sábado, 13 de novembro de 2021

Guiné 61/74 - P22716: Blogpoesia (758): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (6) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

1. Em mensagem de 4 de Novembro de 2021, o nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845 (Teixeira Pinto, 1968/70) mandou-nos um trabalho em quadras onde refere os nomes das Operações em que o seu Batalhão participou. Publica-se hoje o sexto poste da série. Lembremos a sua mensagem:

Bom dia Carlos
Em primeiro lugar obrigado por me ires aturando.
Hoje, envio mais coisas minhas pois, lembrei-me das Operações e Missões e dos nomes que lhe davam.
Um Abraço para todos, em especial para os Chefes de Tabanca
Albino Silva



OPERAÇÕES E MISSÕES

Batalhão de Caçadores 2845


Eu às vezes conversando
Recordando o passado
Passa um camarada e pára
Por na Guiné ter estado.

Por vezes passámos tempo
Com saudades a conversar
Aparece um em que diz
À Guiné hei-de voltar.

Hoje só em convívios
É que se pode falar
Antes matando inimigo
Agora saudades matar.

O tempo passa depressa
Como eu também estás cansado
E no dia a dia sofrendo
As maleitas do passado.

Hoje contamos aos netos
Aos filhos já foi contado
Horrores da guerra que nós
Da Guiné nosso passado.

Foi em um ou dois convívios
Em que foi alegria então
Quando juntos fraternizamos
A nível do Batalhão.

Os Convívios continuam
Ano a ano ninguém esquece
Primeiro sábado de Maio
É o nosso da CCS.

E é lindo muito lindo
Camaradas encontrar
Com um abraço bem forte
Tanta saudade matar.

Hoje recordar a Guiné
Ainda fortes e capazes
Com as saudades do tempo
Em que nós fomos rapazes.

Nós falamos de saudades
Falamos de quando em vez
Sem usar camuflado
Muito menos a G3.

Falamos de camaradas
E de lutas sem igual
Combatentes na Guiné
Nós heróis de Portugal.

Falamos de um passado
Tempo que jamais voltou
Jovens naquela idade
E que na Guiné lutou.

Recordamos o nosso tempo
Falamos daquela terra
Dos aerogramas recebidos
De tantas Madrinhas de Guerra.

Recordamos o Batalhão
Santa Margarida e Niassa
Recordamos os vinte anos
Com que partimos prá caça.

Lembramo-nos de camaradas
Dos quais não vamos esquecer
Mesmo dos que já partiram
E que deixaram de combater.

Excelentes e Valorosos
Era o nosso Batalhão
Que hoje é para nós
Uma grande recordação.

Era o BC 10 de Chaves
Hoje não sendo ainda é
O Batalhão de Caçadores
Que nos mandou para a Guiné.

Em Chaves e no Quartel
Em convívios que lá fizemos
Tão bem recebidos que fomos
Honras Militares tivemos.
(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 12 DE NOVEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22713: Blogpoesia (757): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (5) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

Guiné 61/74 - P22715: Os nossos seres, saberes e lazeres (476): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (17): Museu Nacional do Traje: muita indumentária, chapéus e leques, adereços icónicos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Outubro de 2021:

Queridos amigos,
Gosto muito de palmilhar toda a estrada que atravessa o Paço do Lumiar, é uma ida e volta agradável, depois é uma questão de apanhar um metro e regressar a penates. O Parque do Monteiro-Mor é também visita frequente, não encontro razão por esta falta de comparência há uns bons anos não entrando neste belo museu, irrepreensivelmente mantido no seu interior e de uma museologia e museografia tão cativantes, imagino que qualquer professor gostará de trazer aqui os seus alunos para abrir horizontes ao estudo das mentalidades do século XVIII para cá. Vim atraído por uma exposição de chapéus e leques, este último adereço há muito que anda comigo e ocupa espaço nas minhas paredes domésticas. Mas aproveitei o ensejo para começar no século XVIII e confirmar que o interior do Palácio Angeja-Palmela continua a merecer desvelo e talento de quem dele se ocupa.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (17):
Museu Nacional do Traje: muita indumentária, chapéus e leques, adereços icónicos

Mário Beja Santos

Li a notícia de uma exposição sobre chapéus e leques no Museu Nacional do Traje, onde não entrava há um ror de tempo. Graças a uma tia, cedo despertei para o prazer de ver e de viver acompanhado de leques: japoneses ou chineses, românticos ou novecentistas. Esta minha tia tinha como um dos seus passatempos adquirir leques por vezes muito deteriorados e proceder a restauros, dando-me a satisfação de poder acompanhar o seu trabalho, a substituir tecidos, a reparar varetas, a colar as guardas, a reforçar os reversos, nessas tardes pude pasmar com a delicadeza do trabalho de ver peças deterioradas ganharem vida, ainda que, para gozo da sua contemplação, houvesse necessidade de os emoldurar, um processo de esconder mazelas e outros subtis artifícios do restauro, esta minha tia parecia praticar cirurgia com as varetas, substituindo-as, fossem de madrepérola ou madeira canforada. Enquanto as suas mãos se moviam numa prancheta, por vezes empunhando uma tesoura ou pegando em pinças, esta minha tia falavam-me sobre a história dos leques, muito provavelmente a sua origem oriental, o irrecusável papel que desempenhou nas civilizações, o seu apogeu no mundo ocidental, sobretudo graças aos franceses que usaram madeiras pintadas e lacadas, e fui tomando conta de que no século XIX era uma das grandes exportações chinesas, tivessem ou não varetas em bambu ou madeira lacada, panos pintados, tal como os franceses usavam leques com varetas em marfim, tecidos delicados, panos em papel pintado a guache, pano em cabritilha. Chega de comentários pessoais, embora confesse que gosto muito de falar dos meus leques a quem deles aprecia.

