sábado, 3 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1560: Questões politicamente (in)correctas (25): O ex-fuzileiro naval António Pinto, meu camarada desertor (João Tunes)

1. Mensagem do João Tunes (ex-alf mil de transmissões, Pelundo e Catió, 1969/71):


Caro Luís,

Julgo que nós, os que aceitámos fazer a guerra colonial ao serviço da potência ocupante da Guiné-Bissau, por gosto ou contrariados, convencidos ou nem por isso, temos a generosidade suficiente para, pelo menos com a benevolência parida na distância do tempo, não sermos rígidos na rapidez do dedo condenatório apontado aos nossos patrícios que se recusaram a partilhar os nossos destinos militares (milicianos, na maior parte).

Muitos milhares de jovens do nosso tempo baldaram-se à guerra. Com maior ou menor vinco, recusaram-na. Desses, a maioria deu o salto, sobretudo para França, antes que os enfiassem fardados num Niassa. Outros, já no cenário de guerra, desertaram e abrigaram-se no PAIGC. Eu, que fiz 24 meses de serviço militar na Guiné, a nenhum de uns e de outros, atiro pedras, não lhes permitindo, se se atrevessem, a que mas atirassem a mim. Será demasiada ambição pensar que este sentimento é partilhado por todos os meus camaradas desta frutuosa e fraterna tertúlia?

Em tempos, este nosso blogue reproduziu um folheto do PAIGC (1) em que dava conta de 3 fuzileiros navais portugueses que desertaram para o PAIGC (António José Vieira Pinto, nº 1227/7, José Armindo Sentieiro, nº 1225/7 e Alberto Costa Alfaiate, nº 790/8).

Usei esse panfleto do PAIGC no meu blogue como ilustração de propaganda típica do PAIGC e como paralelo da propaganda do exército colonial a apelar à deserção nas fileiras do PAIGC. Recebi um contributo de um meu amigo (Isidoro de Machede) que conheceu e foi amigo do peito de um desses nossos camaradas desertores (o fuzileiro António Pinto) e que me permito sintetizar:

- O camarada, fuzileiro naval e alentejano, António Pinto desertou para o PAIGC por convicção política de repulsa para com a guerra colonial. Entendeu prosseguir a sua aversão pelo fascismo e pelo colonialismo, integrando a luta armada contra a ditadura portuguesa nas fileiras da LUAR, liderada por Palma Inácio. Tendo entrado clandestinamente em Portugal, foi preso pela PIDE, sendo prisioneiro na Prisão de Caxias quando do 25 de Abril. Libertado, integrou-se na revolução e foi segurança do General Vasco Gonçalves. Após o 25 de Novembro de 1975, temendo voltar à prisão, foi viver para a Holanda, onde ganhou a vida como cobrador dos transportes colectivos. Faleceu há 4 anos.

Diz o Isidoro de Machede como epitáfio do António Pinto: "Abalou com a mágoa de nunca ter voltado para a planície. O António era um fraternal companheiro com uma máquina de bombear sangue do tamanho da sua pátria alentejana."

Pela minha parte, eu que fiz uma guerra por obrigação mas absoluta e resolutamente contrariado, não atirando pedras a quem fez a guerra com afinco e convicção nem a quem escolheu outros caminhos, incluindo a sua recusa, e porque o meu modelo de vida e de valores são do meu foro e unipessoais, que servem muito bem a minha consciência mas não estão à venda para consumo alheio nem lhe permitindo uso prosélito, proponho que a nossa generosidade camarada promova, a título póstumo, o fuzileiro naval António Pinto a membro da nossa tertúlia.

2. Comentário de L. G.: Não sou dono do blogue. Gostaria que os membros da nossa tertúlia se pronunciassem sobre esta proposta do camarada João Tunes, a quem saúdo. Trinta e três anos depois do fim da guerra colonial/guerra do Ultramar, não há mais tabus. De qualquer modo, não escondo que esta é uma questão fracturante (2). Por muito generosos que sejam, haverá sempre camaradas nossos, que vestiram a farda do exército português e fizeram a guerra, com ou sem convicção, que têm dificuldades em olhar de frente os seus ex-camaradas desertores... Era bom que discutíssemos aqui a proposta do João Tunes de promover a membro da nossa tertúlia, a título póstumo, o ex-fuzileiro naval António Pinto. O João tem a qualidade, rara neste país, de ser um homem que dá a cara pelas suas convicções.

Acrescento, a título de curiosidade, que um dos três fuzileiros navais aqui mencionados, o Alfaiate, acabou por colaborar com o comandante Alpoim Galvão na Op Mar Verde (invasão de Conacri, em 22 de Novembro de 1970). Acompanhou a força invasora e o seu conhecimento da prisão do PAIGC, em Conacri, foi decisivo para o sucesso da libertação dos prisioneiros portugueses.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 4 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1496: PAIGC (2): Propaganda: Notícia da deserção de três fuzileiros navais (Fernando Barata)

(2) Vd. post de:

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1518: Questões politicamente (in)correctas (24): Um desertor é sempre um desertor em qualquer parte do mundo (Lema Santos)

11 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1513: Os três fuzileiros navais: desertores ou prisioneiros ? Aonde e quando ? (Jorge Santos)

12 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1363: Questões politicamente (in)correctas (13): Combatentes e desertores não cabem no mesmo saco (Amaral Bernardo)

sexta-feira, 2 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1559: Ex-Alf Mil Avilez, da CCAV 1484, hoje professor de arte, foi o autor do mural de Catió (Benito Neves)

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Guiné > Região de Tombali > Catió > 1967 > Pintura mural, da autoria do ex-Alf Mil Avilez, da CCAV 1484, segundo informação do ex-Fur Mil Benito Neves. Em latim pode ler-se "Cationis civitatis modernissma charta" (carta recentíssima da cidade de Catió), frase da autoria do capelão do batalhão.

Foto: © Vítor Condeço (2006). Direitos reservados.


Foto alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.

Mensagem de Benito Neves, com data de 17 de Janeiro último:


Caro Luis Graça, os meus cumprimentos e felicitações pelo excelente blogue que visito diariamente.

Subordinado ao título Catió: Autor de pintura mural, procura-se (P 1336), foi publicado em 3 de Dezembro de 2006 um artigo da autoria de Victor Condeço (1), que reportava a uma pintura mural que em 1967 existia na antiga messe de oficiais do quartel de Catió.

Li o artigo com bastante interesse, admirei os pormenores representados e a forma como o Victor Condeço descreveu o desenho e a quem endereço os meus parabéns.

Fui furriel miliciano da Companhia de Cavalaria 1484 que fez intervenção ao Sector de Catió em 1966 e até Julho de 1967, com passagem por Cachil, Cufar e Bedanda. Não obstante a memória não ajude, ainda estive com o Victor Condeço em Catió pelo menos durante 2 meses.

Desconheci completamente o ter existido aquela pintura mural mas, pela data nela inscrita, concluí que deveria ter sido feita durante a permanência da CCAV 1484 em Catió. Sobre o assunto questionei os ex-alferes Gavinhos e Miguel daquela CCAV, que, de imediato, me informaram de que o autor da pintura foi o ex-alferes Avilez da mesma [CCAV 1484].

Mais me foi dito que a pintura original consistia num painel pintado a aguarela e tinta da china que esteve exposto no bar de oficiais e que ficou, depois, na posse do ex-alferes Miguel que me confirmou tê-lo exposto no hall de entrada de sua casa, em Lisboa. Posteriormente a dita pintura foi transposta, a preto e branco, para a parede que o Victor Condeço fotografou. Os termos em latim foram dicas do capelão do Batalhão.

Relembro, com muita saudade, o ex-alferes Avilez que, segundo informação do tertuliano Hugo M. Ferreira, foi professor de arte na Universidade de New York (1997) e que, actualmente, se encontra em Lisboa.

Este eclarecimento já o transmiti directamente ao Victor Condeço (moramos perto, ele no Entroncamento e eu em Abrantes), que me obrigou a dar a resposta através do blogue.

Meu caro Luis, deixo, agora, o assunto ao seu critério mas prometo que, através do blogue, continuarei a respirar aquele ar, a sentir aqueles cheiros e a admirar aquela terra e aquelas gentes.

Um abraço.

Benito Neves

Comentário: Camarada Benito, obrigado pela tua preciosa informação! Esperemos agora que o Avilez possa aparecer e nos conte algo mais sobre esta notável pintura mural de Catió.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 3 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1336: Catió: Autor de pintura mural, procura-se (Victor Condeço)

quinta-feira, 1 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1558: Inesperada visita a Luís Graça, em Nhabijões, na noite de 3 de Fevereiro de 1970 (Beja Santos)


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Conjunto habitacional de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12, junto a um dos locais de culto dos irãs (espíritos da floresta). A população era maioritariamente balanta, animista. Era conhecida a sua colaboração com o PAIGG, sobretudo com as populações e os guerrilheiros de Madina/Belel, no limite do Cuor, a Noroeste de Missirá. (LG).

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Destacamento de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12. Ao fundo, o reordenamento de Nhabijões, a que na época chamei etnocídio (1) (LG).

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.


Mensagem de 21 de Fevereiro de 2007, enviada pelo Beja Santos:


Caro Luís: Fui visitar-te aos Nhabijões na turbulenta noite de 3 de Fevereiro de 1970...

Numa das últimas vezes que falámos ao telefone, tu disseste que te recordavas de uma ida minha aos Nhabijões, em momento de grande confusão, em que pediste apoio a Bambadinca, temendo teres rebeldes no perímetro. Não te recordavas de mais nada, mesmo da data.

A separar o meu correio para a Cristina, entre 1969 e 70, encontrei um aerograma em que resumidamente dou conta das actividades do dia 3 de Fevereiro. Aqui vai a minha agenda.

Por ordem da CCS, fui a uma tabanca entre Sansacuta e Afiá, afim de transporar mandioca, amendoím, arroz e algodão. Voltei por Samba Juli para se fazer um transporte de cibes para os Nhabijões, ao que me recordo no contexto do realojamento e da autodefesa. Segui depois para os trabalhos do alcatroamento da estrada do Xime, actividade que mantive até acabar a minha comissão em Agosto.

Escrevi que parei em Amedalai, onde fui conhecer o filho recém nascido do meu bazuqueiro Mamadu Djau. Houve recepção rija e recebi uma galinha. No regresso parei na ponte de Unduduma, onde dei dois dedos de conversa com o pelotão de serviço. Depois de almoço, fiz escolta a Bafatá e no regresso fui entregar coisas no Pelotão de Intendência de Bambadinca.

Tinha acabado de jantar, quando o segundo comandante disse ter recebido uma mensagem urgentíssima, em que um grupo andava a pilhar e a raptar nos Nhabijões. Ainda a mastigar, mandei chamar o pelotão altamente municiado de bazucas e dilagramas. Quem me levou à tua presença, num burrinho, foi o Soares, aquele amável condutor da tua companhia que viria a morrer pouco tempo depois, depois de accionar uma mina.

