sábado, 24 de maio de 2008

Guiné 63/74 - P2881: Estórias de Jorge Picado (2): Cutia, I Parte (Jorge Picado)


Jorge Picado,
ex-Cap Mil,
CCAÇ 2589 e CART 2732,
Guiné 1970/72


1. Em 15 de Maio de 2008, recebemos de Jorge Picado a seguinte mensagem



Caro Carlos:

Envio-te um texto sobre o Destacamento de Cutia que se julgares ter interesse para o blogue publica. Intitulei-o como Parte I, já que tinha a intenção de mandar uma Parte II com a descrição do sucedido na coluna que se seguiu ao Natal e na qual deparámos com as marcas do que nos teria sucedido se a coluna se tivesse realizado no dia anterior. Esta ideia germinou, depois do César Dias me ter enviado 2 Fotos de Cutia.


2. Destacamento de Cutia (Parte I)

Depois de contar ao Carlos Vinhal algumas das recordações que mantenho da minha passagem pela CART 2732, para que ele se convencesse que também me teve de aturar por Cmdt, comecei a congeminar a ideia de dizer algo sobre a estadia neste pequeno Destacamento a NE de Mansoa, até porque possuo 2 fotos (a preto e branco e em não muito bom estado) desse período.

Entretanto como o César Dias teve a gentileza de me mandar também 2 fotos, mas coloridas e em muito melhor estado, uma muito semelhante a uma das minhas, mas tirada de outra posição e com um camarada que não sei quem é, decidi mesmo escrevinhar sobre Cutia.

Cutia era o nome duma povoação de tipo indígena dispersa com 10 a 50 casas, segundo a Carta da Guiné publicada pela extinta Junta de Investigação do Ultramar (levantamento efectuado em 1954), a cerca de 1km a Oeste da estrada Mansoa-Mansabá.

Praticamente junto da estrada, existia, no antigamente, uma Serração.

A Cutia do nosso tempo, onde foi colocado um Destacamento, foi edificada mesmo na dita estrada, no local mais elevado desta, junto dum vértice geodésico de 2.ª com a altitude de 37m (Maru), de coordenadas aproximadas, Long 15º 14´ Oeste e Lat 12º 10´ Norte, a cerca de 14,5 km de Mansoa e 15,5km de Mansabá, distando cerca de 1km da antiga Serração e cerca de 4,5 km do limite Norte do concelho.

A imagem que guardo, quanto ao digamos aglomerado populacional é de que era muito pequeno e as habitações eram mais semelhantes às nativas – como aliás é visível numa das fotos colorida do César – sendo também destinadas às tropas e respectivas famílias africanas.

Encontrava-se no meio ou melhor dizendo entalada entre 2 das mais importantes zonas IN, o OIO/MORÉS a Oeste e o SARA/CANJAMBARI a Este, zonas estas que naquela época eram ZI (Zonas de Intervenção do ComChefe), havendo um importante corredor de comunicação entre elas algures entre 2,5 a 5km a Norte (de Mandingará perto do Rolom, a Este e Tambato, Talicó e Santambato a Oeste, já na floresta densa do OIO/MORÉS). Presumo que também houvesse comunicações entre estas zonas mais a Sul, aí a meio caminho entre Mansoa e Cutia (via Gã Farã a Oeste e Olom a Este), mas não tenho elementos que me garantam esta ideia.

Este Destacamento era atravessado pela estrada alcatroada Mansoa-Mansabá, como se pode observar na foto já mencionada do César, havendo mesmo postos de sentinela nos 2 extremos da estrada.

As instalações militares encontravam-se do lado Oeste da estrada, constituídas por abrigo enterrado encimado por uma torre, tendo ao lado as instalações sanitárias, quase a céu aberto e tudo isto rodeado por bidões cheios de terra e talvez também cimento, uns à superfície outros meio enterrados, formando uma pseudo muralha e mais à distância o tradicional arame farpado semeado de latas e garrafas vazias – para servir de aparelhagem sonora – a que se seguia a zona minada ou armadilhada. Junto das grandes e frondosas árvores que ladeavam em parte a estrada ficava a respectiva cozinha e mesas da messe geral.

Do lado Este ficavam as moranças da população, que como já disse não era muito numerosa, e dos soldados africanos acompanhados da respectiva família, também com cerca de arame farpado e respectiva segurança de armadilhas. As 2 fotos do César mostram um aspecto de algumas destas moranças.

Numa das minhas fotos (preto e branco), tirada da estrada para o fortim, que me apanhou pouco depois de ter de lá saído pode-se observar:

a) uma cortina de arvoredo continuo, em último plano, que era a bordadura da densa floresta do Morés;

b) a zona desmatada que vinha até às construções, semeada com umas árvores mais ou menos dispersas e, alguns tufos de bananeiras já nas proximidades e dentro da zona do arame farpado que delimitava todo o Dest e aldeamento;

c) pode-se mesmo observar alguns postes que suportam o arame farpado onde, como disse, tinham sido penduradas latas e garrafas vazias de cerveja e refrigerantes e tudo o mais que pudesse fazer barulho quando agitado, para chamar a atenção e aumentar os meios de segurança;

d) vêem-se depois as filas de bidões, uns à esquerda mais próximos das construções e outros à direita mais afastados e menos visíveis, dado o desnível do terreno;

e) das construções, praticamente enterradas assemelhando-se a bunkers, sobressai a torre, no cimo da qual, internamente, havia um patamar onde durante a noite, julgo que duas sentinelas faziam os respectivos quartos, observando pelas frestas a toda a volta a área envolvente. Dada a sua posição elevada, dominavam uma área maior e mais longínqua do que as restantes sentinelas que ocupavam posições ao nível do solo. Junto à torre é visível a antena das transmissões. Á direita desta torre pode-se ver uma das entradas, coberta por uma placa inclinada, para os alojamentos do pessoal, com a altura pouco superior ao dum adulto e também com frestas para o lado Oeste, que do lado de fora não chegavam a ficar a 50cm do nível do solo. A cobertura era uma placa de cimento aí com os seus 20 ou mais cm assente em paredes feitas de blocos de cimento;

f) o espaço interior, acanhado, estava subdividido em três áreas, já que sensivelmente a meio, em correspondência com a torre, havia uma pequena divisória formada por duas meias paredes, sem porta, onde estava colocada uma cama de ferro individual para o Alferes e o respectivo posto de transmissões, ocupando os Furriéis e os restantes elementos as duas outras áreas. Com a minha chegada, ocupei o pseudo quarto do comando, tendo os Alferes de se deslocar para junto dos restantes elementos, que ficaram todos muito mais apertados, com as camas de ferro transformadas em beliches e quase juntas;

g) à minha esquerda, porque o único militar que se vê sou eu, e junto duns pés de bananeiras, estão as instalações sanitárias, o quarto de banho com a respectiva latrina mais ao lado. Esta era do tipo de guerra, isto é, uma vala no terreno com duas tábuas em cima, em que o pessoal, de cócoras, ia fazendo as suas necessidades e depois iam-se deitando umas pazadas de terra – porque julgo não havia cal – para tapar. Um balde com um ralo, para servir de chuveiro e um espelho pendurado, num dos cibes que suportavam as folhas de zinco que constituíam a cobertura, para ver a cara e fazer a barba.

Na foto colorida do César são igualmente visíveis algumas das características que aponto.

A segurança do destacamento era mantida de duas maneiras: a afastada e a próxima.

No que se refere à segurança afastada, realizavam-se patrulhamentos nas cercanias, em todas as direcções, bem como se montavam emboscadas nos locais mais propícios de ataques, além daquelas que se montavam mais a Norte na zona de passagem, carreiro como lhe chamávamos. Mas todas estas acções sem uma periodicidade definida, para não criar rotinas, eram decididas duma forma aleatória e sempre na hora de execução, ao critério do Cmdt, talvez as do carreiro mais por ordem do BCAÇ 2885. Todo este procedimento tinha por objectivo fornecer o mínimo de elementos ao IN, para não ser ele a surpreender-nos.