Para se saber um pouco deste Palácio Angeja-Palmela, vale a pena reproduzir um texto elucidativo que se dispõe à entrada:
"O Museu Nacional do Traje encontra-se instalado no Palácio Angeja-Palmela, assim denominado por ter sido propriedade destas duas famílias.
O Palácio foi mandado construir pelo 3.º Marquês de Angeja (século XVIII), após o terramoto de 1755. Tem traça pombalina, caraterizada pelo seu sistema estrutural antissísmico e pelas suas formas austeras, contudo desconhece-se o seu autor.
Adquirido em 1840 pelo 2.º Duque de Palmela, o Palácio continuou a servir como segunda residência e foi objeto de diversas campanhas de requalificação dos seus interiores, como a introdução de pinturas parietais ao gosto da época, as quais se juntaram aos estuques e aos azulejos já existentes.
Em 1975, o Estado Português adquiriu o Palácio, conjuntamente com o Parque Botânico do Monteiro-Mor que lhe está agregado, para instalação do Museu Nacional do Traje, que abriu as suas portas ao público em julho de 1977”.


Qual o seu acervo? Guarda uma coleção de indumentária de traje nacional e estrangeiro, desde o século XVIII à atualidade, a par de um conjunto relevante de acessórios destas diferentes épocas, como vamos ver.

Duas imagens do Palácio Angeja-Palmela, sede do Museu Nacional do Traje

Impressiona o estado de conservação no interior do museu, as melhores práticas de museologia e museografia, o didatismo que a exposição permite, veja-se a beleza dos estuques, a conservação dos lambris de azulejos, o estado da indumentária, estamos em pleno século XVIII, é por aqui que a exposição começa, trajes que ajudam a compreender mentalidades, um sentimento de classe, a atmosfera de uma época, e este espaço interior assenta que nem uma luva, aqui e acolá temos pintura alusiva, ajuda a enfatizar, tal como os adereços, tão sugestivos que põe o visitante a bisbilhotá-los com cuidado… Ou não houvesse para ali leques...
O estilo império faz aqui obrigatoriamente presença, ali perto um quase adolescente comentava à mãe que já tinha visto tal vestuário numa série televisiva, julgava ser pura invenção, a mãe revelou-se esclarecedora, e pus-me de orelha à escuta, olha filho vê a cintura pronunciada, o vestido a cair pregueado, introduziu uma enorme simplicidade no traje feminino, nada de anquinhas ou excessos de saiotes, olha para a fatiota dos homens, irá dar origem àquele tipo de casaca a vestuário que os homens vão usar nas academias ou até na diplomacia, durante muito tempo. E, como verás adiante, devido talvez à industrialização e à prosperidade, irá sofisticar-se, vais ver. Aproveitei para andar ali atrás, a meter o bedelho onde não era chamado.
Leques e outros acessórios distintivos – para quê mais comentários? Aquele do meio, se não fizer falta ao museu, fica em minha casa em regime de comodato…
Do estilo império passou-se para o romantismo, a atração greco-romana diluiu-se, arredondaram-se as saias, se necessário recorria-se a enchumaços, há o tufado das mangas. A mãe do jovem falava nos tempos de Camilo Castelo Branco e lembrou-lhe o filme de Jane Eyre, ele disse prontamente que sim. Apeteceu-me tirar uma imagem para contrastar os dois estilos de moda, é capaz de surtir efeito.
Não me canso de louvar o estado de conservação desta casa, miro as paredes de alto a baixo, contemplo os estuques, não são motivo para ficar embasbacado, mas ao menos fica-se satisfeito de ver tudo bem mantido, os vidros da bandeira por cima desta porta dão sinal de velhice, bons tempos em que se usavam estes espelhados, é melhor deixá-los assim.

Importa não esquecer que este museu já foi palácio, vamos prosseguir a viagem indo até à capela, depois até ao século XX, então sim, saímos até ao pátio para ver uma interessante mostra do uso da cobertura na cabeça consoante o estatuto social e o papel ocupado pelos leques nos últimos séculos. Tudo feito sem alarde, mas com rigor e segurança dos comentários expostos.

Gostei e recomendo.