Eu dava-me muito bem com o Soares que adorava ler as adptações do Prof João de Barros do tipo A Odisseia contada aos mais novos. Eu aproveitava para lhe falar das obras de Homero que tinha estudado na faculdade. ELe ouvia-me com muita atenção e dizia-me sempre que tinha projectos para estudar.

Voltando aos Nhabijões, escrevi na carta à Cristina que se dissipou rapidamente o equívoco, trouxe um bêbedo para o quartel mais um menino completamente nu que se aproximou de nós a dizer que não tinha pais e que estava doente. Escrevi este aerograma com muito pouca luz, pois o alferes Abel Rodrigues, da tua companhia, estava com um ataque de malária de todo o tamanho, eu e o Moreira, seus companheiros de quarto, andávamos em pezinhos de lã.

Era este exactamente assim o meu dia a dia de ninharias, escrevi à Cristina dizendo-lhe que andava às voltas com o auto de averiguações de uma granada incendiária que deixara as costas de Fatu Conté completamente retalhadas. Nesse dia acabei de ler o Ateneu, de Raúl Pompeia, autor brasileiro que para mim ombreava com Machado de Assis.

Espero ter satisfeito a tua curiosidade, tu tinhas razão, encontrámo-nos nos Nhabijões naquele tempo de multisserviços (2): operações, patrulhamentos, emboscadas, catering, mini bar, recoveiros e distribuição ao domicílio. Para quem não foi militar nem viveu aquela nossa guerra, tudo isto não passa de basófia ou invenção delirante. E paro por aqui, para não roubar mais argumentos à Operação Macaréu à Vista onde isto tudo se vai contar... daqui a mais de um ano. Recebe um abraço do Mário.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIV: Nhabijões: quando um balanta a menos era um turra a menos (Luís Graça)

(2) Éramos os dois pau para toda a obra: eu, na altura, comandava o destacamento, estando à frente de um grupo de combate... de básicos (!) da CCS do BCAÇ 2852, que entraram em pânico quando alguém trouxe a notícia de que havia turras nessa noite em Nhabijões... Obrigado, Mário, por me refrescares a memória.

Guiné 63/74 - P1557: No regresso éramos menos 32 (César Dias, CCS do BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71)


Guiné >Mansoa > CCS do BCAÇ 2885 (1969/71) > Ex- Fur Mil Sapador de Infantaria César Dias, novo membro da nossa tertúlia. Salvé, camarada! (LG)


Guiné > Mansoa > Guião do BCAÇ 2885 (1969/71)

Fotos: © César Dias (2007). Direitos reservados.

Caro Luis Graça:

Apresenta-se o Ex-Furriel Miliciano Sapador de Infantaria, César Vieira Dias, da CCS do BCAÇ 2885, e pede licença para aderir ao blogue.

Começo por saudar o Luís Graça por tornar possível esta tertúlia, e saudar todos os companheiros de bala que provaram água da bolanha.

Passo a fazer um pequeno resumo do percurso do nosso Batalhão:

(i) Oriundos de toda a parte do país, reunimo-nos em Santa Margarida para o IAO em 3 de Março de 1969. mobilizados pelo RI15. Em 18 de Abril fomos considerados capazes.

(ii) O BCAÇ 2885 era composto pela CCS, CCAÇ 2587, CCAÇ 2588 e CCAÇ2589.

(iii) No Niassa, o BCAÇ 2885 rumou à Guiné em 7 de Maio de 1969 onde chegou a 13, desse mês, indo directamente para o sector de Mansoa onde ficou sediado.

(iv) Duas companhias operacionais foram distribuídas pelos destacamentos do sector e no Quartel em Mansoa ficaram a CCS e uma companhia operacional, tendo estado adstrita ao nosso batalhão a CART 2732 que cubria o sector de Mansabá.

(v) Em Março de 1971 regressámos, infelizmente sem a companhia de 32 (*) camaradas que tombaram em combate, e a quem presto aqui a minha sentida homenagem.

(vi) Dirigimo-nos ao RI 15 onde pela última vez estivemos reunidos.

PS - Deixo aqui um apelo aos camaradas do BCAÇ 2885 para aderirem também ao blogue, e quem sabe possamos vir a confraternizar 36 anos depois?

Um abraço aos tertulianos Levezinho, Vitor Junqueiro e Carlos Vinhal.

César Dias
Santiago do Cacém


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Nota de C.V. (Em 29 de Fevereiro de 2008)

(*) - Por se levantar dúvidas quanto às baixas do BCAÇ 2885, o camarada César Dias esclarece que efectivamente houve, no seu Batalhão, 14 mortes em combate, 3 mortos por acidente e 17 evacuados, para o HMP, por ferimentos sofridos em combate.

Guiné 63/74 - P1556: Convívios: 1º Encontro da CCS do BART 2917: Setúbal, 9 de Junho de 2007 (Benjamim Durães)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido noroeste-sudeste. Em primeiro plano, a pista de aviação, o perímetro em L de arame farpado, o campo de futebol, a antena das transmissões... Ao fundo, a grande bolanha de Bambadinca. Em Junho de 1970, o BART 2917 (1970/72) substituiu o BCAÇ 2852 (1968/70).

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.



T/T Carvalho Araújo > Há 37 anos, em 17 Maio de 1970, o velho navio partia do Cais de Alcântara com mais um carregamento de tropas para a Guiné: neste caso, o pessoal do BART 2917 que vai agora - a sua CCS - reunir-se pela primeira vez, num almoço de convívio, em 9 de Junho de 2007, em Setúbal.


Foto: © Navios Mercantes Portugueses , página de Carlos Russo Belo (2006) (com a devida vénia...) . O autor foi oficial da marinha mercante.


Mensagem do Benjamim Durães, ex-furriel miliciano do Pelotão de Reconhecimento (PEL REC) da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), actualmente residente em Palmela.


Convívio do pessoal da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

Camaradas:

Faz no próximo dia 27 de Março, 35 anos que o BART 2917 (1) regressou da Guiné, e faz 37 anos no próximo dia 17 de Maio que o mesmo embarcou no Cais de Alcantâra com destino à Guiné, no velhinho Carvalho Araújo, que foi construído em Monfalcone, Itália, em 1929, e entregue em 1930 à EIN - Empresa Insulana de Navegação, que o registou em 21 de Abril de 1930 na Capitania do Porto de Lisboa com o nº 420-F.

O Navio destinou-se inicialmente para efectuar as ligações entre os Açores, a Madeira e Lisboa. Em 1961, passa a efectuar o transporte de Militares para o Ultramar.

O Navio era do tipo misto de 2 hélices, com 2 máquinas de expansão de 3 cilindros cada, 4 caldeiras com 3 fornalhas cada e de fundo chato.

O Navio tinha a potência de 4430 cavalos com uma velocidade máxima de 14 nós/hora.

Antes de entrar ao serviço de transporte de militares, o navo tinha o comprimento de 112,85m e a largura de 15,30m, com o TAB 4559,5T e TAL 2694,4T e capacidade de 4290 m3, e alojamento para 254 passageiros e 98 tripulantes.

Em 1972 foi vendido a um sucateiro de Lisboa e em 1973 foi vendido novamente
a outro sucateiro, mas este de Aviles/Espanha, para onde partiu no sua última viagem, mas agora com o nome de Mar Ceu, onde veio a ser desmantelado.

Isto só para recordarem o velhinho Carvalho Araújo e agora vamos ao que
interessa.


Primeiro Convívio da CCS do BART 2917, em 9 de Junho de 2007, em Setúbal

O 1º Convívio da CCS do BART 2917 realiza-se no próximo dia 9 de Junho de 2007 em Setúbal, e é extensivo a todos os ex-militares, familiares e amigos, que de algum modo estiveram ligados a BAMBADINCA, em geral, e à CCS do BART 2917, em particular.

Assim, agradeço que me informem da vossa intenção de quantos elementos do
vosso agregado e amigos estarão eventualmente presentes no encontro, a fim
de poder reservar a sala e poderos ter uma previsão do número aproximado de
pessoas que estarão presentes nesse convívio.

A inscrição definitiva será efectuada no mês de Maio.

Bejamim Durães
Ex- Furriel Mil
Telemóvel - 93 93 93 315
Morada: Rua Florbela Espanca, nº 102900 – 296 PALMELA

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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1527: Lista de ex-militares da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e unidades adidas (Benjamim Durães)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Guiné 63/74 - P1555: Xico Allen: Viagens terrestres até às terras do Cacheu, Geba, Corubal, Buba e Cacine (A. Marques Lopes / Zé Teixeira)




Viagem Porto-Guiné > Abril de 2005 > O Xico Allen em acção: ele tem o melhor dos portugueses (a abertura aos outros, o sorriso aberto e frontal, a alegria de viver, o sentido da aventura) e dos ingleses (a organização, a tenacidade, a teimosia, o prgamatismo) ... Pelo menos , dos portugueses e dos ingleses do Porto. É o que eu deduzo da apreciação feita pelos amigos que o conhecem... e também daquilo que eu já sei dele... (Encontrrámo-nos duas vezes no Norte). Desejo-lhe good luck / boa sorte nas suas próximas aventuras terrestres a caminho dessa "terra vermelha e ardente", como chama o Torcato Mendonça à nossa Guiné... (LG).

Fotos: © Hugo Costa / Albano Costa (2006). Direitos reservados



É bonito ver os amigos (da Tertúlia do Norte) a apadrinhar iniciativas dos amigos e a recomendá-las, neste caso, uma iniciativa do Xico Allen que bem podia ser o cônsul honorário da repúblcia da Guiné-Bissau... no Porto. Eles (o A. Marques Lopes e o Zé Teixeira) sabem do que falam, por que já foram à Guiné-Bissau, os dois, em 2005, na caravana de camelos do Xico Allen (1):

1. Diz o A. Marques Lopes (4 de Fevereiro de 2007):

Li, há pouco, a ideia do novo tertuliano Fernando Batrata sobre o turismo militar. Se achares por bem, podes dizer-lhe a ele, ou mesmo publicar no blogue, que o Xico Allen está prestes a comprar uma carrinha tipo Hiace para organizar idas à Guiné. E ele está de acordo que se coloque esta sua intenção no blogue. Claro que o Xico Allen tem a experiência que todos conhecemos e é pessoa de confiança (não é o Arruda). Abraço. A. Marques Lopes

2. Escreve o Zé Teixeira:

o Chico Allen está a organizar uma viagem por terras à Guiné - a sua paixão.
Pede para passares no Blogue a informação se por assim o entendres.

Informo que estou a organizar viagens por via terrestre à Guinè, com passagem por Marrocos, Mauritânia e Senegal. Já efectuei várias viagens com diversos camaradas e cada vez me seduz mais este percurso, pela aventura, pela partilha e experiência que se adquire e pelas belezas que se desfrutam. Contactem-me pelo telemóvel 938459828
Francisco Allen - Os Metralhas / Empada.
[CCAÇ 3566, Empada e Catió, 1972/74) (2).

Abraço fraternal do
J.Teixeira
Esquilo Sorridente

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Notas de L.G.:

(1) Foram publicados 26 posts sobre esta vaigem, que decorreu em Abril de 2006:

Vd. posts de:

4 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXI: Do Porto a Bissau (1): o jipe está de saída (Albano Costa)

7 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P854: Do Porto a Bissau (26): leitão à moda de Jugudul (A. Marques Lopes)


(2) Vd. post de 16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVI: O Xico de Empada, grande amigo dos guinéus (Albano Costa)

Guiné 63/74 - P1554: As nossas mulheres (1): As que ficaram na retaguarda (Luís Graça /Paulo Raposo / Paulo Salgado / Torcato Mendonça)

Lisboa > Algés > Administração do Porto de Lisboa > Fevereiro de 2007 > Âncora, junto à famosa Torre VTS, desenhada pelo Arquitecto Gonçalo Byrne. Metaforicamente falando, as nossas Mulheres, mães, esposas, irmãs, namoradas, amigas ou simples madrinhas de guerra foram, para muitos de nós, combatentes, uma importante âncora, na rectaguarda.

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados.

Ainda a propósito da trágica estória do Fernando Gaspar Ribeiro (1). Comentários recentes de vários membros da nossa tertúlia:


1. Do Paulo Raposo:

Olá, Luís. Mais uma vez te tenho de tirar o chapéu. Pois nem todos os dias há tempo e disponibilidade para estar atento a todos. Bem hajas, rapaz. Estás a fazer história.

Vai um beijo para a amiga que nos escreveu. Todos nós tinhamos uma Maria que ficou na retaguarda. O Fernando ficou por lá e nós voltámos, a história também podia ter sido escrita de outra maneira.

Em Cutia estive três vezes em 1967. De passagem para uma operação ao Morés, emboscado toda a noite perto do trilho IN que passagem próximo e a bater a zona depois de o pessoal de Cutia ter sofrido uma emboscada à saída de Mansoa, que deu um ferido (...). El Almançor

2. Do editor do blogue:

Paulo: Não se trata de fazer história (pelo menos, com H grande), mas apenas a de estarmos minimamente atentos uns aos outros e tirarmos partido do facto de sermos um grupo em rede, de podermos explorar as imensas potencialidades que é a interacção e em comunicação em rede...

Repara: nem esta mulher nem o César Dias (ex-furriel miliciano da CCS do BCAÇ 2885 que esteve em ou passou por Cutia, entre 1967 e 1969) pertencem à nossa tertúlia, ou estão na nossa lista de e-mails... E mesmo assim vieram ter connosco, por via do nosso blogue (que já tem 184 mil visitas)... Dramas como este que nos foi relatado, fazem parte da nossa história trágico-marítima... Têm no mínimo metade dos mil anos da nossa identidade como portugas... Isso deve dar-nos também algum alento, força, coragem... Obrigado a todos.

3. Do Paulo Salgado:

Vivam Todos! Deste meu canto, aqui em Gaia, e num finzinho de tarde, queria deixar a minha partilha - para as Mulheres e Noivas, e Mães, para todas sem excepção. A elas se deve muito do que fomos durante meses a fio (claro que alguns nem madrinha de guerra tiveram, por opção!). Recordo o Mendes - onde estarás tu, meu portador da metralhadora, transportador de fitas de balas e meia dúzia de granadas? - que, casado, com uma filha (ou filho?), ficava completamente desvairado quando a Dornier chegava sem um aerogramazinho para ele! Era bebedeira a jorros, era choro que nem criança, era agressividade - ele, um bom rapaz que, ao outro dia se desfazia em desculpas!

Vede bem: como pôde um homem sobreviver? Como foi possível que a maioria - que jovens que éramos! - tenha sobrevivido!

Para Vós, Mulheres, que sofrestes, que aguentastes a criação de filhos, que suportastes a solidão de um quarto vazio, que chorastes sobre os lençóis, que erguestes as preces aos céus, vão nossos louvores.

Ainda hoje nos aturais - nos nossos devaneios passadistas, nas conversas sobre sortes e fraquezas que tivemos e que não nos cansamos de repetir nas reuniões das companhias. E, à medida que o tempo decorre, melhor reconhecemos a imensidão do Vosso apoio!

Para Vós, um grande agradecimento. Paulo Salgado

4. Do Torcato Mendonça:

(...) aquele grito sem som, lancinante por um amor não realizado. Sente-se um aperto no peito, mais próprio ou mais vulgar, em homens como nós. Estivemos lá, sentimos, vivemos a vida e a morte, os mutilados, a brutalidade do gesto na acção, nosso ou de outros, em ambos os lados da contenda. São marcas indeléveis para todo o sempre, por isso melhor a compreensão a solicitações destas.

(...) Quantas mulheres lançam, ainda hoje, gritos de silêncio ou saudosamente recordam, na solidão, no seu íntimo, aqueles que outrora amaram e uma causa, uma loucura, desta vida, da vida deles, prematuramente, os fez separar!?

Oxalá esta mulher tenha a resposta que merece. Oxalá.

Sabes, parei e voltei. O sol já se escondeu por detrás dos montes. É uma hora mais triste ou mais propícia à meditação, a estarmos mais perto de nós. Velho tonto…

Devia guardar ou apagar este matraquear de teclas. Vale a pergunta recebeste as mensagens e anexos? Por um blogue melhor, livre, solidário em abraço a todos os que acham que este mundo deve, tem que, ser mais fraterno. Eu fico-me, meu caro camarada…e acredito… Chato eu sou! Um abraço, Torcato Mendonça

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 24 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1544: Quem conheceu o Furriel Mil Art Fernando J. G. Ribeiro, morto na picada de Binta-Farim em Julho de 1973 ? (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1553: A CCAÇ 12 no Poidão e na Ponta do Inglês, pela enésima vez (António Duarte)

1. Perguntei há dias ao António Duarte quando é que ele abria o livro da Guiné e da CCAÇ 12, já que eu estava desejoso de ouvir estórias da minha ex-companhia e dos meus queridos nharros...

Recorde-se que ele foi furriel miliciano da CART 3493, a unidade de quadrícula de Mansambo, antes de se oferecer para a CCAÇ 12, dois anos depois da minha rendiação individual bem como dos demais quadros e especialistas metropolitanos, pais-funadores da CCAÇ 12 (Contuboel, Junho/Julho de 1969 / Bambadinca, Julho de 1960/Março de 1971) (1).

2. Resposta do António Duarte:

Luís

Tenho que ganhar balanço. O tema da tropa não tem sido de digestão fácil.(E regressei em 21 de Janeiro de 1974 - 33 anos já lá vão). Não fosse o teu/nosso blogue e nem sequer voltaria ao tema, já que como tive oportunidade de dizer anteriormente, não me agradava falar destas aventuras, que claramente preferia não ter vivido.

Prometo no entanto cumprir a minha obrigação, pois um atirador nunca vira a cara ao IN. (Foi isso que aprendi em Vendas Novas na EPA - Escola Prática de Artilharia).

Curiosamente, no dia 25 deste mês fez 34 anos que a CCAÇ 12 teve 7 feridos, (ligeiros felizmente, mas com evacuação para Bissau) na operação Bate Duro, que decorreu nas zonas de Ponta Varela/Poiondom, e Ponta do Inglês/Ponta João da Silva. Participaram nesta operação, para além da CCAÇ 12, a CART 3494 e os GEMIL 309 e 310 (Suponho de Taibatá e Dembataco).

Os feridos eram todos do 3º Grupo de Combate e pertenciam às equipas da Bazuca. Segundo informação obtida posteriormente, o IN teria tido 5 mortos, sendo 2 da acção da CCAÇ 12 e os restantes da resposta dos GEMIL 308 e 309.

Curiosamente no dia 3 [de Fevereiro de 1973] tínhamos tido outra emboscada na Ponta Varela, em conjunto com a CART 3494. O IN teria tido 3 mortos e 1 ferido, tendo a CCAÇ 12, um ligeiro, salvo erro do 4º Grupo de Combate.

Nessa época a CCAÇ 12 ainda estava no hotel, em Bambadinca, sede do BART 3873 e a CART 3494 no Xime.

Um abraço e reafirmação da vontade de dar mais notícias.
António Duarte


___________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores do António Duarte:


18 Fevereiro 2006 > Guiné 63/74 - DLXI: Um periquito da CCAÇ 12 (António Duarte / Sousa de Castro)

20 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXVIII: Notícias da CART 3493 (Mansambo, 1972) e da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1973/74) (António Duarte)

(...) "Estive na CCAÇ 12 desde Janeiro de 1973, primeiro em Bambadinca e a partir de Abril no Xime, após as rotações das companhias, geradas pela transferência para Cobumba da Cart 3493 (minha unidade inicial). Regressei à metrópole em Janeiro de 1974 (...)

"Quanto ao ano de 1973 na CCAÇ 12 a acção foi mais animada. Instalados em Bambadinca, naquilo que se classificava de hotel, fazia-se operações sobretudo na zona do Xime. Assim em 3 de Fevereiro tive a primeira emboscada na Ponta Varela em que participaram três grupos de combate da CCAÇ 12 em conjunto com 2 pelotões da CART 3494 (à época aquartelada no Xime). As NT não registaram feridos mas segundo se apurou em informações recolhidas no Enxalé, o PAIGC teria tido baixas" (...).


11 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLV: Ex-graduados da CCAÇ 12 também foram fuzilados (António Duarte)

17 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P966: O Mexia Alves que eu conheci em Bambadinca (António Duarte, CCAÇ 12, 1973)

24 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P984: Ainda a tragédia de Quirafo: o 'morto' que afinal estava vivo (António Duarte)

21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1302: Blogoterapia (1): Palmas para o Amílcar Mendes, o Beja Santos e o Victor Tavares (António Duarte, CART 3493 e CCAÇ 12)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Guiné 63/74 - P1552: Lançamento do livro 'Diário da Guiné, sangue, lama e água pura' (António Graça de Abreu)

Guiné > Região do Cacheu > CAOP 1 > Teixeira Pinto > 1972 > O Alf Mil Abreu, o segundo a contar da direita, num momento de convívio. O António Graça de Abreu nasceu no Porto (em 1947) , licenciou-se em Filologia Germânica e é Mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Entre 1977 e 1983 leccionou Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Pequim e Shanghai. Como alferes miliciano pertenceu ao CAOP 1 (Teixeira Pinto ou Canchungo, Mansoa e Cufar de 1972 a 1974). Acaba de publicar Diário da Guiné - Lama, Sangue e Água Pura. Lisboa: Guerra e Paz, Editores. 2007. ISBN: 9789898014344. Preço: € 22.
Foto: © António Graça de Abreu (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região do Cacheu > CAOP 1 > Teixeira Pinto > 1972 > O Alf Mil Médico Mário Bravo - o quarto a contar da esquerda, de óculos - no meio de um grupo de oficiais. O António Graça de Abreu - alferes miliciano (CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) - é o primeiro da esquerda. O Abreu vem agora completar a legenda: "O Mário Bravo lembrou-se de mim em Teixeira Pinto e mandou essa fotografia onde apareço jovem, quase menino, na ponta esquerda da foto. Na ponta direita está, de camuflado, o meu amigo capitão miliciano António Andrade, comandante da 35ª Companhia de Comandos, também amplamente referido no meu livro. Entre mim e o Bravo estão o alferes Gamelas, da Companhia 3863, e o alferes Cravinho (de calções), do nosso CAOP 1 e meu companheiro de quarto".
Foto: © Mário Bravo (2007). Direitos reservados

Mensagem enviada pelo António Graça de Abreu (1), com data de 15 de Fevereiro, e que infelizmente só hoje divulgo. De qualquer modo, congratulo-me com o lançamento do seu livro (2), para o qual desejo, em meu nome e em nome da tertúlia, o melhor sucesso editorial. Tenho pena de não ter tido oportunidade de divulgar antecipadamente a notícia. O convite (irremediavelmente atrasado) aqui fica, mesmo assim: vale pela intenção, pelo desafio e sobretudo pelas palavras calorosas deste nosso novo amigo e camarada que vai, de certo, continuar a falar connosco da "Guiné, essa exaltante, ainda dolorosa e libertadora paixão das nossas vidas". Vamos tentar marcar um lançamento especial, só para nós, no próximo encontro na tertúlia, se o Abreu concordar e estiver disponível (ainda não temos data nem local, embora a cidade de Pombal já tenha sido sugerida como local, a meio caminho entre e o sul e o norte).


Meu caro Luís Graça e camaradas da Guiné:
Um agradecimento daqui à Guiné, do tamanho dos nosso corações pelo teu blogue. Está lá quase tudo, na voz, no sentir de tantos hoje guineomaníacos que, um dia nos melhores anos da nossa juventude, foram arrancados à humilde (?) pátria lusitana e lançados para as bolanhas, para o tarrafo, para as matas da Guiné.

Duas ou três questões.

(i) No próximo dia 23 de Fevereiro, pelas 18,30, na Livraria Bulhosa, no Centro Comercial de Linda-a-Velha (logo ali na rotunda de entrada, quem vem da auto-estrada, de Lisboa ou de Cascais) vai ser apresentado o meu livrinho Diário da Guiné, lama, sangue e água pura, pela Profª Drª Annabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Vou aproveitar e mostrar cerca de 30 diapositivos inéditos (espectaculares, prometo!) feitos em Fevereiro e Março de 1974. São a cor, o cheiro, a loucura, o desvairo desses últimos meses da Guiné Portuguesa.

Convido todos os camaradas e amigos do nosso blogue Guiné para estarem presentes. Será também o modo de nos conhecermos melhor e falarmos da Guiné, essa exaltante, ainda dolorosa e libertadora paixão das nossas vidas.

(ii) Outra questão. O Dr. Mário Bravo lembrou-se de mim em Teixeira Pinto e mandou essa fotografia (3) onde apareço jovem, quase menino, na ponta esquerda da foto. Na ponta direita está, de camuflado, o meu amigo capitão miliciano António Andrade, comandante da 35ª Companhia de Comandos, também amplamente referido no meu livro.

Obrigado, meu caro Bravo, lembro-me de ti em Teixeira Pinto, estavas em fim de comissão. No meu Diário falo dos outros dois médicos de Teixeira Pinto, o Bagulho e o Pio de Abreu. Creio que o Bravo veio substituir um deles, que terminara a comissão.

Entre mim e o Bravo estão o alferes Gamelas, da Companhia 3863, e o alferes Cravinho (de calções), do nosso CAOP 1 e meu companheiro de quarto. Que é feito desses camaradas? Onde estão os homens do meu CAOP 1, onde estão os meus soldados? E os meus majores, os meus coronéis?

(iii) Última questão. Envio em anexo mais um excerto do meu Diário da Guiné, referente à história dos três majores e do alf Mosca, do meu CAOP 1. Em nota de rodapé cito o nosso blogue e os dados que o ano passado consegui encontrar sobre a tragédia desses homends de excepção (4).

Saudações amigos a todos os camaradas da Guiné.
António Graça de Abreu

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Notas de L.G.:
(1) Vd. post de 5 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1498: Novo membro da nossa tertúlia: António Graça de Abreu... Da China com Amor

(2) Vd. post de 6 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1499: A guerra em directo em Cufar: 'Porra, estamos a embrulhar' (António Graça de Abreu)
(1) Vd. posts anteriores:

(3) 12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1517: Tertúlia: Com o António Graça de Abreu em Teixeira Pinto (Mário Bravo)

(4) A publicar oportunamente no nosso blogue.

Guiné 63/74 - P1551: Petiscos de caserna (1): Gato e Iguana com Molho de Chabéu (Tino Neves)

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS do BCAÇ 2893 (1969/71) > O Tino Neves (1) num restaurante local. A ementa: Frango assado com batatas fritas com molho de Chabéu. Ir à cidade (Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Bissorã, Bissau, Catió...) comer um bifinho com batatas fritas fazia parte do imaginário dos militares portugueses - e em muitos casos era um luxo de quem estava no mato... (LG)




Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1969 > No Zé Maria, comendo lagostins do Rio Geba... A dolce vita dos milicianos da CCAÇ 12, entre duas operações: na ocasião, o Alf Mil Cav Rodrigues (natural de Lisboa, já falecido) e os furriéis milicianos Tony Levezinho e Humberto Reis, nossos queridos tertulianos. A chapa foi batida - salvo erro - por mim, membro assíduo desta tertúlia gastronómica. O pobre do Zé Maria (2), que era tuga, tinha fama de ser turra (por vender vacas, panos, mosquiteiros, bianda, etc., ao PAIGC, com a uma base no noroeste do Cuor, Madina/Bele...). Ele fazia-se pagar caro os lagostins (gigantes), "pescados no Geba em zona de grande risco"... Se bem me recordo, eram pagos a 50 pessos o quilo, o dobro de um bife com batatas fritas na Transmontana, em Bafatá (Um soldado africano, da CCAÇ 12, tinha direito a cerca de 24 ou 25 pesos por dia, por ser desarranchado, além do pré - que eram 600 pesos por mês) (Sobre preços no tempo da guerra, há diversos posts) (3). (LG).


Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.

Texto enviado pelo nosso camarada Tino Neves > Constantino Neves, ex- 1º. Cabo Escriturário da CCS do BCAÇ 2893 (Nova Lamego, 1969/71) (1).


Camarada e Amigo Luís Graça

Mais uma pequena história em homenagem ao esplêndido e saboroso molho feito da raiz da palmeira, o Chabéu (ou Xabéu ? estará bem escrito ?) (4).

Alguém matou um gato com uma pedra, julgo que sem intenção de o matar, mas o facto é que a pedrada foi certeira e o gato morreu. Diante esse facto, houve logo quem dissesse que rico coelho à caçador que isso vai dar. Dito isso, houve logo alguém que se aprontasse para fazer o cozinhado, o 1º Cabo Libório, da CCAÇ 2619, pertencente ao nosso Batalhão.

Eu tive a honra e o prazer de ter sido um dos convidados para essa maravilhosa refeição, apesar de me terem dado a conhecer o que iria comer, eu aceitei de bom agrado pois sou um grande apreciador de coelho. Não me arrependi, pois foi de comer e chorar por mais. A ementa não foi à caçadora, mas sim uma criação própria do Cabo Libório, com batatas e mais alguns ingredientes e o respectivo molho de Chabéu. Uma delícia!

Passados algums meses, alguém foi ao mato fazer uma caçada, talvez ao javali, o certo é que trouxeram para o quartel um animal do qual nem sabiam o que era. Foi pendurado numa trave de madeira, para que todos o vissem, media da ponta do rabo ao focinho talvez dois metros, era maior do que um homem... Era uma iguana!.

E mais uma vez, alguém depois de mexer e apalpar o bicho, disse:
- Isto é tenrinho, deve dar uns bons bifes!

Dito e feito, foram logo chamar o 1º Cabo Libório, o tal da receita do coelho à caçadora, que, apesar de a especialidade dele ser Mecânico Auto, tinha jeito para a culinária.

Mais uma vez tive o prazer de ser convidado. A ementa foi, como não podia deixar de ser, Bife com batatas fritas com molho de Chabéu. Mais uma vez, uma delícia!

Conclusão: Como os Mestres Cozinheiros dizem, o segredo da culinária está nos condimentos (5).

Tino Neves

PS - Tivemos muita sorte, tanto na altura do Gato como da Iguana, de haver batatas no depósito de géneros, e as boas relações que tínhamos com o Cabo encarregue do depósito (também foi um dos poucos convidados para os petiscos de caserna).

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 3 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1146: Constantino Neves, ex-1º Cabo Escriturário da CCS do BCAÇ 2893 (Lamego, 1969/71).

(2) Vd. post de 18 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1534: Estórias cabralianas (19): O Zé Maria, o Filho, Madina/Belel e um tal Alferes Fanfarrão (Jorge Cabral)

(3) Vd. posts de:

17 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1286: Estórias de Bissau (4): A economia de guerra (Carlos Vinhal)

1 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXII: Cem pesos, manga de patacão, pessoal! (2) (Luís Graça / Humberto Reis)

28 de Julho de 2005 > Guiné 63/74 - CXXIX: Cem pesos, manga de patacão, pessoal! (1) (Luís Graça / Humberto Reis / A. Marques Lopes / Luís Carvalhido / Jorge Santos)

(4) Termo usado na Giuiné-Bissau: chabéu (do crioulo, tche bém) > (i) fruto do dendezeiro (palmeira que dá o dendê ou coconote); (ii) iguaria à base de peixe pou carne preparada com esse fruto (Dicionário Houaiss da Língua Portugesa, Tomo III, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003)

(5) Sobre outros pesticos tipicamente guineenses, vd. posts de:

11 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1266: Estórias de Bissau (1): Cabrito pé de rocha, manga di sabe (Vitor Junqueira)

22 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P897: Pitéus da gastronomia local (Hugo Moura Ferreira)

7 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P854: Do Porto a Bissau (26): leitão à moda de Jugudul (A. Marques Lopes)

28 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCVIII: A tertúlia do Porto (Albano Costa)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Guiné 63/74 - P1550: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (2): A nossa gente


Guiné > Subsector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > O Zé Luís, o básico, com as suas macacadas.






