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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)


Oeiras > Algés > Magnífica Tabanca da Linha > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Joaquim Pinto Carvalho (Cadaval) e o Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle") (Cascais),  autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp.), e próximo grão-tabanqueiro nº 913, apadrinhado pelo Pinto Carvalho.

Foto © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

1. Retomando a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Sinopse dos postes anteriores (*):

(i) o Luís, de alcunha o "Beatle", empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v) no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.



(vi) após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308;

(vii) um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "periquitos" entregues a si próprios.
(viii) a 2ª C/BART 6521/72 também teve que adotar um nome de guerra, neste caso "Os Có Boys"; a companhia dos "velhinhos", que eles foram render, a CCAÇ 3308, eram os "Jagunços de Có" ( o nome não poderia sugerido pela personagem da novela brasileira Roque Santeiro, uma vez que esta só foi produzida pela TV Globo em 1985 e exibida em Portugal, na RTP1, entre outubro de 1987 e agosto de 1988).


2. Uma das partes notáveis do livro, pela vivacidade da descrição, a riqueza de detalhes e também sua dose de humor de caserna,  é "a coluna de Teixeira Pinto" (hoje, Canchungo) (pp. 73-80). 

Num troço de estrada já alcatroada (entre o Pelundo e o Có), e ainda na altura da sobreposição da 2ª C/BART 6521/72 com a CCAÇ 3308, o PAIGC monta uma emboscada com fornilhos, à coluna que seguia  de Teixeira Pinto para Pelundo, Có, Joâo Landim e Bissau (havia duas por semana).

É o batismo de fogo de alguns  "periquitos" (2ª C/BART 6521/72) e a despedida dos "velhinhos" (CCAÇ 3308). O autor não ia na coluna, que de resto não era atacada há muito, mas reconstituiu a "cena" a partir dos depoimentos de quem viveu os acontecimentos.

Vamos selecionar agluns excertos. 

Recorde-se que o BART 6521/72 veio render, em 25Nov72,  o BCaç 3833, passando a assumir a responsabilidade do Sector 07 (Oeste 7), com sede em Pelundo (1ª Comp: Pelundo. 2ª Comp: Có: 3ª Comp: Jolmete.

Pormenor importante: as estradas alcatroadas da "Guiné Melhor" não vieram resolver o problema das "minas & armadilhas"... Resolveram, sim,  a "chatice" da picagem, penosa, cansativa, perigosa... E cruaram uma perigosa sensação de liberdade de movimentos e de segurança.

Nas novas estradas, andava-se a maior velocidade (por evezes exessiva)  e o alcatrão não impedia que, nas bermas, o IN instalasse traiçoeiros e perigosíssimos  fornilhos, com fios de tropeçar de muitos metros...

Meia-dúzia de atiradores do PAIGC, apoiados na retaguarda por armas pesadas de infantaria, podiam dar cabo de uma coluna ou gerar o pânico (entre civis e militares)...E sobretudo obrigavam  um esforço redobrado (e desmedido) das NT em termos de segurança. 

Parafraseando o autor, mais do que "desvastadora", aquela guerra era sobretudo "desmoralizadora"... De resto, para ambos os lados...Mas, para os "periquitos", acabados de chegar da Metrópole, aquela emboscada na "curva da morte", na estrada Pelundo-Có, era de mau agoiro, começava-se mal...Como dizia, na chalaça e para desanuviar o ambiente, um dos "có boys", que seria de etnia cigana, também o seu povo "não gostava de ver bons princípios aos filhos" (pág. 79).

Curiosamente, são raras as referências à participação de militares, oriundos da minoria étnica cigana, na guerra que a elite dirigente do país, na época, dizia que era uma guerra de todos nós, portugueses da metrópole e do ultramar, de Angola a Goa, de Cabo Verde a Timor, "brancos, pretos, mestiços, amarelos"...



Guiné > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil) >
 Troço Pelundo - Có - Rio Mansoa; a nrodeste, Jolmete; este triángulo formava o Sector O7.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)









pp. 73-77 (**)



Esta emboscada à coluna oriunda de Teixeira Pinto (que em princípio se fazia duas vezes pro semana), foi mais perto de Có, na chamada "curva da morte" (havia muitas, nas estradas e picadas da Guiné). Os feridos mais ligeiros foram tratados em Có, o aquartelamento mais próximo. Entre eles, estava o 2º cmdt do BCAC 3833, que o BART 6521/72 vinha render. 

O major (maj inf Bernardino Rodrigues dos Santos ou maj inf  Manuel Basílio de Almeida Teixeira de Aguiar da Câmara, um deles) terá sido cuspido do jipe (não se usava cinto de segurança nesse tempo, ironiza o nosso "Beatle"). 

Depois de uma massagem com a "milagrosa pomada Synalar", foi-lhe recomendado que se dirigisse ao bar de oficiais para tomar a segunda dose da medicação, o "reconfortanto xarope James Martin" (pp. 78/79).

E aproveita o autor para descrever o a cantina das praças, com o traço grosso da caricatura, e a imagem deliciosa do "bordel do mato":

"Na cantina a abarrotar de velhos e novos de garganta seca e fumando como comboios a carvão, a luta para se abeirarerm do balcão era intensa. Ali, a  sede era menos exclusiva, contudo mais extensa, e necessitava de mais quantidade de líquido para se apaziguar" (pág. 79).

Fazendo juz à sua experiência e ao seu saber de "barman" na vida civil, o "Beatle" acrescentaem tom pícaro e  com um delicioso sarcasmo:

"O sistema na cantina era como aquele velho ditado sobre a mais velha profissão do mundo: «cú no chão, dinheiro na mão". 

