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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27618: Os nossos capelães (19): Relembrando o 1 º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar, 23 de agosto - 17 de setembro de 1967)


Lisboa > Academia Militar > 23 de outubro de 2017 > Comemoração  dos 50 anos do 1º curso de formação de capelães militares. 

Foto: Agência Ecclesia (reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia...)







1º Curso de Formação de Capelães Militares, realizado na Academia Militar, de 23 de agosto a 17 de setembro de 1967. Lista  dos sacerdotes, graduados em aspirante a oficial, que o frequentaram, por ramos das Forças Armadas (Marinha, Força Aérea e Exército).

Fonte: Ordinariato Castrense  (sítio da Diocese das Forças Armadas e das Forças de Segurança)

  
I.  Os participantes (n=58) foram, pela primeira vez, nomeados pela hierarquia religiosa. (Náo sabemos se havia alguns voluuntários.) 

O critério nem sempre era transparente. Houve quem contestasse. Até então, e desde o início da guerra em Angola, os capelães eram voluntários, coo padre Bártolo Paiva Pereira, que chegou a capelão- chefe, com o posto de major graduado.Mas não tinham  formação específica (que passou a ser prevista no art. 10º do decreto-lei nº 47188, de 8 de setembro de 1966, entretanto já revogado).

O número de capelães, até meados de 1966, e quando a guerra já ia em velocidade de cruzeiro, não ultrapassava a centena e meia, conforme se pode ler nº 7 do preâmbulo do dipoma legal que veio promulgar a estruturação da assistência religiosa nas forças armadas:

(...) 7. Conforme acordo entre o Governo Português e a Santa Sé, para instauração do Ordinariato ou Vicariato Castrense, pode-se agora dar conveniente organização à assistência religiosa nas forças armadas no momento em que o número de sacerdotes ao serviço como capelães militares atinge, por força das necessidades de defesa do ultramar, cerca de centena e meia de indivíduos. (...)

Na prática foi instituido um "serviço militar obrigatório" para os padres católicos, de que eles até então estavam isentos:


(...) Art. 8.º - 1. No cumprimento da obrigação do serviço militar que lhes incumbe, conforme as disposições legais vigentes, os sacerdotes são chamados ao serviço efectivo, em número suficiente para ocorrer às necessidades de cada um dos ramos das forças armadas.

2. Tendo em atenção o menor prejuízo possível para a cura de almas, conforme o preceituado no artigo XIV da Concordata, bem como, por outro lado, o grau de saúde e as qualidades que revelarem para o género de actividades a que se destinam, a escolha dos sacerdotes a chamar ao serviço efectivo será feita pelo Ordinário Castrense, por entendimento com os respectivos superiores eclesiásticos:

a) Como regra, entre os sacerdotes, com mais de 28 anos de idade e menos de 35, que, em regime de voluntariado, forem apresentados pelos seus superiores;

b) Não havendo voluntários em número suficiente, entre os sacerdotes que perfizerem 30 anos de idade no ano civil em curso, principiando pelos mais novos e de acordo com as quotas periòdicamente fixadas para cada diocese, ordem ou congregação religiosa, na proporção do seu clero." (...)


(...) Art. 10.º - 1. Após a incorporação, os sacerdotes frequentam um curso destinado a ministrar-lhes os necessários conhecimentos de natureza militar e pastoral. Este curso será regulamentado por portaria conjunta do Ministro da Defesa Nacional e dos Ministros e Secretário de Estado de cada um dos departamentos das forças armadas.

2. Os sacerdotes que terminarem o curso com aproveitamento são considerados capelães militares e vão prestar serviço como eventuais no ramo das forças armadas a que pertencem.

3. Os capelães militares que excederem as necessidades imediatas do serviço regressam às suas dioceses, ordens ou congregações religiosas, podendo ser ulteriormente convocados até aos 35 anos.

4. Os sacerdotes que não obtiverem aproveitamento no curso são abatidos ao serviço, sem prejuízo do procedimento disciplinar que porventura deva ser adoptado quando se verifique negligência ou falta de aplicação.(..)


II. Não consta que ninguém (a começar pelo Mário de Oliveira)  tenha chumbado, logo no 1º Curso, de 1967, mas houve logo questões que foram levantadas e não terão sido respondidas. De qualquer modo, no contexto político da época, não seria previsível nenhum contestação ao decreto-lei nº 487188, de 8 de setembro de 1966.

Entre as matérias dadas, neste curso acelerado, de menos de um mês,  destaque-se (entre parênteses, o nome e posto do formador): 

(i) assuntos ultramarinos (ten cor inf Hélio Felgas);

(ii) educação física (cap inf Barroso Capela e cap inf Fonseca Cabrinha);

(iii) topografia (cap inf Correia Hormigo);

(iv) educação militar (cap cav Lopes Saraiva);

(v) armamento e material (ten inf Monteiro de Azevedo):

(vi) vicariato castrense e serviço de assistência religiosa no Exército (ten cor graduado capelão Alves Cachadinha);

(vii) deontologia (Dom António dos Reis Rodrigues, bispo de Madarsuma);

(viii) serviço de assistência religiosa na Armada  (capitão de fragata graduado capelão José Bernardino Correia de Sá):

(ix) pastoral castrense  e serviço de assistência religiosa na Força Aérea (ten cor graduado capelão João Ferreira);

(x) espiritualidade do capelão militar (cap grad capelão José Martins da Veiga);

(xi)  psicologia militar (cap grad Eduardo José Gomes de Almeida);

(xii) organização e missão da Força Aérea (cor pilav Eduardo Augusto Ferreira);

(xiii) cartas aeronáuticas e navegação aérea ( ten cor pilav António Caritas Silvestre);

(xiv) material aéreo e apoio logístico (major engenheiro da FA, António Pedro da Silva Gonçalves);

(xv) princípios de aerodinâmica (major engenheiro da FA, Cândido Manuel Passos Morgado).

