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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28429: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (3): Património Material e Cultural, Economia e Figuras de destaque (Cherno Baldé)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Fajonquito > Junho de 1972  > De esquerda para a direita, soldados condutores da CCAÇ 3549, "Deixós-Poisar" (1972/74): (i) José Maria, João Vasconcelos, Carvalho, Fernando Silva, o Mandinga;  e (ii) os seus jovens amigos, Jorge Suleimane Baldé, Mamadu Saido Candé (Barbosa), Braima Baldé (Banda6) e Cherno Abdulai Baldé (Francisco ou Chico), junto da caserna da Ferrugem.

Foto original, a preto e branco, e baixa resolução, do álbum do Cherno Baldé.  Restauro, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



7. PATRIMÓNIO MATERIAL E CULTURAL

Suncudjuma – Bolanha situada a ocidente de Fajonquito e continuação da bacia hidrográfica do rio de Canjambari e que, por sua vez, é o prolongamento natural dos rios Farim ou Cacheu. O ponto principal de atracção da juventude e actividades recreativas era a ribeira (Mahel) de Saré-Tchumo, onde as jovens iam lavar roupa nos fins de semana e onde a juventude se concentrava para as suas diversões de fim de semana.

Berécolom ou Bercolon – Sítio importante pelo seu significado histórico, constituído pelas ruínas da antiga localidade mandinga de Bercolon, um dos sítios mais importantes do antigo império mandinga de Gabu (Farim-B’rassu) e pela bolanha de mesmo nome que, juntamente com a bolanha de Suncudjuma, fornece os principais cereais como arroz e milho, produtos base de alimentação da população das redondezas. À volta de Bercolon existiam vários matagais (Suru Marebaghé, Suru Sintchã, Suru Farimbali) com nascentes onde as mulheres iam buscar água fresca e potável para suas casas e também existia a lagoa de Bantaghel, o paraíso das aves pernaltas (Cunhgas-Guelodhé) e dos jovens pastores.

Djuncoré – Bolanha a Sudeste da Fajonquito, fronteira natural entre os Regulados de Sancorla e de Mansonna, perto de St. Adjango. Neste local existia uma grande lagoa que, sobretudo na época era o local, onde as mulheres vinham fazer a lixívia e onde os animais vinham matar a sede. Local mítico que, segundo a crença local, era a residência do chefe dos Irãs que viviam na zona. Durante o período nocturno, era visível a claridade que irradiava do seu grande Poilão situado mesmo ao lado da Lagoa, na sua margem esquerda (Mansonna). Muitas pessoas traziam para aqui as suas oferendas destinadas a satisfazer os pedidos ligados à sua vida económica, social e espiritual, manifestações de crenças e rituais de culturas pré-islâmicas que continuavam a animar e regular o ritmo da vida do dia a dia.

Na margem esquerda do lago Djunkoré encontrava-se um poilão bem alto e que, durante o período nocturno, irradiava uma luz florescente provocando o efeito bômina (claridade), que era visível a uma grande distância. Djunkoré funcionava como o refúgio dos homens e das aves, onde se praticavam as cerimónias e rituais masculinos. Todas as gerações passadas fizeram-se homens neste espaço mítico e verdejante. Deste ângulo subia uma linha de força de retorno à aldeia de Canhamina, sede do Regulado de Sancorla, completando assim, com as outras duas linhas de força invisíveis, uma espécie de triângulo místico, o famoso triângulo de vida de Canhámina. O conjunto formava assim um ambiente natural propício para a vida animal, em particular das aves selvagens. Mas, também constituía o centro da vida económica, social e cultural das aldeias e suas redondezas que incluia também a localidade de Fajonquito.

A escola pública de Fajonquito – Oficialmente, começou a funcionar no início dos anos 60 e teria beneficiado do seu primeiro pavilhão em 1962, cujo o primeiro Professor teria sido Inocêncio Kani, futuro quadro e combatente do PAIGC que, com o Mamadu Turé (Momo), Aristides Barbosa, Mamadu Indjai, entre outros, fizeram parte do grupo dos conspiradores que assassinaram Amílcar Cabral, fundador e Secretario-Geral do PAIGC em 20 de Janeiro de 1973, em Conacri. Mas os Professores e também Directores mais carismáticos que trabalharam nesta escola foram, sem sombra de dúvida, o Mambucar Sanhá (1966-1972) e Luis Abulai Mané (1970-1978?).

A Capela de Fajonquito – Construída em 1967, pela Companhia 1501, funcionou até 1974 e com a partida dos soldados portugueses em 1974, foi abandonada e mais tarde demolida para cosntruir em seu lugar a casa da associação das mulheres horticultoras de Fajonquito no centro da vila.

A Cooperativa Agricola de Fajonquito (CAF) – Uma inicitaiva do Governador Spínola (1968/73) no quadro da sua politica “Por uma Guiné melhor”, foi construída em 1970 para melhor organizar a produção e venda da fileira do amendoim e garantir a conservação e distribuição de sementes de qualidade logo no início das chuvas. No local ainda se podem observar as paredes e algumas poucas estruturas sobreviventes.

Mesquita de Fajonquito – Fundada em 1972, foi construída no espaço que servia inicialmente de campo de futebol, mesmo no centro da vila. Foi demolida em 2017 e no mesmo ano se iniciou a sua reconstrução num perímetro maior e com fundações, alvenaria e tecto em betão armado. A família de Aladje Coli-Waga Baldé (1915?-1993?) foi impulsionadora e garante da primeira mesquita e os seus filhos na pessoa de Tcherno Corca que o substituiu na direcção da mesma ao seu irmão mais novo, Aladje Amadu Baba, são os seus actuais continuadores.

