sábado, 24 de outubro de 2009

Guiné 63/74 - P5155: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (3): Ninguém ficou para trás

1. Mensagem de José Eduardo R. Oliveira*, ex-Fur Mil da CCAÇ 675 (Binta, 1964/65), com data de 21 de Outubro de 2009:

Caro Luís
Estou em casa sozinho porque chove lá fora.
Mas não não durmo na forma.

Vi há pouco um programa de televisão que me impressionou muito.

Depois de leres o anexo vais perceber a frase segiunte:
Se houvesse mais alguns ou algumas como a Conceição ninguém ficaria para trás!

Um grande abraço.
JERO


NINGUEM FICA PARA TRÁS

Ninguém fica para trás é um tema e um título que diz muito aos ex-combatentes.
De vez em quando as televisões e jornais do País pegam nele.
No que nos diz respeito confessamos que nem sempre os compramos. Se é jornal damos uma vista de olhos… Se é televisão dou-lhe uns segundos e se não me agrada passo à frente!

Desta vez fiz uma excepção e não me arrependi.
Está de chuva e estava em casa na tarde de 4.ª Feira, 21 de Outubro.

Por volta das 16H00 passei pela SIC e vi a Fátima Lopes (jornalista que aprecio particularmente pela sua componente humanista) que entrevistava e deixava falar uma senhora de quarenta e poucos anos, que tratava por Conceição.
Rapidamente percebi que se falava da recuperação dos corpos (das ossadas!) dos três pára-quedistas de Guidaje mortos em combate em Maio de 1973.


A Conceição é arqueóloga e nessa qualidade integrou a operação de resgate que teve lugar no Verão de 2008.
A dignidade e coragem com que falava da identificação das ossadas do seu irmão deixaram-me pregado à cadeira… e extremamente comovido.

"Estavam 45 graus de temperatura.Trabalhava perto de uma colega antropóloga. Nunca senti calor, sede ou fome. Sentia-me tranquila e calma. Esperava um “sinal” e aconteceu. Numa comunidade científica eu não podia confessar que esperava “um sinal dó meu irmão"…

As campas já tinham descobertas graças a um velho mapa, e ao equipamento do geofísico, que tinha detectado sinais no subsolo.
À medida que as escavações avançaram, confirmou-se a presença dos esqueletos daqueles soldados e… mais alguns.

Afinal eram 10 campas.

"Ao escavar a quarta campa encontrei uma pequena pedra vermelha muita suja de terra. Limpei-a como arqueóloga mas quando percebi que tinha o feitio de um coração…agarrei-a com mais força. Ali estava “o sinal” do meu irmão! Sem confessar o meu palpite dei a pedra à colega antropóloga e disse-lhe que, depois de identificado o ocupante daquela campa, esse “coração” devia ser entregue à família.
Em Guidage estavam quatro antropólogos, uma arqueóloga, um geofísico, e quatro militares que tinham combatido naquela região, há 35 anos, durante a guerra colonial.
Em 23 de Maio de 1973 tombaram em combate, alem dos três paraquedistas outros cincos militares portugueses e três guineenses
".[1]

"Veio-se o confirmar que as ossadas do meu irmão eram mesmo as da quarta campa, a que tinha o “coração” de pedra, de cor vermelha.
E tive direito a trazê-lo comigo. E hoje uso-o, pendurado num fio de ouro, ao peito. Junto do meu coração
»".

Não era só a entrevistadora que estava comovida. De vez em quando as câmaras focavam a assistência e parecia que as pessoas nem respiravam

Os 3 pára-quedistas que morreram em Maio de 1973 regressaram às suas terras natal um mês depois da Conceição ter voltado da Guiné. No Verão de 2008. Eles e as ossadas dos outros sete militares.

"Não iríamos deixar ninguém para trás", disse convictamente a Conceição.

Finalmente tiveram eles – e as suas famílias - direito a um funeral. Com honras militares e com o preito e homenagem de antigos combatentes.

"As cerimónias fúnebres, com salvas de tiros de canhão impressionaram-nos muito. A minha mãe, hoje com 83 anos, sofreu muito. Mas conseguimos finalmente fechar um capítulo que tinha de ser escrito.
O meu irmão repousa junto de nós
"

E Conceição termina o seu depoimento dizendo:

"Quero participar em mais missões de resgate. Tem que haver vontade de fazer regressar às suas terras natal os militares que morreram na guerra colonial."

[1] O Início do ataque do PAIGC ao quartel de Guidage, no Norte da Guiné deu-se em 8 de Maio de 1973.
Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, as forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidaje contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidaje esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122mm, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos".
In “Correio da Manhã”, 27 de Julho de 2008



E agora dizemos nós:
Ninguém fica para trás!?
Infelizmente alguns ficaram.
A saga dos pára-quedistas de Guidaje poderia – e deveria – ser o mote para os representantes do Estado Português tratarem com os governos da CPLP(Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) da transladação condigna dos restos mortais dos militares que caíram em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Custará dinheiro? Obviamente.
O nosso Ministério da Defesa não terá disponibilidades para tal!? Sabemos a resposta antecipadamente… Mau grado o interesse… por constrangimentos orçamentais… etc., etc.

Deixamos uma sugestão.
A recente Lei n.º 3/2009, a tal que passou o CEP para SEP, não terá criado algum reforço e/ou disponibilidade orçamental!?

A nossa sugestão é a seguinte. Já que estão com a mão na massa apliquem os valores disponíveis para pagar uma divida de honra que têm com os antigos combatentes.

Há mais de 30 anos que muitas famílias portuguesas esperam o regresso dos seus soldados, da guerra colonial. O Estado português enviou-os para a frente de combate, mas não resgatou os corpos de quem morreu na guerra.

Providenciem pelo seu regresso.
Para que um dia... possamos dizer... finalmente:

Ninguém ficou para trás

JERO
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 19 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5134: Blogues da Nossa Blogosfera (20): JEROALCOA.BLOGSPOT.COM, de José Eduardo Oliveira

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5054: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (2): Ponte para o regresso

Guiné 63/74 - P5154: Meu pai, meu velho, meu camarada (19): Cabo Verde, 1942: Plano de defesa do arquipélago, de Santos Costa (José Martins)

Cabo Verde > Ilhas do Barlavento > Ilha de São Vicente > 2006 > Ponta João Ribeiro > Restos do sistema de defesa construído durante a II Guerra Mundial. A Ponta João Ribeiro fica hoje a 3 km da cidade do Mindelo. Em frente, a uns escassos 600/800 metros, situa-se o ilhéu dos Pássaros.

Foto: © Pedro Marcelino / Lia Medina (2009). Direitos reservados


Cabo Verde > Ilha de Vicente > Porto do Mindelo > Dois paquetes de cruzeiro atracados no porto, o ilhéu dos pássaros e o Monte Cara ao fundo

Foto: Cortesia de Nelson Herbert (2009). (Editado por L.G.)


1. Mensagem do nosso camarada, amigo e assíduo colaborador do nosso blogue, José Martins, ex-Fur Mil Trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70, técnico ofical de comtas, residente em Odivelas:


Boa tarde camaradas

Tendo em conta os vários postes sobre a matéria com fotos históricas
em 2009 (Março – 4059; Setembro - 4926, 5019, 5021, 5022 e 5029; Outubro - 5101 e 5109… estes foram os que detectei) (*) , junto texto colhido no espólio do Arquivo Histórico Militar.

Se entenderem que tem relevância, avancem. Poderei também avançar, já que estou a analisar alguns escritos sobre a matéria, sobre o que levou Portugal a entrar (sem entrar) na 2ª Guerra Mundial.

Um abraço
José Martins


2. Documentos > PLANO DE DEFESA DE CABO VERDE (1942)

Despacho de Fernando Santos Costa, Sub-secretário de Estado da Guerra



Aprovadas as presentes directivas para a organização do Plano de Defesa de Cabo Verde com as restrições:

a) As forças metropolitanas destacadas para reforçar a guarnição militar da Colónia de Cabo Verde destinam-se exclusivamente à defesa das Ilhas do Sal e de S. Vicente [ Ilhas do Barlavento].

b) À ilha de S. Tiago [, Ilha do Sotavento, com a capital, Praia,] são apenas afectas 2 companhias de caçadores indígenas da Colónia que deverão ser rapidamente colocadas em estado de completa eficiência.