Na segurança próxima contava-se, claro, os tradicionais postos de sentinelas e autodefesa, bem como os campos de minas e armadilhas. Havia também uma rede de trincheiras, não na totalidade do perímetro creio eu.

Na minha outra foto, tirada na tarde do dia de Natal de 1970, encontro-me encostado ao tronco duma das árvores da berma da estrada junto duma viatura com bidões de água, perto da cozinha, cercado por 4 mulheres de soldados africanos que, juntamente com o Alf Simeão – Cmdt do Pel Caç Nat 61 – tentam sacar-me mais uns pesos para adquirirem mais vinho para as suas celebrações. O seu estado já era um tanto eufórico, posso garantir pois com o gesto da mão direita queria transmitir-lhes que já estavam atestadas até à garganta, mas queriam ainda mais cana. Já tinha contribuído logo pela manhã para o almoço deles e, agora, evitava fazê-lo novamente com receio de aumentar o grau de embriaguez e daí resultar qualquer desordem. É bom lembrar que esta era uma data propícia para ataques ou simples flagelações aos aquartelamentos, daí a necessidade de haver mais cautelas com o estado do pessoal.

Numa próxima etapa descreverei o que se passou nos 2 dias seguintes.
Jorge Picado



Foto 1> Destacamento de Cutia visto por Jorge Picado


Foto 2> Destacamento de Cutia visto por César Dias


Foto 3> Aglomerado populacional de Cutia. Pelo meio passa a estrada Mansoa-Mansabá


Foto 4> O Capitão Jorge Picado cercado por mulheres que lhe tentam sacar uns pesos para vinho. Ele diz-lhes que elas já estão cheias até cima


Fotos a cores: © César Dias (2008). Direitos reservados.

Fotos a preto e branco: © Jorge Picado (2008). Direitos reservados.

Fixação do texto: CV

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Vd. poste da série de 3 de Maio de 2008> Guiné 63/74 - P2807: Estórias de Jorge Picado (1): A emboscada do Infandre vivida pelo CMDT da CCAÇ 2589 (Jorge Picado)

Guiné 63/74 - P2880: Memória dos Lugares (7): Missirá, Cuor, região de Bafatá, 2006 (Jales Moreira / Beja Santos)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > Cuor > Missirá > A povoção de Missirá em 2006.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cuor > Missirá > Pel Caç Nat 52 (1968/69) > A mesquita de Missirá, no tempo em que o Alf Mil Beja Santos esteve a comandar este destacamento e esta povoação (1)...

Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados.


1. Mensagem de do Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70):

"Em 2006, o tenente-coronel Henrique Jales Moreira, 2º comandante do BArt 3873 (penúltima unidade militar em Bambadinca, até ao início de 1974), com a sua mulher, Maria Teresa, visitaram o Cuor e foram até Missirá.

"Vemos aqui Maria Teresa na companhia das viúvas de Quebá Soncó, primogénito do régulo Malã Soncó.

"Ao fundo, com tecto em chapa, a mesquita, que vem do meu tempo. Houve um grande desbaste neste perímetro, mas esta era a parada do aquartelamento/povoação, este chão pode falar pelo sangue derramado, casas incendiadas, de 1966 em diante, muito sofrimento, nem sempre contido. Para que conste" (BS).


Foto: © Jales Moreira / Beja Santos (2008). Direitos reservados.


2. Comentário de L.G.:

O tenente-coronel de artilharia na situação de reforma Jales Moreira (que é do mesmo curso do Cor Art Ref Coutinho e Lima) teve a gentileza de me convidar, na qualidade de fundador e editor do blogue, e antigo residente em Bambadinca (CCAÇ 12, 1969/71), para estar presente no próximo convívio do seu BART 3873, o que infelizmente não me vai ser possível por total indisponibilidade na data em causa.

Aqui ficam no entanto o anúncio do encontro, que nos chegou através do nosso camarada Jorge Santos, com votos de uma boa jornada de convívio e confraternização para todos os nossos camaradas:

BART 3873
Guiné, Bambadinca, 1971/1973


Dia 31 de Maio realiza-se o 20º Convívio na Quinta da Mariazinha – PAMPILHOSA DO BOTÃO (Mealhada), com concentração pelas 11H30 no local.

Contactos:

Edgar Soares > 232 437 542 – 965 062 520
Henrique Moreira > 218 403 343 – 914 345 148


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Nota de L.G.:

(1) Vd. poste anterior desta série:

27 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2486: Memória dos lugares (5): Bambadinca, 2006 (Rui Fernandes / Virgínio Briote)

Guiné 63/74 - P2879: Blogoterapia (53): Falar da Guiné (e... de Matosinhos) e verter lágrimas, faz bem (Jorge Félix / Carlos Vinhal)

1. No dia 21 de Maio de 2008, recebemos do nosso camarada Jorge Félix, pertencente à nossa Tabanca de Matosinhos, a seguinte mensagem:


Caro Luis:

Obrigado pelo esclarecimento do voo nocturno/evacuações nocturnas. Estamos em 2008 a contar estas coisas....

Junto duas fotos do encontro do Norte (1) do pessoal que combateu na Guiné-Bissau.
Apareceram três Tertúlianos novos que merecem destaque fotográfico; Pinto dos Santos, Salviano Guimarães e Almeida (Custoias).

Falou-se da Guiné, como seria de esperar, verteram-se lágrimas (faz bem?) e disseram-se coisas... que davam para construir Um Livro.

Sabemos que para se editar um livro é preciso muito mais que coragem, por isso tem valor o nosso Blog. Vai-se escrevendo. Muitas das dúvidas que vão aparecendo no nosso Camaradas da Guiné, fez-me recordar uma simples história que não sendo da Guerra, se enquadra com a Guerra.

Matosinhos? Não conheço

O Nuno, meu cunhado, estava de férias no Alentejo profundo, convivendo num tasco com os Ti Maneis.

- Então vossemecê de onde é?
- Sou do Norte.
- Do Norte, d'onde?
- De Matosinhos.
- De onde?...
- De Matosinhos.
- Olha-me este, do Norte. Monte Sinho ainda podia ser... essa terra não conheço.

E saíu, murmurando à porta:
- Do Norte!!

Não acrescento mais aerogramas, nem livros, nem vinho que é coisa que não havia na Guiné.

Para que não confundam Monte Sinhos com Matosinhos mantenham o Blogue vivo.

Até sempre
Jorge Félix

PS - Dois instantâneos da mini-tertúlia de Matosinhos, que às quartas-feiras se reúne e almoça na Casa Teresa.







2. Apontamentos sobre Matosinhos:
Por Carlos Vinhal

Origem do nome de Matosinhos




Conta uma lenda que um jovem fidalgo das terras da Maia entrou com o seu cavalo mar adentro, para demonstrar a sua valentia à sua noiva Claudia Loba, oriunda de Gaia.

O cavaleiro foi-se afastando da praia em direcção a uma nau que transportava o corpo do Apóstolo Santiago para a Galiza. O jovem cavalgou submerso durante algum tempo, até alcançar a embarcação, onde terá sido convertido ao cristianismo e batizado. Quando lá chegou, o seu corpo estava coberto de conchas.

Do mesmo modo regressou à praia, surpreendendo todos quantos assistiram ao feito.

Carpo Caio, assim se chamava o fidalgo, regressado matizado de conchas, terá dado origem a que aquele local passasse a ser conhecido como Matizadinhos, nome que com o tempo derivou para Matosinhos.

Sobre o Concelho de Matosinhos

Em 1258, nas inquirições efectuadas a mando de D. Afonso III, já aparece Matusiny como fazendo parte do Julgado de Bouças.

Em 1833, o Concelho de Bouças substitui o então Julgado de Bouças, de acordo com a Reforma Administrativa de Mouzinho da Silveira, de 1832.

D. Maria II eleva Matosinhos e Leça da Palmeira à categoria de Vila por Decreto de 10 de Novembro de 1832 e Alvará de 20 de Maio de 1853, para nela estabelecer a nova Sede de Concelho.

Em 6 de Maio de 1909 o Concelho de Bouças passou a designar-se definivamente e até aos nossos dias, Concelho de Matosinhos.

