, o que será feito dele ?) ...

De facto, ele ainda não tinha aprendido bem a falar à moda do Porto. (**)

A esposa do Capitão, com problemas nas pernas devido aos mosquitos, ainda por lá ficou uns tempos, mas com as nossas constantes saídas em intervenção,  ela já nem foi connosco para Paúnca,  regressando à metrópole. 

2. Comentário de LG (*)

A nossa memória é altamente seletiva (e, por isso, traiçoeira...), não é sinóptica, é sequencial mas errante... Estive em Contuboel, de 2 de junho a 18 de julho de 1969, na altura do Valdemar (que já lá estava há 3 ou 4 meses), mas não me lembro do capitão dele nem da esposa, grávida... Lembro-me, isso sim,  do rio Geba, da praia fluvial, da rua principal de Contuboel, das malditas tendas de campanha onde destilávamos litros e litros de suor... Lembro-me das "mais belas tabancas da Guiné", mandingas, cheias de poilões e de "gente feliz sem lágrimas"... Falei no meu diário do "oásis de paz de Contuboel"... E quando a deixei, escrevi: "Capri, cést fini", as "férias", a "dolce vita",  acabaram...

E lembro-me, bem, de ouvir um tiro à noite, quando um desgraçado (creio que um soldado básico) se automutilou, dando um tiro no pé, só para ser evacuado para a metrópole. O Valdemar faz referência a esta cena, que a mim me marcou, mas não outras... Porquê? (***)
____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste d e20 de outubro de 2021 > Guiné 61/74 - P22646: "Diário de Guerra, de Cristóvão de Aguiar" (texto cedido pelo escritor ao José Martins para publicação no blogue) - Parte VIII: Contuboel , Fajonquito e Sonaco. Gravidez da Otília (Jan - ago 1966)

(**) Último poste da série > 14 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18318: Humor de caserna (41): Em dia de namorados: a história do Pequenitaites e outros camaradas avantajados... Ou quando os homens (e as mulheres...) não se medem aos palmos... (Virgílio Teixeira / Luis Graça)


(***) Vd. também poste de 24 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16633: (De)caras (49). O 'embarazo' das esposas... O campeão de luta fula, Arfan Jau, do 4º pelotão, respondendo à moda do Porto à senhora do capitão, intrigada com a carecada que ele havia apanhado: 'Senhora, Arfan Jau cá tem cabelo, manga de fodido'... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


Guiné 61/74 - P22647: Historiografia da presença portuguesa em África (286): A história turbulenta da delimitação das fronteiras franco-portuguesas da Guiné (1): "A questão do Casamansa e a delimitação das fronteiras da Guiné", por Maria Luísa Esteves; edição conjunta do Instituto de Investigação Científica Tropical e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Lisboa, 1988 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2020:

Queridos amigos,
Nada do que ainda hoje ocorre, em termos de tensão separatista no Casamansa, deixa de ver com os acontecimentos advenientes da gradual presença francesa e dos sucessivos conflitos entre Portugal e a França, e que culminaram com a Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. As partes contratantes nem sonharam a tragédia que criaram, ao assinar um documento histórico sem se terem perguntado se havia relevos naturais, se se separavam etnias, se os habitantes de Ziguinchor aplaudiam a mudança de colonizador. E pôs-se de imediato um problema novo: a delimitação das fronteiras, será um corrupio de peripécias entre 1888 e 1931. 

É um período em que se distinguirão homens como o Visconde de Santarém ou Honório Pereira Barreto. O visconde irá brandir uma peça preciosa intitulada Memória sobre a Prioridade dos Descobrimentos dos Portugueses na Costa de África Ocidental para Servir de Ilustração à Crónica da Conquista da Guiné, de Zurara. Barreto procurará consolidar a posição portuguesa, não perde uma oportunidade para tentar acordar os responsáveis políticos para o risco de se perder a colónia, não se ilude que a situação de Ziguinchor deixara de ser brilhante no século XIX, os franceses tudo procuravam para a isolar, tinham efetivo militar de sete soldados e um movimento comercial asfixiado. E agora vamos ver como se processaram as operações de delimitação, no Norte, no Leste e no Sul, é um verdadeiro romance.

Um abraço do
Mário



A história turbulenta da delimitação das fronteiras franco-portuguesas da Guiné (1)

Mário Beja Santos

Este súbito mergulho na história bem movimentada da delimitação das fronteiras franco-portuguesas da Guiné (1888-1931) surgiu de um imprevisto enquanto manuseava documentos da secção de Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa.