Na hipótese de a Colónia não poder tomar à sua conta todas as despesas com a sua guarnição militar privativa, o Ministério da Guerra tomará sobre si parte dessas despesas.

Procurar-se-á prover num oficial superior da arma de infantaria (major ou tenente-coronel) o comando militar da Ilha de S. Tiago que, simultaneamente, exercerá o comando das 2 companhias indígenas de caçadores. É aconselhável que as despesas com este comando corram por conta da Colónia mas, havendo dificuldades, o Ministério da Guerra tomará à sua conta o encargo.

c) A guarnição militar da Ilha de S. Vicente é constituída pelas tropas ali presentemente estacionadas, reforçada, logo que seja possível, com uma bateria de artilharia de campanha de 75 mm. A bateria antiaérea de 40 mm será elevada a 6 peças logo que as disponibilidades em material o possibilitem.

d) Para a Ilha de Santo Antão não poderão ser deslocados da Ilha de S. Vicente efectivos superiores a uma companhia de atiradores reforçada com um pelotão de metralhadoras pesadas e uma secção de morteiros de 81 mm. Visto não ser possível reunir nesta Ilha efectivos que garantam a sua defesa integral em todas as circunstância devemos apenas contentar-nos com a vigilância do canal em frente do Porto de S. Vicente, tendo como base principal a ocupação de CARVOEIROS.

e) A guarnição da Ilha do Sal será constituída por um Regimento de Infantaria a dois batalhões e uma bateria A.A. [antiaérea] de 40 mm provisoriamente a 4 peças, mas elevada a 6 logo que o permitam as disponibilidades em material. Não sendo possível por dificuldades de reabastecimento ou de vida manter na Ilha os dois batalhões do regimento deve ali ficar apenas o comando do regimento e um batalhão transferindo-se o outro batalhão para a Ilha de Santo Antão, onde permanecerá durante oito meses, recolhendo então a S. Vicente todas as tropas da guarnição desta Ilha.

Nesta hipótese o conceito de ocupação da Ilha de Santo Antão deve prever a vigilância da sua zona Norte e Noroeste e a defesa a todo o custo da sua zona Sul. Em contrapartida o conceito de defesa da Ilha do Sal deve modificar-se no sentido de ser apenas defendido a todo o custo o planalto da zona do aeródromo vigiando-se com elementos não superiores a um pelotão de atiradores cada um dos portos de Santa Maria MARIA e Pedra Lume.

As tropas que guarnecem a Ilha do Sal não devem manter-se na Ilha por um período de duração superior a oito meses. Para esse efeito o Comandante Militar da Colónia fica autorizado a trocar entre si os batalhões e as baterias das guarnições da Ilha de S. Vicente e Sal, bem como as formações de comando dos 2 regimentos se tal se mostrar conveniente. Na hipótese de vir a verificar-se que na Ilha do Sal não pode ser mantido mais que um batalhão a troca far-se-á então no que respeita à Infantaria apenas entre os 2 batalhões do regimento, começando pelo batalhão do Regimento de Infantaria nº 11.

f) Por falta de elementos não é possível destacar para o arquipélago forças de aeronáutica.

g) O Ministério da Guerra procurará assegurar por meios próprios os transportes militares entre as Ilhas do Sal e de S. Vicente bem como o transporte de água entre as Ilhas do Sal e de S. Vicente, bem como o transporte de água entre as Ilhas de Santo Antão e S. Vicente.

h) Procurar-se-á manter no Arquipélago reservas de munições e de combustíveis para dois meses e de víveres para um período de quatro a seis meses.

i) Dever-se-ia procurar instruir na Arquipélago pessoal indígena para pelo menos um ou dois batalhões de infantaria. Concorrer-se-ia para atenuar a crise económica do Arquipélago e, simultaneamente, poder-se-ia ulteriormente substituir por pessoal indígena o pessoal europeu de dois batalhões.

Em qualquer hipótese será sempre possível contar com uma importante reserva de mobilização para a defesa da Ilha.

j) As relações de dependência em todas as circunstâncias entre o Comandante Militar da Colónia, o Governador e o Ministério da Guerra são as estabelecidas no Decreto-lei nº 32.157 da 21 de Julho findo.

Lisboa, 12 de Agosto de 1942

O Sub-secretário de Estado da Guerra

(A) – Fernando Santos Costa (**)


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Notas de J.M. / L.G.:

(*) Vd. postes de:

15 de Outubro de 2009 >Guiné 63/74 - P5109: Meu pai, meu velho, meu camarada (18): Do Mindelo a... Bambadinca, com futebol pelo meio (Nelson Herbert / Luís Graça)

12 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5101: Meu pai, meu velho, meu camarada (17): Ilha de S. Vicente, S. Pedro, 1943: Armando Duarte Lopes (Nelson Herbert)

29 de Setembro de 2009 >Guiné 63/74 - P5029: Meu pai, meu velho, meu camarada (16): Expedicionário no Mindelo, S. Vicente,1941/43,1º Cabo Inf Luís Henriques (3) (Luís Graça)

28 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5022: Meu pai, meu velho, meu camarada (15): Expedicionário no Mindelo, S. Vicente,1941/43,1º Cabo Inf Luís Henriques (2) (Luís Graça)

27 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5021: Meu pai meu velho, meu camarada (14): Expedicionário no Mindelo, S. Vicente, 1941/43, 1º Cabo Inf Luís Henriques (1) (Luís Graça)

27 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5019: Meu pai, meu velho, meu camarada (13): Mindelo, ontem e hoje ( Lia Medina / Nelson Herbert / Luís Graça)

9 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4926: Meu pai, meu velho, meu camarada (12): 1º cabo Ângelo Ferreira de Sousa, S. Vicente, 1943/44 (Hélder Sousa)

20 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4059: Meu pai, meu velho, meu camarada (1): Memórias de Cabo Verde, São Vicente, Mindelo, 1941/43 (Luís Graça)
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(**) FERNANDO DOS SANTOS COSTA (1899-1982)

Militar e político que foi figura destacada do regime salazarista. Entre 13 de Maio de 1936 e 6 de Setembro de 1944 ocupou o cargo de Subsecretário de Estado no Ministério da Guerra, de cuja pasta era titular o próprio Presidente do Conselho, Salazar, a quem sucederá à frente do Ministério da Guerra entre 6 de Agosto de 1944 e 2 de Agosto de 1950. Quando a pasta da Defesa substituiu a da Guerra, manteve-se à frente do novo Ministério até 4 de Agosto de 1958, data em que foi afastado do governo. Em 1961 foi promovido a General. (JM)

Vd. a publicação Correspondência do General Santos da Costa (1936-1982). Organização e prefácio: Manuel Braga da Cruz . Editora: Verbo, Lisboa, 2004,

"O General Fernando Santos Costa foi um dos mais estreitos colaboradores de Salazar e um dos mais longevos ministros dos seus governos. Ao longo dos 22 anos que esteve no Governo, onde ocupou os cargos de subsecretário de Estado da Guerra e de ministro da Guerra e da Defesa, foi a figura mais importante do regime junto do Presidente do Conselho de Ministros. Principal fautor da reestruturação das Forças Armadas e da sua subordinação ao poder político, Santos Costa participou ao lado de Salazar, de modo decisivo, na formulação da política de guerra, desde o deflagrar da Guerra Civil de Espanha até ao início da Guerra Fria, depois do termo da II Guerra Mundial ***), assumindo desse modo relevante papel não só nacional como internacional. A documentação que se reúne nesta obra, com prefácio de Manuel Braga da Cruz, contribuirá seguramente para uma maior compreensão da personalidade de Santos Costa e de suas ideias e orientações políticas"


(***) Portugal e a II Guerra Mundial - Cronologia breve (LG):

1939

17 de Março - Assinado por Salazar e Franco o Pacto Ibérico, Tratado de Amizade e Não Agressão

1 de Setembro - Invasão alemã da Polónia. Início da II Guerra Mundial. Portugal, no dia seguinte, declara a sua posição de neutralidade no conflito europeu.