O Horácio Fernandes, que foi chamado aos 32 anos para substituir um colega que tinha perdido a mãe, diz ficou reprovado na "prova física", mas acacou por passar "como todos os outros". Também refere que havia cunhas: os lugares mais desejados eram, obviamente, na Forçla Aérea e na Armada. Ele irá parar a um batalhão de artilharia, que já tinha 8 meses de comissão, e estava colocado no sul da Guin+e, em Catió (BART 1913).

III. Destaque para alguns capelães deste curso que foram mobilizados para a Guiné (ou outros TO)  e de quem já aqui falámos em postes anteriores:
  • Horácio Neto Fernandes (1935- 2025) (*)
  • Mário Pais de Oliveira (1937-2022) (*);
  • Libório Tavares (1933-2000) (*):
  • Delmar Barreiros (Armada);
  • Carlos Manuel de Sousa Dias;
  • José Rabaça Gaspar (Joraga) (Moçambique) (divulgou, em 2002, na Net, o "Cancioneiro do Niassa");
  • António Francisco Gonçalves Simões;
  • José dos Santos Tourais Pereira.
(*) Membros da Tabanca Grande

______________

Nota do editor:

Útimo poste da série > 22 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24333: os nossos capelães (18): Ainda o caso do Arsénio Puim, CCS/BART 2917 (Bambadinca, maio de 1970/maio de 1971): nova informação produzdia pelo jornalista António Marujo, "Sete Margens", 19/5/2023

Vd, os primeiros postes da série:

25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16638: Os nossos capelães (6): Libório [Jacinto Cunha] Tavares, o meu Capelini, capelão dos "Gatos Negros", açoriano de São Miguel, vive hoje, reformado, em Brampton, AM Toronto, província de Ontario, Canadá (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)


17 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13616: Os nossos capelães (4): O bispo de Madarsuma, capelão-mor das Forças Armadas, em Gandembel, no natal de 1968 (Idálio Reis, ex-alf mil, CCAÇ 2317, Gandembel / Balana, 1968/69)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13577: Os nossos capelães (3): O capelão do BCAÇ 619 ia, de Catió, ao Cachil dizer missa... Creio que era Pinho de apelido, e tinha a patente de capitão (José Colaço, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13576: Os nossos capelães (2): Convivi com o ten mil Gama, de alcunha, "pardal espantado"... Muitas vezes era incompreendido, até indesejado por alguns, pois tinha coragem para denunciar os abusos, quando os presenciava (Domingos Gonçalves, ex-allf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13575: Os nossos capelães (1): Conheci em Bedanda o ten mil Pinho... Ia visitar-nos uma vez por mês para dizer missa... E 'pirava-se' logo que podia (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, 1963/65)

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26909: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (1): a "nova força africana" e a falta de formação em liderança e sensibilidade sociocultural de oficais e sargentos metropolitanos (José Macedo, ex-2º ten fuzileiro especial RN, DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74)



Navio-escola "Sagres" > s/l > s/d > O nosso camarada José Macedo aqui na foto à esquerda, com a esposa Goretti. O casal honrou-nos, com a sua presença, nos encontros nacionais da Tabanca Grande, em Monte Real, em 2016 e 2017. Um irmão seu é oficial superior,  já  reformado, da nossa Marinha, também esteve presente com a esposa, no nosso encontro de 2017.

O José Macedo, cadete da Escola Naval, que frequentou no 1º ano (1971)



José Macedo (Zeca, para os amigos):

(i)  nasceu na Praia, Santiago, Cabo Verde, em 21 de setembro de 1951; 

(ii) frequentou a Escola Naval (e foi nessa altura que eu o conheci na Lourinhã, no verão de 1971, tinha eu acabo de regressar da  Guiné em março de 1971; voltámos a reencontrarmo-nos em Monte Real, Leiria, em 2016 e 2017, por ocasião do XI e XII Encontro Nacional da Tabanca Grande, respetivamente);

(iii) foi tenente fuzileiro especial, RN, DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74; 

(iv) vive nos Estados Unidos, desde 1977, em Cambridge, MA, onde é advogado; 

(v) tem a dupla nacionalidade, cabo-verdiana e norte-americana;


(vii) tem 3 dezenas e meia de referências no nosso blogue;

(viii) ele não gosta de ser tratado como "ex-tenente fuzileiro especial RN" (por quanto "uma vez fuzileiro, fuzileiro para sempre").



Guiné > Região do Cacheu > Cacheu > DFE 21 (1973/74) > O ten fuzileiro especial posando, à civil,  na sua mota.

Fotos (e legendas): © Zeca Macedo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Monte Real, 2017

1. Mensagem do Zeca Macedo:


Data - terça, 10/06/2025, 23:24


Assunto - Problemas de formação em lideranca e conhecimento das culturas da Guine Bissau no nosso tempo




Quando acabei o curso de Fuzileiro Especial,  
fui mandado para a Guiné-Bissau como segundo tenente num destacamento de fuzileiros especiais,  o DFE 21, Destacamento de Fuzileiros Africano. 

Como tenente tinha muitos fuzileiros sob o meu comando, alguns deles com uma larga experiência de combate, inclusive na Operação Mar Verde, operação da invasão de Conacri na República da Guiné.

 Os oficiais (e furriéis/sargentos) nunca receberam treino para comandar homens ("leadership") e para lidar com as nuances culturais da colónia onde iam fazer o serviço militar obrigatório. 

Porquê essa falha?

