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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
O Governo central revela-se generoso, abre mão ao dinheiro e até a alguns meios militares, será assim até 1971, nessa data o Ministro das Finanças anuncia que os encargos militares chegaram ao rubro enquanto o Ministro da Defesa irá referir que se atingiu o máximo dos efetivos o que levará o Comandante-Chefe a intensificar a africanização da guerra.

 O que se irá ver ao longo deste ano no Boletim Oficial é a injeção de dinheiro com queda nas receitas, não deixa de surpreender a remissão para o Boletim Oficial de louvores militares e perto do final do ano abrem-se concursos para um conjunto de estradas, caso de Bambadinca-Xime, Jugudul-Bambadinca, Nova Lamego-Piche-Buruntuma, Cacheu-Teixeira Pinto e Buba-Aldeia Formosa. 

Falando por mim, apanhei por tabela os trabalhos do alcatroamento de Bambadinca-Xime, isto em junho/julho de 1970, pouco antes de findar a minha comissão, já o porto do Xime estava em pleno funcionamento. Em 2010, visitei o Xime, aquela consistente construção estava reduzida a meia dúzia de estacas, o alcatroado todo esburacado. E pouco mais há a dizer.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1969 (85)


Mário Beja Santos

Ainda em 1968, em reunião do Conselho Legislativo, António de Spínola dirige uma mensagem à Província, informando que apresentara ao Governo Central, com todo o realismo, a situação que se vivia na Guiné, com base no que apresentara em Lisboa, ia ser estabelecido um Plano de Acção, haveria um significativo apoio financeiro que se iria concretizar num conjunto de medidas: investimentos no campo do económico, do social e do cultural no valor de 650 mil contos, ao abrigo do III Plano do Fomento; dispensa de juros relativos às dívidas diferidas dos diferentes Planos de Fomento; ampla dilatação dos prazos de pagamento das anuidades dos Planos de Fomento e dispensa de contribuição para os encargos com a Defesa Nacional. 

Considerava o Governador que se podia assim ampliar a obra em matéria de infraestruturas (rede rodoviária e de comunicações, reconstrução dos portos no interior, promoção social, melhoria da assistência sanitária, etc.).

O que se vai plasmar no Boletim Oficial n.º 8, de 28 de fevereiro de 1969, pela Portaria n.º 2067, põe-se em execução para esse ano, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento (agricultura, silvicultura e pecuária, pescas, indústrias extrativas, indústrias de construção e obras públicas, energia, transportes, comunicações e meteorologia, educação e investigação, saúde). 

Falava-se no empréstimo da Metrópole de 95 mil contos e 15 mil contos do rendimento das concessões petrolíferas. A ESSO Exploration Guiné Inc  parece funcionar, pois no Boletim Oficial n.º 9, de 4 de março, fala-se numa Assembleia Geral a realizar-se em 31 de março, na Rua Filipe Folque, n.º 2, 3.º, em Lisboa. Na ordem de trabalhos, entre outros pontos, tratar-se-ia da fixação da caução a prestar por cada membro do Conselho Fiscal para o fiel cumprimento das obrigações do seu cargo.

Inusitadamente, e fora daquela rotina de créditos e débitos, fundos de investimento, nomeações e transferências, inscreve-se no Boletim Oficial n.º 16, de 22 de abril, notícias sobre a guerra em Moçambique, trata-se do Decreto n.º 48766 do Ministério da Marinha:


“Considerando que o Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais actuou nas frentes de combate em Moçambique com excepcional brilho, demonstrando destacada coragem, muita decisão, energia debaixo de fogo e um arreigado espírito de unidade, qualidades estas que se manifestaram em acções que comprovadamente contribuíram para os êxitos militares alcançados naquelas frentes;
Atendendo a que em várias operações e por força da situação operacional existente fez incursões de dezenas de quilómetros, sem comunicações, apoio aéreo e meios de evacuação diferidos para enfrentar um inimigo forte e moralizado, no que mostrou extraordinária agressividade;
Tendo em atenção a sua atividade no Niassa, nomeadamente nas regiões de Lipoche, Chitege, Chitope, Tchia, Juza Gombe e Meluluca, onde infligiu dezenas de baixas ao inimigo, capturando-lhe armamento, documentos, muitas populações e destruindo mais de 17 dos seus principais acampamentos, o que conseguiu em dezenas de operações, algumas de bastante violência, outras com desigualdade de forças desfavorável às fracções empenhadas do Destacamento;
Tendo presente os louvores colectivos conferidos e a proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Moçambique, em que consta ter a unidade conquistado lustre e prestígio para as instituições militares portuguesas, é concedida a medalha militar de Cruz de Guerra de 1.ª Classe ao Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais.”


No Boletim Oficial n.º 20, de 20 de maio, uma Portaria concede meios à ação missionária. Refere-se que os Missionário Franciscanos de Veneza que vieram para a Província para se ocuparem do tratamento da lepra no Hospital Colónia de Cumura, adaptaram-se às exigências do tratamento dos leprosos, revelando muita dedicação, espírito humanitário e de sacrifício, atendendo que a Missão de Combate às tripanossomíase tinha proposto alargamento de espaço para as suas atividades, o Governo da Província aprovava que os terrenos que faziam parte da Reserva do Estado a cargo desta Missão, situados na região de Cumura, passavam a constituir uma reserva parcial para o tratamento da lepra, a cargo da Missão Católica da Cumura.

Mais um dado estranho na vida do Boletim Oficial, no seu n.º 29, de 22 de julho, o Ministério do Ultramar condecora com a medalha de cobre de assiduidade do serviço o Primeiro-Sargento do Serviço Geral Francisco João Pinheiro Marrafa.

Ficamos a saber que os Serviços de Centralização e Coordenação de Informações, em funcionamento desde 1961, irão funcionar a título transitório no Gabinete Militar do Comandante-Chefe, presidido pelo Governador, tendo como vogais o Comandante da Defesa Marítima da Guiné, o Comandante Territorial Independente da Guiné, o Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e da Guiné, o Comandante da PSP, Chefe da Subdelegação da PIDE e Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil.

Abriram-se créditos especiais de milhões de escudos, tem a ver com programas de meteorologia, fomento dos recursos agro-silvo-pastoris, transportes rodoviários, telecomunicações, etc. A dívida pública da Guiné atingiu verbas astronómicas.

No 3.º Suplemento do Boletim Oficial n.º 39, de 6 de outubro, dá-se notícia do concurso para a execução de empreitadas de construção de terraplanagens das estradas de: Bambadinca-Xime; Jugudul-Bambadinca; Nova Lamego-Piche-Buruntuma; Cacheu-Teixeira Pinto; Buba- Aldeia Formosa (alguns destes trabalhos prolongaram-se até ao ano de 1974).