1940

Começam a afluir a Portugal dezenas e dezenas de milhares de refugiados, na sua maioria judeus, e nomeadamente em trânsito para os EUA.

6/7 de Junho - A Alemanha invade a França que irá capitular. Reafirmação da "estrita neutralidade" de Portugal. Conhecimento dos planos (secretos) da "Operação Félix" (invasão de Espanha e, eventualmente, Portugal, para a conquista e ocupação de Gibraltar, vital para o controlo do Mediterrâneo). Os ingleses fazem todos os esforços para manter a neutralidade da Península Ibérica.

Dezembro - Plano de retirada do governo português para os Açores na hipótese (temida pelos ingleses e levada a sério por Salazar) de invasão do país pela Alemanha e pela Espanha. O arquipélago dos Açores chegará a ter quase 3 dezenas de homens em armas, com equipamento inglês.

1941

22 de Junho – A URSS é invadida pela Alemanha. Aumenta a germanofilia em Portugal. nomeadamente. Estreitam-se os laços económicos com a Alemanha.

Dezembro - Declaração de guerra dos Estados Unidos contra as pptências do Eixo, após o ataque japonês a Pearl Harbour. Reforça-se em Portugal o receio de ocupação, pelos Aliados, das ilhas atlânticas. Aumenta a importância estratégica dos Açores.

Em 1941 Portugal perde 4 navios, três dos quais da marinha mercante, incluindo o Cassequel, de 122 m, da Companhia Colonial de Navegação. No final do conflito, terã perdido 18 mil t, o equivalente a 7% do total da arequeação bruta

1942

Março - Racionamento de bens essenciais, na sequência de Bloqueio económico imposto pelos Aliados. Portugal é obrigado a aceitar, no verão desse ano, um acordo comercial favorável aos interesses do seu velho aliado que lhe garante a independência da metrópole e das ilhas adjacentes bem como a soberania das colónias.

Novembro/Dezembro - A sorte das armas começa a virar-se para os Aliados.

1943

Janeiro - Capitulação dos alemães em Estalinegrado.

Maio – Queda da Tunísia a favor dos aliados. Ameaça sobre os Açores, vital para o abastecimento de aviões provenientes da América. Negociação com os ingleses e depois com os americanos.

Agosto - Cedência das bases das Lajes, nos Açores. O Governo Britânico compromete-se a dar apoio e auxílio militar a Portugal, em caso de ataque. Modernização das nossas Forças Armadas.

Junho - Portugal cancela a exportação do volfrâmio, face ao braço de ferro mantido com a Inglaterra. O principal cliente deste minério, essencial para a indústria de armamento, tinha sido a Alemanha.

1944

Maio - II Congresso da União Nacional. Delineada a estratégia de sobrevivência do regime de Salazar.

6 de Junho – O tão esperado Dia D (Desembarque nas praias da Normandia pelas forças aliadas).
Novembro - Acordo (secreto) de concessão de facilidades militares nos Açores, assinado por Portugal e os Estados Unidos.

1945

30 de Abril – Morte de Hitler em Berlim. Três dias de luto oficial decretados pelo governo português.

Maio – Capitulação das tropas alemãs.

6 e 9 de Agosto - Lançamento de bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui, que irão apressar a rendição japonesa (a 2 de Setembro)

27 de Setembro – O território de Timor volta à administração portuguesa, depois da ocupação japonesa (mas também australiana e holandesa).

Guiné 63/74 - P5153: Controvérsias (38): Afinal quem saiu derrotado na guerra da Guiné? (José da Câmara)

1. Comentário de José da Câmara, ex-Fur Mil da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56, Guiné, 1971/73, deixado no dia 23 de Outubro de 2009 no poste 5139*:

Caros camaradas,
Mais uma vez fomos espicaçados por um livro (que não li) que nos dá como derrotados na Guerra da Guiné.
Juntamos a isso um comentário que, para além de mal educado, não debate a teoria do artigo, e opta pelo insulto.

Matar o mensageiro não elimina aquilo que, sem se compreender bem porquê, alguns desses guerreiros do ar condicionado continuam interessados em divulgar: as inverdades da nossa guerra.
As atitudes derrotistas de alguns desses senhores ofendem, a avaliar pelos comentários, muitos de nós que nos interessamos por estas coisas.

Então, se nós perdemos a guerra, ou estávamos em vias disso, porque permitiram que nós continuássemos a matar e a morrer depois?
Será que, por isso mesmo, lhes tenho que chamar cobardes e assassinos?
Não o farei porque isso não trará de volta o soldado da minha Companhia, único amparo de uma mãe viúva e de uma irmãzinha de dez anos de idade. E, como ele, muitos outros que empaparam com o seu sangue o solo da Guiné.

Não o farei porque isso seria dar importância demais a alguém que, por obrigação e ética militares, tinha o dever de, no mínimo, contar a verdade. É na verdade que está a nossa honra, enquanto filhos de Portugal.

Não, senhores da guerra, se alguém saiu derrotado daquela contenda foram os senhores: porque não nos respeitaram na altura da guerra e, hoje, ofendem-nos.
Todos nós sabemos que um dos grandes problemas que nós tinhamos era a fixação de quartéis facilmente identificavéis. As nossas saídas eram vigiadas e, em muitos casos, até seguidas. Para o PAIGC era fácil atacar-nos.

Em contrapartida nós não tinhamos essas possibilidades em relação ao nosso inimigo. Tínhamos que trabalhar, e muito, para atingir os nossos objectivos, os nossos sucessos, que foram muitos.

Perguntas legítimas que podemos fazer aos senhores que nos ofendem:

1 - Quantos quartéis nossos foram tomados pelo PAIGC?
2 - De quantas zonas foram as nossas tropas expulsas pelo PAIGC?

Depois, comparem as vossas respostas com aquelas que têm para as seguintes perguntas:

1 - Quantos acampamentos IN foram tomados, melhor dizendo, passados a pente fino pelas nossas tropas?
2 - Quantas zonas de acção foram limpas pelo PAIGC?
3 - Onde e quando foram as nossas tropas impedidas de actuar no TO da Guiné?

Tenho a certeza que o prato da balança favorece, e de que maneira, o lado das nossas tropas.

Um abraço,
José Câmara
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 15 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5111: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (8): Guerras palacianas

Vd. último poste da série de 24 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5151: Controvérsias (30): O despertar dos Combatentes (Mário Pinto)

Guiné 63/74 - P5152: Em busca de... (100): Informações sobre António Vieira, 1º Cabo RT COMANDO - 15ª Companhia de Comandos (Valdemar Pinto)

1. De um nosso leitor e Amigo, Valdemar Pinto, ex-Soldado Pára-quedista, recebemos a seguinte mensagem em 19 de Outubro de 2009:

APELO

Olá Camaradas,

Sou ex-Soldado Pára-quedista, tenho 49 anos, e procuro informações, fotografias e tudo o que diga respeito ao meu tio, morto em combate na Guiné.

Dados dele:
António Vieira
1º Cabo RT COMANDO
NIM: 03161466
15ª Companhia de Comandos
Morto em 30-08-69

Ele para mim era mais do que um tio, não há palavras para descrever o que sinto por ele.

Sei que cá na terra jamais o encontrarei, mas noutra vida eu tenho a certeza que o verei.

São 40 anos sem o ver, pode ser uma parvoíce minha, mas há 40 anos atrás disse para mim mesmo que havia de ir para a guerra para vingar a morte dele...

Coisas de criança, tinha apenas 9 anos, mas foi sempre o meu sonho ir ao Ultramar.

Deu o que deu.

Obrigado pela atenção deste camarada Pára-quedista.

Envio uma foto dele.

