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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
É agora a ocasião se sabermos algo mais sobre o proprietário do estabelecimento fotográfico Foto Câmera, Álvaro de Barros Geraldo, um bom conhecedor da Guiné, trabalhou com a imprensa e a RTP, é autor de um filme até agora não localizado e foi um fotógrafo que trabalhou assiduamente com o Governador Spínola, terá fixado residência em Bissau em meados da década de 1950, foi responsável por uma primeira exposição fotográfica de Usos e Costumes da Guiné as suas muitas milhares de imagens repartem-se pela atividade social, a chegada e partida de unidades militares, acompanhar o comandante-chefe em operações, imagens que depois iam ser transmitidas para a metrópole, um sem número de tranches fotográficas que nos revelam até a excisão feminina, vêem-se slides de brancos em festa, a alegria da inauguração do cinema de Bolama, Spínola a falar com um guerrilheiro, o jovem capitão Salgueiro Maia, porventura no Cumeré, à sua chegada em 1971. Um belíssimo livro/catálogo que merecia um maior destaque editorial.

Abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

No texto anterior, vários autores pronunciaram-se sobre a problemática arquivística, o legado deste importantíssimo espólio de Álvaro de Barros Geraldo, o historiador Pedro Aires Oliveira contextualizou a governação de Spínola que o fotógrafo acompanhou com a maior das regularidades, vamos agora ver alguns dados biográficos deste fotógrafo até agora pouco analisado. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993) viveu e trabalhou na Guiné-Bissau entre, pelo menos, 1955 e 1974. Poucos elementos biográficos transparecem do espólio. O seu nome não consta no Arquivo Histórico Militar. Terá fixado residência em Bissau, onde realizou, entre 1955 e 1956, a primeira Exposição Fotográfica de Paisagens, Tipos, Usos e Costumes da Guiné Portuguesa, no Museu da Guiné, e era o proprietário da loja e laboratório Foto Câmera, pelo menos desde 1964. Realizou o filme Guiné, Princesa Africana, uma obra cujo paradeiro permanece até hoje desconhecido.

Foi chefe do departamento de fotografia e cinema do Centro de Informação e Turismo da Guiné, correspondente da RTP e chefe do Gabinete Fotográfico do Jornal Voz da Guiné, fundada em janeiro de 1972. Terá também colaborado com a Agência Geral do Ultramar. Ele tornou-se o fotógrafo de confiança do General Spínola. Barros Geraldo regressou a Portugal um pouco antes do 25 de abril. Em Portugal exerceu atividade como fotojornalista no Jornal do Comércio e, mais tarde, no Jornal de Notícias. As curadoras da exposição procuraram obter informações junto de pessoas que com ele trabalharam. José Manuel Barroso, assessor de imprensa do General Spínola, e João Egreja, fotocine ao serviço do exército português convergem na descrição de um homem de trato difícil.

Após a morte do fotógrafo, o seu acervo foi adquirido pela Fundação Gulbenkian, que o doou, em 2000, ao Arquivo Histórico Ultramarino.

Caracterizando a essência deste espólio, diz-se previamente que a exposição não pretendeu ser o resultado de uma investigação exaustiva, é uma seleção de imagens dos tais 82.300 negativos, centenas de provas de contacto, diapositivos, bobines de película etc. etc. A exposição também mostra jornais onde o fotógrafo colaborou. O foco incidiu sobre a Guerra Colonial, mostrou imagens do programa psicossocial Por uma Guiné Melhor, onde se tentou o empoderamento de chefes locais; não faltam imagens de prisioneiros políticos, de armamento apreendido ao PAIGC, fotografias de chefes islâmicos regressados de Meca, acampamentos da Mocidade Portuguesa, abertura de um novo edifício da PIDE/DGS, a presença de Rafael Barbosa, então presidente do Comité Central do PAIGC, a apoiar o programa político Por uma Guiné Melhor.

As curadoras observam:
“Ainda que de forma involuntária, as imagens denunciam a escassez de realizações concretas e expõem a incapacidade estrutural do Governo português em consolidar o seu domínio. Através deste espólio, percebemos como, em plena Guerra Colonial, foi precisamente o conflito que obrigou o regime a tentar efetivar a sua ação colonizadora. Por sua vez, a incapacidade do regime em responder eficazmente à prolongada guerra acabou por catalisar a formação do MFA.”


Referem as mesmas curadoras que a colonização da Guiné só se tornou uma realidade efetiva com o início da Guerra Colonial, apreciação que não aceitamos, pois em período anterior, correspondente ao mandato do Comandante Sarmento Rodrigues foi encetado um esforço administrativo integral, digamos que o General Spínola, em termos de desenvolvimento socioeconómico e cultural deu impulso, com invulgares meios recebidos, ao ímpeto desenvolvimentista impulsionado por Sarmento Rodrigues.

Não se partilha igualmente a opinião das curadoras quanto às imagens dos corpos das mulheres, sugerindo que aparecem em poses manifestamente de dominação, revelando uma posição de autoridade colonial, bem como outros testemunhos que não uma apropriação do olhar etnográfico que não passa de mero protesto de documentação científica.