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 6 DE NOVEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22694: Os nossos seres, saberes e lazeres (475): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (16) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22714: Parabéns a você (2003): José Manuel Lopes, ex-Fur Mil Art da CART 6250/72 (Mampatá e Colibuia, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 10 de Novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22703: Parabéns a você (2002): Jorge Araújo, ex-Fur Mil Op Especiais da CART 3494/BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/74)

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Guiné 61/74 - P22713: Blogpoesia (757): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (5) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

1. Em mensagem de 4 de Novembro de 2021, o nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845 (Teixeira Pinto, 1968/70) mandou-nos um trabalho em quadras onde refere os nomes das Operações em que o seu Batalhão participou. Publica-se hoje o quinto poste da série. Lembremos a sua mensagem:

Bom dia Carlos
Em primeiro lugar obrigado por me ires aturando.
Hoje, envio mais coisas minhas pois, lembrei-me das Operações e Missões e dos nomes que lhe davam.
Um Abraço para todos, em especial para os Chefes de Tabanca
Albino Silva



OPERAÇÕES E MISSÕES

Batalhão de Caçadores 2845


Vinte e três sessenta e sete
Que também foi massacrada
Com Honras do Batalhão
Que bem mereceu ser Honrada.

Vinte e três sessenta e oito
De valentia e coragem
Muito bem no Batalhão
Era também sua imagem.

Com pelotões destacados
Onde estava o inimigo
Com desprezo pela vida
Iam enfrentando o perigo.

E se havia feridos
Naquela guerra à caça
Fossem brancos ou negros
Era igual a raça.

O Batalhão sempre atento
Registando dia a dia
Também deu o seu louvor
Para esta companhia.

O Comandante Territorial
Compreendeu bem e então
Para além das Companhia
Deu Louvor ao Batalhão.

Um Batalhão competente
Em medo e em tantos dias
Representado tão bem
Pelas nossas companhias.

O Comandante vaidoso
Um Tenente Coronel
Homem de bem e amigo
Fora e dentro do quartel.

Se todos se lembram bem
Do Comandante porreiro
Do Tenente Coronel
Que era o Aristides Pinheiro.

Companhias operacionais
Companhias de caçadores
Companhias de valentes
Para todos um Louvor.

Nós todos que fizemos
Na Guiné a comissão
O nome ficou gravado
Lá no nosso Batalhão.

Todos nós fomos louvados
Nenhum foi posto de lado
Porque todos nós usámos
Na Guiné camuflado.

Fomos nós os corajosos
Numa terra que tremia
E cada um lutou bem
E sempre com valentia.

Se uns mais e outros menos
O fizemos com coragem
Pró Batalhão ser louvado
Nós éramos a sua imagem.

1968, 69 e70
Foram anos que marcaram
E uns contam aos outros
Aquilo que por lá passámos.

O tempo já vai distante
Já prontos a abandonar
Com nós entrando no Barco
Ficava a Guiné a chorar.

A nossa grande alegria
Foi sem dúvida o regresso
Há tantos anos que foi
Mas a Guiné não esqueço.

Sei que há mais como eu
Da Guiné não esquecer
Por me lembrar tanto dela
Estou por ela a escrever.
(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 DE NOVEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22708: Blogpoesia (756): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (4) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

Guiné 61/74 - P22712: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (78): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2021

Queridos amigos,
É num ambiente de perplexidade, e num lapso de dias, que Paulo Guilherme é novamente confrontado com manifestações de racismo, em proporções violentas. Demorará muitos anos a perceber qual o fermento daquele ódio escondido, de que ninguém ali fala, na Guiné a ferro e fogo, ouve as mensagens veementes do governador e comandante-chefe que diz que a Guiné é para os guinéus, aqui e acolá apercebe-se que há hostilidades contidas, sabe Deus a que custo. São dois episódios inesperados que aqui se narram, o segundo ficará atamancado até ao jovem oficial partir. Espera-se que tenha sido uma decisão assisada, a História veio alertar, aí por novembro de 1980, que o azeite não se mistura com a água, que há ressentimentos seculares que não se apagam só porque se encontrou um slogan de conveniência para usar como bandeira a unidade Guiné-Cabo Verde. A guerra de Paulo Guilherme está prestes a findar, ele regressará com esta inquietação, e persistiu em estudar o que escondia a cortina de silêncio a tanto rancor camuflado, até lhe descobrir a essência de agruras que demoram muito tempo a sarar.

Um abraço do
Mário



Rua do Eclipse (78): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Paulo mon adoré, estou ansiosa que venhas, pairo num torvelinho de saudades, não me sai da mente a ideia de que tu vens trabalhar para Bruxelas, não sendo prejudicado no tempo de reforma e de modo algum lesado no montante dos teus rendimentos, compreendo perfeitamente a tua preocupação em ajudar os teus filhos, sobretudo aqueles dois que têm trabalho precário. Percebi ontem, na nossa longa conversação telefónica, que aguardas a marcação da entrevista com o dirigente da Confederação Europeia dos Sindicatos, muito surpreendida fiquei quando ele te anunciou que o acompanharás numa conferência internacional a realizar em Estocolmo sobre os desafios do sindicalismo na vida quotidiana no quadro do alargamento comunitário.