Um abraço,
Valdemar Pinto

Foto: © Valdemar Pinto (2009). Direitos reservados
Guião de colecção: © Carlos Coutinho. Direitos reservados
___________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5151: Controvérsias (37): O despertar dos Combatentes (Mário Pinto)


1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos a seguinte mensagem:


Camaradas,

Hoje não abri o meu baú de memórias, mas escrevi este texto com suporte em memórias e actualidades, acerca de uma matéria que tem estado na ordem do dia, todos os dias, que é a triste e lamentável situação e tratamento dado aos ex-Combatentes, que dedico especialmente à nossa juventude e ao qual dei o título:

"O DESPERTAR DOS COMBATENTES"


Pelo que me é dado constatar, ao longo dos últimos 35 anos, pelas análises de vários depoimentos nossos, como ex-Combatentes e dos nossos comportamentos sociais, creio que posso afirmar, sem muita margem de erro que, na generalidade, quando terminamos as nossas comissões em terras de além-mar, interiorizamos e guardamos, reservadamente, a matéria relativa às recordações das nossas comissões, nos nossos “ficheiros” cerebrais do silêncio e do esquecimento.

Um silêncio que permitiu, em muitos casos, o esquecimento de partes, ou num todo, das vicissitudes e agruras dos vários meses de privações, doenças, angústias, receios, medos e, pior que tudo, o sofrimento e a dor, de vermos e sentirmos o sangue derramado pelos nossos mais infelizes Camaradas, que pereceram e ficaram severamente estropiados em combate, nas minas, nos fornilhos, em acidentes, etc.

Valeu-nos sempre, para ultrapassar os piores momentos, os indescritíveis e imortais elos de sã amizade e fraterna camaradagem, que unia os Homens de cada equipa, de cada pelotão, de cada Unidade.

Lentamente, nos últimos tempos, denota-se uma evolução (na minha opinião pessoal muito positiva para todos nós), no despertar das consciências, surgindo aqui e ali a narração dos nossos feitos militares, aqui no blogue, em simples conversas de café, em entrevistas, documentários, livros… as nossas histórias pessoais, daqueles tempos conturbados que agora, com maior ou menor custo, começamos a recordar e a editar.

As gerações mais novas, que felizmente não tiveram que passar pelas provas de maturidade e privações, que nos foi imposta pelo regime de então, chama-nos “cotas”, muitos deles completamente alheios e indiferentes ao nosso passado bélico, graças, fundamentalmente, à fraquíssima qualidade da maioria dos média que temos e ao ostracismo a que fomos votados pelas classes políticas pós “abrilistas” e vigentes.

Numa época de serviço obrigatório militar, sabíamos que o destino da maioria era África, G3 nas mãos, combater os rebeldes (turras na gíria militar da altura), para defendermos o território nacional, que, como portugueses que somos, herdamos de vários séculos de descobrimentos e conquistas dos nossos ousados e valentes antepassados, de que, na generalidade, nos orgulhávamos e nos era ensinado a amar e estimar, desde os bancos das escolas.

Entre nós, também haviam jovens mais politizados, que não concordavam com a política de confronto armado seguida para as ex-Colónias, pelo regime dominante, mas, mesmo assim, lá seguiam integrados em contingentes com destino ao Ultramar, imbuídos de um pensamento: a guerra toca a todos.

Uns tantos, mais convictos, radicais, cobardes e medrosos, fugiam às suas obrigações castrenses, refugiando-se em países, que contestavam politicamente as nossas guerras em África, nada se importando com aqueles seus Amigos e conhecidos que em Àfrica, na guerra, podiam precisar da sua colaboração, tentando sobreviver.

Houveram alguns que, inclusivamente, pactuaram com os nossos inimigos (não os vou agora aqui adjectivar), colaborando em vários aspectos contra nós.

Na guerra, nós vivemos entre a sobrevivência, a confusão e o ódio, passámos, como já tinha dito, momentos de grande sofrimento, dor, angústia, receios e medo, naturais dos nossos 20 e poucos anos de idade e éramos parte de uma sociedade que, embora evitasse grandes conversas sobre pormenores da guerra, nos respeitava e admirava.

Muitos de nós, provindos dos recantos mais profundos de Portugal, dos meios rurais ou dos bancos das escolas das grandes cidades, éramos sequer dados, ou habituados, a enfrentar situações de violência extrema e morte, como nos exigiam os, por vezes, terríveis e mortíferos confrontos, em terrenos que nos eram completamente estranhos (selvas, tarrafo, bolanhas, etc.), contra os elementos dos movimentos de libertação.

A nossa quase totalidade foi básica e fugazmente instruída, em meia dúzia de meses, por aqui nos quartéis nacionais, e enfiada em barcos e aviões para Angola, Guiné e Moçambique.

As contingências da guerra roubaram-nos preciosos anos das nossas juventudes, que podíamos ter aplicado em outras coisas bem mais úteis e agradáveis, destruindo muitos dos nossos sonhos e tornando muito de nós, antes jovens alegres e divertidos, em “tipos” pouco reintegráveis, que familiarmente, quer amigavelmente, e, ou, incompatíveis com a as filosofias de vida e as práticas da sociedade decorrente.

No passado, tal como no presente, não são as Forças Armadas que decidem participar, ou sair, de uma guerra, mas sim os políticos que gerem esta Nação.

São os políticos que, em nome desta nossa Pátria, resolveram a nossa ida para a guerra, bem como hoje decidem a integração dos nossos militares em missões no estrangeiro, pelo que, lhes deixo aqui colocadas duas simples questões: “Será que os Senhores têm a mesma atitude, ou tratam de igual modo, os soldados que têm regressado com doenças (nomeadamente o pós-stresse traumático), que têm enviado para Timor, Bósnia, Kosovo ou Afeganistão, tal como estão a tratar os ex-Combatentes da Guerra do Ultramar? E aquando da sua passagem à situação de reforma, também será assim?

É que os políticos, não podem, nem deviam, injustiçar e ostracizar, os Homens que, obrigados ou não, se entregaram de corpo e alma, no cumprimento das missões que lhes foram exigidas, em prol do seu semelhante e da sua Pátria.

No mínimo merecem o reconhecimento pelo seu empenho e pelo seu espírito de sacrifício, porque cumpriram!

Os políticos actuais, nesta matéria, estão completamente desenquadrados das filosofias Patrióticas e das suas melhores e adequadas práticas. As suas políticas de gabinete resumem-se ao acomodarem-se às suas infrutíferas vaidades e aos seus bem-estar e luxos pessoais. É uma triste e mesquinha realidade!

Não sou adepto de que somos os “coitadinhos” da Guerra do Ultramar. Somos Homens que, apesar de tudo, cumpriram, o melhor que puderam e souberam, e assumimos o passado com, maior ou menor, orgulho pessoal.

São necessárias, urgentemente, muitas vozes como as dos ex-Combatentes, para informar e despertar as mentalidades das novas gerações, de homens e mulheres, que um dia hão-de surgir na política portuguesa, com outras visões mais solidárias, inteligentes e Patriotas, que prestem o devido e justo reconhecimento à nossa geração.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art
____________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P5150: Convívios (171): Encontro de ex-militares, no dia 21 de Novembro, no RI 14 em Viseu (Rui A. Ferreira)



1. Recebemos do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira, Coronel Ref, que fez uma comissão de serviço na Guiné como Alferes Miliciano na CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67 e outra como Capitão Miliciano na CCAÇ 18, Aldeia Formosa, 1970/72, esta convocatória para publicação:




CONVOCATÓRIA

Rui Fernando Alexandrino Ferreira
Rua Rainha Santa Isabel, 30 -1º
Bairro da Quinta da Carreira
3500 – 147 Viseu

Esta carta tem por destino todos quantos a receberem e tem como finalidade a sua convocação para o convívio deste ano de 2009 da malta que pertenceu

À famosa Companhia de Caçadores n.º 1420 – (Guiné 1965/67)

Aos poucos graduados que sobraram ao assassinato dos restantes militares que compunham a Companhia de Caçadores n.º 18 – Guiné 1970/72

A todos os antigos militares que comigo serviram no Regimento de Infantaria 14 na cidade Rainha da Beira – Viseu tendo em especial atenção ao Núcleo Duro.

A todos quantos pela amizade que perdura para lá do tempo e que nos une na mesma memória e nisso sinta orgulho.

A todos os camarigos (camaradas e amigos) da tertúlia do Luís Graça e seus camaradas da Guiné


É verdade. Mais uma vez me vou meter em trabalhos, ou seja vou tentar juntar num almoço convívio, que terá lugar num dos Refeitórios do Regimento de Infantaria de Viseu um grupo alargado de malta que era jovem quando os ventos do acaso e os desígnios de destino cruzou as linhas da vida e que continua presente e cada vez nela mais importante, especialmente no apoio para prosseguir na luta contra a doença.