O Boletim Oficial n.º 47, de 25 de novembro, pela Portaria n.º 2162, publica o terceiro orçamento suplementar referente à Administração do Porto de Bissau, e nesse mesmo Boletim, o Governador louva o Marinheiro n.º 67, Januário Abibe Tchame, em serviço na Repartição Provincial dos Serviços de Marinha, pelo seu exemplar comportamento durante a reação a uma flagelação inimiga dirigida a um quartel do Interior e ao porto fluvial vizinho:

“Encontrando-se a prestar serviço no referido porto, sob as ordens de um cabo fuzileiro, a este se apresentou voluntariamente, apesar de não ser militar, logo que teve conhecimento do início do ataque. Com uma arma recebida do mencionado cabo fuzileiro, que comandara a defesa da zona portuária, ocupou uma posição isolada de onde contribuiu para a reacção que obrigou o inimigo a debandar da área do porto. Revelou assim, qualidades de patriotismo, coragem, decisão e exemplar lealdade que considero de inteira justiça destacar.”
Marcello Caetano em Bissau
Dança compó
Rapaz Papel
Dançarino Balanta
Batuque Felupe
Rapaz Papel
O Chefe Religioso da Mauritânia recebendo uma lembrança do Governador da Província

Estas imagens foram retiradas de números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1969

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Os factos políticos e militares preponderantes em 1968 prendem-se com a mudança de Governador, logo em fevereiro há um ataque ao aeroporto de Bissalanca, sem consequências de maior, mas que trará grande apreensão tanto em Lisboa como nas Forças Armadas na Guiné; o Presidente da República faz uma visita a povoações seguras, nunca será exposto a riscos. Matérias que não vêm no Boletim Oficial, o que nele se fala, e já uma continuidade de anos anteriores, são os orçamentos extraordinários, os créditos especiais e o reforço de verbas. Estranhamente, o Ministério do Exército faz publicar louvores a unidades que combatem nos três teatros de guerra. Zela-se pelo preço do arroz, é um alimento básico que não pode faltar à população, logo no princípio do ano se tomam medidas de precaução. Em abril será criado um fundo de comercialização, tenta-se reprimir altas do custo de vida. Justificando-se com o aumento de encargos pessoal, crescem dotações para o orçamento de 1969, o novo Governador tem um grande alívio de encargos orçamentais, vai poder pôr em marcha medidas de apoio social. E o Governador Arnaldo Schulz despede-se da Guiné com uma enormidade de louvores.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1968 (84)


Mário Beja Santos

1968 é um ano de grandes mudanças, finda a Comissão do Governador Arnaldo Schulz, nomeação de António de Spínola, este chega a Bissau em 12 de maio. Em fevereiro, o Presidente da República chega a Bissau e percorre algumas localidades. Em 18 de fevereiro há um ataque do PAIGC ao aeroporto de Bissalanca, admite-se que terá pesado na decisão da substituição do Governador. No regresso da sua viagem a Bissau e Cabo Verde, o Presidente da República terá comentado a Salazar que a situação da Guiné era muitíssimo delicada.

Continua a revoada de orçamentos extraordinários, créditos especiais, reforço de verbas. O Boletim Oficial revela-se sempre comedido quanto à natureza da luta armada, mas, um tanto estranhamente, começam a aparecer louvores do Ministério do Exército referentes a unidades militares. É apreciável a chegada de agentes da PIDE, já estão disseminados por várias fontes da Província. Há um tema crucial, o abastecimento e o preço do arroz. Daí no Boletim n.º 1, de 9 de janeiro, Suplemento, o Diploma Legislativo n.º 1872 que insere disposições sobre a comercialização do arroz na Guiné. Atenda-se ao seu preâmbulo:
“Cerca de dois anos e meio são decorridos desde a publicação das tabelas em vigor, dos preços de compra e venda do arroz com casca e descascado. Vasta tem sido, no decurso deste período, a evolução do condicionalismo em que se processam a produção, a industrialização e a comercialização deste cereal, com manifesta desactualização daqueles preços. Acontece, ainda, que a reconhecida conveniência da adopção de preços únicos para toda a Província implica a revisão de algumas taxas de comercialização.”

E determina-se que os preços a praticar na comercialização interna de arroz serão fixados por despacho do Governador, com base num conjunto de elementos claramente definidos, define-se igualmente a taxa que incide sobre todo o arroz descascado originário da Província, etc. etc.

No Boletim Oficial n.º 5, de 7 de fevereiro, proveniente do Ministério do Ultramar, o Diploma Legislativo Ministerial n.º 1, consagra-se a autonomia administrativa e financeira da Emissora Provincial da Guiné Portuguesa que doravante se designará por Emissora Oficial da Guiné Portuguesa, define-se os órgãos dirigentes, o pessoal e as condições de transição da Emissora Provincial para a Emissora Oficial. Chegados a abril, assistimos a um vendaval de louvores, tanto podem ser administradores de circunscrição, como o chefe dos serviços de agricultura e florestas, o chefe dos serviços veterinários ou o capitão dos portos da Guiné. É na sequência dessa revoada de louvores que no Boletim Oficial n.º 16, de 23 de abril, entre esses louvores temos o do Major de Cavalaria Carlos Correia de Sampaio de Vasconcelos Porto, assim redigido:
“Muito benéfica tem sido para a Província a colaboração das Forças Armadas que, para além da missão imediata de defesa da integridade da Pátria de que estão incumbidas, têm procurado, de modo louvável, colaborar nas tarefas da Paz, contribuindo assim para a promoção do progresso e do bem-estar das populações.
O Major Vasconcelos Porto, segundo-comandante de um batalhão operacional, teve actividade de fecunda colaboração no campo do estudo e do fomento agrário. Salientar o fomento que imprimiu aos sectores de assistência sanitária e educativa às populações e o impulso dado à construção de numerosas obras nas vilas de Mansoa e Mansabá.”


A situação económica e financeira na Província é mais do que tormentosa, tentam-se medidas de contenção que não agravem o custo de vida nem a fragilidade e imprevisibilidade da vida empresarial. No Boletim Oficial n.º 16, de 27 de abril, publica-se a Portaria n.º 1977, tem a ver com o Regulamento do Fundo de Comercialização, para apoiar a ação dos serviços de economia em matéria de distribuição, comercialização e abastecimentos de produtos essenciais à economia da Província; mas também para assegurar a estabilidade de preços e de fomento da produção e da exportação. Diploma minucioso, definindo objetivos, de funcionamento, receitas e despesas.