É neste ambiente de expetativa que ao contrário de Penélope vou rendilhando os últimos tempos da tua comissão. Estamos, pois, num dia de chuva diluviana, convidaste o engenheiro da TECNIL para um repasto na messe dos oficiais, o mesmo é dizer em Bambadinca. Até agora, já vão algumas semanas, são conversas rápidas, cumprimentos formais, hostilidade zero, são duas peças na construção de uma estrada que se vai revelar extremamente importante, será um piso alcatroado que unirá uma área significativa do Leste da Guiné, tu garantes a segurança e ele manifesta-se pela sua competência na persecução das obras, não há laivos de intimidade. Quando me enviaste os apontamentos rabiscados do teor da conversa havida enquanto comiam fora de horas um bife com ovo estrelado acompanhado por um bom Vinho do Dão, tudo parecia estar a correr bem, lá fora chovia que Deus dava, até comentaste que nos baixos de Bambadinca já devia estar tudo inundado, descobriram os dois que tinham frequentado os mesmos cineclubes, tertúlias afins e quando chegaram às leituras teceram comentários a diferentes livros que tinham lido, tudo numa atmosfera de aprazimento, o cenário da guerra ficara noutra latitude e longitude.

E pediste para os dois cafés e uísque, estavam ambos nitidamente estimulados por interesses comuns desde os escritores existencialistas, passando pelo teatro de Tennessee Williams, inevitavelmente o cinema de Louis Malle, Visconti, Fellini, David Lean. De supetão, o confrade engenheiro dá guinadas na conversa e pergunta-te com um total descaro se tu tens consciência de que a guerra ainda não foi ganha devido a um conjunto de interesses que lesam a Pátria. Ficaste aturdido, parecias ter recebido uma picada que te impedia o raciocínio, mas lá voltaste ao diálogo lembrando que por uso e costume os militares não apreciavam com os civis os temas da guerra, daí não poderes responder. Ele continua a espicaçar-te, que tivesses à vontade, não havia ali ninguém com o ouvido à escuta, o tom de voz dele acalorava-se, o olhar era penetrante e então, de modo perentório, deu-te a saber que existia uma solução militar para acabar rapidamente com o conflito, os guerrilheiros apercebiam-se da nossa indecisão e carregavam com mais força. Foi a tua vez de redigires, recordando àquele senhor que não medias meças com aqueles que procuravam combater, os teus soldados guineenses eram inequivocamente valorosos. O senhor engenheiro perdeu as estribeiras, os portugueses brancos e estes pretos incapazes da Guiné não tinham fibra, o terrorismo alimenta-se dessa incapacidade, essa falta de vontade para vencer. Procuraste pôr termo à conversa, ele continuou a perorar, e é nisto que te atirou com um argumento que parecia um ferro em brasa, bastavam seis companhias de cabo-verdianos e em escassos meses a peste seria erradicada.

Paulo, meu adorado amor, eu posso imaginar o que te custou escreveres este pedaço das tuas memórias, pedindo-me para pôr em letra de forma, sem tirar uma vírgula, o senhor engenheiro, quando lhe perguntaste como era possível um efetivo de seis companhias bater todo aquele território e afugentar para todo o sempre a guerrilha, ele parecia de cabeça perdida, gesticulava de pé que para todos aqueles guerrilheiros se tinha que adotar uma solução final, tudo morto, fosse qual fosse a idade, com lança-chamas, à granada, com faca de mato, regando com petróleo, ninguém ficaria para contar a história.

Tomei nota do que escreveste no fim do teu texto, estavas hirto, bailava-te no pensamento todos os outros momentos em que viras escancarado um racismo que te era incompreensível, demoraste muitos anos a perceber que a presença cabo-verdiana agudizara o relacionamento, quem chegava vinha para mandar, vigiar e punir, eram parte firme da classe dirigente local, mandantes dos colonos que, regra geral, não possuíam saúde e até cultura como aquela gente do arquipélago. E também só muitos anos mais tarde é que te foi dado perceber como aquela unidade Guiné-Cabo Verde, sempre matraqueada pelo pai fundador do PAIGC, era pouco mais do que uma bola de sabão embora um excelente argumento para atrair cabo-verdianos revolucionários numa guerrilha onde havia bons combatentes, mas falta de quadros. Mas como tu dizes, ainda faltava um último teste, que chegou dias depois, quando, regressado de mais uma coluna ao Xitole, alguém avançou para ti em alvoroço, dizendo-te que tinhas no teu quarto o substituto, pois bem, mais sentado que deitado numa cama estava um jovem cabo-verdiano que te recebeu com um sorriso jovial, por sorte não revelaste o teu estonteamento, conversaram amenamente, pediste licença para te banhar e mudar de roupa, e depois iriam dar uma volta para se conhecerem melhor. É neste entretanto que um dos teus soldados apareceu esbaforido a dizer que o pelotão exigia um encontro urgente com o nosso alfero, era assunto muito sério que não podia ser postergado, enquanto lavavas o corpo ias deitando contas à vida dos graúdos problemas que se avizinhavam.

