Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Gen Spínola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gen Spínola. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Faltava a narrativa do Boletim Oficial após o 25 de abril, são estes os elementos que julguei mais relevantes, pensando não só no leitor como igualmente atrativos para investigações subsequentes. Chamo a atenção para a ambiguidade da tomada de medidas pelo encarregado do Governo num tempo em que claramente as negociações iam apontando para o reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau por Portugal, não deixa de ser curioso que dentro desse quadro de ambiguidade se concedesse terrenos a particulares e a firmas, por vezes a título definitivo, se criassem escolas de artes e ofícios, isto a par de louvores inequivocamente relacionados com a situação político-militar e continuam a fazer-se reforço de verbas, nomeações e tudo o mais que dimana da rotina administrativa como se não houvesse um novo normal.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, depois do 25 de abril (91)


Mário Beja Santos

Os dados que agora se reportam têm como arco cronológico os meses que vão de junho a setembro, publica-se a imagem do último Boletim Oficial com data de 9 de setembro, foi o que pude encontrar na documentação existente na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Feito o crivo, considerei como mais relevantes para estudos posteriores as seguintes informações. No Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, o Encarregado do Governo, Carlos Fabião, Brigadeiro Graduado assina uma Portaria em que louva o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Mateus da Silva pela forma altamente eficiente como se houve durante o período de cerca de um ano em que desempenhou cumulativamente com as suas obrigações militares, as funções de Engenheiro-Chefe da Repartição Provincial dos Serviços das Obras Públicas e Transportes. “Na altura em que todos os esforços das Forças Armadas, em coordenação com o povo português, se conjugaram para, por derrube do regime de opção, instalar a democracia em todo o país, também o Tenente-Coronel Mateus da Silva respondeu presente, liderando o movimento das Forças Armadas da Guiné simbolizando a esperança de reconduzir a Guiné a uma Guiné Melhor por toda a população desejada.”

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, temos o Decreto Provincial n.º 8/74, que não deixa de suscitar curiosidade, pois revela a ambiguidade de uma administração colonial em pleno funcionamento enquanto já decorriam conversações que iriam inevitavelmente conduzir ao reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau. O texto reza o seguinte:
“1. A dinâmica do trabalho moderno reclama a existência de mão-de-obra qualificada, para que sejam aproveitados, ao máximo, os constantes e renovados benefícios da Técnica. Ao operário já não basta a força da experiência tradicional laborial. Exige-se-lhe a par de uma cultura básica geral, uma adequada preparação profissional e um apurado sentido de adaptação às mais evoluídas técnicas do trabalho.
Ora, é precisamente esta a razão de existir das Escolas de Artes e Ofícios: ministrar ao futuro artífice a cultura básica geral que lhe faculte a possibilidade de eventual promoção a escalões sociais mais amplos e, simultaneamente, iniciá-lo nas técnicas da profissão que escolheu.
2. O Governo da Província, dentro do vasto programa que se impôs de valorização social e cultural das suas gentes, não podia deixar de ativar a formação profissional, como fator do progresso que é.”


E com estes termos era criada na cidade Teixeira Pinto uma Escola de Artes e Ofícios para o sexo masculino.

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, assiste-se à concessão provisória de terrenos: a Joaquim Morais Pereira é concedido, por aforamento, 1940 m2 em Mansabá; a Valentim João Manuel Pinto é concedido, por aforamento, 1900 m2 na povoação de Porto Gole; a Barbosas & Comandita é concedido definitivamente um terreno com uma área próxima de 1430 m2 na povoação de Galomaro; e à mesma firma comercial faz-se a concessão definitiva de um terreno com uma área próxima de 2800 m2 na povoação de Bambadinca.

No Boletim Oficial n.º 27, de 2 de julho, o Alferes Miliciano Duarte Rodrigues Pires é nomeado para desempenhar, por acumulação, as funções de Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Agricultura e Florestas. No mesmo Boletim Oficial o Brigadeiro Graduado Carlos Fabião assina a seguinte Portaria:
“A povoação de Pirada foi flagelada no dia 25 de abril findo tendo falecido a auxiliar de enfermagem de 2.ª classe, dos Serviços de Saúde e Assistência, Margarida de Pina Araújo, em consequência dos ferimentos que foi vítima, enquanto prestava assistência aos doentes, tendo falecido horas depois.
A auxiliar de enfermagem, apesar de jovem, revelava grande espírito de sacrifício, zelo e dedicação pelos doentes o que a evidenciava como um dos melhores elementos dos Serviços de Saúde, prestando valioso contributo como única encarregada de um Posto Sanitário situado na zona fronteiriça de muito movimento e de risco considerável, tratando desveladamente todos os doentes que procuravam assistência, muitos de nacionalidade diferente, pois são numerosos os estrangeiros que aí acorrem a procurar cuidados médicos, gozando de consideração não só dos militares do Batalhão como da população de Pirada.”


E louva-se auxiliar de enfermagem a título póstumo referindo a sua dedicação com que assistia todos a que procuravam no Posto Sanitário e até em sua própria casa, fora das horas de consulta de tratamento.

No Boletim Oficial n.º 32, de 6 de agosto, temos o Decreto Provincial n.º 11/74, esclarece-se que já está completamente posto de parte o uso obrigatório de boné para os condutores de veículos automóveis ligeiros de aluguer de passageiros. E na Guiné mais razões havia para que fossem abandonadas tais imposições. E sem mais explicações promulga-se que os condutores dos veículos automóveis ligeiros devem apresentar-se decentemente vestidos e que a contravenção será punida com uma multa de 200 escudos. E temos também, no mesmo Boletim Oficial, uma Portaria assinada pelo Brigadeiro Graduado Carlos Fabião louvando o Alferes Miliciano António Eduardo Sobral Mendes pela forma altamente meritória como serviu na Província da Guiné, durante cerca de dois anos, quer como comandante operacional e tropas no interior do teatro de operações quer desempenhando funções na Repartição do Gabinete do Governo. Como é timbre destes louvores faz-se alusão ao seu desembaraço dotes de comando, muito senso, lhaneza de trato e isenção, bem como as suas qualidades de carácter, a sua cultura e alto espírito de bem servir e como um elemento perfeitamente integrado no Programa do Movimento das Forças Armadas.

