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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do "nosso embaixador" Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor): impensável ser exposta, para venda, na banca de qualquer grande superfície cá do "Puto"... É como a batata-raiz-de cana, feia, rugosa, de olhos virados para dentro, difícil de cascar (aliás, coze-se com a pele),  "anormal",  por isso, "perdeu valor comercial" e deixou-se de cultivar... Mas hoje é produto "gourmet". O mercado é cruel... para os "pobres, anormais, feios, porcos e maus"...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Papaia é a mais pequena, mamão a maior... são variedades da espécie Carica papaya... 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Papaia ? Mamão ? Ou papaia e mamão  ? Vejamos a prova dos nove: o mercado é que faz os preços... e a língua as palavras.  Mas a ciência tem também uma palavra a dizer Neste caso,  a botânica...

De qualquer modo, nada como ir ao sítio  onde se compra e venda estes frutos tropicais... que vêm do outro lado do Atlântico, o Brasil, o 2º maior produtor mundial (com destaque para os estados do Espírito Santo e Bahia).

O dicionário (por exemplo, o Houaiss da Língua Portugesa) diz que é tudo a mesma coisa, são frutos da Carica papaya, espécie nativa do sul do México e América Central. E está correto, do ponto de vista botânico. 

A principal diferença está no tamanho e em pormenores como a forma, o sabor e a cor. No Brasil chamam mamão formosa ao fruto maior, e mamão papaia ao mais pequeno. O fornecedor é a Ftutana, uma conhecida grande empresa grossista do Brasil.

Em Portugal, o termo mamão designa as variedades maiores de Carica papaya (como o grupo Formosa). Ao fruto mais pequeno, em forma de pera, chama-se papaia propriamente dita (ou do tipo Solo). 

Em Angola e Moçambique, o termo papaia é mais comum, enquanto no Brasil domina o vocábulo mamão.  Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, usa-se a palavra papaia.  Nos PALOP  começou-se  a usar o termo mamão por influência brasileira.  De resto, também encontrei, no hipermercado,  mamão do Algarve, Mais pequeno que o brasileiro mas ao mesmo preço.

Duas curiosidades: 

(i) uma, histórica: a papaia foi levada para a África e Ásia pelos portugueses e espanhóis durante a era dos Descobrimentos (a primeira "autoestrada" da globalização); e,   hoje,  países como a Índia e a Tailândia são grandes produtores;

(ii) outra, botânica: a  Carica papaya é dioica (há plantas macho, fêmea e hermafroditas); os cultivares comerciais são hermafroditas (para produzirem frutos sem polinização cruzada).


2. Fui ao Auchan do Alegro, Alfragide, passe a publicidade, e constatei que, na banca da fruta tropical, havia, ontem, a seguinte oferta:

(i) mamão ("Papaya formosa", na etiqueta) (via aérea, Brasil) a 4,59 € / kg, pesando cada unidade cerca  de 1,4/1,7 kg;

(ii) papaia  (pequena, de tipo Solo) (via aérea, Brasil) a  4,79€ / kg, pesando cada unidade c. de 350/450 gr.

Há uma diferença de 20 cêntimos, que não sei explicar, e que pode ser apenas diária ( dependendo de campanhas de promoção,  aspeto da fruta, etc.).

Só compro papaia às vezes, para saladas... E em dias de festa... É um luxo, para mais num país como o nosso que tem tanta variedade e riqueza de fruta ao longo de todo o ano, da pera rocha aos figos, dos morangos às clementinas, do melão à melancia, das romãs às laranjas, das uvas às maçãs, das ameixas às castanhas, das nêsperas aos alperces, em esquecer as frutas subtropicais e até tropicais da Madeira e Açores, bem como do Algarve... (O abacate. por exemplo, está a tornar-se o "ouro verde" do Algarve, com exportações crescentes para a Europa; e a Alfarroba, camaradas ? O antigo "chocolate do pobre", que também era comido por burros e cavalos, é hojé produto "gourmet": antigamente, a alfarroba era usada como substituto do cacau, hoje é usada em chocolates finos, gelados e até cerveja.)

Voltando à papaia (e ao mamão)... Comparei, pesei... e fotografei. Não comprei, nem provei...

Os dicionaristas podiam aproveitar estas subtilezas da vida real (introduzidas pela globalização) e não dizer  apenas que a papaia e o mamão são sinónimos... Enfim, a língua é felizmente  sempre maior, mais complexa, mais dinâmica, mais viva,  mais rica que todos os  dicionários juntos.  A vida passa a perna aos lexicógrafos, aos dicionaristas, aos botânicos, aos produtores, aos grossistas, aos consumidores...

3. Por outras palavras,  o mamão (Carica papaya 'Formosa') não é uma espécie diferente, é apenas uma variedade (ou um grupo de cultivares) da espécie Carica papaya.

Botanicamente, tanto o mamão (grupo Formosa) como a papaia (mais pequena, muitas vezes chamada de mamão tipo Solo) pertencem todos  à mesma família, e  à mesma espécie: Carica papaya.
  • grupo Formosa: esta variedade distingue-se por ser maior e mais pesada (pode chegar aos 2kg ou 3kg), ter uma polpa mais firme e uma casca mais resistente, o que o torna ideal para transporte (casca mais dura, e por isso é mais exportada);
  • além do tamanho, mais alongado, tem polpa alaranjada e sabor suave;
  • o nome Formosa está ligado à ilha de Taiwan (antigamente chamada Formosa), onde foram desenvolvidos muitos dos híbridos que consumimos hoje, como o famoso Tainung nº 1.
A papaia (tipo Hawai) é menor, mais doce, e de polpa alaranjada.