Como aconteceu, mudaste de farda, lá foste ao encontro dos teus homens, por detrás da escola encontraste gente furibunda, ouviste das boas, tinhas muita prosápia quando falavas no amor àquela terra e àquelas gentes e fazias-te agora substituir por um cabo-verdiano, em toda a Bambadinca já se sabia que tinha chegado mais um encarregado dos colonos brancos para lhes dar porrada, vai falar com o comandante, nem te passe pela cabeça que vais para a tua terra e ficamos entregues a alguém que sempre nos tratou a chicote.

Enquanto eu escrevia estas notas que tu alinhavaste, procurava entender o pesadelo que representava a chegada do teu substituto, como seria possível descalçar a bota. São estes os apontamentos que nestas noites de vigília, enquanto aguardo a chegada do homem mais amado do mundo que muito provavelmente vem tomar conta da minha vida na Rua do Eclipse, vou redigindo, mas sempre com a perceção que esta comissão que tiveste na Guiné se prolongou como um fogo adormecido. Vamos ver adiante se tenho ou não tenho razão. Bisous milles enquanto aguardo o telefonema a anunciar a tua chegada, Annette.

(continua)


Coluna auto deslocando-se de Bambadinca para o Xime, nas proximidades de Ponta Coli, imagem do blogue
Trabalhos de construção da estrada Xime-Bambadinca, com a sede do batalhão ao fundo, imagem do blogue
Imagem da messe dos oficiais em Bambadinca, ao tempo em que se deu o almoço mirabolante em que se começou na nostalgia das incursões culturais lisboetas e se acabou numa cena de ódio
A messe de Bambadinca depois da independência, imagem do blogue
O último jantar em Bambadinca, agosto de 1970
A LDG Alfange, nela se viajará até Bissau, a partir do Xime, ficou a mágoa da despedida a toda aquela fidelidade inquebrantável
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Nota do editor

Último poste da série de 5 DE NOVEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22689: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (77): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P22711: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XIX: As hortinhas... dos "durões"


Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351 (1972/74 > Da Esquerda para a direita os agricultores improváveis: Furriel Machado, 1.º Cabo José Carlos e Alferes Afonso.  



Foto nº 2  >  Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351 (1972/74 > A hortinha do José Carlos, estrategicamente plantada junto aos nossos chuveiros aproveitando a rega automática.

Fotos (e legendas): © Joaquim Costa  (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




O ex- furriel mil Joaquim Costa: natural de V. N. Famalicão,
vive hoje em Fânzeres, Gondomar, perto da Tabanca dos Melros.
É engenheiro técnico reformado.
Tem quase pronto o seu livro de memórias (, a sua história de vida), 
de que estamos a editar alguns excertos, por cortesia sua.


Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) (*)


Parte XIX - AS HORTINHAS... DOS “DUROS” DO CUMBIJÃ


Fartos de arroz com estilhaços e ração de combate, muitos procuravam por todos os meios encontrar suplementos alimentares para aguentar melhor a dureza da guerra.

Muitos recorriam aos familiares da metrópole que lhes enviavam vitaminas, chouriços, alheiras e até maranhos! Chegava já tudo (o que chegava!) estragado, mas não se desperdiçava nada!

Outros, mais à japonesa: Ensina a pescar, não ofereças o peixe... recebiam sementes de couve, tomate, alface, etc, construindo as suas próprias hortinhas.

Talvez devesse ocultar toda esta história que pode afetar, indelevelmente, a reputação destes três duros do Cumbijã, plantando hortinhas em pleno teatro de guerra!!!… A verdade sobre a guerra colonial assim o exige!

A Horta do Machado – Cientificamente perfeita (ou não fosse ele Engenheiro Técnico Agrário). Foram estudadas as correntes de ar, a exposição solar, a humidade da terra bem como o seu PH;

A Horta do Afonso – Toda ela construída tendo por base uma brochura, que lhe enviaram de Miranda do Douro (escrito em Mirandês para ninguém copiar), com o título: Hortofloricultura para principiantes.

A Horta do Zé Carlos – Construída com base no saber popular, passado de pais para filhos, bem como das informações do Borda d’água... em Crioulo.

Reconheço que só provei as alfaces do Afonso. Estas eram colhidas já lavadas, desinfetadas e temperadas, dado a rega diária feita pelos soldados que justificavam o gesto com a falta de latrinas (justificação que também aproveitei!).

Presumo, contudo, que as melhores, tendo em conta o método utilizado, seriam, obviamente, as do Zé Carlos, por ser as que mais se aproximavam do que hoje se designa de agricultura biológica.

Quem passava ao lado destas “picuinhices” (cheguei a escrever “mariquices” que logo apaguei já que hoje é proibido e, bem, utilizar este termo na tropa…) das hortinhas era o Albuquerque que muitas vezes me convidou para comer uma sopinha feita por ele, com muita hortaliça.

Recebia frequentemente sopas instantâneas “Maggi”, enviadas com muita ternura e amor pela sua Mãezinha.

Eu ficava maravilhado com aquilo. Aquecia-se a água, com o álcool e algodão do Caetano, deitava-se para dentro do tacho (creio que uma lata) a “mistela” do saco, e, quase por milagre, apareciam couves, cebolas, cenouras... Isto em 1973, nas matas da Guiné! Só de fidalgos!