Em 23 de maio, em forma de Suplemento, no Boletim Oficial publica-se o convite para comparecer no aeroporto, em 24 de maio, à chegada do novo Governador. Curiosamente, os próximos meses do Boletim só registam nomeações chegadas e partidas. No Boletim Oficial n.º 51, de 30 de dezembro, publica-se o Decreto n.º 48750, do Ministério do Ultramar, enumera exposições especiais que tem a ver com o aumento dos quadros do pessoal e fixa-se em 7.000.000$00 uma dotação que se prende com a despesa ordinária do orçamento geral da Província para o ano de 1969. No fim do ano o Governo da Guiné faz promulgar o Diploma Legislativo n.º 1870, tem a ver com o orçamento de 1969. Atenda-se ao que se escreve no seu preâmbulo:
“O orçamento de 1969 encontra-se liberto dos encargos de amortização e dos juros de capital investido através dos Planos de Fomento e de grande parte da contribuição para as despesas com as Forças Armadas. A dispensa destes compromissos, que se deve à alta compreensão a Metrópole face às necessidades da Província no momento que passa, tornou possível: atribuir um subsídio de custo de vida a todos os funcionários, com especial incidência nas classes mais baixas; melhorar o suplemento sobre as pensões dos velhos servidores do Estado; aumentar o salário mínimo dos trabalhadores pagos pelo orçamento da Província; atribuir vencimento fixo aos Regedores, etc. etc.”

O Governador recebera seguramente promessas de alívio de encargos para melhores condições de vida tanto do funcionalismo, apoio às chefaturas locais, ao sistema educativo, ao reapetrechamento de alguns serviços públicos e até subsidiação da população suburbana. As despesas com as Forças Armadas irão aumentar, chegarão mais batalhões, armamento, equipamentos, rúbricas não mencionadas no orçamento de 1969, tudo se fazia na Metrópole para que não se soubesse ao certo o peso da despesa militar no PIB.

Cortejo Histórico-Colonial que ocorreu na Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934, os cavaleiros Fulas acompanham o carro do Império, imagem do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Visita do Chefe do Estado ao Bairro da Ajuda
Cantadeira
Manjaco de Pecixe
Encontrei este mapa num artigo de António Carreira publicada num número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa 1968 dedicado às companhias pombalinas, tem a ver com a distribuição das etnias a partir do sul do Senegal à Serra Leoa, o mapa foi preparado na época da publicação do artigo, estou em crer.
Interrogatório ao morto
Chegada ao Aeroporto do Governador da Província

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27923: Historiografia da presença portuguesa em África (525): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1967 (83) (Mário Beja Santos)

domingo, 12 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27914: Humor de caserna (256): O anedotário da Spinolândia - Parte XXVIII: Do "Caco Baldé" ao "Aponta, Bruno" (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola,  com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno"). 

Na foto, o Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando uma G3.  O com-chefe, por sua vez,  está  também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). 

A foto acima reproduzida (e editada pelo nosso blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).


José Teixeira: (i) colaborador permanente (com o pelouro de Tabancas, Cooperação & Desenvolvimento ); (ii) ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70); (iii) gerente bancário reformado, escritor,  vive em Leça do Balio, Matosinhos;  (iv) é um  histórico da Tabanca Grande (desde 14/12/2005); (v)  tem 460 referências no nosso blogue; (vi) cofundador e régulo da Tabanca de Matosinhos; (vii) é autor da série "Estórias do Zé Teixeira", de que já se  publicaram 65 postes, desde 31/12/2005  a 30/10/2024; (viii) é também autor da série "O meu Diário"...


1. O Zé Teixeira, além de ser um "histórico" da Tabanca Grande (foi dos primeiros camaradas a sentar-se, simbolicamente,  à sombra do nosso poilão...), foi também (e continua a ser) um profícuo, talentoso, ativo, proativo e bem-humorado autor de textos de memórias: por exemplo, nos primeiros mil postes que publicámos, 60 são dele  (entre dezembro de 2005 e  julho de 2006). 

O Zé Teixeira foi dos que acreditou na força, importância e viabilidade do nosso projeto bloguístico coletivo, como repositório (partilhado) de memórias de antigos combatentes da Guiné.  E o tempo deu-lhe razão. Tem sido também  dos mais "leais" grão-tabanqueiros. 

Estive com ele, na passada quinta feira, dia 9: fui a um velório de uma senhora amiga da família de Candoz, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, perto da sua casa, e que ele de resto conhecia; dei-lhe um toque, apareceu logo a seguir, conversámos um pouco; anda compreensivelmente preocupado com uns problemas de saúde; espero que o prognóstico lhe seja favorável; quero voltar a ver-te,  Zé, em boa forma!)

Do poste P613, de 16 de março de 2006 (há 20 anos!), sob o título "Aponta, Bruno! (ou outra alcunha do Spínola) (Zé Teixeira)", voltamos a publicar uns excertos, que ficam muito melhor  nesta série "Humor de caserna >  O anedotário da Spinolândia" (*).

Esta "cena" deve ter-se passado  em Buba, em meados de 1969, quando os "Maiorais" (a CCAÇ 2381) estiveram particularmente empenhados na seguranç e proteção dos trabalhos de construção da estrada Buba - Aldeia - Formosa. Spínola tinha então 59 anos (!). Se fosse vivo faria hoje, 11 de abril, 106 anos. Nasceu em Estremoz em 11 de abril de 1910. Morreu, aos 86 anos, em 13 de agosto de 1996, no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.
 

Alcunhas do Spínola: do "Caco Baldé" ao "Aponta, Buno"

por José Teixeira

 
  O Aponta, Bruno!... Aí vem o Aponta, Bruno !    dizia logo o pessoal quando se avistava o héli que o transportava.

Porquê ? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficámos a ver . . . barcaças 

Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu diário. 

Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, e no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.

Então o homem chega e começa o discurso:

 
  Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois .....blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátia exige sacrificios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo perú recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.

Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece,  e perante as reclamações do major e do médico, o  Spínola só dizia:

 
  Aponta, Bruno!

Felizmente tinhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que,  à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivívamos, dava uma baixa. 

Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno,  o Spínola disse ao médico:

—  Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!

Ao que o médico lhe respondeu:

  O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.

Claro está que o capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Mas, não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados ?! 

Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada"... E a vida continuou.

 (Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos:  LG)

 
2. Ficha de unidade > 
Companhia de Caçadores nº  2381

Identificação  CCaç 2381
Unidade Mob: RI2 - Abrantes
Cmdt: Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos | Cap Mil grad Inf Eduardo Moutinho Ferreira Santos
Divisa: "Os Maiorais" - "Pela Lei. Pela Grei"
Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 06Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 06Mai68, seguiu para Ingoré, a fim de efectuar a instrução de aperfeiçoamento
operacional com a CCaç 1801, sob orientação do BCaç 1933 e seguidamente, assegurar a segurança e proteção dos trabalhos de reordenamento de Antotinha e efectuar ações de patrulhamento e emboscadas nas áreas dos corredores de Sano e Canja, em reforço da guarnição local e daquele batalhão.