Se tomarmos em consideração o importante volume de João Loureiro sobre os bilhetes postais da Guiné Portuguesa, constata-se que há um longo histórico, a partir do século XIX de mostrar mulheres seminuas, como, aliás, homens de todas as idades e crianças de todas as idades. Admitamos, em retrospetiva, que esta enormidade de imagens exige reflexão. Aquando da Exposição Colonial do Porto, em 1934, as senhoras protestaram com as mulheres africanas de peito ao léu, acontecimento que deu origem a muitas excursões no Norte para ver um acontecimento nunca visto. Henrique Galvão, o comissário da exposição, foi perentório face ao protesto ético das ditas senhoras e até membros da clerezia: é assim que estes povos vivem, não se pretende esconder a realidade.

A exposição inclui também o período revolucionário, as curadoras recordam a força de elite que era o Batalhão de Comandos Africanos:
“Estes combatentes negros permaneceram à margem das narrativas dominantes sobre o fim da guerra. Foram não só secundarizados neste espólio, como também foram excluídos tanto das celebrações das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, quanto do novo regime democrático que então se instaurava em Portugal. A última fotografia do espólio do fotógrafo tem a ver com um incêndio em barracas de cabo-verdianos em Algés de Cima, 1975, o que nos remete para as condições de habitação degradantes destes migrantes que desde o início da década eram uma das forças motrizes da construção civil e dos novos equipamentos urbanos."

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
Inauguração do cinema, Bolama, 4 de março de 1971
Slide, sem título, sem data, lê-se no cartaz de pano Nhacra Felicita Homem Grande
Horácio Caio, considerado o primeiro repórter de guerra da televisão portuguesa, chega a Bissau em 15 de janeiro de 1974. Diz no texto que o acompanha em segundo plano Baltazar Rebelo de Sousa, então Ministro do Ultramar, o que não é verdade. Mas, efetivamente, nesse dia chegou a Bissau o Ministro em visita oficial.
Acampamento da Mocidade Portuguesa, Quinhamel, 1 de abril de 1969, à esquerda pode-se ver o Secretário-Geral do Governo, Tenente-Coronel Pedro Cardoso.
Chegada de tropas e despedida de fuzileiros, 11 de julho de 1971. O capitão Salgueiro Maia em destaque.
Operação Sul, 21 de abril de 1972
Governador em entrevista com um elemento do PAIGC, 14 de junho de 1970
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Notas do editor:

Vd. post de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28307: Casos: a verdade sobre... (77): a pastora-alemã "Blonde" e o general Spínola: os dois inseparáveis, mas... só na Banda Desenhada

 














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.,  João Rodrigues Lobo e Ramiro Jesus
Texto: Luís Graça (2026) 
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Convém desmentir aqui, de uma vez por todas, a "anedota da Spinolândia" que, à força de ser repetida, corre o risco de transformar-se em "facto verídico": o general Spínola não tinha nem nunca teve, em Bissau, nenhuma cadela de raça "pastor-alemão", no palácio do Governador como "animal de estimação" (*)... Tal como não tinha nenhum "cavalho branco" (**)...E muito menos  uma cadela chamada  "Blonde". E muito menos ainda, que viajasse com ele de helicóptero. 

É uma invenção da 6ª Rep (a IA...), agora em competição com a 5ª Rep (Café Bento, Bissau)...E que desafia a nossa fraca e nebulosa memória... (a sofrer com a perda de neurónios todos os dias, há mais de meio século).

Por razões de segurança, e de bom senso, a segunda hipótese (uma cadela a viajar com o governador e com-chefe, de heli, AL III ou até de DO-27) era de todo inverosímel, dada a falta de helicópteros e de espaço nos helis...

Não existe qualquer fundamento histórico, documental ou fotográfico que sustente que Spínola tivesse uma cadela, da raça pastor-alemão,  no Palácio do Governo em Bissau ou que a fizesse acompanhar nas suas deslocações aéreas na Guiné.

Vamos aos factos...

Pode haver aqui uma confusão com os cães militares que eram usados para fazer a ronda, nocturna, ao Palácio do Governador... Outra coisa, completamente diferente, é Spínola ter uma cadela particular, de estimação, chamada "Blonde", e eventualmente levá-la consigo "by air" .... as suas viagens ao "mato"...

Encontrámos uma fonte particularmente interessante: uma entrevista, a propósito do 25 de Abril,  com Joaquim Oliveira, natural de Lousada, ex-soldado paraquedista, do BCP 12:

(...) "Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. 

Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. "(...)

Vd. O Louzadense > 24 de abril de 2021 > As histórias da liberdade

Sabemos, por outro lado, pelo nosso camarada José Câmara (açoriano,  da diáspora lusitana, a viver na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327, e Pel Caç Nat 56, Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73), que do dispositivo de segurança montada no Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império). fazia também parte o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 (BCP 12)... 

Competia-lhe fazer o patrulhamento móvel noturno no interior do jardim, a cargo  de um soldado paraquedista e do seu cão de guerra (Pastor-alemão) (****). 

Aliás, a utilização de cães de guerra pelo Exército português na Guiné (e pela FAP) está documentada  no nosso blogue. Há, por exemplo, o testemunho publicado por Mário Fitas  sobre a criação de uma Secção de Cães de Guerra na CCAÇ 763, em 1964-66, com vários Pastores Alemães, chefiados pelo "Cadete" (***).

Portanto, temos aqui já uma primeira explicação, muito plausível, para a memória da  alegada "pastora-alemã do Spínola": havia um ou mais pastores-alemães no próprio perímetro do Palácio, mas eram cães militares, não necessariamente propriedade pessoal do Governador, animal de estimação seu ou da esposa Helena.