4. A diferença é a mesma em relação, por exemplo,  à maçã bravo-de-esmolfe e a maçã reineta, são variedades distintas, embora ambas pertençam à mesma espécie botânica (nome científico:  Malus domestica Borkh).

Onde estão as deiferençsa ?  São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo-de-esmolfe (DOP); é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a maçã reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.

Outro exemplo: o ananás e o abacaxi (que comiamos bastante na Guiné). A espécie é a mesma (Ananas comosus, nome científico). 

O ananás (dos Açores e da Madeira, por exemplo) é mais arredondado, cultivado em estufas, colhido ao fim de 18 meses: o da Madeira mais doce e aromático (cultivado em estufas de vidro) (DOP); o dos Açores, mais ácido e perfumado (cultivado em estufas de pedra vulcânica). (Parece haver uma rivalidade amigável entre as duas regiões autónomas sobre qual o melhor ananás do mundo...)

O abacaxi, cultivado ao ar livre em climas tropicais (como na Guiné-Bissau), é tipicamente mais doce e alongado, com polpa amarela.

Uma pergunta final ao leitor: se o mamão e a papaia (ou o ananás e o abacaxi) são a mesma espécie, porque é que o mercado os trata de forma diferente? Será que, no fundo, a língua e a economia são também 'cultivares' da mesma realidade?
(Pesquisa: LG + Net + IA / Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...



Guiné-Bissau >Bissau > Impar Lda > 2019 >  Belíssimo postal de boas festas que nos chegou, com data de 16/12/2019,   de Bissau, no correio do Patrício Ribeiro, "patrão" da empresa Impar Lda. (Na imagem acima, uma papaieira, árvore caricácea que produz a papaia: vê-se que ainda estavam verdes...).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta" (sem qualquer conotação sexual...), neste caso, a papaia, que ainda estava verde... Em segundo plano , parece-nos o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953).  O Ernestino Caniço não restante nem um nem outro, o José Torres Neves e o Júlio do Patrocínio. Devem sere então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Isto de frutas tropicais e subtropicais tem muito que se lhe diga... Papaia ou mamão ? É tudo a mesma coisa, só diferem no tamanho ?... O mamão maior e mais arredondado, e a papaia mais pequena e alongada ?...

Mamão, papaia ou ababaia é o fruto do mamoeiro ou papaeira, árvores da espécie  Carica papaya (nome científico).

A espécie é nativa do sul do México, América Central e norte da América do Sul, estando naturalizada nas Caraíbas, Flórida e diversas regiões de África e Ásia. 

A espécie é cultivada como fruteira no  Brasil, Índia, Austrália, Malásia, Indonésia, Filipinas, Angola, Havai e muitas outras regiões dos trópicos e subtrópicos... A Índia é o 1º produtor mundial, seguida do Brasil... E também cresce, e bem, no quintal do Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", em Bissau (*)...

Diz o Alberto Branquinho: 

"Da minha experiência nas andanças pela Guiné, fiquei com as seguintes ideias:

  • o mamão tem a configuração de um melão pequeno;
  • a papaia (cortada de cima - pedúnculo de fixação à planta - até à parte inferior) tem a configuração de uma viola
Ambos os frutos, quando bem maduros, têm cor idêntica (laranja forte).

Tanto em Cabo Verde como no Brasil encontrei pessoas que chamam mamão a ambas. A palavra 'ababaia' não conheço!"

sábado, 2 de maio de 2026 às 22:58:00 WEST 

2. O que apurámos  na Net, permite distinguir o seguinte:

Eventuais diferenças:

(i) Papaia (Hawai): fruto mais pequeno, peso à volta de 300g / 500g, polpa laranja intenso, muito doce e ideal para comer à colher;

(ii) Mamão (Formosa): fruto maior, pode pesar mais de 1 kg, polpa laranja claro/amarelo, sabor mais suave, ótimo para sucos e saladas.

No Brasil e em Angola, diz-se mamão.
 Mas também papaia: "em Angola utilizam-se os termos mamão / mamoeiro para identificar o fruto mais arredondado, identificando papaia / papaeira com o fruto mais alongado. São frutas ovaladas, com casca macia e amarela ou esverdeada. Sua polpa é de uma cor laranja forte, doce e macia. Há uma cavidade central preenchida com sementes negras". Distingue-ser duas variedades: mamão Formosa e mamão Hawai, que se dão muito em Angola, comforme a zona e o clima. 

Em Portugal,  na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, usa-se mais o termo papaia (e papaia gigante nos mercados em Bissau: vd aqui foto de Cabral Fernandes Yasmine, à direita).

No hiper onde  faço compras (o Auchan Alfragide, passe a publicidade), chamam papaia ao fruto mais pequeno e mamão ao maior... Vem do Brasil o mamão...

Na messe, em Contuboel e Bambadinca, comíamos manga,  papaia, banana e abacaxi. Na época destes frutos... Havia ainda algumas  "pontas" (quintas) em atividade, nos arredores, aonde nos abastecíamos de frutos tropicais... A ponta Brandão, por exemplo, entre Bambadinca e Fá Mandinga... 

Tal como nas tabancas em autodefesa: não me lembro de ter comprado, davam-nas...Mas quentes não tinham o sabor que têm hoje...E, estupidamente, nem sumos fazíamos. Também não tínhamos gelo nem máquinas de sumos... E aos vagomestres faltava-lhes imaginação (e formação)... Havia tantas coisas boas na Guiné. Mas dava trabalho arranjá-las... E estávamos em guerra, tínhamos vinte anos e éramos etnocêntricos (o que quer dizer, sem ofensa para ninguém, estúpidos!)