Não havia fiados para as praças. Soldados e cabos não usufruíam desse direito que era comum aos restantes  militares graduados. O que é certo  é que, por isso, só se abeirava do balcão da cantina quem tinha algum dinheiro, para comprar a sua 'bazuca' ou para oferecer uma ao camarada." (pág. 79).




(...) 

pág. 80

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 73-77 e 80

(Revisão/fixação de texto: LG)
______________




A Metralhadora Ligeira Degtyarev RPD, se é essa a que te referes, era alimentada por um ambor com fita no seu interior com 100 projécteis.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27589: Em busca de... (330): Maria João Sá Lopes pretende contactar camaradas de seu tio Vítor Manuel da Silva de Sá Lopes, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3567, falecido em 21 de Maio de 1973, numa emboscada a uma coluna auto na estrada Mansabá-Mansoa


1. Mensagem de Maria João Sá Lopes, enviada hoje mesmo ao nosso Blogue atravé do Formulário de Contacto do Blogger:

Caro Luís Graça e editores do blogue,

Escrevo-vos com o coração cheio de esperança na vossa vasta rede de camaradagem.

Sou sobrinha do Furriel Miliciano de Operações Especiais Vítor Manuel da Silva de Sá Lopes, natural de Água Longa (Santo Tirso), que serviu na CART 3567, integrada no BCAC 4612, em Mansoa/Mansabá.

O meu tio faleceu em combate no dia 21 de Maio de 1973, numa emboscada na zona de Cutia, quando a coluna seguia de Mansabá para Mansoa.

Encontrei recentemente o relato emocionante do Dr. António Vasconcelos de Castro sobre esse dia trágico, que descreve a chegada das viaturas a Mansoa e o sacrifício do meu tio e dos seus camaradas.

Gostaria de pedir a vossa ajuda para chegar aos antigos camaradas da CART 3567 (mobilizada pelo RAL 5 de Penafiel) ou do BCAC 4612.

O meu objetivo é:
Tentar encontrar fotografias onde o meu tio apareça (em grupo, no quartel ou em operações).

Recolher algum testemunho de quem tenha convivido com ele e que possa partilhar um pouco de como ele era enquanto camarada de armas.

Ele encontra-se sepultado em Ermesinde e a nossa família guarda com muito respeito a sua memória, mas faltam-nos as imagens desse tempo que ele viveu convosco na Guiné.

Agradeço antecipadamente toda a ajuda que puderem dar na divulgação deste apelo no vosso blogue.

Com os melhores cumprimentos e estima,
Maria Joao Sá Lopes


Estrada Mansabá-Mansoa > © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné

2. Comentário do editor Carlos Vinhal

Cara amiga Maria João
Muito obrigado pelo interesse em saber notícias do seu tio Vítor.

Conheço um camarada do seu tio, o Luís Bateira, também ele Furriel Miliciano da CART 3567, a quem enviei já a sua mensagem, pedindo para entrar em contacto consigo.

Da tertúlia do nosso Blogue, faz parte o Coronel António José Pereira da Costa que, enquanto Capitão, comandou em Mansabá a CART 3567. Também enviei para ele a sua mensagem.

Esperemos que pelo menos um deles nos possa dar alguma informação.

A título informativo, fica aqui a nota do falecimento na mesma emboscada dos Soldados:
- Francisco António Cordeiro, natural do concelho de Torre de Moncorvo
- Jaime do Livramento Alexandre, natural do concelho de Alcobaça e
- José de Jesus Pessoa, natural do concelho de Cantanhede.

Eu também estive em Mansabá, a minha CART 2732 esteve ali colocada entre Abril de 1970 e Fevereiro de 1972. A CCAÇ 2753 substituiu-nos naquela data até à chegada da CART 3567 em Abril do mesmo ano.

Também nós perdemos naquela maldita estrada, em Mamboncó, em Dezembro de 1971, dois companheiros do meu pelotão, o Manuel Vieira e o José Espírito Santo Barbosa, a pouco tempo de terminarmos a nossa comissão de serviço e irmos para Bissau aguardar embarque para regressarmos definitivamente a casa.

Por agora é tudo quanto podemos fazer por si e pela memória do seu tio.
Continuamos ao seu dispor, vá-nos dando notícias do que conseguir obter.

Os nossos cumprimentos

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Nota do editor

Último post da série de 24 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27349: Em busca de... (329): Fur Mil Art Silva, de Rio Tinto - Porto, que fez parte da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine e Cabedú, 1973/74), companhia que, estando mobilizada para S. Tomé, acabou por ir cumprir a sua comissão de serviço na Guiné (João Ferreira, ex-Fur Mil Art da CART 6254/72)

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25751: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XVII: Tabanca e destacamento de Infandre


Foto nº 1 > O capelão e a pequena gazela (1)


Foto nº 2 > O capelão e a pequena gazela (2)


Foto nº  3> O capelão e a pequena gazela (3)

Foto nº 4 > A "psicossocial": um 1º cabo da CCÇ 2589 ajudando uma mulher a pilar (o arroz)


Foto nº 5 > Um balanta construindo uma tulha de barro para guardar os cereais (e em especial o arroz)

Foto nº 6 >   O "casino"...


Foto nº 7 >  Dois unimog  404 (1)


Foto nº 7A >  Dois unimog  404 (2)


Foto nº 7 > Coluna Infandre - Braia, de manhã cedo, e no tempo da chuva


Foto nº 8A> Coluna Infandre - Braia: aspeto da segurança (a cargo, presunivelmente, do Pel Caç Nat 58... Emprimeiro plano, do lado esquerdo, o tubo do morteiro 60.



Foto nº 9 >  Infandre, de manhã e na estação das chuvas: foto tirada do "tanque" (fonte ?)

Guiné > Zona Oeste > Sector o4 (Mansoa) > Infandre > CCAÇ 2589 (Mansoa, Infandre, Braia e Cutia, 1969/71) + Pel Caça Nta 58 > Fotos do álbum do Padre José Torres Neves. 


