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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)


Guiné > Região de Cacheu > Có > C. 1968/7o> Vista aérea

Foto do álbum do Raul Albino (1945-2020), ex-alf mil, CCAÇ2402/BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato 1968/70.

Foto (e legenda) : © Raul Albino (2006)Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Prosseguindo  a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Sinopse dos postes anteriores:

(i) o Luís,  de alcunha o "Beatle",  empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira  a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte  para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v)  no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. 

O tom que ressalta deste livrinho de memórias é irónico, e às vezes pícaro, jocoso e burlesco, a raiar o absurdo. Vêmo-lo em Bolama, outrora capital, ultrapassada por Bissau e em 1972, já completamente decadente. Decididamente não gostava da CUF nem da Casa Gouveia, que para ele são os donos daquilo tudo. 

Após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo,  a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. 

É do cais de Bolama que o Luís e os "có boys" partem para  o seu novo destino, Có, "chão mancanha", via Bissau e João Landim. 

O quartel de Có é igual a muitos outros no CTIG, feitos a pá e pica, com muito suor e alguma da Engenharia Militar (no final da guerra contam-se mais  de 220 aquartelamentos e destacamentos, sem falar nas tabancas em autodefesa).

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Claro, também como muitos outros, era um quartel construído perto de uma povoação. Neste caso, uma tabanca grande, um "reordenamento", recente, construído no âmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", com cerrca de 4 mil habitantes, alguns dos quais (talvez bastantes), tivessem framiliares no "mato", o mesmo é dizer que estavam condenados a jogar com um pau de dois bicos, a acolher os guerrilheiros do PAIGC à noite, e sorrir aos "tugas" durante o dia.

O aquartelamento em si, com 160 camas, não tinha capacidade hoteleira para alojar condignamente duas companhias, os "velhinhos" (CCAÇ 3308) e os "periquitos" (2ª C/ BART 6521/72). 

A parte fraca teve que se "desenrascar", como mandava a tropa, tanto em tempo de paz como de guerra (pp. 67-71). "Onde comer e dormir esta noite ?"... tornou-se durante 3 semanas a preocupação dos pobres "có boys"... 

Os enfermeiros vão ficar na enfermaria, deitados em macas (da II Guerra Mundial)  e numa marquesa (pág. 69). Melhor do que dormir ao relento, debaixo do poilão. 

A 2ª C/ BART 6521/72 tinha seguido  em 290ut72 para Có, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. E,  menos de um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando entregues a si próprios.

E lá ficaria quase até ao fim: em 22Ago7, é substituída por um pelotão da 1ª C/BCAÇ 4615/73 e outro da lª C/BCav 8320/73 e parte para a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso (através dos TAM).

Mas ainda voltando à descrição do "resort" turístico que calhou aos "Có Boys" ficamos a saber mais coisas, através do autor, o Luís da Cruz Ferreira:

(i) a religiosidade cristão já não era grande, a avaliar por alguns indícios: a "casa de Deus" era um mísero telheiro que, fora das horas de serviço, funcionava também como espaço de arrumos; o capelão do batalhão, instalado no Pelundo, vinha de vez em quando fazer uma visita e rezar a missa (se tivesse quórum; se não voltava para o Pelundo, quiçá agastado, não estava para gastar o seu latim);

(ii) eram todos iguais, os "tugas", mas uns mais iguais do que outros,  sempre foi assim desde o início da nacionalidade: os oficiais e sargentos tinham uma"boa  messe" (pág. 65), mas as praças não tinha refeitório, tinham que fazer fila, de marmita na mão, para levar a comida para o abrigo, a caserna ou o mangueiro mais perto;

(iii) a cantinha, acanhada e mal equipada, era de terra batida; havia um jogo de matraquilhos "caça-niqueis";

(iv) a boa notícia é que a grande maioria já  tinha a quarta classe, alguns furriéis o segundo ciclo, e os oficiais, esses, tinham as habilitações que a tropoa exigia: 7º ano ou equivalente, frequência de curso universitário, etc. (pág.66).
 

- 65- 


- 65 . 



- 66 - 


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Crachá da 2ª C/BART 6521/72
(Có, 1972/74)
Pormenor interessante: era uma companhia entregue aos milicianos e às praças do contingente geral (como de resto muitas outras no CTIG).  

