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quinta-feira, 5 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos do Nilo, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que não existiam na Guiné nem no resto da África).


Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em 6 de fevereiro de 1969, aquando do "desastre" do Cheche, no rio Corubal, na região do Boé, no sudeste da hoje Guiné-Bissau, havia crocodilos naquele troço ? É uma dúvida que subsiste.

 Os corpos dos 47 náufragos não foram encontrados, a não ser apenas 11, duas semanas depois, em estado de decomposição e totalmente irreconhecíveis.

Da consulta que fizemos a várias ferramentas de IA, pudemos apurar o seguinte:

Sim, historicamente houve (e ainda há) crocodilos no sistema do rio Corubal, na Guiné-Bissau. A sua presença atual pode variar conforme a espécie e a zona do rio. Eis o que, no essencial, se sabe com base em estudos e observações científicas e naturais:

(i)   Contexto histórico e ambiental

Na década de 60, a fauna na região do Boé era extremamente rica e selvagem. A região era pouco povoada. A menor densidade populacional humana em comparação com o litoral favorecia a permanência de grandes mamíferos (do leão ao elefante, do hipopótamo ao chimpanzé).

A Guiné-Bissau ainda possui populações de crocodilos de água doce ou de pequenas espécies de crocodilianos em muitos dos seus grandes cursos de água, lagoas e zonas húmidas, incluindo cursos como o rio Geba, Cacheu e zonas do parque de Lagoas de Cufada, que está ligado ao Corubal.

 O rio Corubal é um dos principais rios da Guiné-Bissau e, como muitos rios da região, faz parte de um ecossistema que tradicionalmente abrigou crocodilos, especialmente o crocodilo-africano (Crocodylus niloticus).
 
Os crocodilos são nativos da África Ocidental e eram comuns em rios, lagos e zonas húmidas da Guiné-Bissau, incluindo o rio Corubal. No entanto, a sua população tem vindo a diminuir devido à caça, perda de habitat, alterações climáticas e conflitos com humanos.

A presença de crocodilos no rio Corubal, particularmente na zona do Cheche (região do Boé), era um facto bem conhecido e documentado nos anos 60/70.

Muitos relatos de militares portugueses que operaram no setor de Madina do Boé e no atravessamento do Cheche mencionam o perigo  dos crocodilos, tanto durante patrulhas e "cambanças". Falta, no entanto, documentação fotográfica.
 
O Cheche ficou tragicamente marcado na historiografia da Guerra do Ultramar. Durante a operação de retirada de Madina do Boé, no dia 6 de fevereiro de 1969, a jangada que transportava as tropas adornou no rio Corubal,  em Cheche.

Embora a maioria das mortes (47 homens, 46 militares e 1 civil ) tenha ocorrido por afogamento devido ao peso do equipamento e à forte corrente do rio, o medo dos crocodilos
terá sido também um fator psicológico adicional para os sobreviventes que tentavam alcançar as margens ou voltar  à jangada.

A presença destes animais continua a ser uma característica da região até aos dias de hoje, sendo o Boé uma das zonas de maior importância para a conservação da vida selvagem na Guiné-Bissau.


(ii) Observações em zonas próximas ao Corubal:

O Corubal, depois do Geba, é o maior rio de água doce da Guiné-Bissau.Nasce nas redondezas da cidade de Lélouma, no maciço de Futa Djalon, na Guiné-Conacri, e desagua no rio Geba, na margm esquerda, a cerca de 50 quilómetros a montante de Bissau. Tem um comprimento de 560 km, É considerado o rio mais selvagem da Ãfrica Ocidental.

O turismo e os guias locais mencionam a presença de crocodilos no Parque Natural das Lagoas de Cufada, que inclui partes das margens e afluentes do rio Corubal e dos seus sistemas.

O Corubal, devido às suas características geográficas (margens íngremes em certas zonas, correntes fortes e áreas de águas mais paradas e profundas), constituía um habitat ideal para estes répteis.

A região do Boé, perto da fronteira com a Guiné-Conacri, é conhecida pela sua biodiversidade e pela presença de zonas húmidas que, historicamente, seriam habitats adequados para crocodilos, hipopótamos e outros animais, répteis, mamíferos, aves.

Há relatos de avistamentos de crocodilos no rio Corubal, embora a sua presença atual possa ser menos frequente do que no passado, devido aos fatores mencionados acima.


(iii) Estudos científicos modernos

Um estudo recente de distribuição de crocodilos em Guiné-Bissau registrou presenças de crocodilos em vários rios importantes e lagoas, incluindo evidências (observações, pistas ou informações locais) em áreas como o rio Corubal e seus afluentes.

Um estudo que usou eDNA (técnica de detecção de DNA no ambiente) ao longo do rio Corubal não detectou crocodilos diretamente nos locais da amostragem, apesar de se saber que eles existem na região. Isso pode dever-se à limitação dessa técnica ou ao facto de os crocodilos estarem presentes principalmente em zonas marginais, lagoas ou áreas sazonais menos amostradas.

(iv) Espécies

As espécies mais comuns eram (e são) o Crocodilo-do-Nilo (Crocodylus niloticus), que pode atingir grandes dimensões (no rio Cacheu), e o crocodilo-anão africano (Osteolaemus tetraspis) (sobretudo em zonas húmidas e lagoas ligadas ao rio Corubal).

Também é referido o Crocodilo-de-focinho-delgado (Mecistops cataphractus)

(v) Outros rios: Cacheu

É uma das zonas com mais crocodilos do país O rio Cacheu atravessa uma vasta área de mangais e estuários, hoje protegida como Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que contém um dos maiores blocos contínuos de mangal da África Ocidental. 

Esse habitat é muito favorável aos crocodilos. Os mangais, águas calmas e abundância de peixe. criam condições ideais para populações relativamente densas desses répteis.

É também onde há mais relatos de ataques. Vrios estudos e registos indicam que os ataques documentados na Guiné-Bissau aparecem frequentemente na região do Cacheu. Um estudo recente menciona inclusive um ataque a um pescador no rio Cacheu em janeiro de 2025.

A mesma investigação sugere que os ataques atribuídos historicamente a crocodilos na região podem envolver o crocodilo-do-Nilo, espécie maior e potencialmente mais perigosa. Há vários fatores: (i) grande população de crocodilos nos mangais: (ii) muita interação humana com o rio (pesca, transporte em canoas, lavagem, banho); (iii) águas turvas e margens baixas, ideais para emboscadas; (iv) tabancas ribeirinhas dentro da área protegida.

Ou seja, o problema não é só o número de crocodilos, mas o contacto diário com eles. Mas o rio Cacheu não é o único rio perigoso;  há também o Geba, o Cacine, o Grande de Buba... Só que o Cacheu é frequentemente citado porque combina densidade de crocodilos com população humana ribeirinha (o que não acontece no Corubal, que atravessa, ou atrevassa, no passado, zonas maia despovoadas, nbomeadamente no Boé).


Conclusão

Sim, há evidências de que crocodilos vivem ou já foram observados nas margens e zonas alagadas do rio Corubal e áreas adjacentes na Guiné-Bissau.

Em 1969, existiam, pois, crocodilos no rio Corubal, incluindo na zona de Cheche, e eram reconhecidos como um perigo potencial para quem frequentava o rio, especialmente em zonas de travessia e margens. 

Durante a guerra colonial, vários ex-combatentes portugueses mencionaram a presença de crocodilos nos rios da Guiné-Bissau, incluindo o Corubal, embora não haja registros científicos detalhados sobre a zona do Boé.