 Mas, se bem me lembro, comia-se mais o abacaxi e a banana. A manga existia em abundância, era "mato". A papaia era mais rara. Não havia grandes extensões de papaieiras. Era cultura de quintal.  Cada árvore (uma herbácea...) dava meia dúzia de papaias. 

A agricultura da Guiné era de autossubsistência. A guerra deu cabo das "pontas". E pensar  (ironia da História!)  que foi um engenheiro agrónomo (!) do ISA  e um professor de finanças, de Coimbra,  de botas de elástico,   que deram cabo de tudo aquilo... Hoje a Guiné poderia ser um paraíso. 


3.  Valha-nos, ao menos,  a nossa bela e rica língua comum... Vejamos então o que dizem os lexicógrafos (**):  s
egundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , "papaia" é fruto da "papaieira", e a palavra seria de origem caribe, por via do espanhol. 

(Tenho a edição completa, 6 volumes, do Círculo de Leitores, Lisboa, 2003; uma grande obra, o melhor que conheço, só é pena que o tipo de letra  seja de tamanho pequeno, dificultando a leitura e tornando a consulta penosa para a vista, e portanto menos amigável;  o editor português quis pôr o Rossio na Betesga...)

Sinónimos de papaia: bepaia, mamão, mamoa.

A etimologia vem do espanhol "papaya" (1535), palavra indigena americana , caribe ou aruaque (impossível determinar com rigor a origem, alguns autores inclinam-se mais para o caribe: "papai").

Papaieira é a árvore (Carica papaya, nome científico ). Sinónimos: ababaia, bepaia, mamão, mamoeiro, pinoguaçu...´

Na Guiné-Bissau, e em Cabo Verde, tal como em Portugal, diz-se "papaia" e "papaieira". No Brasil, e em Angola, é "mamão". Veja-se o provérnio crioulo da Guiné-Bissau:

Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin (=eu sou como a papaia: não fico parado na barriga de ninguém).

4.  O vocábulo  "ababaye" (ou "ababaya") existe em francês antigo e em alguns dialetos, referindo-se à papaia (Carica papaya). Os franceses, que colonizaram partes das Caraíbas (como a Martinica e a Guadelupe), podem ter adaptado o termo para "ababaye", que depois foi reimportado para o português como "ababaia".A forma "ababaia" em português pode ser um empréstimo ou adaptação desse termo. 

Em Portugal, o termo já não se usa, mas aparece em textos antigos ou em regiões com influência colonial, onde a papaia era cultivada e consumida (regiões tropicais e subtropicais)

Curiosidade linguística: a papaia (Carica papaya) é originária da América Central, mas espalhou-se pelo mundo através dos colonizadores. Os franceses, que também tiveram presença em África e nas Antilhas, podem ter introduzido o o termo "ababaye" em algumas regiões lusófonas, onde depois foi adaptado para "ababaia".

Os caribes são um povo indígena das Caraíbas, conhecidos pela sua resistência à colonização europeias.  É interessante as "voltas" que as palavras dão...

Em Cabo Verde, diz-se "papaia",
é um dos fabulosos frutos tropicais
que as ilhas produzem

5. No mundo lusófono, não há registos conhecidos de "ababaia" como termo corrente para papaia. No entanto, o Dicionário Houaiss regista-o. 

No Brasil, "ababaia" também aparece como gíria ou calão para genitália feminina em português. Mas terá  uma origem mais provável no tupi do que no francês.   (Com esta aceção, o Houaiss não regista o termo, encontrámo-lo noutras fontes).

Segundo a  ferramenta de IA que consultámos  (Le Chat / Mistral AI), "ababaia" aparece em dicionários de tupi antigo (ou tupinambá) como termo relacionado com a vulva ou órgão sexual feminino.

Em tupi, "aba" pode significar "homem" ou "pai", mas também aparece em compostos com sentido erótico ou anatómico. "Baia" (ou "aia") pode estar ligado a "abertura" ou "local", mas, em contexto brejeiro o termo foi adaptado para o calão.

O vocabulo é documentado em obras como o "Vocabulário na Língua Brasílica" (século XVII), de Luís Figueira, onde constam palavras de origem tupi para partes do corpo, incluindo termos tabu.

No português brasileiro, "ababaia" é gíria antiga (e hoje menos comum, omisso na "Bíblia da Língua Portuguesa" que é o Dicionário Houaiss) para designar a genitália feminina, especialmente em contextos de calão ou linguagem pícara, brejeira ou até pornográfica.

Aparece em literatura erótica ou popular, como em modinhas, cordéis ou até em obras de Gregório de Matos (século XVII), que usava termos indígenas em seus poemas satíricos.

"Ababaye" em francês não tem registo como termo para genitália feminina. A hipótese francesa é mais plausível para papaia (fruta), mas não para este sentido anatómico. 

6. A influência tupi no português brasileiro é massiva em gírias, especialmente em termos relacionados com o corpo, sexo ou natureza. Exemplos:

  • "Pindorama" (terra das palmeiras, nome indígena para o Brasil);
  • "Cunhã" (mulher, em tupi);
  • "Perereca" (sapo, mas também gíria para genitália feminina).


Em Portugal, o termo "ababaia", não sendo hoje corrente, pode ter chegado, por influência brasileira, através de marinheiros, comerciantes ou imigrantes que trouxeram a gíria. Ou da literatura e do teatro, em obras que retratavam o Brasil colonial ou a vida nos trópicos.