Só o 1º sargento, o António José do Ó, era do quadro permanente. 

O comandante era  o cap mil art Américo Licínio Romeiro da Rocha. 

Milicianos também eram os comandantes das outras duas unidades de quadrícula: cap mil cav Cav Casimiro Gomes (1ª companhia, que estava no Pelundo); e cap mil art Luís Carlos Queiroz da Silva Fonseca e cap mil inf  Edmundo Graça de Freitas Gonçalves (3ª companhia, em Jolmete). (Náo registos, na Net, referentes a estes nossos camaradas.)

Para a CCS, foi um oficial SGE, aliás dois, primeiro um capitão e depois um tenente.. Já ninguém aguentava uma comissão inteira!

Os oficiais superiores do comando do batalhão, esses, coitados, lá se iam aguentando,  como podiam, à espera que a guerra acabasse por inércia, como todas as guerras acabam, mesmo até a guerra dos Cem Anos. 

Apesar de tudo o nosso "Beatle" teve sorte: foi colocado em "trabalhos melhorados", no bar de oficiais, e mais tarde no Posto Escolar Militar nº 20. Que isto de andar com "a bolsa de enfermagem do tempo da Segunda Guerra Mundial" não era para um rapaz da Benedita, c0m o 5º ano quase completo e sobretudo experiência e formação em hotelaria e restauração (ramo onde ele hoje é um empresário de sucesso).

Espero vir a poder conhecê-lo pessoalmemte na próxima quarta feira, em Algés, no 63º Convívio da Magnífica  Tabanca da  Linha. Estamos ambos inscritos.



- 67 -

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 59-67)

(Revisão/fixação de texto: LG)
_________________

Notas do editor LG:

Último poste da série > 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27629: Notas de leitura (1884): "As Lágrimas de Aquiles", de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre; Oficina do Livro, 2001 (Mário Beja Santos)

domingo, 21 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27557: Notas de leitura (1876): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VII: A chegada a Có, com a praxe do costume (Luís Graça)


Guiné > Região de Cacheu > Có > c. 1972/74 > Vista parcial do aquartelamento: edifício central (secretaria, messe e enfermaria

Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os Direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


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Crachá da 2ª C/BART 6521/72
(Có, 1972/74)
1. Prosseguindo  a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Com a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís,  de alcunha o "Beatle",  empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça,  é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972). 

Daqui parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972. No CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. O tom que neste livrinho de memórias é irónico, e às vezes burlesco, a raiar o absurdo. Vêmo-lo em Bolama, outrora capital, ultrapassada por Bissau e em 1972, já completamente decadente. Decididamente não gosta da CUF nem da Casa Gouveia, que para ele são os donos daquilo tudo. 

Após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo,  a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. 

É do cais de Bolama que o Luís e os "có boys" partem para  o seu novo destino, Có, "cháo manacanha", via Bissau e João Landim. 


pág. 5

A viagem foi feita de manhã, em LDG (lancha de desembarque grande, da nossa Marinha), aproveitando a maré. 

Chegados a Bissau, foram em coluna para o Cumeré onde pernoitaram. No dia seguinte dirigiram-se para João Landim, para a cambança do rio  Mansoa. Aqui começam a aperceber-se que estão já às portas da guerra. Teoricamente podia viajar.se sem escolta até Mansoa. Mas já não era aconselhável. 

Do outro lado do rio, estavam já os "velhinhos" que os iriam escoltar até Có, a 25 km dali, Foram precisas 3 viagens da jangada para transportaer os 160 homens, as suas bagagens e as suas viaturas (Berliets e outros veículos).



pp. 60/61




Luís da Cruz Ferreira 
(n. 1950,
Benedita, Alcobaça). 
É membro da Magnífica 
Tabanca da Linha. 
E vai aceitar, por certo,  o
 nosso convite para se sentar, 
connosco,
à sombra do poilão 
da Tabanca Grande

Demorou cerca de 1 hora a cambança do rio. A coluna prosseguiu até Có, sem problemas de maior. Â chegada ao quartel, tiveram una "apoteótica receção". Os "velhinhos" tinham um grande números de miúdos da tabanca que, a troco de uma coca-cola, se dispuseram a cantar em coro, a plenos pulmões, o clássico hino de bons vindas à "periquitagem":


"Periquito vai no mato,,,olé, lé, lé.
a velhice vai nos Lisboa... olaria, ló, lé".


Enfim, um filme que se repetia em toda Guiné, na rendição de tropas. entre "periquitos" e "velhinhos".

Antes de uma primeira descrição do quartel, o autor fala-nos da tabanca de Có:

"A aldeia de Có era um aglomerado artificial que foi 
projetado e executado pelas forças armadas portuguesas, através do programaa de reordenamento posto em prática no tempo do general António Spínola (...)"


Com cerca de 4 mil habitantes, predominava a etnia Mancanha, tinha um posto escolar miliar (PEM nº 20), onde era minitrado o ensino primária: havia um "profesor de raça branca" para a 3ª e 4ª classes, e três professores civis, jovens, de raça negra".

Além disso, "tinha um posto médico. Não tinha mercearia nem taberna"(sic). Os habitantes "viviam na sustentabilidade possível com os produtos que ainda granjeavam" (pp. 63/64).


Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pp. 59-63

(Contimua)



Guiné >  Região de Cacheu > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil)  > Posição relativa de Rio Mansoa, Pelundo Jolmete e Có.

Infografia: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné (2025)

(Revisão / fixação de texto: LG)
_________________

Notas do editor LG:

Último poste anterior da série : 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27469: Notas de leitura (1867): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte V: a IAO em Bolama: "Eh, pá, estás morto!... Atira-te para o chão, que estás morto!" (Luís Graça)



Luís da Cruz Ferreira 


1. Continuando a leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)


Com a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972).

Daqui parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972 (*)

Em 11 páginas (pp. 48-59) descreve a sua estadia em Bolama, em cujo CIM iria fazer a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. O tom que adota continua a ser irónico, e às vezes burlesco, a raiar o absurdo.

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Crachá da 2ª C/BART 6521/72
(Có, 1972/74)
"O tempo que me faltava para terminar a minha comissão era tanto que para mim ainda não tinha começado a contar" (pág.56).

Em quatro pincelaas, descreve Bolama, "capital abandonada", "uma cidade de recordações de postais
desbotados" (pág.48).

O batalhão "estava aquartelado nos antigos armazéns da Casa Gouveia, que ficavam  perto do cais e pertenciam ao grupo CUF" (pág. 49),  o "dono" daquilo tudo:

 "Eram edifícios altos, cobertos de telha e sem forro, onde à noite (...) éramos armazendos em pilhas de colchões, em beliches quádruplos" (pp. 49/50)... 

De tudo o que restava do passado colonial (hospital, câmara municipal, hotel, vivendas de estilo colonial...), "a piscina era a que estava em melhores condições; estava cheia, a água era limpa e tinha um bar de apoio com muitas cervejas" (pp. 50/51).

Nas restantes páginas (pp. 52-59), fala-nos da IAO, que nada teve de empolgante, a não ser a chuva... e o quase-acidente de que foi vítima numa brincadeira estúpida, a finalizar a famigerada "semana de campo". Vale a pena reproduzir aqui os excertos correspondentes a essa cena burlewsca (pp. 56-58).








 Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pp. 56-58.

Acabou-se o "recreio", mas a passagem dos "Có Boys" por Bolama (um mês, em outubro de 1972, ) "acabou por ser o melhor tempo que se passou na Guiné", confessa o autor (pág. 54).

Após a realização da IAO, no CIM, em Bolama,  a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo,  a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. 


Último poste da série "Notas de leitura" > 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27460: Notas de leitura (1866): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27333: Notas de leitura (1853): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte IV: de Figo Maduro a Bissalanca "by air", e depois de LDG até Bolama para a estopada da IAO (Luís Graça)




Guiné > Zona Oeste >  Região do Cacheu , Có > 2ª C/BART 6521/72 (1972/74) > Messe da caserna do 2º pelotão. O autor em primeiro plano à direita. (Foto, com devida vénia, retirada da pág. 135 e reeditada por LG).



Crachá da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74)


Capa do livro 

1. Continuando a leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) 
(ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto:  J. Pinto de Carvalho.)


Com a especialidade de auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5,  Penafiel (jun / set 1972). 

