sábado, 30 de dezembro de 2017

Guiné 61/74 - P18154: Memória dos lugares (367): "Guiné-Bissau e Cabo Verde", fotografia de Ulisses Rolim - Para lá do Tcheche, amor pelas gentes de Lugadjole (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Março de 2016:

Queridos amigos,

Há muito pouco a dizer para justificar estas imagens. Já numa fase adiantada da preparação do meu livro "História(s) da Guiné-Bissau" necessitei de ir consultar um livro na Biblioteca Gulbenkian. De pesquisa em pesquisa cheguei a este catálogo. Não me espanta o texto que Ulisses Rolim escreveu, é o feitiço guineense que decorreu, decorre e decorrerá deste encontro e partilha de afetos.
Interrogo-me sobre quem muda mais, nós ou os cidadãos daquela terra. Lembro-me das cartas que durante anos me chegavam da Guiné-Bissau: volta, vem visitar-nos, não te esquecemos, os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos ouvem as histórias que lhes contamos. Por isso, não sem quem muda mais, certo é que mudámos depois de tudo o que vivemos e que fica nesta lembrança permanente.

Um abraço do
Mário




Amor pelas gentes de Lugadjole

Beja Santos

Imaginem o que é entrar na Biblioteca da Gulbenkian com o único propósito de passar um bom par de horas a ler “O Desafio do Escombro” de Moema Parente Augel, porventura o estudo mais consolidado sobre a literatura da Guiné-Bissau. A remexer nas fichas dou com a existência de alguém que fez uma exposição em Ponte de Sor, com fotografias da Guiné. Faz-se a requisição e vem o espanto, Ulisses Rolim gostou mesmo da experiência de Lugadjole, na região do Boé, onde presuntivamente se terá realizado a cerimónia da independência unilateral da Guiné-Bissau em 24 de Setembro de 1973. Para quê acrescentar mais texto? Para meu pesar, não sei a que se dedica Ulisses Rolim, se inclusivamente voltou à Guiné. Do seu amor pelo que experimentou e conheceu ficam estas duas imagens crianças, tão enternecedoras. E ponto final.


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Nota do editor

Último poste da série de 29 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17808: Memória dos lugares (366): em 1947, Canchungo ainda não se chamava Teixeira Pinto, nem a vila de Gabu era Nova Lamego... Xime e Xitole escreviam-se com "ch" e o Quebo (futura Aldeia Formosa) nem aparecia no mapa...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Guiné 61/74 - P18153: Notas de leitura (1027): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (15) (Mário Beja Santos)

Primitiva Ponte-Cais de Bolama, vendo-se à direita o Palácio do Governo (1908)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Novembro de 2017:

Queridos amigos,
Há uma visão historiográfica (que não se vê por ninguém refutada) que a campanha Teixeira Pinto em 1915 deixara a ilha de Bissau em completa pacificação. Depois dos anos difíceis da Ditadura Nacional, com pesados cortes, num contexto de depressão económica e internacional que tivera o seu rastilho na crise da bolsa de Nova Iorque em 1929, na colónia da Guiné há um pesado sentimento republicano que aguarda instruções para a sublevação. Comprova-se ter existido um sentimento republicano muito forte, mas a Ditadura Nacional já consolidara o seu poder, a sedição de Bissau e Bolama acabou na água. Evento relevante, daí ter-lhe associado o que sobre o assunto eu publiquei em 2015.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (15)

Beja Santos

O primeiro grande acontecimento da década de 1930, que vai obrigar o gerente da filial da Bolama a escrever vezes sem conta para Lisboa, foi o movimento revolucionário de 1931. Lá chegaremos. A década será decisiva para reconhecer que os negócios de Bissau superaram esmagadoramente os de Bolama, a relação de forças entre filiais desequilibrou-se em definitivo. Aliás, do relatório da inspeção à filial de Bolama no período de 1930/1931, o inspetor escreveu que “desde princípios de 1925 que a filial de Bolama, após a saída do gerente Albuquerque ficou trabalhando em condições especiais de subordinação à agência de Bissau”. E mais adiantou: “Entre as praças de Bissau e Bolama houve sempre uma grande emulação; entre as próprias gerências das duas dependências nem sempre reinou a melhor harmonia. Para evitar conflitos entre as duas gerências foi estabelecida a zona dentro da qual cada uma poderia operar”.

Igreja Paroquial de Bolama, que em 1909, um incêndio destruiu quando utilizando fogo, pretendiam expulsar um enxame de abelhas que lá se haviam instalado (1908)

Em Abril de 1931, um conjunto de revoltosos prende Leite de Magalhães e outros responsáveis, cria-se uma Junta Governativa, que terá vida efémera logo que os revoltosos da Madeira cederam. Este movimento revolucionário de 1931 possui documentação abundante, mas o gerente da filial de Bolama produzirá um testemunho de relevo, como veremos. O que interessa é que em Bissau segue para a Praia um ofício sobre correspondência telegráfica. Um dos vogais da Junta Governativa da Guiné entregara na agência em Bissau o telegrama da agência da Praia dirigida à filial de Bolama, devidamente encriptado e cuja decifração é “Telegrafe se governador da província ainda está preso”. A entrega fora feita na agência de Bissau de que esta devia considerar o telegrama como não recebido.

A agência de Bissau conseguiu autorização para mandar um telegrama para a Praia com o seguinte teor: “Seu 22 para Bolama não podemos responder”. A Junta Governativa não consentiu na transmissão deste telegrama. Insistiram e foram autorizados a telegrafar em 24: “Seu 22 para Bolama Governador seguiu Lisboa”. A autorização tinha sido concedida por dois membros da Junta, outros opuseram-se, ficou também por transmitir este telegrama. Em 24 foi entregue novo telegrama da Praia que depois de decifrado dizia: “Telegrafe se tem… Qual alteração câmbio livre”. O telegrama foi retido pelo Comandante Militar de Bissau. O ofício que Bissau pode mandar para a Praia em 1 de Maio registava estas peripécias, terminando do seguinte modo: “Quanto ao Governador da Colónia, que foi preso em 17 do corrente, foi posto a bordo com outros oficiais da guarnição e suas famílias, do vapor da carga Maria Amélia, que de Bolama seguiu para Lisboa, onde já se deve encontrar. Juntamos um exemplar do jornal o “Comércio da Guiné”, para elucidação do que ocorreu nesta colónia”.

E o que ocorreu foi algo de inusitado que a filial de Bolama, no coração dos acontecimentos, registou para a posteridade.
Estes acontecimentos vão ser tratados com os investigadores pelo nome de a “Revolução Triunfante”. Permito-me aditar o que sobre o assunto publiquei em “História(s) da Guiné Portuguesa”, Edições Húmus, 2015:

“Nem tudo foi pacífico, como é sabido, com a implantação da Ditadura Nacional, a seguir ao 28 de Maio de 1926. A Ditadura impôs-se com um conjunto de proibições que, progressivamente, jugularam a movimentação popular. Seja como for, ao nível das Forças Armadas e da oposição política eclodiram várias revoltas, todas elas abafadas. Uma delas, teve como palcos a Madeira, os Açores e a Guiné, com bons resultados imediatos, ainda que efémeros, noutras regiões, como S. Tomé e Moçambique, foram abafadas no embrião. A sublevação veio na sequência da Revolta da Farinha, numa conjuntura extremamente negativa ditada pelas sequelas da crise iniciada em 1929.
Mário Matos e Lemos, na altura adido cultural na embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, deu à estampa no número especial “Do Estado Novo ao 25 de Abril”, da Revista de História das Ideias, publicação anual do Instituto de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Vol. 17 – 1995), o artigo A “Revolução Triunfante”, Guiné – 1931. Questão em análise: o que se passou na Guiné, nessas três semanas revoltosas de 1931?