(ii) Em 18Ju168, na sua função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi deslocada para Buba, a fim de reforçar o BCaç 2834, em substituição da CArt 1613, que anteriormente recolhera a Bissau, por fim de comissão.

(iii) Em 08Ago68, por troca com a CCaç 2382, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com pelotões destacados em Chamarra, de 10Ago68 a 08Fev69, ficando integrada no dispositivo e manobra do COSAF/ COP 1 e depois do BCaç 2834.

(iv) Em 04Jan69, substituída pela CCaç 1792, seguiu para Buba, no mesmo sector, a fim de colaborar na segurança e protecção dos trabalhos da estrada Buba-Aldeia Formosa e na ação de contrapenetração, passando a ficar integrada no dispositivo e manobra do COP 4, então criado, a partir de 19Jan69.

(v) Em 01Mai69, por troca com a CCaç 1792, assumiu a responsabilidade do subsector de Empada, continuando na dependência do COP 4 e depois do BCaç 2892 e mantendo dois pelotões em Buba até 03Dez69, um dos quais foi deslocado para Mampatá, de 04 a 31Mai69, orientando a Companhia a sua atividade para a realização de emboscadas, patrulhamentos e defesa e controlo das populações.

(vi) Em 26Fev70, foi rendida no subsector de Empada pela CArt 2673 e recolheu a Bissau, em 28Fev70, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº 94 - 2ª  Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pág. 366.
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Nota do editor LG:

Últimpo poste da série > 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada, o general Spínola, ao centro, ladeado à esquerda pelo major João Marcelino (2.º cmdt do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, cmdt do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção. 

À direita de Spínola, o seu ajudante de campo, o cap cav Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), de luvas, empunhando uma G3, e de costas o cap cav José Maria Sentieiro, cmdt da CCAV 2485 que, por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregado de dirigir a Op Ostra Amarga.

Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do Spinola e do Almeida Bruno, 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.

A foto acima reproduzida (e editada pelo blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).
 

I. Spínola ficou conhecido na Guiné por voar muito mais que os anteriores comandantes-chefes, visitando frequentemente unidades isoladas no mato. Isso contribuiu para a aura quase teatral do personagem:  monóculo, luvas, pingalim, camuflado impecável, acompanhado pelo seu ajudante de campo (o mais conhecido de todos provavelmente era o cap cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general, e que deu origem a uma das diversas alcunhas do general, "Aponta, Bruno").

A malta dos Alouettes III (AL III), pilotos e especialistas, ficaram com fama de estarem na origem de muitas anedotas atribuídas a Spínola.  Muitas terão um fundo de verdade, outras são variantes de primitivas versões. Impossível hoje é comprovar a veracidade das situações. Algumas serão mais verosímeis do que outras...Mas em geral são todas divertidas... De qualquer modo, convém sempre ressalvar o seguinte sobre a personalidade e o comportamento como comandante-chefe: António Spínola podia ser temerário mas não era doido...

E os nossos camaradas pilotos e especialistas da BA 12 (Bissalanca), mesmo anónimos, podem ser, sem desprimor, verdadeiros "comparsas", merecendo o devido destaque nesta série "Humor de Caserna: o Anedotário da Spinolândia"... 

Nenhum de nós (com exceção de dois très dos nossos grão-tabanqueiros da FAP, o Jorge Félix, o Jorge Narciso, etc.)  teve o privilégio de viajar de heli com o governador e comandante-chefe, no período em que foi o "régulo-mor" da Tabanca Grande da Guiné, mas pode imaginar (e rir-se, ou apenas sorrir, com) estas situações...

 Aqui vai mais um "balaio" de anedotas da Spinolândia,  recolhidas da Net (via IA) e depois revistas pelo editor LG (*):


1. General não tem medo

Um piloto de Alouette III contou que, numa viagem baixa,  no mato, a rasar a copa das árvores, ouviram tiros de armas ligeiras.

O piloto disse pelo intercomunicador:

— Meu general, estão a disparar.

Spínola respondeu calmamente:

— Ó nosso alferes piloto, se fosse para me acertarem já tinham acertado.

Silêncio na cabine. O mecânico, que ia ao lado do piloto, murmurou:

— Pois… mas nós não somos generais.


2. A aterragem impossível

Num destacamento remoto, o piloto avisou:

— Meu general, aqui não há sítio para pousar.

Spínola espreitou pela porta do heli e disse:

— Há ali um bocadinho.

O piloto respondeu:

— Meu general… aquilo é uma bolanha, um campo de arroz.

Resposta:

— Então pousamos antes de ele crescer.

Dizem que o helicóptero pousou mesmo… e saiu de lá cheio de lama.


3. O famoso “salto rápido”

Spínola tinha fama de sair do helicóptero antes das pás pararem.

Num destacamento no interior, o piloto ainda estava a estabilizar o aparaelho quando o general abriu a porta.

— Meu general, espere pelas pás!

Spínola saltou e respondeu:

— Quem está com pressa são eles. 

E apontou para a mata.

O piloto comentou a seguir:

— Ele saltava como se estivesse a sair de um táxi em Lisboa.


4. O táxi aéreo

Entre pilotos corria uma piada recorrente:

— O helicóptero do general não é da Força Aérea…

— Então?

— “É táxi aéreo da praça de Bissau.

Porque Spínola pedia frequentemente voos curtos para visitar aquartelamentos, destacamentos, tabancas, reordenamentos, ciruncrições, postos administratvios.


5. A pergunta incómoda

Um piloto,  jovem,  ainda "periquito", nervoso por transportar o comandante-chefe, perguntou:

— Meu general, prefere que voe mais alto ou mais baixo?

Resposta imediata:

— Não prefiro, exijo apenas que voe bem.


6. O capacete de segurança

Outra história muito contada: no início, ainda  era brigadeiro,  deram a Spínola um capacete de voo como parte do equipamento de segurança.

Ele experimentou e disse:

— Isto estraga-me o penteado.

O piloto respondeu:

— Meu brigadeiro, estraga menos que uma bala.

Consta que o Spínola riu a bom rir e nunca usou mais capacete. (**)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, títulos: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna 
(254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I

(**) Esta anedota parece-nos inteiramente "forçada", para não dizer "descabida" no âmbito da nossa Spinolândia. Pior só a galga do "cavalo branco" nas traseiras do palácio do Governador, para o Spínola de vez em quando matar saudades dos seus tempos gloriosos de aristocrático cavaleiro hípico...

Tanto quanto sabemos não havia hipódromos em Bissau...  E o gado equino (e em especial os cavalos importados da Europa) sempre se deram mal na Guiné (e em grande parte da África Ocidental) durante a época colonial, dificultando a sua introdução e utilização pelas autoridades portuguesas... Primeiro foi a Tripanossomíase Animal Africana, frequentemente referida na época apenas como doença da mosca tsé-tsé; mais tarde, Peste Equina Africana que, julgamos,  será endémica (causa de mortandade grave, caracterizada por febre alta e edema).

Segundo consulta á ferramenta de IA, francesa (Le Cha Mistral), "o contexto da Guerra Colonial Portuguesa (1961–1974), nomeadamente no TO da Guiné,  o uso de capacetes de segurança pelos passageiros do Aérospatiale Alouette III não era prática comum nem estava formalmente previsto nos regulamentos da época.

(---) "Os pilotos e, por vezes, os tripulantes (como mecânicos de bordo ou operadores de rádio) usavam capacetes de voo, principalmente para comunicação via intercomunicador e proteção contra ruído e eventuais impactos.

(...) Os soldados transportados no Alouette III (como paraquedistas ou comandos)  geralmente não usavam capacetes de segurança.(...)

(...) Não existiam normas específicas que obrigassem ao uso de capacetes de segurança para passageiros em helicópteros durante a guerra colonial. A prioridade era a mobilidade rápida e a capacidade de resposta imediata após a aterragem, o que tornava o uso de capacetes pouco prático.

(...) O Alouette III era um helicóptero pequeno, com capacidade para cerca de 6 passageiros além da tripulação. O uso de capacetes volumosos reduziria ainda mais o espaço e a comodidade.

(...) As missões eram muitas vezes de inserção/extração rápida, com necessidade de desembarque imediato e ação no terreno.

(...) Não existiam capacetes leves ou adaptados para passageiros em contexto de transporte aéreo táctico na altura.

(...) Muitos veteranos da Guerra Colonial, incluindo os que serviram na Guiné, confirmam que o uso de capacetes durante o transporte em helicóptero não era habitual. O foco estava no equipamento de combate individual e na rapidez de movimento.
 
A segurança em voo era garantida pela perícia dos pilotos e pela manutenção das aeronaves, não por equipamentos de proteção individual para passageiros. (...)

Também não encontro no blogue dos nossos camaraadas  Especialistas da BA 12, Guiné, 1965/74 qualquer referência ao uso de capacetes,. quer de voo (tripulantes), quer de segurança (passageiros), a bordo  nos helis AL III, no TO da Guiné.

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard


Spínola e o frango Hubbard. Cartum: Passão, 1975

(Com a devida autorização do autor)





António Ramalho, natural de Vila Fernando, Elvas, 
é da colheita de 1948


Fotos (e legendas): © António Ramalho (2026) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Mensagem do António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017.

Data -23 mar 2026, 09:24
Assunto - Obrigaste-me a ir de novo ao baú das memórias!

Caro Luís, bom dia!

Obrigado pelas tuas palavras, não é obrigação nenhuma, é um prazer colaborar no blogue que em boa hora criaste!

Foi com todo o gosto que revivi de novo alguns acontecimentos passados nos Resorts de Capunga e Bissum.

Aquela cena no Hospital em Bissau deixou-me angustiado, a guerra é assim! A do frango Hubbard está o máximo e a do monóculo então!...

Um forte abraço para todos os Tabanqueiros.
Para ti mais um abraço.

António Ramalho


Factos passados comigo na Guiné entre 1969/1971 e, não só!

por António Ramalho


(i) Em Bissau:  a cena do monóculo que já todos conhecem! (*)


 A menina Cremilde, da loja do oculista, corou de vergonha e escangalhou-se a rir depois do  gen Spínola abandonar o estabelecimento!


(ii) No Hospital Militar de Bissau no princípio da comissão.

Na visita a uns camaradas com ferimentos ligeiros após um contacto com o IN, na zona de Binar, deparei-me com a seguinte situação:

Nesse ano o MNF (Movimento Nacional Feminin) oofereceu-nos a todos, uma cigarreira de plástico, um isqueiro a gasolina, uma Gillette e um pincel, lembram-se?

Na mesma enfermaria, estava internado um camarada com as duas pernas amputadas, com uma resiliência e disposição muito acima do normal para a situação em que se encontrava! Dizia ele que tinha ficado ainda com os braços para nos abraçar!

Entram elementos do MNF em visita de circunstância e perguntam se tínhamos gostado das lembranças de Natal, daquele ano.

Antes de nos manifestarmos, dizem as distintas senhoras:

— Olhem que o Senhor Governador também recebeu.

Diz um dos presentes:

— Mas,  olhem, minhas senhoras, o nosso General não fuma e não tem barba!...

Risada geral!

(iii) Em Capunga

Estando na parada do aquartelamento, vejo chegar num jipe o nosso general e o major Marcelino (não o da Mata), numa visita ao reordenamento das Tabancas.

Gritei para o Furriel mais velho, que estava jogando à bola.

— Despacha-te que vem aí o Maior.

Nas apresentações da praxe pergunta o general:

 — É você o nosso alferes?

Resposta pronta:

— Não, meu general, o nosso alferes foi a Bula com uma secção buscar água.

 — Pois olhe: você tem mais cara de alferes do que muitos que para aí temos...

Lá foi a comitiva ver o reordenamento...

(iv) Em Bissum

Numa das visitas do nosso general à Tabanca, acompanhado de um membro (ou representante) do Governo Brasileiro,  aproveitou para fazer uma visita ao aquartelamento.

De passagem pela padaria, o nosso cabo ofereceu-lhe um pão. Depois de o apreciar, elogiou o produto em voz alta, entregando-o em seguida ao ajudante de campo.

Retorquiu o nosso cabo:

 — Meu general, se vier cá amanhã ainda estará melhor!

 Adeus,  rapaz, então até amanhã!


(v) Em Bissum


Fui avisado da chegada do nosso general ao aquartelamento. Ordenaram-me para ir com uma secção limpar a pista (enxotar as vacas!) e fazer a segurança.

Nos cumprimentos da praxe, mediu-me de cima a baixo!

O meu camuflado tinha mais adesivos do que tecido!

À partida a mesma cena, na observação do fardamento, sem qualquer comentário.

Na despedida disse-lhe:

—   Meu general, peço-lhe desculpa pela apresentação, estamos há semanas a aguardar fardamentos.

Continência...

 — Bom regresso a Bissau, meu general.

Passados poucos dias chegaram numa DO-27  os fardamentos (coincidências!...)


(vi) Nota final (**)

O gen Spínola acompanhava de perto algumas operações pelo ar e em terra! Correu Mundo... Aquela foto da Operação Ostra Amarga, fotografado na mata com Alves Morgado,

Almeida Bruno e Marcelino (não o da Mata), que a revista francesa Paris Match filmou, em que houve, infelizmente, também baixas do nosso lado.