E deste modo se dá por concluído o levantamento que se procurou fazer de mais de um século da vida desta colónia, desde os tempos do Boletim Oficial de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao período aproximado de um mês antes da chegada dos dirigentes do PAIGC a Bissau.

Encontro de Aristides Pereira, Secretário-Geral do PAIGC, e Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, em Londres, na presença de Abdou Diouf, Primeiro-Ministro do Senegal, e de Almeida Bruno. Maio de 1974. Fonte: Fundação Mário Soares, Arquivo Amílcar Cabral, Pasta 10078.001.009.
Fotografia publicada no Diário de Notícias em 27 de agosto de 1974
O General António de Spínola e Major Carlos Fabião num campo de instrução de milícias na Guiné, 12 de janeiro de 1972. Fonte: ANTT, DME.
_____________

Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28128: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): tropas e paisanos, e "a Guiné...para os guinéus"

t

Foto nº 1 >  Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor)


Foto nº 1 B > Possivelmente, os pais (na segunda fila, do lado direito),  avós (nma terceira fila, de óculos escuros) e familiares e amigos da criança, mais o padre, missionário (em primeiro plano, à direita). A jovem mãe seria de origem libanesa.


Foto nº 1 > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá 


Foto nº 1 C > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor): o Fernando Andrade Sousa é o primeiro da esquerda; o Joaquim Vidal Saraiva (alf mil médico) é o segundo da última fila, de óculos escuros e boné, Há mais 3 militares, fardados, que não identificamos. À esquerda do do Vidal Saraiva, pode ser o José Carlos Lopes, o ex-fur mil dos reabastecimentos...


Foto nº 1 D > Os padrinhos e a criança (ao colo da professora  Dona Violete)


Foto nº 2 > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca... Pelo que se depreende da visualização da imagem, a cerveja Cristal era muito popular na época... Se calhar, era por ser a mais barata... Os comerciantes de Bambadinca também estavam muito dependentes da tropa para efeitos de logística e segurança: os barcos civis que chegavam a (e partiam de) Bambadinca tinham segurança militar, pelo menos em dois pontos do rio Geba: Mato Cão e Ponta Varela...


Foto nº  2 A > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca (pormenor): um civil, em primeiro plano (talvez irmão ou cunhado da mamã libanesa), e o alf mil médico, Vidal Saraiva, já à civil.


Foto nº 2 B >  O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca: O Fernando Andrade, de bigodinho, é o terceiro... (Ele já não se lembrava do bigodinho, à margem do RDM...). 

Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Batizado de um filho de um casal de comerciantes de Bambadinca, para o qual foram convidados alguns militares da CCS/BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12. Por volta de finais de 1969. A mãe da criança era libanesa, o pai possivelmente era português de origem metropolitana, talvez até transmontano (o padrinho, o alf mil Carlão,  era de Mirandela)  (Foto nº 1 B)...

Fotos: © Fernando Sousa (2018). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca >  Abril de 1965 (?) > Festa da primeira comunhão > A menina branca, filha do chefe do posto de Xitole, ladeada pela Professora Primária Dona Violete (à esquerda, de óculos escuros) e a esposa de um dos comerciantes locais (à direita).



Foto nº 4 >Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Foto nº 3 > Abril de 1965 (?) > Capela local > Um grupo de meninos e meninas (só uma das quais é branca, filha do chefe de posto do Xitole, a frequentar a escola primária em Bambadinca), no dia da comunhão solene, devidamente enquadrados por uma freira, católica, muito possivelmente missionária e estrangeira (italiana?)
 
Fotos do álbum do ex-Fur Mil At Manuel Bastos Soares,  natural de Vila Nova de Gaia e residente na Maia.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Bastos Soares (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá> Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento, frente à escola primária > Memoriais de unidades que passaram por Bambadinca 

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos",  comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei.  Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).

Nunca vi o chefe de posto nem  a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo). 

Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...

Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, e muito menos comia á sua mesa, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim em espaços segregados...

Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças  eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971. 

O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que terá tido problemas ainda na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (A propósito, o Anjos de Carvalho,  em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).


2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como  "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como  na boda), como se costuma dizer, só vão os convidados... 

Mas,  como todas as "fotos de família", estas têm algo de ternurento... Perguntei-me na altura: quem seriam  estas pessoas, por onde andariam então (em 2016)... Algumas, eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança... 

Afinal, morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária, as duas enclausuradas). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé" (que, se não erro, era junto ao depósito de água e à escola)..

O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convívios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90),  já não se lembrava  bem de toda a gente, muito menos dos civis. 

Disse-me ao telefone que;

(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12; 

(ii) o Carlão fora convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás-os-Montes) de alguém da família da criança (pai ou avós);

(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;

(iv) ele,  Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado porque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que deve ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);

(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;

(vi)  ficou de me mandar (mas não mandou...) mais fotos deste "batizo"  

O casal libanês  (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel,  do lado direito (no sentido descendente), talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria , já na zona ribeirinha... 

Os Rendeiro não aparecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem,  na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós  e possivelmente um tio (o mais forte).

A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, possivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionários católicos italianos (do IPME) tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).

Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia,  a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).

O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852  (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento (incluindo o José Carlos Lopes, fur mil).

O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado...  Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº 1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...

As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas, a um sobrinho para as digitalizar...  


3. Estamos a falar de coisas que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administração ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... (Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!... E quem numa guerra civil, como foi aquela, não joga com um pau de dois bicos ?)

Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.

Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto,  promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que, com ele, e com a guerra,  praticamente foi substituída por quadros militares.)

Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa  como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização e repressão.

Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que até ao início cio dos anos 60  eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).


Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".

Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu  "refeitório e cantina"... E foi assim que fizemos todos a guerra...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca

A partir de agora, estamos em novembro de 1969, quando tenho saudades do Cuor, venho até ao porto de Bambadinca e olhar para lá da bolanha de Finete, fico ali especado a ver toda aquela massa florestal, por vezes o barqueiro, de nome Mufali Iafai, que me atravessou vezes sem conta de um lado para o outro, vem conversar comigo, faço dele o meu elemento de ligação com o passado. Ele lembra-se muito bem daquela noite de 28 de maio de 1969, quando Bambadinca sofreu a sua primeira flagelação, tomei a liberdade de vir em seu auxílio, o Geba na maré-baixa, ganhei lama até ao umbigo, este mesmo Mufali queria levar-me às costas para não entrar na lama da outra margem, recusei, mas não esqueci a deferência.