Centro de Saúde de Fajonquito – Construído em meados de 1973/74, começou a funcionar após a independência em finais de 1974, com a partida dos soldados portugueses que se iniciou em Agosto de 1974, na sequência do golpe militar de 25Abril74 em Portugal, e culminou no dia 1 do mês de Setembro do mesmo ano com a cerimónia de hastear da bandeira nacional na parada do quartel. O seu primeiro Enfermeiro foi o Dr. Mamadu Candé, actualmente quadro superior do Ministério da Saúde e Técnico do Centro Piloto de Tratamento de Noma em Safim a seguir seria dirigida, durante muitos anos, pelo Enf. António Mendes Tavares, ja falecido.


8. ECONOMIA (COMÉRCIO E ARTESANATO)

Durante muito tempo a economia da zona baseou-se na produção do milho, do arroz de bolanha e do amendoim (mancarra) que sucederam paulatinamente a Borracha e o Coconote, para consumo das famílias e para comercialização. Ultimamente, com a baixa da procura e dos preços do amendoim no mercado internacional, o cajú transformou-se no principal e único produto comercial para obtenção de rendimentos na economia familiar segundado pelo Gergelim cuja procura tem aumentado nos últimos tempos.

Na época colonial, as principais casas comerciais da vila e da zona eram: A Casa Gouveia (Depois Armazéns do Povo), Casa Ultramarina (depois SOCOMIN), Casa Cardoso, Casa Mario Lima, Casa Esteves, Casa Luciano (Carvalho de Alvarenga), Casa Campos, Irmãos Casimiro e Costa Pinheiro, (mais tarde Denane Sissé).

Actualmente em Fajonquito funciona uma Feira semanal (Lumo), ao ar livre no espaço do antigo aquartelamento militar, todas as quartas feiras onde comerciantes de várias origens, incluindo da vizinha República do Senegal vêm vender as suas mercadorias e artefactos, evento que concentra toda a população das redondezas e constitui um acontecimento importante de troca de produtos, de abastecimento as famílias em produtos de primeira necessidade, principalmente arroz que, paulatinamente vem substituindo os outros produtos agrícolas como o milho, o fundo e o feijão que antes constituiam a base alimentar das populações da secção. A ocasião, também, serve para troca de informações e de encontros de natureza diversa.

No domínio do artesanato é de destacar a ourivesaria de Botché Baldé (Botché Bailo), as ferrarias de Djinnôh Sandem, Djammeh Cassama, de Braima Gumbo Baldé, entre outros.



9. FIGURAS DE DESTAQUE

Dadiina Baldé – Um rico ganadeiro é o mítico fundador do regulado de Sancorla, que após a guerra entre a confederação dos muçulmanos (fulas, mandinga-moris e Djacancas do império de Gabu), teria adquirido ou concedido as terras que hoje constituem o espaço do regulado de Sancorla das mãos dos homens de confiança de Alfa Molo. Todavia, existe uma outra versão que aponta o próprio Dadiina como um dos Fula-forros e homens de confiança de Alfa Molo que o apoiaram durante a guerra de libertação conduzida pelos fulas de Firdu, e a quem ele teria confiado a continuação da conquista desta região nas mãos dos Farinados Soninqués ainda muito activos, com os quais teria conseguido negociar para estabelecer uma convivência pacífica e que se mantém até hoje entre as duas étnias que partilhavam muito em comum a começar pela própria cultura e línguas.

Braima Djamé Baldé – Branjame (1856/1948) – Filho de Ellá Samba Baldé, neto de Samba Sáhabu e bisneto de Dadhina Baldé, líder carismático e que marcou a fase da ascenção e autonomia do regulado de Sancorla na sua aliança com a administração Portuguesa entre 1886 (batalha de Fanca entre os homens de Mussa Molo e a coluna do Tenente Marques Geraldes onde se teria distinguido levando à fuga definitiva de Mussa Molo para a Gambia) e 1935/36 (última guerra de pacificação contra os Canhabaques), onde perdeu a vida seu filho Abdu Buram, príncipe herdeiro de Sancorla. Segundo uma versão ainda por confirmar, o Branjame morreu em Canhâmina em 1938, vítima de ganância de uma das suas numerosas mulheres que o teria envenenado, pensando poder conquistar o seu coração, com uma posologia mágica, preparada por mãos inimigas.

Sambel Koiô Baldé (1916-1975/6) – Régulo de Sancorla após a morte do pai e o desaparecimento de Abdu Buran, príncipe herdeiro e seu irmão, na guerra de Canhabaque, foi durante a sua regência que eclodiu a guerra colonial. Juntamente com os seus irmãos e toda a família do regulado, defendeu com valor e muita bravura as terras de Sancorla de Cambaju a Suna, de Panambo a Cansonco, graças ao qual foi possível suster o avanço da guerrilha e proteger o território e as suas populações da fuga iminente para o Senegal. Consta que o PAIGC e seus principais dirigentes tudo fizeram para o mobilizar para a causa da luta que levavam a cabo, sem sucesso. Após a independência, em 1975 ou 76 um dos comandantes da guerrilha sediada em Fajonquito aconselhou-o a fugir, secretamente, pois tinham recebido ordens para a sua detenção. Sambel Koio teria abanado simplesmente a cabeça e respondido que ele nunca fugiu na sua vida e que, se tivesse que morrer, preferia morrer em Sancorla, a terra dos seus pais e avós. Segundo consta, foi preso e fuzilado em Bambadinca em 1975/76?, juntamente com o seu irmão mais novo, Demba Djulde Baldé, pelos homens do PAIGC (Madina Cudjido?). Os seus corpos nunca foram entregues às suas famílias para o luto a que tinham direito como homens, chefes de famílias e da sua comunidade.

Maudê Tôdhju Baldé (1917/1973?) – Alferes de 2.ª linha e Comandante do Pelotão de Milícias, tendo passado por Cambaju, Saré-Uale, Fajonquito e Suná, agraciado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª Classe e Prémio Governador da Guiné em 1966 por feitos heróicos como militar, morreu de crise cardíaca no Hospital Principal de Bissau, onde estava hospitalizado, em 1973.

Fanca Djau – Indigitado chefe da Tabanca de Fajonquito de 1964 a 1989..?, pai de Carlos Bubacar Djau, Alferes da 2.ª Companhia de CMD Africanos e do Professor Djibril Djau (Iddé), Director da escola de Fajonquito durante muitos anos, originário da aldeia de Bancô, abandonada com a eclosão da guerra colonial em 1963/64.

Alfa Módi Bailo Djaló – Originário de Futa-Djalon, República da Guiné-Conacri, no início do séc. XX, foi o primeiro Almame e um dos primeiros habitantes Fulas de Fajonquito, faleceu em (1995..?) na localidade de St. Samba (Samansata) a meio caminho entre Canhamina e Fajonquito, para onde se tinha mudado para se juntar ao seu sobrinho e genro, Alfa Umaro Djalo, iminente figura do Isláo e da comunidade local após ter perdido a liderança da mesquita a favor dos filhos de Coli Waga, regressados do Senegal, Futa-Toro após seus estudos coránicos.

Denane Sissé - Comerciante dinâmico e proprietário de uma das mais antigas casas em Fajonquito que teria adquirido nas mãos dos irmãos Pinheiro, aconselhado pelas autoridades locais, era também detentor de uma outra loja na localidade de Cambaju. Denane teria sido um dos primeiros filhos de Fajonquito a serem escolarizados e, mais tarde, a entrar no mundo dos negócios com a compra de uma das casas comerciais, no início da guerra colonial a conselho das autoridades militares e civis em Fajonquito que, segundo consta, temiam pela fuga da família para o Senegal como tinha acontecido com muitas famílias mandingas, logo no início da guerra colonial (1963-1974).

Professor Mambucar Sanha (Bafata) – Foi um dos primeiros e mais antigos professores em Fajonquito, onde trabalhou por mais de 10 anos e ajudou na formaçáo da primeira geração de alunos que saíram desta escola nos anos 60/70.

Carlos Borges Figueiredo (Portugal) – Capitão e comandante da companhia metropolitana do exército português, (CART 2742) que esteve estacionada em Fajonquito durante dois anos (1970/72) onde morreu vitima da explosão de uma granada defensiva accionada por um dos seus soldados, a 2 de Abril de 1972. Durante a sua permanência e, no quadro da política Spinolista “Por uma Guiné melhor” contribuiu para melhor a formação dos alunos da escola de Fajonquito bem como a relação entre os soldados e a população local, através de uma maior abertura e animação cultural da vila com a vinda de artistas e músicos da metrópole (grupo de Eva Maria em 1971).

Dr. Carlos Bubacar Baldé (1958/…) - Nascido na aldeia de Farimbali, arredores de Fajonquito, o primeiro Fajonquitense a concluir o 11.º Ano de escolaridade e depois a Licenciatura (em Farmácia na Universidade Nova de Lisboa em 1989). Foi um aluno e médico brilhante que sob a orientaçao sábia do professor Mambucar Sanhá concluiu o ciclo do ensino primário (4.ª Classe), no tempo recorde de 3 anos lectivos (1968/71), que, normalmente, era feito em 5 anos, tendo seguido para Bissau a fim de frequentar o Ciclo Preparatório na Escola Marechal Carmona (hoje Salvador Allende). Terminou o curso complementar dos Liceus (Honório Barreto, actual Kuame N’krumah) em 1978, com honra e distinção, integrando o melhor grupo de sempre deste liceu nacional, na companhia de destacados filhos da Guiné, em particular do também médico cirurgião e PhD, Joaquim Tavares (vulgo Djoca) actualmente a exercer nos Estados Unidos.

António Mendes Tavares (1937..?/2018) - Enfermeiro colocado em Fajonquito desde (1977...?), depois de passar alguns anos por Contuboel, desempenhou com um grande brio profissional as suas funções e, graças ao seu elevado grau de profissionalismo, humanismo, talento natural e carisma, conseguiu cativar a atenção e a estima da população de Fajonquito e arredores tendo-se reformado em meados de 1995.



GENEALOGIA DA CASA REINANTE DE SANCORLA (CANHAMINA)

DOS FILHOS DE DADINA (Patriarca de Sancorla)

- DADINA gerou SAMBA SAÁBU;

- SAMBA SAÁBU gerou DJOMEL SAMBA, HELLÂ SAMBA e NHIMA;

- DJOMEL SAMBA gerou ALIU FANTA …;

- HÊLLA SAMBA gerou MALAM HELLA, TOMBOM QUEBA, EGUÊ FILY, BRAIMA DJAME (BRANJAME), SAMBA UDÉ, DEMBA UDÉ, MERRA UDÉ, KUMBA UDÉ e N’DUNDE.

- NHIMA gerou MUSSUNDIM e MAMA.



DA DESCENDENCIA DOS FILHOS DE HELLÂ SAMBA

- MALAM HELLÂ gerou ALACOM e DJABU DANDJO.

- TOMBOM QUEBA gerou TCHERNO TOMBOM, MERA TOMBOM e SAMBA TOMBOM.

- EGUÊ FILY gerou NAÔH (NDÔ), AWA EGUÊ, SAMBA EGUÊ (SAMAGAIA), DEMBARO, PATÉ/PARÉ (PARERO) e TAMBA MAUDÔ.

- BRAIMA DJAME (BRANJAME) gerou ABDU, BONDHÔ, MÉRA, DEMBA, WUDÉ, SAMBEL KOIÔ, DEMBA NUMÔ, DJARI, GUNDÔ, FENDA, KUMBA NHAMA, MÂNSARA, MANUEL (MANELI), GUELA, NHARÔ, MÉRA, SÊGA, MBUNHA, DJOMEL, TÔBHO REDI, BAMBA, FANTA, ANSA, MANA NUIA, KINDI, MAUNDÊ TÔDJHU, MABÔ, DJAMANTI, KÔIO AWA, KUMBA AWA, NHAMA, TCHOMONKOLI, MUSSUNDIM, TUMANE, MAMUDO DJENA, CADI DJENA, SAMBA, KUNDJA, QUENDÔ, SANCULÉ, CADI BUIA, MADIU TATA, NDJUCAW, TAMBADU, MAMADU KUMA BAMBI, BINTA, DJHÔNHA, YOBA SIREM e BHOIDÔ TENEM. (49 filhos).

- SAMBA UDÉ (SAMA-UDÉ) - irmão de Branjame indicado para chefiar a “Diwal” de Kerwane/Panambo a Leste - gerou WALI, MUTARO, SIDI, NHANA, MARIAMA KINDI, MAKI, MARIAMA, DJIBA KULUNDO, NDUNDE KUMBA, DJADJA KOBA, KUMBA LAO, KUMBEL, BINTA BODJEL, BRANJAME, TUMANE, SIRANDIM, RUDDO, TCHEDEBEL, TALARA, KITALI e KUMBA BODJEL.

- DEMBA UDÉ (DEMA-DUORA) - indicado por consenso da familia para chefiar a “Diwal” de Lenkebémbe/Cambaju - gerou ALA BURI, YOBA I, ALFA, BINTA, DJAME, BOTA, GUELA, YOBA II, MAMADU ALIU (MAMA ALIU), HAMADU SHERIFO (HAMA-SHERIFO), MAMARE, NHANHA, TENEM DJUBA, ADULAI DJUBA, SIRAEL DJUBA, BOBOGUEL, USSAINATU (ASSINATU), SAMBA BODEDJO, UBBA, BEDJA e BACARI TCHOMONKOL.



DOS FILHOS DA EGUÊ FILY BALDÉ E MOLO BALDÉ
(seu primo nascido da mesma familia de Dadina, Patriarca de Sancorla):

MOLO (ou MOR-SEIDE) E EGUÊ FILY (ou MARIAMA BALDÉ), nascidos respectivamente em meados da década de 1850/60 em Panambo (?), o primeiro falecido por volta de 1922/23 em Kerewane onde residiam na altura e a segunda em 1967 na localidade de Cambaju, onde estavam refugiados após o inicio da guerra colonial de 1963/74 na entao Guiné Portuguesa hoje Guiné-Bissau.

DO CASAMENTO DE EGUÊ FILY E DO SEU PRIMO MOLO BALDÉ nasceram : NAÔH mais conhecido por N’DÔ (1907/8), AWA EGUÊ (1909/10), SAMBA GAIA (1911/12), DEMBARO (1913/14), PATÉ (1915/16) e TAMBA MAUDHO (1917/18).

- NAÔH, após a morte do pai em Kerewane e a mudança da familia para Canhâmina, casou com a Kumba Nhama, filha do seu tio Branjame com quem gerou BASSIRO, MARIAMA (MARÂ) E YOBA.

- SAMBA GAYE, tendo casado com Mansara, também filha de Branjame e gerou ALIU, ADAMA …

- DEMBARO gerou BOBO SUNCA, AWA SUNCA, ANSARU SUNCA.

- TAMBA MAUDHO (ALIU TAMBA) gerou IBRAIMA, BUBACAR TAMBA (CARLOS), CHERNO TAMBA, RAMATULAI, AISSATU FANTA, CANTABA, UMO ASSY, ROSA ASSY, MAMADU BOBO e ASSANA YOBA.


(Fim)
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Nota do editor

Vd. post de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)
e
11 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28426: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (2): Sancorla no contexto das guerras entre fulas e mandingas...; Início da guerra e a deslocação das primeiras Unidades Militares para Fajonquito e Imagens de Fajonquito (1964-1974) (Cherno Baldé)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Tive a felicidade de estar presente, não conhecia pessoalmente este ilustre historiador, dele muito tenho falado no blogue e fiz uma súmula do seu magistral trabalho a "História das Missões Católicas na Guiné" no Tomo I de "Guiné Bilhete de Identidade". Miraculosamente, apareceram à venda alguns exemplares deste livro, de há muito esgotado, parecíamos sete cães a um osso, e havia também um conjunto de brochuras onde encontrei este trabalho de Pinto Rema datado de 1972, faço dele um curto comentário acerca dos cruzamentos entre o rigor histórico e as movimentações propagandísticas, naturalmente distorcedoras da verdade documental. A Academia Portuguesa de História, de que Pinto Rema foi seu Secretário-Geral, esteve presente em força, a historiografia deste Franciscano excede a Guiné e em muitos pontos é constituída por obras de referência.

Um abraço do
Mário



Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné

Mário Beja Santos

O Centro Cultural Franciscano situa-se no Largo da Luz, em Carnide, anexo de uma casa apalaçada que também pertence à Ordem Franciscana, atravessei a Feira da Luz em plena ebulição com olaria, padaria e haveres de muitas espécies, em 23 de setembro, pelas quinze horas, iria ocorrer a sessão de homenagem pelos seus 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema, a quem a história da Guiné muito deve, com destaque para uma obra de referência História das Missões Católicas na Guiné. Ali chegado, verifiquei que havia publicações à venda, esta História das Missões Católicas estava completamente esgotada e apareciam ali alguns exemplares, atirei-me como gato a bofe, em minutos desapareceu um stock que tinha ficado estranhamente em depósito, fui um dos felizardos a arrebanhar um exemplar espúrio. E descobri uma pequenina brochura intitulada Os Lusíadas e a Guiné, obra do Padre Rema, publicada nas comemorações do IV Centenário da publicação d’Os Lusíadas, Bissau 1972. Dele falaremos mais adiante, e até se encontrou um documentário da RTP alusivo, vamos ver o Padre Rema em Bissau a apresentar a exposição camoniana a pessoas como o Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, o Ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa e o Governador António de Spínola. O leitor pode consultar o respetivo site aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-camoniana-em-bissau/.