A falta de instrução e treino em liderança e em consciência cultural para oficiais e sargentos no exército português durante a Guerra Colonial foi uma falha significativa, e vários fatores contribuíram para isso:

  • Mentalidade colonial rígida: o regime do Estado Novo via as colónias como extensões de Portugal, não como sociedades distintas; isso levou a uma abordagem militar focada na dominação e controle, em vez de integração e compreensão cultural;
  • Doutrina militar tradicional: na instrução e treino dos oficiais dava-se prioridade a táticas de combate e à disciplina, sem ênfase na liderança adaptativa ou na gestão de tropas de composição multicultural;
  • Resistência à descolonização: Portugal lutava contra movimentos de independência e não queria fortalecer lideranças locais que pudessem desafiar a sua autoridade; isso resultou na falta de investimento em instrução e treino  para comandar tropas africanas de maneira eficaz;
  • Operações secretas e foco na guerra irregular: missões como a Operação Mar Verde, que envolveu a invasão de Conacri para tentar capturar Amílcar Cabral e desestabilizar o governo de Sékou Touré, mostravam que Portugal estava mais preocupado com ações militares diretas do que com a formação de líderes capazes de lidar com a complexidade cultural da guerra;
  • Desconfiança e vigilância política: o regime do Estado Novo  temia que oficiais treinados em liderança e cultura pudessem simpatizar com os movimentos de libertação; a presença da PIDE/DGS dentro das forças armadas reforçava um ambiente de repressão e controle, dificultando qualquer tentativa de desenvolver uma abordagem mais humanizada.
(Revisão / fixação de texto, negritos, título:  LG)

2. Comentário do editor LG:

Este será o primeiro poste de uma série dedicada aos 50 anos da independência da Cabo Verde, privilegiando-se o ponto de vista da "cabo-verdianidade" e dos nossos amigos cabo-verdianos (alguns deles, nossos camaradas e membros da Tabanca Grande, como o infelizmente já falecido António Medina, o José Macedo, o Manuel Amante da Rosa, o Carlos Filipe Gonçalves, o Adriano Lima, o Carlos Carvalho, etc., cito de cor).

Sabemos pouco, afinal, sobre Cabo Verde onde não houve "luta armada". Algumas figuras de topo do PAIGC (e, portanto, "nossos inimigos" na época) são conhecidos, e alguns combateram, de armas na mão contra nós, e contra outros cabo-verdianos que foram mobilizados para o CTIG, pelo lado das NT.

Os 50 anos anos da independência de Cabo Verde são uma boa ocasião para reforçar laços, afetivos e históricos, entre nós, independentemente do lado da barricada onde cada um de nós estava há 50/60 anos. 

O Zeca Macedo, que eu conheci acidentalmente, em 1971, na Lourinhã e na Praia da Areia Branca (antes de ingressar nos Fuzileiros Especiais), tem sido dos um dos nossos camaradas, cabo-verdianos, ou de origem cano-verdiana, que nos vai  mandando notícias e recortes de imprensa das Ilhas, e tem abordado temas de interesse comum, em postes e comentários.

Saibamos ouvir-nos uns aos outros.

PS - Em 2016, quando nos encontrámos pela primeira vez, em Monte Real, demo-.nos conta, eu e o Zeca Macedo, de que já nos conhecíamos de "outra incarnação": em, 1971, o Zeca Macedo, que tinha saído da Escola Naval e aguardava a entrada em outubro na Escola de Fuzileiros Navais, trabalhou nas férias grandes no parque de campismo da Praia da Areia Branca, Lourinhã. 

Tinha na altura também uma prima na Lourinhã. a trabalhar na Câmara Municipal.  E penso que também foi nessa altura, tinha eu regressado da Guiné em março de 1971, que estivemos juntos ele, e outros cadetes da Escola Naval (Rafael Sardinha Mendes Calado, meu amigo, capitão de mar e guerra de administração naval, reformado;  Agostinho Ramos da Silva, vive-almirante de classe de marinha, e outros cadetes, na altura, de que já não me lembro o nome)...

Em 2017, eu e o Zeca Macedo voltámos, muito brevemente,  ao passado. Com a dupla nacionalidade, cabo-verdiana e americana, ele conhece e é amigo de diversos combatentes e dirigentes do PAIGC contra os quais combateu no TO da Guiné. Seria o caso, por exemplo, do antigo presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires. Mas não gosta de falar desse passado fraturante, o que se entende...

Mesmo invisível e distante, a guerra colonial / guerra de libertação foi uma fractura muito grande na nação cabo-verdiana...E ainda há feridas por sarar, meio século depois.

Foi bom também o Zeca Macedo ter trazido, em 2016 e 2017, além da simpatiquíssima esposa Goreti, outro casal, o mano Agnelo e a cunhada Delfina.  

Agnelo Macedo é capitão de mar e guerra, na reforma:  de seu nome completo Agnelo António Caldeira Marques Monteiro de Macedo,  foi diretor do Centro de Apoio Social de Lisboa do Instituto de Ação Social das Forças Armadas (2013-2016).

__________

Nota do editor:


(*) Vd. poste de 13 de fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2532: Tabanca Grande (56): José J. Macedo, ex-2º tenente fuzileiro especial, natural de Cabo Verde, imigrante nos EUA

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26117: (In)citações (268): Antigos combatentes e capelães... "Confessores da Pátria 'versus' Confessores da Fé" (Manuel Lopes, ex-cap inf, CCAÇ 3396, "Lenços Negros", Moçambique, 1971/73)



Foto nº 3 > Anadia > Moita > 42º convívio anual do pessoal da CCAÇ 3396, "Lenços Negros" (Moçambique, 1971/73) > 25 de maio de 20214 > igreja Matriz de Moita > Foto de grupo, no final da celebração litúrgica.


Fotos (e legendas); © Manuel Lopes (2024). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Por mail do passado domingo dia 27 de outubro, o cor art ref António J. Pereira da Costa, nosso tabanqueiro de longa data (12/12/2007) e  om 203 referências no blogue, chamou-nos a atenção para um curioso texto divulgado por um seu camarada do curso da Academia Militar, do ano de 1964, Manuel Lopes, e que tem por título "60º Aniversário da entrada na Academia Militar: Confessores da Pátria 'versus' Confessores da Fé".

O Tó Zé (TZ, como é conhecido por alguns de nós) ou PK (pelos seus camaradas da AM) sugeriu que o texto poderia eventualmente ter interesse para o blogue.

E até mais: "Lembrei-me de propor ao blogue a atribuição  [do título] de 'Confessores da Pátria' aos padres das Companhias que amparavam a malta nas suas diferentes dificuldades espirituais."

E uma vez obtida a autorização do autor (Manuel Maria Martins Lopes, cor inf ref, ex-cmdt da CCAÇ 3369, "Lenços Negros", Moçambique, 1971/73), aqui vão os dois textos em questão. 