 Foi porventura essa rotina diária que acabou por gerar, na memória visual de quem passava na zona ou em relatos posteriores mal informados, a associação direta entre o "Pastor-alemão do Palácio" e a figura do próprio Governador Spínola.

Ver o animal nas imediações da residência oficial do Comandante-Chefe levou a que a sabedoria popular, ou a narrativa romantizada da guerra,  transformasse o cão de patrulha do BCP 12 num "bicho de estimação do General".

Os testemunhos e registos em primeira mão devidamente documentados pelos camaradas no blogue repõem o rigor que a história exige: era um cão de guerra em serviço operacional de guarda, pertença do BCP 12, ou seja da FAP,
 não um animal pessoal de Spínola.

2. E a tal "Blonde"?

Aqui está o pomo da discórida A referência à  suposta "cadela Blonde" aparece, de forma muito explícita, no  nosso próprio blogue, num texto publicado em maio de 2026. Aí se refere "a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava" (**).

Mas há aqui um pequeno  "problema metodológico": não encontrámos, com a ajuda da IA,  nenhuma fonte independente anterior que sustente essa afirmação.

Pior: o texto do blogue é precisamente uma passagem em que uma resposta de IA (mais precisamente do ChatGPT) está a ser criticada por misturar factos, folclore e invenção. Ou seja, a frase sobre a "Blonde" aparece dentro desse material gerado/reproduzido, não como resultado de uma fonte primária ou de um testemunho identificável.

Logo a "Blonde" não pode ser dada como "facto histórico". Mais importante ainda: há vários registos fotográficos e cinematográficos de Spínola a chegar e partir de helicóptero,  inclusive imagens da RTP Arquivos  e do Museu da Presidência. Os registos descrevem minuciosamente quem o acompanha. Não se encontra uma única referência a uma cadela a bordo.
 
Mais: não há nenhum piloto, a começar pelo Jorge Félix, que tenha referido ter transportado um cão ou cadela, ao lado do Spínola.

Sabemos que os voos de Spínola eram frequentemente deslocações operacionais ou político-militares, com o Governador e Comandante-Chefe (acumulava os dois cargos) acompanhado pelo ajudante de campo (Almeida Bruno, por exemplo), oficiais, eventualmente outras individualidades e até jornalistas. 

Além do  testemunho do piloto Jorge Félix sobre os voos com Spínola, temos també  também imagens RTP Arquivos em que o percurso é bastante claro: helicóptero → Spínola → receção militar → visita → helicóptero.

Uma cadela de estimação não teria qualquer função nesses voos e ocuparia um lugar num aparelho cujo espaço era precioso (e disputado, quer por militares: feridos, por exemplo; quer por civis: mulheres grávidas, etc.).

Além disso, se fosse uma presença habitual, seria extraordinariamente provável que algum dos fotógrafos, operadores de fotocine, pilotos ou militares que conviveram com Spínola, tivesse deixado uma fotografia ou um testemunho escrito.
 
Mas há uma coisa que pode explicar a história, como já sugerimos acima. Temos três elementos reais que podem ter-se misturado na memória oral:

(i) Spínola tinha cães militares à sua porta, no Palácio;

(ii) esses cães eram pastores-alemães; 

(iii) Spínola deslocava-se constantemente de Alouette III, e existem muitas fotografias dele nos helicópteros.

Da combinação dos três elementos pode muito facilmente ter nascido a história: o Spínola tinha uma pastora-alemã que andava sempre com ele, logo "seu animal de estimação".  E, posteriormente, alguém acrescentou-lhe o nome "Blonde" (loura, em inglês).

3. A ausência de fontes e de registo fotográfico

O período de Spínola na Guiné é provav o mais fotografado e filmado de todo o conflito ultramarino (com registos diários de operadores de fotocine,  reportagens da RTP, jornalistas nacionais e estrangeiros).

Não há imagens nem testemunhos: (i) não existe uma única fotografia conhecida na bibliografia da Guerra Colonial, no arquivo da RTP, na hemerotecas, no Arquivo Histórico Militar ou no acervo da Presidência que mostre o general acompanhado por um pastor-alemão (nem no Palácio, nem junto a aeronaves, a descolar ou a pousar no mato, em AL III ou DO-27); (ii)  e nas memórias de ajudantes de campo, oficiais do seu estado-maior, pilotos ou outros camaradas que serviram em Bissau, não há nenhuma referência,     que saibamso,  à presença de tal animal de estimação ao lado do Governador.
 
4. Por outro lado, durante o período do comando de Spínola (1968–1973), a frota de helicópteros Alouette III da FAP no CTIG  na Guiné era um recurso extremamente escasso, gerido com rigor obsessivo. Os "hélios" (com o dizia a malta...) eram prioritários para:

  • eacuações médicas (de feridos em estadio grave, para o HM 241, em Bissau);
  • operações de assalto de tropas especiais (fuzileiros, comandos, paraquedistas); 
  • helicanhão;
  • apoio tático direto e reabastecimento urgente em tabancas e postos isolados;
  • deslocações do Governador e Comandante-Chefe às tabancas, aquartelamentos e destacamentos (fazendo-se, por norma, acompanhadas pela sua comitiva militar: ajudantes de campo, oficiais de ligação, convidados, jornalistas, etc.)