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuamos a publicar fotos do álbum da Guiné  do nosso camarada José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (*)... 

Membro da nossa Tabanca Grande, nº 859, desde 2 de março de 2022, é missionário da Consolata, temdo sido  um dos 113 padres católicos que prestaram serviço no TO da Guiné como capelães. No seu caso, desde o dia 7 de maio de 1969 a 3 de março de 1971. 

Quanto ao BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (divisa: "Nós Somos Capazes"), tinha como subunidades de quadrícula: 

  • CCAÇ 2587 (Mansoa, Uaque, Rossum e Bindoro, Jugudul, Porto Gole e Bissá);
  • CCAÇ 2588 (Mansoa, Jugudul, Uaque, Rossum e Bindoro);
  • CCAÇ 2589 (Mansoa, Infandre, Braia e Cutia).
Destacado em Infandre estava também o Pel Caç Nat 58. (Sobre Infrandre temos 24 referênciad.)

O nosso camarada e amigo Ernestino Caniço (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, fev 1970/fez 1971, hoje médico, a residir em Tomar) fez amizade com o Zé Neves. E este confiou-lhe o seu álbum fotográfico da Guiné, que temos vindo a publicar desde março de 2022. São cerca de duas centenas de imagens, provenientes dos seus "slides", digitalizados.

Temos vindo a publicar fotos das suas visitas como capelão aos diversos aquartelamentos e destacamentos do Sector Oeste, O4 e outros: Mansoa, Bindoro, Bissá, Braia, Infandre,Cutia, Encheia, Dugal, Enxalé...

De  Infandre, o Ernestino Caniço mandou-nos, com data de 30 de junho último, mais umas tantas fotos que pubicamos, devidamente editadas e, tanto quanto possível, com legendas. Ainda tem lá mais dez...  Obrigado a ambos. Saúde e longa vida ao padre José Torres Neves. 

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 30 de abril de  2024 > Guiné 61/74 - P25460: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XVI: Infandre, de trágica memória

terça-feira, 19 de março de 2024

Guiné 61/74 - P25288: O Cancioneiro da Nossa Guerra (16): "Aldeia Formosa" e "Adeus Aldeia Formosa" (CCAÇ 2614 / BCAÇ 2892, Nhala e Aldeia Formosa, 1969/71)


Guiné > Região de Quínara> Buba > 1ª C/BCAÇ 4513/72 (Bula, 1973/74) > Proteção aos trabalhos de construção da nova estrada Buba - Aldeia Formosa (via Nhala).

Foto (e legenda): © António Alves da Cruz (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. No seu singelo ļivro de memórias "Os Resistentes de Nhala, 1969/71" (ed. de autor,  s/l, 2005, 144 pp.) (*), o nosso camarada Manuel Mesquita (CCAÇ 2614 
/ BCAÇ 2892, Bissau, Nhala e Aldeia Formosa, 1969/71) transcreve a letra de duas canções, que se cantarolavam em Aldeia Formosa:

(...) "Em Aldeia  o pessoal canta, para esquecer a saudade, ou porque já estamos perto do fim. Pegaram na melodia da marcha do Bairro Alto, vencedora em 1960 (talvez), 'Bairro Alto e seus amores tão delicados'...) (op. cit, pág, 120). 

Nenhuma das duas letras em título...  Mas também circulam por aí como "Aldeia Formosa" e "Adeus, Aldeia Formosa"...  A primeira é uma paródia às colunas auto na temível picada Buba - Aldeia Formosa (que no final da guerra passou a aser uma estrada alcatroada)... Vamos acrescentá-las ao Cancioneiro da Nossa Guerrra  (**).


ALDEIA FORMOSA 

Aldeia e as colunas a seguir
Para Buba,  com a malta,
Sujeita a ir para não vir
Com aquilo que nos falta.

São emboscadas e minas,
Bolanhas e covazinhas,
Viaturas rebocadas.
Deitaram - nos isto à sorte
De procurarmos a morte
Nestas tão reles estradas,

Refrão:

Viaturas velhas, mesmo a cair,
E, mesmo assim, a malta tem que seguir,
São tristes chaços, em procissão,
Andam mecânicos com as chaves de mão em mão.


(Nota: Na página "A viola é do fado", lê-se que "esta marcha data de 1938 e é da autoria de Carlos Neves. Diz-nos Daniel Gouveia, no seu excelente livro ' No fado tudo se canta' que a letra original de Nuno de Aguiar foi várias vezes alterada pelos fadistas. Sugere-se, a esse respeito, a leitura da variante cantada por Carlos do Carmo."). 

2. A segunda letra é já relativa ao fim da comissão, e ao  "regresso"  do pessoal da CCAÇ 2614, que se vai processar, numa primeira fase,  em coluna auto,  de Aldeia Formosa até Buba, passando por Mampatá, Uane e Nhala (que ficou no coração dos "resistentes")  (op. cit, pp 124/125).


ADEUS, ALDEIA FORMOSA

Adeus, Aldeia,  Formosa mas feia,
Com turras a atacar,
Adeus, Aldeia, que eu levo na ideia
De não mais cá voltar.

Despedi-me das bolanhas sem igual, 

Das bajudas da Tabanca, 
Dos alfaiates do rio Corubal,
Antes quero a minha branca.

Ai, ai, ai!...,
Não me importo de ir à toa,
O que eu quero é ver Lisboa
E a terra que eu cá sei.

Ai, ai, ai!...,
Já deixei as matacanhas, 
Pântanos e montanhas
E a Nhala que eu amei.