Não há relatos específicos de ataques a humanos em Cheche nesse ano de 1969, mas a sua presença e reputação como "comedores de homens" eram bem conhecidas entre os militares, guias e populações locais.

A sua presença pode não ser uniforme por todo o rio e pode ser mais frequente em zonas lentas, lagoas laterais e ambientes húmidos associados ao sistema fluvial. A detecção direta moderna em alguns trechos pode ser difícil devido a fatores ambientais e métodos de amostragem.

(Pesquisa: LG + IA  (Gemini | Le Chat Mistral | ChatGPT)

 (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > 7 de junho de 2022 > Crocodilo-do-Nilo (Lagarto, em crioulo) (Crocodylus nilotcus)... Está protegido por lei... Pode atingir os 7 metros de comprimento... e atacar o homem.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de Biombo >  s/l  > s/d  (c-. 2009) > O crocodilo da Praia do Biombo 

Foto (e legenda):  © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > São Domingos > Novembro de 2015 > Captura de dois crocodilos "assassinos" no rio Cacheu... Um deles foi exposto numa árvore, juntando uma multidão de curiosos...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. .[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 4 > Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (1970/72), o alf mil médico Vilar (popularmente conhecido como o "Drácula", mais tarde psiquiatra) e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca) com um crocodilo juvenil do rio Geba Estreito...
 
Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

O Polidoro Monteiro, já falecido, gostava de caçar. Incluindo à noite, utilizando os faróis do jipe, na orla da pista de Bambadinca. Lembro-me dele como tendo sido o único oficial superior que andou connosco (CCAÇ 12), a penantes no mato (pelo menos, uma vez, quando se foi inteirar dos seus domínios, o sector L1; veio de Bissorã e era considerado um spinolista, mesmo sendo de infantaria).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Na Guiné, no meu tempo (1969/71), a malta não tomava banho à vontade nos rios, por muitas razões, a começar pelas de saúde e segurança... E, claro, o medo de répteis em geral e crocodilos, em particular... Herpetofobia, é o palavrão...

Sabemos que não havia "jacarés" em África (só no Novo Mundo), mas os crocodilos estavam no nosso imaginário quando lá chegávamos... Para o "tuga", crocodilo ou jacaré era tudo o mesmo... 

Parece que o Crocodylus niloticus sofreu uma redução drástica, na África Ocidental, desde há dois séculos, com o colonialismo e a pressão humana (caça, procura da pele, redução do habitat, poluição, etc.). E terá desaparecido de muitos rios da África Subsaariana.

Mas será que ainda havia crocodilos em todos os rios da Guiné, no nosso tempo? Os restos mortais dos nossos infortunados camaradas que caíram ao rio Corubal, em Cheche, terão sido também devorados por crocodilos? Há relatos, no blogue, de cadáveres que foram recuperados (no Geba e no Corubal), parcialmente mutilados...

Em anos mais recentes, o rio Cacheu tem sido notícia por más razões, as do eterno conflito entre a vida selvagem e as comnunidades humanas ribeirinhas... 

No rio Cacheu um habitat de crocodilos de grande porte, tem sido reportados e documentados ataques esporádicos daqueles réptéis, quer pelos habitantes da região quer pela imprensa de Bissau. E pelo nosso Patrício Ribeiro, o "tuga" que melhor conhece a Guiné (vd. fotos nºs 1, 2, e 3).

Por outro lado, os rios da Guiné, de águas barrentas e margens indefinidas (no tempo das chuvas), metiam respeitinho, sobretudo quando a malta fazia uma "cambança" de canoa... Cair-se ao rio era quase morte certa...

Enfim, vamos ver o que as diferentes ferramenta de IA nos dizem a respeito destes bichos feios e predadores, mas raramente visíveis por nós (ambos, "criaturas de Deus", diria o São Francisco, que nunca deve ter visto a mandíbula de um crocodilo-do-Nilo). 

Tal como os hipopótamos, que os havia no rio Corubal, no meu tempo (1969/71)... Mas esses faziam-se notar à distância, pelos seus urros... 

Comecemos por este "juvenil" de crocodilo da foto nº 4, freguês do Mato Cão, onde fomos muitas vezes (e onde, depois em finais de 1971/princípios de 1972, será montado um destacamento, por onde passaram alguns dos nossos grão-tabanqueiros). 

Confesso que nunca lá vi nenhum crocodilo, no Mato Cão. Nem tinha nem vagar para os observar. Mas o crocodilo era como o "Zé Turra", hábil no engenho e na arte de se camuflar e furtar ao contacto do "Zé Tuga", mesmo que estes dois pertencessem à mesma Ordem, a dos Primatas, e à mesma Espécie, a do Homo Sapiens Sapiens. A espécie que está no topo dos grandes predadores.


Pergunta à IA:  Crocodylus niloticus ou Osteolaemus tetraspis ? Juvenil, apanhado em 1971 no rio Geba Estreito, no Mato Cão (sujeito às marés, logo, água salgada) (foto nº 4)


Responde  a "menina IA"  ( europeia,  Le Chat / Mistral):

A espécie de crocodilo na imagem, apanhada em 1971 no rio Geba Estreito (Mato Cão, Guiné-Bissau), e que o nosso Paulo  Santiago segura, pela mandíbula superior, é quase certamente um Crocodylus niloticus, o crocodilo-do-Nilo.

Razões:
  • Distribuição geográfica: o Crocodylus niloticus é comum em toda a África subsaariana, incluindo a Guiné-Bissau, enquanto o Osteolaemus tetraspis (crocodilo-anão) tem uma distribuição mais restrita, principalmente em florestas tropicais da África Ocidental e Central, mas é raro ou ausente em habitats como o rio Geba, que é influenciado por marés.
  • Tamanho e morfologia: mesmo sendo um juvenil, o corpo alongado e a forma da cabeça são mais consistentes com o Crocodylus niloticus; o Osteolaemus tetraspis tem um focinho mais curto e largo, e é geralmente menor, mesmo em idade adulta.
  • Habitat: o Crocodylus niloticus é adaptado a rios, lagos e estuários, enquanto o Osteolaemus tetraspis prefere águas mais calmas e florestais.
  • Contexto histórico: durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-74), era comum os soldados entrarem em contacto com a fauna local, incluindo crocodilos, especialmente em zonas ribeirinhas como o Geba ou o Cacheu.

2. Distinção entre "lagarto" e "lagarto preto"

Ficha técncia: Crocodilo-do-Nilo ("Lagarto", em crioulo) (Crocodylus nilotcus) (pág. 28)

"Lagarto preto", em crioulo  (Osteolaemus tetraspis) (pág. 28), Também conhecido na África Equatorial como crocodilo-anão.

Fonte: República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP , https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf)


3. Comentou o Paulo Santiago, em complement0o da legenda da foto nº 4:

"Quem avistou o réptil, a caminho do Mato Cão, foi o soldado que conduzia o Sintex. Parou e o Vilar deu-lhe um tiro com a .22 que tinha aquela "enorme" baioneta acoplada. 

"Notou-se o animal acusar o tiro. O "barqueiro" aproxima o bote, o crocodilo tem ferimento num dos membros, abre a boca e o Vilar enfia-lhe a baioneta na goela. O bicho fecha a boca, abana a cabeça, e o futuro psiquiatra quase mergulha...

"Valeu-lhe o ten-cor Polidoro Monteiro que enfiou uma bala 7,62 na cabeça. Chegados ao destacamento, o Vilar pediu a um balanta para esfolar o bicho. Fizeram uns 'bifes' da cauda, dos quais não comi nenhum.