 Numa pasta bem fornecida datada de 1934 suscitou-me a curiosidade um curto documento intitulado “Auto de delimitação da fronteira franco-portuguesa entre os marcos 52 e 53”, fui logo ler, o que teria acontecido de ter surgido novo problema na delimitação fronteiriça? O texto é breve, é uma ata remetida para Bolama, é assinada pelo diretor de Serviços e Negócios Indígenas Jorge Frederico Torres Velez Caroço, e, como se verá, não passa de pequena história resolvida à moda portuguesa, passa-se para outro o que nós não sabemos deslindar:

“Aos 25 dias do mês de janeiro de 1934, tendo-se reunido na região de Catabá, próximo da fronteira franco-portuguesa, entre os marcos 52 e 53 as comissões representativas dos governos da Guiné Portuguesa e da Guiné Francesa, compostas, respetivamente, pelos Srs. Diretor dos Serviços e Negócios Indígenas, capitão Jorge Frederico Torres Velez Caroço, Diretor da Agrimensura, Capitão Carlos de Brissac Neves Ferreira e Administrador da Circunscrição Civil de Bafatá Eugénio Veloso da Veiga (segue-se a lista dos ajudantes) e os Srs. A. Gallo, Administrador de 2ª Classe das Colónias, Comandante do Círculo de Kemlis e L. Brunet Manquat, Adjunto Principal dos Serviços Civis, Chefe da Subdivisão de Youkounkoum, Círculo de Kemlis, a fim de definir-se rigorosamente a linha de fronteira entre os já citados marcos 52 e 53 para se poder igualmente definir a posição do local onde teve lugar a agressão do guarda francês que originou esta reunião, em relação à mesma fronteira, sobre o qual recaem dúvidas, de estar situado em território português ou francês. 

Foram estas comissões de parecer: que após todas as tentativas executadas para definir rigorosamente a já citada linha de fronteira, e bem assim a posição do local igualmente já referido, não podendo chegar a uma conclusão precisa devido à falta de elementos concretos, uma vez que as medições executadas pelo agrimensor português conduziram a resultados imensamente diferentes dos elementos fornecidos pela comissão francesa, resolveram propor aos governos que respetivamente representam a nomeação de novas comissões em cuja compleição entrem técnicos agrimensores das duas colónias, a fim de poderem definir precisa e rigorosamente a linha de fronteira entre os marcos 52 e 53. Encerram-se os trabalhos e lavra-se a presente ata”.

Estava despertada a curiosidade em tentar entender o fundo do imbróglio, não propriamente onde fora agredido o guarda francês, mas qual a razão de tantas dificuldades para os agrimensores. Toca de estudar, e começou-se por um clássico, uma obra de inequívoco valor, "A questão do Casamansa e a delimitação das fronteiras da Guiné", por Maria Luísa Esteves, edição conjunta do Instituto de Investigação Científica Tropical e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Lisboa, 1988.

Porquê encetar um estudo destes pela questão do Casamansa? Foram os conflitos nesta região que desembocaram na Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É um percurso histórico digno de análise. Os dois países reivindicavam uma área que é hoje um sétimo da superfície do Senegal, o Casamansa, Portugal alegava direitos históricos, a França encetara na primeira metade do século XIX tornar-se uma potência colonial, cobiçava regiões africanas na África Ocidental, desde Marrocos ao Gabão, e não só. 

É facto que o impulso do expansionismo colonial europeu iria ser mais percetível a partir de 1876, isto do lado português, houvera antecedentes para a opção africana, com Sá da Bandeira. Os franceses haviam-se instalado nas margens do Casamansa em 1828. Teremos um observador de primeira água para a evolução destes acontecimentos, será Honório Pereira Barreto que não se cansará de alertar o governador de Cabo Verde para as graduais tentativas de controlo do Casamansa pela França. Os subscritores da convenção de 12 de maio de 1886 não irão atinar com as graves consequências de pôr em forma de tratado o que era desconhecido no terreno.

Como dirá no final desta obra Maria Luísa Esteves:

“As duas Guinés, a Francesa e Portuguesa, foram criadas sem ter em conta, muitas vezes, não só os limites naturais como as realidades étnicas, sociais e económicas existentes. Só mais tarde, quando já não era possível emendar os erros cometidos, se verificou que povos com história e cultura comuns foram separados e entregues a países diferentes sem respeito pelo seu passado. 

Não era para admirar que assim tivesse acontecido quando as negociações se fizeram longe dos locais a delimitar por pessoas mal informadas sobre a história dos povos e sem conhecimentos suficientes de Geografia e utilizando cartas topográficas pouco rigorosas. Apenas se procurara satisfazer os interesses dos países colonizadores e destes o mais forte teve sempre a última palavra”.

O conhecimento da região do Casamansa é comprovado por descrições de autores dos séculos XV, XVI e XVII, é um repertório onde constam os nomes de Luís de Cadamosto, Valentim Fernandes, André Alvares de Almada, André Donelha e Francisco de Lemos Coelho. O rio Casamansa despertava o apetite de muitos pelos negócios que possibilitava. Não é segredo para ninguém que o período filipino foi profundamente nefasto para a presença portuguesa e fasto para a gradual presença de concorrentes, desde a França, a Grã-Bretanha, a Espanha e a Holanda. 