(Nota: A letra encaixa-se na  música da "Canção da Papoila", do filme "Maria Papoila", de Leitão de Barros, 1937: música de Raul Ferrão, letra de Alberto Barbosa, José Galhardo e Vasco Santana; Lisboa, Sassetii & C.ª Editores, 1937. Fonte: Museu do Fado)

(Seleção, revisão / fixação de texto, notas: LG)



Capa do livro do Manel Mesquita, 
"Os Resistentes de Nhala", ed. de autor, 2005, s/l, 2055, 144 pp. 
(Gráfica: Quadra - Produções Gráficas Lda, Vila Nova de Gaia.)
(Contactos do autor: tel 22 762 07 36 | telem 963 525 912)
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Notas do editor:

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24754: Facebook...ando (42): António Medina, um bravo nativo da ilha de Santo Antão, que foi fur mil na CART 527 (1963/65), trabalhou no BNU em Bissau (1967/74) e emigrou para os EUA, em 1980, fazendo hoje parte da grande diáspora lusófona - Parte V: Colunas e viaturas

 


Foto nº 1 > Militar em reconhecimento de uma árvore caída, obstruindo a estrada para dificultar o movimento da tropa. Era missão de alto risco devido as minas e armadilhas que regra geral eram usadas pelo inimigo.



Foto nº 2 > Outra viatura pesada de transporte de tropas conhecita por GMC (abreviatura da General Motors Corporation )


Foto nº 3  > Estrada Teixeira Pinto - Cacheu > Jipão dos tempos da Segunda Grande Guerra, blindado à nossa moda com chapas de bidões e madeira, sem parabrisas e de topo descoberto para facilitar a saída em caso de emboscada.


Foto nº 4 > Coluna com várias viaturas incluindo o Jeep Willis americano e o Unimog alemão da fábrica Mercedes. Alem disso, cada pelotão tinha duas autometralhadoras blindadas com lotacao para duas pessoas, um condutor e um atirador.



Foto nº 5 >  Distribuindo raçõs de combate â malta. Constava de uma lata pequena com sardinhas, um pacote de bolachas, uma embalagem pequena de marmelada, leite condensado e feijão brtanco com carne de porco enlatado. Ninguem apreciava o conteúdo mas a fome falava mais alto.



Foto nº 5A > Eu, por exemplo, não tocava no feijão frio,  cheio de gorduras,  que fazia mal ao nosso estômago,  contentando-me em especial com a marmelada, sardinhas , bolachas e um trago de aguardente Constantino,  do meu cantil que era cuidado meu mantê-lo sempre à mao.Um abraco.



Foto nº 6 > Detalhe de uma coluna


Foto nº 7  >  Chegada a Jolmete, em Unimog

Guiné  > Região do Cacheu >    CART 527 (  Teixeira Pinto, Bachile, Calequisse, Cacheu, Pelundo, Jolmete e Caió 1963/65), 1963/65)    >  

Fotos (e legendas): © António Medina (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Continuação da seleção de fotos do álbum do nosso camarada da diáspora lusófona, António Medina (estas fotos correm o risco de desaparecerem, um dia, com o encerramento da página do Facebook do autor) (*):

(i) ex-fur mil at inf, CART 527 (Teixeira Pinto, Bachile, Calequisse, Cacheu, Pelundo, Jolmete e Caió 1963/65), de resto o único representante desta subunidade, na Tabanca Grande;

(ii) a CART 527 estava adiada ao BCAÇ 507 (Bula, 1963/65), que era comandado pelo ten cor inf Hélio Felgas;

(iii) de seu nome completo, António Cândido da Silva Medina, nasceu em 26 de setembro de 1939, na ilha de Santo Antão, Cabo Verde (completou há semanas os 84 anos);

(iv) estudou no liceu Gil Eanes (Mindelo, São Vicente) (o único liceu então existente nas ilhas, criado pela República em 1917. como Liceu Nacional de Cabo Verde, 1917-1926, depois Liceu Central Infante Dom Henrique, 1926-1937, e, por fim, eaté à independência, Liceu Gil Eanes, 1937-1975);

(v) depois da passar à disponibilidade, viveu em Bissau, e entre 1967 e 1974, até à independência, sendo funcionário do BNU (Banco Nacional Ultramarino);

(vi) regressou a Portugal, onde ainda trabalhou no BNU;  vive desde 1980 nos EUA, em Medford, no estado de Massachusetts, onde também foi bancário;

(vii) tem página no Facebook (última postagem: 30 de outubro de 2022); est5eve bastante doente há uns anos; desejamo-lhe as suas melhoras.



EUA, 2011, António Medina

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Nota do editor:

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21916: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (9): "O relógio do Matos", "Há homens que metem medo" e "Canquelifá"


1. Continuação da publicação das memórias, em curtas estórias, do nosso camarada José João Domingos (ex-Fur Mil At Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516 (Colibuía, Ilondé e Canquelifá, 1973/74):


25 - O RELÓGIO DO MATOS

Num qualquer domingo de janeiro de 1974, fomos a Bissau vários camaradas em cujo grupo se incluía o Matos, regressado na véspera da Metrópole, onde tinha gozado férias.

Perto da Amura, quando íamos descer a escada de acesso à esplanada do Pelicano, que dava para o cais, estava um guineense vivaço a querer vender um relógio vistoso a preço de combate.

Ninguém se mostrou interessado no artigo, com exceção do Matos, que, por acaso, trazia no pulso um relógio que lhe fora oferecido dias antes, durante as férias, mas que não era tão vistoso. Feito o negócio que, para além de dinheiro vivo, incluiu a transferência do relógio do Matos para o vendedor, descemos a escada para a esplanada a fim de tomar um refresco adequado ao final de tarde que se aproximava.

Sentados à mesa há poucos minutos, alguém repara que os ponteiros do relógio acabado de adquirir não tinham movimento e alertou o Matos. Este, subiu a escada num ápice à procura do vendedor para desfazer o negócio por incumprimento de uma das partes. Nunca mais o viu.

Também aqui a necessidade aguçou o engenho.