Guiné > Subsector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > Furriéis Rico e Pedroso, e Alferes Correia

Guiné > Subsector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > Sargento Teixeira, Furriéis Fonseca, Pires, Timóteo, Gonçalves, Rico, Soares e Costa e Alferes Correia

Fotos: Fernando Barata (2007). Direitos reservados.
II parte do resumo da história da CCAÇ 2700 (Dulombi, Maio de 1970/ Abril de 72), unidade que pertenceu ao BCAÇ 2912, e foi render a CCAÇ 2405 do BCAÇ 2852 (1968/70). O autor do texto é o ex-Alf Mil Fernando Barata, da CCAÇ 2700 (1):

2 - A NOSSA COMPANHIA

2.1 – Organização

A Companhia de Caçadores 2700 teve como unidade mobilizadora o Regimento de Infantaria n.º 2, aquartelado na cidade de Abrantes e estava enquadrada no Batalhão de Caçadores 2912, do qual faziam também parte a CCAÇ 2699, comandada pelo Capitão Miliciano João Fernando Rosa Caetano, responsável pelo sub-sector de Cancolim, a CCAÇ 2701, comandada pelo Capitão Carlos Trindade Clemente, responsável pelo sub-sector do Saltinho (2), bem como a Companhia de Comando e Serviços (CCS), comandada pelo Capitão Joaquim Rafael Ramos dos Santos e que se encontrava adstrita ao Comando do Batalhão, sediado em Galomaro.

Foi para nós extremamente frustrante que da Instrução de Especialidade, que decorreu entre Dezembro de 1969 e Janeiro de 1970, em Abrantes, só 24 praças tivessem transitado para a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO). Para além do afeiçoamento que se tinha criado, havia que começar quase tudo de novo, com a agravante de muitas das novas praças estarem rudimentarmente preparadas, tornando-se necessário adaptá-las ao ritmo que anteriormente tínhamos imprimido. Só com um grande esforço e a total entrega de oficiais, sargentos e praças se conseguiu atingir o nível que a todos desse confiança para a execução de tarefa que se avizinhava, onde o valor supremo (a vida) passaria a estar em jogo todos os dias.

No essencial, durante o IAO, que decorreu entre 23 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 1970, no Centro de Instrução Militar (CIM) de Santa Margarida, local onde se deu a organização do Batalhão, foram treinadas situações de: patrulhamento, reacções a emboscadas, emboscadas, golpes de mão, batidas de zona, cercos e treino de tiro, na tentativa de preparar os militares o melhor possível para uma realidade de guerra que se lhes iria deparar.

A 16 de Abril teve lugar a festa de despedida do Batalhão. Após uma semana de licença, penosa para alguns de nós (no meu caso pessoal não tive coragem de me despedir de meus pais), pelas 3 da manhã de 24 de Abril partimos de Santa Margarida utilizando como meio de transporte o combóio, tendo desembarcado no Cais de Alcântara 3 horas e meia depois.

Batiam as 12 horas quando largamos da Gare Marítima de Alcântara no navio Carvalho Araújo com destino à Guiné.

Às 21 e 30 de 30 de Abril o navio fundeou ao largo de Bissau, iniciando-se pela manhã do primeiro de Maio o desembarque através do Rita Maria. Pernoitámos no Depósito de Adidos em Brá. Após umas noites mal dormidas, pelas 6 horas do dia 5 de Maio embarcámos na LDG (Lancha de Desembarque Grande) Montante até ao Xime de onde partimos em viaturas auto, quer militares, quer civis (recordam-se do Sr. Regala?), rumo a Dulombi.


2.2 – Efectivos

Embarcamos para a Guiné sem que o quadro de efectivos que competia à nossa Companhia estivesse totalmente preenchido. É nesta perspectiva que em Junho vimos chegar o 1.º Sargento Helder Panóias, elemento que se viria a demonstrar extremamente importante pela forma dedicada, eficiente, competente e prestimosa como desempenhou a sua missão, assim como os soldados David Coelho Jorge e José Luís Martins Monteiro.

Todos se lembrarão deste último, o Zé Luís, o básico. Foi o verdadeiro bobo da corte, onde ele estivesse não havia má disposição. Nunca me esquecerei de uma história que ele nos contou. Certo dia teve a desdita de, ao atravessar uma rua em Almada, ser atropelado por um automóvel. Ficou em tal estado que no hospital deram-no como morto sendo transferido para a morgue. Entretanto, um técnico alemão que estava a dar assistência ao Cristo-Rei, em Almada, estatela-se, e este sim falece realmente. Quando o funcionário da morgue coloca o alemão ao lado do Zé Luís, este mexe-se. Foi a sua salvação, e a nossa, pois sem ele a comissão tinha sido muito mais monótona.

Em Agosto é altura para recebermos o soldado Fernando António Cunha Lopes.Em Dezembro, chega o Furriel João F. Costa, bem como o Furriel Enfermeiro Joaquim de Jesus Alves, em substituição do Furriel Helder da Silva Coelho que havia entretanto baixado ao Hospital Militar de Doenças Infecto Contagiosas (HMDIC).

Em Fevereiro de 1971, a Companhia recebe os soldados Manuel Fernando Cardoso de Almeida e Luís Gonçalves Alves. Chega também o Alferes Helder Balsa que vem fazer um estágio para a Formação de Comandantes de Companhia. Por esta altura, o Exército começava a ter séria dificuldades para, dentro das suas fileiras, mobilizar capitães do Quadro que comandassem as sucessivas companhias de que necessitava, quer para render aqueles que estavam em fim de comissão, quer para ampliar a sua acção em novas frentes de batalha nos três teatros de operações, tendo sido utilizado o estratagema de graduar Alferes Milicianos, que se haviam distinguido no Curso de Oficiais Milicianos, em Capitães.

Em Março demos as boas-vindas ao 1.º Cabo Casimiro dos Santos Canelhas, passando a pertencer à Companhia, a partir de Maio, o soldado José da Silva Guerra, vindo da CCS do Batalhão, ao mesmo tempo que o soldado José da Costa Marinho faz o sentido inverso, no que é acompanhado, em Agosto, pelo soldado Serafim Martins Marques Carneiro.

Em Setembro é recompletado o quadro com a chegada do soldado José Luís da Silva Navalha. Igual situação se passa, em Novembro, com a chegada dos soldados Carlos Alberto de Oliveira Rodrigues e José da S. Alves. Por outro lado, o Furriel João Costa é transferido para a CCAÇ 14 do BART 3844, experimentando sentido inverso o 1.º Cabo António Fernando da Silva, vindo da CCAÇ 3327.


2.3 – Operações

A primeira operação executada pela Companhia teve lugar a 22 de Março de 1970 e tinha como nome de código Ducado Interno. Nela participaram o 1.º e 3.º Pelotão. Recordo que foi uma operação envolta em grande expectativa, não só por ser a primeira, como pelo facto de existir uma grande probalidade de haver contacto directo com o inimigo, já que este poderia estar acampado no Jifim. Esta probabilidade era cimentada no facto de os elementos da Companhia que nós acabávamos de render, na parte final da comissão, numa atitude de certa forma compreensível, se defenderem, não pretendendo correr riscos de serem emboscados tivessem aligeirado a sua prestação operacional. Tal abrandamento permite que o inimigo se instale no território ao pressentir que não há acção por parte das nossas forças.
Esta operação (e todas as outras) tinha como finalidade “detectar vestígios da passagem ou presença do inimigo, capturando-o ou destruindo-o se este se revelar” como nos é relatado nalguns documentos insertos no maço obtido no Arquivo Histórico Militar. A título de curiosidade refiro que esta operação teve o seguinte itinerário: Vendu Columbai, Rio Nhassi, Rio Tangeoul, Rio Lagui, Manguel, Rio Bissi, Paiai Numba, Rio Nhagama, Rio Sinhaudi, Rio Cantoro e Vendu Cantoro.
Em 10 de Agosto, a fim de patrulhar a região do Jifim, realiza-se a operação Ligeiros Quadros. Próximo daquele local é accionada uma mina a/c, resultando a morte do 1.º Cabo António Carrasqueira e 4 milícias. Foi o primeiro momento negro vivido pela nossa Companhia e particularmente pelo 2.º Pelotão, do qual o Carrasqueira fazia parte, militar muito estimado por todos os camaradas.

No total, realizámos 44 operações todas com nomes de código que iam desde Menina Rabina até Cidade Maravilhosa. Será que o autor destes nomes ao inventá-los se estaria a inspirar na Spaguetti em relação à primeira, ou no Jifim, em relação à segunda? Sim, que nestas alturas nem nos lembramos que existe uma cidade maravilhosa, de nome Rio de Janeiro.

A intensa actividade que a nossa Companhia exerceu quer através de operações quer através de patrulhamentos, duma forma equilibrada e procurando cobrir toda a quadrícula que lhe estava distribuída, terá certamente contribuído para que o inimigo não se instalasse na nossa zona.

Em todas as operações realizadas nunca tivemos contacto directo com o inimigo.
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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 22 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1541: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (1): Introdução: a 'nossa Guiné'
(2) Companhia a que pertenceu o membro da nossa tertúlia, Martins Julião, ex-Alf Mil. Sobre esta unidade, que esteve aquartelada no Saltinho, vd. post de 13 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1424: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (6): amigos do peito da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Guiné 63/74 - P1549: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (8): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte I


Guiné > Cartaz de propaganda do exército português. No tempo de Spínola (1968/73), a máquina de propaganda - a APSIC - vai-se tornar mais sofisticada e poderosa, ao serviço de política da Guiné Melhor. O PAIGC ver-se-á obrigado a responder com uma escalada a nível político, militar, organizativo e diplomático (LG).


Foto: © A. Marques Lopes (2005) . Imagem gentilmente cedida por A. Marques Lopes, coronel DFA, na situção de reforma, ex-alferes miliciano da CART 1690 (Geba, 1967/68) e da CCAC 3 (Barro, 1968/69).




Guiné > Bissau > Brá > 1965 O General Schultz (à esquerda)

Foto: © Virgínio Briote (2005). Direitos reservados.


VIII parte do dossiê O massacre do chão manjaco > Ideia, pesquisa, compilação e edição de Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70) (*).

1. E-mail enviado pelo Afonso Sousa em 28 de de Novembro de 2006 ao Leopoldo Amado , especialista em historiografia do PAIGC e da guerra de libertação contra o domínio português na Guiné, e membro da nossa tertúlia:

Caríssimo Doutor Leopoldo Amado.

Antes de mais os meus respeitosos cumprimentos. Através do Luis Graça, foi-me dado a conhecer o seu magnífico trabalho, visando a dissecação daquele que se poderá chamar de massacre do chão manjaco.

Dele saem respostas precisas sobre as muitas interrogações que o assunto tem originado e ainda suscita. São respostas que ficam como um contributo precioso para a história deste conflito e deste acontecimento, em particular.