Quando na colónia foi conhecida a notícia da sublevação na Madeira, o Governador Leite de Magalhães, ordenou a prisão de três elementos que, em seu entender, deveriam apresentar maior grau de risco: o Capitão e Advogado Dr. Marcial Pimentel Ermitão e os Srs. Amílcar Dias e José Mota.
Acontece que os republicanos de Bissau e Bolama, alguns deles deportados por motivos políticos e eventualmente já contactados pelos revoltosos da Madeira, reuniram-se imediatamente e tomaram a decisão de se revoltarem. O Capitão e Engenheiro Júlio Lapa deslocou-se em 9 de Abril a Bissau a fim de conferenciar com o Governador Leite de Magalhães, dando conta das razões e intenções dos sublevados. O Capitão Lapa teria mesmo pedido ao Governador que, uma vez que o seu mandato praticamente terminara, entregasse o cargo, assim se evitaria a sublevação armada.

Leite Magalhães pediu uma moratória de 24 horas, a fim de telegrafar para Lisboa a solicitar indicação da pessoa a quem deveria entregar o governo. Não veio resposta e ele então pediu aos revoltosos que desencadeassem a ação para o dia 20, com o propósito de embarcar imediatamente para Lisboa. Sucede que Leite de Magalhães foi reconduzido; a revolução estalou na madrugada do dia 17. Civis que tinham chegado de Bissau, acompanhados pelo Capitão Lapa e por Almeida Júnior dirigiram-se para um local previamente combinado, aqui se fez a junção de civis e militares. Entraram na residência do Governo e comunicaram a Leite de Magalhães que a revolução triunfara. Recusada a intimação, os revoltosos declararam o Governador destituído. Os oficiais que não aderiram foram conduzidos sob prisão para o Armazém da Alfândega. Isto em Bolama. Em Bissau, o propósito era tomar a Fortaleza de S. José, o Comandante do Corpo de Polícia foi convidado a aderir ou a entregar-se, preferiu entregar-se. Os capitães Marcial Pimental Ermitão e José Joaquim de Oliveira Pegado e o Tenente Oliveira Lima tomaram conta da Fortaleza. Escrevia-se em O Comércio da Guiné de 18 de Abril: “Os populares que em grande número se agrupavam no largo fronteiro irromperam em vivas vibrantes à Pátria e à República Constitucional enquanto a força apresentava armas.

O Comité Revolucionário de Bissau mandou afixar em lugares públicos uma proclamação dirigida “ao povo da Guiné”, dando conta que ia ser constituída uma Junta Governativa de que fariam parte as individualidades mais prestigiosas da colónia. Enviaram-se telegramas a Carmona e aos outros governadores coloniais bem como aos governos militares da Madeira e dos Açores. Informaram-se dos cônsules da França e da Bélgica em Bissau de que se ia manter a ordem e o tráfego marítimo decorreria sem alterações. Constituiu-se a Junta Governativa, da qual se escolheu um Comité Executivo. Surgem medidas legislativas respeitantes à nova ordem política e o Boletim Oficial irá publicar o termo de posse do Dr. Monteiro Filipe, tenente-coronel médico, a mais destacada personalidade do Comité Executivo, teriam assistido ao evento funcionários portugueses, membros da pequena burguesia local, o ato fora firmado por ascendentes de várias famílias ainda hoje importantes ou conhecidas da Guiné, caso dos Cabral d’Almada, os Davyes, os Évora, os Pinto Bull bem como o funcionário e escritor Fausto Duarte. Abriu-se um crédito extraordinário de 100 mil escudos para custear as despesas do Movimento Revolucionário. Foram demitidos funcionários, mandou-se prender o gerente do Banco Nacional Ultramarino, o governador e outros oficiais que não tinham aderido iriam ser mandados para a Madeira. Leite Magalhães foi reencaminhado para Lisboa, recebido por Armindo Monteiro, Ministro das Colónias, este informou-o que iria reembarcar para a Guiné, na Madeira e nos Açores os revoltosos já tinham deposto armas. Entretanto, o Governo em Lisboa tomou disposições para dominar a revolta na Guiné: foi nomeado um novo encarregado do Governo, Major Soares Zilhão, encetaram-se conversações com o representante dos revoltosos, Dr. Santos Monteiro, para que os rebeldes abandonassem a colónia com liberdade assegurada. Os revoltosos, na sua maioria, não aceitaram esta proposta e escreveu-se mesmo: “Nós, os oficiais que retiramos, somos acima de tudo portugueses e ser-nos-ia muito penoso que, após a nossa saída e por virtude dela, se praticassem atos que poderão pôr em risco a nossa integridade e a soberania em África”. E escrevem ao Major Soares Zilhão assumindo completa e plena responsabilidade dos seus atos, apelando a que não fossem responsabilizados nem alvo de qualquer sanção vários militares e civis. Como escreve Matos e Lemos, avultou o caráter do Dr. Santos Monteiro que, nada tendo a ver com a preparação, nem a eclosão do movimento, mas como republicano que era, aceitou a hora da desgraça. Os revoltosos começaram a abandonar a Guiné a partir de 1 de Maio, a 6 já estava nomeado como encarregado do Governo José Alves Ferreira, a 8 o Major Soares Zilhão tomava posse do seu cargo. Era o fim da revolta, foram anulados todos os diplomas dos revoltosos. Muitos deles não tiveram problemas, caso de Fausto Duarte ou de Caetano Filomeno de Sá. Houve tratamentos de benevolência, outros foram encarcerados, outros partiram para o exílio e outros foram deportados. Monteiro Filipe, Santos Monteiro e Gabriel Teixeira foram demitidos das funções públicas.

Em finais de 1932, foi publicado o Decreto n.º 21.943 que concedia uma amnistia a muitos dos implicados em crimes políticos, mas que não se aplicava “àqueles que vão indicados na lista anexa a este Decreto e que dele fica fazendo parte integrante”. Essa lista continha 50 nomes de homens aos quais o regime não perdoava. Entre eles, quatro dos revoltosos da Guiné: Comandante Gonçalo Monteiro Filipe, Comandante de Engenharia Júlio Carlos Faria Lapa, Capitão Dr. Marcial Pimentel Ermitão e Dr. João dos Santos Monteiro”.