Bissau: Esplanada do Pelicano (estou de costas) e, da esquerda para a direita: o Machado da 3.ª CCAÇ, o Cibrão, o Carmo, o Caetano e o Matos (já falecido)


********************

26 - HÁ HOMENS QUE METEM MEDO

Em janeiro de 1974, tendo já passado por Bolama e pelo Setor de Aldeia Formosa, ter feito uma dezena de colunas a Farim e uma a Guidaje, sem ter tido confrontos e baixas, o Cardoso, 1.º Cabo, resolveu pedir para o PIFAS a passagem de um disco dedicado à Companhia cujo cognome seria, no seu entender, “Há homens que metem medo”, verso retirado de uma cantiga interpretada por um conjunto musical na altura com alguma popularidade na Metrópole e cuja passagem ele solicitava.

Continuamos a fazer colunas a Farim sem qualquer problema. Porém, sempre que éramos substituídos, e isso aconteceu por duas vezes, a coluna tinha problemas.

No final de março de 1974 fomos para Canquelifá substituir a 3.ª Companhia do nosso Batalhão, que por lá passou um mau bocado, e o grande problema que enfrentámos foi sobreviver naquele buraco onde faltava quase tudo.

Perante isto, o tal cognome arranjado pelo Cardoso pegou entre o pessoal e até parecia que era ajustado porque nos 14 meses passados na Guiné apenas tivemos dois ou três militares evacuados por doença.

O facto de termos comandante e graduados muito atentos e rigorosos na forma cuidada como as tropas se deviam movimentar no terreno, ajudou certamente a evitar alguns conflitos. De resto, foi pura sorte, ou estivemos sempre à hora certa no local certo.


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Canquelifá - © Foto de Adão Cruz

27 - CANQUELIFÁ

No final de março de 1974, fomos para Canquelifá substituir a 3.ª Companhia do nosso Batalhão, que tinha lá passado um mau bocado onde, creio, ficamos em sobreposição com a CCAÇ 3545 que ainda passou um bocado pior.

Lá fomos de LDG até ao Xime e, depois, em coluna, passando por Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Piche e Canquelifá.

Entre Piche e Canquelifá a coluna parou várias vezes para se proceder à desativação de minas anticarro. O pessoal deslocava-se apeado, fora dos trilhos habituais. Mesmo assim, um dos paraquedistas que fazia segurança, a quem faltavam poucos dias para terminar a comissão, acionou uma mina anticarro e ficou quase desfeito.

O cheiro dos legumes frescos em decomposição chegava ao aquartelamento muito antes da coluna.

Lá chegámos ao destino. Um buraco com condições indescritíveis ocupado por jovens cujo recente sofrimento lhes estava estampado nos rostos e que, apesar disso, ainda conseguiam dar alguma alegria tocando e cantando, nomeadamente uma adaptação do fado do estudante às vicissitudes passadas naquela terra.

Os vários poços de água ficaram incapazes pois devido às constantes flagelações continham no seu interior animais domésticos em decomposição. A captação de água ficava a algumas centenas de metros e exigia forte segurança e, mesmo assim, a água tinha que ser filtrada. Ora, não havia filtros pelo que a purificação da água era feita num latão com uma torneirita no fundo e, de baixo para cima, com diversas camadas de pedras, areia e cinza. Por este processo conseguiam-se apenas poucos litros de água por hora o que em situação de carência de outras bebidas, como cerveja e leite, que era frequente, tornava o ato de matar a sede muito complicado.

Ao nível da alimentação as coisas também estavam más por escassez de reses e as que havia tinham tal magreza que era difícil tirar delas mais do que os ossos. Aliás, as vacas que por ali andavam mais pareciam mortas que vivas.

O ambiente naquele espaço era doentio e assustador. Vivíamos em abrigos onde mal nos podíamos mexer.

Fui encarregado de receber a cantina que a CCAÇ 3545 explorava e, suprema ironia, do seu conteúdo constavam três garrafas de espumante “Fita Azul” que ainda há pouco tempo vi à venda num supermercado.

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Nota do editor

Último poste da série de 16 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21907: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (8): "As colunas para Farim e Guidaje", "Os engraxadores" e "As ostras de Bissau"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21907: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (8): "As colunas para Farim e Guidaje", "Os engraxadores" e "As ostras de Bissau"


Guiné > Região do Oio > K3 > 1973 > O José João Domingos: paragem da coluna para Farim

Foto (e legenda): © José João Domingos  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação das memórias, em curtas estórias, do nosso camarada José João Domingos (ex-Fur Mil At Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516 (Colibuía, Ilondé e Canquelifá, 1973/74):


22 - AS COLUNAS PARA FARIM E GUIDAJE

A partir de outubro passamos a fazer segurança às colunas de Bissau para Farim, às quintas-feiras, com passagem em Nhacra, Mansoa, Cutia, Mansabá e K3, tendo substituído uma companhia independente de açorianos (ou madeirenses) que, já com a comissão cumprida, estava a ser bastante castigada.

Em novembro ou dezembro, uma das colunas estendeu-se a Guidaje. Lá fomos andando, um bocado receosos, porque uns meses antes tinha sido um fim do mundo naquela zona. Até Binta tudo correu bem mas, a partir daí, as coisas complicaram-se porque o comandante do esquadrão das Panhard, com justa prudência, exigia um carro rebenta minas com um rodado semelhante ao daqueles veículos. O rodado da Berliet que desempenhava tal função não cobria o rasto daqueles carros. Vai não vai, anda não anda, e lá foi um Unimog a desempenhar a função.

Pelo caminho, metia respeito observar os sinais dos combates ocorridos em maio de 1973, quando ainda estávamos na Metrópole, com várias viaturas militares consumidas pelo fogo, perto da picada. Mas, enfim, lá chegámos a Guidaje sem contratempos.