Os académicos cumpriram o seu serviço, seguiu-se uma tocante homenagem ao aniversariante, sempre sorridente deu conta das velas e choveram as palmas após o cântico da praxe. Vim para casa e comecei a ler a brochura, era a melhor homenagem que podia prestar a este homem devotadíssimo à sua missão apostólica e que deixou uma obra cultural assente numa investigação rigorosa e perdurável.

Comecei por ver os comentários da obra ímpar de Camões em cujas estâncias se alude às viagens de Gama pela costa ocidental africana. O navegador está a contar a sua viagem para a Índia. Diz que deixaram Massília, que é a África do Norte, uma costa estéril, porque não produz nada, o deserto do Sara, em baixo vivem os Azenegues na Barbaria, segue-se a “Etiópia” ocidental, este é o tema da Estância VI do Canto V. Fala-nos depois de o “limite aonde chega o sol” é o trópico de Câncer, abaixo vivem os povos de cor negra, a quem os navegadores irão chamar Terra dos Negros. Camões usa linguagem mitológica, fala do pai Apolo (ou Sol). O primeiro rio que se encontra é o Senegal. Na Estância VII fala-se no Cabo Arsinário, nome que foi dado por navegadores para Cabo Verde, perto de onde hoje se levanta a cidade de Dakar. O épico volta atrás para falar das Ilhas Canárias, noutra Estância falará de Santiago, e assim chegamos à Estância X onde ele refere a província Jalofo, a mui grande Mandinga e o rio Gâmbia. Na Estância seguinte falará das Dórcadas, há quem as identifique com o arquipélago dos Bijagós. Nas estâncias seguintes, Camões refere-se à viagem em direção ao sul (“Austro”), deixando para trás a Serra Leoa com o seu Cabo das Palmas, nome dado pelos portugueses.

Importa agora refletir a que propósito foi dado como altamente conveniente publicar sobre os Lusíadas e a Guiné e fazer uma exposição evocativa do IV Centenário d’Os Lusíadas em Bissau. O Padre Rema deixa claro que a Guiné pertence À memória histórica e literária de Portugal, à presença portuguesa em África, à conexão lusíada com África. Recorde-se que o Padre Rema vinha publicando desde a década de 1960 estudos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, caso de A primeira envangelização da Guiné (1434-1533). Camões é a ponte entre o passado e o presente. Este tipo de análise acabaria por se cruzar com interesses políticos tanto do governador Spínola como da lógica da política ultramarina, mas há uma distinção a fazer: Rema reflete no plano da memória, da história da cultura, o regime e o governador da Guiné tem objetivos políticos e propagandísticos, estamos em 1972, o marcelismo intenta pôr as comemorações ao lado da sua política. Numa intervenção de “conversa em família”, em 1971, Marcello Caetano apontava 1972 como um ano de grandes comemorações, associando a celebração de Camões com a presença de Portugal no mundo e até a defesa do Ultramar.

O trabalho de Pinto Rema era útil para o regime, mas o historiador era muito mais do que um agente necessário para aquela ocasião evocativa. Na sua obra maior, História das Missões Católicas na Guiné, publicada em 1982, a profunda investigação nada tem de propagandístico, espelha fielmente sucessos, fracassos, conflitos e contradições da presença missionária portuguesa.

O evento de Bissau procurava fazer acreditar que a história de Portugal, o poema épico, as referências ao Senegal e Cabo Verde, tal como as referências às Canárias e a presença portuguesa, a menção do Jalofo, da mui grande Mandinga era tudo e a mesma coisa, Os Lusíadas davam chancela à Guiné Portuguesa. Acontece que a História não teve o mesmo curso que o poema épico. A tal Guiné, Senegâmbia, Rios de Guiné de Cabo Verde, Etiópia menor, Terra dos Negros e menções afins, como aparece em textos dos séculos XV e XVI era uma extensão geográfica com outra amplitude que aquela Guiné, que teve uma superfície reconhecida pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. Um aspeto muito curioso de um outro texto de Pinto Rema, dedicado às missões católicas na Guiné, é que ele utilizou a estância X do Canto V para definir historicamente a Guiné.

Não podemos iludir que a Guiné pertence à memória histórica portuguesa e à sua presença naquela região africana. A lógica do regime era aproveitar o poema épico para dar um aval à presença portuguesa contemporânea na Guiné. Só que os versos camonianos nada têm a ver com o Estado ou o território definido em 1886. Pinto Rema procedeu a uma leitura histórica retrospetiva, tem o ponto de partida numa geografia africana cabo-verdiana e coloca-a na história daquilo que, no século XX, era a Guiné Portuguesa.

É neste contexto que a brochura é muito interessante como objeto de análise. Se ir saudar este homem de grande envergadura missionária e historiador de alta qualificação da Guiné era o meu propósito, também beneficiei ficar com uma brochura que nos ajuda a pensar como existe uma diferença abissal entre o rigor da história e o manuseio propagandístico.

O Padre Henrique Pinto Rema vai soprar as velas do bolo do seu aniversário
Mesa da sessão de homenagem aos 100 anos do Padre Rema, ele foi Secretário-Geral da Academia Portuguesa de História, e a Academia esteve presente em cheio, incluindo os académicos franciscanos
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Notas do editor:

Vd. post de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
É agora a ocasião se sabermos algo mais sobre o proprietário do estabelecimento fotográfico Foto Câmera, Álvaro de Barros Geraldo, um bom conhecedor da Guiné, trabalhou com a imprensa e a RTP, é autor de um filme até agora não localizado e foi um fotógrafo que trabalhou assiduamente com o Governador Spínola, terá fixado residência em Bissau em meados da década de 1950, foi responsável por uma primeira exposição fotográfica de Usos e Costumes da Guiné as suas muitas milhares de imagens repartem-se pela atividade social, a chegada e partida de unidades militares, acompanhar o comandante-chefe em operações, imagens que depois iam ser transmitidas para a metrópole, um sem número de tranches fotográficas que nos revelam até a excisão feminina, vêem-se slides de brancos em festa, a alegria da inauguração do cinema de Bolama, Spínola a falar com um guerrilheiro, o jovem capitão Salgueiro Maia, porventura no Cumeré, à sua chegada em 1971. Um belíssimo livro/catálogo que merecia um maior destaque editorial.

Abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

No texto anterior, vários autores pronunciaram-se sobre a problemática arquivística, o legado deste importantíssimo espólio de Álvaro de Barros Geraldo, o historiador Pedro Aires Oliveira contextualizou a governação de Spínola que o fotógrafo acompanhou com a maior das regularidades, vamos agora ver alguns dados biográficos deste fotógrafo até agora pouco analisado. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993) viveu e trabalhou na Guiné-Bissau entre, pelo menos, 1955 e 1974. Poucos elementos biográficos transparecem do espólio. O seu nome não consta no Arquivo Histórico Militar. Terá fixado residência em Bissau, onde realizou, entre 1955 e 1956, a primeira Exposição Fotográfica de Paisagens, Tipos, Usos e Costumes da Guiné Portuguesa, no Museu da Guiné, e era o proprietário da loja e laboratório Foto Câmera, pelo menos desde 1964. Realizou o filme Guiné, Princesa Africana, uma obra cujo paradeiro permanece até hoje desconhecido.

Foi chefe do departamento de fotografia e cinema do Centro de Informação e Turismo da Guiné, correspondente da RTP e chefe do Gabinete Fotográfico do Jornal Voz da Guiné, fundada em janeiro de 1972. Terá também colaborado com a Agência Geral do Ultramar. Ele tornou-se o fotógrafo de confiança do General Spínola. Barros Geraldo regressou a Portugal um pouco antes do 25 de abril. Em Portugal exerceu atividade como fotojornalista no Jornal do Comércio e, mais tarde, no Jornal de Notícias. As curadoras da exposição procuraram obter informações junto de pessoas que com ele trabalharam. José Manuel Barroso, assessor de imprensa do General Spínola, e João Egreja, fotocine ao serviço do exército português convergem na descrição de um homem de trato difícil.

Após a morte do fotógrafo, o seu acervo foi adquirido pela Fundação Gulbenkian, que o doou, em 2000, ao Arquivo Histórico Ultramarino.

Caracterizando a essência deste espólio, diz-se previamente que a exposição não pretendeu ser o resultado de uma investigação exaustiva, é uma seleção de imagens dos tais 82.300 negativos, centenas de provas de contacto, diapositivos, bobines de película etc. etc. A exposição também mostra jornais onde o fotógrafo colaborou. O foco incidiu sobre a Guerra Colonial, mostrou imagens do programa psicossocial Por uma Guiné Melhor, onde se tentou o empoderamento de chefes locais; não faltam imagens de prisioneiros políticos, de armamento apreendido ao PAIGC, fotografias de chefes islâmicos regressados de Meca, acampamentos da Mocidade Portuguesa, abertura de um novo edifício da PIDE/DGS, a presença de Rafael Barbosa, então presidente do Comité Central do PAIGC, a apoiar o programa político Por uma Guiné Melhor.

As curadoras observam:
“Ainda que de forma involuntária, as imagens denunciam a escassez de realizações concretas e expõem a incapacidade estrutural do Governo português em consolidar o seu domínio. Através deste espólio, percebemos como, em plena Guerra Colonial, foi precisamente o conflito que obrigou o regime a tentar efetivar a sua ação colonizadora. Por sua vez, a incapacidade do regime em responder eficazmente à prolongada guerra acabou por catalisar a formação do MFA.”


Referem as mesmas curadoras que a colonização da Guiné só se tornou uma realidade efetiva com o início da Guerra Colonial, apreciação que não aceitamos, pois em período anterior, correspondente ao mandato do Comandante Sarmento Rodrigues foi encetado um esforço administrativo integral, digamos que o General Spínola, em termos de desenvolvimento socioeconómico e cultural deu impulso, com invulgares meios recebidos, ao ímpeto desenvolvimentista impulsionado por Sarmento Rodrigues.

Não se partilha igualmente a opinião das curadoras quanto às imagens dos corpos das mulheres, sugerindo que aparecem em poses manifestamente de dominação, revelando uma posição de autoridade colonial, bem como outros testemunhos que não uma apropriação do olhar etnográfico que não passa de mero protesto de documentação científica.

Se tomarmos em consideração o importante volume de João Loureiro sobre os bilhetes postais da Guiné Portuguesa, constata-se que há um longo histórico, a partir do século XIX de mostrar mulheres seminuas, como, aliás, homens de todas as idades e crianças de todas as idades. Admitamos, em retrospetiva, que esta enormidade de imagens exige reflexão. Aquando da Exposição Colonial do Porto, em 1934, as senhoras protestaram com as mulheres africanas de peito ao léu, acontecimento que deu origem a muitas excursões no Norte para ver um acontecimento nunca visto. Henrique Galvão, o comissário da exposição, foi perentório face ao protesto ético das ditas senhoras e até membros da clerezia: é assim que estes povos vivem, não se pretende esconder a realidade.

A exposição inclui também o período revolucionário, as curadoras recordam a força de elite que era o Batalhão de Comandos Africanos:
“Estes combatentes negros permaneceram à margem das narrativas dominantes sobre o fim da guerra. Foram não só secundarizados neste espólio, como também foram excluídos tanto das celebrações das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, quanto do novo regime democrático que então se instaurava em Portugal. A última fotografia do espólio do fotógrafo tem a ver com um incêndio em barracas de cabo-verdianos em Algés de Cima, 1975, o que nos remete para as condições de habitação degradantes destes migrantes que desde o início da década eram uma das forças motrizes da construção civil e dos novos equipamentos urbanos."

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
Inauguração do cinema, Bolama, 4 de março de 1971
Slide, sem título, sem data, lê-se no cartaz de pano Nhacra Felicita Homem Grande
Horácio Caio, considerado o primeiro repórter de guerra da televisão portuguesa, chega a Bissau em 15 de janeiro de 1974. Diz no texto que o acompanha em segundo plano Baltazar Rebelo de Sousa, então Ministro do Ultramar, o que não é verdade. Mas, efetivamente, nesse dia chegou a Bissau o Ministro em visita oficial.
Acampamento da Mocidade Portuguesa, Quinhamel, 1 de abril de 1969, à esquerda pode-se ver o Secretário-Geral do Governo, Tenente-Coronel Pedro Cardoso.
Chegada de tropas e despedida de fuzileiros, 11 de julho de 1971. O capitão Salgueiro Maia em destaque.
Operação Sul, 21 de abril de 1972
Governador em entrevista com um elemento do PAIGC, 14 de junho de 1970
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Notas do editor:

Vd. post de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28307: Casos: a verdade sobre... (77): a pastora-alemã "Blonde" e o general Spínola: os dois inseparáveis, mas... só na Banda Desenhada

 














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.,  João Rodrigues Lobo e Ramiro Jesus
Texto: Luís Graça (2026) 
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Convém desmentir aqui, de uma vez por todas, a "anedota da Spinolândia" que, à força de ser repetida, corre o risco de transformar-se em "facto verídico": o general Spínola não tinha nem nunca teve, em Bissau, nenhuma cadela de raça "pastor-alemão", no palácio do Governador como "animal de estimação" (*)... Tal como não tinha nenhum "cavalho branco" (**)...E muito menos  uma cadela chamada  "Blonde". E muito menos ainda, que viajasse com ele de helicóptero. 

É uma invenção da 6ª Rep (a IA...), agora em competição com a 5ª Rep (Café Bento, Bissau)...E que desafia a nossa fraca e nebulosa memória... (a sofrer com a perda de neurónios todos os dias, há mais de meio século).

Por razões de segurança, e de bom senso, a segunda hipótese (uma cadela a viajar com o governador e com-chefe, de heli, AL III ou até de DO-27) era de todo inverosímel, dada a falta de helicópteros e de espaço nos helis...

Não existe qualquer fundamento histórico, documental ou fotográfico que sustente que Spínola tivesse uma cadela, da raça pastor-alemão,  no Palácio do Governo em Bissau ou que a fizesse acompanhar nas suas deslocações aéreas na Guiné.

Vamos aos factos...

Pode haver aqui uma confusão com os cães militares que eram usados para fazer a ronda, nocturna, ao Palácio do Governador... Outra coisa, completamente diferente, é Spínola ter uma cadela particular, de estimação, chamada "Blonde", e eventualmente levá-la consigo "by air" .... as suas viagens ao "mato"...

Encontrámos uma fonte particularmente interessante: uma entrevista, a propósito do 25 de Abril,  com Joaquim Oliveira, natural de Lousada, ex-soldado paraquedista, do BCP 12:

(...) "Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. 

Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. "(...)

Vd. O Louzadense > 24 de abril de 2021 > As histórias da liberdade

Sabemos, por outro lado, pelo nosso camarada José Câmara (açoriano,  da diáspora lusitana, a viver na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327, e Pel Caç Nat 56, Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73), que do dispositivo de segurança montada no Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império). fazia também parte o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 (BCP 12)... 

Competia-lhe fazer o patrulhamento móvel noturno no interior do jardim, a cargo  de um soldado paraquedista e do seu cão de guerra (Pastor-alemão) (****). 

Aliás, a utilização de cães de guerra pelo Exército português na Guiné (e pela FAP) está documentada  no nosso blogue. Há, por exemplo, o testemunho publicado por Mário Fitas  sobre a criação de uma Secção de Cães de Guerra na CCAÇ 763, em 1964-66, com vários Pastores Alemães, chefiados pelo "Cadete" (***).

Portanto, temos aqui já uma primeira explicação, muito plausível, para a memória da  alegada "pastora-alemã do Spínola": havia um ou mais pastores-alemães no próprio perímetro do Palácio, mas eram cães militares, não necessariamente propriedade pessoal do Governador, animal de estimação seu ou da esposa Helena.

 Foi porventura essa rotina diária que acabou por gerar, na memória visual de quem passava na zona ou em relatos posteriores mal informados, a associação direta entre o "Pastor-alemão do Palácio" e a figura do próprio Governador Spínola.

Ver o animal nas imediações da residência oficial do Comandante-Chefe levou a que a sabedoria popular, ou a narrativa romantizada da guerra,  transformasse o cão de patrulha do BCP 12 num "bicho de estimação do General".

Os testemunhos e registos em primeira mão devidamente documentados pelos camaradas no blogue repõem o rigor que a história exige: era um cão de guerra em serviço operacional de guarda, pertença do BCP 12, ou seja da FAP,
 não um animal pessoal de Spínola.

2. E a tal "Blonde"?

Aqui está o pomo da discórida A referência à  suposta "cadela Blonde" aparece, de forma muito explícita, no  nosso próprio blogue, num texto publicado em maio de 2026. Aí se refere "a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava" (**).

Mas há aqui um pequeno  "problema metodológico": não encontrámos, com a ajuda da IA,  nenhuma fonte independente anterior que sustente essa afirmação.

Pior: o texto do blogue é precisamente uma passagem em que uma resposta de IA (mais precisamente do ChatGPT) está a ser criticada por misturar factos, folclore e invenção. Ou seja, a frase sobre a "Blonde" aparece dentro desse material gerado/reproduzido, não como resultado de uma fonte primária ou de um testemunho identificável.

Logo a "Blonde" não pode ser dada como "facto histórico". Mais importante ainda: há vários registos fotográficos e cinematográficos de Spínola a chegar e partir de helicóptero,  inclusive imagens da RTP Arquivos  e do Museu da Presidência. Os registos descrevem minuciosamente quem o acompanha. Não se encontra uma única referência a uma cadela a bordo.
 
Mais: não há nenhum piloto, a começar pelo Jorge Félix, que tenha referido ter transportado um cão ou cadela, ao lado do Spínola.

Sabemos que os voos de Spínola eram frequentemente deslocações operacionais ou político-militares, com o Governador e Comandante-Chefe (acumulava os dois cargos) acompanhado pelo ajudante de campo (Almeida Bruno, por exemplo), oficiais, eventualmente outras individualidades e até jornalistas. 

Além do  testemunho do piloto Jorge Félix sobre os voos com Spínola, temos també  também imagens RTP Arquivos em que o percurso é bastante claro: helicóptero → Spínola → receção militar → visita → helicóptero.

Uma cadela de estimação não teria qualquer função nesses voos e ocuparia um lugar num aparelho cujo espaço era precioso (e disputado, quer por militares: feridos, por exemplo; quer por civis: mulheres grávidas, etc.).

Além disso, se fosse uma presença habitual, seria extraordinariamente provável que algum dos fotógrafos, operadores de fotocine, pilotos ou militares que conviveram com Spínola, tivesse deixado uma fotografia ou um testemunho escrito.
 
Mas há uma coisa que pode explicar a história, como já sugerimos acima. Temos três elementos reais que podem ter-se misturado na memória oral:

(i) Spínola tinha cães militares à sua porta, no Palácio;

(ii) esses cães eram pastores-alemães; 

(iii) Spínola deslocava-se constantemente de Alouette III, e existem muitas fotografias dele nos helicópteros.

Da combinação dos três elementos pode muito facilmente ter nascido a história: o Spínola tinha uma pastora-alemã que andava sempre com ele, logo "seu animal de estimação".  E, posteriormente, alguém acrescentou-lhe o nome "Blonde" (loura, em inglês).

3. A ausência de fontes e de registo fotográfico

O período de Spínola na Guiné é provav o mais fotografado e filmado de todo o conflito ultramarino (com registos diários de operadores de fotocine,  reportagens da RTP, jornalistas nacionais e estrangeiros).

Não há imagens nem testemunhos: (i) não existe uma única fotografia conhecida na bibliografia da Guerra Colonial, no arquivo da RTP, na hemerotecas, no Arquivo Histórico Militar ou no acervo da Presidência que mostre o general acompanhado por um pastor-alemão (nem no Palácio, nem junto a aeronaves, a descolar ou a pousar no mato, em AL III ou DO-27); (ii)  e nas memórias de ajudantes de campo, oficiais do seu estado-maior, pilotos ou outros camaradas que serviram em Bissau, não há nenhuma referência,     que saibamso,  à presença de tal animal de estimação ao lado do Governador.
 
4. Por outro lado, durante o período do comando de Spínola (1968–1973), a frota de helicópteros Alouette III da FAP no CTIG  na Guiné era um recurso extremamente escasso, gerido com rigor obsessivo. Os "hélios" (com o dizia a malta...) eram prioritários para:

  • eacuações médicas (de feridos em estadio grave, para o HM 241, em Bissau);
  • operações de assalto de tropas especiais (fuzileiros, comandos, paraquedistas); 
  • helicanhão;
  • apoio tático direto e reabastecimento urgente em tabancas e postos isolados;
  • deslocações do Governador e Comandante-Chefe às tabancas, aquartelamentos e destacamentos (fazendo-se, por norma, acompanhadas pela sua comitiva militar: ajudantes de campo, oficiais de ligação, convidados, jornalistas, etc.)

O espaço a bordo de um Alouette III era contadíssimo e condicionado ao limite do peso e da segurança de voo num território de clima tropicale e, para mais, em guerra. Reservar lugar para um animal de grande porte num meio de transporte militar crítico seria absolutamente  inacreditável, impraticável e inaceitavel. Havia combatentes que morriam no mato por insufuciência de apoio aéreo.

5. Mas não deixa de ter a sua "graça" ou a sua "piada" a suposta existência de um cadela "Blonde" que, na nossa imaginação (e com acumnmplicidade da IA...)  até era capaz de substituir o Jorge Félix aos comandos do heli AL III... 

Daí, finalmente, e ao fim de meia dúzia de tentativas e muitos insultos (!), consumnidores de tempo, paciência e recursos, eu tenha conseguido "produzido" esta BD, em que entram o nosso general, a "Blonde"e o ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"... Com a ajuda da IA e, mais uma vez,  do nosso camarada João Rodrigues Lobo.

Spínola tem o seu lugar na Histtória. A "Blonde" só na Banda Desenhada...

 
(Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini IA / Google | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de textio, itálicos, nebritos, título: LG)
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(**) Vd. poste de 21 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"

(...) Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas. (...)

 Vd. também poste de  19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

(***) Vd. psote 18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)


(****) Vd. poste de 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

(...) O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;


(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)