 Muro de defesa da cidade de Bissau, ou "parede de fogo", como então era conhecida (1908)

(Continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18123: Notas de leitura (1025): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (14) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 25 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18138: Notas de leitura (1026): A luta armada na Guiné reexaminada por Mustafah Dhada (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18152: (In)citações (112): Sobre a banda "Melech Mechaya": "Não fora a vertente cultural do blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné e eu teria perdido cerca de hora e meia de êxtase musical. Por serendipidade"... (Ernestino Caniço, médico, ex-alf mil cav, cmdt Pel Rec Daimler 2208, Mansabá, Mansoa e Bissau, 1970/71)



Lisboa > Tivoli BBVA > Melech Mechaya > 27 de Dezembro de 2017 > "LISBOA! Não temos palavras para descrever a noite de ontem, sentimos apenas uma alegria e gratidão imensas. Obrigado!". Foto da página do Facebook dos Melech Mechaya

Foto (e legenda): © Melech Mechaya (2017). Todos os direitos reservados [ Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de ontem do Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá, Mansoa e Bissau, 1970/71, e hoje médico, a viver em Abrantes:

Caro amigo Luís

Absorto.

É a expressão que me ocorre após ver o fantástico espetáculo dos Melech Mechaya no Tivoli. (*)

Não fora a vertente cultural do blogue Luis Graça &Camaradas da Guiné e eu teria perdido cerca de hora e meia de êxtase musical.

Por serendipidade.

Imperdível.

Parabéns à banda pelo excelente concerto que nos proporcionou.

Um abraço acrescido ao de ontem.

Ernestino Caniço (**)


2. Comentário do editor LG:

Ernestino: foi um duplo prazer, tu apareceres, como prometido, e podermos estar juntos no concerto desta banda festiva, em que um dos elementos é também um grã-tabanqueiro, amigo da Guiné, médico como tu, o João Graça. Estavas em Lisboa, com a tua esposa, também ela médica, e vocês fizeram questão de ver e ouvir ao vivo os "Melech Mechaya", numa noite fria, de chuviscos, dois depois dias depois das emoções do nosso Natal... pantagruélico!

Obrigado pelas tuas palavras que já transmiti ao grupo, e que muito os sensibilizou, a eles, que são a razão principal, mas também a mim, sobretudo pela tua amável referência à dimensão cultural (discreta...) do nosso blogue.

Além da Alice Carneiro e de mim próprio (que viemos de propósito do Porto...), de ti e da tua companheira, Maria Emília (perdoa-me se não fixei bem o nome..), ainda havia mais amigos e até camaradas da Guiné: vi (e estive lá com)  o camarada Carlos Silvério e esposa Zita (, um casal de Ribamar, Lourinhã, com casa também na Grande Lisboa), o nosso amigo, músico Mamadu Baio, da mítica tabanca de Tabató, que trouxe com ele mais dois amigos guineenses... 

E, dos meus amigos do peito, quero destacar aqui o meu "mano" José António Paradela, arquiteto e escritor, que veio com a família em peso... Outros houve, camaradas, como o Hélder Sousa que vive em Setúbal,e  que me manifestaram, ao telemóvel, que bem gostariam de estar ali, àquela hora, se pudessem... 

Obrigado a todos vós e demais s amigos que partilharam comigo este belo momento de alegria, música e poesia... que transcende genéros musicais e fronteiras.

Logo à noite, no Porto, na Casa da Música, terei por certo a oportunidade de "partir mantenhas" com eles e com mais alguns amigos e camaradas da Guiné.


PS - Um adicional obrigado ao Ernestino... pela palavra "serendipidade" que não constava do meu... léxico corrente. A gente, afinal, está sempre a aprender uns com os outros, aqui na Tabanca Grande:

serendipidade | s. f.
se·ren·di·pi·da·de
(inglês serendipity)
substantivo feminino


(i) A faculdade ou o acto de descobrir coisas agradáveis por acaso.
(ii) Coisa descoberta por acaso.
Sinónimo Geral: Serendipismo

"serendipidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/serendipidade [consultado em 29-12-2017].


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Notas dos editores:


(**) Último poste da série > 14 de setembro  de 2017 > Guiné 61/74 - P17765: (In)citações (111): Lembrando Setembro, o mês comemorável da Guiné, a sua Libertação, que intrujou todo o mundo e todo o mundo se deixou intrujar e os seus improváveis heróis (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil Cav da CCAV 703)

Guiné 61/74 - P18151: Memórias de Gabú (José Saúde) (68): 43 anos depois: lembrando os dolos em tempo de guerra. Três contos e novecentos que caíram numa emboscada. (José Saúde)

O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua série.


Memórias de Gabu

43 anos depois: lembrando os dolos em tempo de guerra

Três contos e novecentos que caíram numa emboscada

Depois de um silêncio que por motivos óbvios a que fui literalmente sujeito, pois vi-me obrigado a enveredar por outros trilhos por mim já conhecidos e que continuam a preencher-me a alma de prazeres indescritíveis, lançamento da minha última obra – AVC Recuperação do Guerreiro da Liberdade, Chiado Editora, e Aldenovense Foot-Bal Club ao Aldenovense Atlético Clube 1923 a 2016 - eis-me de regresso ao nosso blogue continuando a descrever espaventosos acontecimentos sob a minha comissão na Guiné.

É certo que estas pequeniníssimas histórias avulsas que vou deixando no nosso blogue, fazem parte de um todo numa guerrilha por nós vivida e que ainda recordamos. Recordações férteis em crenças onde entrelaçamos amizades e, por outro lado, rancores cruéis perante cenários que a nossa mente esconde. Dualidades que, afinal, se constituem como cunhos de uma guerra na qual fomos atores forçados.

Das muitas explanações que tenho trazido à estampa, debruço-me hoje sobre o não pagamento de uma importância que me era devida, mas que terá caído numa emboscada na agreste picada, sendo que o conteúdo do meu estridente grito de alerta passou a um espólio jamais por mim imaginado. Vamos ao relatório da cilada. 

O processo foi longo. Reclamei mas não fui ouvido. Andei pelos diversos corredores onde se movimentavam respeitosos senhores que cumpriam literalmente o missão do dever e da honra, alguns com galões dourados, outros com divisas, dirige-me a secretarias, empurraram-me para outras estâncias militares, andei de gabinete em gabinete, mas aquele assunto, diziam-me, não era ali e a verdade é que até ao presente não vi o rasto do dinheiro a que tinha efetivamente direito. Resumindo: três contos e novecentos que caíram pura e simplesmente no fornilho de uma armadilha.

Mas vamos diretos ao assunto: parti para a Guiné no dia 2 de agosto de 1973 e no final do mês recebi em solo guineense 2400$00, sendo que o que parecia normal, ou seja, os 3900$00, importância que ficava na metrópole, deveria ser entregue à minha saudosa mãe por vale de correio. Todavia, tal pagamento não foi consumado o que originou a minha natural reclamação.

Informado da falha, procurei de imediato colmatar a lacuna junto da secretaria em Gabu. Expressava o 1º sargento, homem que lidava com os dinheiros e que conhecia os meandros financeiros, que o problema não era dele. Concordei, obviamente. Dele não era certamente, mas não inviabilizou a sua disponibilidade na resolução do enigma. Um enigma que se arrastou pelos meses de comissão.