Assim e seja qual for a tua posição na convocatória, sempre te digo que a tua presença é imprescindíveis, que não é substituível por outra qualquer e que será uma alegria ver-te nesta cidade que é minha pelo imenso amor que lhe tenho.

Ao prazer de rever antigos camaradas, de conhecer novos que são igualmente muito importantes para mim, terás oportunidade de ver, ouvir e conhecer pessoal do Batalhão que aqui constituído se destina a integrar no âmbito da ONU as missões de Paz e pela voz do seu próprio comandante ou de um dos oficiais do seu Estado Maior tomar contacto com as suas realidades, a forma como enfrentam os imensos problemas que se lhes apresentam fazer uma comparação com o que foi a tua experiência que infelizmente já lá vai, (pois que voltaríamos aos nossos vinte anos, o que bem vistas as coisas nem era mau) visitar as suas instalações e ver o novo armamento e ainda, com um bocado de sorte e da boa vontade desta feita também do próprio Comandante do Regimento, poderás dar uma voltinha numa das novas viaturas Pandur.

Claro que podes e deves trazer a família contigo. A refeição cujo prato principal será um Rancho à moda do 14, rondará os 10 euros por elemento. Como não podia deixar de ser decidi juntar o útil e pouco dispendioso ao agradável.

Duas coisas deves fazer:

Telefonar-me ou por qualquer outro meio confirmar a tua presença e o número dos teus convidados. Os meus contactos são:

Telefone da residência – 309 875 370
Telemóvel – 965 043 313
Correio Electrónico - 0313102101@netcabo.pt

Apresentar-te a partir das 10H30 do dia 21 de Novembro do corrente no local de concentração, ou seja, frente ao Regimento de Infantaria n.º 14, em Viseu.

Uma coisa ainda te peço: informa-me a tempo e horas se vais estar ou não, de modo a me facilitares a vida.

Sem mais aqui fica um grande abraço.

Até sempre, mas desta feita até 21 de Novembro
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 4 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4776: Parabéns a você (16): Rui Alexandrino Ferreira, Cor Reformado (Editores)

Vd. último poste da série de 17 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5123: Convívios (168): Pessoal da CCAÇ 727, ocorrido no passado dia 3 de Outubro, em Fátima (Miguel Oliveira)

Guiné 63/74 - P5149: Direito à indignação (8): Fomos forçados como presidiários a cumprir pena no degredo (Jorge Teixeira/Portojo)

1. Mensagem de Jorge Teixeira* (Portojo), ex-Fur Mil do Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70,com data de 22 de Outubro de 2009:

Tropa, quer dizer Forças Armadas Portuguesas.
E cada vez me repugna mais dizer ou escrever estas palavras "Forças Armadas Portuguesas".

Desde a criação de uma lei em Fevereiro de 2002 de uma pensão para antigos combatentes, de que só alguns tiveram conhecimento e de como dela se poderia auferir, até à Lei publicada em 2009, fica demonstrado como os Presidentes da República, que aprovam as leis do País, os governantes que fazem as leis, bem como os deputados da Assembleia da República tratam a escória dos militares que em nome da Pátria una e indivisível, foram forçados como presidiários a cumprir pena no degredo em África, desde 1961 a 1974, por períodos de dois anos, uns pouco menos e outros um pouco mais.

Já somos poucos os sobreviventes desse tempo. Dizem-me que cerca de 300.000. Muitos com diversos problemas de saúde, mas esperam os nossos queridos governantes que nos despachemos depressa para o outro mundo, pois aqui já andamos a mais.

Bem isto ao caso por mais uma vergonhosa afronta (como se diz em alguns partidos tipo PCP e satélites, também eles metidos nesta estória) que esses chamados governantes - Presidente da República, Governo, Deputados - infligiram à atrás dita escória negreira de terras de África. Refiro-me à tal pensão generosa, que inicialmente recebiam alguns de nós. Cerca de 120 euros anuais. Com o tempo foi-se actualizando essa esmola. Para alguns, como disse, pois a maior parte perdeu automaticamente esse direito. Ou por desconhecimento da Lei, como terá sido o meu caso, segundo me foi dito, ou por que não sei... Acho que a partir de certa altura deixou de ter validade a Lei.

Não fazendo deste caso, um assunto individual - que o não é pois há camaradas que são tão ignorantes como eu e portanto não recebem esta misericordiosa pensão - a nova lei, a tal de 2009, veio pôr os pontos nos iiiisss. Isto é, reviram a lei de 2002, cheia de incongruências, segundo disseram, e toca de gamar uns euros, que nalguns casos é superior a 40%. Quer dizer que há pessoal a receber menos de 100 euros anuais.

Se meter os papeis pela terceira vez e me for considerada a esmola, parece que receberei cerca de 130 euros anuais. Não sei se estarei cá se isso acontecer. Mas agora vou mesmo chatear e prometo encher as caixas do correio desses Ministérios e dos Serviços das Forças Armadas e de Ligas militares - mesmo as não controladas pelo governo - e Segurança Social, enfim tudo que for sítio onde recebam correio electrónico. Vão todos gozar com a pqp. E deixem os velhos em paz de uma vez.

Só de passagem: Alguém ouviu ou leu a comunicação social, comentaristas, partidos, referir-se a este tema ?

Jorge/Portojo
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4967: Agenda Cultural (26): Museu Militar do Porto (Jorge Teixeira/Portojo)

Vd. último poste da série de 19 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5133: Direito à indignação (7): Esmiuçando o Complemento Especial de Pensão e o Acréscimo Vitalício de Pensão (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P5148: Não-estórias de guerra (2): A Lavadeira de Aldeia Formosa (Manuel Amaro)

1. Mensagem de Manuel Amaro (ex-Fur Mil Enf da CCAÇ 2615/BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71, com data de 20 de Outubro de 2009:

Caro Luís,
Como reduziram para cerca de metade aquilo que recebia por ter estado na guerra, com menos dinheiro para gastar, fiquei com mais tempo para escrever.
Resultado: aqui vai mais não estória.

Um Abraço
Manuel Amaro


Uma não-estória de guerra

A Lavadeira

Por Manuel Amaro

Tenho lido, com agrado, as estórias relacionadas com as lavadeiras, contadas aqui no blogue.

Concluí que, na verdade, para quem esteve naquela guerra, a existência das lavadeiras era um importante factor, com nítida influência na nossa qualidade de vida.

Mesmo que alguns aspectos tenham sido vividos inconscientemente, mesmo que algumas estórias tenham uma grande dose de imaginação, o facto é que aquelas dezenas de milhar de militares, na sua maioria ainda quase meninos, alguns saídos pela primeira vez da esfera familiar, viam na lavadeira, fornecedora de roupa limpinha, a continuação da família.

Eu também tive as minhas lavadeiras. Uma lavadeira em cada terra.

Quando a CCAÇ 2615 chegou a Aldeia Formosa, porque fomos os últimos a chegar, as melhores lavadeiras já tinham a lotação esgotada.

Eu bem levava uma recomendação para falar com a Farma ou a Maimuna. E falei. Mas nem uma cunha do Gilberto Campos, Fur Enf da CCS, me valeu.

Tive que me contentar com uma sobrinha das ditas, de nome Saida Baldé, creio que familiar do Régulo de Colibuia, tabanca abandonada, que ali vivia na condição de refugiado.

A Saida era muito jovem, elegante, muito bonita, rosto com traços caucasianos, mas negra, muito negra. Muito competente e muito organizada.

Naquele tempo, em Aldeia Formosa, a determinada hora, talvez 16h00, 16h30, as lavadeiras juntavam-se na porta de armas e aguardavam ordem da sentinela para entrar.

Depois, aquele bando, em correria desenfreada, contactava todos os clientes, entregava a roupa lavada, recebia a roupa suja e regressava à tabanca.

E todos os militares estavam atentos à chegada das lavadeiras.

Um dia, em todas as coisas há sempre um dia diferente, atrasei-me no duche e lá apareceu o Campos a gritar:

- Está aqui a lavadeira…

- Vou já, é só vestir-me. - Respondi.