 (i) 60º Aniversário da entrada na Academia Militar: Confessores da Pátria 'versus' Confessores da Fé

por Manuel Lopes (cor inf ref)

Caros camaradas:

No final da celebração da missa, adentro do programa das comemorações do 60º Aniversário da nossa entrada na Academia Militar, tive oportunidade de prestar uma singela homenagem à Igreja que esteve sempre presente durante a nossa atividade militar, lembrando também o Padre Gamboa, o nosso capelão que nos recebeu à chegada.

Evoquei depois o testemunho recente do Padre Vitor Espadilha, que na celebração da missa (dia 25 de maio, na Igreja Matriz de Moita,  Anadia) do 42º Convívio anual de ex-combatentes, revelou que a Igreja tinha uma distinção especial para aqueles que se sacrificaram e deram a vida pela causa da Fé. Chamam-se os 'Confessores da Fé'.

Por isso, para nós que nos sacrificámos e jurámos dar a vida pela Pátria, o Padre Vitor Espadilha distinguiu-nos com a designação de 'Confessores da Pátria'.

Assim, registar as nossas vivências militares faz parte da nossa condição de 'Confessores da Pátria'.

Abraço amigo.

Lisboa, 26 de outubro de 2024

Manuel Lopes

 

(ii) 'Lenços Negros', Confessores da Pátria 'versus' Confessores da Fé

por Manuel Lopes


À semelhança de anteriores convívios anuais organizados pelos ex-combatentes da CCaç 3396, 'Lenços Negros', mobilizados para Moçambique de 1971 a 1973, teve lugar na Moita, Anadia,  no passado dia 25 de maio, como tem sido habitual em todos os convívios, a
celebração de uma Missa por intenção daqueles que já partiram.

A passagem pela Igreja Matriz da Junta de Freguesia da Moita ficaria assim indelevelmente marcada pela saudação especial protagonizada pelo Senhor Padre Vitor Espadilha, na presença de ex-combatentes, familiares e amigos, que aqui destacamos:

“Ao ver os vossos cabelos brancos (alguns já os perderam!...), eu imagino vocês rapazinhos novos, há uns anos atrás, convivendo e sonhando e depois com a vida mais entroncada pelo problema da guerra!...

"Tivestes que ir para lá, sim, não, sim?!...

"Aquilo que foi o Portugal colonial e a separação da Mãe, do Pai, da esposa que ficava!...

"As notícias que chegavam e não chegavam!...

"Saudades da Terra!...

"As diferentes complicações que provocamos e dobramos nos sonhos de qualquer rapaz jovem!...

"Mas será que vocês estavam sós?!

"Agora está alguém ao vosso lado, a vossa esposa, os vossos filhos, os vossos netos!...

"Outros não chegaram, lembramo-los hoje também.

"Celebramos a gratidão e o dom da Vida!...

"Nósm na Igreja, temos uma distinção, com os mártires como São Sebastião. São os que morreram por causa da Fé, são representados com uma palma na mão, são os Confessores que foram para uma situação de luta, arriscando a Vida, prontos a morrer, fortes a dar
ajuda. Esses que estavam dispostos a dar a Vida, chamam-se na Igreja 'Confessores da Fé'.

"Então vocês são 'Confessores da Pátria', por quem lutaram, a quem estavam dispostos a dar a Vida.”


Continuando a celebração da Missa o Senhor Padre Vitor Espadilha convidou os ex-combatentes para se juntarem à sua volta no altar:

“Quando a gente vai num barco ou num avião, o destino do barco ou do avião, é o destino daqueles que lá vão, de todos que o ocupam!

"Ou chega ao porto ou não chega!...

"E vocês que estavam na Companhia, o destino era igual, não é?! Era uma Unidade que vocês criaram, que vos liga profundamente para o resto das vossas Vidas!!...

"Então quero que vocês dêem as mãos e rezem comigo!”




Foto nº 1 > Anadia > Moita > 42º convívioo anual do pessoal da CCAÇ 3396, "Lenços Negros" (Moçambique, 1971/73) > 25 de maio de 20214 > greja Matriz de Moita > Comunhão e partilha em torno do altar


E o Senhor Padre Vitor Espadilha continuou a surpreender-nos com o pedido seguinte:

“Queria que ficasse na Igreja um símbolo da vossa presença!...

"Eu vou pedir a um de vocês que me dê um Lenço Negro!...

"Quem me dá um Lenço Negro?!

"Por favor, não coloque aqui no altar, vai entregar a Ela, a Nossa Senhora de Fátima, para que continue sempre nas mãos Dela!"...


Carlos Costa, organizador do Convívio, subiu então para uma cadeira a fim de colocar um Lenço Negro nas mãos da imagem de Nossa Senhora de Fátima que tinha sido colocada no altar no início da celebração da Missa.

"A partir de agora ficará sempre na Paróquia!!", anunciou o Senhor Padre Vitor Espadilha.



Foto nº 2 > Anadia > Moita > 42º convívio anual do pessoal da CCAÇ 3396, "Lenços Negros" (Moçambique, 1971/73) > 25 de maio de 2024 > Igreja Matriz de Moita > Um Lenço Negro nas mãos de Nossa Senhora de Fátima



Seguiu-se o Cântico entoado e aplaudido por todos os presentes:

Miraculosa, rainha dos Céus,
Sob o teu manto tecido de Luz,
Faz com que a guerra se acabe na Terra,
Paz entre os homens, a Paz de Jesus!
Pelas crianças, flor em botão,
Pelos velhinhos, sem Lar, sem Pão,
Pelos Soldados que à guerra vão,
Senhora,  aceita minha oração!


No final o Padre Vitor Espadilha, qual Lenço Negro, juntou-se à fotografia à saída da Missa na Igreja Matriz, tendo à sua frente o Mateus, neto do Aníbal Duarte Santos, organizador local do Convívio   (Fot0 nº 3, vd. acima).