O espaço a bordo de um Alouette III era contadíssimo e condicionado ao limite do peso e da segurança de voo num território de clima tropicale e, para mais, em guerra. Reservar lugar para um animal de grande porte num meio de transporte militar crítico seria absolutamente  inacreditável, impraticável e inaceitavel. Havia combatentes que morriam no mato por insufuciência de apoio aéreo.

5. Mas não deixa de ter a sua "graça" ou a sua "piada" a suposta existência de um cadela "Blonde" que, na nossa imaginação (e com acumnmplicidade da IA...)  até era capaz de substituir o Jorge Félix aos comandos do heli AL III... 

Daí, finalmente, e ao fim de meia dúzia de tentativas e muitos insultos (!), consumnidores de tempo, paciência e recursos, eu tenha conseguido "produzido" esta BD, em que entram o nosso general, a "Blonde"e o ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"... Com a ajuda da IA e, mais uma vez,  do nosso camarada João Rodrigues Lobo.

Spínola tem o seu lugar na Histtória. A "Blonde" só na Banda Desenhada...

 
(Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini IA / Google | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de textio, itálicos, nebritos, título: LG)
________________


(**) Vd. poste de 21 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"

(...) Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas. (...)

 Vd. também poste de  19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

(***) Vd. psote 18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)


(****) Vd. poste de 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

(...) O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;


(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina



Foto nº 1 e 1A > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Da direita para a esquerda:

(i) na primeira fila: o Comandante do CAOP 2, o General Spínola, e o ten cor Polidoro Monteiro (comandante do BART 2917);

(ii) atrás, na segunda fila,  o Paulo Santiago (,de bigode e óculos escuros), o ten-cor Tiago Martins (comandante do BART 3873,que foi render o BART 2917). e o antigo administrador do oncelho de Bafatá, o então intendente Guerra Ribeira (de seu nome completo, Manuel da Trindade Guerra Ribeiro. natural de Chaves) (*).(vd. Foto nº1-A).



Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Em primeiro plano, dois civis, da administração ultramarina sendo o segundo o intendente Guerra Ribeiro (o primeiro pode ser  talvez o chefe de posto de Bambadinca) no meio de militares, com o gen Spínola ao centro; ao fundo, à direita o nosso grã-tabanqueiro Paulo Santiago, na altura instrutor e comandante de companhia de milícias.

Fotos (e legendas): © Paulo Santiago (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Vd. também na RTP Arquivos o vídeo (5'14') (sem som, a preto e branco) , "General António de Spínola, Governador Geral da Guiné Bissau, visita campo de instrução de milícias em Bambadinca, na Guiné Bissau" (passou  na RTP, no noticiário nacional, em 24/10/1971).

Resumo Analítico (revisto e melhorado, RTP/LG):

(i) lápides e monumentos em memória de soldados mortos em combate colocados junto ao pau da bandeira e em frente ao edifício da escola local, pertencentes a várias unidades e subunidades que passaram por Bambadinca: CCAV 678 (1964/66),  BCAÇ 1888 (1966/68), Pel Mort 1192 (1967/69), BCAÇ 2852 (1968/70), Pel Mort 2106 (1969/70), CCAÇ 2590 / CCAÇ 12  (0'-23'');

(ii) helicóptero aterra; general Spínola (com o seu ajudante de campo, cap cav Lourenço Fernandes Tomás), desce do helicóptero e cumprimenta militares (24''-30'');

(iii) população local assiste à chegada do Governador e acompanha-o, saudando-o efusivcamente (31''- 38'');

(iv) Spínola dirige-se às milícias formados em parada; é acompanhado pelo cmdt do BART 2917, ten cor Polidoro Monteiro e pelo intendente Guerra Ribeiro;  milícias apresentam armas; Com-chefe em continência perante a parada e a passar revista às tropas; população aplaude (39'' - 1' 04'');

(v) general Spínola e individualidades militares na tribuna de honra; desfile militar; militares realizam exercícios físicos com arma e exercícios de obstáculos (1' 05'' - 1' 32'')

(vi) comitiva dirige-se à carreira de tiro (perto do destacamento da ponte do rio Udunduma, na estrada Xime-Bambadinca (alcatroada); milícias desmontam e montam a G3; General Spínola observa os militares durante o exercício; militares praticam tiro ao alvo e fazem fogo com morteiro 60 e LGFog; vista do campo de tiro (pareço reconhecer o José Luís Vacas de Carvalho, junto aos milícias que operam a bazuca, ele seria, na altura, o oficial de tiro) (1' 33 - 2' 03'');

(vii) visita as obras de construção da nova ponte do rio Udunduma; milícias simulam operação de guerra com progressão no mato (2' 04'' - 2' 50'');

(viii) regresso a Bambadinbca; Spínola e demais individualidades, militares (ten cor Polidoro Monteiro, major Carlos Fabião, cmdt do CAOP2 / Bafatá, ajudante de campo de Spínola...) e civis (intendente Guerra Ribeiro) percorrem o recinto e entregam ofertas aos mílicias; alguns são graduados; vista geral do recinto (2' 51'' - 3' 40'');

(ix) General Spínola e individualidades locais, apoiantes da "causa nacional" (incluindo o régulo de Badora) discursam (sem som) (3'41'' - 4' 13''):

(x) parte final: desfile militar; General Spínola conversa com militares, dirige-se para o helicóptero e despede-se; helicóptero descola (4'14'' - 5' 14'').