"Eu e o Vilar regressámos a Bambadinca com a subida da maré. O comandante Polidoro ficou no destacamento e, como acontecia várias vezes, houve flagelação ao anoitecer".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 19:36:27 WET

(Continua)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27120: Felizmente ainda há verão em 2025 (17): relembrando alguns encontros imediatos... de 3º grau com "jibóias", na região dos Dembos, em Angola (Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, 1972/74)



Foto nº 2 > Pitão-africano-da-rocha (Python sebae), fotografado vivo  no quartel de Mucondo 



Foto nº 2 > Pitão-africano-da-rocha (Python sebae), fotografado morto no quartel de Mucondo: tinha acabo de comer um cão


Angola > Província do Uíge > Mucondo > CCAÇ 3537 / BCAÇ 3880, 1972/74. Imagens disponibilizadas por Fernando de Sousa Ribeiro, e que fazem parte do álbum da página do Facebook do BCAÇ 3880 (grupo privado).



1. Comentário ao poste P27116 (*),  assinado pelo nosso grão-tabanqueiro Fernando de Sousa Ribeiro:




Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 /
BCAÇ 3880 ( Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74);
membro da Tabanca Grande desde 11 de novembro de 2018,
com o nº 780, tem 34 referências no nosso blogue.
Engenheiro, natural do Porto, é o administror
que mantém ativo desde janeiro de 2006 até hoje.
Um caso notável de longevidade.

 

O BCCAÇ 3880 e Companhias tem um grupo privado no Facebook.

Há também um blogue, ativo entre 2010 e 2016, administrado pelo Jorge Madureira



Eu peço desculpa por meter o nariz onde não sou chamado, mas esta discussão a propósito de cobras fez-me recordar as que vi em Angola, e foram algumas. 

Numa ocasião tive mesmo uma cobra venenosa a poucos centímetros de mim. Devia ter meio metro de comprimento e era lindíssima, em que as cores das escamas variavam conforme a incidência da luz do sol. Acabou decapitada por uma catana.


Foto nº 1 > Angola, Zemba,
 c. 1972/74
Em Angola existiam cobras para todos os "gostos", desde as inofensivas cobras de água até às temidas cobras cuspideiras, que esguichavam o veneno pelo ar em direção aos olhos da vítima. 

Vi uma vez uma minúscula cobra verde, do tamanho de uma minhoca, que era tão pequena e tão leve que estava em cima de uma folha de cafezeiro sem que a folha vergasse com o seu peso. Apesar do tamanho e do peso, o veneno desta cobra (seria uma mamba verde?) era mortal.

Não admira por isso que, em todas as bolsas levadas pelos auxiliares de enfermeiro para as operações militares, havia obrigatoriamente um frasco de soro antiofídico. Era um item que não podia faltar, a par do soro fisiológico, do garrote ou dos comprimidos e/ou injeções contra a malária. Felizmente, o soro antiofídico nunca foi necessário no meu batalhão. 

Apesar da relativa abundância de cobras, nenhum militar do BCaç 3880 foi alguma vez mordido por um destes répteis.

Na região dos Dembos, no norte de Angola, onde eu estive em 1972-73, as cobras mais vulgares eram as jibóias. Vi várias, umas vivas e outras mortas. Onde quer que o terreno fosse pedregoso, podíamos ter a certeza que por ali havia pelo menos um ninho de jibóias.

Houve casos de jibóias que foram apanhadas e foram mortas dentro dos quartéis ou das sanzalas. Na página do meu batalhão no Facebook, camaradas meus publicaram fotografias de jibóias apanhadas dentro do arame farpado. Permito-me o atrevimento de partilhar três dessas fotografias.

A primeira fotografia mostra uma jibóia encontrada dentro do quartel de Zemba e que estava tão magrinha, tão magrinha, que devia estar cheia de fome e se preparava para atacar o galinheiro. (Fotografia que se reproduz, acima à direita, com a devida vénia) (Foto nº 1).

A segunda fotografia foi tirada dentro do quartel do Mucondo (onde estava a CCaç 3537, do meu batalhão) e mostra uma jibóia que tinha acabado de comer um cão! (Foto nº 2, publicada no topo)

A terceira e última fotografia mostra uma jibóia ainda viva, também encontrada dentro do quartel do Mucondo, toda enrolada sobre si mesma e com o aspeto de quem se sente senhora incontestada de todos aqueles domínios... É um magnífico exemplar de jibóia, mas também acabou por ser morta (Foto nº 3, reproduzida no topo)


Fernando Ribeiro

(Texto e fotos do Fernando de Sousa Ribeiro)

(Revisão / fixação de texto, reedição de imagem: LG)


2. Comentário do editor LG:

2.1. Já há tempos comentei no poste P4477 (**):

Há uma diferença (até no comprimento) entre a jibóia (nome científico, Boa constrictor) e o pitão (o nome é masculino...), jibóia africana ou irã cego (na Guiné-Bissau) (nome científico, Python sebae)... 

Esta última, sim, é a maior cobra da África subsahariana. Quando adulta, pode atingir os 6 metros e ultrapassar os 100 quilos de peso... 

Habita a floresta-galeria, as matas e só ocasionalmente a savana. A sua dieta é constituída por aves, pequenos roedores e ainda mamíferos de média dimensão. Pode viver trinta anos e não está em risco de desaparecer.

Já a jibóia p.d. (que está no nosso imaginário, pela pomada jibóia e não só...) é centro e sul-americana. Boa constrictor deve o seu nome à forma como mata as suas vítimas, por constrição, sufocando a presa, técnica usada pelas cobras não venenosas. 

Contrariamente a muitos mitos populares, é pacífica e fugidia, evita sempre o contacto com animais de grande porte, incluindo o homem... Em média anda nos três metros...É sobretudo caçadora nocturna, alimentando-se de roedores e aves...

Em resumo, a jibóia “verdadeira” (nome científico, Boa constrictor) é do Novo Mundo (centro e sul das Américas e algumas ilha do Caribe). Há "boas" africanas, mas não são jibóias... E as anacondas também não exietem em África...

Anacondas e pitões não são jibóias, mas também são constritoras. E não sáo venenosas!... Em África há várias espécies de pitões. (As anacondas pertencem à família Boidae , a mesma família das jibóias, e vivem apenas nas Américas, sobretudo na América do Sul).

2. 2. O "Sabe-Tudo", o assistente de IA (neste caso.  o Gemini e ChatGPT) confirma que esta "jibóia", da região dos Dembos, no norte de Angola, é o pitão-africano-da-rocha (nome científico, Python sebae). 

Resposta do assistente de IA:

(i) O pitão-africano-das rochas: a "jibóia" presente na Região dos Dembos, Angola

A principal serpente de grande porte, frequentemente designada como "jibóia",  em Angola, e que habita a região dos Dembos, na província do Bengo, é o Pitão-africano-da-rocha (Python sebae)

Embora pertençam a famílias distintas (os pítões são da família Pythonidae e as verdadeiras jibóias são da família Boidae), popularmente, o termo "jibóia" é muitas vezes usado para descrever qualquer serpente constritora de grande porte.

Evidências científicas confirmam a presença da Python sebae na província do Bengo. Um estudo de 2019 sobre o comércio de carne de caça documentou a venda desta espécie ao longo das estradas na província, o que atesta a sua existência na região que abrange o município dos Dembos.

