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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  Multifunções na aldeia:  mercearia; drogaria;  loja de bugigangas, tachos e panelas; carvoaria;  casa de comida ou  de pasto; pensão, hospedaria (de beira de estrada),  etc. ... Mais especializada na vila, onde  havia mais oferta e maior número de estabelecimentos comerciais.  Mas, em geral, a taberna também é casa de comida, de petiscos , etc. O taberneiro não podia viver só dos " copos de três"... 

  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé"  (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

Era um espaço masculino, tal como a igreja e o lavadouro público eram territórios femininos. A mulher não entrava  na tasca, mandava o filho mais velho fazer alguma compra de  última hora. "In extremis" , entrava na tasca para trazer para casa o homem com vinho a mais.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se.  O cheiro a sarro, a serradura no chão, a peixe frito, a vomitado e  a lixivia ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... 

Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal" ou " Notícias da Amadora") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era uma tasca icónica, e também casa de pasto, conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", por nela ter assento a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços. Também servia de escritório para os solicitadores...

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, de verbo fácil,  autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local. Seria depois autarca a seguir ao 25 de Abril.  Infelizmente morreu cedo,  aos 60 anos.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. 

Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca ou de bisca, e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo ou postas de moreia e de "arraial" fritas.

  Morreu no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola, o macaco. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, em relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   

O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, do almocreve, etc., a par do  local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cavador de enxada, o mineiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (aos agentes da "praça da jorna", aos recrutadores de mão-de-obra), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro" ou "taberneiro" ) ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões, das autoridades e das polícias ( a GNR, a PVDE / PIDE), que nascem os sussurros de greve,  de incitações á revolta , a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.

Acrescente-se, a propósito, que aescolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, a conflitualidade social  etc., serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, ou o Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943), que são  justamente considerados dois  marcos fundadores do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. 

Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe, quem fuma, quem se avia quem fala...

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmente segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas,  dos conflitos, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.

Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. 

Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as.

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: 

 (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);

(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); 

(iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (

iv) símbolo de resistência possivel e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
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Nota do editor LG:


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28352: Nomadizações de um marginbal-secante (Luís Graça) (19): a "Venda" na literatrura portuguesa dos séc- XIX e XX - Parte I: De Camilo Castelo Branco a Aquilino Ribeiro








Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: António Carvalho (2026) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. A leitura do excerto antológico do António Carvalho sobre a "venda de Medas" (ou "Emendadas"), em 1944 (*), sugere-me algumas notas, esperando com elas motivar os nossos leitores a comprar e a ler o livro, que nos conta uma história fascinante, a qual pode ser lida como um "thriller", mesmo não o sendo.... E nomeadamenmte as últimas 70 páginas.  (António Carvalho - "3x44: Abel e Caim em Contrapé. Porto: Vida Económica, 2026, 287 pp.)

A venda, misto de  merceria,  taberna e até estalagem (tanto na aldeia como à beira de estrada)  funciona na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX como um verdadeiro microuniverso sociológico. 

É o espaço de transição onde o aldeão ou viajante ganha folgo, se cruzam notícias do reino (em depois, república a partir de 1910), se acertam contas, se bebe o vinho verde ou maduro, e onde também se namora ou se cruzam olhares cúmplices e bilhetinhos de amor, e se geram contendas e bisbilhotices locais, enfim, também o sítio onde se recebe o correio e até jornais.

Antes de dar o lugar a alguns dos nossos clássicos da literatura portuguesa, recordemos aqui a prata da casa: 

  • o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
  • e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café,  "para fazer na cafeteira",  ao petróleo e ao bacalhau (***).

2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos  lá fazer "recados"). 

Não queremos nem podemos ser exaustivos, é apenas uma amostra que nem sequer tem a veleidade de ser antológica. (****)

Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até  pelo menos ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País.  Uma  ou outra ainda chegou aos nossos dias: é caso, por exemplo, da "Venda, Taberna e Mercearia", com sede em Grândola.


Camilo Castelo Branco
(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)

Camilo Castelo Branco:  a "Venda" romântica e passional

Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.

  • A Brasileira de Prazins (1883):

(...) "Estava na venda do Manuel da Eira um rancho de rapazes a beber e a tocar violas. O vinho tinto de Amarante espumava nos quartilhos de barro vermelhos. À porta, a estalajadeira tirava da frigideira as fatias de presunto que chiarão no azeite a ferver, espalhando pela estrada um cheiro apetitoso que fazia parar as almocreves." (...)

  • Amor de Perdição (1862): 
Nas passagens onde Simão Botelho viaja clandestinamente, as vendas da Beira e do Douro surgem como pontos de abrigo escuro, onde os segredos de família e as conspirações trocam de mãos ao balcão.


Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)


Eça de Queiroz:  o  realismo dialético do campo e da cidade

Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.

  • Alves & Cia (1885, 1925)

A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
  • O Crime do Padre Amaro (1875):
 Eça também descreve tabernas e lojas como espaços de convívio e crítica social. 

De qualquer, estas três instituições (venda, taberna,  mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.

  • A Ilustre Casa de Ramires (1900): 

(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..." 

Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,
  • A Cidade e as Serras (1901): 

Na chegada de Jacinto a Tormes, a rusticidade da loja rural e da estalagem da serra sobressai pelo contraste com a opulência parisiense que o protagonista deixara para trás. 


Aquilino Ribeiro
(Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963)


Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo

Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo,  a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social  e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.

  • Terras do Demo (1919):

 (...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)

  • O Malhadinhas (1922): 

A vida dos almocreves e recoveiros é contada ao ritmo das paragens de venda em venda, onde se come a broa, o queijo da serra e se contam histórias extraordinárias ao serão.

A venda (a taberna, a "baiuca") é um despaço de encontro e conflitos, onde se misturam o tradicional e o moderno. Um local onde se desdobram intrigas familiares e conflitos de classe.

(...) "A venda do Sr. João era o ponto de encontro dos homens da terra: ali se falava de política, de amor, e até de revolução." (...)

(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)

(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)






Trindade Coelho
(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)


Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores

Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.

  • Os Meus Amores: contos e baladas (1891):  

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)
  • No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)

Outros escritores:

Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)

A taberna como despaço de degradação moral e crítica à sociedade lisboeta.

Raúl Brandão: Húmus (1917)

A taberna: local de encontros noturnos e reflexões sobre a condição humana.
_______

(Continua)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT, Mistral, Gemini)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Co
ntrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)

(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)


(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)

(...) Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos.

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias.  


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
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(Revisão / fixação de texto: LG)

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