Enquanto nos instalavamos fomo-nos apercebendo do estado psicológico de grande desânimo em que se encontravam os camaradas ali colocados, apesar de seis meses passados sobre a ocorrência. Mostraram-nos um dos abrigos onde teriam morrido vários camaradas, as valas onde também morreu gente e, mais impressionante, as campas de algumas das vítimas das flagelações e combates que, creio, repousam hoje nas suas terras de origem, graças ao trabalho de camaradas que não os esqueceram.

Estivemos até tarde à conversa, ouvindo camaradas a contar as situações horríveis por si vividas, contadas de forma dorida, não para impressionar periquitos, antes buscando uma palavra de ânimo e solidariedade de outros que, mais novitos e não tendo passado por situação semelhante, estavam ainda com alguma força psíquica para os animar.

De manhã cedo, o regresso, que tardou porque quem tinha a incumbência de fazer a segurança não estava para isso. Conversa e mais conversa, lá chegaram a um consenso, mas fiquei com a impressão de que segurança não houve, apenas sorte, mais uma vez.



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23 - OS ENGRAXADORES

Nas deslocações a Bissau tinha por hábito frequentar o café do Bento, 5.ª Rep, embora também fosse, por vezes, ao Império e à Ronda.

Mal o cliente se sentava na esplanada apareciam miúdos guineenses a oferecer os seus préstimos, de engraxador de sapatos ou de fornecedor de mancarra.

No caso dos engraxadores, se o cliente estava recetivo, acordava-se o preço, conforme fossem sapatos ou botas o calçado a engraxar. Se o cliente não queria o serviço o garoto mantinha-se perto dos sapatos, normalmente com bastante pó, e, como quem não quer a coisa, ia passando a escova num dos sapatos e insistindo na prestação do serviço que o eventual cliente ia rejeitando. Porém, quando este olhava para os pés verificava que um dos sapatos estava bastante mais limpo que o outro e acabava muitas vezes por contratar a engraxadela.

Um exemplo concreto de que a necessidade aguça o engenho.


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24 - AS OSTRAS DE BISSAU

Instalados no Ilondé, desde outubro de 1973, passamos a usufruir de vez em quando do consumo de ostras em Bissau.

Vários estabelecimentos de Bissau vendiam ostras mas, não sei porquê, frequentava sempre um estabelecimento que ficava no passeio do Pelicano, mais ou menos ao meio da rua, quase em frente ao Mussá, e tinha uma pequena esplanada.

Pedíamos travessas de ostras, que eram enormes, e, munidos de uma pequena faca, lá íamos abrindo as ostras que mergulhávamos no molho de limão bem picante e acompanhávamos com cerveja que, na altura, já era fabricada na Guiné. As cascas eram depositadas numa enorme caixa de cartão.

Mas, para além do petisco, a casa apresentava outra atração consubstanciada no jovem guineense que servia os clientes, de seu nome Joãozinho, que por acaso já tinha estado em Lisboa.

Dava gosto ouvir as suas histórias das quais me lembro de duas.

A primeira: Joãozinho não acreditava que a ponte sobre o Tejo, em Lisboa, tivesse sido feita com intervenção humana, antes tinha brotado espontâneamente do mar e ninguém o convencia do contrário.

A segunda: na sua estada em Lisboa, Joãozinho foi visitar o Jardim de "Orloge", como ele dizia, e, durante a visita aos répteis, saiu disparado (“no goss”) do recinto com medo “dos cobra”.

Perante a amostra é fácil perceber porque nunca mudei de fornecedor de ostras.

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Nota do editor

Último poste da série de 13 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21894: Memórias de José João Braga Domingos, ex-Fur Mil Inf da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4516/73 (7): "O Alberto", "O Sipaio" e "O expresso de Ilondé"

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Guiné 61/74 - P21535: (Ex)citações (378): Talvez por causa de Madina do Boé... (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR, CCS / BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74)


1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da  autor do livro "A Tropa Vai Fazer de ti um Homem", com data de 9 de Novembro de 2020:


TALVEZ POR CAUSA DE MADINA DO BOÉ

Talvez como consequência do abandono de Madina do Boé e o grande espaço de progressão que ficou livre até à zona de Galomaro, resultou em 5 mortos no local e mais 3 em consequência dos ferimentos, em emboscada feita à CCS/BCAÇ 2912 nas Duas Fontes em Outubro de 1971.

A CCAÇ 3491 - Dulombi - Fevereiro de 1972

Logo no período de transição teve um encontro de frente durante uma patrulha com IN, do qual só por milagre não resultaram baixas, mas cantis e casacos furados por balas, foram vários tal a violência de parte a parte.

CCAÇ 3489 - Cancolim - 1972/73

Depois seguiu-se Cancolim. Já depois de duas flagelações, a 2 de Março de 1972, Cancolim foi fortemente atacada com morteiros 82 mm tendo daí resultado a morte dos seguinte camaradas:

José António Paulo - 1.º Cabo Atirador - natural de Mirandela.
João Amado - Soldado Aux. Cozinheiro - natural de Carvide - Leiria.
Domingos do Espírito Santo Moreno - Soldado Atirador - natural de Macedo de Cavaleiros.

No final de 1972 a CCAÇ 3489 tinha 60 operacionais.

Não ficou por aí e, assim, morreram ainda em combate, alguns já em 1973:

António Martinho Vaz - Soldado Atirador - natural de Grijó da Parada - Bragança
Álvaro Geraldes Delgado Ferrão - Soldado Ap Morteiro -natural de Silvares - Fundão
Domingos Moreira da Rocha Peixoto - Soldado Atirador - natural de Alto da Vila - Duas Igrejas - Paredes
Califo Baldé - Soldado Milícia - natural de Anambé - Cabomba - Bafatá
Samba Seide - Soldado Milícia - natural de Anambé - Cabomba - Bafatá

Juntamos a este numero duas deserções (um capitão e um alferes) e a captura do Soldado António Manuel Rodrigues, que veio a fugir do cativeiro para o Saltinho já nós estávamos para embarcar para a Metrópole.

CCAÇ 3490 - Saltinho - 1972

Armandino da Silva Ribeiro - Alf Mil Inf - natural de Magueija - Lamego
Francisco de Oliveira dos Santos - Fur Mil Inf - natural de Ovar
Sérgio da Costa Pinto Rebelo - 1.º Cabo Ap Metralhadora - Vila Chã de São Roque - Oliveira de Azeméis
António Ferreira [da Cunha] - 1.º Cabo Radiotelegrafista - Cedofeita - Porto
Bernardino Ramos de Oliveira - Soldado Atirador - Pedroso - V. N. de Gaia
António Marques Pereira - Soldado Atirador - Fátima - V. N. de Ourém
António de Moura Moreira - Soldado Atirador - S. Cosme - Gondomar
Zózimo de Azevedo - Soldado Atirador - Alpendurada - Marco de Canaveses
António Oliveira Azevedo - Soldado - Moreira - Maia (**)
Demba Jau - Soldado Milícia - Cossé - Bafatá
Adulai Bari - Soldado Milícia - Pate Gibel - Galomaro - Bafatá
Serifo Baldé - Assalariado - Saltinho - Bafatá

Juntar o soldado António Baptista feito prisioneiro, bem como os diversos feridos com mais ou menor gravidade.

CCS/BCAÇ 3872 - 1972/73

Manuel Ribeiro Teixeira - 1.º Cabo Rec e Inf - natural Cimo da Vila - Varziela - Felgueiras - Vítima de mina antipessoal na estrada do Saltinho.
Mamassaliu Baldé - Soldado Milícia - natural de Cossé - Bafatá
Mama Samba Embaló - natural de Cossé
Ila Bari - Soldado Milícia - natural de Campata - Nossa Senhora da Graça - Bafatá
Alberto Araújo da Mota - Alf Mil TRMS - natural de Curral - Pico de Regalados - Vila Verde - Evacuado com hepatite, morre 2 dias depois em Bissau. 

Antes tinha sido evacuado o Soldado Radiomontador Carlos Filipe e aos 20 meses de comissão é igualmente evacuado com a mesma maleita o Alferes da ferrugem Amadeu.

Para fechar o ano de 1972 foi a CCS/BCAÇ 3872 violentamente atacada ao arame no dia 1 de Dezembro.

Em 1973 uma mina na estrada do Dulombi destrói Unimog e fere gravemente o meu camarada Falé que é evacuado e já não volta.

De referir o aparecimento de minas na estrada do Dulombi e ataques em Bangacia, Campata e Cansamba, tudo na região das Duas Fontes (entre 6 e 9 km de Galomaro).

Posteriormente a CCS bem como Cancolim foram reforçados com pelotões de Dulombi em retracção, que também reforçam operacionalmente Nova Lamego. Fomos também ajudados com grupos de intervenção independentes bem como com Paraquedistas.

Tendo o meu batalhão chegado à Guiné na véspera de Natal de 1971, a sua partida só se viria a efectivar em 28 de Março de 1974. Escrevo isto para situar o período das minhas narrativas e assim dar a perspectiva da alteração e da intensidade da guerra a que estivemos sujeitos. A violência, bem como o equipamento utilizado contra nós, foram assim sendo alterados de região para região.

Enquanto o alcance da nossa artilharia era ultrapassada largamente pelo o alcance da artilharia do PAIGC, também nos vimos privados da normal utilização de meios aéreos, pese a grande coragem com que os pilotos se forçaram a voar após serem confrontados com uma arma da qual ignoravam tudo, ou quase tudo.

E passo citar o TenGeneral António Martins de Matos no seu livro Voando Sobre Um Ninho De “Strelas”:

A guerra estava a entrar numa nova fase, nada de emboscadas e confrontos directos mas sim, de duelos de artilharia e seria de esperar o aparecimento de uma aviação rebelde/mercenária.

Duelos de artilharia? Interroga-se o autor. A grande maioria desses obuses  estavam no Sul, autênticos monos da II Guerra com alcance não superior a 14.000 metros. Na maioria dos quartéis da Guiné só tinham direito a morteiros 81 mm (4000 metros) e ainda 11 morteiros 105 mm espalhados por diversos sítios de alcance igual.

O PAIGC usava o 120 (5700 metros) depois haviam os foguetes 122 mm (20.000 metros) e a breve trecho emprestados por Sekou Touré, peças de 130 mm (27.000 metros) e enquanto a artilhara utilizada pela guerrilha só podia ser posta em causa pelo aparecimento da nossa força aérea. Estas últimas peças fariam fogo directamente do Senegal e da Guiné Conácri e sete dos nossos aquartelamentos ficariam assim debaixo de fogo.

Tudo isto para relembrar que aquela guerra era intensificada consoante interesse do PAIGC, uma fez que lhe chegavam abastecimentos cada vez de maior qualidade e quantidade, enquanto a nós há muito enfermávamos de uma penúria franciscana.

PS: Publico os nomes dos nossos mortos porque lembrá-los é honrá-los e é uma obrigação registar os nomes de quem na flor da idade nos deixou.

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O António Tavares que pertenceu à CCS do BCAÇ 2912, que nós fomos render, sobre a emboscada das Duas Fontes fez-me chegar a correcção sobre o numero de mortos e assim: 

Na emboscada morreram 5 militares e posteriormente três dos feridos que foram evacuados vieram a falecer em resultado dos ferimentos.

Os mortos foram oito e não seis como eu tinha inicialmente escrito.