O Pitão-africano-da-rocha é a maior serpente de África, podendo atingir e, em casos excepcionais, superar os 6 metros de comprimento. O seu padrão de cores, com manchas irregulares em tons de castanho, azeitona e amarelo, proporciona uma excelente camuflagem nas savanas, florestas abertas e áreas rochosas que habita. É um predador poderoso,  uma não-venenosa, que mata as suas presas por constrição.

(ii) Outras "jibóias" em Angola: uma questão de geografia

É importante notar que Angola é lar de outras espécies de pitões e de uma verdadeira jibóia, mas a sua distribuição torna improvável ou impossível a sua presença na região dos Dembos:

  • Pitão-angolano (Python anchietae):  esta é uma espécie endémica de Angola e da Namíbia, mas a sua distribuição está confinada às regiões mais áridas e rochosas do sul e sudoeste do país; é consideravelmente menor que o pitão-africano-da-rocha.
  • Pitão-real ou Pitão-bola (Python regius): embora a sua vasta área de distribuição na África Ocidental e Central se aproxime do norte de Angola, a sua presença no país não é consistentemente documentada e é menos provável na zona específica dos Dembos quando comparada com a Python sebae.
  • Jibóia-da-areia-da-calabária (Calabaria reinhardtii): esta é a única representante da família das jibóias (Boidae) formalmente registada em território angolano; no entanto, a sua presença está limitada ao enclave de Cabinda, uma floresta tropical húmida, um habitat distinto e geograficamente separado da região dos Dembos.

Portanto, para a região dos Dembos, a resposta conclusiva é que a grande serpente constritora que pode ser encontrada e identificada como "jibóia" é o imponente Pitão-africano-da-rocha.


(**) Vd. poste de 7 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4477: FAP (29): Encontros imprevistos (Miguel Pessoa, ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74)

Vd. também poste de 9 de junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4484: Fauna & flora (20): Histórias de grandes serpentes: da jibóia de 7 metros (Paulo Raposo) ao irã-cego (Clara Amante)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26416: Os 111 históricos do nosso blogue, que agora passam a "senadores" (2): a entrada do Virgínio Briote, em 17/10/2005, com a publicação de um conto tradicional, "Ansumane, o caçador de crocodilos"


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que náo existiam na Guiné nem no resto da África.

Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Foi assim que o Virgínio entrou paara o nosso blogue, em 18 de outubro de 2005. Tratou-me cerimoniosamente por você (*): o que era natural, não nos conhecíamo-nos,  pessoalmente...  E contou-nos uma história, muito bonita, não de caça ao crocodilo, mas de amor, entre um caçador de crocodil0s, Ansumane, e a uma jovem, Cadi, que foi forçada a casar-se com outro homem...



Caro Luís Graça,

Descobri há pouco tempo o seu interessante blogue. Todos os dias à noite passo por ele e vou-me actualizando, lembrando aqueles tempos. Passei também por aquelas terras. Fui mobilizado, em rendição individual, para a Guiné em Janeiro de 65, para um batalhão que tinha participado na Op Tridente, na Ilha do Como e que mais tarde esteve em quadrícula, sediado em Farim.

Fui colocado em Cuntima, na fronteira norte. E, quando o Batalhão se preparava para regressar, ingressei nos comandos em Brá. Corri com o meu grupo a Guiné quase toda. Também fui a Satecuta, ao Galo Corubal e por lá andei 19 dias, na época das chuvas.

Tenho muita coisa escrita, coisas que guardei para mim, que fechei numa mala, quase durante 40 anos. Envio-lhe uma história que ouvi lá.

Um abraço,
V. Briote


2. Comentário do editor LG, com data de 19/10/2005:

(...) Como vês, Virgínio, a malta vai juntando peças para fazer o puzzle da memória da guerra (colonial ou do Ultramar, como queiras), sem sentimentos de culpa, sem acusações, sem vanglórias... Tem sído bonito, dizem-me,  e eu também sinto que sim. E talvez para o ano, a gente se possa juntar, conhecer pessoalmente e beber um copo. (...) (**)

_____________

ANSUMANE, O CAÇADOR DE CROCODILOS

(conto tradicional guineense, 
recolhido por Virgínio Briote)


A agitação interior que eu sentia, miudinha, contrastava com a calma daquela noite de lua cheia nas margens do rio.

− Boa noite, patrão! 

O Braima, camisa a arrastar pelo chão, gorro de lã na cabeça, cachimbo há que tempos nos dentes. Braima Dafé, pés grandes, seco, resistência incomum, dia a dia a remar a canoa entre as margens, levando a mancarra que os nativos tinham para vender aos comerciantes.

 Patrão, tem canoa ali na margem, quer passar?

Rio acima, a brisa fresca e mansa a dar-lhes, o chlap chlap do remo. A agitação a dissipar-se, pouco e pouco a vida a ficar para trás até desaparecer, dobrada a curva do rio. E logo ali, entre os tufos das palmeiras, duas árvores despidas, encostadas uma à outra, ramos entrelaçados de tal forma que àquela distância, lhe pareciam duas pessoas abraçadas uma à outra, uma delas com um braço erguido como se pedisse auxílio ao céu.

− O que é aquilo, Braima?

 
− Eh, patrão, aquelas árvores são pessoas! Sim, patrão, há muito tempo. Nem tinha ainda nascido o avô do meu avô. Quando as mulheres adúlteras eram castigadas com o desprezo, às vezes até com a morte. No tempo em que havia respeito pela honra, não era como agora...

... Pois nesse tempo, uma bajuda chamada Cadi foi prometida ainda menina ao poderoso Bacar Seidi, um velho rabugento já com oito mulheres. Cadi a crescer, o coração fraco a palpitar, começou a inclinar-se para Ansumane, caçador de crocodilos, o mais famoso da região.

Ansumane correspondia, queria mesmo casar com ela, mas o pai já a tinha prometido a outro, mais dotado que o caçador, a coragem como único dote. Olhavam-se com aqueles olhos que toda a tabanca via, nos batuques Cadi a dançar, seios para cima e para baixo, as ancas fartas, os olhos de Ansumane. Ele bem gostava de satisfazer o seu corpo, ela de casar com ele, ai dela, tinha que cumprir a palavra de seu pai, casar com Bacar Seidi.

Passaram tempos, muitos mesmo até que um dia, com grande desgosto de Ansumane, Cadi foi entregue a Bacar Seidi, e outras luas passaram. Ansumane sem conseguir desviar-se para outra, rodeava a morança, procurava nem que fosse só vê-la, os dias a passarem-se, ele sempre a magicar como a havia de convencer a ser dele, a vontade de caçar crocodilos a passar. O homem dela, conhecedor da amizade que os unia, vigiava as redondezas, nunca se sabe.

Até que um dia as febres tomaram conta de Bacar Seidi. Ansumane, na sua ronda noturna como era costume, viu a adorada Cadi, ao ar fresco da noite na varanda.

Cadi, como um assobio baixo, ela a correr, o impulso do coração mais forte que o chamamento dele, para os braços do amado.

− Tens que ser minha!.

 
− Não posso, Ansumane, eu sou do Bacar, ele é o homem a quem Alá me entregou!

− Mas ele é velho e tu não gostas dele, tu gostas de mim, eu sei!

 É verdade, Ansumane, mas ele é o meu homem e eu a sua mulher.

Ansumane a apertá-la mais contra o seu peito, mãos nervosas nos redondos de Cadi, aquele corpo jovem, ela a estremecer, um delírio, ele a insistir:

− Cadi, vem comigo, fujamos, tenho a canoa na margem, se atravessarmos pela bolanha depressa chegamos! Vamos, Cadi, para um lugar que ninguém nos conheça, onde o teu homem nunca nos alcance. 