Alguns dias mais tarde tivemos oportunidade de enviar este email de agradecimento ao Senhor

"Padre Vitor Espadilha:

"Bom dia Senhor Padre Vítor, Lenço Negro:

"Só agora tive conhecimento do seu email, por isso aqui estou a dar notícias.

"Antes de mais os meus agradecimentos, em meu nome, de todos os ex-combatentes, familiares e amigos dos Lenços Negros. A sua benção no altar e a oferta de um Lenço Negro a Nossa Senhora de Fátima serão sempre referências indeléveis do nosso 45º Convívio anual.

"A CCaç 3396 que já tinha sido consagrada a Nossa Senhora em 1971, volta de novo ao seu Convívio, passados 53 anos, reconfortados com a sua mensagem de Paz.

"Obrigado. Vamos continuar em contacto. Vou convidá-lo para a nossa página de 'Moçambique, Lenços Negros' para nos continuar a acompanhar com a sua profunda mensagem de estima, compreensão e solidariedade.

"Obrigado. Abraço. Manuel Lopes"



O Senhor Padre Vitor Espadilha não tardou a responder assim:

"Boa noite. Fico muito honrado...vocês são nossos HERÓIS... contem comigo... sempre..."

Ao fim de 45 Convívios anuais da CCaç 3396, "Lenços Negros", e em tempo de comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, nunca nos tinham apelidado de HERÓIS, quais Confessores da Pátria.

A Igreja, como nenhuma outra Instituição através do Padre Vitor Espadilha, soube interpretar e sublimar o tempo de guerra e os sacrifícios que lhe estão intimamente associados.

Habituado a identificar os ex-combatentes como Heróis da Liberdade, foi reconfortante ouvir da parte do Padre Vitor Espadilha a sua identificação como HERÓIS, remetendo-nos para a importância da Igreja e dos valores religiosos a ela ligados que nos acompanharam nos
diferentes teatros de operações.

Bem haja,  Senhor Padre Vitor Espadilha.

Foi reconfortante, salutar e estimulante a nossa passagem pela Igreja Matriz da Moita, marco indelével das nossas vivências de guerra e de Paz.

Lisboa, 16 de junho de 2024.

Manuel Lopes

PS - No programa do Convívio estava a deposição de uma coroa de flores junto ao Monumento dos ex-combatentes, a visita ao Museu do Vinho e a realização de um almoço no Restaurante D. Sancho. Mas o essencial já tinha acontecido na Igreja Matriz da Moita.

(Revisão / fixação de texto, título do poste: LG)

_______________

Nota do editor:

Último poste da série >31 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26100: (In)citações (267): Memorando sobre a Escola São Francisco de Assis, em Timor, entregue ao primeiro-ministro Xanana Gusmão através do embaixador Dionísio Babo Soares, representante do país nas Nações Unidas (João Crisóstomo)

sábado, 27 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25781: Lições de artilharia para os infantes (11): A artilharia portuguesa, até à década de 90, nunca teve condições para efectuar a Preparação Teórica do Tiro (Morais Silva, cor e prof art AM, ref; ex-cap art, instrutor 1ª CCmds Africanos, Fá Mandinga, adjunto COP 6, Mansabá, cmdt CCAÇ 2796, Gadamael, 1970/72)



Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971 > A famosa e feliz foto do ex-alf mil médico Amaral Bernardo, membro da nossa Tabanca Grande desde Fevereiro de 2007: a saída do obus 14, de noite.

"Foi tirada com a máquina rente ao chão. Bedanda tinha três. Uma arma demolidora. Um supositório de 50 quilos lançado a 14 km de distância... Era um pavor quando disparavam os três ao mesmo tempo... Era costume pregar sustos aos periquitos... Eu também tive honras de obus, quando lá cheguei... Guileje não tinha nenhum obus, mas sim três peças de artilharia 11.4. A peça era esteticamente mais elegante do que o obus" - disse-me o Amaral Bernardo, no dia em que o conheci pessoalmente, no Porto, no seu gabinete no Hospital Geral de Santo António, que era então a sua segunda casa, e onde era o director do ensino pré-graduado da licenciatura de medicina do ICBAS - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar/HGSA Ciclo Clínico (ou seja, responsável por mais de meio milhar de alunos, um batalhão; reformou-se, entretanto]...

Foto (e legenda): © Amaral Bernardo (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem de Morais Silva (cor art ref; foi professor de artilharia e investigação operacional durante duas décadas, na Academia Militar; ex-cap art, cmdt  CCAÇ 2796, Gadamael,  instrutor 1ª CCmds Africanos, Fá Mandinga, adjunto COP 6, Mansabá,1970/72; colabora com o nosso blogue desde 31/5/2010; integra formalmente a nossa Tabanca Grande desde 17/3/2019; tem 142 referências no blogue; página na Net:  https://www.moraissilva.pt/):


Data - 26/07/2024, 21:54
Assunto - 

Caro Luís

Afinal resolvi fazer o seguinte comentário “educativo” (*):

A afirmação de Domingos Robalo "No CTIG, devido à rarefação do ar (pressão atmosférica reduzida), este alcance tabular tem um incremento de 10%" sugere-me um muito breve apontamento teórico sobre o tiro de artilharia. (**)

A trajectória de um projéctil é afectada por:

1. Condições balísticas : "Gastamento do tubo" e "Temperatura da carga" que afectam a Velocidade Inicial da granada e, portanto, o alcance do tiro. Para um obus/peça o efeito conjunto deste dois parâmetros só pode ser conhecido, para cada carga, dispondo de um Velocímetro que na nossa Artilharia só apareceu na década de 90...

2. Condições aerológicas: "Rumo donde sopra o vento" para calcular os efeitos longitudinal e transversal respectivamente nas Distância e Direcção do tiro. "Temperatura e Densidade do ar" para obter correcções na distância de tiro. Para calcular o efeito destes parâmetros é necesssário dispor de uma estação meteo (Meteogramas) e só na década de 80 passamos a dispor desta facilidade.