Ao Albuquerque tenho-lhe uma gratidão enorme, pois que, para além dos convites para jantar e da grande cumplicidade no comando do 1º pelotão, foi quem mais agastado ficou com as pequenas, para ele grandes, injustiças que nestes contextos sempre acontecem, assumindo as dores... e a vergonha alheia. Este homem é grande. Sempre de coluna direita!



Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > CCAV 8351 (1972/74 >   Os três magníficos furriéis do 1.º pelotão (mais tarde, eu  fui deslocado para o 2.º): Albuquerque (o condutor); Costa (primeiro da esquerda do banco de trás); Azambuja Martins (também no banco de trás) e o meu amigo que frequentou o Colégio Interno das Caldinhas (Santo Tirso) do 4.º pelotão. O jipe pertencia ao BENG  447.

(Continua)
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Guiné 61/74 - P22710: Manuscrito(s) (Luís Graça) (207): Parabéns, querida "abobrinha", ao km 2 da tua estrada da vida!



Lourinhã > Festival da Abóbora e Mostra Urbana de Dinossauros > Praça D. Lourenço Vicente > 31 de outubro de 2021 > Lourinhanosaurus > A Clarinha, de costas, e de "abobrinha" na cabeça,  "medindo" o lagarto da Lourinhã, com cerca de 4,5 metros de comprimento. Era um dinossauro terópode carnívoro que viveu durante o Jurássico Superior (c. 150 milhões de anos).  A Clarinha  adora dinossauros e já foi visitar o DinoParque da Lourinhã. (Fotos tiradas em fim de tarde e em dia de chuva.)

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

O sonetos dos 2 anos, 24 meses, mais de 720 dias. 17280 horas... 
Adaptado da contracapa do livro, "Poemário da Clarinha", de Luís Graça (2021)


POEMÁRIO DA CLARINHA 

coletânea de textos poéticos

dedicados pelo autor à sua primeira neta

Clara Klut Graça,

mensalmente,

nos dois anos iniciais da sua vida,

comemorando o seu nascimento

e selando outros momentos

 e eventos significantes

para a sua história


TÍTULO: POEMÁRIO DA CLARINHA | EDIÇÃO: AUTOR | ANO: 2021 | Nº DE PÁGINAS: 52 | TIRAGEM: 50 EXEMPLARES 


POSFÁCIO

(nota de fecho de um livro sempre aberto)


Poemário da Clarinha: dois anos de vida e uma pandemia (2019-2021)

Este livrinho é uma homenagem à Clara Klut Graça, aos seus pais, aos seus avós e a todos aqueles que a amam. Viemos propositadamente ao Funchal, seus pais, de Lisboa, e seus avós paternos, da Lourinhã, para festejar o seu 2º aniversário.

 A Clarinha tinha acabado de nascer às 6 da manhã do dia 12 de novembro de 2019 e logo o avô Luís lhe fez, duas horas depois, os primeiros versinhos a saudar a sua vida ao mundo. Que leu, em voz alta, para ela, a mamã e o papá, no Hospital da Luz, nesse mesmo dia.

Depois ficou a promessa de lhe continuar a fazer uns versinhos todos os meses, celebrando o milagre da vida e do amor. E a promessa manteve-se, até hoje.

Quando a Clarinha começou a conhecer mundo, veio a pandemia de Covid-19 e os nossos contactos ficaram muito mais limitados. Os versinhos, em cada dia 12 do mês, acabaram por se tornar num ritual. De início, matávamos as saudades por videochamada ou visitas de carro, à distância. Logo em 19 de março de 2019 veio, com os pais, à Lourinhã para dizer adeus aos avós. Da rua para a varanda do 3º andar. Em abril, já passou uns dias em Candoz. Em junho e julho fez as primeiras férias no Funchal e Porto Santo. Na Madeira, vivem os seus avós maternos, os Câmara e os Klut, bem como tios e primos. Já lá foi várias vezes e adora viajar de avião.

E depois foi o seu desenvolvimento normal como qualquer bebé. Com oito meses já se sentava. Em outubro, a mamã voltou ao trabalho e a Clarinha foi para o berçário (e depois infantário) … Começou a falar por volta dos 16 meses, em março de 2021. Em abril voltou a Candoz. Dormiu, pela primeira vez, em casa dos avós, em Alfragide, em julho de 2021. Passou pelo Algarve em setembro, e começou a andar aos catorze meses… Aos dezasseis já tinha o seu léxico próprio…

Até aos quatro meses, o avô-poeta usou a quadra popular, de sete sílabas métricas (ou poéticas). A partir de abril de 2020, ousou aventurar-se pelo soneto (composto de 14 versos, divididos em quatro estrofes, subdividindo-se por sua vez em dois quartetos e dois tercetos). Dá preferência ao verso com 10 (decassílabos ou heroicos) ou 12 sílabas poéticas (dodecassílabos ou alexandrinos)…   

Fica aqui o resultado destas gracinhas poético-sentimentais… sobretudo para ela mais tarde recordar ou redescobrir.  Quando a Clarinha souber ler e escrever, talvez ache alguma graça a estes versinhos, que foram feitos com muito ternura e amor (e, às vezes, em noites claras, quando o avô-poeta, sem sono, contava carneirinhos). Para os seus pais, avós e demais família e amigos, é também uma forma de refrescar as suas melhores memórias deste tempo que parece ter passado tão depressa (apesar da pandemia), agora que a Clarinha entra no ANO III da sua vida.