Cadi mesmo junto ao coração dele, a tentação mais forte, o corpo a palpitar:

− Ansumane sim, é um homem jovem, viçoso, meu homem é velho.

Mão na mão, a passos largos na estreita vereda, a serpentear pelas palhotas, a bolanha, a seguir a margem do rio. Junto à sebe da purgueira, o sussurrar da brisa agitou as ramagens do arbusto. Não contavam, estremeceram, abraçaram-se como se estivessem mais protegidos. Acharam que não podiam esperar mais. E no silêncio da noite, deram-se um ao outro, as estrelas a brilharem como testemunhas. Ficaram esquecidos, a onda de loucura passara, Cadi em si, o erro agora sem remédio, não podia voltar para o seu homem, tinha mesmo que fugir com Ansumane.

 
− Vamos depressa antes que Bacar dê pela minha falta, vamos!

Na morança, Bacar há muito que despertara a arder em febres, se tomasse um chá de 'buco'  (#) talvez ficasse melhor, diria a Cadi que lho preparasse.

−  Cadi, Cadi! 

A voz dele a voltar para trás. Ergueu-se um pouco para ver a esteira de Cadi, devia estar a repousar, não a viu, Cadi, outra e outra vez o eco sem resposta. Onde estaria Cadi a esta hora que ninguém está fora das moranças, obra de Ansumane, seria?

A cólera deu-lhe forças, levantou-se, a espada de gume curto na mão enrugada, correu para o rio, o que as pernas deixavam, um pressentimento estranho.

Não queria acreditar, as febres, Cadi mão na mão de Ansumane a caminho do rio a dois passos. Não conseguindo alcançá-los, "Caaadiii!!!", …um grito áspero de gelar a chegar até eles. Estacaram, tolhidos sem poder mexer-se!

Que Alá os livrasse da vingança no fio da espada, tão cortante como a voz que os fizera deter, incapazes de mais um passo que fosse!

Morrer! Não, ela não queria morrer às mãos de Bacar, os braços a rodear o corpo forte de Ansumane, mais protegida da fúria de Bacar.

Morrer! Não, ele não queria, nem a morte de Cadi que agora mais que nunca era sua. E,  erguendo-se para o céu, pediu a Alá que os protegesse.

A prece foi ouvida. Quando Bacar já a curta distância, a espada no ar prestes a abater-se sobre as cabeças, Alá livrou-os da morte, transformou-os em árvores! Foi assim que um pedaço de pau encontrou a espada de Bacar!

Dizem que hoje, tantas luas passadas, em noites de tempestade ainda escorrem gotas de sangue daquele lanho já seco pelos tempos!

... Quando Braima acabou a história, fixei melhor as estranhas árvores, a ver se via nelas a infeliz história de Ansumane, o caçador de crocodilos, a fantasia das palavras de Braima ainda no ar.

O silêncio daquela noite brilhante foi subitamente quebrado por um uivo, sinistro de um cão! Braima respondeu com um prolongado:

− Eh! eeeeh! 

E estalou repetidamente com a língua…

−  Quando os cães uivam é sinal que algum mal está para acontecer! Vamos embora, patrão, é melhor! 

Umas remadas fundas viraram a canoa em direcção à vida. (***)

Virgínio Briote

(Revisão / fixação de texto / nota: LG)


(#) Nota de LG: "Buco", do crioulo da Guiné-Bissau: planta medicinal de cujas folhas se faz um chá usado na prevenção do paludismo e no pós-parto. Fonte: Porto Editora – buco no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2025-01-22 18:13:25]. Disponível em https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/buco

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Notas de L.G.


(*) Vd. pposte de 17 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P223: Tabanca Grande: Virgínio Briote (ex-Alf Mil Comando, Cuntima e Brá, 1965/67) e a história de Ansumane, caçador de crocodilhos (conto tradicional)

(**) Vd, poste de 19 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P228: Virgínio Briote, velhinho de 65, comando, contador de estórias

(***) Último poste da série > 22 de janeiro de 2025 >
Guiné 61/74 - P26414: Os 111 históricos do nosso blogue, que agora passam a "senadores"  (1): Virgínio Briote e Rogério Freire, que hoje fazem anos

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Guiné 61/74 - P21556: Pequenas histórias dos Mais de Nova Sintra (Carlos Barros, ex-fur mil da 2ª C/BART 6520/72, 1972/74) (12): A cobra e o seu matador....



Guiné > Região de Quínara > Buba > Foto de Boaventura Alves Videira, enfermeiro,  
CCS/BCAÇ 1861 (Buba, 1965/67), com um  pitão (ou "irã-cego"), enviada através do endereço do nosso camarada Júlio César [membro da nossa Tabanca Grande desde Julho de 2007, ex-1º Cabo, CCAÇ 2659 / BCAÇ 2905, Cacheu, 1970/71]. 

Como comentámos na altura, trata-se de um pitão- africana-da-rocha (Phyton sebae) popularmemte conhecida como "irã cego". na Guiné-Bissau... 

Pode atingir os 6 metros de comprimentos, não é venenosa e não constitui um perigo real para os seres humanos... A nossa malta na Guiné chamava-lhe erradamente jibóia... (As jiboias só existem no Novo Mundo, ou seja, na América Central e na América do Sul).

Foto (e legenda): © Boaventura Alves Videira (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mais uma pequena história do Carlos Barros:

(i) é um de "Os Mais de Nova Sintra", 2ª  C/BART 6520/72 (Bolama, Bissau, Tite, Nova Sintra, Gampará, 1972/74), os últimos a ocupar o aquartelamento de Nova Sintra antes da sua transferência para o PAIGC em 17/7/1974; 

(ii) membro da Tabanca Grande nº 815, tem 15 referências no nosso blogue; vive em Esposende, é professor reformado.


A cobra e o soldado António Cruz… 

por Carlos Barros (*)


Nova Sintra, um destacamento desterrado no sector do Quínara, com uma população escassa, apenas algumas “cubatas” ladeavam, interiormente,  o nosso aquartelamento militar.

Todas as manhãs, por escala, grupos de militares deslocavam-se a um poço para trazer água nuns bidões geralmente para a cozinha,  embora houvesse um outro poço, protegido em cimento armado e com um tampo em cimento, para tapar a abertura do mesmo, perto do aquartelamento,  que era para a população se reabastecer..

Numa manhã, pelas 10 horas, o furriel Barros, acompanhado de quatro soldados, deslocaram-se num Unimog com quatro bidões para se reabastecerem no poço..

Chegados ao local, em direcção à estrada de Lala, a viatura parou e algo nos apareceu à nossa frente: Nada mais, nada menos, que uma cobra com quase quatro metros de comprimento. Era comprida mas bastante estreita. 

Foi um pânico momentâneo e o ofídio abriu a boca, tentando atacar, ou melhor, ameaçar! O soldado António Cruz, num ápice, pega na G3 e dispara quatro tiros, a pequena distância,  tendo dois deles, atingido a coluna do bicho e um outro perto da barriga. Com a boca ferida, escorrendo sangue, a cobra ficou paralisada e nós acabamos por matá-la.

Enchemos os bidões de água, pegamos na cobra já morta e trouxemos para o aquartelamento, onde os nossos companheiros nos esperavam porque a notícia já tinha chegado…Era o regresso a pé. À frente da viatura.

Foi o espanto geral quando, no aquartelamento, mostrámos o nosso “troféu”. E lá contámos a história, sendo o herói o soldado Cruz,  do 3º grupo de combate, que revelara uma afinada pontaria…

A cobra foi mostrada em procissão, a todos os militares e até o Capitão Cirne se revelou espantado com a rapidez e coragem do Cruz, soldado muito alegre e sempre bem humorado, com ele presente nunca havendo tristezas.

O primeiro sargento “Rasteiro” soube da notícia, mas não saiu da secretaria,  talvez tivesse medo da cobra morta…

Passados vinte minutos, fizemos uma cova funda, no meio do capim, e enterrámos a cobra que, penso,  não chegou a beber a água onde nós nos abastecemos….

O furriel Barros levou os soldados para a cantina e pagou umas cervejas e umas "fantas", servidas pelo simpático Gonçalves, o “cantineiro” de Nova Sintra.

Para ilustrar a história para os nossos vindouros, tirámos uma fotografia,  numa máquina fotográfica Olimpus Pen F que nos foi emprestada. 

Em Bissau, o rolo foi revelado e concretizou-se assim o registo desta história,  bem real,  e que poderá ser testemunhada por alguns militares que foram protagonistas nesta situação, com um desfecho natural porque foi em legítima defesa, numa contexto em que era necessária uma intervenção rápida e eficaz.

Esta história poderia ter outro desfecho?

Naturalmente que poderia,  contudo, ao vermos aquele enorme ofídio em posição de ataque, houve a natural resposta que terminou com a morte trágica do animal.

Nova Sintra, 1973 
 Carlos M. Lima Barros,
 ex-furriel miliciano

2. Comentário do editor LG:

O autor da série não nos mandou a foto da tal cobra com "quase quatro metros de comprimento". Pelo comprimento poderia ser uma cobra pitão-real (Python regius), um das mais pequenas dos pitões... Mas não costuma ultrapassar os dois metros... (lê-se no portal do Jardim Zoológico). Provavelmente, seria um exemplar, juvenil, do "irã-cego" (ou pitão africano), da qual temos, no nosso blogue, várias  estórias...
 
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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de novembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21533: Pequenas histórias dos Mais de Nova Sintra (Carlos Barros, ex-fur mil at art, 2ª C/BART 6520/72, 1972/74) (11): O morcego e a cria, ou um "desastre.. da caça"

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Guiné 63/74 - P4514: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande (12): O embaixador Manuel Amante, com saudades do Geba, fala da onça e do irã-cego

1. Mensagem de Luís Graça com data de 9 de Junho de 2009, enviada a Manuel Amante

Camarada Manuel Amante:

Diz à Carla que fui ao blogue dela recuperar uma pequena preciosidade... Um texto (belíssimo) sobre o Irã-cego... Está incluído num poste, nosso recente, sobre cobras... na Série Fauna & flora... (**) Qualquer dia vou lá recuperar um texto teu (fantástico), sobre os Bijagós, e me deres autorização... É uma pena o blogue da Clara estar agora inactivo...

Mantenhas. Aparece.
Luís Graça
(Bambadinca, Xime, Mato Cão, Ponta Varela, Ponta do Inglês, Enxalé, Porto Gole, Finete, Missirá, Fá, Santa Helena, Mero... CCAÇ 12, 1969/71...
Estive lá em Março de 2008, mas infelizmente não matei saudades do Rio Geba, do trajecto Bissau-Xime-Bambadinca, este último agora muito assoreado...).


2. Mensagem de Manuel Amante (*), em Macau, com data de 9 de Junho de 2009:

Caro Luís,
Acredita que é raro o dia que não visito a Tabanca Grande. E sempre que posso faço a sua divulgação junto de pessoas amigas.

O nosso blogue tornou-se referência para alguns estudiosos e interessados em saber o que foi a guerra na Guiné-Bissau.

Talvez uma tentativa de se procurar saber o porquê de tanta violência que assola este país que nos é muito caro e do qual nos lembramos com carinho e alguma nostalgia todos os dias. Custa-nos a todos entender esta situação absurda e de como a eliminação voraz de oponentes acabou por fazer doutrina.

Estou em Macau faz um ano. Represento os Países de Língua Portuguesa, enquanto Secretário Geral Adjunto, no Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (http://www.blogger.com/www.forumchinaplp.org.mo).

Passei os primeiros anos da minha infância, no sul da Guiné, perto da estrada entre Empada e Dersalame, mais propriamente em Binhal, onde havia uma única casa comercial, que era do meu Pai. O trecho escrito pela minha filha, curiosa pelas coisas da terra que lhe viu nascer, foram factos aflorados pela minha mãe, desterrada, por força do casamento, ainda jovem, nesse lugar ermo e cheio de animais próprios da fauna do sul da Guiné. Era normal escutar e sentir, após o escurecer, as onças e lobos em certas noites perto da varanda. Tudo leva a crer que o animal que abocanhou de um salto, vindo da mata, o meu cão que estava comigo na varanda da casa, no crespúsculo, terá sido uma das onças que andavam nos arredores. Até hoje pergunto porque terá escolhido o cão e não a mim que era do mesmo tamanho. Ainda conservo ténues imagens de Binhal, do longo acesso, ladeado de árvores, que dava para a estrada, da tabanca distante a cerca de um quilómetro, das grandes árvores, dos tambores desta em noites de festa, dos animais domésticos, de obrigatoriamente se trancar as portas e janelas com o escuro de breu.

Na realidade a minha Mãe diz que vivemos todo o tempo em Binhal com uma grande jibóia, possivelmente albina, pelas discrições, no tecto da casa. Nesta não havia tecto falso pelo que se viam as estruturas de madeira das traves e as telhas. Mas devia ser uma jibóia discreta porque raras vezes se via ou se fazia sentir. Sempre se sabendo que estava lá. Era voz corrente dos empregados que era o irã cego que guardava os moradores da casa. No dia em que nos abandonou o homem grande, de porte sábio, alvitrou de que era altura de irmos embora porque algo de muito sério e triste iria acontecer naquela região que a tornaria deserta e desesperaria os seus habitantes. A família transferiu-se para Empada a nove quilómetros e algum tempo depois, por força das circuntâncias, para Bissau. A luta de libertação tinha-se iniciado e essa região foi onde ela teve um arremedo de grande intensidade. Onde a mobilização das populações foi a maior.

A Carla deixou de poder manter o blogue porque não lhe restava tempo entre o trabalho, estudos e vida familiar. Espero que após o Curso possa retomar o que deixou.

Estive há dois anos e meio em Bissau. Mas não deu para ir aos lugares que tanto queria. Acabei por ficar dois dias com o meu Primo Manuel Simões, em Jugudul. O assoreamento do Geba a partir de Bambadinca era inevitável. A intensa circulação das lanchas pelo Geba acima sempre ia ajudando a desassorear essa via de abastecimento e evacuação de produtos agrícolas e de gado. A circulação de passageiros era considerável. Quase toda a movimentação de população civil e militar se fazia por Bambadinca ou então pelo Xime depois da abertura da estrada alcatroada. A duração era de 5 a 7 horas, dependendo da hora em que se partia por força da maré ou aproveitando-se dela ou ainda de alguma paragem no Xime. 