Guiné > Região do Cacheu > Outubro de 1964 > Tabanca de Caboiana > O chefe de posto do Cacheu, mais duas senhoras: (i) a esposa do chefe de posto; e (ii) a esposa do tenente [que o autor não diz quem é; seria o comandante do Pel Caç Ind 953, a quem o 1º cabo António Paulo Bastos pertencia?]

Foto (e legenda): © António Bastos (2015). Todos os direitios reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe (ou administrador) de posto de Bambadinca. Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; em 1972, no vídeo supracitado, aqui já era intendente, e colaborador próximo de Spínola).

Acrescente-se que esta gente tem sido ignorada por nós, aqui no blogue, e sobretudo pelos  historiadores académicos. Temos falado pouco destes homens que, de resto, conviviam pouco ou nada connosco, militares. Mesmo sendo nossos vizinhos... E, temos que o reconhecer,  foram "maltratados" depois da descolonização.  Como sendo os "maus da fita", a começar pelos cabo-verdianos, que levaram com o "rótulo" de "turras"; outros, os régulos, os cipaios, os milícias, etc. , "cães dos colonialistas". 

Mais de meio século depois, está na altura de rever o discurso da "diabolização colonial" e da "hagiografia revolucionária".  Por exemplo, Amílcar Cabral tinha um ódio de estimação ao António Carreira que foi administrador colonial, funcionário da Casa Gouveia e grande etnógrafo, estudioso da história e da sociedade tanto da Guiné como da sua terra, Cabo Verde...

Na Guiné (tal como em Angola ou em Moçambique), o administrador de circunscrição e o chefe de  posto não eram apenas burocratas (nem muito menos pequenos déspotas). Em vastas regiões do interior eram simultaneamente representantes do governo, gestores de conflitos, magistrados, coordenadores de obras públicas, recrutadores de mão-de-obra, coletores de impostos, responsáveis pelo recenseamento, interlocutores dos régulos e, por vezes, a autoridade mais visível do Estado (embora, com a guerra, suplantados pela tropa).  

Além disso, não eram todos "maus, racistas e colonialistas"... 

Essa dimensão,  prática, quotiana, de "interface",  ajuda a compreender porque tantas memórias locais (leia-se o nosso António Rosinha, o nosso Cherno Baldé...)  ainda hoje recordam "o administrador" ou "o chefe de posto" pelo nome próprio. Por boas ou más razões... Guerra Ribeiro e António Carreira, por exemplo, são dois nomes que nos vêm à memória. O primeiro transmontano, o segundo cabo-verdiano. 

E ainda há dias falámos aqui do caso do Agnelo Macedo (1925-1972),  chefe de posto de Catió, vítima de perseguição política, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e transferido compulsivamente para Moçambique.

No ultramar português, os administradores de circunscrição (ou de concelho) e os chefes ( ou administradores) de posto pertenciam a uma carreira específica da Administração Civil Ultramarina, integrada no funcionalismo público do Ministério do Ultramar e, portanto, distinta das carreiras da função pública na metrópole.

O recrutamento, a progressão e as atribuições destes funcionários eram regulados por legislação própria, nomeadamente pelo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino e pelos diplomas orgânicos dos Serviços de Administração Civil.

A hierarquia administrativa estruturava-se, de forma simplificada, da seguinte maneira:
  • Aspirante administrativo; categoria de ingresso na carreira, destinada aos candidatos em fase de formação e aprendizagem prática;
  • Administrador de posto ( tradicionalmente designado por chefe de posto): responsável pela unidade administrativa básica, assegurando o contacto direto com as populações, as autoridades tradicionais e os serviços locais do Estado;
  • Administrador de circunscrição ou de concelho: encarregado da administração de uma área territorial mais vasta, coordenando vários postos administrativos e exercendo amplas funções de governo local;
  • Intendente de distrito e inspector administrativo: categorias superiores, responsáveis pela coordenação, fiscalização e orientação dos serviços administrativos;
  • Inspector superior de administração ultramarina: um dos patamares mais elevados da carreira.

Ao longo do século XX, o acesso à carreira passou a estar fortemente associado à formação ministrada pela:
  • Escola Colonial (criada em 1906 e instalada na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa);
  • posteriormente Escola Superior Colonial (a partir de 1926/27) (em 1933 passa a ocupar o  Palacete dos Anjos, no Príncipe Real, ficou mais diretamente dependente do Ministério das Colónias);
  •  Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU) (a partir de 1954, integrando-se na Universidade Técnica de Lisboa com o início da guerra colonial em 1961);
  • e, mais tarde, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (1962-1974 (quando passa a ocupar o Palácio Burnay, na Rua da Junqueira);
  •  e finalmnete,  com o 25 de Abril,  ISCSP - Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP / UL).(em 2001 mudou-se para o Campus da Ajuda). 

Claro que hoje não é mais a escola de quadros da administerçáo colonial, já que Portugal "liquidou" o seu velho império...  A instituição, que comemora 120 anos,  nasceu por decreto de 18 de janeiro de 1906, durante a monarquia constitucional, no reinado de Dom Carlos, inserindo-.se  a  sua criação no  movimento europeu de profissionalização da administração colonial, semelhante ao que existia, de resto,  em países como a França, a Bélgica ou o Reino Unido.

O curso de Administração Colonial (e depois ultramarina) procurava preparar os futuros administradores para lidar com as realidades políticas, jurídicas, económicas, sociais e culturais dos territórios do Ultramar, muito diferentes das da Metrópole.