A intervenção em Bambadinca traduz-se numa multiplicidade de operações: levar e trazer correio de Bafatá; fazer patrulhamentos noturnos; fracionarmos o pelotão em secções, cada uma vai para o seu mister; passar noites abomináveis num lugarejo que dá pelo nome de Undunduma; participar em operações em Mansambo, Xitole, Xime; fazer colunas de reabastecimento entre Bambadinca e Xitole… enfim, um desgaste, uma perda da relação com os meus homens, por ironia estaremos sempre juntos nas operações ou naquelas emboscadas defensivas em que passamos a noite toda num ponto ermo para hipoteticamente defender Bambadinca.

O último mês de verdadeira atividade operacional, julho, traduz-se em sair de madrugada para proteger os trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Até que recebo a notícia de que devo partir para Bissau, antes de partir voltei a ver uma nova prova do rancor que separa os guineenses dos cabo-verdianos, o meu substituto é cabo-verdiano, os soldados convocaram-me, acusam-me de deslealdade, tanta amizade, tanta amizade e agora entrega-nos ao velho patrão com chicote, um gajo que certamente nos odeia. Tudo se veio a concertar, mas a estadia do meu substituto não foi longa.

Depois de doze dias de viagem, de Bissau para o Sal, do Sal para Mindelo, de Mindelo para Ponta Delgada e daqui para o mesmo cais da Rocha do Conde Óbidos, regresso a Lisboa, sei que tenho que acalmar as recordações, prometo a mim mesmo que não quero descurar as amizades feitas, mas sei perfeitamente que tudo vai mudar, desisti de voltar ao meu antigo emprego, fiz um contrato com o Ministério do Exército, darei recrutas em Mafra, serei colocado em Lisboa na Agência Militar, recomecei os estudos, gota a gota vou fazendo exames, tenho família, nasceu-me uma filha, restabeleci uma vida social mitigada, fazer exames é o mais importante.

Veio depois o 25 de abril, o país tem uma inflação superior a 30%, os governos provisórios são obrigados a tomar medidas que obriguem à contenção dessa inflação. É agora nesse serviço público que eu vou descobrir a política dos consumidores, tanto a nível profissional como na participação cívica. A Guiné parece estar cada vez mais longe, visito e recebo em casa os meus soldados gravemente sinistrados, escrevo e recebo mensagens, há trocas de fotografias, descubro que falar da guerra incomoda muita gente, aliás o Governo garrota toda e qualquer informação que revela a evolução a que chegou a guerra nos três teatros de operações, é facto que há as notícias necrológicas, as mensagens de Natal do soldado, as campanhas do Movimento Nacional Feminino, não se mostram as partidas e chegadas dos contingentes militares, a filosofia é de que toda aquela tropa está em missões de policiamento, existe terrorismo que vem de outros territórios, é tudo estratégia do comunismo. Claro que há famílias enlutadas, mas a guerra continua longe.

O grande abalo, o de 1961, parece ultrapassado. De 1973 para 1974 entramos numa maré de sobressaltos: qualquer coisa de muito grave aconteceu na Guiné, não se sabe muito bem o quê; uma guerra para os lados de Israel vai desencadear uma crise petrolífera, as consequências serão visíveis na sociedade portuguesa, todos os preços sobem; em fevereiro de 1974 o General Spínola publica um livro onde consta uma frase fatal, não há solução militar para aquela guerra, só solução política. E assim chegámos ao 25 de abril.



VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita

Trabalhei no Ministério da Economia, no Ministério do Comércio e Turismo e até no Ministério do Ambiente, estou ativo na tal política dos consumidores, só a tutela é que muda. Ora algo aconteceu em 1989 que leva a que dois funcionários do Instituto do Consumidor se desloquem à República da Guiné-Bissau para discutir da viabilidade de um protocolo na área da política dos consumidores. Em janeiro de 1990, regresso à minha Guiné. O ministro do Ambiente de então, reunira-se com os seus colegas da lusofonia para negociar uma posição comum relativamente a um acontecimento que iria ocorrer em 1992, a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. O ministro da Indústria e dos Recursos Naturais da Guiné-Bissau surpreendeu o ministro português quando lhe pediu um programa de recuperação na área da defesa do consumidor. O ministro português disse que sim, encarregou o Instituto do Consumidor das diligências necessárias.

Foi uma semana intensa de contactos, sentia-se a ver sinceridade e preocupação quando se expunham os motivos de pedido de protocolo, dando uma grande abrangência à defesa do consumidor. Tomou-se nota de tudo e prometeu-se elaborar um documento favorável ao que se pedia e enviá-lo ao ministro português. Mas o meu coração não descansava, senti uma enorme vontade de visitar o regulado do Cuor. Um cooperante com quem se almoçava na chamada Pensão Central, ou da Dona Berta, ofereceu-se para lá irmos num domingo. Como aconteceu. 20 anos depois entrei em Missirá, houve choro convulsivo, abracei muitos amigos, recebi inúmeras cartas com pedidos, reencontrei o meu guarda-costas a quem prometi que tudo faria para vir para Portugal. Como aconteceu.

Chegado a Lisboa, preparei um relatório da missão em concordância com a expetativa das autoridades guineenses quanto ao lançamento daas bases de uma política para consumidores, eles pediam intervenção legislativa e formativa na área alimentar (punha-se a necessidade de saber minimamente o que se importava) no combate ao esbanjamento dos recursos naturais, na criação de uma instituição onde se articulasse as intervenções a favor dos consumidores, em paralelo com a concertação dos programas das agências das Nações Unidas em projetos com impacto no consumo; reconhecia-se como tutela o Ministério de Recursos Naturais e da Indústria, da Guiné-Bissau, a entidade colaboradora seria o Ministério do Ambiente de Portugal. Passaram-se semanas e meses, até que em maio de 1991 o Ministro do Ambiente convocou-me para me dizer que tinha conversado com o seu homólogo da Guiné-Bissau e que ele insistia numa cooperação para uma estrutura muito maleável que ajudasse os consumidores a otimizar os seus recursos. O Ministro previa um protocolo envolvendo um pequeno financiamento do lado português, lera o meu relatório, nomeava-me para essa missão. E em pleno verão português e até às vésperas de Natal dediquei-me de alma e coração a fomentar alianças entre a administração, as agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais. Tive a satisfação de fazer uma série de programas para a televisão da Guiné-Bissau, o título era Um milhão de consumidores. Deu-se então uma cena caricata, já tinham sido emitidos seis programas e um dos diretores da referida televisão veio-me pedir que encontrasse um patrocinador, caí das nuvens, não era a mim que cabia tal missão, sugeri alguns nomes de empresas públicas, o dito diretor entendeu que não havia condições para continuar, intuí que ele não percebia que um cooperante estrangeiro não podia andar diretamente a angariar patrocinadores.

Chegou-se ao entendimento, e mesmo houve uma decisão presidencial, para se criar uma comissão interna e industrial, propunha-se uma verba para fazer obras em instalações dadas pelo Governo guineense, nomeava-se um secretário-geral remunerado e pagava-se ajudas de custo aos participantes das reuniões. Vim para Lisboa, trazia a promessa do Ministro guineense de que enviaria o seu colega português os termos da aceitação. Silêncio total, insisti por carta e por telefone. Aprendi amargamente quanto pesam os silêncios africanos.

Chegou, entretanto, a Lisboa o filho mais novo do régulo do Cuor, passei a receber assiduamente notícias de gente que eu tanto estimava. O diretor de uma revista destinada a estudos coloniais, Carlos Cruz Oliveira, pediu colaboração, publiquei alguns artigos, escritos à pressão, não sentia disponibilidade para intervir a fundo, tinha o propósito de esperar pela reforma para lançar mãos à empreitada. É nisto que recebo um telefonema de um antigo furriel de armas pesadas de uma unidade de Bambadinca, estávamos paredes meias na sede do batalhão, vinha-me pedir autorização para reproduzir no seu blog um texto que eu publicara numa revista científica online. Combinámos encontro no seu ganha-pão, a Escola Superior de Saúde, e ainda hoje estou para saber o que me levou, imprevistamente, a declarar-lhe de que ia publicar o meu diário da Guiné no blog. Trabalhei neles durante dois anos, foram publicados em 2008 e 2009, ano a ano, de 1968 a 1969 com o título "Na Terra dos Soncó", nome de família do regulo do Cuor, e de 1969 a 1970, com o título "O Tigre Vadio", nome da operação mais sangrenta em que participei.

Enquanto ia publicando no blog estes trechos, juntavam-se outras peças resultantes das informações que me eram dadas por gente que tinha estado no Cuor ou regiões próximas. Também antigos militares meus residentes em Portugal me prestavam informações, eram sinistrados de guerra ou fugitivos da repressão do PAIGC sobre os comandos guineenses. Um acontecimento dramático, a perda de uma filha, em 2009, deu-me ocasião de me envolver em projetos de bastante fôlego, um inventário da literatura da guerra colonial da Guiné e um romance envolvendo uma mulher nonagenária que tinha vivido na Guiné entre os anos de 1950 e o início da guerra, proporcionou-me um relato sobre uma Guiné colonial antes do desencadear da luta armada.

Lia no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné relatos de ex-combatentes que visitavam a Guiné ou que acompanhavam projetos de ajuda humanitária. Sabe-se lá que as saudades do Cuor e de Bambadinca não estavam a ser avivadas por esta escrita. E comecei discretamente a congeminar uma viagem, fazia perguntas soltas, diziam-me frequentemente não vás, aquilo está tudo uma miséria, o país entrou num ocaso, se acaso alguma vez foi um país, virás de lá traumatizado, ainda por cima não encontras instalações disponíveis, é tudo uma insegurança e sozinho, se estás mesmo com saudades viaja em grupo.

Fui então estabelecendo um plano, conversei com os meus amigos guineenses em Lisboa, consegui obter apoio logístico perto no Cuor, em Santa Helena, na outra margem do Geba, escrevi a um amigo muito querido a viver em Bambadinca, um sinistrado de guerra, de nome Fodé Dahaba para ver da possibilidade de me encontrar toda a rapaziada dos antigos caçadores nativos e dos dois pelotões de milícias, queria visitá-los, o meu propósito era ir despedir-me deles todos, agradecer-lhes a leal colaboração que me tinham dado, visitar os locais onde combatera, falar com antigos combatentes do PAIGC. Pedi mesmo ajuda junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau. E em novembro de 2010, ajoujado de sacos com livros e lembranças, com uma listagem de endereços, inclusivamente transportando um bom conjunto de encomendas de guineenses residentes em Portugal para guineenses residentes na Guiné-Bissau, apresentei-me no Aeroporto da Portela. A sonhar da viagem da reconciliação e sem qualquer ilusão quanto ao peso das emoções que me esperam, vai começar.


(continua)

_____________

Notas do editor:

Vd. post de 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28088: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1973 (89) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O Governador e Comandante-chefe partirá para férias e não regressa, é assunto que está bem tratado pelos investigadores. O novo Governador é um conceituado General, exerceu funções na governação e prestigiou-se em Angola, será ele que a 24 de abril escreverá ao Governo: "Chegámos à exaustão de meios", uma declaração de que os apaixonados pela tese de uma Guiné defensável fogem como o Diabo da Cruz. Não faltarão louvores, desde as irmãs missionárias, a militares como Carlos Fabião, militares do Batalhão de Comandos da Guiné, o Regedor de Bigene, por último o inspetor Fragoso Allas, um indefectível colaborador de Spínola; omitiram-se referências aos orçamentos extraordinários e outras matérias financeiras, quando se estuda a lista de iniciativas de desenvolvimento socioeconómico que a Guiné viveu nesse ano vem ao de cima a transferência de verbas e encargos a fundo perdido; Teixeira Pinto tornou-se cidade, e a promulgação de regulamentos foi uma constante, caso do regulamento para o abate de animais para consumo. Vamos agora para o Boletim Oficial de 1974 que em muito ultrapassa o 25 de abril e não nos podemos alhear que os primeiros boletins oficiais da Guiné Independente, há para ali referências de relevo para o estudo da nossa presença na Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1973 (89)


Mário Beja Santos

António de Spínola partirá da Guiné com o máximo de discrição, antes de partir para os seus tratamentos no Luso, haverá uma revoada de louvores. 1973 é, à semelhança do ano anterior, um ano ligado à educação. Daí a visita de Azeredo Perdigão, acompanhado da mulher; visitaram a Guiné muitos jornalistas, deu-se um acontecimento circense, a presença em Bissau e no interior da Província da Companhia de Circo de Sevilha; e em termos futebolísticos houve a visita do Boavista Futebol Clube.

No Boletim Oficial n.º 6, de 6 de fevereiro, são louvadas algumas irmãs missionárias. Pela Portaria n.º 6/73, a irmã Maria Josefina Augusta de Assis, da Congregação Franciscana da Imaculada Conceição, uma presença missionária do IV século, então a prestar serviço no Hospital Central de Bissau. Louvada pelos seus dotes de competência, dedicação, zelo, espírito de sacrifício e amor pelo próximo. Pela Portaria n.º 7/73, é louvada a irmã Maria Francisca de Jesus Mendes, da mesma ordem e a prestar serviço no mesmo hospital. Distingue-se assim o teor do louvor do anterior: “Alheia a fadigas ou dificuldades, possuidora de personalidade firme, revelando a maior competência profissional à qual alia excecionais qualidades de carinho e dedicação pelos doentes, a irmã constitui um exemplo para todo o pessoal do Hospital de Bissau.” Segue-se a Portaria n.º 8/73, reverte para a irmã Maria Josefina Augusta de Assis, o Governador da Província da Guiné concede-lhe a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito; e pela Portaria n.º 9/73, a irmã Maria Francisca de Jesus Neves recebe igualmente a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito.

No Boletim Oficial n.º 9, de 27 de fevereiro, louva-se o Coronel Engenheiro Francisco José de Sousa Freire, e dão-se a s seguintes razões: “Profundo conhecedor das necessidades mais prementes da mão-de-obra local e das possibilidades de apoio do Ministério das Corporações e dotado de elevadas qualidades intelectuais, espírito de organização e inultrapassável dedicação, bem como de alta competência técnica, o Coronel Engenheiro Sousa Freire ao ser encarregado pelo governo da Província de centralizar e coordenar todas as ações de Formação Profissional Acelerada ao nível provincial, correspondeu plenamente à missão de que foi incumbido, vencendo os muitos obstáculos que se levantam à concretização de uma iniciativa de características pioneiras.”

Vamos novamente ouvir falar da Esso Exploration Guiné Inc. No Boletim Oficial n.º 13, de 27 de março, publica-se a convocatória da Assembleia Geral para 12 de abril, aprovação do relatório, balanços e contas, a eleição do Conselho de Administração para o ano em curso, etc. etc.

Novo louvor, desta feita para o Major Carlos Fabião, vem no Boletim Oficial n.º 15, de 13 de abril, Suplemento, atenda-se ao texto do louvor constante na Portaria:
“No desempenho das funções de Comandante da Organização Provincial dos Voluntários da Defesa Civil da Guiné (o que nos remete para os pelotões de milícias e companhias de caçadores guineenses), demonstrou o Major de Infantaria Carlos Alberto Idães Soares Fabião extrema dedicação e insuperável eficiência.
O seu profundo conhecimento do ambiente local, adquirido ao longo de largos anos de serviço nesta Província e a aureola de prestígio que criou, mercê dos valorosos feitos em combate aqui praticados, a verticalidade da sua conduta e o seu impoluto carácter deram-lhe uma situação ímpar perante a sociedade civil.
Acompanhando o Governador em missões de grande responsabilidade e no desempenho de incumbências especiais junto das populações que se revestiam de transcendente delicadeza, teve o Major Fabião oportunidade de pôr em evidência os seus excepcionais atributos, a sua inultrapassável lealdade e o seu real mérito.”


Na Portaria subsequente foi lhe concedida a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito.

No Boletim Oficial n.º 16, de 17 de abril, pela Portaria n.º 24/73, tomam-se medidas para a prevenção e segurança de um contingente importante de condutores de veículos: “Verificando-se cada vez maior número de acidentes de viação com a intervenção de motociclos, ciclomotores e velocípedes de motor auxiliar em que muitos dos seus ocupantes têm perdido a vida; presumindo-se que, na maioria dos casos, as consequências mais graves de que se revestem tais acidentes se devem, possivelmente, ao facto desses indivíduos não circularem, nos referidos meios de transporte, protegidos de capacete, o Governador da Guiné determina que os condutores e passageiros dos motociclos com ou sem carro lateral, ciclomotores e velocípedes de motor auxiliar, devem obrigatoriamente proteger a cabeça com um capacete. A infração ao disposto neste artigo será punida com multa de 300$00.”

A Esso Exploration Guiné reaparece no Boletim Oficial n.º 19, de 8 de maio, trata-se de uma apostila ao contrato. Refere-se que em 23 de março desse ano, no Ministério do Ultramar e no gabinete do respetivo Ministro, outorgando em nome do Estado e em representação da Província da Guiné, e na outra parte, como segundo outorgante o Sr. Fernando Bráulio de Castro Neves, em representação da Esso Exploration Guiné Inc., sociedade por ações, com sede em Bissau, Guiné Portuguesa, celebraram a apostila ao contrato de 1966, alterando a área inicial da concessão, explicando o novo perímetro e acrescentando o seguinte parágrafo: “Os direitos conferidos incluíram os direitos de pesquisa e exploração dentro da zona contínua de 80 metros de largura contados a partir da linha de nível da máxima preia-mar na direção da terra.” Noutra cláusula diz-se que a Esso pagará ao Fundo de Fomento Mineiro Ultramarino, por cada ano contratual, a importância de 1.000 contos. Noutra cláusula a sociedade obriga-se a apresentar, para aprovação do Governo, programas anuais de trabalhos de prospeção e pesquisa.

Mas não ficamos por aqui quanto a referência à Esso, dela há novamente menção no Boletim Oficial n.º 21, de 22 de maio, insere o relatório e contas do Conselho de Administração e parecer do Conselho Fiscal relativos à gerência de 1972. Mas a Esso continua na berlinda. No Boletim Oficial n.º 22, de 29 de maio, temos o contrato da Esso Exploration Guiné, é bem longo, limito-me a dizer que a área inicial da concessão é de cerca de 9700 Km2 e abrange toda a porção da plataforma continental da Província da Guiné.

Temos agora no Boletim Oficial n.º 27, de 5 de julho, o Regulamento dos Congressos do Povo da Guiné, escreve-se nos considerandos que a experiência de quatro anos de Congressos do Povo se tem revelado um instrumento de comprovada utilidade. Estes congressos são definidos como assembleias representativas de todas as etnias da Província, destinadas essencialmente a institucionalizar a sua mais direta participação na Administração Pública e na definição das bases da Acção Governativa. Estabelece a organização dos congressos, quem são os congressistas, a estrutura das reuniões, constituição e atribuições das mesas, etc.

Teixeira Pinto, a populosa e progressiva vila de Canchungo, sede da circunscrição de Cacheu vai passar a ser cidade, o teor do preâmbulo é claramente encomiástico:
“Continuando sempre na esteira do progresso, a vila novel Teixeira Pinto, graças à sua privilegiada situação geográfica e labor da sua população e, consequentemente, à real e efetiva valorização social e económica da região foi instituído pelo Conselho do municipalismo, criando-se a Comissão Municipal Teixeira Pinto.
Porém, foi do ano de 1969 a esta parte, que a vila Teixeira Pinto, sacudida por um evidente e verdadeiro surto de progresso, consequente do plano de promoção socioeconómica do ‘Chão Manjaco’, realidade bem palpável que se traduz em inúmeras obras de vulto e largo alcance, especialmente no concernente à promoção das populações e elevação do seu nível de vida, bem patente dos setores agropecuário, educacional, sanitário e outros.”

Dito isto, a Vila Teixeira Pinto, dotada de todos os serviços públicos, apanágio dos grandes agregados populacionais, atingiu um nível que justifica e lhe dão jus à sua elevação a cidade, e o dia da Cidade de Teixeira Pinto passa a ser 24 de julho. Pela Portaria n.º 47/73, do mesmo Suplemento ao Boletim Oficial n.º 29, é aprovado o floral da Cidade Teixeira Pinto, descreve-se a área da cidade, os subúrbios e os limites.

O Boletim Oficial nº 33, de 14 de agosto, traz uma Portaria onde se noticia a concessão ao alferes Bacar Djassi a medalha de cobre de dedicação e mérito; este alferes graduado do Batalhão de Comandos da Guiné fora chamado a desempenhar funções de relevante importância no enquadramento da Força Africana.

No Boletim Oficial nº 34, de 21 de agosto, publica-se o Decreto Provincial nº 10/73, é aprovado o Regulamento para o abate de animais para consumo, inspeção e trânsito de carnes verdes. Diz-se no preâmbulo que constitui perigo para a saúde pública o consumo de carnes provenientes de animais abatidos em locais higienicamente deficientes e sem inspeção sanitária. Este Regulamento detalha matérias como o controlo sanitário, o trânsito de carnes verdes, o que são matadouros, etc. etc.

No Boletim Oficial n.º 41, de 9 de outubro, o Governador Bettencourt Rodrigues, por Portaria, louva o Regedor Bigene “porque durante o difícil período que Bigene atravessou no passado mês de maio, em que por imperiosa necessidade houve redução dos efetivos militares que foram deslocados para outra zona, estando atento ao perigo que rondava Bigene, deu provas da sua valentia, coragem, portuguesismo e sangue-frio, quando com o seu grupo armado colaborou ativamente na defesa da povoação, merecendo a confiança das populações e demonstrando ser um chefe digno de respeito e admiração por todos, foi-lhe concedida a medalha de cobre por dedicação e mérito.”

Finalmente, no Boletim Oficial n.º 51, de 18 de novembro, por via da Direção-Geral da Administração Civil, do Ministério do Ultramar, Marcello Caetano e de Baltazar Rebelo de Sousa assinam o louvor ao Inspetor-adjunto da Direção-Geral de Segurança António Luís Fragoso Allas, exercendo desde 1971 as funções de Chefe da Subdelegação da DGS na Guiné, revelou no seu desempenho alta eficácia e inexcedível dedicação. Foi-lhe concedida a medalha de prata de serviços distintos ou relevantes no Ultramar.


Em 29 de setembro de 1973 chega o último governador da Guiné nomeado pelo Estado Novo
Olaria indígena em Elia
Salinas da ilha de Bubaque
As primeiras missionárias franciscanas do Imaculado Coração de Maria na Guiné
Desenho na parede de uma casa Biafada

Estas imagens foram extraídas dos dois números publicados em 1973 do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 20 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28040: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1972 (88) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28069: Efemérides (395): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte VI: CCAÇ 2591/CCAç 13, "Os Leões Negros" (1969/71)

Guiné > Região do Oio > Binar > Nhamate > 1970 > CCAÇ 13 > Spínola de visita ao reordenamento de Nhamate, cumprimenta o cap mil inf Álvaro Alberto Durão, o primeiro capitão da CCAÇ 13 (1969/71).

Foto do álbum de Adriano Silva, ex-fur mil, CCaç 13 (a companhia passou por Bissau, Bolama, Bissorã, Encheia, Binar e Biambi;foi substituída, em Binar, em finais de março de 1970, pela CCAÇ 2658, que terá mais tarde, numa coluna de Nhamate a Binar, 8 mortos.

Foto: Cortesia de Carlos Fortunato, ex-fur mil,  CCAÇ 13 (1969/71), o melhor sítio na Net sobre companhias individuais que estuveram no CTIG > Guerra na Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13, Binar, 1970


1. Uma das companhias que seguiu connosco (CCAÇ 2590 /CCAÇ 12) no T/T Niassa, com destino à Guiné,  em 24 de maio de 1969 (fez agora 57 anos), foi a CCAÇ 2591 (será extinta em 18 de janeiro de 1970, dando origem à CCAÇ 13). 

Infelizmente temos escassas referências à CCAÇ 2591.  Alguma informação estava disponível no sítio criado e administrado pelo nosso amigo e camarada Carlos Fortunato:  CCAÇ 13 -Os Leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71), já há muito descontinuado. Felizmente foi recuperado, como arquivo morto, podendo ser consultado aqui, no  Arquivo.pt:

https://arquivo.pt/wayback/20100531194155/http://leoesnegros.com.sapo.pt/index.html

Tal como a CART 11, CCAÇ 12, CCAÇ 14, etc., esta subunidade passou a fazer parte da "nova força africana", tão cara ao gen Spínola.


2. Comecemos pelas fichas de unidade das CCAÇ 2591 e CCAÇ 13


Carlos Fortunato
 : tem cerca
de uma centena de referências


Companhia de Caçadores n.º 2591


Identificação: CCaç. 2591

Unidade Mob: RI 16, Évora

Cmdt: Cap Mil Art Álvaro Alberto Durão

Divisa: "Conduta brava e em tudo distinta"

Partida: Embarque em 24Mai69;  desembarque em 30Mai69 | Extinção em l8Jan70

Síntese da Actividade Operacional

A subunidade foi constituída com quadros e especialistas metropolitanos e enquadrou pessoal natural da Guiné, da etnia Balanta, tendo efectuado a 2ª fase da instrução de formação no CIM, em Bolama, 
 e sido utilizado em patrulhamentos, reconhecimentos e contactos com as populações da região.

Em 05Nov69, foi colocado em Bissorã, como força de intervenção e reserva do BCaç 2861, tendo sido empregada em várias acções, patrulhamentos e emboscadas nas regiões de Namedão, Cate e Camã.

Em Jan70, destacou dois pelotões para Binar, a fim de efectuar a segurança e protecção dos trabalhos da estrada Binar-Nhamate.

Em 14Jan70, a subunidade foi colocada em Binar, a fim de colaborar nos trabalhos de recuperação das populações da área da península de Encherte e na instalação e autodefesa dos reordenamentos.

Em 18Jan70, a subunidade passou a designar-se CCaç 13, sendo subunidade de guarnição normal, a partir daquela data.

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte: livro Resenha histórico militar das Campanhas de África, 7º Volume, Fichas das Unidades, Tomo II - Guiné


Companhia de Caçadores n.º 13


Carlos Prata, membro da Tabanca Grande
desde  24/11/2011

Identificação: CCaç 13

Cmdts:
  • Cap Mil Inf Álvaro Alberto Durão
  • Alf Mil Inf (Ranger) Adelino Manuel de Almeida Pimenta Correia
  • Cap Mil Inf João Carlos Carvalho de Castro
  • Cap Mil Cav (Ranger) Carlos Matos de Oliveira - 06/72 a 03/74
  • Cap Cav Carlos Alberto Duarte Prata - 03/74 a 04/74(?)
  • Cap Mil Inf Humberto Manuel Teixeira Gonçalves de Figueiredo - 05/74(?) a 08/74
Início: 18Jan70 (por alteração da anterior designação de CCaç 2591) | Extinção: 20Ago74


Síntese da Actividade Operacional




Em 18Jan70, foi criada por alteração da sua designação anterior, integrando os quadros e praças especialistas metropolitanos e pessoal natural da Guiné, predominantemente da etnia Balanta, que constituíam, anteriormente, a CCac 2591.

Continuou instalada em Binar, então orientada para a segurança e protecção dos trabalhos dos reordenamentos da península do Enxerte, tendo estabelecido o seu estacionamento em Nhamate, a partir de 02Fev70, com os seus pelotões disseminados por Manga, Encherte e Unche.

Em 14Mar70, substituída no subsector de Nhamate pela CCaç 2658, foi colocada em Bíambe, passando então à dependência directa do CAOP l como subunidade de intervenção e reserva daquele comando e, a partir de 30Mai70, do BCaç 2861., tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Encherte, Queré, Chaté-Inquida e Mores, entre outras.

Em 12Jun70, foi deslocada para Bissorã, a fim de assumir a responsabilidade do respectivo subsector, em. substituição da CCaç 2.444, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2861 e sucessivamente do BCaç 2927, do BCaç 4610/72 e do BCav 8320/73.

Em 20Ago74, foi desactivada e extinta.

Obs - Tem História da Unidade a partir de OlMar72 (Caixa n." 128 - 2.ª Div/ 4ª Sec,
do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 633

o_________________


Nota do editor LG:

sábado, 30 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28060: Efemérides (394): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte V: Menos de dois meses depois, a guerra acaba para o Sori Jau, o Braima Bá e o Udi Baldé, os primeiros feridos graves da CCAÇ 2590/CCAÇ12, em Madina Xaquili


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Junho de 1969 > CCAÇ 2590 (futura  CCAÇ 12) > O 2º Grupo de Combate, ainda em período de instrução da especialidade no CIM de Contuboel , 
que pertencia ao sector L2 (Bafatá). O Braima Bá e o Udi Baldé estão aqui na foto, mas não consigo identificá-los.

O 2º Gr Comb era comandado pelo alf mil at inf António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018),  que aparece na aqui fotografia, na primeira fila, ajoelhado, olhando no sentido oposto ao do fotógrafo. Atrás dele o soldado Arménio, o nosso "Campanhã", taxista no Porto (era cabo, antes de embarcar mas foi despromovido, por ter apanhado uma porrada, por participação do 1º srgt cav Fragata).

De pé, na terceira fila, os fur mil at inf Tony Levezinho (com quem passei ontem "um dia para mais tarde recordar", na Tabanca da Ponta de Sagres - Martinal)  e o OE / Ranger Humberto Reis. Na segunda fila, meio agachados, os 1ºs cabos Branco e Alves (de alcunha o "Alfredo",  já falecido).

Um grupo de combate da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) era constituído por 30 homens. Havia 4 Gr Comb. Cada grupo de combate, comandado por um alferes, tinha três secções (1 furriel e 1 cabo e oito soldados, estes africanos).

Cada secção era especializada. Havia a secção dos LGFog, com o respectivo apontador e municiador (1 LGFog 8.9, 1 LGFog 3.7). Havia a secção do Morteiro 60 (apontador e municiador ). E havia ainda a secção da Metralhadora Ligeira HK 21 (apontador e municiador). Cada combatente estava equipado com a espingarda automática G-3 e granadas defensivas. Em geral havia ainda dois apontadores de dilagrama (neste caso, 1ª e 3ª secção). 

Fotos (e legendas): © António Levezinho (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. A presença de Spínola, ainda brigadeiro, na cerimónia de juramento da bandeira dos soldados da PU (província ultramarina) da Guiné, não deixa de ser significativa do seu empenho pessoal no projecto de africanização ou, melhor, guineização da guerra. 

As futuras CART 11 e CAÇ 12, bem como CCAÇ 13 e CCAÇ 14, são uma das primeiras unidades da "nova força africana", por quem o  novo governador e comandante-chefe tinha muito carinho e orgulho, e de quem esperava muito.

No caso da CCAÇ 259o / CAÇ 12, Spínola visitar-nos-ia várias vezes, incluindo na nossa semana de campo, em Contuboel. Tal gesto tinha um especial significado para as nossas praças africanas e para alguns de nós, quadros metropolitanos.

Confesso que nunca simpatizei com a personagem (embora fosse o com-chefe). Digo-o, sem com isso querer escamotear ou ignorar o seu papel nas mudanças operadas em Portugal com o 25 de Abril de 1974, nem muito menos ofender os seus admiradores. Para todos os efeitos, foi (e é)  uma figura de referência nacional, e como tal a sua memória deve ser respeitada. Competirá aos historiadores definir o seu papel da nossa história.

2. Na época em que demos a instrução de especialidade às nossas tropas africanas (de 2 de junho a 17 de julho de 1969), Contuboel era, ainda era, um oásis de paz. Lá ainda se podia "brincar às guerras" num raio de alguns quilómetros, no meio de uma vegetação luxuriante. Lembro-me de haver lá uma serração de um tuga, o que indiciava abundância de madeiras exóticas. Tomávamos banhos no rio (Geba), andávamos de canoa, íamos às "pontas" comprar frutas e legumes, passeávamos pelas belíssimas tabancas, plenas de gente jovem, alegre e ruidosa. Não voltei a encontrar gente tão feliz!

Ao longo dessas curtas e rápidas semanas aprendemos a conviver com os nossos soldados fulas (e alguns futa-fulas, dois mandingas e um mancanha, num total de menos de uma centena de homens). 

A maior parte não falava o português, não estavam habituados a andar calçados, não faziam a mínima ideia onde ficava Portugal,  eram "desarranchados"... Isto pode dar uma ideia do grau ou do esforço penetração da nossa cultura, no leste da Guiné, depois de "cinco séculos de missão civilizadora", escrevia eu com ironia no meu diário.

Nestas condições, a instrução de especialidade (bem como a IAO), como se deve imaginar, não foi nada famosa. Estávamos a 4 mil km do nosso ponto de partida, o Campo Militar de Santa Margarida, onde, ainda bem me lembro, também brincámos às guerras, e fizemos os nosso "roncos" no essencial, assalto aos "acampamentos do IN a fingir", e pilhagem de tudo o que era bebível e comestível.

Em plena época das chuvas, ainda em fase de adaptação ao terrível clima da Guiné, hostil a qualquer "tuga", em farda nº 3 , espingarda automática G3 ao ombro e cartuchos de salva nos carregadores (à cautela, não fosse o diabo tecê-las, os graduados, tugas, levavam alguns carregadores com bala real)... Estão a imaginar esta "guerra-de-faz-de-conta" ?!

Era ainda a "dolce vita" da Guiné (como eu escrevia no meu diário), aqui e ali perturbada pelas histórias (reais) que a velhice nos contava, a nós periquitos, de Madina do Boé,  de Gandembel, e Guileje,  "lá longe no sul"...ou mais perto, no sector L1 (Bambadinca) onde decorrera a Op Lança Afiada, três meses antes (março de 1969).

A companhia dos "Lacraus" aquartelada em Contuboel, do Abílio Duarte, Valdemar Queiroz, Renato Monteiro, etc. (CART 2479, futura CART 11) já havia dado a recruta às nossas praças, em março e abril de 1975. 


3. A 18 de Julho de 1969 , a futura CCAÇ 12 (que, por enquanto, ainda era a CCAÇ 2590) é dada como operacional. Atendendo à origem étnico-geográfica das suas praças do recrutamento local, por sugestão do Com-Chefe, ficamos radicados em chão fula, às ordens do BCAÇ 2852 (1968/70), com sede em Bambadinca.

A 21 de julho, menos de dois meses depois da nossa chegada à Guiné, quando ainda nem sequer tinham sido distribuídos os camuflados à nossa tropa africana, temos a nossa primeira "saída para o mato" , seguida do nosso "baptismo de fogo", no sector L1...

De facto, em Madina Xaquili, temos o nosso primeiro ferido grave, evacuado para Bissau, a 24; e a 28, mais dois feridos graves, numa ataque nocturno àquela aldeia fula que será definitivamente abandonada pela sua população e, mais tarde (em outubro), pelas NT.

Para três dos nossos soldados africanos, a guerra havia acabado, mal começara: ficarão definitivamente inoperacionais e/ou incapacitados, não sem que um deles tenha de passar, primeiro, por outro inferno, o do Hospital Militar da Estrela, em Lisboa...

Pergunto-me, com amargura, o que será feito de vocês três, camaradas guineenses, 57 anos depois  ?  O mais provável é que já tenha morrido todos:

  • o Sori Jau (3º Gr Combate, evacuado para o HM 241); 
  • o Braima Bá (inoperacional, do 2º Gr Com);
  • o Udi Baldé (evacuado para Lisboa e retornado a casa com 35% de incapacidade física), também do 2º Gr Comb ?

Madina Xaquili é uma história para voltar a recordar.  Ficava enter o rio Corubal e Dulombi, no sub-sector de Galomaro que foi depois transformado em Sector L5 da Zona Leste.  

(Continua)

__________________

Nota do editor LG:

Postes anteriores da série >