O uso de termos indígenas para partes íntimas (ou "vergonhosas") reflete: 

(i) tabu e eufemismo: os povos indígenas tinham palavras específicas para o corpo, que foram adotadas  (e ao mesmo tempo "interditas") pelos colonizadores; 

(ii) resistência cultural: mesmo em contextos de opressão, a língua tupi sobreviveu no calão e na gíria, como forma de resistência.

Em português,  a vulva é conhecida por termos da gíra e calão como pipi, pipica (informal, entre crianças e adolescentes); pito, pepeca, ostra, crica, berbigão,  entrefolhos,  nêspera, greta, papaia (informal, entre os adultos). (E "catota", nio crioulo da Guiné.)

(Pesquisa: LG +  IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG).
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa

1. Mensagem de 14 de Março de 2026 do nosso camarada António Rosinha que foi Fur Mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL. Entrou para o nosso blogue, em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande e autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue.


A TERAPIA DOS ALMOÇOS DA TROPA

Quem entre os 70 e os 83 anos, com alguma saúde, anseia pela convocatória anual dos almoços com os camaradas que andaram aos tiros nas ex-colónias, todos juntos, quando tinham 20 anos, com certeza que devem sentir-se uma geração historicamente diferenciada dos seus contemporâneos, que não tiveram aquela experiência.

Haverá muita nostalgia, haverá também orgulho em muitos, mas com certeza esses encontros são um alívio de tensão que dá vida e ânimo para manter a sanidade mental no seu devido lugar.

E mesmo quando nessas reuniões se invocam os nomes dos camaradas que morreram quer em combate quer pela vida fora, com ou sem visitas aos cemitérios, como se vê fazer em almoços a nível regional, missa e idas aos cemitérios, até esse recordar dos que morreram, como que completa uma obrigação de dever cumprido.

E quando se fala de muitos camaradas que ficaram com traumas e sem um tratamento adequado, podiam encontrar um bom tratamento em encontros/convívios e evitar desencontrar-se com antigos camaradas da tropa.

Mais antigos, já terão dificuldade em realizar esses encontros, uns vão desaparecendo, alguns mais entusiastas já não conseguem reunir camaradas com capacidade de deslocação com autonomia, e, no caso recente do problema do covid 19, com a interrupção aconselhada de reuniões, para muita gente esses almoços foi o fim total.

Pessoalmente, como ex-tropa da guerra de Angola, acabou-se o almoço anual, e tive a hipótese de frequentar um almoço mensal, com pessoal mais reduzido, com a interrupção do covid, não mais se retomou esse hábito.

E pessoalmente conheci ainda o poder terapêutico desses "almoços" em reuniões de retornados, que não era de jovens na casa dos vinte anos, mas em muitos casos foi com gente nos 50/60 anos... casos familiares terríveis, mas esses encontros funcionaram com muito sucesso, no "deixar para lá" e desabafar uns com os outros e retomar as rédeas da vida.

Como ex-militar, recorro muitas vezes aos lugares através do google earth para visitar os lugares por onde passei de arma ou sem arma na mão, para ver por onde passei, seja em Angola, Guiné ou Brasil, e ver como aquilo está, também essas visitas (virtuais) ajudam a encarar o nosso passado de frente.

E como diz o nosso grande escritor e também ex-militar, Lobo Antunes, que se preocupou muitíssimo comigo e todos os retornados, em que inclui grandes retornados tal como Vasco da Gama e mesmo por onde esses antigos andaram, eu gosto de visitar e desopilo imenso com isso.

Imagine-se hoje, 2026, lembrar que um desses guerreiros portugueses antigos, Afonso de Albuquerque, mandou construir o Forte Nossa Senhora da Conceição em 1515 na Ilha de Ormuz para cobrar portagem a barcos que quiserem transportar especiarias do oriente para norte e hoje nesse mesmo lugar alguém quer impedir petroleiros de transpor essa mesmíssima portagem sem pagar.

E segundo Lobo Antunes, fazem-nos falta petroleiros em frente aos Jerónimos.

Com reuniões e almoços, ou acompanhar Luisgraca de perto, não é só viver do passado, é viver a nossa história de frente.

Um abraço
Antº Rosinha

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Nota do editor

Último post da série de 22 de Julho de 2025 >Guiné 61/74 - P27044: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (58): O racismo em Portugal... onde ninguém sabe se os seus antepassados foram escravos ou esclavagistas...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio faz um resumo da situação de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé e Príncipe em meados do século XIX, lançado-se depois na análise das principais causas da decadência do Império Português. Observa que quando foi descoberto o caminho para a Índia, os portos de África passaram a ser apenas portos de escala para as armadas; e descoberto o Brasil, a colonização encontrou em África o viveiro onde ia procurar os braços necessários para as minas e engenhos americanos, deu-se uma concorrência feroz no comércio negreiro, África despovoou-se. E tece as considerações que se prendem com a dominação espanhola, a ausência de um plano colonial e a abolição das ordens religiosas. Mas também se pode admitir um outro fator: a escolha dos governadores nem sempre se atendeu às qualidades e valor dos nomeados, eram escolhas que obedeciam a influências na corte, tudo se agravou com a guerra fratricida entre miguelistas e liberais. E o Marquês do Lavradio diz também o seguinte: "A péssima administração financeira do Estado, a falta de energia, o fatal hábito de fazer tudo fora de tempo, são outras tantas causas do estado da decadência." É neste quadro que se inicia a Era da Regeneração e a diplomacia portuguesa ir-se-á confrontar com ambições das grandes potências coloniais, será o caso da Questão de Bolama e a Questão de Lourenço Marques, que iremos ver proximamente.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 2

Mário Beja Santos

Incúria minha, desconhecia inteiramente a existência desta obra que saiu do punho do 6.º Marquês do Lavradio, que não deixa de causar uma certa estupefação, na data da sua publicação pela Agência Geral das Colónias, em 1936, já corria a torrente do nacionalismo imperial do Estado Novo, feita de glórias, de guerreiros invictos e de feitos estrondosos, nunca se questionando que aquelas parcelas exibidas no mapa tinham verdadeiramente 500 anos de presença portuguesa; e agora o Marquês do Lavradio vinha dizer que não era exatamente assim. Deu-se uma súmula do estado das colónias de Angola e Moçambique em 1851 e a narrativa vai agora prosseguir a partir de Cabo Verde.