Entre as disciplinas lecionadas nesta escola de quadros da admistração colonial (e, depois, de 1951, ultramarina) encontravam-se o Direito Administrativo e Colonial, a Administração Colonial, a Antropologia, a Etnografia, a Geografia Económica, a História da Expansão Portuguesa, a Higiene Tropical,  Línguas Africanas e Orientais, e outras matérias ligadas às sociedades africanas e asiáticas. 

Diferentemente de um funcionário administrativo da metrópole, o administrador ultramarino acumulava frequentemente funções de:
  • representação do Estado;
  • administração local;
  • polícia administrativa;
  • recolha de impostos;
  • recenseamenmto da população;
  • coordenação de serviços públicos; 
  • relacionamento com as autoridades tradicionais, etc.
Nas regiões mais afastadas dos centros urbanos, era frequentemente a figura que personificava a presença do Estado português perante as populações locais.

2. Outro tema a explorar no nosso bloguye seria o desenvolvimento  da etnografia / antropologia coloniais já no séc. XX... Vários administradores coloniais portugueses atuaram também como antropólogos ou etnógrafos. 

Durante o século XX, a própria administração ultramarina incentivava estes funcionários a recolher dados culturais e físicos para melhorar o controlo e a governação das populações locais. 

A partir de 1945, por exemplo, o concurso para administrador de circunscrição passou a exigir obrigatoriamente a apresentação de uma "monografia etnográfica original".

Um dos momes mais conhecido é o do cabo-verdiano António Carreira (que tem mais de 45 referências no nosso blogue). Foi mais tarde funcionário da Casa Gouveia e, ao que parede, injustiçado (e até diabolizado) na história do 3 de Agosto de 1959 (o chamado massacre do Pidjiguiti). 

António Barbosa Carreira nasceu na Ilha do Fogo, em 1905. Morreu em Lisboa, aos 82 anos, em 1988. 

3. Fontes a consultar (legislação e regulamentação) | Sitografia:

Decreto n.º 44 241, de 19 de março de 1962:  Orgânica dos Serviços de Administração Civil do Ultramar > Define a hierarquia do quadro administrativo (inspectores, intendentes, administradores de circunscrição e de posto).

Decreto n.º 46 982, de 27 de abril de 1966:  Aprova o novo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino.

Decreto n.º 48 792, de 24 de dezembro de 1968:
  Reorganização dos serviços de administração civil e atualização das categorias administrativas.

História institucional do atual ISCSP, herdeiro da Escola Colonial (1906), Escola Superior Colonial, ISEU e ISCSPU. A ligação da escola à formação dos quadros administrativos ultramarinos está bem documentada.
______________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2013 > Guiné 63/74 - P11288: (De) caras (13): Guerra Ribeiro, natural de Bragança: de administrador colonial no tempo do Schulz a intendente no tempo de Spínola (Paulo Santiago / Cherno Baldé / António Rosinha)

(...) No poste P11281 (...) fala-se do Guerra Ribeiro, Administrador de Bafatá. Conheci a pessoa num dia em que apareceu no Saltinho,e lá pernoitou.

Mais tarde, apareceu em Bambadinca na cerimónia de encerramento do curso de Milícias. Nesta altura, já não era Administrador, era Intendente, e penso que estava em Bissau, mas sei muito pouco sobre estes cargos da Administração Civil.

(...) Voltei a Bambadinca em Janeiro de 72 e, durante o novo curso de milícias, tive duas visitas do Com-Chefe, uma aí pelo meio e a outra no final tendo, desta vez, sido cumprido todo o programa de encerramento, que incluiu uma deslocação de viatura à carreira de tiro, que ficava para lá do destacamento da Ponte de Udunduma, a caminho do Xime. (...)

Nas fotos juntas, Março de 72, aparece o então Intendente Guerra Ribeiro. Na primeira, é a pessoa de farda amarela, atrás do Polidoro Monteiro e do Spínola. Na segunda, está a olhar para o lado esquerdo, e vê-se, também fardado,um outro elemento da Administração Civil que não sei quem é. (...)

(**) Último poste da série > 19 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Faltava a narrativa do Boletim Oficial após o 25 de abril, são estes os elementos que julguei mais relevantes, pensando não só no leitor como igualmente atrativos para investigações subsequentes. Chamo a atenção para a ambiguidade da tomada de medidas pelo encarregado do Governo num tempo em que claramente as negociações iam apontando para o reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau por Portugal, não deixa de ser curioso que dentro desse quadro de ambiguidade se concedesse terrenos a particulares e a firmas, por vezes a título definitivo, se criassem escolas de artes e ofícios, isto a par de louvores inequivocamente relacionados com a situação político-militar e continuam a fazer-se reforço de verbas, nomeações e tudo o mais que dimana da rotina administrativa como se não houvesse um novo normal.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, depois do 25 de abril (91)


Mário Beja Santos

Os dados que agora se reportam têm como arco cronológico os meses que vão de junho a setembro, publica-se a imagem do último Boletim Oficial com data de 9 de setembro, foi o que pude encontrar na documentação existente na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Feito o crivo, considerei como mais relevantes para estudos posteriores as seguintes informações. No Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, o Encarregado do Governo, Carlos Fabião, Brigadeiro Graduado assina uma Portaria em que louva o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Mateus da Silva pela forma altamente eficiente como se houve durante o período de cerca de um ano em que desempenhou cumulativamente com as suas obrigações militares, as funções de Engenheiro-Chefe da Repartição Provincial dos Serviços das Obras Públicas e Transportes. “Na altura em que todos os esforços das Forças Armadas, em coordenação com o povo português, se conjugaram para, por derrube do regime de opção, instalar a democracia em todo o país, também o Tenente-Coronel Mateus da Silva respondeu presente, liderando o movimento das Forças Armadas da Guiné simbolizando a esperança de reconduzir a Guiné a uma Guiné Melhor por toda a população desejada.”