Resumindo, a Artilharia portuguesa, até à década de 90, nunca teve condições para efectuar a Preparação Teórica do Tiro. E porque assim foi, o atrás referido “incremento de 10%” não tem suporte analítico que eu conheça.

Nos 3 TO a artilharia usava a prancheta topográfica que, na Guiné, dispunha do suporte da preciosa carta totográfica 1:50000.

A distância topográfica e diferença de cota determinavam Carga e Elevação do tubo. Os Rumos Posição-Objectivo e de Vigilância permitiam calcular a Direcção topográfica que era corrigida da Derivação tabular associada ao tempo de voo.

Procedimento simples cuja eficácia era afectada pela localização "estimada" das bocas de fogo do IN...

Ainda hoje não entendo porque não foi prioritária a aquisição de radares contra-morteiro que transformassem a nossa artilharia "barata-tonta" em "barata-inteligente e eficaz".

Última nota para alguns Oficiais artilheiros-infantes que recorreram à observação aéra/terrestre, para obter correcções empíricas para a distância topográfica e assim melhorar as condições balísticas para o "Apoio próximo". Era poucochinho (100, 200 metros) mas melhor do que nada.
Abraço

Morais Silva

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Notas do editor:


Vd. também poste de 26 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25777: Casos: a verdade sobre... (47) "Fogo amigo", Xime, 1/12/1973: o obus 14 cm m/43 usava a granada HE (45 kg) com alcance máximo de 14,8 km... (Morais Silva, cor e prof art AM, ref; ex-cap art, instrutor 1ª CCmds Africanos, Fá Mandinga, adjunto COP 6, Mansabá, cmdt CCAÇ 2796, Gadamael, 1970/72)

terça-feira, 18 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25655: Timor-Leste, o passado e o presente (7): Vida e morte em Timor Durante a Segunda Mundial, de José dos Santos Carvalho (Lisboa, 1972, 208 pp.)

Capa do livro de José dos Santos Carvalho: "Vida e Morte em Timor Durante a Segunda Guerra Mundial", Lisboa: Livraria Portugal, 1972,  208 pp. (Livro raro, só possível de encontrar em alfarrabistas, ou então no Internet Archive, em formato digital)


1. Mensagem do cor art ref Morais Silva, nosso grão-tabanqueiro nº 784:

Data - 17/06/2024, 20:05 
Assunto - Ai, Timor...

Caro Luís

Estou “assustado" com o quão pouco sei sobre Timor ao tempo da 2ª Grande Guerra.

Leio em:

https://archive.org/stream/VidaEMorteEmTimorDuranteASegundaGuerraMundial/VidaMorteTimor_djvu.txt 

(...) Uma 'coluna negra' formada por timorenses da cidade de Atambua, na parte holandesa, assaltou o aquartelamento da Companhia de Caçadores de Timor, então situado em Aileu.

Ataque traiçoeiro, a coberto do escuro da noite, não permitiu uma defesa eficaz, morrendo, combatendo, os cabos Evaristo Madeira e Júlio António da Costa, os soldados Álvaro Henrique Maher e João Florindo e vários soldados timorenses.

O comandante da companhia, capitão Freire da Costa, que com sua esposa, o médico Dr. Arriarte Pedroso, o secretário de circunscrição Gouveia Leite e o chefe de posto auxiliar António Afonso,  se encontravam reunidos na residência do comandante, suicidaram-se para não caírem nas mãos dos selvagens que atacavam a casa e lançavam fogo às suas dependências, os quais, certamente, os torturariam e sujeitariam aos piores vexames. (...)


2. O Cap António Maria Freire da Costa, será este ex-aluno da Escola de Guerra,  incorporado em 1917 para Infantaria, e natural de Lisboa: 



3. Vou ter que ler este livro “Vida e Morte em Timor durante a Segunda Guerra Mundial” de José dos Santos Carvalho , médico que se encontrava a prestar serviço em Timor quando se deu a invasão japonesa durante a segunda guerra mundial. 


Além de ser uma descrição emocionada das atrocidades ali­ cometidas, este livro é também uma homenagem a todos aqueles, Portugueses e Timorenses, que resistiram à ocupação, muitas vezes com o sacrifí­cio da própria vida, unidos numa causa comum - a libertação de Timor. 

Como médico, o autor incluiu também as suas notas sobre a situação sanitária no território, durante e após a invasão.

Ab, MS

P.S. Estou a editar o texto que enviarei quando pronto


4. Comentário de LG:

Obrigado, amigo e companheiro destas lides...

Há que aprender e cultivar a nossa memória até ao fim...Eu, que fui para a rua, a favor do direito dos timorenses à autodeterminação, também não sabia nada (ou quase nada) sobre a história deste povo e do seu amor à liberdade e a Portugal...

Tenho um amigo, beirão, da Malcata, Sabugal, o Rui Chamusco (agora também ele membro da Tabanca Grande) que lá vai desde 2016, e que tem um projeto solidário nas montanhas de Liquiçá. Foi ele que me despertou para esta gesta de dor, sofrimento, luta, morte e resistência, nomeadamente na II GG (com a ocupação japonea) e sobretudo depois a partir de 1975 (com a ocupação imndonésia)...

Mas ele também não sabia nada dos bravos portugueses, timorenses e australianos, que resistiram nas montanhas entre 1942 e 1945...

E depois temos, os 23 militares portugueses que estiveram presos dos indonésios, mais recentemente, em 1975/76, incluindo o seu camarada de armas, o cor inf 'cmd' António Ivo do Nascimento Viçoso, já falecido em 2008, e que em 1999, "23 anos depois", lá "abriu o livro", dando uma entrevista ao "Público"...

https://www.publico.pt/1999/10/04/jornal/comandante-militar-em-dili-foi-carcereiro-de-portugueses-124568

Vamos partilhando informação. Se nós sabemos pouco de Timor, o que diremos dos nossos filhos e netos ?

Um abraço, Luis
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Nota do editor:

domingo, 16 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25645: Timor-Leste, passado e presente (6): O tenente Manuel de Jesus Pires (1885-1944), herói em Timor, desertor e traidor no seu país ?