Os franceses instalaram-se na Ilha dos Mosquitos em 1828, na embocadura do rio. Enceta-se uma correspondência diplomática intensa entre Portugal e a França, para Portugal não será difícil argumentar os seus direitos históricos, a França é a potência forte ou não responde ou interfere cada vez mais, irão ter lugar inúmeros conflitos, desde apresamento de barcos a pessoas. Honório Pereira Barreto faz o que pode e o que não pode, tratados de paz com chefes do Casamansa, compra território ou cedência com direitos exclusivos de soberania, navegação e comércio.

 Encurtando argumentos, depois de inúmeros conflitos e após 16 sessões entre representações luso-francesas chegou-se à convenção de 12 de maio de 1886, o Casamansa com o presídio de Ziguinchor passou a pertencer à França, e a sul, o rio Nuno, teve o mesmo destino.

Ainda hoje se discute se o saldo foi negativo ou positivo. Portugal passou a ter legitimidade para considerar como sua possessão o território até ao Futa Djalon, se Geba era o presídio mais longínquo, havia que ocupar toda a região do Gabu. Recebeu-se a região de Cacine, e a diplomacia da época parecia contente pela França ter prescindido dos seus direitos nos territórios de Massabi e ter havido reconhecimento do protetorado português numa larga faixa entre Angola e Moçambique (numa altura em que se sonhava com o Mapa Cor-de-Rosa). Iam agora começar as dores de cabeça com a delimitação das fronteiras. 

Logo em 1888 desloca-se uma comissão com a intenção de marcar as áreas de influência das partes. O entendimento é difícil, ainda ocorrem incidentes nas zonas fronteiriças, não havia marcos, na maior parte dos casos a fronteira era uma verdadeira terra de ninguém. Vão seguir-se doze anos sem uma nova missão, era um embaraço de parte a parte, assinaram-se papéis sem ter havido previamente o levantamento topográfico dos locais a delimitar, ninguém pensara nas divisões naturais nem nas realidades étnicas e sociais. Estão a organizar-se missões de 1900 a 1905, tenta-se um trabalho sério da balizagem das fronteiras, procedendo-se ao reconhecimento de certos rios, negoceia-se a troca de territórios. Pensa-se em 1905 que está terminada a demarcação da fronteira luso-francesa da Guiné, mas haverá retificações até 1931.

A investigação e a narrativa de Maria Luísa Esteves são comprovadamente aliciantes. Primeiro situa o Casamansa, refere o que há de melhor na literatura de viagens; temos depois a história económica da Guiné, em pinceladas fortes dá-nos uma síntese da presença portuguesa entre os séculos XV e XIX; entra-se agora na luta pela posse do Casamansa, a diplomacia recorre a tudo quanto sabia da documentação histórica para mostrar que os portugueses não eram intrusos nem tinham chegado ontem, a autora passa em revista as notas diplomáticas enviadas para Paris, uma boa parte delas jamais obteve resposta. Havia exaustão dos dinheiros públicos, a emigração continuava a ser canalizada para o Brasil, o Governador de Cabo Verde não tinha meios para agir. 

O herói da trama é mesmo Honório Pereira Barreto, e a autora passa em revista os tratados que ele celebra com os chefes gentílicos. A presença francesa no Casamansa agudizava-se, afetava o comércio de Ziguinchor, mas também o de Farim e Geba. Os apelos lancinantes de Pereira Barreto revelam-se verdades com punhos:

 “Soubemos conquistar, é verdade, mas passada a conquista não soubemos aumentar nem mesmo conservar. Tratamos os gentios com desprezo, ameaçamos quando é preciso atacar e insultamos quando convém acariciar. Os estrangeiros ingleses e franceses atacam quando são insultados, e dão avultados presentes quando os gentios se humilham, satisfazendo assim a sua natural cobiça, pois é a melhor, e menos dispendiosa maneira de conter obediente e amigo o gentio todo”.

A autora dá-nos a referência da presença francesa da Guiné, temos também o apetite britânico em Bolama, mas este estudo nem se enquadra neste trabalho. E descreve os incidentes entre 1882 e 1884, e assim se chega à convenção de 12 de maio, a partir de agora vem a dor de cabeça da delimitação das fronteiras e o seu corolário de peripécias.

(continua)


O marco 173 está situado em Chão Baiote, junto à tabanca Kassu, na praia de um dos muitos cursos de água da Baixa Casamansa. A linha de fronteira atravessa Kassu, deixando um bairro na Guiné-Bissau e outro no Senegal. O marco está instalado num espaço aberto, apenas frequentado por vacas que, para fugirem às moscas, buscam as zonas perto de água. Imagens de Lúcia Bayan, já publicadas no blogue, com a devida vénia

Mapa da Guiné apresentado no Número Comemorativo da Exposição Colonial do Porto, 1934
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Nota do editor

Último poste da série de 13 DE OUTUBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22627: Historiografia da presença portuguesa em África (285): História breve da Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)