Estas perguntas são pertinentes para uma mais fácil compreensão da origem, evolução e contornos deste trágico acontecimento para as hostes portuguesas. Numa resenha, temos:

1) Qual o objectivo destes encontros, entre beligerantes ?
2) De quantos elementos era composta a nossa delegação para esse encontro ?
3) Este encontro era o último. A que se destinava ?
4) O que falhou do lado do exército português ?
5) Qual o local exacto ou presumível do encontro ?
6) Quem convenceu Spínola a não comparecer ao encontro fatídico?
7) Spínola já tinha estado em algum encontro com o PAIGC ?
8) Onde se realizou o 1º desse encontros ?
9) Que outros encontros são conhecidos ?
10) Os majores trabalhavam em íntima colaboração com o inspector da PIDE em Teixeira Pinto ?
11) Spínola tinha informações junto e dentro da direcção do PAIGC ?
12) Terá havido discrepância de informações entre a PIDE em Teixeira Pinto e a PIDE em Bissau, que justifique o desfecho do Encontro ?
13) O desenlace deste encontro foi uma consequência da existência de contradições no seio do PAIGC ?
14) Terá havido fugas de informação entre os comandantes guerrilheiros do chão manjaco ne apoderadas pela direcção do PAIGC, que justifiquem este repentino recuo ?
15) A tese de que Spínola teria, 2 dias antes deste acontecimento, vindo a Lisboa para uma reunião com Marcelo Caetano, a pedido deste, não tem fundamento ? Ou, realizou-se ainda a tempo de estar na Guiné no dia do encontro com o PAIGC ?
16) Como lidou o PAIGC com este delicado dossiê ?
17) O objectivo do PAIGC seria mesmo tentar a captura de Spínola ?
18) A selvajaria do comportamento dos guerrilheiros do PAIGC não terá sido acicatado por estes terem verificado que Spínola não estava presente ?
19) Quem foi o autor material das punhaladas que consumaram o massacre ?
20) Quem procedeu ao levantamento dos corpos, no dia seguinte ? A família de um dos massacrados militares refere que um deles foi finado com uma catanada no estômago, outro com decepação da cara (também com catana) e que outro tinha um punhal espetado na zona do coração.
21) Será que este dado é correcto, ou apresenta-se deturpado ?
22) Embora tenha derivado de entendimento prévio, porque terão os majores ido sem segurança e desarmados para este encontro ? As nossas tropas poderiam ter feito uma segurança dissimulada e de proximidade !
23) Que vantagens imediatas para o PAIGC, resultaram deste fim inopinado das negociações ?

Como muito bem diz, uma ou outra resposta não serão a realidade cem por cento concreta mas abordagens muito próximas dela. São hipóteses explicativas plausíveis para o acontecido e constituem-se como um relevante e precioso subsídio para a história. Estou a coligir todas as respostas. Subsistem dúvidas ou não há ainda resposta para as questões 2), 4), 5), 15), 16), 17), 20), 21).

Para além do seu magnífico contributo, realço também as utilíssimas informações de homens que viveram a violenta e dura guerra da Guiné e foram contemporâneos (*) desta que terá sido a maior barbárie cometida pelos independentistas. Deles destaco o João Tunes, o Luis Graça, o João Varanda, o Júlio Rocha e o João Godinho.

Ficamos na expectativa de mais algum esclarecimento seu, principalmente aquele que se prende com a questão Como lidou o PAIGC com este delicado dossiê e que resulta das suas investigações em arquivos (de ambos os lados).

Um sincero agradecimento pelo seu inestimável contributo e pela sua apreciada gentileza.

Um abraço. Afonso Sousa.


2. Depoimento do historiador lusoguineense Leopoldo Amado, que optou por responder de forma global às questões do Afonso. Vamos reproduzir esse depoimento em três partes, devido à sua extensão (Subtítulos da responsabilidade do editor do blogue):

I Parte - De Schultz a Spínola


O consulado de Arnaldo Schultz (1964-1968)

A guerra colonial na Guiné criou sempre imensos problemas ao exército português. Assim, nos 17 primeiros meses da guerra o comando militar foi substituído quatro vezes até a chegada do general Arnaldo Schultz, em Março de 1964. Mesmo com este, a situação era de tal forma difícil que, em Portugal, iniciou-se espontaneamente um debate em que já se discutia de forma clara a hipótese de simplesmente se abandonar a Guiné, dado o elevado custo material e humano que a guerra exigia, agravado ainda pela falta de recursos do território. Porém, o sector conservador do regime, incluindo Salazar, não anuiu a essas ideias e optou-se pela continuidade da guerra, no convencimento de que o abandono da Guiné retiraria a Portugal a justificação para continuar a guerra noutros territórios de África.

A acção de Arnaldo Schultz, como o próprio reconhece, era a de "(…) conquistar uma área de terreno, destruir o inimigo e tirar-lhe a vontade de combater, mas na guerra subversiva não existe nenhum destes objectivos, o que há que fazer é ganhar simpatias, mas a formação militar desse tempo era outra, ou seja, a de alcançar objectivos, em lugar de conquistar vontades. De forma que a nossa actuação não se ajustava ao que se pretendia. A estratégia que pus em prática consistia em ter e controlar áreas determinadas, para que era necessário que as nossas forças conquistassem um terreno e ficassem ali para que outras forças, na mesma área, se ocupassem a procurar o inimigo” (1).

Fundamentalmente, Arnaldo Schultz tentou controlar o Centro-Oeste do território, perdido desde o início da guerra com acções de grande envergadura em Como, Cantanhede, Quitafine, etc., mas que redundaram num tremendo fracasso (2).

Na realidade, a situação militar com Arnaldo Shultz piorou consideravelmente, apesar do aumento significativo de efectivos que passou de 1000 homens em 1960 para cerca de 25 000 homens em 1967, deteriorando-se ainda mais nos primeiros meses de 1968. Disso se faz eco Otelo Saraiva de Carvalho, que, sem rodeios, disse que “ (…) Schultz revelou tanta incompetência militar e governativa e fez tantos disparates que quase levava o PAIGC a vitória sem grandes esforço (…)” (3).


A chegada de António Spínola

Em consequência do agravamento da situação militar para o exército português, Schultz foi substituído por Spínola, que, não obstante as dificuldades de vária ordem, inaugura um estilo novo de abordagem da guerra. Porém, ao tempo da sua chegada a situação caracteriza-se assim: o PAIGC quase controlava todo o Sul do território desde o início das hostilidades. A zona oeste estava igualmente sob o controlo do PAIGC, à excepção do chão manjaco, onde a guerrilha ainda estava na fase pré-insurrecional e só o chão dos fulas, no Leste, se mantinha mais ou menos fiel as autoridades portuguesas, pelo que Spínola imediatamente deduziu que o futuro se jogaria ali.

A estratégia consistia em encetar nessa região uma forte acção psicológica acompanhada de obras socio-económicas, com o objectivo de subtrair o apoio dos manjacos ao PAIGC e, por esta via, contagiar positivamente os papéis, em cuja região se encontra Bissau, asfixiando assim o PAIGC. Acompanhariam ainda esta estratégia acções que, no geral, tinham como objectivo manter as operações militares a um nível secundário de molde a permitir um regular funcionamento da administração, mas com as populações sob controlo das autoridades coloniais, abalar a confiança das populações na propaganda independentista, incentivar o regresso dos refugiados, pondo-os sob a protecção das autoridades coloniais e explorar até ao limite todas as contradições existentes nas fileiras da guerrilha, essencialmente entre os cabo-verdianos e guineenses. Estas acções, no seu conjunto, passaram a constituir o maior desafio político-militar ao PAIGC depois da chegada do general Spínola, nomeado governador em 1968.

Na realidade, este tinha negociado antecipadamente poderes alargados e a sua estratégia político-militar afrontou seriamente o PAIGC, sobretudo pela hábil manipulação de ingredientes políticos e étnicos. A partir de 1969, o general começou por criar uma infra-estrutura de representação política, com poderes consultivos, atraindo para ela um sector importante das elites étnicas, ao mesmo tempo que desenvolvia infra-estruturas sociais e de saúde. Por outro lado, não descurou a vertente étnica no interior do PAIGC e na sociedade guineense, criando e apoian­do organizações nacionalistas anticaboverdianas, e utilizando algumas figu­ras históricas da fundação do partido, como Rafael Barbosa.

Na vertente étnica interna, Spínola e a sua elite jogaram com algum sucesso na promoção dos fulas e de outras etnias menos receptivas à guerrilha. Apesar da adopção a partir de 1969 desse novo conceito no contexto global da guerra, era conferida maior destaque às actividades socio-económicas e psicológicas junto as populações, a ponto de a mesma influir, de certo modo, na estrutura de comando e controle e no dispositivo militar do exército português no teatro de operações.

Porém, a menor extensão geográfica do território, a boa organização e crédito internacional de que gozava o PAIGC, a extensão da fronteira terrestre, a característica alagadiça de grande parte da superfície, com a consequente dificuldade de movimentação, e um inimigo composto por tropas bem armadas e eficientemente enquadradas foram factores determinantes para que, na Guiné, o exército português tenha enfrentado ameaças de vulto, entre outras razões, por que a densidade de ocupação militar era muito elevada e, mesmo assim, sempre se colocou o problema de economia de efectivos (4).


A política da Guiné Melhor e a APSIC


Do lado do PAIGC, o período que se estende de 1964 à 1968 correspondeu a fase de consolidação, aquela em que se dá o alastramento da guerra às outras regiões, atingindo toda a estrutura militar do partido a situação-limite de evolução e exigindo, consequentemente, a passagem a formas de intervenção militar mais elaboradas, mais intensas, ao estilo das guerras convencionais. Foi igualmente neste período de consolidação que largos sectores militares do PAIGC, mesmo as chefias militares, deram mostras de um certo desfalecimento perante a guerra, mercê da intensa e eficaz campanha psicológica (política da Guiné Melhor) desenvolvida pelo general Spínola.

Com a nomeação de António de Spínola, em 1968, para governador e comandante-chefe das Forças Ar­madas na Guiné conseguem as for­ças portuguesas alguns êxitos, principalmente no campo económico e social, retirando ao PAIGC a possibilidade de contro­lar certas populações, que passa­ram a estar reagrupadas em aldea­mentos protegidos por contingentes mistos. A par da política de reordenamento da população é tentado o desenvolvimento socioeconómico. Realizam-se importantes trabalhos públicos e a presença das tropas portuguesas injecta vigor numa eco­nomia enfraquecida Aliás, poucos meses após a chegada de Spínola à Guiné, as hostes do PAIGC ressentiram-se consideravelmente das suas primeiras acções, na medida em que, a partir de Outubro de 1968, muitos dos dirigentes desdobravam-se em acções de reanimação dos combatentes, essencialmente no Sul, onde até alguns comandantes, que estavam desmoralizados com os bombardeamentos, ameaçavam abandonar a guerra.

Porém, a Directiva 65/69, de 13 de Agosto, explicitava que o comando-chefe – depois de um estudo aprofundado, que ainda não havia sido feito anteriormente, sobre o meio étnico, religioso e linguístico, o meio socioeconómico, rural e urbano os resultados das acções de conquista e protecção das populações através de: importantes medidas sanitárias, preventivas e curativas e o apoio a actividades agrícolas e piscatórias – decidiu, como manobra estratégica, constituir o chão manjaco como área fulcral da luta contra a subversão. Reputamos ser esta uma Directiva da maior importância, devido ao facto de a sua execução vir a ser a acção militar de maiores repercussões na condução da manobra estratégica socioeconómica. É nessa região que ocorreu, na sequência dos esforços centrados no chão manjaco, mais concretamente em Teixeira Pinto (hoje Cantchungo) a morte dos três majores.