 




Nome: Manuel de Jesus Pires
Naturalidade: concelho do Porto
Idade: 20 anos
Posto à data da 1ª matrícula: 2º sargento
Ano da 1ª matrícula: 1915
Curso em que se matriculou: Infantaria
Nº de ordem no Corpo de Alunos: 61
Nº de ordem na classificação final dos alunos que concluíram o curso: 1/18
Cota de mérito final: 128
Escola que frequentou: Escola de Guerra
Registo: 
Nº do livro: 27
Nº de folhas: 413
Processos:
Nº do maço: 166
Nº do processo: 6511
Escolas Preparatórias Superiores: Universidade do Port
o



Cor ar ref, António Carlos Morais da Silva 
 
1. Este é o registo do tenente Manuel de Jesus Pires que consta no tombo da Escola de Guerra, enquanto aluno inscrito no curso de infantaria, em 1915. Tinha então 20 anos, tendo nascido em 1885, na cidade do Porto. Foi o primeiro aluno do seu curso.  

Estes elementos foram-nos gentilmente fornecidos, a nosso pedido,  pelo nosso grão-tabanqueiro Morais Silva (cadete-aluno nº 45/63 do Corpo de Alunos da Academia Militar e depois professor de investigação operacional na AM, durante cerca de 2 décadas; no CTIG, foi  instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972; fez parte do Grupo L34, na Op Viragem Histórica, no 25 de Abril de 1974). 

Não se sabe ainda, com exatidão, as circunstâncias da morte do então tenente Pires, em Timor, durante a II Guerra Mundial (*). Sabe-se, isso, sim que foi um dos heróis da resistência luso-timorense durante a  ocupação japonesa do território, em articulação com os australianos e holandeses, tendo salvo bastantes vidas humanas, de portugueses europeus e timorenses. 

Terá morrido, no cativeiro, às mãos dos japoneses, c. 1944. 

O actor Marco Delgado no papel de Tenente Pires,
na série "Abandonados" (realização de Francisco
Manso, produção RTP, 2022). Imagem: cortesia de RTP e 
Time Out (20 de dezembro de 2022)


2. O seu diário de guerra chegou a Portugal, salvo por Carlos Cal Brandão, um advogado português deportado em Timor desde 1931, e seu companheiro de resistência.

Foi com base nesse diário (e outras fontes arquivísticas) , que o historiador António Monteiro Cardoso (1950-2016) escreveu o livro "Timor na 2.ª Guerra Mundial — O Diário do Tenente Pires" (Lisboa: Centro de Estudos de História Contemporânea, ISCTE, 2007), livro que por sua vez inspirou o realizador da série televisiva "Abandonados", Francisco  Manso (também autor do filme "O Cônsul de Bordéus", 2011). (A série "Abandonados", em 7 episódios, passou na RTP entre 21 de dezembro de 2022 e 15 de fevereiro de 2023, podendo ser vista ou revista, aqui, na RTP Play).

O tenente Pires começou a escrever um  diário, a partir do natal de 1942, em plena fuga pelo interior de Timor, e depois na Austrália, terminando antes de ele desembarcar de novo em Timor, a partir de um submarino americano, com uma missão arriscada, em meados de 1943. O comando que ele chefiava, regressou a Timor para lançar uma operação de guerrilha, a Op Lagarto (de 1 de julho a 29 de setembro de 1943). Acabou por ser ferido e capturado pelos japoneses (juntamente com um sargento australiano e vários timorenses).

Mas há um outro militar português, o tenente António Oliveira Liberato, e outros portugueses, civis e militares, que se empenharam na resistência aos japoneses, contrariando as orientações de Lisboa. Tudo indica que, no caso do tenente Manuel de Jesus Pires, se fosse vivo e regressasse à Pátria, seria julgado por traição e deserção. 

sábado, 8 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25621: Os 50 anos do 25 de Abril (27): "A Academia Militar, os Seus Militares e a Revolução dos Cravos", Exposição relativa aos 50 anos do 25 de Abril na Academia Militar


1. Mensagem do nosso camarada António Carlos Morais da Silva (ex-Instrutor da 1.ª CCmds Africanos em Fá Mandinga; Adjunto do COP 6 em Mansabá e Comandante da CCAÇ 2796 em Gadamael, 1970 e 1972), com data de 8 de Junho de 2024:

Caro Vinhal
Julgo não ter enviado a notícia da exposição na Academia Militar homenageando os seus militares participantes no 25 de Abril (Otelo, Garcia dos Santos, Morais Silva....).
A ser assim, como julgo, aqui vai informação e uma foto do dia da inauguração. Se considerar útil agradeço anúncio no blogue.

Cumprimentos cordiais
Morais Silva

Dia da inauguração da Exposição
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Nota do editor

Último post da série de 6 DE JUNHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25612: Os 50 anos do 25 de Abril (26): A exposição, na Gare Marítima de Alcântara, sobre os antecendentes e a origem (com enfoque na guerrra colonial) e os protagonistas do 25 de Abril de 1974... Para ver até 26 de junho - Parte I: Os bodes expiatórios do regime

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25469: Os 50 anos do 25 de Abril (16): O fotornalismo da guerra, que os senhores do lápis azul deixavam passar, às vezes, em revistas como a "Flama", órgão oficial da JEC-Juventude Escolar Católica (1937-1983)

 



"O inimigo pode atacar a qualquer momento- Os rostos desta guerra, marcados pelo esforço e pela tensão nervosa de muitas horas de angústia, aguardam".




"Uma pausa no esforço diário mas logo prosseguem"


"Vai começar... O Grupo de Combate reune-se na base antes de mais uma operação"...


"Determinação. O rosto do soldado indígena, de metralhadora às costas, revela um firme propósito"


"Hora do rancho, após uma operação. O apetite é redobrado."




"Flama", Ano XXIII, nº 1000, 5 de maio de 1967, pp. 78/79 (Cortesia de Hemeroteca Digital de Lisbia / Câmara Municipal de Lisboa). 