Dos contactos pessoais  e institucionais que tive com o general António de Spínola, encontrei um cidadão simples, educado, trato normal, sem imposturices, apesar da distância entre patentes e, a outros que estavam presentes, o verdadeiro cabo-de-guerra. O respeito foi sempre muito bonito!

Hoje, penso que se a sua chegada à Guiné tivesse ocorrido dois ou três anos antes a entrega da província ao PAIGC teria sido completamente pacífica. Todos ganharíamos, exceptuando aqueles em que a guerra foi um negócio!

Esta é a minha opinião.

Agora um facto muito interessante, pessoal e reservado, que quero partilhar. Os protagonistas já cá não estão. Felizmente, o autor da obra (um cartum...) ainda está entre nós, a quem pedi autorização para o divulgar.

Passei quarenta anos da minha vida ligada à avicultura, numa empresa que pulverizou o país de pequenas empresas que se tornaram grandes e, outras enormes!

Foi um viveiro (hoje incubadora) para que muitas atingissem uma dimensão nacional e ibérica importante.

Depois do regresso a Portugal do gen Spínola, no mandato do Gen Ramalho Eanes, então Presidente da República, se bem se lembram, ocupava o seu tempo da forma que melhor entendia, reservando uma parte à equitação, não fosse ele da distinta Arma de Cavalaria!

Dado que nós representávamos e explorávamos uma estirpe avícola de reprodutores Hubbard (pais dos frangos) americana, propriedade da Merck Sharp & Dome, ainda hoje líder do mercado mundial, numa conversa informal, no intervalo dos passeios equestres, ao almoço, quis saber pormenores da mesma.

O autor, audaz e de pensamento rápido, depressa imaginou passar à imagem o tema da conversa. Então pegou no seu lápis de carvão e fez o que a imagem nos transmite. O gen Spínola ao ver a obra, ficou deslumbrado e, imediatamente fez questão de a mandar emoldurar e colocá-la em sua casa!

Por este pormenor tão simples, humilde, sincero e generoso me apraz reafirmar a admiração que tive por ele.

Ficam de fora as questões políticas e outras que nada me impedem de reafirmar o que escrevi.

Um forte abraço para todos. António

(Revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...

(...) O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.

Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou! (...)

(**) Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa

sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa


Guiné > Região do Óio > Porto Gole > Fevereiro de 1967 > A melhor foto de que dispomos, no blogue, sobre o gen Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe (1964/68): aqui sentado, ao lado do piloto do helicóptero; pronto a partir depois de visita a Porto Gole; no banco de trás, duas caixas de cerveja, Sagres e Cristal; à direita, o fur mil José António Viegas, do Pel Caç Nat 54, com camuflado paraquedista trocado com um camarada numa operação no Morés em outubro de 1966.

Esta foto, que nos mandou o Viegas, é "surrealista" ou "hilariante": duas caixas de cerveja, à temperatura ambiente (+ 30 graus!), era para matar a sede a quem ? A que desgraçados ? Ali, perto, mais a sudeste, talvez a malta do destacamento da Ponta do Inglês, na foz do rio Corubal, que sofria com a crónica falta de abastecimentos (feitos pela Marinha, através de LDP ou LDM).

Arnaldo Schulz (1910-1983), contrariamennte a António Spínola, não era um "populista", nem se preocupava muito com a sua imagem... Nem sequer em ser um "bem amado" entre a tropa... O que não quer dizer que não tenha sido um bom governador e até um melhor comandante-chefe. (Não sei, não sou do seu tempo.)

Foi, em todo o caso, escolhido a dedo, por Salazar: era um militar, do núcleo duro do regime, ex-Ministro do Interior, num dos períodos de forte repressão, depois do "tsunami" que foi a campanha eleitoral do gen Humberto Delgado... Schulz, é bom lembrá-lo, foi ministro das "polícias!" (incluindo a PIDE) entre novembro de 1958 e maio de 1961.

(...) Foi promovido a general em 1965. Em Setembro de 1965 esteve em Lisboa, afirmando então que a Guiné jamais deixará de ser portuguesa (...) Permaneceu naqueles cargos até 1968, vindo a ser substituído pelo então brigadeiro António de Spínola. A 18 de Março de 1968 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito." (...) (Fonte: Wikipedia > Armaldo Schulz)

Foto (e legenda) : © José António Viegas (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Camaradas, conhecem alguma anedota do brigadeiro (e depois general, a partir de 1965) Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa, substituído em maio de 1968 pelo brigadeiro António Spínola ?

Não, ninguém conhece. O que na tropa e na guerra, não é bom sinal... Um bom comandante militar , um general, um cabo de guerra, deixa saudades, boas memórias e, claro, anedotas, histórias de caserna. Lembremos algumas:

(i) Napoleão Bonaparte, talvez o general ou "cabo de guerra" com mais anedotas:

Quando lhe disseram que os Alpes eram impossíveis de atravessar, respondeu: “Então vamos passar por cima deles".

(ii) Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington, herói da Batalha de Waterloo (1815), mas também da guerra peninsular (1807-1814).

Era conhecido pelo humor tipicamente britânico. Uma das histórias mais citadas conta que, ao passar revista às tropas portuguesas,  pouco disciplinadas, terá dito: "Não sei se farão o inimigo fugir, mas certamente assustam-me a mim.”

(iii) George S. Patton, um dos generais americanos mais temperamentais da Segunda Guerra Mundial:

Era conhecido pela rudeza dos discursos  que dirigia aos soldados: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu-a fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele.”


(iv) Bernard Montgomery, um dos famosos generais britânico da II Guerra Mundial, que comandou o 8.º Exército, sendo o principal oponente de Rommel ("A Raposa do Deserto") e responsável por derrotá-lo em El Alamein:

Era conhecido pela sua autoconfiança que roçava a arrogância, pela sua rudeza espartana. Numa receção com generais aliados terá dito: "Eu não durmo, não bebo, não fumo, não f*do e sou 100% eficiente e eficaz.” Ao que o Churchil, terá replicado: "Eu durmo, bebo,   fumo,  f*do e sou 200% eficiente e eficaz.”


Arnaldo Schulz
2. Contrariamente ao Spínola, as anedotas especificamente sobre (ou de) o general Arnaldo Schulz são poucas, diz a IA, mas entre antigos militares da Guerra da Guiné circulam algumas histórias contadas em tom humorístico. Muitas vezes são mais “histórias de caserna” do que anedotas p.d., transmitidas oralmente.

Antigos combatentes do seu tempo (1964-1968) são os primeiros a reconhecer quase não circulavam, na caserna,  anedotas sobre Schulz,  ao contrário de Spínola, o seu carismático sucessor, que gerou muitas anedotas.  Mesmo assim, há alguns episódios e comentários curiosos que merecem ser recolhidos e divulgados (ajudam a conhecer um pouco melhor o homem e o militar).