Neste contexto, o tempo foi-se consumindo e as minhas reclamações lá foram caindo num saco sem fundo. Admiti, ainda, que a história tivesse um final feliz. Mas, assim não foi.

Após o 25 de Abril, e aquando do nosso regresso à Metrópole, 9 de setembro, informaram-me para me dirigir ao quartel de Artilharia de Campolide, em Lisboa, e reclamar, pessoalmente, o débito em falta. Começou, então, uma outra guerra, não as dos tiros, mas de papelada já extraviada com o agoniar do tempo. Um tempo que já se proclamava de liberdade.

Fui algumas vezes a Lisboa, outras quando já trabalhava na capital, todavia a informação, sempre escassa, lá se foi diluindo em abstratos e difusos desfechos.

Cansado pela procura do meu justo direito, resolvi colocar um ponto final na reclamação e conclui que os truques hábeis da guerra falavam mais alto, abdicando, de uma vez por todas, em voltar à carga por um direito que me fora sonegado.

Admiti, ainda, que o vale emitido via CTT se tivesse extraviado, uma viabilidade provável e que entendi como admissível. Tanto mais que falamos de um tempo em que não era usual as transferências bancárias. Aliás, poucos ou nenhum dos camaradas atirados para as frentes de combate usufruíram dessa atual benesse.

Recordo que em termos contabilísticos a falha não existia, isto é, tudo estava nos conformes, logo, a minha reclamação era escusada.

Hoje, com os muitos anos passados, presentemente 43, o cómico acontecimento esmiúça-se entre um profícuo sorriso nos lábios e uma mente onde o perdão substancialmente criou raízes.

Jornadeando pelos trilhos da guerrilha de uma Guiné que continuo a recordar com um sentimento nostálgico, não obstante a distância temporal já constatada, assim como as múltiplas armadilhas conhecidas no terreno, o tempo da peleja deixou-nos imensas recordações e de diversas índoles que lembramos com saudade.

Coisas do tempo da guerra.

Um Bom Ano de 2018 para todos os camaradas!...

Abraço,  
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

7 DE ABRIL DE 2017 > Guiné 61/74 - P17220: Memórias de Gabú (José Saúde) (67): As minhas memórias de Gabu: A morte de um camarada (José Saúde)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Guiné 61/74 - P18150: Tabanca Grande (456): José Horácio da Cunha Dantas, ex-1.º Cabo At Art da CART 1742 - "Os Panteras" (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), natural de Lama, concelho de Barcelos. É o 765.º Grã-Tabanqueiro da nossa tertúlia

Emblema da CART 1742 - Os Panteras


1.  O nosso camarada Abel Santos enviou-nos a inscrição de mais um dos seus companheiros de armas para o nosso Blogue. Agora a do 1.º Cabo At Art, Apontador de Bazuca, José Horácio da Cunha Dantas, também ele da CART 1742 - "Os Panteras" - Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), nascido em 20 de Janeiro de 1946 na freguesia de Lama, concelho de Barcelos.

Este nosso novo amigo e camarada tem endereço de e-mail pelo que contamos com a sua colaboração na feitura da nossa memória colectiva de combatentes da Guiné.

Para ele o nosso abraço de boas-vindas
Os editores

 O 1.º Cabo At Art José Horácio Dantas da CART 1742


Ficha da CART 1742 

Reprodução da pág. 451 do 7.º Volume - Fichas das Unidades - TOMO II - Guiné, da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) - Edição do Estado-Maior do Exército - Comissão para o Estudo das Campanhas de África
(Com a devida vénia)

O editor
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18125: Tabanca Grande (455): José Parente Dacosta, ou 'José Jacinto', ex-1º cabo cripto, CCAÇ 1477 (Sangonha e Guileje, 1965/67)... Natural da Covilhã, vive em Dijon, França... Passa a ser o nosso grã-tabanqueiro nº 764

Guiné 61/74 - P18149: In Memoriam (309): Alf inf QP Augusto Manuel Casimiro Gamboa, CCAÇ 1586 (Piche, Nova Lamego, Canjadude, Madina do Boé, Béli, Bajocunda, 1966/68), nascido em São Tomé , morto em combate, em 14/12/1967, em Uelingará, entre Canjadude e Nova Lamego (José Martins / Virgílio Teixeira / António J. Pereira da Costa / José Corceiro)


Foto nº 1 > O alf inf Augusto Manuel Casimiro Gamboa, morto em combate, em 14 de dezembro de 1967 - Pertencia à CCAÇ 1586.

Foto: cortesia de Academia Militar > Alunos Mortos ao Serviço da Pátria > Campanha do Ultramar (1961-1974) > Alferes de infantaria Augusrto Manuel Casimiro Gamboa


Foto nº 2 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego >  c. 1967 > Foto de grupo: vários miliatres e população. Na primeira fila, sentados, aparecem à esquerda  o alf inf Gamboa (X), seguido do alf mil SAM Virgílio Teixeira.

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar_ Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


Foto nº 3 > Guiné > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5, "Gatos Pretos" (1968/70) > Parada Alferes Gamboa, no aquartelamento de Canjadude, frente ao edifício do Comando. Na base do mastro da bandeira existia uma placa gravada, em madeira, com a referida indicação.  Na foto, parte da Secção de Transmissões, 2º semestre de 1968.

Foto (e legenda): © José Martins  (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar_ Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


Juntámos aqui quatro textos e algumas fotos sobre o nosso camarada Augusto Manuel Casimiro Gamboa, um dos 75 alferes mortos no TO da Guiné, e sobre o qual até agora tínhamos escassas referências no nosso blogue. Agradecemos a pronta colaboração dos nossos camaradas José Martins, Virgílio Teixeira, António J. Pereira da Costa e José Corceiro. Connosco, aqui no blogue da Tabanca Grande, ninguém fica na "vala comum do esquecimento".


1.  José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70; nosso colaborador permanente), em mensagem de ontem:

O Alferes de Infantaria AUGUSTO MANUEL CASIMIRO GAMBOA, com o número 0741211 era natural da freguesia da Conceição, concelho de S. Tomé, em S. Tomé e Príncipe, filho de Augusto da Costa Gamboa e de Maria Isabel Casimiro Gamboa. [Foto nº 1 ]

Foi mobilizado no Regimento de Infantaria nº 2 (Abrantes) para a Companhia de Caçadores nº 1586, embarcando em 30 de julho de 1966.

Sob o comando do Capitão de Infantaria António Marouva Cera, foi colocado em Piche, Sector Leste, onde assumiu a responsabilidade do referido sector a 8 de agosto de 1966.

Cumulativamente passou a ter a função de subunidade de intervenção, tendo pelotões destacados em Nova Lamego de 10 de outubro a princípios de dezembro de 1966; Madina do Boé de 10 de fevereiro a 1 de maio de 1967; Béli de 25 de janeiro a 15 de abril de 1967.

A 6 de abril de 1967 foi transferido para assumir o subsector de Bajocunda.

O subsector temporário de Canjadude, criado em 28 de outubro de 1967 teve um pelotão da CCAÇ 1586 onde, oficialmente, se manteve até 4 de dezembro de 1967.