“Cabo Verde fora sempre mais pobre e miserável de todas as possessões portuguesas. A sua colonização começou em 1562 com alguns casais do Algarve e Alentejo, a que e juntaram casais da Guiné das tribos Balanta, Papel, Bijagó, Felupe, Jalofo, dando origem a uma raça especial variável de ilha para ilha. Durante longos anos a sua importância resultava principalmente de ser um entreposto de escravos e a ilha de Santiago fora muito florescente quando os navios com escravos eram obrigados a ir ali pagar os quartos e vintenas.

A grande maioria dos terrenos, ainda os mais abundantes de água, e nas ilhas mais saudáveis, como S. Vicente, S. Nicolau e Fogo, estavam incultos; no interior das ilhas não havia estradas e as comunicações entre as diferentes ilhas e com a capital eram morosas e difíceis. João de Fontes Pereira de Mello, assumindo o Governo da Província em 1849, descreve o estado em que a encontrou nas seguintes linhas:
‘Achei exaustos os cofres públicos, o crédito perdido pelo não pagamento em Lisboa das letras sacadas aqui pela Junta da Fazenda; os oficiais e mais empregados públicos com cinco meses de atraso e o clero com treze; devendo-se um mês de pré, quinze dias de pão e onze contos de reis de massas aos soldados. A tropa estava desgostosa pelos descontos que são obrigadas a fazer as praças de pré (militares de baixa patente) para ocorrer à sua maior precisão de vestir e calçar. E finalmente encontrei a necessidade de mandar render os destacamentos da Guiné e a impossibilidade de acudir a este importante serviço’.”


O autor, na sequência de outros depoimentos refere os sacerdotes imorais, ébrios e debochados, homens sem vocação, o maior rendimento da Província, no passado, provinha da urzela.

Passando agora para a Guiné, dirá o autor que estava muito reduzida da sua antiga grandeza, marchava todos os anos para uma decadência total. E conhecia um apertar de cerco de franceses e ingleses. Dependia do Governador-Geral de Cabo Verde. Não tinha fronteiras explícitas, os seus limites só viriam a ser definidos pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É relevada a figura de Honório Pereira Barreto, comprara com o seu próprio dinheiro parcelas do território, fizera convenções que davam exclusivamente aos portugueses o direito de navegar e comerciar em certos pontos. Denunciou a ocupação da região do Casamansa, enviou cartas insistentes ao Governador de Cabo Verde, nada teve andamento. E o autor também explica o comportamento dos ingleses que disputavam a ilha de Bolama, vai referir uma série de peripécias que nós já temos conhecimento.

Falando das ilhas de São Tomé e Príncipe, desfaz-se em elogios:
“São, juntamente com o Brasil a maior coroa de glória da dominação portuguesa. Desde que as ilhas de São Tomé e Príncipe foram bem povoadas, em 1493, começaram logo sendo uma colónia agrícola importante; a primeira cultura experimentada foi a cana sacarina, transplantada para ali da ilha da Madeira; o grande desenvolvimento que essa cultura teve no Brasil aniquilou por completo as duas ilhas, forçando os colonos a experimentar novas culturas. Em 1800, o Governador Lagos mandou ir do Brasil sementes de café; a cultura desenvolveu-se rapidamente, a produção, devido à fertilidade do solo, compensou largamente a iniciativa, a qualidade premiou os agricultores e o café das duas ilhas do Equador em breve as tornou famosas.

Em 1822, foi introduzida a cultura do cacau, que devido a iniciativas particulares se estendeu pelas duas ilhas, transformando-as numa modelar colónia de plantação e dando-lhe o primeiro lugar nas colónias de plantação de toda a costa africana. As medidas repressivas do tráfico de escravos criavam grandes dificuldades ao recrutamento de serviçais para S. Tomé; embora os tratados com a Inglaterra autorizassem a ida de negros livres de Angola, os cruzeiros ingleses originavam conflitos constantes, davam origem a reclamações diplomáticas e impediam que o recrutamento se fizesse com regularidade.
Nas ilhas havia sossego, tranquilidade e segurança individual. Os naturais das ilhas, descendentes dos negros de Angola e judeus de Espanha, eram ignorantes, fanáticos e corrompidos e viviam de roubo e da rapina.”


O autor vai agora explanar-se sobre as causas principais da decadência: a escravatura, dizendo que o lucro que os negreiros ofereciam não ficavam nas colónias e as receitas que o Tesouro arrecadava estavam muito longe de compensar o prejuízo que resultava da saída de tantos homens válidos que iam enriquecer com o seu trabalho domínios alheios; a dominação espanhola, entrámos em decadência com o desastre da Invencível Armada, fechado o porto de Lisboa ao comércio do inimigo, este foi procurar conquistá-lo nos mares, Castela levou-nos mais de 7 mil peças e havia 900 bocas de fogo que Sevilha guardava nos seus depósitos com as armas de Portugal, e escreve o Marquês do Lavradio:

“Foi sobretudo na Índia e nos últimos dez anos de dominação espanhola que os holandeses e ingleses mais nos perseguiram, mas as duas costas africanas tiveram de sofrer duros ataques, e o nosso domínio no interior foi fortemente abalado.
Em dez anos o nosso comércio do Oriente passou quase por completo para as mãos dos holandeses e quando, em 1669, se assinou finalmente a paz com os Países Baixos, estes guardaram o que nos haviam tomado na Índia, renunciando ao Brasil, donde os havíamos expulsado, mediante uma indeminização de 3 milhões de florins.”