(i) A frase famosa (“A Guiné jamais deixará de ser portuguesa”) que passou a "anedota histórica"

Quando era governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa (1964-1968), Schulz veio a Lisboa em 18 setembro de 1965 (vd. vídeo da RTP Arquivos, infelizmente sem som) e declarou (com convicção? ou para bajular o poder político?)

— A Guiné jamais deixará de ser portuguesa!!!

A frase tornou-se conhecida entre militares e políticos da época e, com o desenrolar da guerra e a independência em 1974, passou a ser repetida com alguma ironia histórica, um erro de prognóstico. Schulz confundiu, deliberadamente ou não, o desejo com a realidade.

Entre antigos combatentes, muitas vezes é citada como exemplo de excesso de confiança (e senão mesmo de arrogância) do regime na altura.

Depois da independência da Guiné‑Bissau em 1974, a frase passou a ser repetida entre veteranos como uma anedota involuntária da História. Alguns diziam ironicamente:

— O general tinha razão… só se esqueceu de dizer “até 1974”.


(ii) A “anedota involuntária”: o contraste com Spínola

Uma história repetida em memórias de militares é esta comparação:

Schulz quase não visitava unidades no mato (para poupar gasolina); Spínola visitava-as frequentemente, de helicóptero (gastando uma pipa de massa: 15 contos à hora).
Por isso, dizia-se meio em tom de graça nas companhias:

"Com Schulz sabíamos que estávamos longe do palácio do Governador e do QG, na Amura. Com Spínola sabíamos que ele podia aparecer a qualquer momento do dia"... (E só não aparecia à noite porque os Helis AL III não voavam à noite.)

Não é uma piada clássica, mas uma observação humorística de quartel sobre estilos de comando que, numa guerra como a da Guiné, fazia toda a diferença.


(iii) O dois em um

Quando foi nomeado em maio de 1964, Schulz acumulou duas funções ao mesmo tempo: governador da província e comandante-chefe das forças armadas

Isso era invulgar no império colonial português, criado para evitar conflitos entre autoridades civil e militar na guerra da Guiné (o governador anterior a ele tinha sido o Vasco António Martins Rodrigues, capitão-de-mar-e-guerra, entre 1961 e1965; e o comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa, de 19/3/1963 e 26/5/1964).

Alguns oficiais brincavam dizendo que ele era “governador de dia e general de noite”,porque tinha de decidir ao mesmo tempo assuntos políticos, administrativos e operações militares.

Está por fazer o balanço, imparcial,  do seu mandato...

(iv) Puro e duro

Quando António de Spínola o substituiu em 1968, mudou completamente a estratégia: passou da linha mais militar e defensiva de Schulz para uma política de “conquista das populações” e e de acção psicossocial, a par da intensificação da guerra de contraguerrilha e da otimização do dispositivo militar (por exemplo, mandou retirar,  em janeiro de 1969, Gandembel, começado a construir em abril de 1968).

(v) O general que nunca aparecia (e, portanto, em princípio também não chateava)

Durante o comando de Schulz na então Guiné Portuguesa (1964-1968), dizia-se nas companhias do mato (conversa entre dois capitães):

— Já viste o general Schulz?

— Não.

— Então está tudo bem por lá, no teu aquartelamento.

A piada vinha da ideia de que o comandante-chefe raramente visitava posições isoladas, ao contrário do que viria a fazer o seu sucessor, António de Spínola, que aparecia frequentemente de helicóptero, sem se fazer anunciar. 


(vi) O mapa “demasiado limpinho”

Conta-se que numa reunião de oficiais em Bissau, um oficial jovem mostrou um mapa cheio de marcas de ataques do PAIGC.

Schulz teria comentado:

— Esse mapa está pessimista demais.

E um capitão murmurou para o colega ao lado:

— O mapa do general deve ser melhor… porque não tem inimigos.

Era uma piada amarga sobre a diferença entre a situação real no terreno e a visão otimista do comando ( apatir da "periferia" da guerra, que er Bissau).


(vii) A comparação inevitável

Quando António de Spínola chegou em 1968, começou a visitar quartéis isolados e a falar com soldados.

Rapidamente surgiu a piada nas tropas:

— O Schulz governava a Guiné a partir do palácio de Bissau.

— O Spínola governa-a, no mato,  a partir do helicóptero.


Curiosidade: apesar destas histórias, Schulz era visto por muitos oficiais como um comandante disciplinado e prudente, apenas com um estilo muito mais tradicional e burocrático do que o de Spínola.


(viii) O "general alemão"

Os guineenses diziam que ele não era bem português, por causa do apelido alemão (paterno), impronunciável...

É uma história, algo 
xenófoba e chauvinista, que aparece em várias memórias de militares e relatos orais da guerra. O general Arnaldo Schulz tinha de facto apelido de origem alemã, herdado do pai, e isso acabou por gerar comentários e pequenas anedotas entre as populações locais da então Guiné Portuguesa.

Uma versão da história contada por antigos combatentes diz que alguns guineenses estranhavam o nome e comentavam algo como:

— Esse general não pode ser bem português… tem nome de alemão.

Noutras versões mais humorísticas, dizia-se:

— Portugal nomeou um alemão para mandar na Guiné.

Isto não era propriamente uma crítica política, era mais humor popular, porque nas colónias era comum associar a nacionalidade ao apelido. Um nome como “Schulz” soava claramente germânico, muito diferente dos apelidos portugueses habituais.


(viii) Curiosidade histórica

Apesar do apelido, Schulz era totalmente português. O pai era de origem alemã, mas a família estava integrada em Portugal há gerações. Ele fez toda a carreira no exército português e acabou por chegar a general, governando a província entre 1964 e 1968, antes de ser substituído por António de Spínola.

Esse tipo de comentário sobre nomes estrangeiros também acontecia com outros oficiais no império português — especialmente quando tinham apelidos alemães, ingleses ou franceses, algo relativamente comum em Portugal desde o século XIX.

Curiosamente, em África os apelidos europeus eram muitas vezes reinterpretados ou adaptados foneticamente pelas populações locais, o que também gerava muitas pequenas histórias de caserna:

Espínla ou Spínla (Spínola), Tchultz (Schulz), cap'ton Bitu (capitão Brito), alfero Cabrá (alferes Cabral), Cabrá (Amílcar Cabral), furié 'Vzinu (furriel Levezinho), furrié Ericu (furriel Henriques), cabu Galvon (cabo Galvão), furrié fermero (furriel enfermeiro), alfero doutô (alferes médico), Calvê Magalã (governador Calvet de Magalhães), Masel Caetanu (Marcelo Caetano)...

(Pesquisa: LG + Net + IA) (Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...