Deve ter sido aquando da retirada desta força de Canjadude, em direção a Nova Lamego que, cerca de 1 quilómetro a sul de Uelingará, a coluna foi emboscada, tendo sido morto o Alferes Gamboa, em 14 de dezembro de 1967. [Foto nº 3]

Foi inumado no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.


Foto nº 4 > Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > 14 de dezembro de 1967 > O cadáver do guerrilheiro do pAIGC, morto na emboscada que vitimou o alf inf Augusto Manuel Casimiro Gamboa.

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar_ Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


2. Virgílio Ferreira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), em mensagem de ontem:

Olá a todos,

Em relação ao Alferes Gamboa, eu tive vários contactos com ele, quer em Nova Lamego, ou até Piche, e possivelmente em Canjadude onde fui algumas vezes.

Aqui vai uma foto que tirei com ele, a última antes de ele morrer, agora me relembro, barbaramente assassinado [Foto nº2] . Foi por isso que o turra que apanharam no seguimento desse ataque, também foi maltratado, já depois de morto. Tenho a foto, uma delas, vou enviá-la para memória futura.
Foi o pessoal do pelotão de AML Daimler 1143, que 'trataram' dele. [Foto nº 4]

Eu tenho uma ideia de estar envolvido nessas viagens, e isso foi precisamente por volta de 14 de dezembro de 1967, estava lá há pouco tempo. Isto marcou-me, como é óbvio. Na foto aparece mais pessoal. O Gamboa está de chapéu de abas largas enroladas, eu estou ao lado dele.

Não sabia que era do QP, era um gajo porreiro a falar e conversar, levava tudo a brincar.


3. António José Pereira da Costa [, cor art ref, ex-alf art, CART 1692 / BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art e cmdt  das CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74):

Mensagem de ontem, às 22:01:



Olá, Camaradas

O Alf Gamboa era um ano mais antigo do que eu.

Sai da Academia Militar em outubro de 1967 e terá embarcado ou ainda em dezembro de 1967  ou no início de janeiro de 1968.

Na altura a morte dele foi muito falada. Soube-se que foi brutalizado, esperemos que depois de morto, e que lhe deixaram um galão em cima do peito.

Soubemos que foi numa emboscada, mas não soube mais pormenores.

Um Abraço
António J. P. Costa


4. Excerto de texto de Virgílio Teixeira, publicado  no poste P 18145 (**)

(...) Há uma história triste com o alferes inf Gamboa, da CCAÇ 1589, que também estava subordinada ao nosso comando. Num certo dia de dezembro eu estava para ir numa coluna a Piche, estivemos a conversar debaixo duma enorme árvore, e tenho uma foto desse momento, com ele e outros militares que seguiram mais logo. Depois por qualquer razão que desconheço, não me deixaram ir, e a coluna partiu para Piche.

Uma ou duas horas depois vem uma informação de uma emboscada com minas e a noticia que um dos mortos era o alf Gamboa. Foi um choque. Apanharam um turra que fez parte dessa emboscada e trouxeram-no para Nova Lamego já morto, foram os elementos do pelotão AML Daimler 1193 e foi exposto na praça pública. Tenho fotos dessa exposição pública, não sei se interessa mostrar isto. Sei que depois se fizeram algumas barbaridades e eu, apesar de fotografar alguma coisa, não participei nesse baile.

Nessa noite fizemos o velório do Gamboa, ele usava um chapéu de cowboy americano com as abas para cima [, Foto nº 2]. Foi uma grande perda, pois falamos algumas vezes. (...)


5. Excerto do poste de 8 de julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6698: José Corceiro na CCAÇ 5 (14): Emissor receptor AN/PRC-10

(...) Em Canjadude, em 1971, pode-se testemunhar o seguinte: Durante uma flagelação do inimigo ao Aquartelamento, no dia 21 de Julho de 1971 ao escurecer, o fogo do IN danificou as duas antenas horizontais existentes do AN/GRC-9, que estavam instaladas e suportadas pelos ramos do embondeiro grande, que estava ao lado do campo de futebol e de uma mangueira que estava junto da Parada Alferes Gamboa.

O nome desta Parada, era uma homenagem ao Alferes Augusto Manuel Casimiro Gamboa que,  segundo se dizia, já após o término da sua comissão de serviço na Guiné, perdeu a vida numa emboscada do IN, no dia 14 de Dezembro 1967, quando a coluna que o transportava de Canjadude para Nova Lamego sofreu um ataque, em Uelingará, entre Canjadude e Nova Lamego. 

Contava-se em Canjadude, que foi todo esquartejado no tórax para lhe arrancarem o coração, assim como o despojaram de todos os seus haveres). (...)
_______________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 7 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17942: In Memoriam (308): Nelson Batalha (1948-2017), um dos 15 "ilustres TSF" do meu curso, meu padrinho de casamento, meu grande amigo e camarada...Natural de Setúbal, ferido em Catió, e depois de 10 anos a lutar contra o Alzheimer, acaba de cambar o Rio Caronte... A título póstumo, passa a integrar a nossa Tabanca Grande, sob o lugar nº 759 (Hélder Sousa, régulo da Tabanca de Setúbal)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Guiné 61/74 - P18148: Feliz Natal 2017 e Melhor Bom Ano Novo 2018 (16): Rui Chamusco, Glória e Gaspar Sobral, fundadores da ASTiL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste... Para breve (um a dois meses) a inauguração da escola de Boibau, nas montanhas de Lorosae



Localização de Boibau, Manati, Liquiçá, Timor Leste (Fonte: cortesia de ASTiL, 27/12/2017)


1. Mensagem natalícia dos nossos amigos Rui Chamusco, Glória Sobral e Gaspar Sobral,  fundadores da ASTiL e membros da Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã (de que é régulo o nosso grã-tabanqueiro Eduardo Jorge Ferreirae conta, entre os membros ilustres, o nosso camarada da diáspora João Crisóstomo, que também tem apoiado a ASTiL]:


Neste dia de Natal, em que a bondade de Deus se encarna no Deus Menino e em que a bondade dos homens se multiplica em ações de solidariedade, quero pensar em todos os amigos, sócios, padrinhos e madrinhas ligados ao nosso projeto de solidariedade em Timor Leste, pedir a Deus que derrame sobre todos as suas bençãos e desejar-vos UM SANTO E FELIZ NATAL E UMAS BOAS FESTAS DE ANO-NOVO 2018. (*)

Esperamos em Janeiro/Fevereiro inaugurar a escola em Boibau (será a nossa grande prenda de Natal para as crianças desta localidade de montanha). Iremos dando notícias conforme a sua evolução. (**)

A todos o nosso muito obrigado pelo vosso apoio e carinho.

Que Deus vos pague todo o bem que fazeis. (O Menino Jesus, ainda que com sono, vos recompensará). Deus não dorme!...

Grande abraço!...

Rui Chamusco / Glória  Sobral / Gaspar Sobral


Glória Sobral
Rui Chamusco
[Rui Manuel Fernandes Chamusco: foi capuchinho e director dos seminários menores dos capuchinhos de Barcelos e Gondomar. Professor de português, filosofia e música na sua vida profissional depois de ter abandonado a ordem; é natural de Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã].

