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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Guiné 63/74 - P9280: (Ex)citações (168): A Tabanca Grande, onde todos se reunem à volta da fogueira das memórias (Joaquim Mexia Alves)

1. Em mensagem enviada para publicação, o nosso camarada Joaquim Mexia Alves*, ex-Alf Mil Op Esp/Ranger da CART 3492/BART 3873, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, expressa a sua opinião quanto ao cabimento de publicações no nosso Blogue, como é exemplo o trabalho do nosso camarada José Brás no Poste 9278**:



A TABANCA GRANDE

Há uns anos atrás, (já não sei bem quantos), descobri este espaço de memórias de combatentes da Guiné.

Foi logo desde o início um deslumbre para mim, e sobretudo um bálsamo para feridas guardadas, (algumas contadas a outros sem serem compreendidas), e uma oportunidade para me relacionar mais e melhor com aqueles que podiam entender a minha linguagem, (porque a viveram), quando falava da guerra da Guiné.

E aqui fui lendo e contando tantos episódios que a cada um de nós tocaram, nessa “aventura” involuntária, (que nada teve de romântico ou de romance), mas sim de uma realidade muito dura e difícil de se viver.

Aqui troquei argumentos sobre aspectos da guerra, (ganha ou perdida), critiquei alguns textos pela sua dureza fria e sem, (para mim), sentido, sugeri atitudes, recebi conselhos, enfim, vivi a guerra da Guiné, (de tão difícil memória), com aqueles que a viveram e dela têm a vivência e o conhecimento que os torna meus camarigos e eu camarigo deles.

Aqui fiz humor, aqui publiquei versos, aqui exprimi opiniões, e, também, me ri com o humor dos outros, me entusiasmei com a sensibilidade escrita dos camarigos e reconheci para meu conhecimento, opiniões de outros.

Este era, para mim, um espaço de troca de vivências da guerra, fossem elas dos tempos da dita, ou daquilo que ela tinha marcado e ainda marca, nos homens que a viveram.

Tão serenamente como me era possível, fui chamando a atenção ao fundador e editores, para o perigo, (quanto a mim), de se deixar que a politica, fosse ela de que lado fosse, tomar conta deste espaço, remetendo-o para uma mera troca de ideias políticas, (com mais ou menos razão), em detrimento do espaço de troca de experiências vividas ou ainda a viver da guerra da Guiné.

É que, no meu entender, espaços para essa discussão politica existem “às cabazadas” por aí, mas lugares de memórias vividas da guerra no plural, (ou seja com o concurso de muitos), nem por isso.

Com toda a estima, com toda a amizade, com todo o respeito, (inerente obviamente às duas anteriores), que me merece o José Brás, este texto que escreveu, (não o crítico, nem o discuto), não deveria ter aqui lugar, não pela escrita, mas pelo conteúdo que sai da vivência da guerra, para as razões politicas da mesma, e aí, meus caros camarigos, há tantas opiniões válidas com aqueles que as quiserem escrever.
Este texto pode “inaugurar” uma fase deste espaço, em que os textos sobre a guerra propriamente dita serão relegados para segundo plano, porque textos destes têm forçosamente mais respostas, (comentários), do que aqueles que nos tocam apenas a nós combatentes, enquanto tal.

Que seria agora se alguém escrevesse um texto defendendo a politica ultramarina de Salazar, como um sério entrave à expansão sino-soviética em África e no mundo?

Ou se começarem a fazer comparações entre quem manda em quem, em quem é mais colonialista que outrem, e por aí fora?

Repito, espaços desses há muitos por aí, e, (mais uma vez quanto a mim), esta Tabanca Grande só tem a perder se enveredar por tal caminho, e ele, o caminho, está agora definitivamente aberto.

Deixa de ser uma Tabanca Grande onde todos se reúnem à volta da fogueira das memórias, para passar a ser um “parlamento” onde todos falam, mas nunca se encontram.

E, claro, posso estar enganado, mas muito franca e pessoalmente, não foi para ver e estar num espaço assim que tanto me empenhei e dediquei.

Por aqui me fico, esperando ver e ler mais experiências da guerra e do que ela ainda marca nos combatentes, do que experiências politicas que têm o condão de muito mais dividir do que aproximar.
Já sei que alguns virão dizer que tudo é política, etc. e tal, e eu volto a afirmar que espaços desses há os por aí “às toneladas”, (uns mais sérios do que outros, obviamente), mas espaços colectivos como este de memórias de guerra, há muito poucos ou quase nenhuns, sobretudo com o dinamismo que a Tabanca Grande pode ter.

Não interessam recordes de membros, de textos, ou de comentários, interessa sim um espaço onde os combatentes da Guiné saibam que podem contar as suas experiências, vivendo também as dos outros, encontrando-se em verdadeira camarigagem.

Um abraço para todos do
Joaquim Mexia Alves
____________

Notas de CV:

- Título do Poste da responsabilidade do editor

(*) Vd. poste de 7 de Dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9150: Memória dos lugares (165): Polibaque, na estrada Jugudul-Portogole-Bambadinca (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil, CCAÇ 15, Mansoa, 1973)

(**) Vd. poste de 27 de Dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9278: (Ex)citações (167): As colónias portuguesas antes da Guerra (1): Introdução e Angola (José Brás)