Continuando as causas da decadência, refere o autor a completa ausência de um plano de colonização ou de administração colonial. E simplifica:
“A doação feita a Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) de 35 léguas de costa de Angola, do Cuanza para o Sul, sem limite para o interior, com obrigação de ali estabelecer cem famílias e levar quatrocentos homens válidos e seis cavalos (doação feita por El Rei D. Sebastião) não pode ser considerada como obedecendo a um plano de administração colonial, antes deve ser olhada como um ato isolado e como uma mercê arrancada ao Rei com fins bem diferentes daqueles que se encontravam na carta de doação”; e a última causa invocada pelo autor foi a abolição das ordens religiosas; desaparecidas as missões, com elas desapareceu a obra de séculos, caíram em ruína monumentos levantados pelos missionários, morreram plantações por eles feitas, diminuiu o nosso prestígio no sertão, e a falta de missionários portugueses facilitou mais tarde a Livingstone as missões protestantes que tão funestas nos foram.

De seguida o autor vai abordar questões diplomáticas começando pela Questão de Bolama.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27678: Agenda cultural (911): "Complexo Brasil", uma exposição a não perder na Fundação Calouste Gulkenkian até ao próximo dia 17 de fevereiro





Data - 14 nov 2025 – 17 fev 2026  | 10:00 – 18:00
sáb, 10:00 – 21:00 | Encerra à Terça

Local: Galeria Principal e Galeria do Piso Inferior | Fundação Calouste Gulbenkian (FCG)

Preço: 8,00 € – 14,00 € Incluído no bilhete Exposições Temporárias Gulbenkian e All-inclusive
 
Domingo: Entrada gratuita das 14:00 – 18:00. Levantar presencialmente o bilhete numa das bilheteiras da FCG



Sinopse
 
Reunindo obras de arte, vídeos, peças musicais e documentos vários, a exposição complexo brasil propõe uma viagem pela cultura brasileira, procurando problematizar as relações seculares entre o Brasil e Portugal e promovendo o diálogo entre os dois países.

Com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição não é concebida como uma simples mostra de objetos, mas como uma travessia de experiências que pretende dissolver estereótipos e abrir novas perspetivas de entendimento.

Projetada por Daniela Thomas, a mostra ocupa as duas galerias do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, e é acompanhada por um programa de atividades paralelas e por uma publicação, que amplifica a investigação realizada pela equipa curatorial.

Esta exposição contém conteúdos inadequados para crianças e suscetíveis de ferir a sensibilidade dos visitantes.


Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

2. Alguns destaques feitos pelo editor LG, que visitou  a exposição no passado dia 25 de janeiro, e recomenda-a aos amigos e camaradas da Guiné. 

Recomenda-se também o livro-catálogo, "complexo brasil" (org. de José Miguel Wisnik, 2025, 240 pp.) (23,00 euros, preço de capa). 

Não perder os vídeos. E, claro, a Amazónia. Com calma e vagar, é uma tarde em que se aprende muito sobre  o "complexo Brasil" e o "Brasil complexo"...Que eu  não conheço, ao vivo e a cores. Talvez visite na próxima incarnação, se ainda existirem os povos da Amazónia.

Da página 11, reproduz-um excerto do discurso do Chico Buarque, na entrega do Prémio Camões, 2023:

"O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, meu bisavô mineiro e meu tataravô baiano. Tenho antepassados negros e indígenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador (...).

E mais este excerto, delicioso, de Sérgio Rodrigues ("Qual o sabor da nossa língua?", 2023), pág. 14: 

"O português brasileiro não tem só acúcar, mas também dendê, sal, pimenta,alho, urucum,tucupi e cachaça  (...)."









Cabeças do Bando de Lampião. Fotografia.Arquivo Instituto Salles / ICCA e Sociedade do Cangaço










Denilson Baniwa (Brasil), The Call of the Wild / Yawareté tapuya, 2003 / O Chamado da Natureza//Yawareté Tapuia, 2023. Tina acrílica e pastel de óleo sobre tela  100 x 130 x 3,5 cm Antonio Murzi & Diana Morgan.

Fotos (e legendas): Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026), com a devida vénia *a FCG e aos curadotres


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Nota do editor LG:


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27603: O nosso blogue em números (108): Portugal, Brasil e Guiné-Bissau representam mais de 40% do total de visualizações de página ("visitas"), por país (n=16 milhões) (2010-2025)


Infografias (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)


1. Continuamos a publicar alguns números sobre a nossa atividade bloguística em 2025.

O nosso blogue atingiu, no final do último ano, cerca de 17,8 milhões de visualizações de páginas (grosso modo, de "visitas", o que não é exatamente igual a "visitantes", que podem ser regulares ou ocasionais...) (Gráfico n.º 2). 

Já temos explicado como esta  contagem é apurada:   

(i) 1,8 milhões desde o início do blogue, em 23/4/2004 até final de maio de 2010 (de acordo com o nosso primeiro contador, o  Bravenet);

e (ii) c. 16  milhões, desde então e até 31/12/2025 (segundo o contador do Blogger).

