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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)















~











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Virgínio  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Virgínio Briote: (i) nascido em Cascais: (ii) frequentou a Academia Militar, em 1962, que abandonou em seguida; (iii) foi Alf Mil em Cuntima, CCAV 489 / BCAV 490 (Jan-mai1965); (iv) 8ez o 2º curso de Comandos do CTIG; (v) comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / set 1966); (vi) regressou em Jan 1967; (viii) casado com a Maria Irene, orfessora de liceu reformada;  (ix) foi quadro superior de uma empresa da indústria farmacêutica.



1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):


A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais. 

Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].

Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" . 

Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária. 

Quando o mais velho concluíu o 5º ano,  foi para Ciências,  contrariado. 

− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras? 

− Eu gostava de ir  para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.

O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.

Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire. 

−  Para onde, Pai? 

−  Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército. 

Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora. 

Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação,  ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque,  quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar,  apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago. 

Saltando estes momentos, quase desmaiado,  viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado,  outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis  a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora. 

O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...

A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano. 

Alguns dias de férias, o pai,  de má cara,  não lhe falava e em setembro foi para os Açores. 

Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo],  se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente. 

Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão,  o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!

Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa,  depois de uma comissão consecutiva de 24 meses,  os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões  [na Mealhada], não sei.

A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei. 

O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.

Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade  dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,

Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...

Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico. 

E, na época, não terá sido único.  Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes,  em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser  "melhor" para eles  e elas (e para a família)... 

Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles... 

Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades,  o casamento... 

Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes às classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa). Nestas, a que pertencia maior parte de nós, começava-se mais cedo (na família, na escola, na rua, no trabalho, na "moina", nas "tainadas", nos "bailaricos", na  noite, na tropa...) a experimentar e a conhecer os desafios, os riscos e os limites da aventura da liberdade. 

O Vb aparece aqui como um mero  narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu, sob chamada de atenção minha.  Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço  de há 20 anos, no blogue..

 Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fez o examde admissão ao liceu). 

Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar  do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... 

Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão.   E eu, portanto,  não tenho  mais  o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente,  o percurso destas duas vidas... trocadas.

Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo... (que julgo que ele tem). Ou, como diz o provérbio italiano, "se non è vero, è ben trovato" (se não é verdade, é bem achado).

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28274: Verso & reverso (2): Muita honra e pouca glória: a história de Portugal Colonial resumida em três palavras-chave (Cherno Baldé, nosso colaboraor permanente, Bissau)


















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Cherno Baldé (2026)
Imagens: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários (*) de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente, natural de Fajonquito,  a viver em Bissau (deppois de ter vivido estudado também em Bafaftá, Bissau, Moldávia, Ucrânia, antigos territórios da URSS, Lisboa;  é hoje consultor independente na área da economia e gestão; tem página no Facebook.


(i) "Muita Honra e Pouca Glória" ou a história de Portugal colonial resumida em 3 palavras- chave.  Gostaria de acrescentar que ttambém os valentes perdem as guerras.

Na Guiné, o soldado português foi bom e firme, enquanto pôde, enquanto os meios à sua disposição o permitiram. Eu testemunhei a firmeza, a bravura desses soldados por mais de 10 anos, em fases e companhias diferentes e,  desses,  poucos eram profissionais ou do quadro permanente, e a partir de 70 quase todos eram milicianos, uma categoria ligeiramente um pouco acima das nossas milicias, voluntárias da sua própria desgraça.

Mas os valentes também perdem as guerras. Eu testemunhei o paradoxo de uma guerra perdida por homens valentes, transformada em vitória efémera a fim de permitir, no máximo,  gossi-gossi,  o regresso a casa, com medalhas, muita honra e pouca glória. (...)


(ii) Na Guiné do pós-25A74, poucos sabem dessa verdade histórica pós-colonial, pois o PAIGC encarregou-se, brilhantemente, de reescrever a história em cujos cenários eles eram os únicos e verdadeiros "Cabras-Machos",  e que a tropa "Tuga" não passava de espantalhos para inglês ver. 

Eu, pessoalmente, sabia que não era a verdadeira história, fazendo despertar em mim os primeiros sinais de desconfiança em relação a um Partido-Estado que se tinha apoderado de tudo e todos, prometendo mel e maná do céu ao povo e às suas ovelhas obedientes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 14:41:00 WEST 
 

(iii) Eu assisti (Cambaju, 1965/66) ao regresso dos homens do alferes Maia (CCAÇ 674), de fardas encharcadas,  depois de 5 dias de emboscadas e nomadizacão na fronteira com o Senegal, entre Solucocum e Cuntima (Colina do Norte).

Estava em Fajonquito aquando do ataque devastador a Cantacunda em 1968 e o sequestro dos 11 soldados do pelotão de metropolitanos da companhia sediada em Geba (CART 1690, 1967/69) e assistimos à pronta reação da companhia de Fajonquito do capitão Alcino de Jesus Raiano (CCAÇ 1685, 1967/69), com o envio de tropas às regiões abandonadas de Caresse e Cola, na tentativa de uma intercessão dos guerrilheiros, o que seria em vão.´

Eu convivi na minha terra com o soldado ("comando") Almeida que, quando havia um ataque numa localidade próxima,  não esperava por ordens ou colunas e corria a pé para não perder a festa do chumbo e da pólvora. 

Eu conheci os intrépidos Capitães do quadro permanente, o Carvalho (CCAÇ 2435) e o Patrocínio (CCAÇ 3549) (**), todos eles grandes homens e soldados que honraram o nome de Portugal em África.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 15:21:00 WEST 
 
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos,links,  título: LG) (***)
 ________________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4136: As Unidades que passaram por Fajonquito (José Martins)


domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita honra e pouca glória...




















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Colaboração: João Rodrigues Lobo
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça

A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes" (sic), os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu à Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

− Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes" (sic),  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. 

−  Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele.  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de,  nesse tempo, nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na mesmo na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

−   Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E,  se calhar, pensando bem, hoje até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes,  como militar e até como  homemk, acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

−  Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

− Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos, e dar ordens aos meus homens.

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir, com o monóculo na mão (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na Escola Prática de Santarém. 

− Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

− Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contra as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado em vida: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, agosto de 2026

Aviso legal: Os factos aqui narrados são verdadeiros. Mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando