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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
O comércio negreiro despertou uma grande apetência a um conjunto de países como a Espanha, a França, a Inglaterra e a Holanda. Ver-se-á neste texto como tais países procuraram implantar-se pelas Américas, a importância que irão adquirir Barbados, o sonho holandês de criar a Companhia das Índias Ocidentais para construir um sistema comercial monopolista no hemisfério ocidental, um tanto à imagem do que já tinha conseguido alcançar na Ásia; temos a América britânica que formou a Companhia de Aventureiros Reais em África, o ponto de partida foi encontrar uma forma de se impor no comércio do ouro na África Ocidental, seguiu-se o objetivo de fornecer escravos a Barbados. O autor dá-nos um quadro das lutas entre estas potências e enfatiza o enfraquecimento das posições portuguesas nos tempos da União Ibérica; e seguidamente vamos assistir a novas disputas, já não é só o comércio açucareiro o grande objetivo, surgiram o algodão e os metais preciosos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 5

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Já se falou da importância da fortaleza de S. Jorge da Mina, era um posto avançado de onde chegavam muitos quilos de ouro. O tesouro do reino era conhecido nos primeiros tempos como Casa da Guiné, título que foi substituído por Casa da Mina. Como escreve o autor, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos 20 anos do século XV. Em 1506, Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa, traduziram-se num dos sinais da modernidade e de um outro relacionamento entre Portugal e a demais Europa e a multiplicidade de contactos com povos africanos. A importância de Elmina irá desviar-se a favor do tráfico negreiro.

Como escreve Howard French, a escravatura era uma prática antiga embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar. Aproveitando os bons contactos, os portugueses encontraram uma ótima recensão do Benim. Um escravo vendido aos portugueses em 1500 teria rendido entre 12 e 15 manilhas; a arte beninense irá projetar a imagem de um português com os seus longos cabelos e barbas e narizes exageradamente pontiagudos. Em Elmina clamava-se por mais escravos, a coroa portuguesa enviou mais navios; mas por volta de 1514, o Benim começou a restringir o comércio de escravos, teve que se fechar aa feitoria e procurar novos circuitos. Escreve o autor:
“Usando uma plataforma de lançamento como Cabo Verde, Portugal percebeu que se poderia operar um comércio lucrativo de escravos nas zonas costeiras próximas do continente. Dentro deste novo circuito, São Tomé ganhou importância na produção de açúcar. Começou-se a olhar para o Congo com outros olhos, os líderes do Congo queriam cooperar politicamente com os portugueses – estava aberta uma nova rota que podia passar por São Tomé, Elmina e Atlântico sul".


Ao nível da produção de açúcar, São Tomé ganhou a liderança da produção, substituindo a ilha da Madeira, tornou-se uma colónia de escravos, depois foi ultrapassada pelo Brasil açucareiro. Nas Caraíbas foi crescendo a agricultura esclavagista, caso de Barbados. A América do Norte recebeu os seus primeiros negros na Carolina do Sul. E o autor dá-nos uma interpretação para o nascimento do crioulo. Esta língua constituiu-se como um compósito do que era falado pelos europeus e africanos, primeiramente nas feitorias onde se negociavam escravos. Formou-se o crioulo em Cabo Verde, tal como no Senegal ou em São Tomé. O crioulo vai também ser a língua veicular inicialmente no Novo Mundo entre os escravos. “Mais do que qualquer outra coisa, foram estes contactos e a consequente fusão, ou mistura, cultural, racial, social, económica, através de deslocações, uniões e trauma, que fizeram das Américas um verdadeiro Novo Mundo.” Obviamente que todos estes acentos se irão diluindo com a hegemonia das línguas predominantes, o inglês e o espanhol.

Todo o novo circuito comercial esclavagista vai ser um poderoso combate entre potências em todo o Atlântico Sul, chegando às Caraíbas, vão entrar em cena ingleses, franceses, holandeses e espanhóis, todos querem plantar cana-de-açúcar, mais tarde algodão, cada Governo estabelece a tua estratégia para se apoderar no território. O autor dá-nos o quadro das lutas entre os portugueses e os holandeses no Brasil e em África; os holandeses sonham em ter um predomínio tanto nas Índias Ocidentais e Orientais. A seguir à Restauração, a Coroa portuguesa deu importância primordial à recuperação de São Tomé e Luanda, era fundamental o escravo angolano para que o Brasil fosse uma potência açucareira.


Há que ter em atenção o que acontecera em termos demográficos no Brasil. Novamente a palavra ao autor: “A chegada dos caçadores de fortunas, soldados, comerciantes e colonos da Península ibérica desencadeou um período de morte maciça entre os povos nativos do Brasil. Para os portugueses, a população indígena tinha inicialmente parecido quase que inesgotável. Contudo, as doenças transmitidas pelos recém-chegados europeus causaram uma rotação espantosamente elevada nas plantações de açúcar devido ao aumento das taxas de mortalidade entre os escravos indígenas e os trabalhadores assalariados.” Foram epidemias devastadoras, uma longa lista de doenças que incluíam varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, cólera, escarlatina e gripe; até a constipação, recém-chegada à América do Sul abordo dos países europeus, era mortal.

Em suma, registou-se um declínio dramático da população nativa, houve que a substituir por escravos. Esta decisão política foi crucial: Portugal calculou que um Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. O período filipino em Portugal (1580-1640), como já foi sublinhado, foi tremendamente ruinoso para o Império Português: Portugal perdeu Elmina e Luanda; no Oriente perdeu Malaca, Colombo, portos essenciais na Índia no comércio das especiarias. Seguir-se-ão com a Restauração tremendas guerras no Brasil e Angola, no Oriente não foi nada parecido, perderam-se irremediavelmente posições outrora estratégicas.

Na continuação, o autor dá-nos o quadro do comércio negreiro em territórios conquistados pela Espanha. “No século XVI aproximadamente 277.000 africanos foram levados acorrentados através do Atlântico, sendo que quase 90 porcento deles foram para os territórios americanos recentemente conquistados por Espanha, liderados por Cartagena, Nova Espanha e Vera Cruz. Ao longo do seu extenso percurso, este tráfico humano traria cerca de 2,07 milhões de pessoas para as Américas Espanholas, quer por embarque direto através do Atlântico, quer através de um comércio interamericano intenso, traficado a partir de lugares como a Curaçau holandesa ou a Jamaica inglesa. Isto fez das Américas Espanholas a segunda zona mais importante de migração africana permanente e forçada, depois do Brasil.”

Vamos dar continuidade ao trabalho de Howard W. French falando da corrida aos escravos.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post anterior de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026) | António Carvalho (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O nosso amigo e camarada António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá",  vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começou em 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar. 

Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor.  Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.

Local, data e hora:

Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00

Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica). 

 Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)

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Introdução

Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.

O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.

Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.

Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.

Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.

Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.

O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.

No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.

Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.

António Carvalho

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
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(Revisão / fixação de texto: LG)

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Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)


Foto nº 1


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Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.


1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):


Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.

A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.

O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.

Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.

Obrigado por fazerem parte deste momento especial.



2. Texto que mandei ao António para ser lido na sessão de apresentação do seu romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: eVida, 2026), que se realizou ontem, à tarde, na quinta da Fundação Hermínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar.

António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.

E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).

António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.

Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".

Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:

(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;

(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;

(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...

Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.

Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...

Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.

Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.

O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.

Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.

É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.

Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.

Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.

A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.

De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.

O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.

Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.

O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.

O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.

Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.

Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.

Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.

Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.

O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.

O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.

Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
 
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);

Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);

Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.

O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.

"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.

Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:

  • Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
  • Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
  • E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).

Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).

O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.

Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.

Não é um  "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.

O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.

António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.

Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.

O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.

Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.

Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.

Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.

Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.

Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...

Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.

Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.

A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.

Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.

O autor não fala como sociólogo, antropólogo, psicólogo ou historiador,  revela, isso sim, uma grande sensibilidade sociocultural e um conhecimento profundo, empírico, do mundo rural português da primeira metade do século XX: os trabalhos agrícolas, a navegação no Douro, o comércio das lenhas e do carvão, a emigração para o Brasil, as formas de falar, de trabalhar, de namorar, de casar, de negociar, de
rezar e até de morrer.

Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.

Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.

Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.

Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.

Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.

Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.

Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.

Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.

Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.

Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.

E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.

Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.

É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.

Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu,  a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.

Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
  • o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
  •  a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
  • a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
  • o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.

É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.

Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:

(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.

Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)

Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
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oduto "gourmet"

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28112: Tabanca da Diáspora Lusófona (40): quantos portugueses e lusodescendentes há no mundo (e em especial no "Novo Mundo") ? E qual o universos dos lusófonos ? Teremos mais de 30 milhões de portugueses e lusodescententes e c. 3 centenas de milhões de lusófonos - Parte I









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Vilma e João (2018)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. João e Vilma, desta vez consegui fintar os "filtros" do ChatGPT, a IA americana que é tão ciosa da vossa privacidade... Disse-lhe: "Faz-me lá um 'boneco' ('cartoon', bem humorado), tendo como cenário a Tabanca da Diáspora Lusófona (que pertence ao universo da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas).... Tem sede (simbólica) em Queens, Nova Iorque... O régulo é o conhecido luso-americano João Crisóstomo, figura pública, ativista social, etc., secretariado pela luso-eslovena-americana Vilma Kracun... 

"Bom, a Tabanca  devia estar cheia, a abarrotar... Mas não, são só  por enquanto meia dúzia de bravos camaradas, de ascendência portuguesa, dispersos, pelo 'Novo Mundo' (Canadá, EUA, Brasil...), África, Ásia, Austrália... E, claro,  Europa, o "Velho Mundo" (por excelência), que se está a tornar cada mais xenófobo e racista, para desventura nossa"... 

EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo, na Parada alusiva ao Dia de Portugal, em Mineola, NY, 10 de junho de 2018. A Vilma é de origem eslovena, naturalizada americana, portuguesa de coração.



 O régulo João Crisóstomo  muito tem feito, de megafone e telefone em punho, para convocar as "ovelhas tresmalhadas deste grande rebanho" (sem ofensa para ninguém, afinal, somos todos do reino "animal", da classe dos "mamíferos", com lã ou sem lã, antes de sermos "primatas" (ordem) e depois "humanos" (género Homo, espécie H. sapiens).

Diáspora lusófona,  dizes tu ?!... O Portugal europeu representa hoje uma fração muito pequena (pouco mais de 3%) do universo global de "quem sente, pensa e fala em português", da luso-guineense Tita Pipoka ao escritor moçambicano Mia Couto (que ainda não ganhou o Prémio Nobel da Literatura só porque é...africano branco, isto é, aos olhos dos suecos tem o pecado original de ser filho de... colonialistas).

A nossa língua há muito que deixou de nos "pertencer", a nós, portugueses europeus (pese embora alguns chauvinistas, puristas, colonialistas, supremacistas e outros "istas", que sobraram dos escombros do "império", e que se consideram "donos e senhores da língua portuguesa"...).  

Entendamo-nos, e sem querer ferir as suscetibilidades, muito menos os "pergaminhos" de ninguém: o português há muito que não é  "exclusivamente europeu",   tornou-se um idioma verdadeiramente pluricontinental, atlântico, global...A culpa foi dos que não deram ouvidos ao "velho do Restelo" (*). 

2. Para quem não sabe, o português é a língua oficial de 9 países espalhados por quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. E é falado em todos os continentes, incluindo o Círculo Polar Ártico (pelo Zé Belo e as suas renas).
Estes países formam a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
  • Europa: Portugal
  • América: Brasil
  • África: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe
  • Ásia: Timor-Leste.
Além destes países, o português também possui o estatuto de língua oficial na Região Administrativa Especial de Macau, na China. 
 Atualmente, estima-se que existam cerca de 290 a 300 milhões de lusófonos em todo o mundo. É a quarta língua materna mais falada no planeta (atrás do mandarim, do inglês e do espanhol) e a mais falada no Hemisfério Sul.
Mas antes de apresentarmos o retrato estatístico atualizado e o "mapa" desta nossa vasta pátria geopolítica e cultural, respondamos à pergunta: 

(i) quantos portugueses e descendentes de portugueses há no mundo, e nomeadamente no "Novo Mundo" (Brasil, Canadá, EUA, Venezuela, etc.)? Claro que nem todos falam o português... 

(ii) a outra pergunta é: quantos lusófonos há no mundo ? 

Com a ajuda de 3 ferramentas de IA e outras fontes disponíveis na Net (Wikipedia, Observatório da Emigração, etc.) , vamos tentar responder, aproximadamente,  a estas duas perguntas, suscitadas  em parte pelas imagens que nos chegam, pela televisão (que eu não vejo, só espreito), por estes dias em que está a decorrer o Campeonato do Mundo de Futebol (11 de junho - 19 de julho) no "Novo Mundo" (EUA, Canadá e México). 

Para teres teres informação mais detalhada, camarada, consulta o Observatório da Emigração  (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) | ISCTE | Instituto Universitário de Lisboa)

3. Diz o ChatGPT, que "é impossível dar um número exato, porque depende muito da definição de 'descendente de portugueses'. Se contarmos apenas filhos e netos de emigrantes recentes, o total é relativamente reduzido; se incluirmos pessoas com qualquer ascendência portuguesa, especialmente no Brasil, os valores tornam-se enormes."

E faz a seguinte estimativa  estimativa aproximada:
  • Brasil: entre 80 e mais de 150 milhões de pessoas terão alguma ascendência portuguesa, dependendo dos critérios utilizados;
  • muitos historiadores consideram que a esmagadora maioria da população brasileira possui pelo menos alguma herança portuguesa devido aos séculos de colonização e miscigenação;
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 a 1,5 milhões de pessoas identificam-se como portuguesas ou luso-descendentes;
  • Canadá: aproximadamente 500 mil a 600 mil luso-descendentes;
  • Venezuela: as estimativas variam bastante, mas apontam para algumas centenas de milhares de pessoas de origem portuguesa.

Conclusão do ChatGPT (que dá importância ao critério da ancestralidade): no conjunto das Américas ("Novo Mundo"), "uma estimativa prudente situa o número de portugueses e descendentes de portugueses em mais de 85 milhões de pessoas, sendo que o Brasil representa de longe a maior parcela. Dependendo da definição de “descendente”, esse total pode ser significativamente superior".

Desde quando existe esta presença, perguntamos nós?

Resposta da ferramenta de IA: 

A presença portuguesa na América remonta ao início do século XVI:

1500: chegada da expedição de Pedro Álvares Cabral ao território que viria a ser o Brasil.

  • Séc. XVI a XVIII: colonização intensa do Brasil, com sucessivas vagas de povoadores portugueses vindos do continente, dos Açores e da Madeira.
  • Séc. XVIII: o ciclo do ouro em Minas Gerais atraiu dezenas de milhares de emigrantes portugueses.
  • Séc. XIX e XX: grandes vagas migratórias dirigiram-se não só ao Brasil, mas também aos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Argentina e Uruguai, impulsionadas por razões económicas e sociais.

Assim, "a presença portuguesa na América tem mais de 500 anos de história, e a sua influência demográfica e cultural é particularmente marcante no Brasil, onde moldou profundamente a língua, as instituições e a composição da população". 

4. O Gemini/Google é mais restritivo na estimativa, mas confirma ou complementa a informação anterior, baseando-se sobretudo nos censos e outras fontes demográficas:

A presença portuguesa nas Américas é vasta, profunda e recua aos primórdios da própria chegada dos europeus ao "Novo Mundo". Se contabilizarmos tanto os cidadãos nascidos em Portugal (emigrantes de primeira geração) como os seus descendentes diretos e indiretos (várias gerações que mantêm ou declaram essa ancestralidade), os números variam significativamente dependendo do critério estatístico e do país.

Estima-se que existam hoje mais de 7,5 milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo continente americano, com o Brasil, os Estados Unidos e o Canadá a concentrarem a esmagadora maioria.

Distribuição Atual nas Américas (estimativas)

  • Brasil (aproximadamente 5 milhões)

O Brasil é o maior reduto da lusofonia e da diáspora no mundo.

Nacionais e descendentes diretos: estima-se em cerca de 5 milhões o número de pessoas que são cidadãos portugueses ou descendentes até à 3ª geração.

Ancestralidade geral: se recuarmos mais no tempo, a esmagadora maioria da população brasileira (particularmente nos estados do Sudeste e Sul) possui algum grau de ascendência portuguesa profunda, embora muitos já não se identifiquem estatisticamente como "lusodescendentes", mas sim puramente como brasileiros.

  • Estados Unidos (c. 1,45 milhões)

Segundo os dados consolidados do Censo norte-americano, existem cerca de 1,45 milhões de cidadãos que declaram formalmente a sua ancestralidade portuguesa ("Portuguese Americans").

Distribuição: A maior comunidade em números absolutos reside na Califórnia (mais de 300 mil), seguida de perto por Massachusetts (cerca de 265 mil) e pela Flórida (cerca de 90 mil). Em termos de densidade, o pequeno estado de Rhode Island lidera, onde quase 7% a 8% da população tem origens lusas.

  • Canadá (c. 450 mil a 480 mil)

Uma comunidade muito sólida, concentrada maioritariamente na província do Ontário (sobretudo em Toronto) e no Quebeque (Montreal). A grande maioria tem raízes profundas no arquipélago dos Açores.

  • Venezuela e resto da América Latina (Cerca de 400 mil a 500 mil)

A Venezuela acolheu uma das maiores vagas de emigração portuguesa na segunda metade do século XX (sobretudo oriunda da ilha da Madeira). Embora a crise política e económica do país tenha levado muitos a regressar ou a reemigrar, estima-se que a comunidade (entre cidadãos e lusodescendentes) ainda ronde as 300.000 a 400.000 pessoas.

Há ainda núcleos históricos de dimensão relevante na Argentina (cerca de 40.000) e no Chile.

Desde quando? (As vagas históricas da migração transatlântica)

A cronologia da fixação portuguesa nas Américas divide-se em momentos muito distintos:

  • Séc. XVI:  a fixação pioneira

No Brasil: começa imediatamente após a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, intensificando-se a partir de 1530 com a criação das Capitanias Hereditárias e a necessidade de povoar o território face às ameaças francesas e holandesas.

Na América do Norte: embora navegadores como João Rodrigues Cabrilho tenham explorado a costa da Califórnia ao serviço de Espanha em 1542, a fixação foi residual nesta época.

  • Séc. XVII e XVIII: o ouro e as primeiras minorias

Brasil: o século XVIII (com o ciclo do ouro em Minas Gerais) provocou a primeira grande vaga migratória em massa de Portugal para o Brasil. Cerca de 600 mil portugueses, sobretudo do Minho e do Norte, cruzaram o Atlântico.

América do Norte: surge a fixação de pequenas comunidades de judeus sefarditas de origem portuguesa que, fugindo da Inquisição (via Holanda), se estabeleceram em locais como Nova Amesterdão (atual Nova Iorque) e Newport (Rhode Island), fundando as primeiras sinagogas do país.

  • Séc. XIX: a pesca da baleia e a emigração organizada

EUA: A partir de meados do século XIX, os navios baleeiros da Nova Inglaterra (New Bedford) recrutavam tripulações nos Açores e na Madeira. Muitos destes homens fixaram-se na Costa Leste ou seguiram para a Califórnia durante a "febre do ouro" de 1849, estabelecendo-se mais tarde na agricultura e na pecuária leiteira (no Central Valley).

Brasil: com a independência do Brasil (1822) e o fim gradual do tráfico de escravos, o país continuou a atrair centenas de milhares de camponeses e operários portugueses para as cidades (Rio de Janeiro e São Paulo) e para as plantações de café.