Funchal, 12 de novembro de 2021.

O autor e avô, Luís Graça

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Nota do editor:

Último poste da série > 2 de novembro de  2021Guiné 61/74 - P22681: Manuscrito(s) (Luís Graça) (206): A tradição do pão-por-deus, no tempo em que as criança não eram mimadas mas eram reizinhos por um dia...

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Guiné 61/74 - P22709: Memória dos lugares (429): Formosa és tu, Cacela... (Poema e fotos do Eduardo Estrela, ex-fur mil at inf, CCAÇ 14, Cuntima e Farim, 1969/71)



Vila Real de Santo António > Cacela Velha > 8 de novembro de 2021, ao pôr do sol

Texto e Fotos (e legendas): © Eduardo Estrela (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1.Mensagem do nosso amigo e camarada Eduardo Estrela (ex-fur mil at inf, CCAÇ 14, Cuntima e Farim, 1969/71;  vive em Cacela Velha, (en)cantatada por Sophia, e que pertence a Vila Real de Santo António

Data - segunda, 8/11, 18:43
Assunto - Cacela Velha

Companheiro!

Mando-te um poema da minha lavra. Uma homenagem à terra onde vivo e tem sido cantada por tantos e grandes poetas.

As fotografias que junto foram feitas há 1 hora e 45 minutos. A que tem casario integrado é o lado nascente da aldeia. A outra, onde surgem pequenos barcos, é do lado poente. Um grande abraço, Eduardo Estrela.

Formosa és tu,  Cacela!

Dás nome à ria que te beija os pés
e onde no espelho das suas águas
derramas tua beleza.

Descansas os teus olhos
no azul do mar
e ouves as canções de amor
que ele te compõe.

Nas noites calmas
adormeces nos braços ternos
da brisa do luar
e sonhas com a luz que o sol trará
num novo dia.


Eduardo Estrela
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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de outubro de 2021  > Guiné 61/74 - P22642: Memória dos lugares (428): Dunane, destacamento de Canquelifá, região de Gabu

Guiné 61/74 - P22708: Blogpoesia (756): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (4) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

1. Em mensagem de 4 de Novembro de 2021, o nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845 (Teixeira Pinto, 1968/70) mandou-nos um trabalho em quadras onde refere os nomes das Operações em que o seu Batalhão participou. Publica-se hoje o quarto poste da série. Lembremos a sua mensagem:

Bom dia Carlos
Em primeiro lugar obrigado por me ires aturando.
Hoje, envio mais coisas minhas pois, lembrei-me das Operações e Missões e dos nomes que lhe davam.
Um Abraço para todos, em especial para os Chefes de Tabanca
Albino Silva



OPERAÇÕES E MISSÕES

Batalhão de Caçadores 2845


Nós fizemos Guardas de Honra
Cumprimos sem rejeitar
Missões que foram impostas
Nosso Batalhão Honrar.

Elogios às companhias
Do Batalhão que merece
Companhias operacionais
E também a CCS.

Mas o Batalhão feliz
Pelo êxito alcançado
Disse a todas as companhias
Cumpriram bem. Obrigado.

Pela bravura nas lutas
Pelo sangue frio até
Das lágrimas que nós choramos
Na guerra lá Guiné.

Cinquenta anos passados
Com os traumas e cansaços
Das mazelas e desfeitos
E muitos com estilhaços.

Nós fomos heróis do mar
No Niassa navegámos
O Niassa que nos levou
No Niassa regressámos.

Nobre povo também fomos
E lutámos como tal
Com nossas armas fizemos
Nação valente e imortal.

Pela Pátria combatemos
Às Armas também gritámos
Num Batalhão corajoso
Contra canhões nós lutámos.

Andar na Guerra era duro
Era obrigatório andar
E nosso outro inimigo
Era não poder falar.

Tantos combates tivemos
No Ultramar combatemos
Tantas lutas nós ganhámos
Tantas lutas que perdemos.

A comissão na Guiné
Estava quase a acabar
E antes de virmos embora
Alguém nos ia louvar.

O Comando Territorial
Ia louvando então
Bom serviço prestado
Do nosso querido Batalhão.

A Vinte e três sessenta e seis
Teve mais que um louvor
Por contactos com o inimigo
Quando estavam no setor.

Se tiveram operações
Se não tivessem também
Iam pró mato à mesma
Sem dizer nada a ninguém.

Os louvores foram dados
Pelo Ronco que fazia
E o Batalhão lá dizia
Que esse louvor merecia.

Vinte e três sessenta e sete
Deixou bem a sua imagem
Que louvada foi também
Por toda a sua coragem.

Pela sua dedicação
O Batalhão não esqueceu
Que esta sua companhia
Por sofrer também mereceu.