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, temos o Decreto Provincial n.º 8/74, que não deixa de suscitar curiosidade, pois revela a ambiguidade de uma administração colonial em pleno funcionamento enquanto já decorriam conversações que iriam inevitavelmente conduzir ao reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau. O texto reza o seguinte:
“1. A dinâmica do trabalho moderno reclama a existência de mão-de-obra qualificada, para que sejam aproveitados, ao máximo, os constantes e renovados benefícios da Técnica. Ao operário já não basta a força da experiência tradicional laborial. Exige-se-lhe a par de uma cultura básica geral, uma adequada preparação profissional e um apurado sentido de adaptação às mais evoluídas técnicas do trabalho.
Ora, é precisamente esta a razão de existir das Escolas de Artes e Ofícios: ministrar ao futuro artífice a cultura básica geral que lhe faculte a possibilidade de eventual promoção a escalões sociais mais amplos e, simultaneamente, iniciá-lo nas técnicas da profissão que escolheu.
2. O Governo da Província, dentro do vasto programa que se impôs de valorização social e cultural das suas gentes, não podia deixar de ativar a formação profissional, como fator do progresso que é.”


E com estes termos era criada na cidade Teixeira Pinto uma Escola de Artes e Ofícios para o sexo masculino.

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, assiste-se à concessão provisória de terrenos: a Joaquim Morais Pereira é concedido, por aforamento, 1940 m2 em Mansabá; a Valentim João Manuel Pinto é concedido, por aforamento, 1900 m2 na povoação de Porto Gole; a Barbosas & Comandita é concedido definitivamente um terreno com uma área próxima de 1430 m2 na povoação de Galomaro; e à mesma firma comercial faz-se a concessão definitiva de um terreno com uma área próxima de 2800 m2 na povoação de Bambadinca.

No Boletim Oficial n.º 27, de 2 de julho, o Alferes Miliciano Duarte Rodrigues Pires é nomeado para desempenhar, por acumulação, as funções de Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Agricultura e Florestas. No mesmo Boletim Oficial o Brigadeiro Graduado Carlos Fabião assina a seguinte Portaria:
“A povoação de Pirada foi flagelada no dia 25 de abril findo tendo falecido a auxiliar de enfermagem de 2.ª classe, dos Serviços de Saúde e Assistência, Margarida de Pina Araújo, em consequência dos ferimentos que foi vítima, enquanto prestava assistência aos doentes, tendo falecido horas depois.
A auxiliar de enfermagem, apesar de jovem, revelava grande espírito de sacrifício, zelo e dedicação pelos doentes o que a evidenciava como um dos melhores elementos dos Serviços de Saúde, prestando valioso contributo como única encarregada de um Posto Sanitário situado na zona fronteiriça de muito movimento e de risco considerável, tratando desveladamente todos os doentes que procuravam assistência, muitos de nacionalidade diferente, pois são numerosos os estrangeiros que aí acorrem a procurar cuidados médicos, gozando de consideração não só dos militares do Batalhão como da população de Pirada.”


E louva-se auxiliar de enfermagem a título póstumo referindo a sua dedicação com que assistia todos a que procuravam no Posto Sanitário e até em sua própria casa, fora das horas de consulta de tratamento.

No Boletim Oficial n.º 32, de 6 de agosto, temos o Decreto Provincial n.º 11/74, esclarece-se que já está completamente posto de parte o uso obrigatório de boné para os condutores de veículos automóveis ligeiros de aluguer de passageiros. E na Guiné mais razões havia para que fossem abandonadas tais imposições. E sem mais explicações promulga-se que os condutores dos veículos automóveis ligeiros devem apresentar-se decentemente vestidos e que a contravenção será punida com uma multa de 200 escudos. E temos também, no mesmo Boletim Oficial, uma Portaria assinada pelo Brigadeiro Graduado Carlos Fabião louvando o Alferes Miliciano António Eduardo Sobral Mendes pela forma altamente meritória como serviu na Província da Guiné, durante cerca de dois anos, quer como comandante operacional e tropas no interior do teatro de operações quer desempenhando funções na Repartição do Gabinete do Governo. Como é timbre destes louvores faz-se alusão ao seu desembaraço dotes de comando, muito senso, lhaneza de trato e isenção, bem como as suas qualidades de carácter, a sua cultura e alto espírito de bem servir e como um elemento perfeitamente integrado no Programa do Movimento das Forças Armadas.

E deste modo se dá por concluído o levantamento que se procurou fazer de mais de um século da vida desta colónia, desde os tempos do Boletim Oficial de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao período aproximado de um mês antes da chegada dos dirigentes do PAIGC a Bissau.

Encontro de Aristides Pereira, Secretário-Geral do PAIGC, e Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, em Londres, na presença de Abdou Diouf, Primeiro-Ministro do Senegal, e de Almeida Bruno. Maio de 1974. Fonte: Fundação Mário Soares, Arquivo Amílcar Cabral, Pasta 10078.001.009.
Fotografia publicada no Diário de Notícias em 27 de agosto de 1974
O General António de Spínola e Major Carlos Fabião num campo de instrução de milícias na Guiné, 12 de janeiro de 1972. Fonte: ANTT, DME.
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Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28128: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): tropas e paisanos, e "a Guiné...para os guinéus"

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Foto nº 1 >  Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor)


Foto nº 1 B > Possivelmente, os pais (na segunda fila, do lado direito),  avós (nma terceira fila, de óculos escuros) e familiares e amigos da criança, mais o padre, missionário (em primeiro plano, à direita). A jovem mãe seria de origem libanesa.


Foto nº 1 > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá 


Foto nº 1 C > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor): o Fernando Andrade Sousa é o primeiro da esquerda; o Joaquim Vidal Saraiva (alf mil médico) é o segundo da última fila, de óculos escuros e boné, Há mais 3 militares, fardados, que não identificamos. À esquerda do do Vidal Saraiva, pode ser o José Carlos Lopes, o ex-fur mil dos reabastecimentos...


Foto nº 1 D > Os padrinhos e a criança (ao colo da professora  Dona Violete)


Foto nº 2 > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca... Pelo que se depreende da visualização da imagem, a cerveja Cristal era muito popular na época... Se calhar, era por ser a mais barata... Os comerciantes de Bambadinca também estavam muito dependentes da tropa para efeitos de logística e segurança: os barcos civis que chegavam a (e partiam de) Bambadinca tinham segurança militar, pelo menos em dois pontos do rio Geba: Mato Cão e Ponta Varela...


Foto nº  2 A > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca (pormenor): um civil, em primeiro plano (talvez irmão ou cunhado da mamã libanesa), e o alf mil médico, Vidal Saraiva, já à civil.


Foto nº 2 B >  O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca: O Fernando Andrade, de bigodinho, é o terceiro... (Ele já não se lembrava do bigodinho, à margem do RDM...). 

Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Batizado de um filho de um casal de comerciantes de Bambadinca, para o qual foram convidados alguns militares da CCS/BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12. Por volta de finais de 1969. A mãe da criança era libanesa, o pai possivelmente era português de origem metropolitana, talvez até transmontano (o padrinho, o alf mil Carlão,  era de Mirandela)  (Foto nº 1 B)...

Fotos: © Fernando Sousa (2018). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca >  Abril de 1965 (?) > Festa da primeira comunhão > A menina branca, filha do chefe do posto de Xitole, ladeada pela Professora Primária Dona Violete (à esquerda, de óculos escuros) e a esposa de um dos comerciantes locais (à direita).



Foto nº 4 >Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Foto nº 3 > Abril de 1965 (?) > Capela local > Um grupo de meninos e meninas (só uma das quais é branca, filha do chefe de posto do Xitole, a frequentar a escola primária em Bambadinca), no dia da comunhão solene, devidamente enquadrados por uma freira, católica, muito possivelmente missionária e estrangeira (italiana?)
 
Fotos do álbum do ex-Fur Mil At Manuel Bastos Soares,  natural de Vila Nova de Gaia e residente na Maia.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Bastos Soares (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá> Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento, frente à escola primária > Memoriais de unidades que passaram por Bambadinca 

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos",  comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei.  Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).

Nunca vi o chefe de posto nem  a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo). 

Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...

Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, e muito menos comia á sua mesa, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim em espaços segregados...

Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças  eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971. 

O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que terá tido problemas ainda na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (A propósito, o Anjos de Carvalho,  em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).


2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como  "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como  na boda), como se costuma dizer, só vão os convidados... 

Mas,  como todas as "fotos de família", estas têm algo de ternurento... Perguntei-me na altura: quem seriam  estas pessoas, por onde andariam então (em 2016)... Algumas, eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança... 

Afinal, morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária, as duas enclausuradas). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé" (que, se não erro, era junto ao depósito de água e à escola)..

O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convívios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90),  já não se lembrava  bem de toda a gente, muito menos dos civis. 

Disse-me ao telefone que;

(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12; 

(ii) o Carlão fora convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás-os-Montes) de alguém da família da criança (pai ou avós);

(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;

(iv) ele,  Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado porque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que deve ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);

(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;

(vi)  ficou de me mandar (mas não mandou...) mais fotos deste "batizo"  

O casal libanês  (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel,  do lado direito (no sentido descendente), talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria , já na zona ribeirinha... 

Os Rendeiro não aparecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem,  na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós  e possivelmente um tio (o mais forte).

A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, possivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionários católicos italianos (do IPME) tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).

Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia,  a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).

O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852  (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento (incluindo o José Carlos Lopes, fur mil).

O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado...  Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº 1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...

As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas, a um sobrinho para as digitalizar...  


3. Estamos a falar de coisas que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administração ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... (Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!... E quem numa guerra civil, como foi aquela, não joga com um pau de dois bicos ?)

Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.

Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto,  promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que, com ele, e com a guerra,  praticamente foi substituída por quadros militares.)

Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa  como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização e repressão.

Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que até ao início cio dos anos 60  eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).


Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".

Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu  "refeitório e cantina"... E foi assim que fizemos todos a guerra...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças