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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

Guiné > Região de Bafatá  > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > c. novembro/dezembro de 1971 >O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, já falecido; o alf mil médico António Rodrigues Marques Vilar  (hoje psiquiatra, com consultório em Aveiro); e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca), hoje engenheiro técnico agrícola reformado (Águeda). O grupo posa para a fotografia com um crocodilo juvenil  do rio Geba, abatido pelo alf mil Vilar... 

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Mato Cão >  c. 1973/74 > Pel Caç Nat 52 (1973 /74) >   Vista do Rio Geba e bolanha de Nhabijões, a partir do "planalto" do Mato Cão.  Foto do álbum do último cmdt do Pelotão, alf mil  Luís Mourato Oliveira.

Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




1. A mítica LDM 302 tem pelo menos 16 referências do nosso blogue... A sua "vida e morte" davam um filme...Mas neste país a guerra nunca foi "cinéfila" ou melhor o cinema é que não gosta de guerra. Muito menos da guerra da Guiné que nos coube na rifa.  



Ludgero Henriques 
de Oliveira
(1947-2012),


A referência à LDM 302, afundada duas vezes no Cacheu (*), trouxe-me de imediato, à lembrança, um dos seus tripulantes,  maquinista fogueiro que foi meu conterrâneo, vizinho, colega de escola e amigo, Ludgero Henriques de Oliveira, natural da Lourinhã, e que a morte levou, precoce e injustamente, aos 64 anos, em 2012 (era então sargento-chefe na situação de reforma).

Já aqui, no nosso blogue, foi homenageado, mais de uma vez;  foi agora também lembrado pelos nossos camaradas do portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, um sítio igualmente incontornável do nosso repositório de memórias: faz este ano 20 anos de existência na Web; daqui vai um alfabravo para a equipa do portal UTW, com votos de boa continuação da caminhada pelos trilhos da nossa memória histórica.

Mas voltando ao Mato Cão (**)...Eu que lá fui bastante vezes, em patrulhamentos ofensivos, com montagem de emboscadas na margem direita do rio Geba Estreito (Xaianga), noutra encarnação (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), nunca percebi por que razão o PAIGC  
nunca conseguiu meter a pique uma embarcação, civil ou militar, naquele troço... Passsaram lá LDG (!) e seguramente LDP e LDM da Marinha. Passaram lá "barcos turras", civis,  ao serviço da Intendência Militar, mas também das casas comerciais "colonialistas" como a Casa Gouveia ou a Sociedade Ultramarina... Chegavam inclusive a Bafatá...Com a maré-cheia, claro...

A embarcação afundada (e às vezes iam em comboio, com batelões...) iria bloquear a navegação fluvial entre o Xime e Bambadinca, durante semanas, senão meses...E o impacto no abastecimento de toda a zona leste, far-se-ia sentir de imediato,  com consequências visíveis do ponto de vista logístico,  psicológico,  propagandístico, etc... 

Os portos fluviais do Xime e de Bambadinca eram as duas únicas entradas (por rio e terra) na Zona Leste (regiões de Bafatá e de Gabu, que iam da Foz do Rio Corubal, a oeste, à fronteira com a Guiné Conacri, a leste), e de norte (Senegal) a sul (Guiné-Conacri). Era a maior zona da Guiné e a mais povoada: mais de 15 mil quilómetros quadrados, com uma  população (fulas e mandingas, sobretudo) de 180 a 200 mil habitantes (por volta de 1970): mais de 40% do território, mais de 35% da população (que no total não chegava a meio milhão).

Terá sido uma questão de "cálculo político" ou pura "incompetência operacional" ? Tentaremos responder a essa questão em próximo poste desta série ("Nomadizações de um marginal-secante") (**).No rio Cacheu, na clareira do Tancroal, o IN meteu a fundo, duas vezes, a nossa gloriosa LDM 302... Por que raio é que os gajos do PAIGC não haveriam de acertar, em cheio, com uma simples canhoada, num bocado de madeira flutuante como era um "barco turra" (onde também viajei, pelo menos umas quatro vezes, no percurso Bambadinca-Xime-Bissau e vice-versa) (além de 2 viagens de LDG, no princípio e fim da comissão).

Infelizmente a Guiné-Bissau deixou assorear os seus rios... Já nem cenários temos para um simples documentário, quanto mais um filme de ficção.

Por certo, já não se passa hoje no Tancroal (Rio Cacheu), ou no Mato Cão (Rio Geba Estreito)... Em 2008, ainda atravessei o Rio Cacine de um lado a outro,. numa canoa nhominca... Mas o Cacine não é um rio, é um braço de mar...segunda-feira, 29 de junho de 2026 às 14:27:00 WEST



2. Enfim, apetecei-me recapitular algumas situações relaci0nadas com a navegação no rio Geba Estreito e a instalação do destacamento do Mato Cão (que já não é do meu tempo: saí da Guiné em março de 1971). 

O PAIGC, no 2º semestre de 1971, vai "reagir mal" à ocupação, pelas NT, do Mato Cão (Op Tareco  Vilão I, 2-7, nov 71).

Ao Mato Cão,  durante aqueles anos todos da guerra, só lá se ia em patrulhamento ofensivo, para montar segurança aos barcos, essencialmente civis, que navegavam no Geba Estreito.  As LDG também chegavam a Bambadinca, até finais de 1968/princípios de 1969, mas já não era no meu tempo; em 2 de junho de 1969, já desembarquei (ou melhor "abiquei") no Xime (porto fluvial, a par do de Bambadinca).

Em 1 de julho de 1971, ao tempo do BART 2917 (Bambadinca, junho 1970/maio 1972), era a seguinte dispositivo das NT no Sector L1 (Zona Leste), no que diz respeito aos Pel Caç Nat 52, 54 e 63 (que vão depois guarnecer o novo destacamento do Mato Cão, "à vez"):

Pel Caç Nat 52 > Fá Mandinga;
Pel Caç Nat 54 > Bambadinca;
Pel Caç Nat 63 > Missirá (reforçado por 1 Pel Mil 202 / CMil 1) e a seguir Mato Cão


Maio 71, 4 e 5 >  Op Triângulo Vermelho 

Na região de Enxalé-Cuor, sector L1, foi feito um patrulhamento por forças de 3 GComb/CArt 2715 (Xime), CCaç 12 (Bambadinca), CCP 123 / BCP 12 (BA 12, Bissalanca) e 1 Pel Caç 54 (Bambadinca).

O lN flagelou as NT, causando 2 mortos e 9 feridos e sofrendo 4 mortos.

Destruídas 20 moranças e meios de vida (dpois cleiros com meia tonelada de arroz). Capturado 1 elemento armado com esp "Mauser" e documentos diversos.

Agosto 71, 28 > Flagelação ao barco "Manuel Barbosa"


Um grupo IN estimado em cerca de 10 elementos flagelou com RPG-2 e Armas automáticas ligeiras,  de Mato Cão, o barco “Manuel Barbosa” causando 8 feridos graves, e 9 feridos ligeiros.

Pelas 14,50 horas uma secção do Pel Caç Nat 52 iniciou a progressão em meio auto com destino a Finete onde se juntaria uma secção do Pel Mil 201.

Às 15,10 horas, em [BAMBADINCA 4C2-84], a viatura Unimog 411,de matrícula ME-18-93,  accionou uma mina A/P reforçada, com a roda da frente do lado direito, ficando completamente destruída e provocando ferimentos na quase totalidade dos elementos das NT que nela seguiam, nomeadamente no 2º cabo atirador Nhaga Maque (Pel Caç Nat 52) que veio mais tarde a falecer em Bambadinca como consequência dos ferimentos recebidos.

Após o accionamento da mina o sold cond Manuel Castro Ribeiro Silva,    da CCS/BART 2917 (que estava destacado no Pel Caç Nat 52), assumiu o comando da secção, instalando os seus companheiros e montando um dispositivo de segurança à viatura com os elementos mais válidos após o que se deslocou a Bambadinca, transportando aos ombros um dos feridos, a fim de avisar as NT sedeadas neste aquartelamento (CCS/BART 2917, CCAÇ 12...).

Imediatamente se deslocou de Bambadinca uma secção da CCAÇ 12 (acompanhada de um enfermeiro e macas) que se encarregou do transporte dos feridos de Finete, para onde as milícias desta tabanca, que imediatamente acorreram ao local do acionamento da mina os tinham já transportado, para Bambadinca.

Num reconhecimento feito posteriormente não foi detectada a colocação de mais qualquer engenho explosivo, tendo-se no entanto detectado em [BAMBADINCA 4C7-74], vestígios de instalação em emboscada de um Grupo IN estimado em cerca de 10 elementos, o que vem confirmar declarações de milícias em Finete que dizem ter ouvido alguns tiros.

Novembro 71, 2-7 > Op Tareco Vilão I


 No dia 2 de novembro pelas 8,30 horas os 2 Gr Comb da CCAÇ 12 (Bambadinca) deslocaram-se em meios auto de Bambadinca para o Porto (fluvial) de Bambadinca de onde em meios fluviais [barco sintex], prosseguiram para Mato Cão, onde chegaram cerca das 21h00.

Substituíram então, no local, os Gr Comb da CCAÇ 12 empenhados na Op Tudo Vale , montando uma rede de emboscadas nos trilhos de acesso mais provável do IN ao Destacamento de Mato Cão, garantindo a segurança com a colaboração do Pel Caç Nat 63, do pessoal que procedia à instalação daquele Destacamento.

No dia 3 pelas 13,30 horas, um Grupo IN estimado em cerca de 40 elementos flagelou com RPG-2 e Arm Aut Lig de [BAMBADINCA 1H97-61], apoiados por RPG-7 e Mort 82, o estacionamento de Mato Cão, causando 2 feridos graves e 8 ligeiros.

As NT reagiram imediatamente obrigando o IN a retirar, com baixas prováveis.

Feito reconhecimento à área de instalação IN, detectaram-se vestígios de IN se ter aproximado e retirado na direcção de Chicri, tendo-se encontrado vários vestígios de sangue.

No dia 6 pelas 16h55, um Grupo IN não estimado flagelou da direcção de Chicri o estacionamento de Mato Cão e as forças de segurança ao mesmo, durante 5 minutos com Mort 82 e LRock.

As NT reagiram prontamente pelo fogo de Mort 81 obrigando o IN a retirar. Posteriormente o 20º Pel Art (Xime) bateu os trilhos prováveis de retirada.

Não foi feita uma conveniente batida imediata por, após os tiros de artilharia, ter anoitecido sendo a visibilidade muito fraca.

No dia 7 pelas 6h45, quando o Pel Caç Nat 63 explorava o contacto havido ao anoitecer do dia 6 reconhecendo a mata a Norte de arame farpado, detectaram.  a cerca de 600 metros do mesmo, numeroso Grupo IN estimado em 50 elementos que ali se encontrava emboscado.

As NT imediatamente abriram fogo, tendo o IN, ao sentir-se descoberto, reagido com RPG-2, RPG-7, Mort 60 e Arm Aut Lig ao mesmo tempo que um outro Grupo IN localizado mais para Norte e a uns 500 metros do primeiro, começou a flagelar o estacionamento de Mato Cão com Mort 82 e RPG-7.

As NT imediatamente exploraram o contacto manobrando pelo fogo e movimento obrigando o IN a retirar.

Apesar da pronta e enérgica reacção do Pel Caç Nat 63, o IN conseguiu ao fim de cerca de um minuto quebrar o contacto em virtude do Pelotão ter esgotado as munições de Mort 60 e dilagrama que transportava consigo, cujo consumo foi maior do que seria de prever num contacto deste tipo em virtude do LGFog 8,9 cm não ter funcionado.

Remuniciado, o Pel Caç Nat 63 prosseguiu na batida tendo encontrado abandonado no terreno um morto, armado de pistola Ceska Zbrojovka m/1927, de origem checa, identificado por documentos que possuía como sendo Mário Campos, e uma granada de RPG-7.

Foram ainda detectados vestígios e vistos elementos IN arrastando mais cinco corpos de elementos feridos ou mortos pelas NT.

Entretanto, primeiro, os Mort 81 do Destacamento e posteriormente o 20º Pel Art /BAC 7 (10,5 cm) (Xime) batiam os itinerários previsíveis de retirada,  tendo o Pel Caç Nat 63 verificado que alguns dos impactos de artilharia se situavam sobre o trilho seguido pelo IN e nas suas imediações encontrava-se muito sangue.

Neste contacto as NT sofreram 3 feridos graves e 9 (um civil) ligeiros sendo um ferido grave e 3 ligeiros proveniente do contacto directo com o IN e os restantes como consequência da flagelação ao estacionamento.

No dia 7/11/71 pelas 14h30, os 2 Gr Comb da CCAÇ 12, após serem substituídos no local pelas NT empenhadas na Op Tareco Vilão II e II, iniciaram progressão em meios fluviais [Barco Girassol] para Bambadinca, permanecendo o Pel Caç Nat 63 e uma secção do Pel Mil 202 em Mato Cão, onde chegaram cerca das 16h00.

Fonte: Adapt de História do BART 2917, de 15nov1969 a 27mar1972, mimeog, 182 pp. (Cópia, em formo digital, gentilmente cedida por Benjamim Durães)



Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955) > Escala de 1/50 mil > Detalhes: posição relativa de Bambadinca, na maregm esquerda (sul), do rioGeba Estreito, regulado de Badora;

(i) a  sudoeste: Nhabijões,  Sambassilate, São Belchior e o regulado do Xime;

(ii) a noroeste; Mato Cão, Finete, Salá e regulado do Cuor;

(iii) a norte/nordeste: Mero, Fá Mandinga, Missirá e regulados de  Óio, Mansomine e Joladu; 

O PAIGC só mandava (alguma coisa), a partir de Salá... tendo "barracas", maiss a noroeste, na zona de Madina / Belel. Já no Óio havia a "base central" de Sara Sarauol... 

O destacamento, mais a norte de Bambadinca, no setor L1, era Missirá, guarnecido por um Pel Caç Nat (52 ou 63, em diferentes períodos) e um pelotão de milícias e uma esquadra de morteir0 81... 

 A Madina/ Belel , muito para lá de Salá (e que por isso que já não vem nesta carta) ia-se uma vez por ano, na época seca...para "dar e levar porrada".

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Guiné 61/74 - P21843: A Nossa Marinha (1): LDM 203 e LDM 302 (Manuel Lema Santos / Luís Graça)



Guiné > s/l > c. setembro de 1964  >  LDM (Lancha de Desembarque Média) 203... que devia  estar a  fazer serviço entre Bissau e Catió, abastecemdo as NT no sul.

Foto (e legenda): © Rui Ferreira (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca andei numa LDM, só nas LDG... No Rio Geba, "ó para lá e ó para cá", ou seja, no início da comissão, em 2 de junho de 1969, rio Geba acima, até ao Xime, e depois no fim da comissão, em março de 1971, de regresso a Bissau, rio Geba abaixo...  Penso que foi na mesma  LDG, a "Bombarda" (105, mais tarde, "rebatizada"  201).

Mas não é das LDG [, Lanchas de Desembarque Grandes]  que quero falar hoje, mas sim  das LDM, das Lanchas de Desembarque Médias, onde nunca andei. 

Uma foto da LDM 203, acabada de se publicar no nosso blogue (*), despertou-me a curiosidade sobre estas unidades da nossa Marinha, de que sei pouco ou quase nada,

E a quem recorrer ? Naturalmente, ao blogue "Reserva Nacional", do nosso amigo e camarada Manuel Lema Santos, que o criou e mantem desde 2016, com grande paixão, competência e dedicação... 

Sem desprimor para outras páginas sobre a nossa Marinha, esta é uma verdadeira enciclopédia, de consulta obrigatória,  sobre a nossa armada, nomeadamente do tempo da guerra do ultramar / guerra colonial.


Lisboa > Monumento aos Combatentes
do Ultramar > 10 de junho de 2019 
(antes da era da pandemia Covid-19) 
> Manuel Lema Santos e Luís Graça.

Foto: LG (2019)



Aconselho, por isso, os nossos leitores a consultar o poste de 7 de abril de 2020 > 

O Manuel Lema Santos (que tem cerca 
de 6 dezenas de referências no nosso blogue) foi nosso camarada no TO 
da Guiné ( 1.º tenente da Reserva Naval,
 ex-imediato da NRP Orion (1966/68), 

Escreveu o Manuel Lema Santos:

(...) "Da classe 200, foram cinco 
as LDM - Lanchas de Desembarque Médias fabricadas. Estas unidades, 
construídas nos Estados Unidos da América  foram modernizadas nos estaleiros navais 
da Argibay  [, em Alverca]. (...)

"Em 13 de Janeiro de 1964 foram aumentadas ao efectivo dos navios da Armada as LDM 201, LDM 203, LDM 204 e LDM 205" (...)

Depois de efectuass as necessárias "provas e testes", estas unidades navais "foram transportadas para a Guiné em navios mercantes, onde permaneceram sempre enquanto operacionais até serem abatidas ao efectivo" (, no princípio da década de 1970, e mais concretamente, no caso da LDM 203, em junho de 1971).


Das suas caracterísricas técnicas destaque-se o seguinte, de acordo com o Manuel Lema Santos:

(i) Deslocamento máximo: 50 toneladas;
(ii) Comprimento (fora a fora): 15, 28 metros;
(iii) Calado máximo  (distância da quilha do navio à linha de flutuação): 1,22 metros
(iv) Velocidade máxima: 9,2 nós ou milhas marírimas (c. 17 km)
(v) Autonomia: 460 milhas (c. 850 km)
(vi) Armamento: 1 metralhadora Oerlikon Mk II 20 mm + 2 metralhadores MG 42, de 7,62 mm
(vii) Lotação: 6 praças
(viii) Capacidade de transporte: 1 destacamento de fuzileiros (80 homens) ou 20 toneladas de carga ou 1 camião de 6 toneladas ou 2 jipes

Diz ainda o nosso camarada Manuel Lema Santos:

(...) "Muitos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões de comando que integraram aquelas unidades navais em múltiplas missões operacionais de fiscalização, escolta, embarque e transporte de fuzileiros, militares de outros ramos, população em geral, nos comboios logísticos com material, equipamentos e abastecimentos.

"Com uma guarnição de 6 homens, comandadas por um Cabo de Manobra, foram, em conjunto com todas as outras classes de LDM presentes na Guiné, um importante suporte da estrutura operacional e logística da Marinha." (,..)

"Que se enalteça a competência, coragem, esforço e dedicação das suas guarnições, no bom êxito conseguido das inúmeras e arriscadas missões que lhes foram atribuídas, algumas delas pagas com o sacrifício da própria vida." (...)

2. E aqui, acrescento eu,  nunca é demais evocar e relembrar a epopeia da LDM 302,  a cuja tripulação pertenceu o marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira (1947-2011), natural da Lourinhã, condecorado com a Cruz de Guerra em 1968. 

Infelizmente, este meu conterrâneo, vizinho, amigo e condiscípulo, nascido no mesmo ano que eu, morreu prematuramente aos 64 anos, com o posto de sargento chefe reformado (*)

Escrevi há uns anos atrás (*):

(...) "A epopeia da LDM 302 e dos seus bravos marinheiros merece ser melhor conhecida de todos nós. Na altura do ataque de 19 de dezembro de 1968 bem como no de 10 de junho de 1968, o Ludgero fazia parte da sua guarnição como maquinista fogueiro. São factos que eu só agora vim a saber. E quero partilhá-los com os amigos e camaradas da Guiné, que acompanham o nosso blogue bem como com os meus conterrâneos e ainda a família do meu amigo, em especial o seu filho e os seus irmãos, bem como a mãe do seu filho, Maria Teresa Henriques, natural da Atalaia.

Que a terra te seja leve, meu amigo e camarada!... E que a gente da nossa terra saiba cultivar a tua memória e a memória dos nossos antepassados que têm o mar no seu ADN !" (...)

____________

Notas do editor:
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10766: Antologia (77): Os heróis da LDM 302, atacada e afundada no Rio Cacheu em 19/12/1967: banda desenha de Malheiro do Vale e Baptista Mendes (Revista da Armada, nº 8, maio de 1072, pp. 16-17)









Banda desenhada dedicada ao episódio do ataque à LDM 302, no Rio Cacheu, em 19 de dezembro de 1967, de que resultou o seu afundamento e a morte do patrão da lancha, o marinheiro de manobra Domingos Lopes Medeiros. Esta banda desenhada via-a, pela primeira vez, no sítio do nosso camarada Manuel Lema Santos, Reserva Naval (poste de 15 de dezembro de 2008 > Guiné, LDM 302, atacada e afundada).

Este episódio heróico da nossa marinha e dos bravos seis marinheiros que constituíam a guarnição da LDM 302, toca-me muito em especial por entre esses heróis estar um amigo meu, colega de escola, conterrâneo e vizinho, o marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira, precocemente desaparecido aos 64 anos. Eramos da mesma colheita, a de 1947.

Em sua homenagem e aos restantes camaradas da tripulação da LDM 302, já aqui reproduzimos, com a devida vénia, dois postes do sítio Reserva Naval, um espaço na Net que é de visita obrigatória para os camaradas da Guiné (*). Hoje tomo a liberdade de editar e publicar esta  interessantíssima banda desenhada, com texto do próprio contra-almirante Malheiro do Vale, diretor da Revista da Armada,  e desenho de Baptista Mendes. (Reprodução com a devida vénia).


Capa (parcial) do nº 8, ano I,  da Revista da Armada, maio de 1972,  36 pp. Legenda da imagem da capa: "Marinheiros dos navios  brasileiros da escolta  ao N/M  «Funchal »  que conduziu os restos mortais  de D. Pedro, vestindo uniformes  da época".

Esta "publicação oficial do Ministério da Marinha" tinha como diretor e editor o Comodoro António de Jesus Malheiro do Vale. A orientação gráfica era de... Hernâni Lopes. Cada número, avulso, custava 3$00. A assinatura anual era de 24$00 para o Continente, Ilhas, Ultramar e Brasil (via marítima); 59$00 para as Ilhas (via aérea); e 113$00 para o Ultramar (via aérea).


Sumário (parcial) da edição nº 8 da Revista da Armada,. maio de 1972, donde consta a "banda desenhada" de M. do Vale e B. Mendes, "Heróis dos Rios da Guiné", pp. 16/17.

___________

Nota do editor:

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Guiné 63/74 - P10084: Antologia (76): Vida e morte da gloriosa LDM 302, a cuja heróica guarnição pertenceu o marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira, natural da Lourinhã, condecorado com a Cruz de Guerra em 1968 (Manuel Lema Santos / Luís Graça)

A. O lourinhanense Ludgero Henriques de Oliveira morreu recentemente


De morte inesperada, na sequência de um internamento hospitalar. Aos 64 anos. E sem tempo de me poder contar, direito, tim por tim, as suas andanças pelos rios e braços de mar da Guiné, a bordo da heróica LDM 302.

Eu sabia vagamente que ele pertencera à guarnição de uma LDM, que fora atacada no Cacheu, e que desse ataque resultaram baixas, tendo o navio sido afundado. 

Ele vivia na Lourinhã. Era sargento chefe reformado da Armada, com uma brilhante folha de serviços. Via-o com frequência. Éramos vizinhos, e mais do que isso, amigos e colegas de escola. Nascemos no mesmo ano, 1947, com uma diferença de 2 meses, eu em janeiro, a 29, ele em março, a 26...

Fiquei inconsolável ao saber, tardiamente, da sua morte. Há dias passei pelo cemitério local, hábito que não tinha e que agora passei a ter na sequência da morte recente do meu pai, Luís Henriques. Estive na campa do Ludgero, e prometi a mim mesmo que falaria dele no nosso blogue... Ele era a modéstia em pessoa. Nunca me disse, por exemplo, que sido condecorado com a Cruz de Guerra, em 1968... Mas tinha muito orgulho na farda da Marinha...

E que melhor homenagem lhe poderia eu prestar do que reproduzir, com a devida vénia, estes dois postes do nosso camarada Manuel Lema Santos, originalmente publicados na sua página Reserva Naval, um sítio incontornável na Net, onde se honra a nossa marinha e os nossos marinheiros ?

A epopeia da LDM 302 e dos seus bravos marinheiros merece ser melhor conhecida de todos nós. Na altura do ataque de 19 de dezembro de 1968 bem como no de 10 de junho de 1968, o Ludgero fazia parte da sua guarnição como maquinista fogueiro. São factos que eu só agora vim a saber. E quero partilhá-los com os amigos e camaradas da Guiné, que acompanham o nosso blogue,  bem como com os meus conterrâneos e ainda a família do meu amigo, em especial o seu filho e os seus irmãos, bem como a mãe do seu filho, Maria Teresa Henriques, natural da Atalaia, Lourinhã.

Que a terra te seja leve, meu amigo e camarada!... E que a gente da nossa terra saiba cultivar a tua memória e a memória dos nossos antepassados que têm o mar no seu ADN !


Luís Graça
___________________




Guiné > Região do Cacheu > Carta de Binta (1954) (Escala 1/50 mil) > A perigosa passagem do Rio Cacheu, em Porto Coco, frente à clareira de Tancroal, de má memória para os nossos marinheiros.


B. Reserva Naval > 28 de novembro de 2008 > A epopeia da LDM 302 na Guiné

(Parte I) [Excerto]

por Manuel Lema Santos

19 de Dezembro de 1967 – O ataque e afundamento da lancha


A LDM 302, de que apenas o casco veio dos EUA em 1963, foi adaptada nos estaleiros da Argibay, onde permaneceu para esse efeito de 9 de Outubro desse ano a fins de Janeiro do ano seguinte.

Foi aumentada ao efectivo das navios da Armada em 18 de Janeiro de 1964.

Chegou à Guiné, Bissau, a bordo de um navio da Marinha Mercante, na manhã de 23 de Fevereiro desse ano. Era seu patrão de então o marinheiro de manobra n.º 2156, Aristides Lopes.

Após um curto período de adestramento da guarnição, foi atribuída ao Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 2 – DFE 2, ao qual competia a fiscalização da zona do rio Geba,  tendo aí iniciado intensa vida operacional.

Efectuou um primeiro cruzeiro de fiscalização naquele rio, em 18 de Março [de 1964], sem que nada de anormal tivesse ocorrido, o que poderia ser interpretado como bom augúrio naquele teatro de guerra.

De 9 a 11 de Abril, pela primeira vez, em conjunto com a LDM 101, 201, LFG Escorpião, LFP Canopus e os DFE 8 e 9, foi incluída numa missão de apoio de fogo e transporte de fuzileiros, a operação “Tenaz”, levada a cabo no rio Cumbijã.

Em 22 de Abril o baptismo de fogo. Frente a Jabadá quando, em conjunto com mais três LDM, procedia a um desembarque de fuzileiros, o inimigo tentou opor-se com fogo de armas ligeiras mas não conseguiu evitar o desembarque.

No dia 22 de Julho, foi atacada pela segunda vez, desta feita no rio Cacheu, em Porto de Côco. O inimigo, emboscado nas margens, utlizou metralhadoras pesadas e morteiro, sem consequências.

Durante o resto do ano de 1964 tomou parte em várias operações no rio Geba e recolheu ao SAO – Serviço de Assitência Oficinal, onde foi submetida a alterações no poço, procedendo-se à instalação de uma cozinha e alojamentos para a guarnição. Foram também protegidos com chapa balística a casa do leme e o escudo da peça Oerlinkon de 20 mm.

A partir de então ficou com possibilidades de alojar permanentemente a guarnição, como viria a revelar-se indispensável.

1965 veio a revelar-se para a LDM 302 um ano muito duro. Continuando a desempenhar denodadamente missões de fiscalização, escoltas a comboios de barcaças mercantes, transporte de tropas e apoio de fogo, no dia 4 de Fevereiro, em frente de Tambato Mandinga, no rio Cacheu, foi violentamente atacada das margens com morteiros e metralhadoras ligeiras, sofrendo 30 impactos no costado e superestuturas. Não houve baixas na guarnição para o que muito contribuiu, certamente, a sua pronta e valorosa reacção.

No dia 4 de Outubro, no rio Armada, um afluente do Cacheu, em missão de transporte de forças terrestres, foi atacada das margens com metralhadoras ligeiras e granadas de mão, resultando 10 feridos ligeiros entre os militares embarcados.

Novamente, em 28 de Outubro, a leste de Farim, na margem do Cacheu, foi alvejada sem consequências com tiros de espingarda, durante uma operação de desembarque de fuzileiros.

Foi de relativa tranquilidade o ano de 1966 dado que, apesar de ter estado sempre no Cacheu no cumprimento das missões que lhe foram atribuídas, não teve qualquer contacto de fogo directo. Mercê do seu constante vaivém nos rios da zona, tornara-se já perfil conhecido e respeitada pelo inimigo.

Trágico viria a revelar-se o ano de 1967, ainda que pelo escoar do tempo se assemelhasse ao anterior, aparentemente tranquilo. Chegara-se a meados de Dezembro sem qualquer acção hostil e apenas no dia 16, em violenta acção do inimigo contra Binta, auxiliou com eficácia as forças terrestres na defesa daquele aquartelamento.

Não viriam aqueles seis homens de guarnição a terminar assim o ano quando, a 19 de Dezembro, pelas 11:00, a “302” descia o rio Cacheu, em postos de combate, calor já a apertar, margens de tarrafo denso a entranhar-se pelo rio.

No leme, (i) o patrão, marinheiro de manobra Domingos Lopes Medeiros;

(ii) nos seus postos, junto à Oerlinkon, os marinheiros artilheiros Manuel Luís Lourenço e Silva e Manuel Santana Carvalho;

(iii) no posto de fonia, o marinheiro telegrafista Joaquim Claudino da Silva;

(iv) na MG 42 o marinheiro fogueiro Manuel Fernando Seabra Nogueira:

(v) e junto aos artilheiros, pronto a acorrer onde necessário fosse, o marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira, de serviço aos motores, comandados da casa do leme.

A lancha deixara para trás uma das muitas curvas sinuosas do rio e passava frente à clareira do Tancroal [, vd. carta de Binta], com a guarnição em redobrada atenção pelo comprovado perigo que representava, pelo historial anterior de ataques já desferidos contra diversas unidades navais.

Subitamente, observaram-se fumos na margem sul à boca de peças e, quase de seguida, fortes rebentamentos. O navio estremeceu violentamente e os motores pararam. Estavam sob violentíssimo ataque de canhão sem recuo, lança-granadas foguetes e ainda metralhadoras, pesadas e ligeiras.

A lancha atingida e com o patrão gravemente ferido ficou sem leme, entrando pelo tarrafo da margem Norte. Os ramos vergaram de imediato e, de seguida, ao recuperarem a posição normal, projectaram a LDM que recuou, ficando à deriva.

A lancha metia água e afundava-se rapidamente de popa. A inclinação era já muito grande e os artilheiros, com água pelo peito, ainda faziam fogo por cima do tecto da casa do leme com grande dificuldade. O posto de fonia, atingido por um estilhaço de granada, tinha ficado destruído e o patrão, moribundo, jazia caído sem que alguém lhe pudesse sequer acudir no momento.

Sentido, de todo, que o navio estava perdido, os artilheiros viram-se forçados a abandonar a peça tentando então o telegrafista socorrer o patrão. Fez um esforço para o por de pé mas foi-lhe de todo impossível. Atingido em cheio estava quase cortado em dois, pelas costas, com as vísceras de fora.

Inexplicavelmente, o inimigo deixou de fazer fogo. O telegrafista [, Joaquim Claudino da Silva], o mais antigo depois do patrão, assumiu o comando e deu ordem para abandonar a lancha. Arriaram então o bote de borracha, colocaram lá dentro, o patrão, nessa altura já morto, os papéis de bordo e uma G3, dirigiram-se para a margem e esconderam-se no tarrafo. Fora de água, a lancha tinha apenas parte da porta de abater.

Era imperioso alguém ir a Bigene, o aquartelamento do Exército mais próximo, situado a cerca de três quilómetros e regressar com socorros. Sendo os restantes elementos novos na guarnição e o telegrafista o único conhecedor da zona, empunhou a arma e foi ele próprio, conseguindo lá chegar coberto de lama e sem percalços pelo caminho.

Entretanto, a LDM 304, que navegava não longe do local, alertada pelo ruído das explosões e tiros da “302”, dirigiu-se ao local deparando, para espanto da guarnição, com uma lancha totalmente afundada, sem ninguém à vista.

Passaram-lhe um cabo de reboque e seguiram rio abaixo, avistando pouco depois os sobreviventes que embarcaram e relataram o sucedido.

Mas nesse dia a má sorte acompanhava a LDM 302. Ao aportarem a Ganturé, local escolhido para encalhar a lancha, em águas poucos profundas para poder ser recuperada, o artilheiro Carvalho, que saltara do bote para a “302” a fim de manobrar os cabos de reboque, caiu à água e nunca mais foi visto, não obstante os porfiados esforços dos seus camaradas, soldados e nativos de terra que tinham acorrido ao local.

Tudo tinha sido muito rápido, com consequências trágicas em escassos vinte minutos de duração, num combate desigual para a guarnição, que enfrentou o inimigo com perda de vidas mas com exemplar determinação, abnegação e estoicismo.

Foram agraciados com a Cruz de Guerra na cerimónia anual do 10 de Junho, no Terreiro do Paço, estando os já ausentes representados pelas suas famílias.

A LDM 302 seria rapidamente recuperada e voltaria a navegar!

(continua)

mls [Manuel Lema Santos] [...]





Cinco homens da guarnição que sofreu o último ataque [, 18 de fevereiro de 1969,], da esquerda para a direita: Mar CM Paquete, Cabo M Inácio, Mar A Correia, Mar CM Nogueira e Mar CE Martins (o penúltimo estava presente em três ataques à lancha e o último, no segundo e terceiro ataques). 

Foto da Revista da Armada, reproduzida com a devida vénia.




A LDM 302 navegando no Cacheu, junto ao tarrafo da margem. Legenda; A – Poço(resguardado com chapa balística); B – Peça Oerlinkon; C – Tarrafo; D – Casa do leme; E – Bote de borracha; F – Porta de abater; G – WC. Foto da Revista da Armada, reproduzida com a devida vénia.

Fotos: © Manuel Lema Santos (2008). Todos os direitos reservados.


(Parte II) [Excerto]

por Manuel Lema Santos


Novo ataque e incêndio da lancha em 10 de Junho de 1968


No dia seguinte, a 20 de Dezembro [de 1967], equipas do SAO - Serviço de Assistência Oficinal e da secção de mergulhadores sapadores, rumaram para Ganturé embarcadas na LFG “Sagitário” com a finalidade de procederem ao salvamento da LDM 302. Aquela unidade naval, conjuntamente com a LFP Canopus, garantiram apoio próximo e também escolta ao rebocador “Diana".


Reposta a lancha a flutuar e ainda sob escolta da mesma LFG, foi rebocada para Bissau, onde subiu o plano inclinado no dia 23. Os trabalhos de reparação prolongaram-se até 6 de Janeiro do ano seguinte [, 1968].

Dia de alegria e também de orgulho para toda a equipa, foi aquele em que a LDM 302 içou à popa a bandeira nacional e recomeçou a navegar com nova guarnição, pronta para outras missões.

Entendeu o Comando da Esquadrilha de Lanchas que deveria regressar ao rio Cacheu, agora integrada na organização operacional do dispositivo de contra-penetração ali montado, a Operação Via Láctea, que viria a manter-se até final de 1971.

Seis meses depois do primeiro afundamento e exactamente no mesmo local, Porto de Coco, Tancroal, no dia 10 de Junho, descendo também o Cacheu, foi novamente atacada com canhão sem recuo, lança-granadas foguete, morteiros, metralhadoras pesadas e armas ligeiras, numa dura demonstração de poder de fogo do inimigo.

Apesar da reacção imediata da LDM 305, comandada pelo cabo de manobra Lobo que navegava nas suas águas, logo aos primeiros disparos do inimigo foi atingido mortalmente por uma munição de lança-granadas foguete o grumete artilheiro António Manuel. Outro projéctil idêntico atingiu o escudo da Oerlinkon, fragmentando-se em numerosos estilhaços que feriram com gravidade, no tronco e nas pernas, o marinheiro artilheiro Manuel Luís Lourenço da Silva.

Mesmo ferido, continuou o artilheiro a fazer fogo sobre o inimigo, até que uma granada de morteiro deflagrou no poço da lancha, ateando um incêndio que se propagou à cobertura do poço e ao bote de borracha, provocando tal fumarada que o forçou a abandonar o posto da peça.

Ajudado pelo marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira, lançou o bote à água, fazendo o mesmo com o depósito de gasolina, pelo perigo que constituía. Colocaram o camarada já sem vida à popa, a salvo das chamas, voltando seguidamente à peça e continuando a fazer fogo até calar o inimigo.

O incêndio já tinha tomado proporções alarmantes estendendo-se a toda a lancha e o patrão, cabo de manobra Francisco Pereira da Silva, resolveu abicar à margem Norte. Saltaram então para a água e nadaram para terra conseguindo atingir o tarrafe.

A LDM 305, que não fora atingida, aproximou-se do local, embarcou todos os elementos e seguiu para Ganturé, onde o patrão da lancha, em estado de choque e o marinheiro artilheiro ferido, foram evacuados de avião juntamente com o corpo do artilheiro morto em combate.

No dia seguinte, a “302” que continuava a arder, foi rebocada pela “305” para Ganturé, onde mais uma vez a equipa SAO e uma equipa de mergulhadores sapadores, com guarda montada por um destacamento de fuzileiros especiais, a conseguiram repor em condições de ser rebocada para Bissau.

Apoio próximo dado pelas LFP Canopus e LFG Orion, tendo esta última procedido ao reboque da lancha até Barro, continuado depois pelo rebocador Diana até Bissau, com escolta daquela LFG.

Além dos elementos referidos, faziam igualmente parte da guarnição da LDM 302 o marinheiro telegrafista António Marques Martins e o marinheiro fogueiro Manuel Fernando Seabra Nogueira.


... e novamente recuperada, já não voltou ao Cacheu!


Em 26 de Julho voltou a subir o plano inclinado donde saíra quinze dias antes, mantendo-se ali em reparações até 10 de Novembro [de 1968], data de aprontamento para regressar às habituais fainas.

Sabido que, na generalidade dos casos, os marinheiros são supersticiosos, não seria de estranhar que as guarnições da LDM 302 fossem sedimentando a convicção de que a lancha não se dava bem com os ares do Cacheu.

Compreensivelmente, o Comando da Esquadrilha de Lanchas decidiu-se pelo não regresso da lancha àquele rio, atribuindo-a à TU4*, conjunto de unidades navais encarregadas de manter o dispositivo de contra-penetração no rio Grande de Buba e com as mesmas missões de sempre, ou seja, transporte de forças de desembarque, apoio de fogo em operaçoes militares e escoltas a combóios mercantes além de outras acções.

Já em 1969, pelas 11:30 horas do dia 18 de Fevereiro, quando navegava em missão de fiscalização, frente à foz do rio Uajá, afluente do rio Grande de Buba, foi atacada violentamente da margem esquerda com canhão sem recuo, lança-granadas foguetes e ainda metralhadoras ligeiras e pesadas.

Logo aos primeiros disparos, a cobertura da lancha ficou parcialmente destruída e foi ferido com gravidade o marinheiro artilheiro Dimas de Sousa Correia que, mesmo perdendo muito sangue, se manteve no seu posto de combate, disparando ainda quatro carregadores da Oerlinkon sobre o inimigo.

Talvez o seu sacrifício tenha evitado piores consequências ainda que, mesmo assim, registassem ferimentos ligeiros o marinheiro telegrafista, já mencionado em ocasião anterior, e o marinheiro fogueiro Custódio Mestre Paquete.

Houve igualmente um princípio de incêndio, originado por estilhaços dum projéctil de lança-granadas foguete que atingiu a cobertura do poço, mas foi rapidamente extinto.

O patrão da lancha era o cabo de manobra Manuel António Inácio, e ainda fazia parte da guarnição o marinheiro fogueiro Nogueira, numa prova evidente e confirmando o popular ditado de que não há duas sem três...

Depois de evacuados e substituídos os elementos da guarnição referidos neste combate, a LDM 302 continuou a cumprir as habituais missões no rio Grande de Buba.

Até ao final da sua vida operacional, nunca mais foi atacada a gloriosa e nobre LDM 302. Passou à situação de desarmamento em 27 de Julho de 1972, tendo sido abatida ao efectivo dos navios da Armada em 30 de Novembro desse mesmo ano.

Notável historial de uma pequena unidade da Marinha de Guerra, a roçar a ficção ou o lendário, não tivessem sido reais os combates travados e as baixas sofridas. Os elementos das sucessivas guarnições, sem excepção, honraram ao mais alto nível um dever pátrio, no cumprimento das missões de que foram incumbidos, pagando alguns deles com a vida, a dedicação, a determinação e o estoicismo.

Estarão sempre presentes na nossa memória! [...]

Fontes:

Arquivo de Marinha,
Revista da Armada nº 129 de Julho 1982,
Setenta e Cinco Anos no Mar, da Comissão Cultural de Marinha,
Anuário da Reserva Naval, de Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África. de Luís Sanchez de Baêna

mls [Manuel Lema Santos]
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Nota do editor:

Último poste da série > 5 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9000: Antologia (75): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (8): Ilha do Como, 15 de Março de 1964: E Deus desceu à guerra para a paz (Último episódio)...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Guiné 63/74 - P10080: Convívios (275): Homenagem, em 23 de junho, aos antigos combatentes da minha terra, Lourinhã (Luís Graça)


Lourinhã > Cemitério > Talhão dos Combatentes > Junho de 2012 > Trabalhos de recuperação e requalificação.  Ao fundo, a Igreja de Santa Maria do Castelo, em estilo gótico (Séc. XIV), classificada como monumento nacional em 1922. É um dos ícones da minha terra. Só por si vale uma visita á sede do último concelho do distrito de Lisboa.



Página principal do blogue do Núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes, núcleo esse que tem a sua sede na Rua 9 de Abril, n.º 8 - 1.º , 2560-301 Torres Vedras. Na área do núcleo há já dois monumentos erigidos em memória dos combatentes do ultramar , um em Torres Vedras e outro na Lourinhã.

Toda a correspondência pode ser enviada para Apartado 81, 2564-909 Torres Vedras ou para o email: torres.vedras@ligacombatentes.org.pt

Fotos: Cortesia do blogue do Núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes(2012)



Homenagem aos antigos combatentes da Lourinhã


1. Integrada nas Festas do Concelho da Lourinhã (22/24 de junho de 2012), realizou-se no passado sábado, dia 23, uma homenagem a todos os ex-combatentes naturais daquele município. Por estar em Angola, não pude comparecer a esta cerimónia, apesar do amável convite que me fizeram, a Cãmara Municipal da Lourinhã e o Núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes.

O ponto central desta iniciativa decorreu no Talhão dos Combatentes, no cemitério da Vila, que foi recentemente recuperado pelo núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes, com o apoio da Câmara Municipal e Junta de Freguesia da Lourinhã, bem como da Direcção Central da Liga dos Combatentes.

Esta cerimónia iniciou-se com a deposição de uma coroa de flores junto do monumento aos Combatentes, no Largo António Granjo, seguindo-se a celebração da eucaristia, na Igreja de Santa Maria do Castelo (Séc. XIV), e, posteriormente, uma cerimónia com guarda de honra no Talhão dos Combatentes.




Lourinhã > Cemitério local > 6 de maio de2012 > Lápide funerária referente ao José António Canoa Nogueira (1942-1965), o primeiro militar lourinhanense a morrer em terras da Guiné, mais exatamente em Ganjola, no dia 23 de janeiro de 1965. Era sold ap mort, Pel Mort 942 / BCAÇ 619 (Catió, 1964/66).

Era meu 3º primo, pelo lado da minha mãe. Foram vinte os meus conterrâneos, mortos na guerra do ultramar. O seu funeral, três meses e meio depois, tocou-me muito. Na altura, eu era o redactor-chefe do quinzenário regionalista Alvorada, e tinha 18 anos... E devo ter publicado uma das últimas cartas que escreveu (em 10/1/1965, dirigida ao diretor do jornal).




Lourinhã > Cemitério local > 6 de maio de 2012 > Lápide funerária referente ao Ludgero Henriques de Oliveira, SCH (Sargento chefe) reformado, da Marinha (1947-2011). Foi combabente na Guiné. Fazia parte, como fogueiro, da tripulação da LDM 302. atacada e afundada no Rio Armada, afluente do Cacheu, em 19 de dezembro de 1967 . Devido à sua morte súbita (por infecção hospitalar, suspeita-se), o Ludgero nunca me chegou a contar, com todos os detalhes, essa história dramática.

Era meu conterrâneo, colega de escola, vizinho, amigo e camarada. Fiquei consternado com a notícia da sua morte. Aguardo que o filho e a viúva me autorizem o acesso ao seu espólio documental com vista à elaboração de uma notícia mais completa sobre a sua passagem pela Marinha e pela Guiné.




Lourinhã > Largo António Granjo > 5 de novembro de 2011 > Escultura em bronze do combatente da Guerra do Ultramar (pormenor). O monumento é da autoria do arquitecto A. Silva e da escultora A. Couto.


Fotos: © Luis Graça (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados

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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de junho de 2012 > Guiné 63/74 – P10068: Convívios (274): 6º Encontro-Convívio do pessoal das unidades adstritas ao BART 2917, Guimarães, 23 de Junho de 2012 (Benjamim Durães)