A Freguesia de Matosinhos e a freguesia de Leça da Palmeira, foram elevadas à categoria de cidade em Junho de 1984.

O Concelho de Matosinhos, com cerca de 62 Km2 e 170 000 habitantes, é composto por 10 freguesias: Custóias (Vila), Guifões, Lavra (Vila), Leça do Balio (Vila), Leça da Palmeira (Cidade de Matosinhos), Matosinhos (Cidade de Matosinhos), Perafita, Santa Cruz do Bispo, Senhora da Hora (Vila) e S. Mamede Infesta (Cidade).
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Nota dos editores:

(1) - Vd poste de 5 de Dezembro de 2007> Guiné 63/74 - P2329: O Hino de Gandembel cantado ao vivo na já famosa Casa Teresa, em Matosinhos, sede da delegação Norte da Tabanca Grande

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Guiné 63/74 - P2878: Convívios (59): Encontro anual do BCAÇ 2885, realizado no dia 8 de Março em Pombal (César Dias)

O nosso camarada César Dias (1), já em Março passado tinha dado conta do Convívio anual do seu Batalhão.

Hoje e com mais umas fotografias, entretanto por ele enviadas, vamos finalmente falar desse acontecimento.

O Almoço/Convívio do BCAÇ 2885 teve lugar no dia 8 de Março de 2008, no Restaurante "O Eucalípto" em Redinha - Pombal.



Brasão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) que tinha como divisa NÓS SOMOS CAPAZES


Estiveram presentes, entre ex-combatentes e seus familiares, cerca de 200 pessoas, tendo sido a primeira participação do César Dias, graças à sua adesão à nossa Tabanca Grande. É para nós um orgulho ter contribuído, de algum modo, para mais uma presença neste Encontro do BCAÇ 2885.


Foto 1> Bolo comemorativo do Encontro


Foto 2> Ventura, no uso da palavra, em nome dos organizadores


Foto 3> Grupo de ex-combatentes da CCS/BCAÇ 2885


Foto 4> Grupo de ex-combatentes da CCAÇ 2587/BCAÇ 2885


Foto 5> Grupo de ex-combatentes da CCAÇ 2588/BCAÇ 2885


Foto 6> Grupo de ex-combatentes da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885


Foto 7> Panorâmica da sala, durante o almoço

Fotos: © César Dias (2008). Direitos reservados.

Fixação do texto: CV
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Nota de CV:

(1) Vd. poste de 1 de Março de 2007 >
Guiné 63/74 - P1557: No regresso éramos menos 32 (César Dias, CCS do BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71)

Guiné 63/74 - P2877: O Nosso III Encontro Nacional, Monte Real, 17 de Maio de 2008 (8): Até 2009, camaradas ! (Mário Fitas)



O Mário Fitas com o António Batista e o Luís Graça no IIIº Encontro em Monte Real.
Foto: © Helder de Sousa (2008). Direitos reservados

Mensagem do Mário Fitas (ex-Furr Mil da CCaç 763, Cufar, 1965/66)


A memória rejuvenesce, avivando-se.Tão longe e, contudo lá mesmo lá. As nuvens aglomeradas sopradas por vento tornado. O tarrafo e a lama das bolanhas.
A dor antiga presente. Mas com que alegria se revive o pesadelo!

É só quem está presente sente o envolvimento do colectivo abraço fraterno.

Vale a pena relembrar António Aleixo:

Com orgulho, um militar
regressa à pátria, mostrando
a cruz que ganhou matando
irmãos que o queriam matar
.

Se nos pudessem falar,
os que tombaram por terra
tinham que nos perguntar:
que ganhamos com a guerra?


Até 2009!

Para toda a tabanca, o abraço de sempre do tamanho do Cumbijã,

Mário Fitas
__________
Fixação do texto: vb

Guiné 63/74 - P2876: Tabanca Grande (71): Júlio Abreu, ex-1.º Cabo da Companhia de Comandos do CTIG (1964/66)

Júlio da Costa Abreu, ex-1.º Cabo Rádiomontador do BCAÇ 506 (Bafatá) e Chefe da 2.ª Equipa do Grupo de Comandos "Os Centuriões".


1. Mensagem de Júlio da Costa Abreu, de 20 de Maio:


Grupo de Comandos Centuriões (Guiné)

Caros amigos, 

Estando hoje no meu computador, deu-me a ideia de através do Google procurar saber se haveria alguma coisa sobre o meu antigo Grupo de Comandos Centuriões.

Qual não foi a minha surpresa ao encontrar bastantes artigos sobre o meu grupo assim como muitas notícias dos meus tempos de Guiné!


Quando fui para lá, fiquei no Batalhão 506 em Bafatá, como Radiomontador. Meti os papéis para frequentar o curso de Sarg Radiomontador em Paço de Arcos e, quando abrisse o curso, seria automaticamente promovido a Fur Graduado, pois na altura era 1.º Cabo.
Pouco tempo depois fui transferido para as oficinas de rádio do Batalhão de Transmissões no Quartel-General em Bissau. Ao fim de poucos meses, como iam ser criados os Comandos na Guiné, ofereci-me como voluntário para os Comandos.

Depois das provas fui incorporado no Curso em que foi criado o meu Grupo de Comandos Centuriões do Alf Mil Rainha. A partir da criação do grupo fui chefe de equipa.


O GrCmds "Centuriões", em Setembro de 1965, na guarda de honra ao Palácio do Governo.


Numa esplanada em Bissau (Hotel Portugal?), Abreu, Briote e o Toni Ramalho (médico no Porto, depois do regresso). Finais de 1965.


Saída para uma operação da equipa que o Júlio Abreu chefiava.

No regresso, o descanso e a calma na companhia do cigarro...

Em Bissau, Júlio Abreu, Carlos A. Silva, João Parreira e Mário Dias. Finais de 1965?

Capitão Nuno Rubim, 1º Cabo Júlio Abreu e o Alf Mil Vítor Caldeira (adjunto do Cmdt da CCmds para os assuntos administrativos e mais tarde, por impedimento do Alf A. Vilaça, Cmdt do GrCmds "Vampiros").

Em Brá, na entrega dos crachás, em Set. 1965. Podem ver-se, entre outros, o Alf Rainha, o 1º Cabo Abreu e o 1º Cabo Marcelino da Mata (de costas).

Brá, Setembro 1965. Entrega dos crachás. Distinguem-se, entre outros Camaradas, na 1ª fila o Alf Rainha e o 1º Cabo Júlio Abreu atrás do 1º Cabo Marcelino da Mata.


No final da comissão, o abraço do Capitão Rubim ao 1º Cabo Júlio Abreu. Na imagem reconheço o Soldado António Kássimo, o 1º da esquerda.

Cerimónia da despedida em Brá dos que, terminda a comissão, regressam à Metrópole. O Cap Nuno Rubim, o Alf Mil Vítor Caldeira ao fundo e o grupo em que se reconhecem o Soldado António Kássimo (que continuou nos "Centuriões" e mais tarde nos "Diabólicos") e o 1ª Cabo Júlio Abreu (o 3º da esq. para a dirª).


No restaurante do Geraldes, em Bissau. Da esqª para a dirª: sentados, o Júlio Abreu e um camarada que não reconheço. De pé, os Furr Matos, Carlos Alberto Silva, Sargento Mário Dias e o Furriel Valente de Sousa.

Quando voltei para a Metrópole e depois de ter estado empregado no representante da marca JVC em Portugal, resolvi vir para a Holanda onde estou há 36 anos, tendo trabalhado sempre na Companhia de Aviação KLM como técnico de Rádio.

Presentemente já estou reformado, mas gostaria de entrar em contacto com antigos Camaradas da Guiné. Ocasionalmente, encontrei-me há dois 2 anos com o Furriel Marques de Matos (dos Diabólicos) na Lourinhã, tendo ele dito que, por vezes, havia encontros dos ex-Comandos.
Seria com bastante prazer que eu gostaria de saber, com antecedência, quando houvesse um desses encontros pois gostaria de me encontrar com alguns camaradas não só do meu grupo como também de outros conhecidos. Por sinal, há bastantes anos, estive no quartel dos Comandos na Amadora onde tive o prazer de falar com o Sarg Mário Dias.

Junto o meu endereço electrónico (costaabr@gmail.com) para, se esta carta for lida, algum camarada me possa contactar.
Junto também algumas fotos do meu tempo da Guiné, (tenho muito mais fotos que mais tarde poderei mandar) e assim dessa maneira será mais fácil reconhecerem-me.

Sem mais de momento e esperando um bom acolhimento a esta mensagem, despeço-me por hoje.
Júlio A. A. da Costa Abreu

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2. Mensagem de vb:

Caro Júlio,
Foi uma agradável surpresa a que tive hoje ao ver a tua mensagem. O nosso pessoal desapareceu... e de ti nunca mais tivemos notícias. Alguns de nós vamo-nos vendo e falando, pessoalmente e por telefone. Encontrámo-nos regularmente com o Mário Dias, o ex-Furriel Miranda (lembras-te?), o Caetano Azevedo (Diabólicos), o Rainha, o Parreira e alguns outros.

Temos também enterrado um ou outro, como é natural, que o tempo é um grande vindimador. O Fur Carlos Alberto Silva que aparece numa das tuas fotos já foi há uns anos, bem como o Saraiva, o Godinho, o Moita, o Vilaça, o Cordeiro, o Caleiro, o Albino da MG-42... o ano passado foi o velho Tudela, aquele cabo-avô dos Vampiros, lembras-te?

Tenho muito gosto em apresentar-te à Tabanca Grande. Ainda te lembras da data da tua chegada à Guiné? Foste em rendição individual ou com alguma unidade? Desde quando estiveste nos "Comandos" e quando regressaste? Se não te lembrares das datas exactas, dá-me pelo menos uma ideia aproximada.
(…)

Um abraço
vb

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3. Resposta do Júlio Abreu

Amigo Briote,
Para começar e em resposta ao teu e-mail:


Mário Dias: Há já bastantes anos e estando eu na altura na Amadora, fui ao quartel dos Comandos na Amadora, (um dos meus filhos queria ver o quartel (tenho 3 filhos, o mais velho do meu primeiro casamento tem agora 41 anos, e do segundo casamento tenho 2, um rapaz de 32 anos e uma rapariga de 30 anos) e encontrei lá o Mário Dias (tens o e-mail dele?). 
Foi um tempo bem passado e pudemos recordar algumas coisas dos nossos tempos. O Rainha já me deu a morada dele mas não o e-mail.


Miranda: se bem me lembro, era um Furriel bastante alto, era esse não é verdade?
 

Azevedo: está nesta foto que te mando hoje, estando tu sentado na cama dele. O que é feito do Valente que está na mesma foto?


O Rainha já entrou em contacto comigo ontem, assim que recebeu o teu e-mail respondeu-me logo, e foi com bastante alegria do meu lado que entrámos em contacto.


Parreira: o Rainha já me deu o e-mail dele e vou-lhe escrever.
(…)


Cheguei à Guine em 17 Janeiro 1964, em rendição individual e fui colocado como Rádio-montador no Batalhão 506 em Bafatá. Meses depois e como tinha pedido para frequentar o curso de sargento-radiomontador, fui transferido para o Comando de Transmissões no Quartel-general em Bissau.
Entretanto ofereci-me como voluntário para os Comandos, tendo passado nas provas depois de ter levado uma carga de porrada na prova de boxe com o Marcelino que era um calmeirão comparado comigo, seguidamente fui nomeado chefe de equipa do Grupo Centuriões do Rainha. 
Regressei a Portugal em 27 de Janeiro de 1966.

Espero que tenha respondido às tuas perguntas. Penso ir a Portugal por volta de 27 de Junho, e espero podermo-nos encontrar para recordar os bons tempos. Desculpa alguns erros ortográficos, mas depois de 36 anos na Holanda, nem sempre consigo escrever bem Português.

Por agora nada mais, despede-se o amigo,
Júlio Abreu.

Guiné 63/74 - P2875: Agenda Cultural (1): A Guerra Colonial na Pintura, Cinema e Literatura.

Artes Plásticas, Cinema e Literatura na Memória da Guerra (Colonial)


Debate (Lisboa, Museu da Electricidade, 24 de Maio)

Mesa-redonda; Museu Electricidade


Vai ter lugar pelas 17,30h de sábado, dia 24 de Maio, no Museu da Electricidade, em Lisboa, uma mesa-redonda em que José Luís Porfírio, Beja Santos e João Mário Grilo, num debate moderado por Alexandra Prado Coelho, discutirão a exposição de Manuel Botelho - ali presente, na Sala do Cinzeiro 8.



Confidencial/Desclassificado II: ração de combate, inaugurada a 23 de Abril e que estará patente ainda até 22 de Junho, trata a temática da guerra colonial em que Portugal esteve envolvido e o que ela teve de influência sobre a expressão de alguns artistas portugueses.

Um debate que promete e para o qual vos convidamos.

Lembra-se que José Luís Porfírio é um profundo conhecedor da obra de Manuel Botelho; João Mário Grilo domina o cinema documental que fala da guerra colonial e Beja Santos editou, já este ano, o livro "Diário da Guiné 1968-1969: na terra dos Soncó".

Para esclarecimentos: Salvador Peres: 939 541 601

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Adaptação do texto da responsabilidade de vb

Guiné 63/74 - P2874: Um dia na Ilha do Como: Operação Tridente, Fevereiro de 1964 (Valentim Oliveira)

Um dia passado na ilha do Como

Texto e fotos do Valentim Oliveira, Soldado Condutor da CCav 489/BCav 490:



Mensagem do Valentim Oliveira, de 1 de Maio

Caro amigo Virgínio,


Conforme o prometido mais uma vez me dirijo à nossa casa virtual, a Tabanca Grande, para que através desta majestosa camaradagem possa dar mais algumas notícias minhas.

Hoje vou escrever um pequeno comentário de uma passagem ocorrida na Operação Tridente, na Ilha do Como.

Estávamos no mês de Fevereiro de 1964, o dia não o tenho memorizado, mas tenho a convicção certa que o mês era Fevereiro. Estive antes acampado junto ao mar, onde se encontrava o comando principal e a artilharia, ou seja, os obuses (canhões). De seguida eu e muitos mais seguimos para um acampamento distanciado mais acima; isto em Caiar.

O Valentim com um Camarada na praia de Caiar, ao Sol, no intervalo da Guerra do Como (ou Komo), em Janeiro ou Fevereiro de 1964.

Aí nos entrincheirámos nos abrigos subterrâneos em grupos de três, num descampado, lugar esse que eram terrenos de cultivação de arroz, junto à orla da mata. É claro que havia festa quase todos os dias, mas como as costureirinhas cantavam um pouco longe, nós até nem ligávamos muito aos zumbidos que passavam muito por cima de nós, e também se calavam logo assim que as granadas dos obuses começavam a cair em cima.

Mas houve um belo dia em que a sopa se entornou...As costureiras começaram a cantar e nós apenas nos limitámos a ouvir, quando de repente começamos a ser atingidos por granadas de morteiro. Felizmente nenhuma fez estragos em cima de nós, mas nos primeiros momentos deu para assustar. O tiroteio não foi longo, porque nós ripostámos de imediato, assim como a artilharia que se encontrava uns quilómetros atrás, junto ao mar.

Também estive nesse local quase a passar para o outro lado, com o paludismo. Valeu um heli, que três dias depois apareceu com medicamentos. Pronto, assim dito mais uma versão de um acontecimento passado na Guiné.

Um abraço para o comandante Luís, para ti e para o Vinhal e para todos os camaradas e amigos tertulianos.

PS: Junto envio duas fotos uma fardado e uma a civil para que se possível sejam inseridas na Tertúlia.

Valentim Oliveira
__________

Nota de vb:

artigos relacionados em

13 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2756: Tabanca Grande (62): 14 de Abril de 1965, domingo de Páscoa em Farim (Valentim Oliveira, CCAV 489 / BCAV 490, 1963/65)

10 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2745: Tabanca Grande (61): Apresenta-se o Valentim Oliveira da CCAV 489 / BCAV 490 (1963/65)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Guiné 63/74 - P2873: Convívios (58): 19.º Convívio do BCAÇ 2884 em Vale de Prados (José Firmino)

1. Em 13 de Maio de 2008, recebemos esta mensagem do nosso camarada José Firmino

Meu caro amigo
Acabo de enviar... algo sobre o 19.º Convívio do BCAÇ 2884 para que, dentro do possível, possa ser publicado.

Confesso não ter muito jeito para estas coisas, pelo que te peço se possível, dares um retoque nisso.

Quanto às fotos, vou enviar algumas e tens toda liberdade para pôres as que vires serem melhores.

Resta-me agradecer.

Abraço
José Firmino
ex-Soldado
CCAÇ 2585/BCAÇ 2884


2. Fotos do 19.º Convívio do BCAÇ 2884 em Vale de Prados (Macedo de Cavaleiros) no Restaurante Típico Costa do Sol.


Foto 1> Vale de Prados> Local de concentração


Foto 2> Restaurante Típico Costa do Sol


Foto 3> Bolo comemorativo do 19.º Encontro do BCAÇ 2884 cujo lema era MAIS ALTO


Fotos 4; 5 e 6> Aspectos da sala






3. Comentário de CV

Pede-se aos nossos camaradas que nos indiquem, pelo menos, a Data, Local e o Restaurante onde se efectuou o Encontro que querem ver noticiado. Sem estes elementos a publicação fica muito incompleta. Se possível devem enviar também o brasão da Unidade.
As fotos por si só não dizem muito, pelo que devem trazer as legendas, à parte, para que as possamos inserir correctamente.
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Nota dos editores:

(1) Vd. poste de 7 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P943: Lápide do BCAÇ 2884, o batalhão do João Tunes no Pelundo (A. Marques Lopes)

Guiné 63/74 - P2872: A guerra estava militarmente perdida ? (5): Uma boa polémica: Beja Santos e Graça de Abreu

António G. Abreu, Mário Beja Santos e o Carlos Marques dos Santos, no III Encontro em Monte Real, 17 de Maio de 2008

Foto: © Helder de Sousa (2008). Direitos reservados.


A Guerra estava militarmente perdida ?

1. Mensagem de António Graça de Abreu:

Se conheces, actua como homem que conhece, se não conheces, reconhece que não conheces. Isso é conhecer. Confúcio (551 a.C-479 a.C.)

O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflecte. Aristóteles (384a.C-322 a.C.)

É a guerra aquele monstro que se sustenta de fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. Padre António Vieira (1608-1697)

Uma guerra está militarmente perdida quando o adversário tem armamento superior.
Mário Beja Santos.

Caríssimos tertulianos, meu caro Mário Beja Santos

Porque um dia passámos todos pela Guiné, porque devemos procurar o rigor da análise na nossa história das guerras de África, porque subsistem equívocos, mal-entendidos, incompreensões naturais, porque alguns de nós continuam a assumir esplendorosas falácias como certezas e verdades à deriva pela doce pátria lusitana, alinho estas palavras. Sem outro intuito que não seja o de nos conhecermos melhor.
Antes de escrever mais, devo confessar que duvido sempre, leio, penso, medito, tento informar-me, procuro conhecer.


Como quase todos nós, não passei impunemente pela antiga Guiné Portuguesa.



Alf Mil António Graça de Abreu, em Cufar. Janeiro de 1974.

Foto: © Graça de Abreu (2008). Direitos reservados.

Estive lá, no norte, centro e sul, pequeno alferes miliciano num comando de operações, 1972/1974. Desculpem-me a vaidade de citar talvez o maior de todos os portugueses, no século XVI perdido pelo mundo, como nós nos anos sessenta e setenta do século XX, de seu nome Luís de Camões.
Em “Os Lusíadas” canto X, estrofe 154, o poeta diz:
Não me falta na vida honesto estudo
com longa experiência misturado
.

Vamos à conjuntura militar, Guiné 1973/74.

Os guerrilheiros do PAIGC não controlavam nenhuma cidade, vila ou aldeia importante da Guiné. O território tinha então cerca de 500.000 habitantes. Mais de 400.000 guineenses viviam junto das tropas portuguesas, subtraídos por vontade própria ou por necessidade, ao controlo do PAIGC.

O exército português dispunha então na Guiné de aproximadamente 40.000 homens, 6.000 a 7.000 dos quais africanos guineenses. As milícias locais, com as suas velhas Mauser, muitas G-3 e até morteiros, davam alguma cobertura ao esforço de guerra da tropa portuguesa e eram constituídas por quase 20.000 homens.
Os guerrilheiros do PAIGC seriam entre 4.000 a 6.000, muitos deles permanentemente a entrar e a sair da Guiné. Viviam em segurança fora do território da Guiné, nas suas bases de Kandiafara (Senegal), ou Kumbamory (Guiné-Conakry) e outras.
Todos os comandantes militares portugueses encontravam-se dentro do território da Guiné, generais Spínola, depois Bettencourt Rodrigues, coronéis e tenentes-coronéis, comandantes operacionais, comandantes de batalhão, comandantes de companhia. António de Spínola deslocava-se de helicóptero a todos os aquartelamentos portugueses na Guiné, e eram muitos.
Lembram-se dos termos em que, por brincadeira, se dizia que costumava ser anunciada a chegada do general do monóculo? “Info V. Exa, S. Exa segue na mexa”. No início de Dezembro de 1973, o general Bettencourt Rodrigues foi de helicóptero a Madina do Boé, e não encontrou viva alma. Foi pura propaganda, até levou um jornalista alemão com ele para reportar o feito, mas a verdade é que o governador da Guiné Portuguesa, dois meses e meio depois esteve no local onde em Setembro o PAIGC havia declarado a independência.
Quantos comandantes militares do PAIGC, de graduação semelhante, estavam, dia após dia, junto dos seus guerrilheiros no interior do território da Guiné? Nino Vieira, Luís Cabral, Aristides Pereira, Pedro Pires podem responder.

Amílcar Cabral foi assassinado em Conakry, Osvaldo Vieira morreu num hospital em Conakry, não faleceram no interior dos “dois terços do território” da sua pátria que haviam “libertado”.
A guerra estava militarmente perdida para as tropas portuguesas? Quem acredita?
Continuemos com a conjuntura militar, Guiné 1973/74. De que meios aéreos, navais e terrestres dispunham os dois contendores no conflito?
O exército português e a tropa guineense que combatia a seu lado contavam com aviões Dakota (DC 3), T-6, Fiats G-91, Dornier 27, Nord-Atlas e helicópteros Alouette 3, sete ou oito deles equipados com héli-canhões, num total de quase quarenta aparelhos.
Existiam junto aos aquartelamentos portugueses umas boas dezenas de pistas de aviação, duas delas asfaltadas (Bissau e Cufar). Para voar, o PAIGC não dispunha sequer de pombos-correios, embora se falasse na hipótese, nunca concretizada, de os guerrilheiros poderem um dia utilizar Migs, a partir de bases aéreas situadas na Guiné-Conakry, ou seja fora da sua pátria. É verdade que possuíam mísseis anti-aéreos Strella e que abateram cinco aviões portugueses em Abril de 1973. Entre Junho de 1973 e Abril de 1974, com “armamento tecnologicamente superior”, no dizer do nosso amigo Beja Santos, quantos aviões portugueses foram abatidos pelo PAIGC? Nem um. E os nossos meios aéreos, ao contrário do que muitas boas almas ainda hoje apregoam por ignorância ou maldade, não deixaram de voar, e voaram muito. Os guerrilheiros e as populações sob seu controlo, continuaram a ser impiedosamente bombardeadas pela força aérea portuguesa. Em 1974 até os Nord-Atlas chegaram a ser utilizados como bombardeiros, com as bombas a serem lançadas da traseira aberta do avião! Com napalm, bombas de 200 libras, etc., e também metralhados pelas metralhadoras pesadas dos nossos héli-canhões. São factos inquestionáveis, a realidade foi essa.
Como é que a guerra estava militarmente perdida para a tropa portuguesa?
De quantos meios navais – fundamentais numa Guiné polvilhada por rios e canais que entram pela terra dentro e são estradas fluviais a utilizar no deslocamento e abastecimento das populações –, dispunha a marinha, o exército português?