Nesta última localidade, após a instalação do principal elo de coordenação dos Serviços de Informação e Acção psicológica do exército Português na Guiné, a manobra de guerra passou a ser eficazmente apoiada por uma manobra psicológica que garantir a mentalização e a integração efectiva de todas as forças que lutavam contra o PAIGC na tarefa essencial de conquistar as populações.

Mais de 11 mil armas distribuídas pelo exército à população

Por outro lado, essa conquista assentava mais na conquista dos espíritos (adesão) do que no controlo físico, privilegiando a manobra psicossocial os seguintes eixos principais: dar prioridade, no âmbito da APSIC, às populações controladas, tendo em vista: o incremento e consolidação da sua adesão à causa portuguesa (entenda-se colonial) para a aceitação dos reordenamentos e autodefesa. Actuar psicologicamente sobre as populações em situação de duplo controlo, de forma a conseguir-se anular, pelos factos, a propaganda do PAIGC junto dela, com vista à sua apresentação ou, no mínimo, a aceitação da sua futura recuperação. Nessa altura, havia pelo menos um total de 11 163 armas distribuídas pelo exército português à população (5).

Privilegiou-se igualmente a actuação psicológica sobre as populações sob controlo inimigo de forma a conseguir-se a sua apresentação ou, no mínimo, a aceitação do duplo controlo. Em relação às forças portuguesas, os serviços de Informação e Acção Psicológica deram prioridade ao esforço de APSIC sobre os quadros e pessoal integrante, por forma a conseguir-se a sua participação na manobra socioeconómica, e a orientação das relações com a população, em todos os escalões executivos, visando a dignificação e promoção do nativo guineense no quadro geral da administração.

Relativamente ao PAIGC, este serviços orientaram doravante todo o seu esforço na dissociação do binário dirigentes/combatentes e na anulação do compromisso ideológico e da determinação de luta dos combatentes do PAIGC, por forma a conseguir o máximo de apresentações de elementos activos a recuperação dos ex-combatentes e a captação dos ainda combatentes.

A APSIC era ainda orientada para o apoio das operações militares, e visava um triplo objectivo: as forças inimigas, os seus quadros políticos e as populações sob sua influência. Já naquela fase em que os departamentos próprios de Acção Psicológica entraram a funcionar em pleno, estas acções passaram a ser planeadas em relação a três fases: antes, durante e depois das operações.


A arma da rádio, em crioulo e nas principais línguas nativas


Em Nhacra, foi instalado um potente emissor e criou-se na rádio o Programa das Forcas Armadas dirigido a toda a população (europeia e africana), que era emitido três horas, semanalmente, em várias línguas nativas (manjaco, fula, mandinga e balanta), além de crioulo, que dispunha de sete horas e meia semanais, sendo este facto importante, uma vez que a língua portuguesa tinha pouca penetração na Guiné. Os programas-tipo foram, essencialmente, orientados para a exploração de temas de contrapropaganda, como: Colóquio, África em Foco, Tua Terra é Notícia, Sete Dias em Foco.

Além do mais, havia ainda os programas radiofónicos em língua francesa, que visavam as massas populares da República da Guiné-Conakry, Senegal e, em especial, de Casamansa, e tem as elites senegalesas e guineenses, com a finalidade genérica de contrariar a noção de isolamento internacional de Portugal e de desacreditar os elementos independentistas. Quanto aos refugiados, a actividade de captação visava o seu regresso à Guiné, explorando os laços familiares, o apego ao chão e as realizações que consubstanciavam a política da Guiné melhor.

Paralelamente a tudo isso, esses programas radiofónicos fomentavam a deserção e contestação no seio do PAIGC e contavam ainda com um serviço técnico destinado a interferir na audição dos programas da Rádio Libertação, do PAIGC, e doutras rádios estrangeiras, sendo ainda apoiados pela imprensa, através das revistas Panorama da Guiné e a Voz da Guiné.

Africanização do exército colonial

Outros expedientes de grande poder em termos de acção psicológica foram utilizados, mormente a graduação de novos oficiais e sargentos africanos na cerimónia do 10 de Junho, a promoção de visitas de entidades e jornalistas estrangeiros, por forma a tentar neutralizar o clima de sucesso que a bem orientada campanha do PAIGC, vinha conseguindo, etc.

Quanto às tropas africanas, deve assinalar-se o esforço notável feito no sentido de se abolir, na realidade da vida diária do serviço, qualquer espécie de diferenciação que pudesse ainda existir, de facto, entre elas e as europeias. Neste aspecto, deve ser citada uma medida de relevante efeito psicológico: a intensificação e alargamento em todos os escalões da miscigenação das unidades com europeus e africanos. Esta africanização dos quadros das forças armadas “ (...) servia também a Lisboa para apoiar a sua propaganda de que a guerra não tinha carácter racial (,..)”. Assim, na Guiné, formaram-se unidades que eram quase só constituídas por naturais do território e também, o comando de africanos, recrutados e instruídos no local e, posteriormente, graduados como oficiais e sargentos.

Libertação de presos políticos

Ainda do ponto de vista da acção psicológica, um despacho de Spínola, datado de Dezembro de 1968, mandou restituir à liberdade quase todos os presos políticos guineenses que se encontravam na colónia penas da ilha das Galinhas. Acto continuo, desencadeia um processo que viria a culminar na libertação, no dia 3 de Agosto de 69, de quase uma centena de outros tantos presos políticos guineenses encarcerados em Bissau e na colónia penal de Tarrafal em Cabo Verde, ao mesmo tempo que anunciava para breve à restituição a liberdade de 16 detidos que se encontravam em Angola. Entre os presos políticos libertados encontrava-se Rafael Barbosa, até então presidente do Comité Central do PAIGC. E essa gigantesca cerimónia é realizada publicamente em frente ao Palácio do Governador, e Spínola, faz um discurso emotivo transmitido em directo pela rádio, aludindo até ao massacre de Pindjiguiti (6), que considera um episódio “dum triste passado que não desejo nem quero recordar”. Mais à frente, acentua uma das suas tónicas preferidas, a do aliciamento psicológico: “Sinto as angústias do bom povo da Guiné, sinto os seus legítimos desejos de uma vida melhor, por isso compreendo os que julgaram bater-se pelo ideal do povo – o ideal do actual Governo da província” (7).

Dentre os presos que usaram da palavra figuram Pascoal D'Artagnan Aurigema, anteriormente libertado Raul Nunes Correia – em representação dos presos da colónia penas da ilha das Galinhas, António Ilídio Lima Silva Ferreira, de Cabo Verde, e Rafael Barbosa, até. Aliás, em Agosto, a Subdelegação da PIDE-DGS de Bissau envia ao director, em Lisboa, uma nota em que assegurava que “ (...) a esta Subdelegação afigura-se de grande relevo a restituição de Rafael Barbosa à liberdade, porquanto a detenção do mesmo servia à propaganda externa do PAIGC para o apresentar como mártir do partido e em liberdade não tem, no presente, qualquer utilidade para o “movimento (.)” (8).

Após municiosa elaboração pelos serviços do Gabinete do comando-chefe e da PIDE-DGS de um texto que Rafael Barbosa deveria ler em público, este acabou por fazê-lo (9), afirmando: “Excelência, aproveito esta oportunidade para apresentar a Vossa Excelência os meus respeitosos cumprimentos, felicitando o primeiro magistrado da província pela sua nomeação como general do exército português e pela sua conduta como guia e chefe de todos os portugueses nestas paragens do continente africano, tão assediado pelo inimigo vindo do estrangeiro. Fala-vos o Rafael Barbosa, indivíduo sobejamente conhecido em toda a Guine Portuguesa, o qual, há cinco anos, iludido pelas promessas dos “ventos da História”, se deixou conduzir e desviar do recto caminho de bom português. Cinco anos são passados de sofrimento e dor, de arrependimento e de amargura, de ilusão.

Mas o tempo é o grande mestre e, na minha solidão, eu tive ocasião de meditar e de reconhecer o meu erro. Bem haja, pois, Vossa Excelência, pela bela atitude que, neste momento, carregou sobre os seus ombros, ao libertar estas dezenas de homens que, iludidos nas promessas vãs daqueles que, a soldo dos países estrangeiros, se lançaram na rebelião contra a Pátria portuguesa, do que estou certo, hoje em dia, se confessam arrependidos. Bem haja, pois, Senhor Governador, pela sua clemência, pela sua dignidade de chefe e, com a ajuda de Deus, eu lhe prometo que serei tão bom português como Vossa Excelência. O futuro confirmará.

Bissau, 3 de Agosto de 1969” (10).

(Continua)
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Notas de L.A.:

(1) Cervelló, Josep Sánchez, La Inviabilidade de Una Victoria portuguesa en la Guerra Colonial: el Caso de Guinea-Bissau, entrevista do general a Josep Sanchez Cervelló em 30 de Junho de 1986, Separata da Revista de História, Tomo XLIX/173, Madrid, 1989, p. 1025.

(2) Fabião, Carlos, Descolonização na Guiné-Bissau, Spínola a Figura Marcante da Guerra na Guiné, Seminário 25 de Abril, 10 Anos depois, s. 1., Lisboa, Associação 25 de Abril, 1984, pp. 305 e ss.

(3) Carvalho, Otelo Saraiva de, Alvorada em Abril, 2ª edição., Amadora, Bertrand, 1977, p. 51.

(4) Cf. Barata, Manuel Themudo, op. cit., p. 78.

(5) “Relatório do Comando”, comando-chefe das Forças Armadas da Guiné, 1971.

(6) O massacre de Pindjiguiti ocorreu a 3 de Agosto de 1959. Para o PAIGC essa era uma data importante, razão pela qual Spínola escolheu justamente esse dia para procurar retirar ao PAIGC a primazia da celebração.

(7) Ver Processo 4194 S-R, Arquivos da PIDE-DGS/ ANTT.

(8) Ofício n.º 994/69 - R.R. de 3 de Agosto de 1969, Arquivos da PIDE-DGS/ ANTT, Proc. 4194 S-R, fls. 93 à 101.
(9) Em entrevista concedida por Rafael Barbosa a Leopoldo Amado, o mesmo considera ter sido coagido e possivelmente drogado para que fizesse tal discurso. Cf. Pereira, Aristides, op. Cit. p. 583.

(10) Ver Processo 4194 S-R, Arquivos da PIDE-DGS,/ANTT.

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Nota de L.G.:


(*) Vd. dossiê organizado pelo nosso camarada Afonso M.F. Sousa:

17 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1436: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (1): Perguntas e respostas

18 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1445: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (2): O papel da CCAÇ 2586 (Júlio Rocha)

19 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1446: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M. F. Sousa) (3): O depoimento do 1º sargento da CCAÇ 2586, João Godinho

27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1465: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (4): Os majores foram temerários e corajosos (João Tunes)

6 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1500: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (5): Homenagem ao Ten-Cor J. Pereira da Silva (Galegos, Penafiel)

8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1503: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (6): Fotografia dos três majores (Sousa de Castro)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1519: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (7): Extractos da entrevista de Ramalho Eanes ao 'Expresso'

Guiné 63/74 - P1548: As cartas do nosso (des)contentamento (A. Teixeira-Pinto / Luís Graça)


Guiné > Bissau > Postal da época. Estátua de Teixeira Pinto.