Os Bijágos eram um lugar que conhecia bem desde miúdo e navegava por lá sem problemas de maior. Navegação, dependendo das marés e dos canais e do mar às vezes bem encapelado. Mas, mais tarde, gostava mesmo era de navegar no Geba, apesar de alguns sustos e percalços de uma avaria à noite, sem máquina, em pleno Mato Cão em que fomos bordejando ora uma margem ora outra levados pela corrente. Numa outra vez, ainda em Mato Cão, à tarde, um incêndio na casa das máquinas.

Estarei em Portugal a partir de 15 de Junho. Espero poder estar convosco desta vez.

Aceita um forte abraço
Manuel Amante


3. Comentário de CV:

Caro Manuel Amante, uma vez que estará já em Portugal, não quer participar no nosso IV Encontro em Ortigosa? Veja pormenores no Poste > Guiné 63/74 - P4482: O Nosso IV Encontro Nacional, Ortigosa, Monte Real, 20 de Junho de 2009 (6): As inscrições terminam a 15 de Junho (A Organização).

Se não puder estar presente no Almoço, apareça pela tarde e passará uns momentos de convívio connosco até ao fim do dia. Teremos muito gosto na sua presença.
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Notas dos Editores:

(*) No poste com data de 27 de Maio de 2007 >
Guiné 63/74 - P1787: Embaixador Manuel Amante (Cabo Verde): Por esse Rio Geba acima..., podemos ler esta mensagem de Manuel Amante:
Caro Luís Graça,
Há muitos meses que venho acessando, diariamente, por vezes mais do que uma vez, o que se tornou recanto de milhares de militares que passaram pelo TO da Guiné.

Também fui militar (73/74), de recrutamento local, no CIM de
Bolama onde fiz a recruta e especialidade antes de ser colocado no QG (Chefia dos Serviços de Intendência) em Bissau.

No momento de ser incorporado, tal como muitos da minha geração, estava relativamente familiarizado com as questões de foro castrenses. Não se podia viver na Guiné e ficar alheio ao que se passava e à inutilidade que essa guerra significava em termos de vidas humanas.


- Nota de Luís Graça, no mesmo poste, sobre o Embaixador Manuel Amante:

Entre outros cargos e funções, foi conselheiro do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Cabo Verde (2005), embaixador de Cabo Verde no Brasil (1992/2002) e em Angola (1995/99), observador internacional da OUA no processo de democratização da África do Sul (1993/94), diplomata em Moscovo, colocado na embaixada de Cabo Verde (1986/90) bem como na missão permanente de Cabo Verde nas Nações Unidas, em Nova Iorque... Enfim, um invejável currículo para quem, tendo nascido na Guiné, ainda em 1973/74 estava nas fileiras do Exército Português, mas já era, muito provavelmente, simpatizante ou militante do PAIGC... (LG)

(**) Vd. poste de 9 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4484: Fauna & flora (20): Histórias de grandes serpentes: da jibóia de 7 metros (Paulo Raposo) ao irã-cego (Clara Amante)

Vd. último poste da série de 8 de Junho de 2009 >
Guiné 63/74 - P4483: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (11): Macau: A. Graça Abreu com José Martins, ex-Cap CCAÇ 16 (Bachile, 1971)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Guiné 63/74 - P4484: Fauna & flora (20): Histórias de grandes serpentes: da jibóia de 7 metros (Paulo Raposo) ao irã-cego (Clara Amante)


Guiné > Região do Oio > Mansoa > 1968 > O Alf Mil Raposo, de óculos escuros, com o Furriel Ribas, à sua esquerda, e alguns soldados, observando uma jibóia morta pelas NT... "De sete metros!"...

Foto: © Paulo Raposo (2006). Direitos reservados




1. Havia jibóias na Guiné, no nosso tempo ? 

Assunto controverso, avaliar pelos comentários que já suscitou o poste do Miguel Pessoa (*). Pelo menos, não voavam, isso garante o nosso piloto, mas que se atravessavam no caminho dos bissalanquenses da BA 12, isso garante-nos a também strelada sargento pára-quedista Giselda Antunes Pessoa... 

O Paulo Raposo, por sua vez, conta-nos que matou uma, medonha, com sete metros de comprimento... O Mário Fitas também viu serpentes gigantes lá para os lados de Cufar... A Clara Amante, que viveu na Guiné, em criança, fala-nos com magia do irã-cego... E muitos de nós têm histórias de cobras, pequenas e grandes, venenosas e não venenosas, para contar...Com tudo isto, vamos aumentando o bestiário da Guiné... (LG)



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/66), Os Lassas > "Foto que me foi concedida pelo Manuel Brita, condutor das Fox, e que esteve em Cufar no tempo do António Graça de Abreu" [1973/74].
Foto (e legenda): © Mário Fitas (2008). Direitos reservados.


1. Mansoa: Baptismo de fogo

por Paulo Raposo

Excerto de um livro, policopiado, do nosso camarada de Montemor-O-Novo, Paulo Raposo (ex-Alf Mil Inf, com a especialidade de Minas e Armadilhas, da CCAÇ 2405, pertencente ao BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi (1968/70).

Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997 (**)

O sacrifício era muito. Vou contar uns episódios dos muitos que por lá passàmos:

Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/66), Os Lassas > "Da esquerda para a direita: Soldado que não recordo o nome, de camuflado o Fur Mil Enf Juvenal, o Fernando que nos acompanhou desde Bissau, Mário Fitas, Fur Mil Op Esp, e Olindo, apontador de bazuca da minha secção".


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2008). Direitos reservados.

O sacrifício era muito. Vou contar uns episódios dos muitos que por lá passamos:


(i) Após a nossa chegada a Mansoa, foi-nos distribuído o material de guerra. Já armados, fomos para uma bolanha, nome que se dava a um grande charco de água, que enchia com a chuva.

Esta bolanha ficava para além de uma companhia de balantas, que fazia a protecção do nosso quartel. Naquela zona de Mansoa, sair fora do arame farpado tinha riscos.Este exercício tinha como objectivo habituarmo-nos a estar debaixo de fogo. Deita-se um grupo de combate, e por cima deste, faz-se fogo. Aconteceu que logo no primeiro exercício, quando estava o primeiro grupo de combate deitado, há um disparo que sai mais baixo e vai ferir em ambas as pernas um soldado. Depressa foi chamada uma viatura, para o levar rapidamente para o Hospital. Para aquele rapaz, a comissão terminou ali.

Este acidente foi muito desmoralizante para os restantes e mais nenhum outro exercício foi feito. Perguntei-me nessa altura como iria sair dali.

(ii) Um belo dia o meu grupo de combate estava encarregue de levar e proteger os homens que iam limpar do capim uma faixa grande de ambos os lados da estrada. Assim evitávamos que tivessemos emboscadas coladas à picada.Dirigimo-nos para o local de trabalho em duas viaturas. Parámos precisamente no sítio aonde tínhamos terminado o trabalho no dia anterior, ou seja ainda na zona já descapinada.

Quando parámos, saltaram do capim alguns elementos IN para a estrada. Fizemos fogo, eles fugiram e não responderam. Se tivéssemos parado 50 metros mais à frente, tínhamos caído na emboscada.

Recuperados da emoção, os homens começaram o seu trabalho e eu dirijo-me para um tronco de árvore, que estava caído, para me sentar. Ao aproximar-me do tronco, este mexe-se. Era uma jibóia, com sete metros de comprido. Enfiei-lhe um carregador em cima e ela continuava bem viva.

O Cabo enfermeiro Luís agarra num tronco de um ramo verde, e, pondo-se à frente dela, bate-lhe continuamente na cabeça, até a cobra se ver perdida.Uma vez perdida, morde-se a ela própria, para não se humilhar à mão do enfermeiro Luís. (...)