LDG Alfange, subindo o rio Cumbijã, Agosto 1973.

Foto: © Graça de Abreu (2008). Direitos reservados.

Havia lanchas de desembarque grandes e médias, bem equipadas com as metralhadoras pesadas Oerlikon, pequenas vedetas de fiscalização (o nosso Lema Santos conheceu-as muito bem) também com um bom poder de fogo, os nossos fuzileiros armados movimentavam-se facilmente com os seus zebros nos rios Cacheu, Cumbijã, Cacine, etc. Havia ainda os sintex, com potentes motores de 60 cavalos, (como os dos zebros) importantes no deslocamento das tropas portuguesas de aquartelamento para aquartelamento ou mesmo em operações militares. Recordo nas regiões do Tombali/Cantanhez, em 1973/1974, os nossos destacamentos do Chugué, Cobumba, Bebanda, Caboxanque, Cufar, Cadique, Cafal e Cafine. Todos utilizavam largamente os zebros e sintex.
Quais eram os meios navais de que, na fase final da guerra, dispunha o PAIGC? Os guerrilheiros, armados com as suas kalashnikovs, movimentavam-se em canoas raramente equipadas com um pequeno motor, mas sobretudo canoas primitivas, a remos, escavadas em troncos de árvores, que escondiam no tarrafo da margem dos rios.
Como é que a guerra estava militarmente perdida?
Quanto a meios terrestres também vale a pena uma breve abordagem. As tropas portuguesas possuíam umas centenas de camiões Berliets, GMCs, Unimogs, viaturas auto-metralhadoras Daimler, Fox, Panhard, algumas destas, é verdade, velhas e quase inoperacionais. Mas ainda funcionavam.


Fox na estrada Cufar-Catió, Fevereiro 1974.

Foto: © Graça de Abreu (2008). Direitos reservados.

Desloquei-me numa Fox de Cufar para Catió, e volta, por várias vezes até Abril de 1974. Havia estradas asfaltadas, por exemplo de Bissau a Teixeira Pinto, de Teixeira Pinto ao Cacheu, de Bissau a Farim, (a região Bafatá-Nova Lamego não conheço), Cufar para Catió, e mais estradas estavam em construção. As colunas de viaturas (naturalmente sujeitas a emboscadas) deslocavam-se quase por toda a Guiné.
E quais eram os meios terrestres do PAIG? Os guerrilheiros deslocavam-se a pé pelo interior das matas e florestas da Guiné, carregando as armas e munições que lhes chegavam vindas em camiões desde Conakry ou do interior do Senegal. Essas armas eram desembarcadas nas fronteiras com a Guiné Portuguesa. Raríssimas viaturas ao serviço do PAIGC entraram no território da Guiné e quando tal aconteceu verificou-se junto aos aquartelamentos de fronteira. Depois do abandono de Guileje, em Maio de 1973, os guerrilheiros aproveitaram o corredor de Guileje (por onde costumavam entrar e sair sempre a pé) para, pela primeira vez, trazerem alguns camiões e veículos blindados (?) até junto de Bedanda, nas flagelações de Março e Abril de 1974.
Mas como é que a guerra estava militarmente perdida?
Escreve o nosso amigo Beja Santos no título da mensagem que me enviou, depois publicado no blog sem este título, que “uma guerra está militarmente perdida quando o adversário tem armamento tecnologicamente superior.” Se tal é verdade, o que duvido, (os americanos perderam a guerra do Vietname, no terreno, apesar de contarem com armamento tecnologicamente superior, hoje também possuem armamento superior no Iraque e não conseguem ganhar a guerra), quem em 1973/74 dispunha de armamento tecnologicamente superior, de logística, de condições para o usar, etc., era o exército português. E esta superioridade não era suficiente para ganharmos militarmente a guerra. Talvez o Beja Santos ao falar “no armamento superior” se queira referir ao armamento tradicional do PAIGC, às kalashnikovs, às Simonovs, às PPSHs, às metralhadoras Degtyarev, aos RPGs, aos canhões sem recuo, aos morteiros, aos foguetões 122, aos mísseis Strella, minas anti-pessoal e anti-carro, armas típicas de uma guerra de guerrilha como a da Guiné, sem dúvida eficientes, que transformaram num calvário a vida de muitos de nós, mas eram incapazes de levar o PAIGC a uma vitória militar.
Não subestimo, de modo algum, a capacidade bélica dos guerrilheiros, a extraordinária coragem de muitos deles, os golpes que assestaram na tropa portuguesa. No ano de 1973, tivemos 210 mortos. Não sei os números para os outros anos mas não terão sido inferiores. De resto, a situação militar em 1973/74, considerando a essência do conflito, não seria substancialmente diferente da de 1965,67,69,71. Claro que a guerra evoluiu, em 73/74 os guerrilheiros do PAIGC estavam melhor preparados e equipados.
Mas temos de conhecer bem a realidade. Apesar de uma “maior” capacidade militar, quantos aquartelamentos portugueses conquistou o PAIGC em 1973/1974? Nem um. E quantos mortos teve? Ninguém sabe, mas foram bem mais do que os soldados portugueses mortos em combate.
Eu sei, há Guidage e Guileje, Maio de 1973.
Cerca de mil (?) guerrilheiros do PAIGC, ao abrigo da fronteira do Senegal, mesmo ao lado, cercaram Guidage e transformaram o lugar num inferno de morte para os portugueses. Lá morreu o meu (continuará sempre comigo!) soldado David Ferreira Viegas, do CAOP 1. Mas os guerrilheiros não conseguiram conquistar Guidage. A partir da fronteira com a Guiné-Conakry, também transformaram Guileje num inferno de morte. E Guileje não foi conquistada, foi abandonada à revelia dos poderes de Bissau. Gostemos ou não, esta é a realidade. Depois, até ao fim do conflito, nem Gadamael, nem Cacine, nem Piche, nem Buruntuma, nem Pirada, nem Copá, etc, nenhum mais aquartelamento de fronteira, ou de outro qualquer lugar, foi conquistado ou abandonado pelas tropas portuguesas.
A guerra não estava militarmente perdida.
É verdade que Spínola pediu mais meios e armamento a Marcelo Caetano e que não os obteve. Foi uma das razões porque se demitiu. Mas os meios terrestres, navais e aéreos de que dispúnhamos, eram, sempre foram superiores aos do PAIGC. Não eram suficientes para derrotar o inimigo mas este tipo de guerra de guerrilha, num território tão complicado como o da Guiné, nunca se ganha apenas no terreno.
Depois, é preciso fazer justiça à História e reconhecer a camaradagem, o sacrifício, o enorme esforço, a dedicação das tropas portuguesas em terras da Guiné, quase todos no melhor dos nossos vinte anos, em situações extremas e difíceis de uma guerra de guerrilha traiçoeira e incerta.
Também é preciso prestar uma sentida homenagem aos guerrilheiros do PAIGC que, dispondo de meios militares inferiores aos da tropa portuguesa, lutaram heroicamente e deram a vida, aos milhares, pelo que acreditavam ser a causa da libertação da sua pátria e da construção de uma Guiné independente e melhor. Exactamente por estas ponderosas razões não devemos, não podemos distorcer a História, vesti-la com roupagens que nunca teve.

Uma última questão
No blogue, o nosso amigo Mário Beja Santos dá-me um conselho que agradeço e diz:
“Por favor, estuda. Estuda o que escreveram Marcelo Caetano, Spínola e Costa Gomes. (…) Quando um Presidente do Conselho (Marcelo Caetano) propõe em plena sessão do Conselho Superior de Defesa Nacional, em 1973, que a maior parte do território da Guiné não é defensável, na actual conjuntura, a retirada estratégica para os territórios da península de Bissau, que guerra não está perdida?


(…) Tudo isto está documentado, é público, é acessível a quem quiser ir às livrarias.”

Vamos lá então ler as palavras de Marcelo Caetano, Costa Gomes e António de Spínola, após Guidage e Guilege, que são públicas, acessíveis a quem quiser ir às livrarias e estão transcritas no meu livro Diário da Guiné, Lama, Sangue e Água Pura, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, pag.102.
Escreve Marcelo Caetano:
“Em meados de 1973, a situação militar podia considerar-se satisfatória. (…) Pus ao General Costa Gomes que recentemente visitara a Guiné, inspeccionara as tropas e acertara os dispositivos a adoptar, a seguinte questão:
- A Guiné é defensável e deve ser defendida? Se sim, vamos escolher o melhor general (em substituição de António de Spínola) disponível para a governar, vamos fazer o esforço de lá manter os homens necessários e de procurar dotá-los do material necessário. Se não, prepararemos a retirada progressiva das tropas para não prolongar um sacrifício inútil, designando um oficial-general, possivelmente um brigadeiro, para liquidar a nossa presença.
A resposta do General Costa Gomes foi categórica:
- No estado actual, a Guiné é defensável e deve ser defendida.” Marcello Caetano, em Depoimento, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1974, pag.180.

E o que nos diz o general Spínola sobre esse período de meados de 1973?

"(…) Tendo estado quase que iminente o abandono de algumas povoações de fronteira, o que só não sucedeu pela valorosa acção individual de alguns comandantes. Nessas acções de fronteira, é de elementar justiça salientar o comportamento de alguns oficiais, entre os quais destaco o Coronel Pára-Quedista Rafael Durão, (o meu comandante do CAOP 1) o Tenente-Coronel de Cavalaria Correia de Campos e o major de Cavalaria Manuel Monge." António de Spínola, País sem Rumo, Lisboa, Ed. SCIRE, 1978, pag. 54.

Comentário final

O general Costa Gomes afirma em meados de 1973 que "a Guiné é defensável e deve ser defendida". No mesmo período o general Spínola destaca o papel dos nossos militares na defesa dos aquartelamentos de fronteira. Ora Marcelo Caetano, segundo Mário Beja Santos numa prosa da sua autoria um pouco confusa, "propõe em plena sessão do Conselho Superior de Defesa Nacional, em 1973, que a maior parte do território da Guiné não é defensável, na actual conjuntura, a retirada estratégica para os territórios da península de Bissau, que guerra não está perdida?"

Alguém acredita que depois de Costa Gomes ter dito a Marcelo Caetano que "a Guiné é defensável" que tenha sido o próprio Marcelo Caetano a afirmar que "a maior parte do território da Guiné não é defensável"? Alguém acredita numa retirada estratégica das tropas portuguesas para os territórios da península de Bissau, ou seja aqueles trinta e poucos quilómetros que vão de Nhacra a Quinhamel? Nem cabíamos lá dentro.
Alguém acredita que íamos deixar para trás centros urbanos e vilas como Teixeira Pinto, Cacheu, Bula, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Bambadinca, Mansoa, Tite, Bolama, Buba, Catió, Cufar, Cacine? Marcelo Caetano não pode ter dito um tamanho disparate. E eu não gosto, nunca gostei nem um bocadinho de Marcelo Caetano, António de Spínola e Costa Gomes.
Mas há por aí muita desinformação e têm sido escritas incontáveis barbaridades a respeito da Guiné.

Tenho pelo Mário Beja Santos todo o respeito que me merece um camarada de guerra na Guiné. Peço-lhe apenas um pouco mais de humildade. Tenho todo o direito de não concordar com as suas análises, de não aceitar a tese da superioridade militar do PAIGC em relação às nossas tropas, de discordar da tese amplamente divulgada (porque convinha à tendência mais esquerdista, pós-25 de Abril, para justificar o abandono precipitado da Guiné) de que em 1973/1974 a guerra estava militarmente perdida.

É fundamental não confundir o político com o militar.
Estas questões são importantes, têm a ver com a nossa História e com a História da Guiné-Bissau, têm a ver com a própria natureza do conflito militar no período final da guerra da Guiné.

Vamos tentar ser justos, honestos e rigorosos.
Um abraço a todos os camaradas da Guiné,

António Graça de Abreu

PS. Já depois de ter escrito o texto acima, leio no blog a troca de mails, com conhecimento a todos nós, intercambiada entre o Mexia Alves e o Beja Santos.

O Joaquim Mexia Alves interpreta o meu sentir, e creio que o de quase todos os velhos combatentes da Guiné, e refuta naturalmente uma tantas afirmações do nosso amigo Beja Santos.
Como é possível, meu caro Mário Beja Santos, considerares que na fase final do conflito na Guiné "se desenhava uma guerra convencional 'à carta'." E que "As tropas do PAIGC despejavam os 'órgãos Estaline' quando queriam, sem resposta da nossa tropa, era uma nova inferioridade".
Como é possível que um homem inteligente como tu diga coisas destas? Guerra convencional no território da Guiné? Órgãos Estaline, aquelas rampas de lançamento múltiplo de mísseis utilizadas na 2ª. Guerra Mundial e que nunca ninguém viu na Guiné? Devias estar a pensar nos foguetões 122, disparados aos pares, a dez, onze quilómetros dos nossos aquartelamentos, e que, por bem, tinham o bom hábito de se desviarem do objectivo e quase nunca acertavam. Quantos militares portugueses morreram ou foram feridos devido ao rebentamento de foguetões 122? Não muitos. É verdade que o silvo dos foguetões assustava. Mas muito mais perigosos eram os canhões sem recuo e os RPGs. E dizes que a nossa tropa não respondia às flagelações dos guerrilheiros, "era uma nova inferioridade". Tínhamos obuses 10,5 e 14, morteiros, canhões sem recuo, metralhadoras pesadas e a cada flagelação respondíamos sempre com as armas de que dispúnhamos e que não eram tão fracas e ineficazes como isso. Tenho uma gravação minha de um ataque IN a Cufar, a 20 de Janeiro de 1974, um imenso fogachal dos dois lados, cerca de vinte minutos. Como era costume, não houve qualquer morto ou ferido do nosso lado. Como era costume, ninguém viu os guerrilheiros que atacaram a um quilómetro de distância, despejaram o seu material e depois fugiram. Mesmo assim um pelotão da CCaç. 4740 foi no encalço do IN. Os nossos homens regressaram ao quartel umas horas depois, enlameados, exaustos. Dos guerrilheiros em fuga, nem cheiro. Qual guerra convencional? Qual “sem resposta da nossa tropa”?

Dizes, ainda, meu caro Mário Beja Santos que "o inimigo nunca desarmou, nunca perdeu posições".
Dou-te apenas um exemplo. Em Novembro/Dezembro de 1972, por ordens do general Spínola, as tropas portuguesas foram ocupando e instalando-se gradualmente em aldeias do Tombali/Cantanhez, até então sob controlo IN. Foram ocupadas Cobumba, Chugué, Caboxanque, Cadique, Cafal, Cafine e Jemberém. Os guerrilheiros retiraram para as matas do Cantanhez, onde, é verdade, passaram a fazer a vida negra à tropa portuguesa. Mas foram desalojados e perderam as suas posições.
É tudo.
Um abraço.
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça, 18 de Maio de 2008
Ano do Rato

__________

Notas:
1. adaptação do texto e sublinhados da responsabilidade de vb.
2. Artigos relacionados em
15 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2845: A guerra estava militarmente perdida ? (4): Faço jus ao esforço extraordinário dos combatentes portugueses (Joaquim Mexia Alves)
13 de Maio de 2008 > Guiné 73/74 - P2838: A guerra estava militarmente perdida ? (3): Sabia-se em Lisboa o que representaria a entrada em cena dos MiG (Beja Santos)
30 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2803: A guerra estava militarmente perdida ? (2): Não, não estava, nós é que estávamos fartos da guerra (António Graça de Abreu)

Guiné 63/74 - P2871: Excerto do Diário do ex-Alf Mil A. Nunes Ferreira (CCAÇ 4540, Cadique, 31/1/73 a 20/2/73)



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cacine > Cadique > Junho de 2007 > Pedras que falam da CCAÇ 4540 - Somos um Caso Sério - que esteve aqui, em Cadique, em pleno coração do Cantanhez, na margem esquerda do Rio Cumbijã, de 12 de Dezembro de 1972 a 17 de Agosto de 1973.


Fotos :
Pepito / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem de Albertino Nunes Ferreira, 8 de Abril de 2008:


Assunto - CCaç 4540: passagem por Cadique 72/73


Tenho um pequeno diário da minha passagem por Cadique. Pergunto se vêem algum interesse na divulgação do mesmo no vosso blogue

Albertino Nunes Ferreira
Ex Alf Mil Inf da CCAÇ 4540



2. Excertos do diário de Albertino Nunes Ferreira, relativa à passagem do Cadique, Cantanhez, da sua unidade, a CCAÇ 4540 (1). Textos enviados em 9 de Abril e 19 de Maio de 2008:

Após dois meses e meio em Bigene, desembarcou a CCaç 4540 no dia 12/12/72 de bordo da LDG Bombarda em Cadique no âmbito da operação Grande Empresa com o auxílio dos Fiat da FAP e de um bi-grupo da CCP 121. Eis algumas notas respigadas de um pequeno diário :

31 de Janeiro de 1973

Só hoje me decidi a escrever um Diário íntimo da minha presença aqui neste lugar de Cadique, no Cantanhez, considerada área libertada pelo PAIGC. Dói-me a cabeça abominavelmente. Foi a primeira vez que comi razoavelmente bem depois do enjoo das rações de combate intragáveis de que só aproveito os sumos, dando o resto aos soldados do meu grupo de combate, que esses comem tudo o que lhes dão…

Neste momento vivo numa espécie de cabana com um abrigo-vala anexo, abaixo do nível do solo, o tecto feito de folhas de palmeiras secas e capim e deito-me ao nível do chão porque o colchão de borracha foi comido pelas formigas, tendo ainda por companhia uma colónia de morcegos e alguns ratos…

O rio Cumbijã faz uma grande curva à nossa frente e continua pela direita até Caboxanque. Aqui passo os dias quando não saímos para o mato em patrulha e vejo o pôr-do-sol magnífico sobre o rio voltado para Oeste. Nas primeiras andanças pela povoação e arredores notei que ao lado de todas as moranças havia grandes abrigos protegidos por cibes, que algumas bombas lançadas pelos Fiat não tinham rebentado e que as lavras estavam todas queimadas pelo napalm. Por outro lado a população era constituída só por velhos e crianças, estando os jovens logicamente na guerrilha…


2 de Fevereiro de 1973

Ontem estivemos na mata durante todo o dia. Andámos até ao esgotamento. Doem-me os músculos horrivelmente. Estou com fome, porque não como há 24 horas e dói-me terrivelmente a cabeça. Hoje é dia de descanso para o pessoal do 2º grupo de combate. Nada de especial há para assinalar. A rotina e o tédio aproximam-se subitamente com a tarde. Já perdi a noção do tempo, dos dias que se sucedem sem qualquer significado. Só se sabe que é domingo porque se ouvem os relatos de futebol. Anoiteceu rapidamente.


3 de Fevereiro de 1973


Hoje levantei-me excepcionalmente cedo e sinto uma sensação de bem-estar fantástica porque é dia de não sair para o mato. Contudo, vai custar a passar o resto do dia com este calor sufocante que aperta logo pela manhã e que nem a sesta nos deixa dormir…

Até ao fim do dia não deverá acontecer nada de anormal. Logo à noite vai haver cinema para a rapaziada e só espero que não haja ataque ao aquartelamento porque seria uma carnificina. Meu pai começou a mandar-me o Expresso e eu tornei-me assinante do Nouvel Observateur que recebo aqui regularmente. A sua leitura sempre ajuda a “matar o tempo” nas horas vagas…


4 de Fevereiro de 1973


Hoje fui dar uma volta pela bolanha até à beira do rio Cumbijã. Quando não tenho nada para ler fico psicologicamente deprimido. Passo as noites sem dormir. Só me apetecia ingerir um trago de uma droga qualquer… cuspir toda a noite o fogo das entranhas. Afogo-me em whisky para conseguir dormir alguma coisa e vou aos tropeções para a cabana, meio embriagado pelo álcool e tendo ainda nos ouvidos a canção The Savoy Trufle do George Harrison, tentando esquecer este quotidiano sem sentido que nos está reservado possivelmente até ao fim da comissão.


20 de Fevereiro de 1973

Só hoje me decidi a escrever um pouco mais . Não tenho tido realmente disposição para continuar este pequeno diário. Sinto-me horrorosamente cansado e doem-me o estômago e a cabeça.

Sinto o corpo todo partido por não conseguir dormir nas noites longas passadas na mata, emboscado, ao relento, por tecto as estrelas, sobre o chão duro, difícil e vermelho, alimentado á base dos líquidos da mísera ração de combate que nos dão, porque o resto é intragável e deito tudo fora ou dou aos soldados…
Um combatente não devia tratar-se assim, bolas… Apesar de tudo não recuamos nunca quando temos de fazer o que devemos para sobreviver. Ontem mesmo, quando fazíamos 5 meses de Guiné, durante um patrulhamento conseguimos capturar 24 granadas de canhão sem recuo e 1 de RPG 2. Foi um grande ronco para o 2º Grupo de Combate da CCaç 4540 e até os páras da [CCP] 123 que ainda estão connosco ficaram com uma pontinha de inveja da tropa macaca (2)…

Amanhã vamos sair novamente em missão operacional e há notícias de que o Caco Baldé vem aqui mais uma vez a Cadique, desta feita acompanhado de uma equipe da TV alemã para filmar alguns aspectos do destacamento e o andamento dos trabalhos de construção da estrada Cadique – Jemberém.

Não consigo escrever mais. Acabou.

Alf Mil Inf
A. Nunes Ferreira
CCAÇ 4540

3. Comentário de L.G.:

Meu caro Albertino:

Posso concluir que estas são as únicas notas que escreveste no teu diário ? São, em todo o caso, valiosas, e vê-se que foram escritas com sangue, suor e lágrimas... Tomei a liberdade de sublinhar, a bold e a vermelho, algumas das tuas frases...

É importante que certas coisas sejam escritas na primeira pessoa do singular... Os nossos filhos e netos não imaginam as duríssimas condições em que vivíamos e combatíamos na Guiné. Não se tirem conclusões, apressadas e ilegítimas, de pequenos documentos íntimos como este... Por exemplo, que a guerra estava ganha ou que estava perdida... Esse debate, pessoalmente, não me interessa. Admito que possa interessar a outros camaradas... Falta-nos a distância histórica e a visão sinóptica da época, e sobretudo a investigação historiográfica de primeira água, para tirar conclusões, com segurança, com rigor, sobre a situação político-militar (E este binómio é inseparável: não podemos analisar a situação militar, isolada do contexto político e geopolítico)...

De qualquer modo, a missão do nosso blogue - que não é um portal noticioso, nem é o sitío de nenhuma associação, nem uma tribuna, nem uma bandeira de causas perdidas ou por ganhar... - é sobretudo a de dar voz a pessoas como tu, que nem sequer pediste para integrar a nossa Tertúlia. Mas fica aqui, desde já, o convite: seria honroso para todos nós que o teu nome figurasse na lista dos amigos e camaradas da Guiné... Um abraço do tamanho do Cumbijã. Luís

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Notas de L.G.:


(1) Vd. poste de 21 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2870: O meu álbum de recordações de Cadique e da CCAÇ 4540 (A. M. Conceição Santos)

(2) Vd. postes de:

27 de Junho de 2007 Guiné 63/74 - P1891: O Cantanhez (Cadique, Caboxanque, Cafine...) e os paraquedistas do BCP 12 (1972/74) (Victor Tavares, CCP 121)

9 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2038: Os pára-quedistas no mítico Cantanhez: Operação Tigre Poderoso (I parte) (Victor Tavares, CCP 121 / BCP 12)

15 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2051: Os pára-quedistas no mítico Cantanhez: Operação Tigre Poderoso (II parte) (Victor Tavares, CCP 121 / BCP 12)

quarta-feira, 21 de maio de 2008