- Eh pá, coloca a toalha à volta da cintura e chega aqui, rápido. – Ordenou o Campos.

Cumpri. Coloquei a toalha e fui a correr.

Lá estava a Saida com a minha roupa para entregar, mas só a mim.
Pedi desculpa pelo atraso e fui recebendo a roupa, peça a peça.
E ela, que nunca me tinha visto naquela indumentária, olhava, surpreendida, curiosa, expectante…

Acontece que quando dei por mim estava com uma erecção, que não conseguia controlar e a toalha avançava na direcção da lavadeira…

A Saida, quando acabou a entrega, curvou-se para agarrar o cesto da roupa, confrontou-se com aquela torre Eiffel, abriu os olhos, apontou o indicador direito e gritou:

- Eh furriel… eh furriel… virou-se e desatou a correr.

No dia seguinte e nos dias que se seguiram, tudo correu normalmente.

Mas passado um tempinho, assim que a minha lavadeira teve oportunidade, perguntou-me, com um sorriso maroto e um olhar reluzente, quando é que eu vinha outra vez de toalha.

Disse-lhe que se ela queria que eu viesse de toalha, então na próxima vez eu viria receber a roupa com a toalha à volta da cintura.

No dia seguinte tomei duche, coloquei a toalha, sentei-me à mesa e fiquei ali à espera, lendo mais um capítulo de ”Os Lobos”, de Hans Hellmut Kirst. Assim passei uma boa meia hora.

O Torres, da CART 2521, ainda perguntou se eu estava na sauna, mas eu nem respondi.

Finalmente chegou a Saida. Eu apareci à porta com a toalha. Ela entregou a roupa. Eu recebi. Tudo em silêncio… a mesma toalha, o mesmo cesto da roupa, a mesma torre, o mesmo olhar…

Mas quando partiu, a Saida limitou-se a dizer, baixinho:

- Obrigada furriel…

Dois dias depois, eu parti para Buba, numa viagem (peregrinação), de três meses, que me levaria a Buba, Aldeia, Bissau, Lisboa, Bissau, Aldeia e Nhala.

Em Nhala voltei a ter lavadeira. Sem estória. Tal como em Nhacra e Buba.

Mas tenho, sempre tive, guardo na memória, o maior apreço e consideração, pelo importante papel desempenhado pelas lavadeiras (as mulheres que lavam roupa, à mão), qualquer que fosse a sua relação com os militares.

Manuel Amaro
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Nota de CV:

Vd. primeiro poste da série de 8 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5075: Não-Estórias de Guerra (1): O Furriel Enfermeiro de Quebo (Manuel Amaro)

Guiné 63/74 - P5147: Historiografia da presença portuguesa em África (26): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (III): Até ao Portugal democrático

A literatura colonial guineense (Parte 3)
Por Leopoldo Amado
(Epílogo)

Da década de 40 até ao Portugal democrático

Entretanto, a década de 40 inicia-se com um acontecimento importante: a capital da Guiné é transferida de Bolama para Bissau, e dela resulta que Bissau cresce a olhos vistos, enquanto Bolama perde a sua vitalidade. Na verdade, a transferência da capital para Bissau foi um duro golpe para a elite africana de cariz pequeno-burguesa de Bolama. Consequentemente, a inteligentsia guineense, que era sobretudo representada por bolamenses militantes, dispersou-se por imperativos de força maior. Por isso, a actividade literária e cultural em geral foi o primeiro sector a apresentar sinais palpáveis de um retraimento significativo, a ponto de se paralisar qualquer actividade editorial na Guiné, exceptuando as publicações do Boletim Oficial da Guiné.

Foi o Arauto* que quebrou este silêncio editorial em 1943, quando as autoridades religiosas sentiram que as suas actividades careciam de um meio de divulgação, dado o crescimento cada vez maior da população católica guineense. Aliás, em 1940, tal crescimento era assinalado pela bula Solemnibus Conventionibus, na qual o território da Guiné foi separado da Diocese de Cabo Verde e erigido em Missão sui juris. Estava-se pois num período de relativa acalmia social, em que a política de assimilação, ainda que de forma subtil, estava a dar os seus primeiros resultados. Esta situação traduziu-se na prática pelo reforço do sistema administrativo colonial, cujos corolários foram a realização do Congresso da Guiné na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1944, seguido em 1946 pelas comemorações do quinto centenário da descoberta da Guiné. É nesse contexto que o Arauto foi publicado em Bolama até 1947. Durante esse período, a temática central deste periódico gravitava à volta do espírito anti-capital que os bolamenses nutriam contra Bissau. A par disso e além da acção religiosa, o Arauto privilegiou os aspectos históricos de Bolama e do cristianismo na Guiné. Por ironia do destino e por razões que ignoramos, o Arauto fechou as portas em Bolama para reaparecer em Bissau, em 1950. É nesta sua segunda fase que se regista alguma produção literária-colonial com certo interesse de estudo, na qual se destacam os artigos de opinião assinados por Fausto Duarte, Juvenal Cabral e o guineense Caetano Filomeno Sá, entre outros.

Em 1945, Sarmento Rodrigues toma posse como Governador da Guiné e funda o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, do qual nasce o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa**, que viria a congregar um grande número de estudiosos da Guiné nas mais variadas áreas das ciências e, também, da literatura. Trata-se, segundo o africanista René Pélissier, da melhor produção científica no contexto das ex-colónias portuguesas de África. Avelino Teixeira da Mota, Fausto Duarte, James Walter e António Carreira foram, sem dúvida, pela sua capacidade polivalente e interdisciplinar, aqueles que deram o impulso decisivo àquilo que comummente denominamos de geração do Boletim Cultural. Quanto à produção literária-colonial patente nos 110 números publicados, seria omissão imperdoável não acrescentarmos nomes como o de Egídio Santos, Fernando Barrigão, João Eleutério Conduto e Fernando Rogado Quintino. São esses os autores que através da narrativa ou da simples descritiva sociológica, nos dão a medida exacta das preocupações intelectuais da geração do Boletim Cultural. De facto, as inquietações preocupação intelectuais desta geração dirigiam-se no sentido de forjar elos entre uma experiência africana que viveram intensamente e que já incorporava os seus ethós, e a espiritualidade mística, natural, que os prendia à terra-mãe. Para isso, usaram diversos géneros literários que vão do ensaio sociológico à novelística e à fixação de contos tradicionais. E é nesta linha de força que são publicados os Contos Bijagós, por João Eleutério Conduto; os “Contos Fulas”, por A. Pereira Gomes; os “Contos Mandingas”, por Manuel Dias Belchior; “Dois contos do ciclo do Lobo”, por Maria Cecília de Castro, e “Contos de Caramô”, por Viriato Augusto Tadeu. Ainda dentro dessa perspectiva se pode incluir o livro Terra Ardente, de Norberto Lopes, e Guinéus, de Alexandre Barbosa (respectivamente, reportagem jornalística e impressões de viagem), embora não apresentem grande interesse para o estudo da Literatura Colonial Guineense.

Em 1959, Romeu Martins publica 15 poemas e ainda: o Roteiro Moderno, que dedica à memória de Caetano Filomeno de Sá. No entanto, por amor à verdade, devemos reconhecer que a poética-colonial de Romeu Martins é de grande qualidade estética, talvez comparável com África Raiz, a grande poesia de Fernanda de Castro. É ainda uma poética de natureza historiográfica que, com um discurso típico da ideologia do Estado Novo, procura aqui e acolá enaltecer os heróis da colonização e cruzada guineenses, ao mesmo tempo que coloca Portugal como o horizonte messiânico dos guineenses, em suma, uma elegia ao culto da magnanimidade histórica de Portugal, o Portugal das descobertas que deu novos mundos ao Mundo.

Porém, antes de fecharmos este percurso pela Literatura Colonial Guineense, permitam-nos debruçarmos um pouco sobre dois autores cujos nomes se pode apontar entre os mais válidos da geração que viveu a guerra colonial na Guiné. Trata-se de José Martins Garcia, que escreveu O Lugar de Massacre, sem dúvida a melhor obra de literatura da guerra colonial da Guiné: de um realismo extraordinário, nela se descreve a essência filosófica dos que na arena de guerra lutaram por um ideal que se esforçavam em vão por compreender; o ideal que jamais se poderá omitir, ou seja, o princípio transcendente que supera as capacidades conjecturais do homem confrontado com o abandono e a morte e que está para aquém e para além dos marcos sensíveis – o espírito. Ousamos mesmo dizer que O Lugar de Massacre revela-se de uma importância incomensurável, mesmo do ponto de vista africano. O outro autor é o Armor Pires Mota, autor do Diário íntimo de um soldado, Tarrafo, e do livro de poemas Baga-Baga e ainda do livro de contos intitulado Guiné Sol e Sangue. Nos seus escritos, não é raro depararmos amiúde com considerações que denotam a existência no autor de preconceitos:

Sou o teu irmão mais velho,
Sou negro também dentro de mim
! (23)

Mas em Armor Pires também se vislumbra a mensagem da igualdade e da justiça entre europeus e africanos, numa descrição poética que se reporta à guerra colonial e cujo principal mérito é a serenidade dramática, testemunhando, sobretudo, um estado de alma – uma visão poética da guerra colonial:

É urgente libertar os meninos negros e brancos,
e dar às mães as estrelas
e as rosas de uma madrugada pura e imensa
(24)

Porém, foi em 1956 que surgiu O Bolamense, sem dúvida, o jornal guineense de maior impacto cultural e literário. Nele, foram publicados muitos poemas que cantam com saudosismo os tempos difíceis em que Bolama, a velha cidade, era a capital da Guiné. Dos poemas publicados, vislumbra-se urna poética um tanto ou quanto apolíticas ou se quisermos, pitoresca e turística. Era, de resto, um jornal que pugnava pela História da Guiné – entenda-se História Colonialista –, ao mesmo tempo que procurava legitimar a colonização portuguesa ante o movimento libertário que, embrionariamente, ia dando os primeiros passos.


Conclusão

Em jeito de conclusão, gostaríamos de referir alguns aspectos deste estudo que merecem uma melhor explicação. E a primeira ideia que nos ocorre é a de que a Literatura Colonial não depende da realidade habitual e do contexto em que foi produzida uma vez que dela se separou e continua a viver depois de esta ter morrido. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que, na obra literária, o assunto é de tal modo elaborado que não subsiste como valor puramente humano, sujeito a qualquer juízo prático. O assunto extingue-se para renascer noutra esfera. É exactamente tendo em conta este postulado que atribuímos à Literatura Colonial uma importância particular no que concerne ao seu relacionamento com a Literatura Nacional.

Com isto, não pretendemos inferir que a Literatura Nacional nasceu directamente na sequência da Colonial. Somos da opinião que, efectivamente, são duas coisas distintas, mas que se articulam por elos histórico-culturais e linguísticos. É axiomático que as motivações nortearam um e outro discurso literário em direcções opostas. Por isso, não nos parece legítimo a evocação de autores como Amílcar Cabral e Vasco Cabral – cujos alguns poemas datam da época colonial – para argumentar que a Literatura Nacional não nasceu do nada.

Ora, não esqueçamos que estes dois autores guineenses comparticiparam do espírito da Casa dos Estudantes do Império, da Negritude literária e demais inquietações a que estavam expostos os estudantes africanos em Portugal, ainda em pleno período colonial. Torna-se pois necessários (utilizando a expressão de Manuel Ferreira) separar o trigo do joio sem, todavia, esquecermos as grandes afinidades culturais entre uma e outra literatura, donde a finalidade fundamental do nosso estudo, convictos como estamos de que a História Literária só pode ser a História da Cultura Literária.

Eis chegado o momento de fecharmos esta modesta incursão pela Literatura Colonial Guineense. Ora, fazemo-lo com a consciência de que muito falta ainda para esclarecer e informar a seu respeito. Só a crítica e a estilística poderão penetrar mais profundamente o objecto de estudo em questão, pelo que aqui se regista um apelo aos especialistas na matéria. E porque aspectos positivos há a extrair da Literatura Colonial, interessa – como dizia Amílcar Cabral – aproveitar os aspectos positivos decorrentes da colonização, não só para enriquecermos a descolonização literária em curso, mas também para enquadrarmos sem complexos a componente cultural do passado que se cimentou indelevelmente na nossa cultura nacional.

E porque também no arraial de provações, de quezílias, de lutas e agravos que constitui a História Política da Guiné-Bissau, orgulhosa da sua luta de libertação, importa afastar derrotismos que de alguma forma possam gerar uma crise cultural de consciência e identidade, toma-se necessária a inclusão da Literatura Colonial no conjunto temático preferencial de estudo, a par de outros que se afiguram importantes. Isto porque, passados quinze anos do fecho do ciclo colonial, o Portugal Democrático e os novos Estados africanos de língua oficial portuguesa não são meros co-herdeiros de uma mesma tradição cultural – a colonial. São, creio bem, portadores da mesma missão que é a da construção da nação.

Leopoldo Amado


OBS do Editor:
- Subtítulo da responsabilidade do Editor

- Leopoldo Amado é Doutor em História Contemporânea pela Universidade Clássica de Lisboa, Faculdade Letras de Lisboa), sob a temática Guerra Colonial da Guiné versus Luta de libertação Nacional, 1961 – 1974)

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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 16 de Abril de 2008 Guiné 63/74 - P2766: Álbum das Glórias (42): As melhores ostras de Bissau, em O Arauto, de 27 de Julho de 1967 (Benito Neves, CCAV 1484)

(**) Vd. poste de 12 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3878: Historiografia da presença portuguesa (18): O sítio Memória de África ® (Afonso Sousa

Vd. postes da série de:

22 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (I): Introdução
e
23 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5144: Historiografia da presença portuguesa (25): A Literatura colonial guineense (Leopoldo Amado) (II): A primeira tipografia em 1879

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Guiné 63/74 - P5146: Humor de caserna (15): O fim dos Ui!Ui!... e o milagroso comprimido LM do Zé Teixeira (José Belo)

Esta é a singela página principal do sítio, na Net, dos Maiorais de Empada, a malta da CCAÇ 2381 (1968/70), declarados inimigos dos Ui!Ui! do Rio Grande de Buba... Editor: José Teixeira. Colaboradores: José Belo e J. Manuel Samoco.

A CCAÇ 2381 teve como unidade mobilizadora o RI 2 (Abrantes). Partiu para a Guiné em 1/5/1968 e regressou à Metrópole em 3/4/1970. O seu comandante original, Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos, continua a frequentar os encontros anuais. O próximo convívio está marcado para o dia 1 de Maio de 2010 nas Grutas de Santo António, pero de Fátima.

1. Novo texto do José Belo, ex Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, a viver na Suécia há mais de três dezenas de anos...

Como bom Ui!Ui! que é, raramente se deixa fotografar... A foto que dele temos publicado, é de tão má qualidade que eu hoje resolvi não voltar a inseri-la... Até por razões de segurança do nosso querido amigo e camarada José Belo (os Ui!Ui! sempre foram muito apreciados no norte da Europa, com destaque para a Finlândia, que como toda a gente sabe faz fronteira com a Suécia...), pelo que optámos por deixar em branco o espaço reservado à chapa de identificação (LG).

2. O Fim dos UiUi! (*)
por José Belo

Caros Amigos e Camaradas:

Para não cair na tentação de criar um, menos conveniente, folhetim quanto aos estranhos, excessivos, por vezes contra natura, hábitos sexuais dos Ui!Ui! do sul da Guiné, que iria sair fora do âmbito de algumas profundas formações morais e militares de muitos dos camaradas (com o consequente arrastamento de sérios problemas para os editores do blogue com o Patriarcado, e mesmo a Nunciatura), resolvi, a bem de todos, encerrar definitivamente o assunto.

Sinto, no entanto, como profundo dever, compartilhar a técnica recomendada pelo Laboratório Militar (anos 70/71) quanto à obtenção de uma perfeita pele de Ui!Ui!