Pelo trabalho e luta
E sacrifícios sem fim
Em tantas zonas de perigo
Sempre em matas e capim.
(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de Novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22704: Blogpoesia (755): Operações e Missões, e dos nomes que lhes davam (3) (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845)

Guiné 61/74 - P22707: A nossa guerra em números (4): Cada militar necessitava em média, por mês, de 240 kg de abastecimentos (no essencial, víveres e artigos de cantina, mais de 70%)... O consumo "per capita" mensal de outros artigos era o seguinte: 50 kg de combustíveis; 4,4 kg de munições; 3,1 kg de medicamentos; 1,6 kg de correio... E, miséria das misérias, tínhamos direito a... 520 gramas de víveres frescos por dia!


Guiné >  Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > Estrada Bambadinca - Mansambo - Xitole > Coluna logística: uma viatura civil, transportando cunhetes de granadas e, em cima, pessoal civil. Dizia-se que as nossas GMC, "do tempo da guerra da Coreia", gastavam "100 aos 100"... Não admira, por isso, que o consumo "per capita" mensal, de combustível, fosse de 50 kg numa companhia normal de 160 homens... Em contrapartida, o consumo diário de frescos não ia além dos 500 gramas (15 kg por mês e por homem)...

Foto (e legenda): © Humbero Reis (2006).  Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

 1. Muitos de nós gastámos  uma boa parte da nossa energia juvenil a abastecer-nos uns aos outros... Ainda periquito, participei (eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12), no 2º semestre de 1969, em diversas colunas logísticas, fornecendo-lhes a segurança, de Bambadinca até ao Saltinho (via Mansambo e Xitole, mas também via Galomaro), e fazendo chegar às companhias em quadrícula do Sector L1 os "comes & bebes", mas também os artigos de cantinha, os combustíveis, os lubrificantes, as munições, o fradamento e calçado, os medicamentos, o correio, etc., indispensável à organização, funcionamento e manutenção da máquina de guerra... Chegou-se a ter que fazer em dois dias um percurso de 60 km, com vituras civis e militares que, no tempo das chuvas, ficavam facilmente "atascadas"...

Sabe-se que uma companhia (160 homens, em média) precisava de cerca de 40 toneladas de abastecimentos por mês (880 tonelados ao fim de uma comissão de 22 meses)...  

Discriminam-se a seguir, por tipologia de abastecimento, os respetivos valores por mês (em percentagem do total e em quilogramas) (*)

(i) 38,7 %; víveres (alimentação): 14,5 mil  kg, sendo 12 mil kg de víveres secos, e 2,5 mil kg de víveres frescos:

(ii) 34,7%: artigos de cantina (cerveja, tabaco, higiene, papelaria, etc.): 13 mil kg:

(iii) 21,4%: combustíveis (gasóleo, gasolina, petróleo): 8 mil kg;

(iv) 1,6%: munições:  700 kg;

(v) 1,3%: medicamentos; 500 kg:

(vi) 1,1%:  lubrificantes (óleo para viaturas e armamento, etc.): 500 kg;

(vii) 0,7%: fardamento e calçado: 300 kg;

(viii) 0,5%: correio: 250 kg.

Total= 100% | 37750 kg (a dividir por 160 homens=235,9 kg).

O pormenor do correio é relevante: cada um de nós "consumia" em média, por mês,  c. 1,6 kg de cartas, aerogramas, vales postais, telegramas e encomendas... É (era) obra!... É(era) muito papel. 

Mas também cada homem gastava 3,125 kg de medicamentos... (que na altura, ou pelo menos entre 1962 e 1969, eram de fabrico nacional). Sem esquecer, os 1,9 kg de fardamento e calçado.

Já o consumo "per capital" mensal de munições ia para os 4,375 kg. E o de combustível subia, naturalmente, para os  50 kg, abaixo dos 81,250 kg dos artigos de cantina... e dos 90,6 kg de víveres (3 quilos por dia/homem).

Last but not the least, só tínhamos direito a pouco mais de 500 gramas de víveres frescos por dia (2500 kg mês /160 homens= 15,625 kg / 30 dias= 520 gr por dia / homem). 

Parte destes víveres chegavam por via aérea (o DO-27 que trazia o correio, também largava, com sorte, umas caixas de ovos e pouco mais, não sabendo nós o que a Intendência entendia por "víveres frescos": talvez algumas batatas, cebolas e cenouras, que  o frango e o peixe, esses,  eram congelados, ou em conservas (o peixe), o leite era condensado, os legumes (feijão, grão...) eram secos, o bacalhau liofilizado, o tomate em calda, a fruta enlatada... e a carne de vaca só em dia de anos do capitão ou da companhia... 

PS - Não vejo onde estejam, nestas contas, os materiais de construção (cimento, areia, ferro, chapa, madeira, pregos, etc.). Provavelmente os custos eram imputados ao Batalhão de Engenharia (BENG 447, no caso da Guiné). E, por outro, as necessidades eram variáveis, de companhia para companhia.

(*) Fonte:  adapt. de  Pedro Marquês de Sousa, "Os números da Guerra de África". Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pp. 281 e 284. Com a devida vénia...
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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de novembro de  2021 > Guiné 61/74 - P22702: A nossa guerra em números  (3): mal comidos, mal pagos, mal vestidos...