Guiné > Região de Tombali > s/l (algures) > Maio de 1973 > Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, dá início, a 25 de maio de 1973, a uma visita ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG), para se inteirar do agravamento da situação militar e analisar medidas a tomar com vista a garantir o espaço  de manobra, cada vez mais apertado, do poder político em Lisboa.

Na foto, vê-se o gen Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil AL Iii,  BA12, Bissalanca, 1968/70).

Foto (e legenda): © Pierre Fargeas / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I.  A propósito das anedotas (e não propriamente piadas) de Spínola e da Spinolância... É um manancial que aparentemente nunca mais acaba... Vamos continuar com o tema já  que estamos com a mão na massa.... 

Já parecem as anedotas (neste caso, mais piadas do que anedotas) do Samora Machel, que, no verão quente, estavam sempre a sair,  "quentes e boas", da "fábrica dos retornados do Rossio"... 

"By the way"... Recorda-se que a malta que veio de Moçambique,  tinha um pó danado ao Samora Machel, que obrigava o "tuga" a ir para a machamba para se "reeducar".  

Eram histórias  que me contava, na Praça do Comércio,  onde trabalhávamos juntos, no Núcleo de Informática do Ministério das Finanças, a minha colega e amiga Domitília, "retornada de Moçambique"... (O que é feito, de ti, rapariga ? Deves ter voltado à berças em Moncorvo; ainda me lembro dos quilinhos de amêndoa que te comprei, para te ajudar a compor o orçamento.)

Mas voltando á Spinolândia....Há algumas anedotas muito saborosas, ligadas à vida quotidiana da tropa na Guiné... São memórias orais da guerra colonial,  relatos de antigos  furriéis e alferes milicianos, mas também de praças e de capitães, comandantes de companhia que, em geral, se sentiam honrados com a visita do general, quando ele aparecia por "boas razões" (melhorar o moral da tropa, trazer soluções para problemas que chegavam ao seu conhecimento, inteirar-se da situação humana e operacional, etc.). 

Também a malta do QG (ou dos QG/CTIG e QG/CCFAG)   sabe muitas histórias do governador e comandante-chefe:   goste-se ou não era uma figura "impagável". Tal como o Gasparinho e outros "cromos" do CTIG.

São frequentemente atribuídas, estas anedotas, a episódios reais, mas raramente ou nunca aparecem documentadas em fontes oficiais  ou oficiosas, o que é típico da tradição do humor de caserna (que é essencialmente oral e informal).

II. De um modo geral, o nome de António de Spínola, ainda hoje circula na Internet,  quase sempre rodeado de pequenas histórias que misturam respeito, ironia, bravata, culto da personalidade, glorificação da guerra...  e o típico humor da tropa. 

Claro que não são verificáveis como “factos históricos”,  como de resto todas as anedotas que envolvem figuras gradas (e carismáticas) de um país, como Portugal, e de uma época tão rica de acontecimentos político-militares como foi a das décadas de 1960/70. 

Por outro lado,  circulam há mais de meio século entre veteranos que conheceram o tenente-coronel  e depois coronel de cavalaria António Spínola em Angola (1961/64) ou então na Guiné (1968/73), como brigadeiro e general, no dul cargo de governador e comandante-chefe... 

Claro que quem conta um conto, acrescenta-lhe (quase sempre um ponto). Neste caso, os "retoques" ou os pontos São da responsabilidade do editor de serviço.

São anedotas, enfim, que aparecem em memórias,  ora publicadas em livros ou reproduzidas nas redes sociais, "em tertúlias como a  do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (sic).

  Aqui vão mais umas tantas, com a ajuda das ferramentas de IA e os "retoques" do editor LG



1. A barba mal feita em Bafatá, 

Conta-se que, numa visita, em Bafatá,  a um  quartel (talvez o EREC, o esquadrão de cavalaria, arma donde ele era oriundo), Spínola passou revista à companhia formada à pressa, como era normal, em visitas-surpresa.

Parou diante de um soldado que tinha a barba claramente de  três dias.

— Então, meu rapaz, a guerra não te dá tempo para te barbeares ?

— Barbeio-me, sim, senhor, meu general.

—  Não me parece. Deixa-me cá ver melhor...

E aproximou-se do desgraçado, que começou a ver o caso mal parado... E lembrou-se de uma desculpa.

— É que não tem havido água na torneira, meu general.

Spínola ficou em silêncio um segundo e respondeu:

— Pois então vais-te barbear hoje … que eu trato da água.

Segundo quem conta ou história, nessa mesma manhã o administrador da circunscrição e o comandante do batalhão levaram uma "valente piçada".


2. O mapa ao contrário em Bissorã

Num briefing em Bissorã, um jovem alferes estava a explicar uma operação apontando para um mapa grande pendurado na parede.

Spínola interrompeu:

— Ó nosso alferes… o senhor já deu conta que o mapa está de pernas para o ar?

O alferes ficou branco como a cal da parede, ajeitou os óculos e virou o mapa.

Spínola acrescentou então, fleugmaticamente:

— Ó homem, não se preocupe… o inimigo também se engana e, para mais, não sabe ler.

A sala inteira rebentou a rir, o que aliviou a  tensão do briefing.


3. A pista de Teixeira Pinto

Em Teixeira Pinto (hoje,  Canchungo), a pista de aviação era famosa por ficar frequentemente em mau estado.

Numa visita, o piloto de DO-27 avisou:

— Meu general, a pista está curta e com buracos.

Ao que o Spínola respondeu:

— Não faz mal. A pista é curta, mas a coragem não tem limites.

Diz quem estava a bordo que o piloto balbuciou, entre dentes:

— Bem, a coragem é de V. Excia, meu general… mas eu é que sou o piloto desta coisa...


4. O telefonema no QG de Bissau

No quartel-general em Bissau, um capitão pediu audiência para relatar um problema grave de abastecimentos no mato. 

Expôs tudo com grande seriedade: a companhia estava de tanga.

Spínola ouviu, com muita atenção, e perguntou:

— Capitão, quantos homens tem na companhia?

— Cento e cinquenta, fora as baixas, meu general.

— E quantos se queixam?

— Todos, e até os que estão na enfermaria.

Spínola pegou no telefone e disse para o ajudante de campo:

— Ó Bruno, manda já víveres e  munições para estes homens… porque uma companhia que se queixa toda,  é uma companhia que ainda está viva!

 
5. O relatório demasiado otimista

Num briefing operacional, o major de operações terminou dizendo:

— A situação no nosso setor está completamente controlada.

Spínola perguntou:

— Completamente?

— Sim, meu general.

Resposta seca:

— Então o senhor está na guerra errada.

O major não se atreveu a replicar, com medo de levar com um "par de patins".

(Seleção, condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
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Notas do editor LG;

Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70)