[Maria da Glória Nunes Lourenço Sobral: professora de geografia do 3º ciclo e do secundário; encontra-se actualmente aposentada por doença, exerceu várias funções de docência em várias escolas de Portugal; é natural de Malpaca, Sabugal; vive em Coimbra; é casada com Gaspar Sobral].


Gaspar Sobral
[Gaspar da Costa Sobral é timorense, embora cidadão português. Os seus antepassados são de Manati/Boibau, local actualmente pertencente ao Suco (divisão administrativa mais pequena do Estado de Timor-Leste) de Leotalá, distrito e subdisdrito de Liquiçá. Vive actualmente em Portugal com a Família. Maria da Glória, também fundadora da ASTiL, é sua esposa e é portuguesa.  Topógrafo aposentado e jurista, viveu e trabalhou em Angola até 1975.  Foi activista da causa de Timor-Leste até a independência em 20 de Maio de 2002. Militante durante boa parte da sua vida no Movimento Cristão para a Paz, onde desenvolveu actividades de apoio às famílias pobres e outras questões ligadas aos direitos humanos, e foi membro do IPJET (International Platform of Jurists for East Timor), e também, da Amnistia Internacional, Vive em Coimbra]

Guiné 61/74 - P18147: Feliz Natal 2017 e Melhor Bom Ano Novo 2018 (15): Anabela Pires, que vai voltar à Guiné-Bissau por quatro semanas, em 18 de janeiro...


Um Natal em Harmonia e um Feliz 2018, são os votos da Anabela Pires, ecologista, defensora da permacultura, e que nos manda um "cartanito" com a sua horta que dá de tudo (e que presumo que seja comunitária)...

Foto: © Anabela Pires (2017). Todos os direitos reservados [ Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem da nossa amiga e grã-tabanqueira Anabela Pires, com data de 22 do corrente




[Anabela Pires, nascida em Moçambique, técnica superior de serviço social no Ministério da Agricultura, reformada, amiga dos nossos grã-tabanqueiros Jero (Alcobaça), Alice Carneiro (Alfragide/Amadora), e do nosso saudoso Pepito, cidadã do mundo, "globetrotter", esteve três meses, entre janeiro e março de 2012, integrada, como voluntária, no projeto do Ecoturismo, da AD - Acção para o Desenvolvimento, e a viver em Iemberém; foi o golpe de Estado de 2012 que a obrigou a sair da Guiné-Bissau; vai lá voltar em 2018; tem 25 referências no nosso blogue, dela publicámos o "diário de Iemberém"; pacifista e feminista, ela não gosta que a gente lhe chame uma "mulher de armas"... mas é assim que a gente a vê, aqui da Tabanca Grande]


Queridos familiares, amig@s, ex-colegas, vizinhos ....

Hoje é dia de começar a preparar o Natal que passarei em Alcobaça com a minha irmã e sua família. Por razões profissionais os meus filhos não poderão estar presentes mas a 28 voarei até à Dinamarca para festejar o 2º aniversário do meu neto e a passagem de ano. 

Projetos para 2018: 

(i) dia 5 de Janeiro venho por aqui para levar os meus pertences para Coimbra e fazer a mala para ir a 18 quatro semanas à Guiné-Bissau; 

(ii) a 15 de Fevereiro regresso e começarei então a fazer o caminho de volta ao Algarve ao fim de 6 anos. 

Esta é a parte que vai ser mais complicada pois já me falta muito a paciência para arrumar e desarrumar, mas tem de ser. Bem, uma nova fase vai começar. Depois de colocar de novo todos os meus pertences no apartamento do Montenegro - o que vai levar tempo .... logo se verá o que vou fazer. 

Desejo-vos um Natal muito harmonioso e se possível muito alegre e que continuem todos em grande forma em 2018.

Reencontramos-nos em 2018? Desejo que sim! Em finais de Fevereiro estarei no Algarve muito embora depois ainda tenha de vir cá acima buscar caixotes e vasos.

Mil beijos e abraços para todos,
Anabela


P.S. Terminei ontem os meus trabalhos aqui na horta, a qual ficou conforme as fotos que mando em anexo [e de que se reproduz uma, acima]. Ainda falta plantar morangueiros Diamante e mais alfaces. As ervilhas de trepar, as favas, as cenouras, os espinafres, os canónigos (ou alfaces cordeiro) ainda não nasceram! Espero que chova! Colhi as últimas pastinacas (Cherovias ou Chírivias).

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Guiné 61/74 - P18146: Os nossos seres, saberes e lazeres (246): À sombra de um vulcão adormecido (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 26 de Outubro de 2017:

Queridos amigos,
Ponto final nos festejos do cinquentenário da arribação a S. Miguel. É bom ter como guia um jovem na casa dos 20 anos, desciam-se memórias, o jovem sorri com aquelas memórias que parecem histórias de encantar, o viandante fala de uma miséria que já não existe, a vida açoriana transfigurou-se na mobilidade e nas comunicações, na educação e na saúde, o que fica daquela passado é o perfil arquitetónico, uma crença religiosa sem paralelo, o gosto pelos jardins, uma hospitalidade sem rival, uma gastronomia de bivalves, queijos, pimentas, cozidos, estrugidos, queijadas e outras preciosidades conventuais.
Açorianidade é inquietação: emigração ou viagem, uma permanente saudade antes de partir, casas com rocha vulcânica, a humidade obsidiante, o roçagar da onda oceânica, uma maneira peculiar de permanecer e comunicar.

Um abraço do
Mário


À sombra de um vulcão adormecido (1)

Beja Santos


Aqui se põe termo final às festividades do cinquentenário do meu descobrimento de S. Miguel. Chegado em Outubro de 1967, regressei em Lisboa em Março de 1968, seguiu-se o Regimento de Infantaria n.º 1, na Amadora, dali sai com o labéu de “ideologicamente inapto para a guerra de contraguerrilha, mormente no Ultramar português, passei 26 meses na Guiné, no regresso voltei a Ponta Delgada, e com dulcificantes intermitências fui consolidando amizades e um afeto quase sobrenatural à região. Que melhor coroa de glória para o encerramento das festas que permanecer uma semana a fio no paraíso do Vale das Furnas? Foi o que aconteceu, segue-se o relato, uma verdadeira história de encantar.


A uma certa distância deste vale chegaram os primeiros povoadores à Povoação Velha, desbastaram mata e sentiam-se atraídos por um estranhíssimo fenómeno natural. Urbano de Mendonça Dias, numa edição de autor de 1936, exatamente com o título "História do Vale das Furnas", procura descrever a curiosidade e o temor dos primitivos povoadores: “Mas – uma língua de fogo – que por vezes aparecia estendida no espaço saído por detrás dos montes que lhes ficavam ao poente, do seu provisório acampamento, enchia-se, na verdade, de terror, se bem que ansiassem, ainda que com perigo, conhecer aquele fenómeno tão extraordinário que ocupava semelhante faixo de luz no céu”. Meteram ombros à obra, enveredaram pelo mato densíssimo com o padre capelão na vanguarda e avançaram para uma profunda cova que, pensaram, teria sido o assento de um altíssimo monte, e ali avistaram nuns sítios esbranquiçados e estéreis um vapor espesso, avermelhado, que parecia uma língua de fogo.