2. O irã-cego

por Clara Amante


Amante da Rosa > "Meu Cabo Verde. História e Estórias. Minhas raízes, família e recordações. A Guiné. Pensamentos e Imagens. Sem ordem cronológica". Um blogue no feminino. Carla. Cabo Verde. Ilha de Santiago. Praia... A Carla é filha do nosso amigo e camarada Manuel Amante, membro da nossa Tabanca Grande.... Já aqui transcrevemos um poste, desse blogue, em que se falava de nós, do nosso blogue (***) . Infelizmente, o blogue Amante da Rosa deixou de estar activo, embora continue em linha... Tomo a liberdade de recuperar uma belíssima história ali publicada, com recordações de infância da Guiné (****).

Acordou alagada da sesta… maldita humidade. Abriu os olhos ainda tempo de ver o Irã que deslizava, entre uma trave e outra, no tecto do quarto, para desaparecer no escuro da telha enegrecida. Em que buraco se metia? Lembrou-se…

“- Matem a cobra!
- Não. Senhora…
- Mata a cobra… Anselmo?! Há uma cobra no tecto da casa!
- Senhora é o guardião… não.
- Guardião…?
- Sim, Senhora, guarda a casa.
- Anselmo… É uma cobra branca.
- Não… É Irã Cego… é poderoso e vai protegê-la a si e aos meninos.”


A humidade… nem sabia se estava acordada. Nunca a tinha visto assim… Gorda e branca. Ela… O Guardião. O Irã Cego. A cobra albina que vivia no telhado da casa. Foi regressando devagar daquela letargia do sono. Como foi que vim parar neste fim de mundo? O mato, os bichos, o raio das cobras e o bucho cheio ano sim ano… Não, nada de lástimas! Calor… parece que o diabo se entretêm a chupar ar. Ai Guiné! Ai Mindelo... Irã Cego… as minhas crianças aqui em baixo deste tecto. Ninguém num raio de quilómetros e ele que se mete no mato dias a fio. Deve estar nalguma tabanka. Um banho... preciso de um banho. Mãe… e tu que nunca mais chegas. O Nhelas, lá para o Sul sem conseguir fugir - do contrato da roça.

Nando, embarcado sabe-se lá onde. Os meus irmãos espalhados em tudo o que é fim de mundo. A onça… é preciso ver se os meninos estão cá dentro… a onça que quase leva o Canelito. Bendito cachorro... e ele ainda a gritar pelo pobre do bicho... sozinho em frente da casa. Isto é o fim do mundo. Irã… que me vale Deus aqui. Irã Cego! O guardião da casa que engole os ovos das galinhas é quem nos protege. E a minha terra lá tão longe. O vento… que falta faz o vento, Mãe. Banho… aquele banho semanal que nos davas com a água que trazias de casa d’inglês. Anselmo… é preciso ir ao poço... A onça que deve andar à caça… E ele que não chega metido nesse mato sem ninguém. Como foi… ah… Dava tudo para sentir aquele cheiro de colónia inglesa do Nana... Cheiro nauseabundo com que ele chega… Meu Nana… como fui acabar tudo com ele. Lembranças não levam a nada e o que foi foi… deve ser do calor, estás a enlouquecer, Vinda. Valha-me a cobra para nos proteger e…
- Dona Vinda…? - o chamado urgente sacudiu-a.
- Sim, Anselmo...
- É o Irã... Irã Cego fugiu para o mato.
- ...
- Senhora… não é bom.

[Revisão / fixação de texto: L.G.] (*****)

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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 7 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4477: FAP (29): Encontros imprevistos (Miguel Pessoa, ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74)

(**) Vd. poste de 8 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXXIII: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (6); Mansoa, baptismo de fogo

(***) Vd. poste de 27 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1787: Embaixador Manuel Amante (Cabo Verde): Por esse Rio Geba acima...

Vd. também 28 de Maio de 2007> Guiné 63/74 - P1789: Blogues que nos citam (2): Amante da Rosa ou a Geração das Flores da Revolução de Bissau

(****) Vd. poste de 14 de Novembro de 2006 > O despertar de uma sesta, no fim do mundo dos anos 50, visto num quadro de Paulo Rego (Clara Amante)


(*****) Vd. último poste desta série > 16 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4038: Fauna & flora (19): Também os babuínos dizem Nós na pidi paz, ka misti guerra (Joana Silva)

Vd. também poste de 25 de Janeiro de 2009 >Guiné 63/74 - P3793: Fauna & flora (16): Relações amistosas com o Macaco-cão na zona de Cufar (Mário Fitas)

Escreve o L.G., em comentário ao poste do Miguel Pessoa:

(....) Há uma diferença (até no comprimento) entre a jibóia (nome científico, Boa constrictor) e a pitão, jibóia africana ou irã cego (na Guiné-Bissau) (nome científico, Python sebae)... Esta última, sim, é a maior cobra da África subsahariana. Quando adulta, pode atingir os 6 metros e ultrapassar os 100 quilos de peso... Habita a floresta-galeria, as matas e só ocasionalmente a savana. A sua dieta é constituída por aves, pequenos roedores e ainda mamíferos de média dimensão. Pode viver trinta anos e não está em risco de desaparecer.

Já a jibóia p.d. (que está no nosso imaginário, pela pomada jibóia e não só...) é centro e sulamericana.Boa constrictor deve o seu nome à forma como mata as suas vítimas, por constrição, sufocando a presa, técnica usada pelas cobras não venenosas.Contrariamente a muitos mitos populares, é pacífica e fugidia, evita sempre o contacto com animais de grande porte, incluindo o homem... Em média anda nos três metros...É sobretudo caçadora nocturna, alimentando-se de roedores e aves...

Por sua vez, o nosso amigo Nelson Herbert, hoje cidadão norte-americana, mas born in Bissau, acrescenta o seguinte:


(...) Tem razão o Luís Graça. O familiar mais próximo da jiboia sul americana, na Guiné é o Irã Cego. De criança,sempre ouvi dizer que o unico Ser que esse tal de Irã Cego de facto temia, imaginem!, eram aItálicos formigas...(qual quê: formiguinhas). Aquelas típicas da Guiné, conhecidas pela sincronização das dolorosas dentadas e a acrobática posição de pino. Melhor, aquelas que mordem a vítima, de pernas pro ar ! Curioso, né ! Mas existe uma explicação lógica ! É que engolida uma ave, um réptil ou até um cabrito (a lenda fala de bois), o bicharoco necessita de algumas espaçosas horas para a digestão da presa...tanta é a languidez ...

É pois nesses momentos que o bicho, ele mesmo, torna-se presa fácil das formigas. Aliás, não é por acaso que na Guiné, em tudo que seja , terreno por excelência de pastagens, por perto existe sempre um "morro de baga baga"...não vá pois o Irã Cego tecer das suas !

Ainda relativamente a esse bicharoco, baptizado de Irã Cego, por conseguinte, à luz de algumas crenças e crendices, nossas ( guineenses), um animal outrora venerado, senão temido, Amílcar Cabral faz referência, em alguns dos seus escritos, às dificuldades enfrentadas no início da guerrilha, no aliciamento de alguns guerrilheiros para operações, que tivessem por cenário...qualquer mata cerrada, tida por santuario dos Irãs Cegos. Cabral mobiliza esse exemplo, para exemplificar o quanto o obscurantismo poderia em certa medida comprometer o avanço da guerrilha nas matas da Guiné. (...)