(Adapt. livre de Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné... Com a devida vénia)


1. Era o "jornalismo" possível. Era o "fotojornalismo de guerra" possível... A "Flama", que se lia no ultramar, que chegava aos quartéis na Guiné, comemorava  em 5 de maio de 1967 o seu nº 1000. Tinha nascido em 1937, da iniciativa de um grupo da JEC - Juventude Escolar Católica, com a benção de Salazar e do Cardeal Cerejeira. Era então marcadamente masculina,  e de teor religioso. Redefine-se a partir de 1944... Definia-se, ainda em 1967,  como "um semanário de atualidades de inspiração cristã".... Era então uma das revistas portuguesas mais antigas. E é hoje considerada um marco importante na história do jornalismo português, e nomeadamente do jornalismo feito por mulheres e para as mulheres.  Por ela passaram mulheres, jornalistas, como Maria Teresa Horta, Regina Louro, Edite Soeiro...

Nesse número especial,  dezasseis páginas (num total de 116) eram dedicadas ao cinquentenário de Fátima, na véspera da visita do Papa Paulo VI. Na altura custava 5$00 o número avulso (equivalente hoje a 2 euros; em 3 de maio de 1974, já custava o dobro, 10$00,  também 2 euros, a preços de hoje).

Duas páginas, cheias de fotos e sucintas legendas eram dedicadas à "Guiné: rostos de uma guerra". Evitando-se a propaganda mais descarada do regime. escreve-se:

  • "a luta na Guné prossegue sem quartel";
  • "militares de todos os ramos das forças armadas, generosos na sua juventude";
  • " cumprem a sua comissão de serviço";
  • "momentos dramáticos, arrancados ao quotidiano do soldados português";
  • "o rosto do soldado indígena" (sic)...

Uma raridade, em todo o caso,  na imprensa portuguesa da época, o aparecimento de fotos, com algum dramatismo, de militares portugueses em pleno  teatro  de operações da Guiné, já então o mais duro das "três frentes"....

Mas as fotos são provenientes dos... "fotocines"... no texto diz-se "amavelmente cedidas pelos repórteres dos Serviços Cartográficos do Exército" que eu, por exemplo,  nunca vi, ao meu lado, em operações, no meu tempo (junho de 1969 / março de 1971). As legendas da "Flama" são obviamente escritas no conforto da redação... em Lisboa, e na ignorância do que era realmente uma guerra de guerrilha e contra-guerrilha  ("subversiva e contra-subversiva", na linguagem da tropa de então). Por outro lado, havia o "Big Brother" da censura...

Mas é a "reportagem possível" de uma revista, respeitável, até "arejada",  originalmenet ligada à Igreja Católica, e que, para além dos assinantes, tinha uma boa fonte de receita na publicidade (muita dela já virada, nos anos 60/70, para o público feminino).

O seu primeiro diretor foi o dr. António dos Reis Rodrigues (1918-2009), um dos homens mais influentes da hierarquia eclesiástica de então: 

  • assistente eclesiástico da Juventude Universitária Católica (JUC) (1947-1965);
  • capelão (desde 1947) e professor da Academia Militar (onde leccionava Deontologia Militar e Ética);
  • procurador da Câmara Corporativa, na VIII Legislatura (1961/65), como representante  da Igreja Católica;
  • responsável pelo programa religioso da RTP (até 1966);
  • nomeado em 1966 bispo auxiliar de Lisboa, sob o título de Bispo de Madarsuma, com as funções de Capelão-mor das Forças Armadas (1967-1975);
  • membro da Conferência Episcopal Portuguesa, onde desempenhou várias funções, sendo Secretário (1975-1981) e vice-presidente (1981-1984);
  • vigário-geral do Patriarcado de Lisboa (1984)...
Temos algumas referências, no nosso blogue, ao senhor bispo de Mardasuma que, honra lhe seja feita, teve a corgem de ir dizer  missa na mítica Gandembel e lá teve o seu batismo de fogo, no Natal de 1967 (**).

Era o diretor da "Flama" quando se deu o 25 de Abril de 1974. A revista vai dedicar um número especial ao acontecimento. Iremos reproduzir algumas imagens dessa edição (**).



Guiné > Região de Tombali > Gandembel > 25/12/1968 > Missa de Natal celebrada pelo capelão-mor das Forças Armadas, bispo de Madarsuma. Foi a última missa celebrada em Gandembel (o aquartelamento seria abandonado um mês depois, por ordem do Com-Chefe)... E nesse dia de Natal o Dom António dos Reis Rodrigues teve o seu batismo de fogo...

E ainda propósito desta foto, o nosso camarada  Antº Rosinha escreveu em genial comentário ao poste P13616: 

(...) A foto da "Última Missa em Gandembel", é uma das fotos mais falantes do que qualquer outra que se possa ver sobre a Guerra do Ultramar. Aquela mesa/altar, aquele ajudante em tronco nú, representam bem o desenrascanço da malta.

Esta última missa documentada por Idálio Reis contrasta com a 1ª missa, festejada por índios e pintada por artistas e documentada pela carta de Caminha. Quatro dias após ter chegado em Porto Seguro, no Domingo de Páscoa, em 26 de abril de 1500, Cabral determinou que se realizasse uma missa no ilhéu da Coroa Vermelha. Foi a Primeira Missa celebrada em solo brasileiro e o evento foi documentado pela Carta de Caminha. (...)


Foto (e legenda): © Idálio Reis (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

15 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24317: Recortes de imprensa (126): O caso do capelão militar Arsénio Puim, expulso do CTIG em 1971 (tal como o Mário de Oliveira em 1968) não foi excecional: o jornalista António Marujo descobriu mais 11 padres "contestatários" (10 da diocese do Porto e 1 de Viseu)... Destaque para o trabalho de investigação publicado na Revista do Expresso, de 12/5/2023

17 de setembro de  2014 > Guiné 63/74 - P13616: Os nossos capelães (4): O bispo de Madarsuma, capelão-mor das Forças Armadas, em Gandembel, no natal de 1968 (Idálio Reis, ex-alf mil, CCAÇ 2317, Gandembel / Balana, 1968/69)