  • Séc. XX: o "boom" moderno e os refugiados do vulcão do Faial

Canadá e EUA: a emigração para o Canadá começou formalmente de forma organizada em 1953 (com a chegada do navio Saturnia). Nos EUA, a imigração açoriana ganhou um impulso gigante após a erupção do Vulcão dos Capelinhos (Faial, 1957/58), que levou à aprovação do "Azores Refugee Act" pelo governo americano, facilitando a entrada de milhares de famílias.

Venezuela: entre as décadas de 1950 e 1970, o forte crescimento económico do país atraiu milhares de portugueses (com forte incidência da Madeira), que se dedicaram ao comércio, panificação e construção civil.

Conclusão da Gemini / Google:

"Essa teia secular faz com que a presença portuguesa nas Américas hoje seja tanto uma herança histórica profunda (fundacional em países como o Brasil) como uma realidade associativa e cultural muito viva e influente nas estruturas sociais e económicas dos EUA e do Canadá."

5. Vejamos o que nos diz a francesa Vibe / Mistral, valente concorrente europeia das "gigantes tecnológicas" norte-americanas

Luís, aqui tens uma síntese clara e documentada sobre a presença portuguesa e de descendentes nas Américas:

Números atuais (2026):
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 milhões de pessoas identificam-se como portugueses ou luso-descendentes, com maior concentração em Massachusetts, Califórnia, Rhode Island, Nova Jérsia e Flórida, destes, 22,49% ainda fala português em casa, além do inglês;
  • Brasil: entre 500 mil e 700 mil portugueses migraram para o Brasil durante o período colonial (1500–1822);
  • entre 1500 e 1820, estimam-se 605.000 portugueses emigrados para as Américas, tornando Portugal o segundo maior emissor europeu de migrantes para o continente, atrás apenas da Grã-Bretanha.

Total global (diáspora): estima-se que existam quase 5 milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados pelo mundo, somando cerca de 15 milhões de pessoas (incluindo os residentes em Portugal).

O Observatório da Emigração ( do COES - ISCTE) vai mais longe: 

Em 2026, o total de portugueses e luso-descendentes no mundo é estimado em 31,2 milhões (observatorioemigracao.pt).

Histórico da migração

Início: a presença portuguesa nas Américas remonta ao século XVI, com os primeiros fluxos significativos para o Brasil logo após 1500. 

Entre 1500 e 1820, 605.000 portugueses emigraram para as Américas, principalmente para o Brasil, mas também para os EUA (ex.: caça à baleia nos Açores, plantações de cana-de-açúcar no Havai, indústria têxtil em Massachusetts)

Fases principais:

  • 1500–1820: migração para o Brasil colonial (500–700 mil).
  • 1800–1870: caça à baleia (Açores → Nova Inglaterra, Califórnia, Havai).
  • 1870–1920: Trabalho em plantações (Havai), indústria têxtil (Massachusetts, Rhode Island) e agricultura (Califórnia).
  • 1920–1950: Diminuição da emigração.
  • Pós-1950: Retomada com o "Azorean Refugee Act" (após erupção do vulcão dos Capelinhos, Faial).

Destinos e integração:

  • EUA: a comunidade luso-americana é hoje mais dispersa, com crescimento em estados como Flórida, Texas e Geórgia; os lusodescendentes que falam português têm nível de escolaridade superior à média americana (40% com ensino superior) e trabalham mais em áreas técnicas e de consultoria;
  • Brasil: os portugueses foram um dos principais grupos formadores da população brasileira, ao lado de ameríndios e africanos; a  migração foi especialmente intensa nos séc. XVIII e XIX, com picos durante a exploração do ouro e do café.

Nota da Vibe/Mistral: Os números totais para as Américas (Norte, Central e Sul) não estão consolidados num único estudo, mas somando as estimativas para os EUA (1,3M) e Brasil (descendentes de 500–700 mil migrantes coloniais + migrações posteriores), é seguro afirmar que há vários milhões de luso-descendentes nas Américas, com origem na migração que começou há mais de 500 anos. (**)

 (Pesquisa: LG + IA (ChaGPT / Open AI | Gemini / Google | Vibe Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links_ LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

(**) Último poste da série > 5 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)