 
De acordo com o gráfico nº 2.
  • em 10 anos, de 2004 a 2013,  tivemos uma média anual de meio milhão de visualizações de página  ou "visitas"; 
  • nos últimos 12 anos, de 2014 a 2025, a média anual ultrapassa já o milhão (mínimo: 600 mil, em 2022; máximo: 2 milhões, em 2025)

2.  Em relação ao período que vai de final de maio de 2010 ao final de dezembro de 2025,  há a destacar o seguinte no que diz respeito à distribuição do nº de páginas visualizadas por país (Figuras nº 1 e nº 2 e Gráfico nº 3):

  • os nossos visitantes continuam a ser oriundos sobretudo (mais de 60%) de Portugal (35,6%) e dos EUA  (25%);
  • no topo 10, o Brasil aparece em 4º lugar (4,4%),  a seguir à Alemanha (5%) e antecedido pela França (4%) (dois países da União Europeia onde também há importantes comunidades lusófonas de incluindo muitos antigos combatentes);
  • no top 20 apraz-nos registar que  a pequena Guiné-Bissau aparece em 17º lugar, com um total acumulado de 68,6 mil visualizações, a seguir à Espanha (n=98,9 mil), mas à frente da Itália (n=67,5 mil) e da China (n=67,4 mil) e Outros   (o resto do mundo) (n=2 milhões);
  • Portugal (35,6%), Brasil (4,4%) e Guiné-Bissau (0,4%) representam, só por si, mais de 40% dos nossos "visitantes";
  • Suécia está agora em 9º lugar, mas à frente da Rússia que é o 10º;
  • estava em 6º o ano passado:  será que a saída (mesmo que temporária), para os States, do nosso querido José Belo e das suas renas..., ajuda a explicar esta descida ?

Figura n.º 1 - Mapa-múndi com a distribuição do número de visualizações de páginas, do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné desde maio de 2010 a final de 2025 (n=16 milhões),  Madeira e Açores  (Portugal) e Guiné-Bissau estão também assinalados (embora por pontos minúsculos). Sobre Cabo Verde e outros países lusófonos não temos dados (devem estar incluídos nos "Outros").

Fonte: Blogger (2026)





Figura 2 -  Distribuição do número de visualizações de página do nosso blogue,  por país, desde final de maio de 2010 a final de dezembro de 2025 (Números absolutos) (n=16 milhões). Três países lusófonos ( Portugal, Brasil e Guiné-Bissau) aparecem no top20.

Fonte: Adapt. de Blogger (2026) 

 (Continua)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27594: O nosso blogue em números (107): Ao longo do ano de 2025, tivemos um número de visualizações de páginas superior a 2,09 milhões (e 4,51 mil comentários)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27483: Notas de leitura (1870): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Março de 2025:

Queridos amigos,
Prosseguimos na leitura de Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950), a exaltação do passado colonial com os seus heróis-modelo vão integrar a literatura infanto-juvenil, nomeadamente no fim da monarquia constitucional, a I República e as primeiras duas décadas do Estado Novo. Os heróis dos Descobrimentos enfileiram com outros, tais como Viriato, Egas Moniz, Nuno Álvares Pereira. Impor-se-ão vários nomes, tais como Ana de Castro Osório e Virgínia de Castro Almeida, mas será Mariazinha em África o bestseller desta literatura nos anos 1939 e 1940. Estuda-se aqui a imagem do outro, a ação missionária, obviamente que da monarquia ao Estado Novo há nuances no tratamento do outro, pode aparecer como inferior, aberto ou indisponível à civilização, fala-se no bom selvagem; o Estado Novo irá desenvolver o exotismo, os perigos e a fantasia, será o caso da saga da travessia africana de Capelo e Ivens; e há o sistema de valores, o enaltecimento de Nuno Álvares ou do Infante D. Fernando, não será na escola mas fundamentalmente na imprensa que se irá privilegiar o esforço na criação de infraestruturas, desenvolvimento material, serviços de saúde, etc. Deixaremos para o terceiro e último apontamento o modo como os Descobrimentos serão abordados por associações e organizações da juventude, caso da Mocidade Portuguesa.

Um abraço do
Mário



Não fomos combater na Guiné pela integridade de Portugal de Minho a Timor?
(Uma abordagem dos valores educativos entre o liberalismo e o Estado Novo) – 2

Mário Beja Santos

Falando por mim, e seguindo integralmente o que se escreve na obra de ensaio Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950), por Maria Cândida Proença e outros, edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, éramos educados nos bancos da escola de que o Infante D. Henrique fora o impulsionador dessa ação patriótica engrandecedora que tornou Portugal imperial – e manda o rigor que se diga que não foi obra exclusiva do Estado Novo, a monarquia constitucional também fez soar esta trombeta.

O que mudou ao longo deste século (entenda-se 1850-1950) é a visão que se pretendeu dar do Infante. “Para os autores oitocentistas o Infante era fundamentalmente um homem de ciência dotado de profundos conhecimentos para a época que teriam sido causa do progresso que pode incrementar nos Descobrimentos marítimos.” Homem sábio, até versado nas matemáticas e conhecedor das artes de navegar. “Os avanços da ciência e a divulgação do positivismo eram favoráveis à apresentação de um herói humanizado longe da visão hagiográfica que mais tarde vinha impor-se.”

Tudo muda no final do século, Fortunato de Almeida introduz uma nova perspetiva, ao atribuir-lhe o plano de encontrar um caminho alternativo para a Índia e até a vocação apostólica de dilatar a fé cristã. Atribui-lhe igualmente um plano em que convergiriam três empresas gigantescas, a conquista territorial em Marrocos, a descoberta do caminho marítimo para a Índia e o descobrimento das ilhas do Atlântico.