O facto da pelagem destes animais atingir valores comerciais muito elevados (não esquecer que existiam especialistas internacionais na casa Gouveia de Bissau com o fim único de exportar as mesmas para a Finlândia), a 2ª Repartição do Estado Maior de Bissau utilizou (abusivamente?) grande parte das verbas destinadas à Campanha por uma Guiné Melhor para subsidiar um estudo por parte de conhecido laboratório alemão quanto ao melhor isco para Ui!Ui!

Diz-se que, em muito oportuna intervenção, o então Capitão Almeida Bruno convenceu o Comando Chefe a não gastar enormes verbas com laboratórios internacionais para serem obtidas técnicas a serem utilizadas pelos simples dos bandos armados. E qual era o defeito do Laboratório Militar?

Bem haja meu General, porque a resposta científica para o problema foi deste modo muito mais rápida, profunda e eficiente,ou não fosse um laboratório.....militar! (ainda hoje me pergunto: Como se dirá desenrrascar em alemão?)

A sugestão recomendada pelos nossos era, obviamente, baseada nos célebres comprimidos LM. Quem os não recorda com saudade? Os tais utilizados para diarreias, gonorreias, e tudo o que de eias afligia as nossas tropas no vasto império africano, e não só. Como muito inteligentemente salientou a repartição de logística do Estado Maior em Lisboa, este medicamento sofisticado estava distribuído por tudo que era bolsa de enfermagem no nosso exército.

Cito NEP do Comando Chefe da Guiné para as Unidades existentes nas zonas do habitat dos Ui!Ui!, com instruções a serem rigorosamente seguidas pelas mesmas:

(i) Espalhar criteriosamente os comprimidos LM na parte mais escura das margens do tarrafo.

(ii) Aguardar o mais próximo possível dos comprimidos a chegada dos animais. (Recomenda-se a utilização das árvores mais próximas, tendo em conta os devidos cuidados a ter caso nelas se encontrem pendurados alguns guerrilheiros [Vd. foto à esquerda]. Estes costumam chatear-se com isso!)

(iii) Os animais, depois de uma demorada observação dos comprimidos, viram-se uns para os outros, e, em gesto reguila, levam a pata dianteira esquerda à pálpebra inferior do olho direito em típico gesto significativo de Queres ver estes chicos-espertos?!

É nesse momento que, apontando ao branco dos olhos, se devem abater os enormes Ui!Ui! sem produzir os tais buracos desnecessários na pele.

PS - Não quero terminar sem pedir as desculpas devidas a dois Camaradas:

(i) Ao Zé Teixeira, o nosso doutor da mata, pelas quantidades de comprimidos LM abusivamente desviados pelos Furriéis e por mim, do seu posto de enfermagem. Ele que os contava todos ao despertar,e os colocava em impecável formatura sobre a secretária ao recolher! O nosso ingénuo alibi quanto a um possível aumento de casos de gonorreia resultantes de intensivas campanhas nocturnas psico-sociais, não foi de modo algum aceite por um expert na sanidade das bajudas de Mampatá.

(ii) Ao meu companheiro de colégio lisboeta Mexia-Rambo-Alves (**) por não lhe ter feito chegar às mãos os azimutes da zona em que os Ui!Ui! viviam, por simples e miserável inveja, de que ele com as minibazucas de bolso compradas na estranja (as minhas eram marca Sagres da Manutenção) viria a abater os maiores exemplares de entre os Ui!Ui!

Um abraço amigo do José Belo.

Estocolmo 20/10/09

3. Comentário do Zé Teixeira, a pedido dos editores:

Um pouco de graça faz bem para baixar a tensão de alguns camaradas. Confesso que não conhecia esta veia do Belo.

Vou tenta explorar os LM - os tais comprimidos que davam para tirar dores de unhas encravads até às dores de cabeça, passando pela composição do 1214, o célebre composto à base de tintura de iodo e LM, um excelente remédio para caspa. Melhore que as meias da Casa Baiona, pois estas só davam da ponta dos pés até à porta da c...

Amanhã digo alguma coisa

Abraço.
José Teixeira
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Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste da série:

20 de Outubro de 2009 >Guiné 63/74 - P5135: Humor de caserna (14): Curiosidades zoológicas: Os Ui!Ui!, animais nocturnos, do tarrafo do Rio Grande de Buba (José Belo)


(...) É sem dúvida um dos animais de maior porte e com a mais bela pelagem escura de todos os que vivem no Sul da Guiné. O seu habitat natural limita-se a um triângulo que, grosso modo, tem os vértices em Empada-Buba-Mampatá, sendo as suas maiores concentrações junto às margens do rio grande de Buba.

Animal nocturno, extremamente tímido, e de muito difícil observação, é só nos períodos do ano em que as águas põem a descoberto enormes quantidades de ostras (alimento favorito dos Ui!Ui!) que os mesmos se conseguem abater. As suas peles, pela sua qualidade e beleza, vendem-se caro. Servem de perfeitos cobertores, casacos, tapetes, ou simples decorações. (...)


(**) Vd. poste de 19 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5132: Humor de caserna (13): Rambo uma vez, rambo para sempre (Joaquim Mexia Alves)

Guiné 63/74 - P5145: Agenda Cultural (35): Anos 70 Atravessar Fronteiras, exposição no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Outubro de 2009:

Malta,
Fui à exposição e o Amílcar Cabral apanhou-me de surpresa.
De acordo com o catálogo, já fora exposto na exposição “Retratos de Amílcar Cabral”, Ar.Co, Lisboa 1977.

Para quem quiser ir recordar o antes e depois do período revolucionário, não há melhor.

Um abraço do Mário


Amílcar Cabral numa exposição da Gulbenkian
Por Beja Santos

Decorre no CAM – Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, na Gulbenkian, uma exposição intitulada “Anos 70 atravessar fronteiras”, comissariada pela investigadora Raquel Henriques da Silva. Visitei a exposição à procura de mais informação sobre o reflexo da sociedade de consumo nas artes plásticas, cujas primeiras expressões datam dos anos 60. Se é verdade que a generalidade dos artistas entrou em oposição ao regime, no final dos anos 50, importa realçar o papel dos novos mecenas, do aparecimento da Fundação Gulbenkian, de coleccionadores e de tecnologias que vieram a permitir a acessibilidade da arte (caso da gravura e da serigrafia e das novas ousadias do desenho gráfico). A arte dos anos 60 para os anos 70 projecta esses múltiplos sonhos: a arte pop, a desconstrução do objecto de consumo, a proliferação das galerias de arte para satisfazer novas clientelas ávidas dos novos sinais de uma arte que tratava a fotografia, a colagem, os tecidos, os novos materiais como o spray, que punha em código desafios como os direitos humanos, as expressões afectivas, a sátira consumista, por exemplo. Os anos 70 são decisivamente marcados pelo 25 de Abril, e as novas profissões de fé políticas, mas tolheram experiências inerentes ao novo mundo do consumo e respectivos valores de civilização. Ia, pois, à procura de temas da minha profissão, revisitar artistas admirados como Lurdes Castro, Carlos Calvet, Eduardo Nery e Sá Nogueira, entre outros.

É nesta deambulação que fui confrontado com o retrato de Amílcar Cabral, datado de 1977, em tinta celulósica, de Noronha da Costa. Luís Noronha da Costa é considerado um dos mais originais artistas do século XX e seguramente um dos mais prolíficos. Tudo experimentou: fotografia e cinema; o acasalamento dos objectos com e sem a tela; a tensão permanente entre a luz que jorra e ilumina vários pontos do quadro no meio da neblina e dos esfumados. Um verdadeiro artífice, impaciente, atrevido, jogador das formas e das cores, manipulando as técnicas da performance e as evocações da arte multiplicada, reprodutível, tipo Andy Warhol.

Aqui fica pois um convite para ir ver uma fotografia de culto de Amílcar Cabral reinventada em tela fotossensível por Luís Noronha da Costa. Faz parte do nosso património, temos que ter orgulho nesta intenção de um grande artista português.
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Notas de CV:

Vd. poste de 21 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5139: Notas de leitura (30): Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, de Saturnino Monteiro (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 16 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5114: Agenda Cultural (34): A China de Ontem e de Hoje. Conferência proferida por António Graça de Abreu no dia 13OUT09 (Carlos Silva)