
1. O termo "periquito" (ou "Pira") é um dos termos mais divertidos e amplamente reconhecidos da gíria militar portuguesa, que nos ficaram do tempo da guerra colonial na Guiné (1961-1974). (Em Angola, era "maçarico", em Moçambique, "checa"!.) Só o nosso blogue tem já cerca de 40 referências com o descritor "periquitos".
A transição e a passagem de testemunho entre quem chegava, vindo da metrópole, e quem partia, geraram um tipo de humor de caserna (*), riquíssimo, picaro, brejeiro, amplamente documentado nas memórias dos antigos combatentes, como no caso do nosso blogue.
O recém-chegado a Guiné recebia o nome de "periquito" (leia-se: "piriquito", sic, ou "pira"), contrastando em tudo com os "velhinhos", a começar pela farda e o comportamento verbal e não-verbal:
- farda novinha em folha 'versus' farda desbotada, puída, roída pelo suor, pelo sol, pela chuva, pela água e pelas pedras do rio, pelas operações no mato, etc., dos "velhinhos" (se tivessem mais de 24 meses, eram "VCC", "velhinhos como o car*lho");
- o "periquito" ,imberbe, andava de cabeça erguida, a girar como um radar, assustado, atento a todos os ruídos e sinais;
- a pele branca de quem vinha da metrópole;
- enquanto o "velhinho" já tinha o olhar "vazio", o andar arrastado, o cigarro ao canto da boca, a pele tisnada do sol tropical, "completamente apanhado do clima"...
A chegada dos "periquitos" desencadeava um ritual ruidoso, um clima festivo, um ambiente eufórico nos aquartelamentos que contagiava tudo e todos (incluindo a população ao lado, e em especial, as mulheres, bajudas e crianças).
As praxes, à chegada, eram uma forma, se quisermos, de "batismo de fogo artificial", simbólico, para integrar o pobre do "periquito" na dura realidade da Guiné Algumas das partidas mais comuns podiam incluir:
- o batismo do balde ou agarrafa de água fria: despejar água sobre o novato enquanto este dormia;
- falsos alarmes: (i) os "velhinhos" simulavam ataques com rebentamentos de petardos ou tiros para o ar a meio da noite para ver os "periquitos" a saltar, aterrorizados, para as valas ou abrigos, ainda de pijama ou descalços; (ii) fazê-los acordar com a ponta da pistola Walther ou da G3 na nuca;
- as missões inventadas: (i) mandar o periquito procurar a "chave do teto do jipe"; (ii) buscar a garrafa de "óleo de pirilampo"; (iii) retirar as estrias do morteiro 81 ( que é de alma lisa...); ou (iv) ser chamado a um oficial fictício.
Apesar da aparente crueza e estupidez de algumas praxes, a rendição da comissão tinha um papel prático fundamental. Nos dias em que a subunidade que ia ser rendida ("velhinhos") e a subunidade que vinha render ("periquitos") coexistiam no mesmo aquartelamento (a chamada "sobreposição", dormindo muitos ao relento), os velhinhos passavam o conhecimento de sobrevivência aos periquitos:
- ensinavam os trilhos mais perigosos e onde o PAIGC costumava montar emboscadas;
- mostravam como detetar minas e armadilhas no mato;
- ajudavam na habituação ao clima hostil, à humidade extrema e às doenças tropicais (como a malária);
- davam instruções úteis para lidar com as lavadeiras, a população, as milícias, etc.
2. Em relação à legenda da foto acima, do capelão militar de Mansoa (“Salta, salta, periquito!”), há uma distinção particularmente interessante: “periquito” não era apenas uma alcunha depreciativa para o recém-chegado, era também uma categoria transitória dentro da vida militar.
De facto, quando os "velhinhos" finalmente embarcavam de regresso a Portugal, os "periquitos" deixavam instantaneamente de ser os "alvos das piadas" para passaarem a ser os "donos do chão" (o subsector) que lhes fora destinado e para assumirem a responsabilidade total pelas suas vidas e pelas vidas das populações à sua guarda..
E há um pormenor que é importante voltar a sublinhar, e que está subentendido na foto do nosso padre José Torres Neves: o “periquito” podia ser simultaneamente alvo da brincadeira e objeto de proteção/ensino.
2. Já aqui publicámos um excerto do diário (***) do nosso camarada António Murta, ex-alf mil inf MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba (**), 1973/74): merece ser recordado, agora na série "Humor de caserna" (*):
(...) À chegada da coluna a Nhala, e ainda antes de termos descido das viaturas, num ápice, formou-se uma pequena multidão vinda da tabanca, sobretudo mulheres e crianças, que nos receberam com palmas, cânticos, enfim..., se não em apoteose, pelo menos com grande euforia.
Fiquei entre contente e surpreso, a achar tudo um bocado exagerado. Seria sempre assim? Não foi preciso passarem muitos dias para ter uma explicação, plausível, para aquele acolhimento tão efusivo.
Esta cantilena, soube depois, era conhecida em quase todo o território da Guiné (**). E eram-lhe acrescentados outros versos, que só aprendi mais tarde, muito brejeiros e, pareceu-me, ao sabor da inspiração do momento:
"Mulher grande cá tem cabaço,
"Mulher grande cá tem catota,
E voltavam ao princípio com o Periquito vai pró mato, etc. etc. (...)
As bajudas, algumas bonitas, e toda a criançada são uma simpatia. É contagiante a alegria delas e um bálsamo para a nossa saúde mental. Ainda assim, como já disse, os “velhinhos” de Nhala parece que já não beneficiam desse bálsamo. Aproveitando as recomendações deles, vamos escolhendo as nossas lavadeiras. A oferta é grande, de modo que se fazem “contratações” despreocupadamente.
E em matéria de sexo, como é? Já em Bolama aprendemos que há lavadeiras “que lavam tudo” por pouco mais que a mensalidade da roupa lavada. «Desiludam-se!». As fulas são muito reservadas e pouco permissivas.
Contam-nos um caso ou outro de envolvimento com militares, mas excepcionais e por questões de afecto. A tropa em geral vai brincando, mais ou menos inocentemente, com as bajudas mais velhitas, mas sem consequências nem gravidade. De vez em quando, por ocasião da entrega da roupa lavada aos soldados, lá vem uma delas fazer queixa:
- Alfero, o soldado Manel do teu pelotão apalpou minha mama!
E eu perguntava:
- Ai, sim? E não lhe deste uma estalada?
E estava o caso resolvido. (...)
Notas do editor LG:
(**) Vd. poste de 18 de outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1188: Periquito vai no mato, olé lé lé, velhice vai no Bissau, olaré lé lé (J. L. Vacas de Carvalho)
