Subiram a cova, desceram ao vale, sempre riscando do caminho e descobriram uma bacia de vulcões – três sulfatares – e puseram-lhe nomes: Lagoa Escura, Lagoa Barrenta e Lagoa Grande. Estavam encontradas as furnas ou caldeiras e começava o escrutínio daquelas águas de sabor tão diferente que com o tempo foram metidas em três grupos: águas do sanguinhal, águas férreas, águas das quenturas e das grotinhas. Segundo Urbano de Mendonça Dias, sempre invocando a sapiência incontornável de Gaspar Frutuoso, foi assim que se descobriu e reconheceu este extenso vale, produto de várias erupções vulcânicas, fertilíssimo, verdejante, com as duas furnas formidáveis a vomitarem fogo e lama e água fervente.


Alguém lhe chamou “Rascunho do paraíso termal”, o que para o caso interessa é que os da Povoação Velha usaram o Vale das Furnas para pastoreio e propriedades. Ali por 1614, chegaram ermitas, foi sol de pouca dura porque a erupção vulcânica de 1630 queimou e assolou o Vale das Furnas. Aqui estiveram os Jesuítas, o local chamava-se Alegria, o viandante interroga-se se há alguma conexão entre este lugar e a igreja que tem hoje o nome de Nossa Senhora da Alegria. O que para o caso interessa é que o lugar ganhou fama edénica, que jamais perdeu, um cônsul norte-americano aqui fez casa e botou-lhe um tanque de água férrea, espaço que hoje pertence à Sociedade Terra Nostra, comprado aos herdeiros do Marquês da Praia e Monforte, em 1936, daí as linhas puríssimas Arte Deco do hotel. Para que a digressão e estadia ganhe alguma consistência, convém lembrar que o viandante saído do aeroporto foi regalar-se com bicuda grilhada no Borda d’Água, na Lagoa e foi rever uma paisagem esquecida, há decénios, a Caloura, aqui houve convento, recolhimento, aqui se pesca e se estadia numa atmosfera idílica.




Visitada a praia e o convento, alguém chama a atenção ao viandante que é do miradouro do Pisão que se desfruta a vista em anfiteatro da Caloura, vamos lá de seguida, tem-se muita sorte porque o céu não está forrado, nem minimamente plúmbeo, capta-se uma imagem do que é hoje um velho porto e um respeitadíssimo ermitério, da primitiva cristandade açoriana.


Pergunta alguém ao viandante: “Conhece o Santuário de Nossa Senhora da Paz?”. E a resposta veio humilde e sincera: “De certeza que não é do meu tempo, há cinquenta anos não estava cá”. Sobe-se ao Santuário, tem escadaria imponente, a primeira lembrança que vem à mente é a Senhora do Sameiro, mas aqui o desfrute impõe-se por que a Senhora da Paz tem plateia oceânica e um silêncio absoluto, derredor.



Não há estação do ano que não seja um cabaz de surpresas florais. Em pleno Outubro as bermas e os recantos aparecem marcados pela beladona ou bordões de S. José que aqui tem outro nome popular: “Meninos para a escola"; talvez porque a flor irrompa com o início do ano escolar, não se encontra outra explicação. E aqui se fica especado, a contemplar a formosura da paisagem, antes de partir para o Vale das Furnas, o acordado local de veraneio fora da época.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18112: Os nossos seres, saberes e lazeres (245): São Torpes, entre Sines e Porto Covo (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18145: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte V: Nova Lamego e São Domingos


Guiné > Região de Cacheu > São Domingos  > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  São Domingos

Foto 242 – O Dakota 655 a levantar voo da pista de S. Domingos, talvez em abril ou maio de 68. Os abastecimentos e as deslocações daquela zona eram feitas por avião ou barco, a via terrestre estava interditado. As fotos das aeronaves eram feitas em muitas posições, e o normal era captar o avião numa pequena vala, deitado e virado com a máquina para o ar. Tenho fotos espectaculares, espontâneas, inéditas. A visita do Dakota significava a vinda e ida de militares, e o correio, e os víveres frescos, armamento e munições urgentes.



Guiné > Região de Cacheu > São Domingos  > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  São Domingos

Foto 408 – É um impressionante pôr de sol, em São Domingos, 1968, época das chuvas, possivelmente entre maio e outubro. Tenho muitas destas, acho que parece o cogumelo da bomba atómica de Hiroxima e Nagasáqui. Para conseguir isto era preciso esperar às 6 horas da tarde, início da noite, e esperar a sorte para apanhar o sol e nuvens. Até merece ir para o concurso das melhores fotos!...


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAªÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Nova Lamego

Foto 727 – Esta é uma rua de Nova Lamego, já era uma cidadezinha com ruas e população, alguns civis brancos, mas muito poucos, e eram Libaneses comerciantes. A tropa ocupava vários edifícios, isolados uns dos outros, mas aqui era o centro das operações do sector Leste, comandado pelo nosso Batalhão, tínhamos sob o nosso comando 17 unidades, entre várias Companhias da metrópole, comandos locais, milícias, pelotões independentes num total de cerca de 3000 homens, espalhados por Madina do Boé, Beli, Cabuca, Piche, Canquelifá, Buruntuma, Pirada, e tantas outras. Aqui os abastecimentos também eram feitos por via terrestre, organizavam-se colunas de muitas viaturas, fazia-se o percurso de 70 km até Bambadinca, onde descarregavam no porto os nossos abastecimentos. Também me coube a mim comandar algumas destas colunas, nunca tivemos problemas de maior, tínhamos Bafatá pelo meio, e aquilo era mais ou menos seguro. Estivemos lá entre outubro de 67 e fevereiro de 68.



Guiné > Região de Gabu >Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >    Foto s/n > Coluna Nova Lamego-Piche. De pé, o alferes mil SAM Virgílio Teixeira.



Guiné > Região de Gabu > Piche > Foto s/n (já aqui publicada no poste P18095)


Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar_ Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



1. Esclarecimentos adicionais do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69):
´

Quanto ao assunto da foto de Piche, é assim:

Eu fiz uma pesquisa completa nos meus papéis e fotos e em especial pelo livro original que tenho da 'História da Unidade - BCAÇ 1933'. Neste livro está cá tudo que passou sob o comando do BCAÇ 1933, quer em Nova Lamego, em Bissau - um mês - e em São Domingos. 

Foram muitas unidades que no total não andam longe de 40 a 50, não vou contá-las agora. Parte das Companhias orgânicas, como a  CCAÇ 1792 foi um mês mais tarde e para outras zonas, e a CCAÇ 1791 andou por Farim etc, só a  CCAÇ 1790 esteve em Nova Lamego, mas a maior parte do tempo sob o comando doutro batalhão, BCAÇ 2832, salvo erro.