Da parte do ex-Alf Mil Luís Dias, que chegou a comandar a companhia do Dulombi, chegaram-me estas informações mais precisas sobre a actividade operacional do Batalhão 3872.

CURIOSIDADES OU NOTAS SOBRE A NOSSA ZONA

Podemos verificar que os 4 quartéis do Batalhão sofreram 22 ataques/flagelações (CCS-1; CCAÇ 3489 - 12; CCAÇ 3490 - 0 e CCAÇ3491 - 9) e que as Tabancas das nossas populações em redor dos nossos aquartelamentos sofreram 23 ataques/flagelações, sendo que 9 deles foram contra populações indefesas e num acto de salteadores de estrada, o IN roubou dinheiro e bens a 16 elementos da população que transitavam na picada Saltinho-Galomaro.

BCAÇ 3872

FLAGELAÇÕES E ATAQUES AOS NOSSOS QUARTÉIS

CCAÇ 3489 - CANCOLIM

8 Flagelações em 1972 (1 delas c/ 3 mortos, 5 feridos graves e 5 feridos ligeiros)
2 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCAÇ 3490 – SALTINHO

Não sofreram quaisquer ataques ou flagelações durante a comissão

CACAÇ 3491 – DULOMBI

3 Flagelações em 1972
4 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCS - GALOMARO

1 Ataque/flagelação em 1972 c/1 IN morto confirmado e prováveis feridos IN

MINAS ACTIVADAS E DETECTADAS

Cancolim: Mina A/P reforçada accionada c/1 morto e 1 ferido+mina A/C accionada c/12 feridos graves, 1 ferido ligeiro e 2 feridos pop.+2 minas A/P levantadas
Saltinho: 3 minas A/C levantadas e 1 A/P levantada
Dulombi: 2 minas A/C levantadas e 2 minas A/P levantadas
Galomaro: 1 mina A/P reforçada accionada c/1 morto+1 mina A/C reforçada accionada c/1 ferido grave

EMBOSCADAS/CONTACTOS/FLAGELAÇÕES AUTO

CCAÇ 3489 - 1 contacto com o IN, após flagelação ao quartel, em 1972+1 emboscada aos milícias em Anambé, em 1973 c/2 mortos e 1 ferido
CCAÇ 3490 - 1 emboscada no Quirafo c/ 9 mortos+1 milícia e 2 civis+1 militar capturado. 1 emboscada c/feridos e mortos do IN+1 contacto do IN c/milícias de Cansamange
CCAÇ 3491 - Flagelação numa operação no Fiofioli+1 emboscada/contacto com 4 feridos ligeiros nossos e mortos do IN (s/confirmação de quantos, mas a rádio do PAIGC referiu que tínhamos tido 8 mortos e eles também tinha tido mortos+1 emboscada/flagelação junto à recolha de águas no Dulombi+2 flagelações a coluna de escolta e protecção na estrada Piche-Buruntuma.
CCS - Contacto entre forças milícias e o IN, após ataque a Campata c/elemento IN capturado.

ATAQUES A TABANCAS EM AUTO-DEFESA E TABANCAS INDEFESAS

- Tabanca indefesa de Bambadinca/Cancolim, em 25/1/72;
- Tabanca indefesa de Mali Bula/Galomaro, em 1/2/72;
- Tabanca de Umaro Cossé/Galomaro, c/2 feridos civis, em 7/12/72;
- Tabanca de Campata/Galomaro, em 20/6/72;
- Tabanca indefesa de Sinchã Mamadu/Saltinho, na mesma data de 20/6/72;
- Tabancas indefesas de Sana Jau e Bonere/Saltinho, em 30/6/72;
- Tabanca de Cassamange/Saltinho, em 15/7/72;
- Tabanca indefesa de Guerleer/Galomaro, c/ morte de 3 prisioneiros civis e 1 ferido grave, em 27/7/72;
- Tabanca de Patê Gibele/Galomaro c/ 1 sarg. milícia morto+1 ferido grave e 2 feridos ligeiros da pop., em 11/8/72;
- Tabanca de Anambé/Cancolim c/1 morto (CCAÇ 3489)+3 feridos também da mesma CCAÇ, que ali estava de reforço, em 5/9/72;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, c/3 feridos IN confirmados, em 20/9/72;
- Tabanca de indefesa de Bujo Fulpe/Galomaro, em 26/9/72;
- Tabanca ainda indefesa de Bangacia/Galomaro, com 1 milícia e 2 civis mortos, no mesmo dia (26/9/72);
- Tabanca de Dulô Gengele/Galomaro, com 3 mortos IN confirmados e 3 mortos civis (que tinham sido feitos prisioneiros antes do ataque e que foram abatidos+1 ferido grave e 1 ferido ligeiro dos milícias e 4 feridos graves da pop e 5 feridos ligeiros da pop., em 17/10/72;
- Tabanca indefesa de Sarancho/Galomaro, com 2 mortos civis e 2 feridos civis;
- Tabanca indefesa de Samba Cumbera/Galomaro, c/1 ferido grave da pop., em 13/11/72;
- Tabanca de Cansamange/Saltinho, 17/12/72;
- Picada Saltinho-Galomaro c/16 elementos da pop. capturados e roubados dos seus haveres (dinheiro), em 18/1/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, c/2 mortos civis+2 feridos civis+2 feridos milícias, em 1/2/73;
- Tabanca de Campata/Galomaro, c/5 mortos do IN e 1 capturado+3 mortos milícias e 3 mortos civis, em 16/3/73;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, em 14/5/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, em 18/9/73;
- Tabanca de Madina Bucô, em 20/1/74.

09 de Novembro de 2020 às 21:26
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Nota do editor

Último poste da série de17 de outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21457: (Ex)citações (377): As visitas da D. Cecília Supico Pinto ao leste da Guiné (Abel Santos, ex-Soldado At Art da CART 1742)