No seu livro de memórias (elaborado sem recurso a fontes em papel), ele começa por perguntar como se formara aquele batalhão. 

O Luís, chegado a Penafiel, com mais dois camaradas que vieram com ele do quartel da Carregueira, Sintra,  não conhecia mais ninguém. Os três, munidos da respetiva "guia de marcha", acabavam de se apresentar de manhã no RAL 5, a unidade mobilizadora do seu batalhão. 

Chegaram às 3h00 da manhã. Tinham saído da Carregueira  às 11h00 do dia anterior, num dia de junho de 1972. Claro, aproveitaram para pôr o sono em dia, até ao toque de alvorada.  A cama foi improvisada: foram as pedras da calçada, com o saco da roupa a servir de travesseiro.

(pág. 39)


Achámos piada ao termo da gíria de caserna, "atiruense", forma engraçada mas irónica de designar, afinal,  a grande maioria dos militares que iam para o CTIG. Em 1969/71, eram também conhecidos como "amanuenses de gatilho",  enfim a derradeira especialidade que o diabo quereria ter ali, naquele "cu de Judas", a Guiné (hoje, Guiné-Bissau). 

Por outro lado, repare-se na observação sobre o médico e os quatro auxiliares de enfermeiro que em princípio deveriam seguir na 2ª C/BART 6521/72. 

 Médico não havia, e dos quatro 1ºs cabos da secção sanitária só seguia o Luis e o Faleiro. A solução "ad hoc" encontrada,  mais tarde, chegados a Có, foi fazer dois auxiliares de enfermeiro, "de aviário", à pressa, para suprir as faltas. 

Enfim, mais um exemplo do "desenrascanço" à portuguesa (pág. 40).

Estava-se, de resto, numa época em que já ninguém  ligava à qualidade, mas à quantidade. Um país pequeno, com menos de 9 milhões de habitantes e forte emigração (um milhão e meio de portugueses, sobretudo jovens, vão sair de Portugal no período da guerra colonial, entre 1960 e 1975), e que já de si tinha fraca capacidade de recrutamento.

E a prova estava ali, o Luís vai conhecer os seus novos camaradas, os militares da 2ª C/BART  6521/72. Verifica que só tem um militar profissional, em 160 homens: é um graduado do QP (Quadro Permanente), o 1º srgt  António José do Ó, e que era de todos obviamente o mais velho (e respeitado, acrescente-se). 

Era o único, afinal, "que sabia das coisas da tropa" (pág. 42).

A maioria dos militares eram jovens, na casa dos 21/22/23 anos. O capitão nem sequer era do QP, era um miliciano,  com mais cinco ou seis anos do que os restantes. Todos, ao fim ao cabo, iam mal preparados (e por certo contrariados) para aquela guerra e aquele território, do capitão aos quatro alferes, dos furriéis aos cabos. 

Foram de autocarro, de noite, a caminho do aeroporto militar de Figo Maduro, em Lisboa. Para o autor, só podia ser intencional, por parte do exército, a opção pela viagem de noite.  Quase furtiva. "Iam acabrunhados nos seus bancos. antevendo as posições futuras nos seus abrigos de guerra na Guiné" (pág. 43).  Fizeram uma pausa em Pombal, na bomba de gasolina, para a malta se "aliviar". (Ainda não se falava em "áreas de serviço", e a estrada nacional nº 1 era um pesadelo.)

Foi a primeira viagem de avião que o autor fez na vida. Aqueles de nós que foram de barco para a Guiné,  não sabem, naturalmente, "o que perderam"... Em meia dúzia de linhas,  o Luís descreve, com um leve toque de ironia,  o ambiente que viveu nesse já longínquo dia 22 de setembro de 1973, por sinal uma sexta-feira.  Nem sequer iam de camuflado, levavam o uniforme de passeio, mais cinzento e discreto.

(pág. 449

O saco ou mala de viagem não podia ultrapassar os 25 kg. Lá teve que se desembaraçar de alguns livros, uma navalha de marinheiro e uma faca de mato. Em contrapartida, teve a sorte de viajar junto à janela. E, por pouco tempo embora,  conseguir desviar o seu pensamento, o "de que estava a caminho do mais perigoso palco de guerra que o nosso governo nos conseguira arranjar"  (pág. 45).

A meio da viagem , os passageiros especiais daquele Boeing 707 recebem ordens para despirem "o blusão de burel", que serviria para o próximo "desafortunado"  ou iria parar à Feira da Ladra.

A bordo teve direito a um copo de água.

A título de curiosidade, ficamos a saber que os dois Boeing 707 dos TAM, encomendados em 1970 e entregues em finais de 1971, "transportaram nos 3 anos seguintes cerca de 318 mil passageiros do Exército (78%), Marinha (7%) e Força Aérea (15%), além de muitas toneladas de carga. sem que tenham falhado uma missão". Uma história exemplar, os TAM, ao que parece.

Mas o Luís é sincero, quando  escreve, fazendo o resumo dessa viagem, nos TAM, que o pôs no mesmo dia à porta da guerra;

(...) "Gostei da sensação que senti quando o Boeing, de bico empinado, começou a ganhar altitude. (...) Gostei de me sentir por cima das nuvens (...). A viagem decorreu dentro daquilo que julgo ser normal; por mim, não tenho nada a assinalar e gostei tanto que estava prontinho para no mesmo avião fazer a viagem de regresso!" (...) (pág. 45).

Julgo que o Luís interpretava bem o estado de espírito dos restantes passageiros. Ia a "guerra do ultramar" no seu 11º ano...

Na chegada a Bissalanca, e com a abertura das portas da aeronave, o Luís não levou a tempo a dar-se conta de que estava nos trópicos: "entrou um bafo de tal modo quente que, de imediato, começámos a transpirar e a sentir o incómodo que nos iria acompnhar ao longo de dois anos - o tempo que durou a nossa comissão de serviço na Guiné" (pág. 46).

Além desta sensação de calor e humidade extremos,  que todos experimentámos à chegada a Bissau, o Luís dá conta de uma segunda experiência sensorial, "a intensidade dos odores da terra que resulta  das fortes chuvadas sobre os solos sobreaquecidos" (pág. 46).

Foi tudo muito rápido. e já temos os recém-chegados a caminho do Cumeré,  a 30 km a sudeste de Bissalanca. Com o batalhão completo, lá seguiriam,  três dias depois, em LDG, a caminho de Bolama para mais um período de instrução e de adaptação, a IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional)... Enfim, estações do calvário por que todos (ou quase todos) tivemos que passar.

Sentado no chão da LDG, em cima dos seus pertences, o Luís faz um trocadilho que diz muito do estado de espírito daqueles jovens a caminho de um futuro incerto, e longe de pensar que a guerra teria um fim um ano e meio depois:

 (...) "saboreando as primeiras gotas de um fel que nenhum de nós na metrópole saboreara, ante os sonhos justos e devidos de mel que os jovens  (...) de 20 anos esperavam "(pág. 47).

Quatro horas de depois, de noite, "em mar chão e a maré cheia" (pág.47),  chegam a Bolama através do grande canal do Geba.

Vale a pena acompanhar a leitura deste livrinho, singelo e serôdio, mas nem por isso menos interessante (pela capacidade de ajudar a reavivar as nossas próprias memórias da tropa e da guerrra: "Os Có Boys: nos trilhos da memória".

(Continua)


Luís da Cruz Ferreira (n. 1950, Benedita, Alcobaça). 
É membro da Magnífica Tabanca da Linha. 
E esperemos que aceite o nosso convite para se sentar, connosco,
à sombra do poilão da Tabanca Grande

  • nasceu em 2 de março de 1950, mas só  foi registado  seis meses depois, em 4 de outubro;
  • de alcunha o "Beatle", quando jovem;
  • profissionalmente já estava ligado à restauração, antes de ir para a tropa,  tendo trabalhado em diversos estabelecimentos conhecidos da Linha, e nomeadamente em Cascais, a começar pelo famoso  Muchaxo (Guincho).
  • foi trabalhador-estudante;
  • na tropa e na guerra, foi 1º cabo aux enf, tendo sido mobilizado para o CTIG, integrado na 2ª C /BART 6521/72 (Có 1972/74);
  • o  batalhão estava sediado no Pelundo; regressaram a  casa já em finais de agosto de 1974;

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27326: Notas de leitura (1852): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (2) (Mário Beja Santos)



terça-feira, 14 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27315: Notas de leitura (1851): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte III: de Leiria a Coimbra, e da Carregueira a Penafiel, a caminho do CTIG (Luís Graça)



Crachá da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74)


Luís da Cruz Ferreira (n. 1950, Benedita, Alcobaça)


1. Continuando a leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) 
(ISBN 978-989 -33.7982-0) (*).

Oriundo co contingente geral, vamos encontrá-lo na recruta, no RI 7, Leiria, 4º turno de 1971 (out/dez 1971).

Fará depois a especialidade de auxilitar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972)

Irá de seguida  formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5,  Penafiel (jun / set 1972). 

Daí partirá, de autocarro, em 22 de setembro de 1972, de noite, para o aeroporto militar de Figo Maduro,em Lisboa.  Embarcará num Boeing 707 para Bissau, onde chega no dia 26/9/1972 (uma pequena divergència quanto à data de chegada ao CTIG).

O exército levava quase um ano a formar um militar que depois seguia para o ultramar (Angola, Guiné ou Moçambique), em rendição individual, ou integrado num contingente. 

As suas observações críticas  (mesmo que "anedóticas"...) sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte. O livro foi destinado, antes de mais, aos camaradas da sua subunidade,  tendo sido publicado (a 1ª edição) para comemorar, em 2/8/2024,  os 50 anos do regresso da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74).

Com 11 anos de guerra, em Angola e 9 na Guiné e em Moçambique, o serviço militar obrigatório era vista, pelos jovens portugueses de então, como um tempo completamente perdido das suas vidas, que se podia prolongar por 3 ou mais anos. Muitos desses jovens já tinham saído das suas famílias, trabalhando ou continuando a estudar fora das suas terras.

A qualidade da instrução militar (recruta e especialidade) ressentia-se da necessidade, sobretudo do Exército, em mobilizar e preparar rapidamente dezenas de milhares de jovens para um conflito de longa duração, a milhares de quilómetros de casa e  de baixa popularidade. Técnica, tática, física e culturalmente, os militares portugueses iam mal preparados para  uma guerra dita de contra-guerrilha (ou "contra-subversão"), num terreno difícil, de clima tropical.



Capa do livro 


2.  Luís da Cruz Ferreira é natural da Benedita, Alcobaça. Nasceu em 2 de março de 1950, mas só  foi registado  seis meses depois, em 4 de outubro. 

De alcunha o "Beatle", quando jovem, profissionalmente já estava ligado à restauração, tendo trabalhado em diversos estabelecimentos conhecidos da Linha, e nomeadamente em Cascais, a começar pelo famoso  Muchaxo (Guincho).

Na tropa e na guerra, foi 1º cabo aux enf, tendo sido mobilizado para o CTIG, integrado na 2ª C /BART 6521/72 (Có 1972/74). O batalhão estava sediado no Pelundo. Também foram dos últimos soldados do Império, tendo regressado a casa já em finais de  agosto de 1974. 

Antes da suas relativamente tranquilas  "peripécias" da Guiné (onde acabará pro ser sobretudo professor do Posto Escolar Militar nº 20, em Có), vamo ver o que ele nos conta sobre o seu tempo de recruta e instrução de especialidade, bem como de formação de batalhão. (Em Bolama, o batalhão haveria ainda de fazer, durante mais de um mês, a sua IAO -  Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, antes de ser colocado na zona oeste,  Sector 07, com sede em Pelundo e abrangendo os subsectores de Có, Jolmete e Pelundo.)

Comecemos pela distribuição do fardamento no RI 7, em Leiria;
 

Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 9.


Num quartel gigantesco (que albergaria, segundo autor,  c. 1500 homens, um regimento), ficou aboletado  numa caserna para 30 recrutas, com camas duplas, em beliche. Tocou-lhe o 1º andar. Tinha direito a um cacifo com o respetivo cadeado. 

Em Leiria, um quarto dos recrutas do contingente geral eram cooptados para o CSM (Curso de Sargentos Milicianos). Com três disciplinas que lhe faltavam para acabar o 5º ano do liceu,  o jovem recruta, com 21 anos e 6 meses de idade (ou só 21 anos, segundo o registo civil), tinha algumas esperanças de ser um dos "eleitos"... Não o foi, alegadamente por não ter nenhuma "cunha",  revoltou-se mas depressa se resignou, a viver naquele espaço "onde tudo quanto mexia, (...) era de cor verde" (pág. 11).

Visto por um "extraterrestre", aquele era um espaço de segregação, destinado apenas a homens,  "onde não havia mulheres" (pág. 11), e onde esses homens,  com postos hierárquicos bem diferenciados, tinham de se saudar uns aos outros, quando se cruzavam:



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 11


Lembra os instrutores (cabos milicianos, furriéis, aspirantes...) que o tratavam com uma inesperada e desnecessária "rudeza". A instrução era dada "em passo de corrida". E havia a ideia de que um homem só era homem depois de ter ido à tropa, e de ter suportado, ci,m sucesso,  muitas privações, contrariedades, humilhações, afinal "demonstrações de coragem, destemor e capacidade  de sofrimento, além de muitas outras coisas inúteis" (pág. 11).



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (ediçáo de autor, 2025), pág. 12


Havia "palestras" ou aulas ao ar livre. Mas o mais importante era o "exercício prático", com a omnipresente companhia da inseparável G3. Recorda a "ida à carreiro de tiro de Marrazes", onde cada recruta fez tiro a 100 metros, em várias posições, gastando cada um carregador de 20 balas... 

Equipara o RI 7 a uma "prisão", onde escasseavam os apoios sociais..Com tanta gente, beber um café na cantina, foi coisa que nunca conseguiu, e que muita falta lhe fazia. Estava habituado, na vida civil, a tomar, depois do almoço e do jantar, o seu "Tofa 404 e, mais tarde, o 505 embalado em vácuo" (pág, 13). Tal como era difícil comprar cigarros. Ir à cidade eram 2 km.  Com o tempo ameno, nesse outono de 1971,  ainda chegou a lá ir e ver nas esplanadas algumas meninas da sua terra, Benedita, Alcobaça, que estavam a tirar o curso do magistério primário. Capital de distrito, Leiria também tinha liceu.

Relembra ainda a semana de campo nas "matas de São Pedro de Moel" e "a tenda de quatro panos" que  ele e mais 3 recrutas montaram.  Passou o tempo doente, de amigdalite, na tenda, e de tal maneira que passou a odiar o campismo para o resto da vida.

Depois do juramento de bandeira, na parada do quartel, ficou a saber que lhe tinha calhado em sorte ir para Coimbra "tirar a especialidade de enfermeiro" (pág, 17).

De Coimbra, onde o colchão já era de espuma (em Leiria era de palha...), não guarda boas recordações da tropa, e muito menos do "rancho": tratavam os futuros enfermeiros "como presidiários com algumas precárias pelo meio para lavarmos a roupa que tínhamos bem suja à custa de nos fazerem ajoelhar, chafurdando nas terras enlameadas" (pág. 21).

Os transportes na época eram um pesadelo. Eram escassos, morosos e caros. Pouca gente ainda tinha carro. Aprendeu a andar à boleia, na estrada nacional nº 1. O célebre restaurante "O Bigodes", aberto 24 horas por dia, era paragem obrigatória, quer de camionistas quer dos militares que andavam à boleia. (Ainda hoje existe, IC2 / N 1 Km 81, 2475-034 Benedita),.

Um dia apanhou boleia até à Figueira da Foz, onde chegou às cinco da manhã. O comboio para Coimbra era só às sete. Com medo de chegar tarde à formatura, teve de ir de táxi, viagem que lhe custou uma pequena fortuna, 150 $00, o equivalente a 10 jantares (ou a 42 euros, a preços de hoje).

Comia-se tão mal no quartel, que era um antigo convento (e depois instalaçpes do RI 12 e, a oartir de 1965, do Regtimento do), que o Luís e um colega decidiram fazer, mesmo sem estarem desarranchados, as suas refeições por conta própria.

Quanto ao que aprendeu em Coimbra, 
entre janeiro e maio de 1972, foi muito pouco. E também ali não se falava do "conflito do ultramar"...



Fonte: Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pág. 25


Passou ainda pelo Hospital Militar Principal (HMP) na Estrela, em Lisboa, e pelo quartel da Carregueira. Ainda conseguiu fazer mais um disciplina do 5º ano, o inglês, faltando-lhe agora duas: fisico-químicas e matemática.

É pena que, passado mais de meio século, sobre o seu tempo de instrução de especialidade, em Coimbre e depois no HMP, à Estrela, haja poucas referências ao que ali aprendeu. Diz-nos apenas que foi pura perda de tempo. Mesmo assim, da sua passagem pelo "serviço de cirurgia plástica" do HMP, diz-nos que "através de observação, aprendi alguma coisa, não muito" (pag. 27).

Sabemos que o curso de especialidade para 1º cabo auxiliar de enfermeiro,   ministrado apenas em Coimbra, no Regimento do Serviço de Saúde (criado em 1965, poara responder às necessidades de pessoal sanitário nos 3 teatros de operaçóes. Os futuros furriéis enfermeiros, esses, tiravam a especialidade em Lisboa, no antigo quartel de Campo de Ourique,  onde  funciona a Escola do Serviço de Saúde Militar, a ESSM). 

O conteúdo era sobretudo prático,  devendo compreer matérias como: (i) noções básicas de anatomia e fisiologia; (ii) higiene e profilaxia de doenças tropicais (paludismo, disenterias, infecções cutâneas); (iiii) técnicas de enfermagem geral (curativos, injeções, soros, etc.); (iv) socorrismo em combate (estancar hemorragias, imobilizações, transporte de feridos, reanimação); (v) administração de medicamentos de rotina (quinino, cloroquina, antibióticos comuns); (vi) evacuação sanitária e triagem.

Portanto, o Luís deve ter recebido uma formação intermédia entre o socorrista civil e o enfermeiro profissional, com forte ênfase na autonomia e na  improvisação em condições adversas (recorde-se  que, na Guiné, tanto o furriel enfermeiro como o alferes médico, ambos milicianos, raramente saíam para o mato, sendo cada vez afetos, no tempo do gen António Spínola, aos serviços de saúde da província, prestando cuidados primários (e secundários) não só aos militares como à população civil.) (Os casos mais graves careciam de evacuação para o HM 241, em Bissau.)




Guiné > Zona Leste > Região de Gabu >  Nova Lamego > 1973 > CCS/ BART 6523 (Nova Lamego, 1973/1974)  > O 1.º cabo aux enf Alfredo Dinis, a "tratar de graves queimaduras do Filipe, resultantes da explosão de um gerador de energia, no quartel".

Foto do álbum de Alfredo Dinis (já falecido) – P6060, com a devida vénia. Ver, também, "Memórias de Gabú (José Saúde): Recordando o saudoso enfermeiro Dinis" – P14106.


E entramos na reta final, que foi o RAL 5, em Penafiel, distrito do Porto, onde se foi juntar ao BART 6521/72, que estava em formação. De Penafiel até tem boas recordações, mas não dos transportes para lá se chegar na época. Eram 3 enfermeiros que sairam da Carregueira com destino  a Penafiel:

(i) "por  volta das 11 horas meteram-nos numa camioneta de carga que era utilizada para fazer a ligação  entre o quartel e a estação do Cacém e lá nos largaram" (pág. 34);

(ii) em Braço de Prata, informaram-nos que tinham um comboio-correio para o Porto às 15h00, mas parava em todas as estações e apeadeiros;

(iii) chegaram ao Porto, Campanhã, seis horas e meia depois, às 21h3o;
 
(iv) foram dar um giro pelos arredores e "comer um bom bife com batas fritas a um preço acessível", mas acabando por perder o comboio da meia-noite;

(v) apanharam o das 2h00, chegaram a Penafiel às 3h00;

(vi) extremamente cansados, pousaram os sacos no chão, a servir de almofada,  e assim se ajeitaram para retemperar as forças, só despertando ao toque do corneteiro a anunciar a alvorada.

A manhã começaria com a azáfama própria de um quartel de mobilização de tropas para o ultramar. Nesse mesmo dia conheceu o seu futuro comandante, um jovem capitão miliciano, bem como o alferes, também miliciano, do seu pelotão.  Ficou então a saber que "pertencia ao 2º pelotão da 2ª companhia do Batalhão de Artilharia nº 6521" (pág. 38) (**).

(Continua)

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