Faziam parte das Unidades sob o comando do nosso Batalhão de NL, a CCAV 1662, eles tinham um pelotão em Nova Lamego, e por isso fazíamos muitas deslocações entre estas duas unidades. Estive a ler ontem muita coisa à procura do Capitão da 1662. Realmente encontrei-o, é mesmo o Cap Mil António Sousa Pereira, e encontrei o nome dele nas páginas dos Louvores, recebeu um Louvor no dia 1-3-68 do Comandante do Batalhão, que nessa altura era o nosso Ten Cor Armando Vasco de Campos Saraiva, e foi feito mais ou menos na hora da despedida de Nova Lamego. O nosso Cap Sousa Pereira era um homem bem fixe, por isso eu gostava de ir lá, Não sei a qual Batalhão pertencia esta Companhia, eu julgo que era do BCAV 1915 que nós fomos render em Nova Lamego, mas não encontrei nada, inclusive no blogue da Tabanca Grande,  por isso não afirmo. 

Nunca mais osube deste camarada Capitão Sousa Pereira, pode ser que ele venha a ver a foto e dê sinais de vida, oxalá!

Curiosamente encontrei uma foto da autoria do alf mil médico Lema Santos, na hora do embarque, em 4 de agosto de 1969, mas tirada de terra para o mar, ao contrário das minhas, pois eu já estava no Uíge desde o dia anterior, e muita tropa também embarcou de terra no porto de Bissau, e foi essa que ele postou - é assim que se chama? - Pelos vistos ele anda por aí também na Tabanca Grande

Sobre a nossa foto, está à esquerda um Homem da terra, pertencia lá à religião cujo templo é o fundo da foto, depois temos o capitão [António Sousa Pereira, cmdt da CCAV 1622] o nosso médico, alf mil Lema Santos, eu,  Virgilio Teixeira, e ao meu lado direito um cabo do meu batalhão que me lembro bem dele, mas não sei o nome nem o que fazia em concreto na nossa companhia.


Alf inf Gamboa
Foto: Academia Militar,com a devida vénia 
Há uma história triste com o alferes inf Gamboa, da CCAÇ 1589,  que também estava subordinada ao nosso comando. Num certo dia de dezembro eu estava para ir numa coluna a Piche, estivemos a conversar debaixo duma enorme árvore, e tenho uma foto desse momento, com ele e outros militares que seguiram mais logo. Depois por qualquer razão que desconheço, não me deixaram ir, e a coluna partiu para Piche. 

Uma ou duas horas depois vem uma informação de uma emboscada com minas e a noticia que um dos mortos era o alf  Gamboa. Foi um choque. Apanharam um turra que fez parte dessa emboscada e trouxeram-no para Nova Lamego já morto, foram os elementos do pelotão AML Daimler 1143 e foi exposto na praça pública. Tenho fotos dessa exposição pública, não sei se interessa mostrar isto. Sei que depois se fizeram algumas barbaridades e eu, apesar de fotografar alguma coisa, não participei nesse baile. 

Nessa noite fizemos o velório do Gamboa, ele usava um chapéu de cowboy americano com as abas para cima. Foi uma grande perda, pois falamos algumas vezes. (***)


2. Continuação da publicação de um conjunto de fotos, selecionadas, do álbum do nosso camarada Vírgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) (*).

Cremos que o Virgílio Teixeira é o primeiro alferes miliciano SAM - Serviço de Administração Militar,  a integrar a nossa Tabanca Grande. É economista reformado.

Recorde-se que o nosso camarada Virgílio Teixeira passou o Natal de 67 em Nova Lamego, e o Natal e Fim de Ano de 68 em São Domingos (**)

O alf mil SAM Virgílio Terixeira
Como fez questão de partilhar connosco a sua vida militar, sabemos que o Virgílio Teixeira:

(i) entrou em Mafra, na Escola Prática de Infantaria (EPI),  em 3 de janeiro de 1967, ainda antes de completar os 24 anos de idade:

(ii) como habilitações lieterárias, tinha já os dois primeiros anos da Faculdade de Economia do Porto;

(iii)  ao fim de 9 meses, partíu de Figo Maduro em 20 de setembro desse ano num avião militar, com o comando avançado para render o outro batalhão., o BCAV 1915, que seguiu para Bula;

(iv) fez  o serviço no CTIG  como alferes miliciano, sendo a sua especialidade o serviço de  administração militar (SAM), portanto chefe do conselho administrativo do BCAÇ 1933, ou seja. o oficial mais perto do comandante de batalhão;

(v) não sendo  "operacional", não pode, por isso, "contar muita coisa sobre operações em concreto, embora tivesse feito muitas colunas militares de reabastecimentos, quer por rio ou por estrada, fazendo muitas patrulhas à volta dos aquartelamentos, e vivendo muitas vezes os bombardeamentos contínuos às nossas posições, pois como digo sempre, as balas e morteiros não traziam o código postal de destino, caíram muitas à porta do meu dormitório, da messe e em muitos outros lugares";

(vi) faz questão também de declarar  que dá "um valor enorme ao sacrifício das nossas tropas": "conheço,  por aquilo que leio agora, o que se passou e nós não sabíamos quase nada. Passaram mais de 40 anos até se perceber o que foi aquela guerra".

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 21 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18117: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte IV: Bissau, ponte-cais, 4 de agosto de 1969, no regresso a casa.. O fotógrafo estava lá em cima, no N/M Uíge, a ver chegar as lanchas LDG, LDM e LDP, carregadas de tropas vindas do interior e que encostaram ao navio... Vinha tudo ao molhe e fé em Deus!

(**) Vd. poste de 23 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18129: Feliz Natal 2017 e Melhor Ano Novo 2018 (10): Virgílio Teixeira, ex-Alf Mil SAM da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

(***) Augusto Manuel Casimiro Gamboa, alf inf. QP, morto em  14/12/67. Era natural de São Tomé e Príncipe. Está sepultado no cemitério do Alto de São João, Lisboa.

Ver  também poste de  poste de 29 de junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6658: Lista alfabética dos 75 alferes mortos no CTIG, 54 (72%) dos quais em combate (Artur Conceição)

Ver ainda poste de 8 de julho de  2010 > Guiné 63/74 - P6698: José Corceiro na CCAÇ 5 (14): Emissor receptor AN/PRC-10

(...) Em Canjadude, em 1971, pode-se testemunhar o seguinte: Durante uma flagelação do inimigo ao Aquartelamento, no dia 21 de Julho de 1971 ao escurecer, o fogo do IN danificou as duas antenas horizontais existentes do AN/GRC-9, que estavam instaladas e suportadas pelos ramos do embondeiro grande, que estava ao lado do campo de futebol e de uma mangueira que estava junto da Parada Alferes Gamboa. (O nome desta Parada, era uma homenagem ao Alferes Augusto Manuel Casimiro Gamboa, que segundo se dizia, já após o término da sua comissão de serviço na Guiné, perdeu a vida numa emboscada do IN, no dia 14 de Dezembro 1967, quando a coluna que o transportava de Canjadude para Nova Lamego sofreu um ataque, em Uelingará, entre Canjadude e Nova Lamego. Contava-se em Canjadude, que foi todo esquartejado no tórax para lhe arrancarem o coração, assim como o despojaram de todos os seus haveres). (...)