Foto: © João Varanda (2005). Direitos reservados.


1. Do Prof Doutor A. Teixeira-Pinto, da UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, recebi a seguinte mensagem (creio tratar-se do Prof. Doutor Amândio Teixeira-Pinto, do Departamento de Engenharias da UTAD, Vila Real). Os negritos são da responsabilidade do editor do blogue:



Caro Colega:

Vi a Carta da Região de Teixeira Pinto (agora Cachungo) na Guiné, que considero um excelente documento. Já não posso concordar com a preocupação que espelha em não ofender os guinéus, como se a publicação de uma carta ou a divulgação da nossa História e de antepassados (de que pessoalmente me orgulho) pudessem ser ofensivos para quem quer que seja (1).

A divulgação é feita em Portugal, não na Guiné, e parece-me perfeitamente descabida essa referência de "que não pretende por em causa a independência ou soberania do povo irmão da Guiné". Desta feita jamais poderíamos falar no nosso passado por esse Mundo fora, sem ter de pedir desculpa de lá termos estado.

É perfeitamente lamentável e indesculpável esse tipo de atitude. Não precisamos de fazer qualquer exorcismo para nos redimirmos do passado. Quer queiramos quer não, ele pertence-nos com defeitos e virtudes, não o podemos renegar.

Não conheço outro País onde se ande permanentemente a pedir desculpa do que fomos e dos pretensos males que fizemos no passado. Como investigador de História, como creio que é, basta lembrar o quase extermínio dos índios americanos, a questão dos aborígenes na Austrália e dos maoris na Nova Zelândia, o tratamento miserável que os árabes ainda hoje dão aos negros, as guerras fratricidas selváticas entre tutsis e hutus, os problemas do Darfur, entre tantas e tantas outras situações.

Muito para além das opiniões em que todos nós, Portugueses, somos tão pródigos, fala a realidade da herança cultural e humana que deixámos por onde andámos: os testemunhos que colhi em Malaca, em Goa e em Damão, no Uruguai ou em Timor, são suficientes. O que os outros dizem de nós (a gente simples sobretudo) é que conta. Não o que tristemente denegrimos na nossa alma.


Atentamente

A.Teixeira-Pinto, professor universitário


2. Comentário do editor blogue:

Caro professor e colega A. Teixeira-Pinto:

Não sou, como sugere, historiógrafo nem historiador. Profissionalmente, sou docente universitário (ENSP/UNL), na área da sociologia e saúde pública. Sem ter na minha árvore genealógica antepassados recentes tão ilustres e valorosos como o Capitão Teixeira Pinto (2), sinto-me tão português, nem pior nem melhor, como qualquer outro.

Tenho também para com os guineenses uma atitude de respeito, de apreço e de amizade. Passei quase dois anos da minha juventude na terra deles, numa guerra conduzida por uma elite (portuguesa) cuja legitimidade contestava. Mas isso, para o caso, não importa. Queria apenas frisar que não faço questão de mostrar nenhuma atitude de falsa superioridade nem de complexada inferioridade em relação aos nossos amigos da Guiné-Bissau, que falam a mesma língua do que eu... (E esse é um dos traços de união que nos aproxima, a par da história, dos bons e maus momentos do nosso convívio histórico).

Sobre o pomo da discórdia em relação às cartas da Guiné: é preciso, no entanto, contextualizar a divulgação do documento a que você faz referência, e que aplaude, a carta de Teixeira Pinto (h0je, Canchungo). Transcrevo abaixo o teor da nota que acompanha a divulgação, na Net, das cartas da Guiné, que eu próprio reconheci serem uma obra-prima da nossa cartografia militar (3). É bom dizer, urbi et orbi, que essas cartas foram usadas por nós, soldados portugueses, durante a guerra colonial (ou do Ultramar, como queira) para fins militares. O inimigo de ontem (os nacionalistas do PAIGC) sabe-o bem.

É natural que da parte dos guineenses - não gosto do termo guinéu, quiçá um pouco arcaico e paternalista, muito usado por Spínola - possa haver ainda alguma susceptibilidade quando confrontados com a divulgação dessas velhas cartas na Internet. Pelo menos, por parte da geração dos guineenses que, com brio e coragem, nos combateram de armas na mão...

Há uma dúzia de anos atrás foi exigida, ao meu camarada e amigo Humberto Reis, uma autorização escrita (!) da Embaixada da Guiné-Bissau para poder adquirir a totalidade das cartas da Guiné... portuguesa. Ele nunca quis saber porquê, mas a verdade é que sem isso o Centro de Documentação e Informação do Instituto de Investigação Científica e Tropical, em Lisboa não as vendia, ao meu amigo ou a qualquer outro português, em viagem de turismo ou de negócios à Guiné-Bissau.

Ao digitalizarmos essas cartas e ao pô-las, na Internet, ao dispor dos antigos combatentes da guerra da Guiné (portugueses e guineenses), eu e o Humberto estavamos apenas a afirmar o direito à memória que cada um de nós tem, indivíduos e povos.

Fiz questão de lembrar, para os mais distraídos, que a Guiné-Bissau é hoje um país independente. É, de resto, esse o sentido da expressão, usada por mim (e que o Prof. A. Teixeira Pinto não gostou): a divulgação da carta (geográfica) de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo) bem como as demais cartas desenhadas pelos cartógrafos portugueses, durante os anos 50 e 60, não tinha outro propósito senão o de ajudar à reconstituição, reorganização e preservação da memória dos lugares e das experiências (humanas) dos ex-combatentes portugueses que estiveram aquartelados e/ou envolvidos em operações nos mais diversos sítios da Guiné até desde os anos 60 até à independência.

Para um melhor entendimento da atitude e dos valores que nós defendemos aqui, neste blogue colectivo, convido o Prof. Teixeira-Pinto a ter a gentileza de nos ler com tempo e vagar - refiro-me à tertúlia dos amigos e camaradas da Guiné (3).
Saudações académicas

____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. nota que acompanha a divulgação da Carta da Região de Teixeira Pinto (agora Cachungo):

Quando voltou à Guiné-Bissau, em 1996, em viagem de negócios (mas também em romagem de saudade), o Eng. Humberto Reis (ex-furriel miliciano da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) já tinha adquirido as 72 cartas da antiga província portuguesa, à escala de 1/50.000. 'Em Dezembro de 94 já me custaram 450$00 cada uma'. O mapa geral custou 600$00.

Para os eventuais interessados, essas cartas podem ser adquiridas no Centro de Documentação e Informação do Instituto de Investigação Científica e Tropical, em Lisboa. Algumas cartas podem já estar esgotadas. Na altura foi exigida ao Eng. Humberto Reis uma declaração da embaixada da República da Guiné-Bissau, a qual se transcreve, como simples curiosidade, com data de 29 de Dezembro de 1994:

'A Embaixada da República da Guiné-Bissau em Portugal declara, para os devidos efeitos que está o sr. Eng. Humberto Simões dos Reis autorizado a adquirir cartas geográficas da Guiné-Bissau.

'Para que não haja nenhum impedimento a tal objectivo, se passou a presente declaração que vai ser assinada e autenticada com o carimbo a óleo em uso nesta Missão Diplomática'.

Presumimos que esta exigência de autorização da embaixada da Guiné-Bissau para um turista levar consigo cartas geográficas do país seja ditada (ou fosse ditada na época) por razões de 'segurança de Estado'.

A divulgação desta carta de Teixeira Pinto (actualmente, Canchungo) de modo algum pretende pôr em risco a independência e a soberania do país irmão. Nem muito menos pode ser interpretada como uma provocação. Também não tem quaisquer propósitos comerciais ou outros, de índole lucrativa. Pretende-se apenas prestar um serviço útil aos ex-combatentes da guerra colonial, e nomeadamente aos membros da nossa tertúlia e a todos os demais amigos do povo guineense.

Esta carta, apesar de algumas lacunas (tem já meio século), é fundamental para a reconstituição da memória dos lugares e a reorganização das memórias dos ex-combatentes portugueses que estiveram aquartelados e/ou envolvidos em operações no chão manjaco.

Fica também aqui a nossa homenagem aos valorosos cartógrafos militares portugueses. Esta e outras cartas da Guiné resultam do levantamento efectuado em 1953 pela missão geo-hidrográfica da Guiné – Comandante e oficiais do N. H. Mandovi. A fotografia aérea é da aviação naval (Março de 1953). Restituição dos Serviços Cartográficos do Exército. Fotolitografia e impressão: Lit Barrault, s/d. A edição é da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, do antigo Ministério do Ultramar, s/d. Digitalização efectuada na Rank Xerox (2006).

(2) Sobre a figura do Cap Teixeira Pinto e a sua campanha de pacificação da Guiné, vd. post de 18 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P882: Infali Soncó e a lenda do Alferes Hermínio (Beja Santos)

Consultar também:

Carlos Bessa - Guiné. Das feitorias isoladas ao 'enclave' unificado. In: Manuel Themudo Baraa e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históira Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores. 2004. 257-270.

João Teixeira Pinto - A ocupação militar da Guiné. Lisboa: Agência Geral das Colónias. 1936.

(3) Extractos de tertúlia dos amigos e camaradas da Guiné:

(...) A termos uma bandeira, será sempre a nossa, a da nossa Pátria (Portugal ou Guiné-Bissau) que cada de um nós amava e ama, à sua maneira. O nosso comportamento, agora como… tertulianos, deve apenas pautar-se por critérios éticos ou valores tais como:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros;

(iii) consagração do blogue (Luís Graça & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada, 1ª série, até Maio de 2005; Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2ª série, a partir de Junho de 2005) como ágora ou como praça pública para a manifestação (aberta, franca, assertiva, leal, serena) dos nossas eventuais críticas e divergências de pontos de vista (se houver roupa suja, discute-se primeiro na caserna...);

(iv) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra colonial/guerra de libertação da Guiné;

(v) carinho e amizade pelo povo da Guiné (que ganhou a guerra mas não ainda a paz) (e vice-versa: idem, pelo povo português, que não se confundia com o regime político de então, como sempre fez questão de lembrar Amílcar Cabral);

(vi) respeito pelo inimigo de ontem (que, sempre o disse, nunca lutou contra o povo português, mas contra um regime político);

(vii) recusa da auto-culpabilização e da responsabilidade colectiva: nenhum povo pode ser culpado, em termos colectivos, pelas decisões e acções da sua elite dirigente, dos seus políticos, do seu Estado;

(viii) não-intromissão na vida política interna da República da Guiné-Bissau, salvaguardado sempre o direito de opinião de cada um de nós, como cidadãos (portugueses, europeus, globais...);

(ix) respeito acima de tudo pela verdade dos factos;

(x) liberdade de pensamento e de expressão... Entre nós não há dogmas nem tabus...

(xi) e, por fim, mas não menos importante, respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor...