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terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...

 

Guiné > Região de Tombali > s/l (algures) > Maio de 1973 > Costa Gomes, Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, dá início, a 25 de maio de 1973, a uma visita ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG), para se inteirar do agravamento da situação militar e analisar medidas a tomar com vista a garantir o espaço  de manobra, cada vez mais apertado, do poder político em Lisboa.

Na foto, vê-se o gen Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil AL Iii,  BA12, Bissalanca, 1968/70).

Foto (e legenda): © Pierre Fargeas / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I.  A propósito das anedotas (e não propriamente piadas) de Spínola e da Spinolância... É um manancial que aparentemente nunca mais acaba... Vamos continuar com o tema já  que estamos com a mão na massa.... 

Já parecem as anedotas (neste caso, mais piadas do que anedotas) do Samora Machel, que, no verão quente, estavam sempre a sair,  "quentes e boas", da "fábrica dos retornados do Rossio"... 

"By the way"... Recorda-se que a malta que veio de Moçambique,  tinha um pó danado ao Samora Machel, que obrigava o "tuga" a ir para a machamba para se "reeducar".  

Eram histórias  que me contava, na Praça do Comércio,  onde trabalhávamos juntos, no Núcleo de Informática do Ministério das Finanças, a minha colega e amiga Domitília, "retornada de Moçambique"... (O que é feito, de ti, rapariga ? Deves ter voltado à berças em Moncorvo; ainda me lembro dos quilinhos de amêndoa que te comprei, para te ajudar a compor o orçamento.)

Mas voltando á Spinolândia....Há algumas anedotas muito saborosas, ligadas à vida quotidiana da tropa na Guiné... São memórias orais da guerra colonial,  relatos de antigos  furriéis e alferes milicianos, mas também de praças e de capitães, comandantes de companhia que, em geral, se sentiam honrados com a visita do general, quando ele aparecia por "boas razões" (melhorar o moral da tropa, trazer soluções para problemas que chegavam ao seu conhecimento, inteirar-se da situação humana e operacional, etc.). 

Também a malta do QG (ou dos QG/CTIG e QG/CCFAG)   sabe muitas histórias do governador e comandante-chefe:   goste-se ou não era uma figura "impagável". Tal como o Gasparinho e outros "cromos" do CTIG.

São frequentemente atribuídas, estas anedotas, a episódios reais, mas raramente ou nunca aparecem documentadas em fontes oficiais  ou oficiosas, o que é típico da tradição do humor de caserna (que é essencialmente oral e informal).

II. De um modo geral, o nome de António de Spínola, ainda hoje circula na Internet,  quase sempre rodeado de pequenas histórias que misturam respeito, ironia, bravata, culto da personalidade, glorificação da guerra...  e o típico humor da tropa. 

Claro que não são verificáveis como “factos históricos”,  como de resto todas as anedotas que envolvem figuras gradas (e carismáticas) de um país, como Portugal, e de uma época tão rica de acontecimentos político-militares como foi a das décadas de 1960/70. 

Por outro lado,  circulam há mais de meio século entre veteranos que conheceram o tenente-coronel  e depois coronel de cavalaria António Spínola em Angola (1961/64) ou então na Guiné (1968/73), como brigadeiro e general, no dul cargo de governador e comandante-chefe... 

Claro que quem conta um conto, acrescenta-lhe (quase sempre um ponto). Neste caso, os "retoques" ou os pontos São da responsabilidade do editor de serviço.

São anedotas, enfim, que aparecem em memórias,  ora publicadas em livros ou reproduzidas nas redes sociais, "em tertúlias como a  do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (sic).

  Aqui vão mais umas tantas, com a ajuda das ferramentas de IA e os "retoques" do editor LG



1. A barba mal feita em Bafatá, 

Conta-se que, numa visita, em Bafatá,  a um  quartel (talvez o EREC, o esquadrão de cavalaria, arma donde ele era oriundo), Spínola passou revista à companhia formada à pressa, como era normal, em visitas-surpresa.

Parou diante de um soldado que tinha a barba claramente de  três dias.

— Então, meu rapaz, a guerra não te dá tempo para te barbeares ?

— Barbeio-me, sim, senhor, meu general.

—  Não me parece. Deixa-me cá ver melhor...

E aproximou-se do desgraçado, que começou a ver o caso mal parado... E lembrou-se de uma desculpa.

— É que não tem havido água na torneira, meu general.

Spínola ficou em silêncio um segundo e respondeu:

— Pois então vais-te barbear hoje … que eu trato da água.

Segundo quem conta ou história, nessa mesma manhã o administrador da circunscrição e o comandante do batalhão levaram uma "valente piçada".


2. O mapa ao contrário em Bissorã

Num briefing em Bissorã, um jovem alferes estava a explicar uma operação apontando para um mapa grande pendurado na parede.

Spínola interrompeu:

— Ó nosso alferes… o senhor já deu conta que o mapa está de pernas para o ar?

O alferes ficou branco como a cal da parede, ajeitou os óculos e virou o mapa.

Spínola acrescentou então, fleugmaticamente:

— Ó homem, não se preocupe… o inimigo também se engana e, para mais, não sabe ler.

A sala inteira rebentou a rir, o que aliviou a  tensão do briefing.


3. A pista de Teixeira Pinto

Em Teixeira Pinto (hoje,  Canchungo), a pista de aviação era famosa por ficar frequentemente em mau estado.

Numa visita, o piloto de DO-27 avisou:

— Meu general, a pista está curta e com buracos.

Ao que o Spínola respondeu:

— Não faz mal. A pista é curta, mas a coragem não tem limites.

Diz quem estava a bordo que o piloto balbuciou, entre dentes:

— Bem, a coragem é de V. Excia, meu general… mas eu é que sou o piloto desta coisa...


4. O telefonema no QG de Bissau

No quartel-general em Bissau, um capitão pediu audiência para relatar um problema grave de abastecimentos no mato. 

Expôs tudo com grande seriedade: a companhia estava de tanga.

Spínola ouviu, com muita atenção, e perguntou:

— Capitão, quantos homens tem na companhia?

— Cento e cinquenta, fora as baixas, meu general.

— E quantos se queixam?

— Todos, e até os que estão na enfermaria.

Spínola pegou no telefone e disse para o ajudante de campo:

— Ó Bruno, manda já víveres e  munições para estes homens… porque uma companhia que se queixa toda,  é uma companhia que ainda está viva!

 
5. O relatório demasiado otimista

Num briefing operacional, o major de operações terminou dizendo:

— A situação no nosso setor está completamente controlada.

Spínola perguntou:

— Completamente?

— Sim, meu general.

Resposta seca:

— Então o senhor está na guerra errada.

O major não se atreveu a replicar, com medo de levar com um "par de patins".

(Seleção, condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
 ______________

Notas do editor LG;

Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”. O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bi-grupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:
“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.
Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário. Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.

24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...




O general e o monóculo... A anedota foi recolhida pelo António Ramalho. 

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG



1. Por que é que, ainda hoje, passados quase 60 anos (!), nós, antigos combatentes, gostamos de contar "anedotas e "piadas" do general Spínola ? Aliás, mais "anedotas" do que "piadas"... E mais sobre o  Spínola do "antes" do que o Spínola do "depois"...


Para nós, "antigos combatentes da Guiné", será sempre o "Caco Baldé", o "nosso general", o "Homem Grande de Bissau", o "Aponta Bruno", o "gajo que os tinha no sítio"... 

Para outros, o Spínola do pós-25 de Abril e do PREC, será o coveiro do Estado Novo e do Império, o conspirador, o "bombista",  etc.,  amado e odiado à esquerda e à direita, mas que chegará a marechal, com Mário Soares (teias que a política e a história tecem).

De facto, fazemos uma distinção do Spínola antes e depois do 25 de Abril... Como se fossem duas figuras completamente distintas... O Spínola carismático, prussiano, populista, reformista, federalista,  luso-tropicalista,  "pai dos guinéus", que esteve à beira de ganhar a guerra da Guiné (!), e o Spínola desastrado, falhado, impopular, sinistro, do PREC e do exílio...

Por outro lado, há uma diferença entre "anedota" e "piada"...

Facto curioso: já não contamos anedotas do Salazar nem do Marcelo Caetano,  quando muito ainda contamos piadas requentadas (como aquela do Salazar que andava sempre com mão esquerda no bolso  das calças para manter a dita...dura!). 

Mas contávamos muito mais do último presidente da República do Estado Novo, o Américo Tomás, tanto anedotas como piadas.

É certo, também já se passaram mais de 50 anos, o Estado Novo está enterrado (e bem enterrado) mas nem por isso as anedotas do final do regime salazarista  deixam de ser fascinantes, davam para fazer uma tese de doutoramento (se a nossa Academia tivesse sentido de humor, que é coisa que não tem)...  

Para quem não sabe (os nossos filhos e netos não sabem...), havia a censura, a que só a anedota ou a piada de café, de rua ou de tasca escapava, enquanto formas (orais) do sarcasmo popular...

Também dizem muito, essas anedotas,  sobre as personalidades caricaturadas do regime de então:
  • a "astúcia distante, provinciana, beata" de Salazar, o "Botas";
  • a "eterna indecisão" de Marcelo Caetano, o professor;
  • e, claro, a proverbial falta de perspicácia (real ou inventada pela sátira popular) do Américo Tomás, contra-almiranhte e depois almirante, o "Cabeça de Abóbora", o "Corta-Fitas"...
Pelo menos enquanto Salazar foi "vivo", não terá tido qualquer iniciativa política, era um chefe de Estado meramente cerimonial ou protocolar, um contra-almirante (vai a almirante em 1970), que ganhara o lugar em eleições fraudulentas contra o carismático general da FAP Humberto Delgado...

Aos olhos do Zé Povinho (e na televisão de então, a preto e branco) só aparecia em "inaugurações", a cortar fitas. 

 Daí ter ficado conhecido como o "corta-fitas". Era alvo de chacota popular pela sua falta de jeito para o discurso em público, e pelas suas  muitas "gafes", que ficaram gravadas no imaginário popular, com destaque para frases hilariantes como "É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive".

Curiosamente, o Marcelo Caetano nunca teve propriamente uma alcunha popular, de traço feio e cru, caricatural: era o senhor professor, o delfim, o continuador, o sorridente... e outros epítetos, mais ou menos  neutros.. Mas não sabemos qual o seu cognome que ficará para a História.

Já o "venerando Chefe de Estado" Américo Tomás, o Almirante, tem  uma série de anedotas, curtas, mas com pilhéria, muito focadas na sua obsessão em inaugurar tudo o que fosse obra pública ou privado para a qual fosse convidado a cortar a fita.... Daí o cognome "corta-fitas".

Contava-se que o Almirante foi visitar uma escola primária, cujo edifício tinha sido remodelado. A professora, excitadissima,  nervosa, apresenta-lhe o melhor aluno da turma, o "Sabe-Tudo". Tomás olha para o menino, faz-lhe uma festa na cabeça e diz:

— Então, meu rapaz, já sabes ler e escrever?

— Saiba V. Excia que sim, senhor, senhor Presidente! — responde a criança, orgulhosa e devidamente industriada pela professora.

O Almirante, tirando uma tesoura do bolso, comenta:

— Muito bem, então vamos lá inaugurar esse caderno escolar que ainda está em branco!


2. Com a  ajuda das ferramentas de IA ( que por enquanto ainda são de borla), vamos explorar alguns pontos de vista sobre as anedotas e as piadas que envolvem figuras históricas como o "nosso" general Spínola.

Mas comecemos pela distinção entre a "anedota" e a "piada".

A anedota, em geral:
  • é uma pquena história real ou apresentada como real (tem uma base factual ou verosímil);
  • é um episódio narrativo;
  • é centrada em (ou ligada a) uma pessoa concreta (um general, como o Spínola, ou um político, como o Salazar, ou um escritor como António Lobo Antunes, que é fértil em cenas de cariz sexual);
  • pode (ou tende a) ser humorística, visar ou não uma crítica social ou política;
  • mas não precisa de "punchline" (em inglês) (final ou  clímax engraçado)

Exemplo: “Uma vez o general disse isto… e aconteceu aquilo…”


Já a piada, normalmente;

  • é mais curta e direta, é rápida;
  • joga muitas vezes com trocadilhos ou situações engraçadas;
  • é uma construção deliberadamente humorística (inventada para provocar riso);
  • tem um estrutura de surpresa final ("punchline")

Exemplo típico: “Sabem qual é a diferença entre…?”


Muitas anedotas de caserna, militares, acabam por  funcionar como piadas, mas a sua origem costuma ser um episódio real ou verosímil  (de tropa ou de guerra).

Em termos latos, uma anedota é um relato breve de um acontecimento curioso, invulgar ou engraçado. No entanto, o seu sentido varia conforme o contexto:

  • sentido popular: uma narrativa curta com um final inesperado (o "punchline"), cujo objetivo principal é provocar o riso; é  sinónimo de "piada";
  • sentido histórico e literário: um episódio particular ou pouco conhecido da vida de uma figura pública que ilustra um traço do seu caráter; aqui, a anedota não tem de ser necessariamente cómica, mas sim reveladora.

3. Origem da palavra anedota

A palavra vem do grego antigo: ἀνέκδοτα (anékdota). Componentes: an- = “não” + ekdotos / ekdidonai = “publicar, dar a público”

Significado literal: “coisas não publicadas” ou “factos inéditos” (que por isso não constam da biografia das figuras públicas...).

O termo ficou famoso no século VI com o historiador bizantino, Procópio de Cesareia, que escreveu um livro chamado Anekdota (que ficou conhecido em latim como "Historia Arcana"ou  história secreta, em português).

Nesse livro reuniu episódios íntimos, secretos e escandalosos,  sobre o imperador Justiniano I, a imperatriz Teodora e a corte bizantina que obviamente não podiam constar de uma publicação oficial...

Daí o termo "anedota" (facto escondido ou episódio revelador sobre alguém), distinto de "piada" (mecanismo humorístico para provocar o riso).

Quando nós, antigos combatentes, contamos histórias do general Spínola, na verdade estamos a fazer o uso clássico da anedota: pequenos episódios que revelam o carácter dessa figura (que foi nosso comandante-chefe e governador da Guiné)  e que descrevem a atmosfera desse tempo.

Talvez valha a pena perguntarmo-nos por que é que a nossa cultura militar (ou castrense) (e muitos nós estiveram lá três ou quatro anos!), produz tantas anedotas sobre os nossos generais (Spínola) e demais oficiais (o Gasparinho, o Onze, o Metro e Meio), mas também sobre camaradas nossos (o Marcelino da Mata, o Piça, básicos, vagomestres, enfermeiros, médicos, capelães...) e até sobre o inimigo (a "Maria Turra", o 'Nino' Vieira). (São alguns exemplos que me ocorrem, e com referências no blogue.)

É material  interessante para uma antropossociologia do humor de caserna!


4. E acabamos por hoje com uma anedota pícara do general Spínola, contada pelo António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017:


O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.



Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou!


Comentário do editor LG:

Esta é uma das melhores anedotas, seguramente a mais brejeira,  que eu já li do "nosso general"... É de antologia, valendo a pena repeti-la aqui,  para quem não a leu na altura, ainda na pandemia (**)

Nunca conhecemos na intimidade, o general Spínola, mas tudo indica que era perito em usar, pelo menos no CTIG,  tanto a  ironia seca, ríspida, como o timing que é apanágio de um  general, sabendo  jogar  tanto com a estratégia (que é a arte de comandar tropas) como com as palavras... 

A cena é quase cinematográfica: a loja do oculista (não devia haver muitas em Bissau),  o monóculo, o ar austero (e intimidatório) do ilustre cliente,  a empregada com a pergunta inocente (ou não tão inocente quanto isso...) e a resposta que só um homem daqueles, de cavalaria,  poderia dar, entre a autoridade e a malícia.

E um privilégio para nós poder publicar esta anedota que vem de um alentejano,  um grão-tabanqueiro, que sabe como é que se conta uma história com sabor a terra e a guerra. Até parece que o Spínola, mesmo no meio daqueles anos todos de conflito, nunca perdeu o jeito para um gracejo que deixava todos a  sorrir com o devido respeito  (coisa que é diferente de rir até partir... o coco!)

Quem esteve na Guiné  sabe que havia, em geral,  uma certa cumplicidade entre quem mandava e quem obedecia. Pelo menos ao nível de companhia, 160 homens que eram obrigados a viver, a sobreviver, a lutar, a suportar-se uns aos outros, em condições duras, difíceis,  num espaço delimitado por duas fiadas de arame farpado... 

E é essa cumplicidade, mesmo que dúbia, que continuamos a celebrar (e cultivar) aqui. Sem qualquer preocupação (muito menos obrigação) com o "politicamente correto". É  que o riso também ajudava a humanizar a situação de isolamento, de risco, de guerra, de abandono, em que vivíamos.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27817: Humor de caserna (244): O anedotário da Spinolândia (XVI): o horror à "guerra do ar condicionado"... "Senhores, se têm calor é porque estão vivos, os mortos não transpiram"


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. 

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Quando António Spínola assumiu o comando da Guiné, em meados de 1968, ainda brigadeiro, com "carta branca" de Salazar para inverter o curso das coisas, ter-se-á criado entre os militares um ambiente muito próprio a volta da sua figura: uma auréola de heroísmo (alimentada pela sua atuação em Angola, como lendário comandante do BCAV 345, 1961/64; um mistura de disciplina rígida (que alguns temiam que descambasse para o militarismo típico da arma de cavalaria); a par da teatralidade política e da multiplicação de episódios quase caricatos. 

Nas nossas casernas, entre oficiais, sargentos e praças começaram então a circular muito rapidamente muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia.

O termo tem um sentido tanto negativo (de crítica, ironia e sarcasmo) como positivo, associado a um estilo completamente novo de fazer a guerra e governar um território ultramarino, à beira do colapso em termos económicos, sociais, militares e políticos.  

Spinolândia é, antes de mais, uma expressão de cunho satírico e político que surgiu para descrever o estilo de governação e a intensa campanha de propaganda levada a cabo pelo general António de Spínola enquanto Governador e Comandante-Chefe da Guiné Portuguesa, o "consulado"  (1968-1973), como diziam alguns de nós.
 
A expressão era utilizada, frequentemente, com ironia por opositores ou observadores críticos, para designar o território da Guiné como um "laboratório" psicossocial e político-militar muito próprio do Spínola e dos spinolistas (um conjunto brilhante de oficiais que ele congregou à sua volta). O termo pode remeter para ideias como:

  • personalismo / populismo/ culto da personalidade: a ideia de que a Guiné se havia tornado um feudo pessoal onde a imagem do general (com o seu icónico monóculo e pingalim) era omnipresente, para mais reunindo os dois papéis de liderança, o de político (como governador) e o de militar (como comandante-chefe);
  • "Guiné Melhor": o slogan do General que prometia desenvolvimento social e económico para conquistar as populações ("conquistar corações e mentes"), tentando contrariar a influência do PAIGC e, decididamente, subtraí-las ao seu controlo;
  • a africanização do exército (criando a "nova força africana", incluindo companhias de base étnica, o batalhão de comandos, os destacamentos de fuzileiros especiais);
  • propaganda intensiva / mediatização do conflito: uma gestão de imagem sem precedentes na história do Estado Novo, que transformou a Guiné na montra de uma "nova política" ultramarina, completamente distinta do imobilismo da elite caquética do regime.
É difícil de dizer quando surgiu o termo Spinolândia,  mas tudo indica que se consolidou no início da década de 1970, coincidindo com o auge da visibilidade mediática de Spínola.

No início do seu "consulado", entre meados de 1968 e a Op Mar Verde (22 de novembro de 1970), o general apostou fortemente na comunicação social, nacional e estrangeira. O termo começou a circular nos corredores políticos de Lisboa e entre os militares para descrever a autonomia quase absoluta com que ele governava, à margem das diretrizes rígidas do ministro do ultramar, Silva Cunha, que ele de resto desprezava por ser um "paisano", "provinciano", que não percebia nada de tropa, de guerra e de África.

A consagração crítica vai de 1971 até meados de 1973: foi nesta fase que a expressão ganhou mais força, especialmente entre os setores que criticavam o custo astronómico das reformas de Spínola e o seu crescente protagonismo político, que muitos viam como uma ameaça ao regime de Marcello Caetano. (Aliás, no final do seu mandato acabou mesmo em ruptura com o chefe do Governo, o qual,  para salvar as jóias da coroa do império, Angola e Moçambique,  estava disposto a aceitar o sacrifício da Guiné.)

Curiosamente, enquanto que, para os seus detratores, a o termo Spinolândia era uma crítica ao egocentrismo do general, para os seus apoiantes, os spinolistas, representava a esperança de uma solução reformista, federalista, com uma dupla componente política e militar, para o beco sem saída da guerra do ultramar, que culminaria mais tarde, já em 1974, na publicação de "Portugal e o Futuro".

Deste tempo há muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia, algumas recolhidas em memórias, outras transmitidas oralmente.

Seria uma pena perderem-se. Temos feito um esforço, no blogue, para as recolher e partilhar. Como em todo o anedotário associado a figuras lendárias, carismáticas e controversas como o general Spínola, torna-se difícil, senão impossível, identificar a sua autoria, origem, contexto, e muito menos ainda a sua veracidade factual. 

Temos feito uma recolha das anedotas que circulam na Net, através das ferramentas de IA. Estamos a selecionar algumas das melhores e das mais verosímeis. Algumas das versões que lemos, podem ser variantes de anedotas já conhecidas, contadas e recontadas.

Infelizmente esta é uma faceta do nosso Com-chefe (não falamos dele como político no pós-25 de Abril, mas apenas como protagonista maior da guerra em que também participámos), menos bem tratada (para não dizer mal tratada) pelo seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues. ( Que, de resto, não deve ter posto sequer os pés na Guiné.)

Era conhecido por diversas alcunhas, o "Velho" (já desde Angola), o "Caco",  o "Caco Baldé",  o  "Aponta Bruno",  o "Bispo",  o "Homem Grande de Bissau", o "Com-Chefe", o Governador", o "Maior deste",  o "Nosso General"

O estilo pessoal de Spínola - monóculo, luvas, farda impecável, ar teatral e presença muito física e viril nas visitas ao terreno, na cidade ou no mato - marcou profundamente quem serviu no CTIG. Isso gerou um verdadeiro folclore de anedotas de caserna,  muitas nascidas no próprio QG ou em messes de oficiais em Bissau, em Bissalanca e no mato...


2. Há anedotas para todos os gostos e oriundas das mais diversas fontes (desde os simples soldados até aos pilotos e mecânicos da FAP e aos colaboradores mais próximos do general  e do governador).

 Era sabido, por exemplo, que ele não suportava o  ar condicionado, o que era um suplício para quem tinha que participar nos briefings, no QG/CCFAG ou no palácio do governador. (Isso tem-me sido testemunhado pelo cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador íntimo do nosso Com-chefe, em 1972/73.)

As ferramentas de IA, que temos consultado, confirmam que "essa história do ar condicionado aparece muitas vezes nas memórias de quem trabalhou perto de António de Spínola no quartel-general de Bissau"... 

Na realidade, "ele tinha fama de não suportar ar condicionado, o que na Guiné era quase uma forma de tortura para quem ficava horas nos briefings"...

Entre oficiais do estado-maior e pessoal da Força Aérea circulavam várias anedotas “mais picantes” ou "pícaras" (no sentido militar do termo: mais atrevidas e sarcásticas). Aqui vão algumas:

(i) O suplício do briefing tropical

Num briefing longo no QG, com o calor e a humidade típicos de Bissau, um major (que não sabia da aversão do general) aproximou-se discretamente do aparelho de ar condicionado e ligou-o.

Spínola interrompeu a exposição, levantou a cabeça e interpelou a assistência:

- Quem foi o criminoso que ligou isso?

O  pobre do major confessou a ousadia. Resposta de Spínola:

- Nosso major, na Guiné há duas coisas que matam oficiais: o ar condicionado… e o inimigo. O segundo ao menos é mais honesto.

Claro que o aparelho voltou a ficar desligado e a reunião continuou com os oficiais a suar em bica.

(ii) O mapa colado à mesa

Outra que corria no estado-maior: num briefing, em dia particularmente de calor de estufa, o suor de um capitão começou literalmente a pingar sobre o mapa operacional.

Spínola observou a cena e comentou:

- Capitão, não molhe o mapa… que depois a guerra escorre.

O capitão respondeu:

- Meu general, isto não é água… é a estratégia a evaporar-se.

A sala rebentou a rir.

(iii) A toalha no pescoço

Há quem conte que num outro briefing, em pleno mês de maio,  um oficial apareceu com uma pequena toalha branca ao pescoço.

Spínola perguntou-lhe:

- Isso é parte do novo uniforme?

Resposta:

- Não, meu general… é equipamento de sobrevivência.

(iv) A vingança da Força Aérea

Entre pilotos e mecânicos da Força Aérea havia outra pequena maldade humorística.

Dizia-se que,  quando Spínola visitava uma unidade no mato, e depois regressava ao QG, os pilotos comentavam:

— O nosso general não gosta de ar condicionado… por isso voamos sempre com as portas abertas.

E os mecânicos respondiam:

— Assim ele tem sempre  ar.... natural!.

(v) A frase mais repetida

A frase que muitos veteranos dizem ter ouvido (ou ouvido contar) em reuniões longas no QG era:

— Senhores, se têm calor é porque estão vivos. Os mortos não transpiram.

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OpenAI, Le Chat /Mistral AI) | Condensação,  introdução, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora as consequências sociopolíticas e militares das deliberações do Congresso de Cassacá, dá-se formalmente a rotura na relação entre Maria Helena e Amílcar Cabral, entretanto num encontro em Praga, Amílcar e Ana Maria Voss perdem-se de amores, o ativismo de Cabral é imparável e em janeiro de 1966 terá a sua consagração após uma intervenção que deixou muita gente atónita na Tricontinental de Havana. Na guerra da Guiné, em 1967, está-se num delicado impasse, progressos diminutos de parte a parte, Cabral debate-se, no interior do PAIGC, com atos de grande negligência e furtos, os ressentimentos profundos de Inocêncio Cani terão tido aqui origem quando ele foi expulso de cargos políticos. Vamos agora viver o terceiro e último ato na frente dos combates e no que, de muito profundo, irá acontecer no PAIGC, após o assassinato de Cabral.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 5

Mário Beja Santos

Em consequência das decisões tomadas no Congresso de Cassacá, dar-se-á a reorganização militar que levou à constituição das primeiras unidades do Exército Popular, as FARP. Uma reorganização que não esqueceu praxes institucionais como o juramento diante da bandeira do PAIGC. Cabral é um líder partidário que se confronta diariamente com atos de negligência, a falta de pontualidade, José Alvarez [foto à direita] recria alguns diálogos de um Cabral encolerizado, mesmo com Osvaldo Vieira, o comandante militar da zona norte.

Amores finados com Maria Helena, em 1965, na cidade de Praga, Cabral conhece Ana Maria Voss, dá-se rapidamente o coup de foudre, será a sua segunda mulher que assistirá na noite de 20 de janeiro de 1973 ao assassinato do marido. Haverá encontro em Rabat com Maria Helena, Alvarez recria uma discussão altamente tempestiva, assumem o divórcio, irá surgir Henrique Cerqueira na vida de Maria Helena. Em Conacri, ganha vida o projeto de uma escola-piloto no bairro de Ratoma, para o ensino dos jovens guineenses que se sentem atraídos pela Independência da Guiné, iremos conhecer as figuras preponderantes nesta escola de formação.

O autor chama a atenção para a propaganda bombástica e falseada de que Cabral não tinha pejo em manipular, veja-se a linguagem usada para cantar vitória sobre os acontecimentos da ilha do Como: “Três mil soldados portugueses que se tentaram apoderar da ilha do Como foram repelidos pelos guerrilheiros do PAIGC. Quinhentos ou seiscentos militares foram postos fora de combate e o comandante da operação morto. Dois aviões abatidos e uma dúzia de embarcações afundadas.”

Igualmente o autor recorda a preocupação de Cabral com a imagem do partido no exterior, convites a figuras gradas ao movimento revolucionário, como foi o caso de Gérard Chaliand (1934-2025) e também cineastas como Mario Marret.

Dentro das recriações que a trama romanesca permite, Alvarez pretende fazer sobressair um estado de ciúme de Sékou Touré, este considera que Cabral estava a roubar-lhe protagonismo, quer que os seus Serviços Secretos o tenham debaixo de olho. No secretariado do PAIGC, vemos Cabral a tecer considerações altamente críticas ao mau trabalho da Organização da Unidade Africana, reconhecendo a contradição que a guerra o obrigava a atacar lojas e a deitar por terra a economia guineense, o que iria levar, depois da Independência, a precisar de auxílio externo. Punha, no entanto, uma grande esperança nos Armazéns do Povo.

Esse ano de 1965 é pleno de atividade: a preparação da II Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); encontrou-se com Che Guevara em Conacri, o guerrilheiro cubano ficou bem impressionado com Cabral, prometeu e concretizou apoios; ciente de que continuam os problemas de negligência, elaborou um documento intitulado Palavras de Ordens Gerais do Secretário-Geral. “Amílcar Cabral, apesar das adversidades com que se confrontava diariamente, podia considerar-se um homem realizado pois o PAIGC dominava uma considerável área do território a Leste e mantinha os seus santuários principais incólumes, Morés, Oio, Cafine, Cantanhez e Cufar e a Frente Norte ativa. Em finais daquele ano, para colmatar as dificuldades nas frentes de luta (como, por exemplo, em Gabu, onde mais de 40% dos efetivos do PAIGC tinham abandonado as suas unidades para regressar às regiões de origem), os dirigentes do PAIGC viram-se obrigados a lançar incentivos aos jovens voluntários para combater. Mesmo assim, o problema não ficou resolvido. Amílcar viu-se na necessidade de organizar uma reunião com os guerrilheiros das zonas Sul e Leste para melhor definir a estratégia que se impunha.”

A II CONCP realizou-se na Tanzânia, em outubro. Assim estamos chegados a 1966, em janeiro, em Havana, durante a I Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, a intervenção de Cabral gera admiração dos participantes, põe em causa o proletariado de índole operária, disseca os fenómenos sociais africanos e revela que o segredo do êxito do que está a acontecer na Guiné-Bissau é a estreita aliança entre uma burguesia consciente do seu poder revolucionário e a massa camponesa que está pronta a quebrar as grilhetas do colonialismo. Fidel Castro dirá no seu discurso de encerramento que estes movimentos revolucionários em África tinham em Cabral um dos líderes mais lúcidos e brilhantes. No rescaldo da Conferência, Fidel assegura-lhe um total apoio em ajuda médica e instrutores militares.

Estamos de novo em Conacri em 1966, está reunido o Conselho de Guerra com Amílcar, Luís Cabral e Aristides Pereira e os comandos das frentes. É de novo recriado um diálogo, os líderes políticos conversam com chefes da guerrilha, com Nino e Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Francisco Mendes e Pedro Pires. Discute-se o Exército Nacional Popular que irá ajudar as Forças Armadas na proteção das povoações, mas também são postos em cima da mesa os desempenhos dos comités de tabancas e anunciada a chegada de navios fornecidos pela União Soviética.

Em abril, Amílcar e Osvaldo Vieira estão no Morés, questões disciplinares merecem a atenção dos dois, Amílcar pretende destituir Inocêncio Cani, outro guerrilheiro, de nome Hilário Rodrigues, fora alvo de um processo de inquirição em que se apurou ter vendido armas tomadas ao inimigo no Senegal e na República da Guiné, ia ser destituído de todas as funções. Tinha sido naquela atmosfera de decisões punitivas que Inocêncio Cani ganhou um ressentimento profundo a Cabral. Alvarez recria uma conversa na prisão de La Montagne entre Cabral e o sargento Lobato, este conseguira salvar-se num desastre aéreo que custou a vida ao outro piloto, era prisioneiro do PAIGC, Lobato mantém-se firme, recusa a proposta de Cabral.

Temos novamente Cabral em Havana um ano depois, foi assistir ao juramento de bandeira de trinta e um recrutas cabo-verdianos, comandados por Pedro Pires. De novo o líder do PAIGC é recebido por Fidel, ele reforça o apoio com o envio de medicamentos, de 3 camiões acompanhados dos respetivos mecânicos cubanos e de 10 especialistas de morteiros.

No teatro de operações da Guiné, Schulz marcara pontos com as tropas especiais e intensos bombardeamentos, mas não se saía do impasse. Cabral procurou a flexibilidade das suas forças, abandonou algumas bases militares. Temo-lo de novo em Argel, Cabral fez um discurso no Comité de Libertação da Unidade Africana. É neste ano que o PAIGC foi dotado de uma emissora. “Amílcar conseguira o avanço significativo na transmissão das suas mensagens políticas pela rádio. O líder, sempre que estava em Conacri, surgia à noite nos estúdios da rádio Libertação, por vezes acompanhado de Ana Maria Voss, com palavras encorajadoras par quem nela trabalhava".

E assim se chega nesse ano de 1968 à decisão política de Salazar de substituir Schulz por António Spínola. Vamos entrar no terceiro e último ato da guerra da Guiné.

Cabral e Fidel Castro depois da reunião da Tricontinental, a intervenção pública de Cabral marcou pontos, introduzia uma nota ideológica que se distinguia da cartilha soviética.
Amílcar Cabral. Fotografia retirada do Black Agenda Report, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
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Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27755: Tabanca Grande (579): Luís da Cruz Ferreira, grão-tabanqueiro nº 913: foi 1.º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72, "Os Có Boys" (Có, 1972/74): natural da Benedita, Alcobaça, vive em Cascais, e é também membro da Tabanca da Linha


Luís da Cruz Ferreira, grão-tabanqueir nº 913;  natural da Benedita, Alcobaça, vive  em Cascais; é empresário na área da restauração coletiva

 

Capa do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)


1. Luís da Cruz Ferreira (de alcunha, o "Beatle", já antes da tropa), natural da Benedita, Alcobaça, teve o posto de 1.º cabo aux enf, mas também foi "barman" e depois professor do Posto Escolar Militar n.º 20, na tabanca (reordenada) de Có, chão mancanha, onde a companhia, 2ª C/BART 6521/72, esteve sediada, de 1972 a 1974.

"Os Có Boys", um  nome de guerra que só por si é um achado, tinham uma divisa que podemos considerar, no mínimo,  como pícara, divertida e irreverente: "Quatro Chapos e Bolinha Baixa"...

Luís, não tínhamos até agora nenhum representante dos "Có Boys" na Tabanca Grande. Passas tu a sentar-te no lugar nº 913, à sombra do nosso poilão. 

Aceitas, com muito agrado, o convite que te formulámos no passado dia 14 de janeiro, por ocasião ao 63.º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, de que tu também fazes parte. 

Conheces as nossas regras de convívio.  Aqui falamos da Guiné e das nossas memórias de tropa e de guerra. Deixamos à porta da Tabanca Grande a G3 e as eventuais diferenças que nos podem dividir (opiniões, perceções, representações, preferências, etc.), nomeadamente em matérias como a politica, a religião e o futebol. 

Como camaradas de guerra que fomos, tratamo-nos por tu. E cultivamos o bom humor. Tudo isto para te dizer que a vossa divisa "Quatro Chapos e Bolinha Baixa" não pode  aqui ser aplicada à letra...

Ficamos  a saber, com satisfação que este teu livro, que estamos a seguir com interesse e a partilhar com os nossos leitores (**),  faz parte de um projeto autobiográfico mais vasto, a tua história de vida. Para já cumpre a função de um roteiro de memórias desse  tempo.

Vamos falando e vamo-nos encontrando, nomeadamente em Algés. Vá dando notícias. E traz mais "có boys" para o nosso blogue.


Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) >A tabanca de Có, incendiada, na sequência do segundo ataque ao aquartelamento, em 12 de Outubro de 1968,ao cair da noite.


Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > 13 de outubro de 1968: O brigadeiro  Spínola observando os destroços nas zonas atingidas, acompanhado do comandante da CCAÇ 2401, o cap inf Vargas Cardoso

Fotos (e legendas): © Raul Albino (2007). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27670: Tabanca Grande (578): António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857; GA 7; COP 6; CAOP1 e BCAÇ 3884 (1970/72), senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar 912

(**) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)