Como observa a autora, a mitificação do Infante foi ao ponto de se procurar apresentar as suas ações menos exaltantes como movidas pelo imperativo superior da fé e do espírito de cruzada. Era uma constante dos manuais que o Infante era muito mais movido pela fé do que por motivos comerciais, e exigia-se em termos de Ministério da Educação que se escrevesse à frente do nome do Infante que era mestre da Ordem Militar de Cristo. Foi assim que D. Henrique passou do herói essencialmente laico do positivismo oitocentista para o santo mitificado pelo Estado Novo, passou a ser um exemplo de virtudes a seguir pela mocidade do nosso país.

Igualmente se desmonta a fábula que houve uma Escola de Sagres, que o Infante teria mandado erigir um observatório astronómico em Sagres, Mattoso, célebre autor de compêndios de História, dirá que o Infante estabeleceu uma escola de cosmografia náutica. Toda esta incorreção histórica teve momentos de delírio, como escreveu o Padre Marcelino da Conceição dizendo que a Escola de Sagres era a universidade náutica onde portugueses e estrangeiros aprenderam a navegar cientificamente, os Descobrimentos tinham sido feito com método e com certeza científica. Um dos responsáveis por este disparate foi Oliveira Martins. Não há uma só prova documental de alguma Escola de Sagres.

Outras incorreções aqui apresentadas pela autora prendem-se com o descobrimento e colonização do Brasil, procura-se deixar ciente de que já se conhecia a rota antes de 1500; também há mitificação quanto ao Império do Oriente, veja-se o caso de D. João de Castro, herói mítico da Índia nos compêndios:
“O relato dos cercos de Diu e dos atos de valentia que então se teriam praticado sempre estiveram integrados no conjunto das façanhas que preenchiam a memória oficial transmitida nas nossas escolas. É interessante verificar, porém, que no relato do segundo cerco o episódio das entregas das barbas pelo vice-rei como penhor do empréstimo pedido, apenas surge nos compêndios dos anos 30. Mais uma vez, pela sobrevalorização de um pequeno pormenor, a História era posta ao serviço da transmissão no conjunto de valores que o regime pretendia impor. O Império do Oriente era, nos livros escolares, o símbolo por excelência da grandeza de Portugal, mas, a partir da década de 80 do século XIX, passou a ser também a causa primordial da decadência da raça e do Reino. Neste ponto os manuais acompanham as teses então vigentes sobre a decadência da Pátria. A riqueza, o luxo, o dinheiro fácil, trouxeram consigo a indolência e a corrupção que teriam estado na origem da decadência do Império, acelerada a partir de finais do século XVI.”


Também se procura desmontar a teoria obtusa da nossa ação evangelizadora no Brasil, procurou-se exaltar a imaginação dos homens com a grande aventura dos bandeirantes. E mesmo sobre as campanhas de África e a ocupação do território não se poupou um elogio a Portugal como o melhor povo colonizador, e a prova que o colonizado estava permanentemente agradecido ao colonizador era aquele régulo timorense que se tinha deixado fuzilar para não abjurar Portugal. Em jeito de conclusão, a autora enfatiza a evolução do discurso nos manuais escolares, as tais três etapas em que se ia encaminhando a gesta dos Descobrimentos nos livros escolares falando no maior desenvolvimento científico, durante a monarquia constitucional até chegarmos aos grandes heróis do Estado Novo, como caso de D. Henrique ou de Afonso de Albuquerque que eram sábios, escritores e cientistas.

Feita esta exposição à escola e aos Descobrimentos, Luís Vidigal vai aludir à expansão contada às crianças, dá-nos a génese e desenvolvimento de uma literatura infantojuvenil em Portugal, refere os seus nomes e foca-se em duas autoras: Virgínia de Castro e Almeida e Ana de Castro Osório, como elas irão apresentar este passado grandioso que acabava por ser fonte inspiradora para o presente, os portugueses daqueles tempos, que descobriram e conquistaram o mundo destacavam-se pela valentia e a confiança em Deus. Grandes reis marcaram o sentido da História, no fundo era o moralismo com que pretendia apresentar-se o Estado Novo, como escreveu Virgínia Castro e Almeida: “A maior fortuna de quem obedece está na amizade e na confiança de quem manda. Mandar e obedecer são ofícios iguais aos olhos de Deus. Quem manda mal vale menos que quem obedece bem.”

Temos depois a imagem dos outros, a conceção de que o selvagem, o preguiçoso encontra a sua redenção no trabalho, a ação missionária jogava em vários tabuleiros: a escola, o serviço de saúde, a aprendizagem da religião, mas também aqui houve francos desenvolvimentos. Por exemplo, na I República apostava-se na laicidade, com o Estado Novo marca-se outro conceito de civilização que é a de associar o primitivo à violência e à barbárie, ou seja, houve um humanismo republicano que se pautava por uma grande tolerância e passa-se agora para um ideal de civilização em que as escolas do Império são instadas a apresentar os grandes modelos da sociedade portuguesa. Veremos no próximo apontamento qual o papel da História de Portugal e dos Descobrimentos na ideologia e na conduta das associações e organizações da juventude, neste período de 1850 a 1950.
A mitologia da escola de Sagres
Imagem integrada em Portugal Colonial, nºs 7-8, 1931
Mocidade Portuguesa na Guiné, imagem da RTP Arquivos

(continua)
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Notas do editor:

Post anterior de 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27460: Notas de leitura (1867): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27478: Notas de leitura (1869): "A Mais Breve História do Ultramar", de David Moreira (Porto, Ideias de Ler, 2025) (Virgílio Teixeira, Vila do Conde)