sábado, 27 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5904: Ainda o desastre de Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (6): Houve mais mortos nesse dia do que nos sete anos anteriores (Armandino Alves)

1. Mensagem, com data de 22 de Fevereiro de 2010, do Armandino Alves,  ex-1º Cabo Enf, CCAÇ 1589 (Fá, Beli, Madina do Boé, 1966/68):

Assunto:  Ainda o desastre de Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (5): um versão 'historiográfica' (*)...

Caríssimo Luís Graça

Nos, julgo eu, 7 anos em que existiu Madina do Boé e Béli , este desastre contabilizou tantos ou mais mortos sofridos pelo exército nas operações de reabastecimento e nas rendições das Companhias que lá estiveram.

O que eu acho que levou ao desmantelamento de Madina do Boé foi a total impreparação dos seus Comandos e a falta de senso. E essa falta de senso repercutiu-se no Cheche. Não era por mais uma hora de espera que o IN ia atacar. Julgo que a CCAÇ 1790 gastou mais em munições que todas as outras Companhias juntas. Por esse motivo é que os troncos de palmeira existentes nas valas como defesa se encontravam todos queimados. Era só apoiar a arma e disparar até acabar o carregador.

Pelo que se lê,  [alguém] era protegido do Gen Spínola e o azar desse alguém  foi o General ir para lá com 4 meses de atraso, senão a Companhia [1790]  nunca teria ido para lá [, para Madina do Boé]. Eu só faço uma pergunta: Se quisermos defender Portugal, o que fazemos ? Reforçar as nossas fronteiras terrestres e maritimas. Lá foi precisamente o contrário. Abriu-se a porta de par em par e estendeu-se uma passadeira vermelha para o IN entrar. Julgo que não foi isto que aprenderam na A.M. [ , Academia Militar]

Um abraço,
Armandino Alves
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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 2 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5866: Ainda o desastre de Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (5): uma versão historiográfica (?) (Luis Graça)

Guiné 63/74 - P5903: Estórias avulsas (76): Como morreu o meu prisioneiro (Hugo Guerra)

1. Mensagem de Hugo Guerra* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 60, Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70, que hoje é Coronel, DFA, na reforma), com data de 25 de Fevereiro de 2010, com uma história de prisioneiros:


COMO MORREU O MEU PRISIONEIRO


Em Fevereiro de 1970 estava em São Domingos para descansar de Gandembel e Ponte Balana, e acabar a minha comissão que viria a terminar abruptamente logo no mês seguinte, quando rebentou uma mina nas mãos do meu amigo Celeiro e nos atingiu aos dois.

Um dia qualquer de Fevereiro ou Março fomos informados pelo Comando de Batalhão que nos iam trazer uma encomenda.
Lembro-me que era ao fim da tarde e quando o DO aterrou, lá fomos num jipe à pista saber o que se passava.
Montada a segurança aproximei-me do avião e como era o mais velho dos Alferes e o Capitão estava de férias, competia-me fazer as honras da casa.
Do avião saíram alguns Oficiais Superiores e um nativo já de cabelos brancos e andrajoso, mas com um porte altivo e digno, que ainda hoje povoa as minhas recordações.

Era a encomenda.

Fui informado que o homem tinha sido encontrado algures junto à fronteira e traziam-no porque ele teria dito estar disposto a indicar o caminho para um local na nossa Zona onde se pensava que encontraríamos o IN. A ser verdade seria um ronco para aquela Companhia de periquitos que, felizmente para eles nunca os chegaram a ver, nem vivos nem mortos.

Lá mandei levar o homem para a prisão e dei instruções para que ficasse bem vigiado até à manhã seguinte quando, pensávamos nós, iria levar-nos até ao IN.

A avioneta foi-se com os Digníssimos passeantes e nós regressamos ao aquartelamento para a janta que já nos esperava.

Levaram o jantar ao prisioneiro e abrandaram a vigilância de tal forma que, estávamos nós a jantar, irrompe a rapaziada pela Messe dentro gritando que o homem se tinha enforcado.

Fui a correr ver o que poderíamos fazer - já era o terceiro enforcado que via na minha vida - e encontrei o meu prisioneiro pendurado e com a rapaziada toda a olhar especados com aquela visão. Tinha usado o baraço que trazia a segurar as calças e que ninguém se lembrara de lhe tirar antes. Agarrei o homem pelas pernas e fazendo força para cima para aliviar o peso lá arriamos o corpo que ainda tentei trazer de volta à vida. Fiz-lhe boca a boca e naquele desespero até injecções no coração lhe apliquei. Tudo sem resultado. O homem partira o pescoço e nada mais havia a fazer.

Apareceu entretanto o Chefe de Posto, cabo-verdiano, cujo nome não recordo mas que disse do alto da sua sapiência:

- Aquele mais velho da etnia (?), nunca trairia o seu povo e tinha-se suicidado para evitar a vergonha insuportável de ter sido preso e humilhado daquela forma.

Cresci mais um bocado naquele dia e, no dia seguinte achei que já tinha guerra a mais e, escrevi ao meu amigo Coronel Pilav Diogo Neto, Comandante da Zona Aérea da Guiné a pedir para me tirar daquele filme.

Já chegava.
Hugo Guerra

Hugo Guerra e o seu amigo Celeiro
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5786: Os ex-combatentes sem abrigo não têm acesso ao Lar Militar de Runa (Hugo Guerra)

Vd. último poste da série de 16 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5822: Estórias avulsas (75): Do Cumeré a Canquelifá (João Adelino Aves Miranda, ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4610/73)

Guiné 63/74 - P5902: FAP (48): A guerra Páras-Fuzos, vista por um fuzileiro (Rui Ferrão)

1. Comentários ao poste P5580 (*), feitos em 7, 8 e 10 do corrente, pelo nosso leitor Rui Ferrão, que depreendemos ter estado na Marinha, possivelmente, num Destacamento de Fuzileiros Especiais (DFE), entre 1967 e 1969, sendo portanto contemporâneo dos tristes acontecimentos de Bissau, em 3 de Junho de 1968:




(i) Queria fazer um pequeno reparo àquilo que foi dito em relação aos confrontos entre Páras-Fuzos. Os Fuzos não emboscaram os Páras como aqui é referido no texto do sr. coronel Mira Vaz e noutros que já li.

O que aconteceu foi que o oficial de dia ao quartel Fuzo, nesse mesmo dia, já sobre a madrugada, mandou sair a ronda para verificar se as coisas já estavam mais calmas. A dita ronda ao passar junto aos edíficios em obras teria ouvido uma voz gritar Estes lerpam já todos!, e vai daí um dos elementos da ronda dirige a arma para aquela zona e dispara para o escuro, não se apercebendo de qualquer vulto... Só depois se aperceberam do lamentável acidente.

A outra morte teria sido horas antes à porta do Estádio, também em circunstâncias identicas; há um Fuzo que, ao descer do jipe da ronda, cai e deixa cair a arma, entretanto está ali por perto um Pára e pega na arma, o cabo da ronda naquela confusão (só quem lá estava é que consegue avaliar) vê o individuo com a arma nas mãos, não sei o que lhe passou pela cabeça e atirou segundo informações, para o chão, só que o tiro ressaltou e foi atingir o Pára.

Eu estava lá no início do confronto, mas depois encontrei um filho da minha terra, olhámos um para o outro e interrogámo-nos:
- O que é que nós estamos aqui a fazer? - e saímos para fora.

Foi assim que os acontecimentos me foram relatados por companheiros Fuzos, visto naquela altura estar já na companhia do filho da terra a beber uma cerveja com mais alguns Páras. Estou de acordo que houve negligência dos superiores dos dois lados, julgo que teriam evitado a morte destes dois jovens,camaradas de armas.

Também não estou a ver os Fuzos a montar uma emboscada daquela maneira tão cruel com já foi escrito nalguns locais do blogue. Como disse, essa parte não falo por aquilo que me contaram, logo após os acontecimentos. Foi lamentável e vergonhoso para as nossas tropas.

Um abraço. Sou Rui Ferrão


(ii) Ainda os confrontos entre Pára-Fuzos. Alguém comentou algures no blogue que, havia uma grande rivalidade entre Páras-Fuzos, mas não é verdade. Enquanto eu estive na Guiné (1967-69), para além dos acontecimentos que todos conhecemos, sanados que eles foram, voltou tudo á normalidade, embora tivesse havido um período em que não havia qualquer convívio entre eles, mas depois tudo voltou ao normal como já tinha citado.

Quem passou pela Guiné e teve a oportunidade de privar com a malta da Marinha, estou convicto de que deles tem uma boa impressão. Senão vejamos: Quem nunca foi a bordo de uma lancha, ou de um navio, ou do quartel Fuzo comer um ou dois jantaritos desenrascado por um filho da terra Fuzo?

Eu próprio dispensei a minha cama por diversas vezes a camaradas Páras. Caldeiradas de cabritos "comprados" aos nativos pelos Fuzos e caldeirados e comidos (no quartel Fuzo) entre Pára-Fuzos, isto tudo depois dos confrontos, será isto será rivalidade?

O pessoal da Marinha nunca teve rivalidades com ninguém, inclusive, aconteceu por vezes safar militares do exército com problemas com a PM.

Um abraço, cordialmente sou Rui Ferrão. Voltarei ao assunto.


(iii) Voltando ainda ao incidente Páras-Fusos, quereria dizer ainda o seguinte: O acontecimento criou grande consternação no seio Fuso, nas horas que se sucederam todos se interrogavam:
- Como é que foi possível acontecer uma tragédia desta dimensão?

Todos nós lamentamos. Avançamos: um certo dia andando com alguns colegas Fuzos a passear em Bissau na zona do Pilão já depois da meia noite,(era perigoso andar naquela zona aquela hora da noite) encontrámos um grupo de Páras já com uns copos a mais, onde vinha um com um golpe profundo na cabeça e a sangrar bastante, não sei o que se tinha passado, sei apenas que estava a precisar de ajuda, pedimos aos militares da PM que o levassem ao Hospital, responderam que o jipe não era nenhuma ambulância, entretanto passa a ronda dos Fuzos, apercebendo-se da situação pegaram no ferido e nos restantes camaradas e levaram-nos a Bissalanca, visto que aquela hora já não tinham transporte para lá e ainda eram cerca de 12 Km.

Como estão a ver, meus amigos, não havia rivalidade entre estas duas Forças. Sobre a quantidade de companhias e destacamentos a prestar serviço na Guiné, citadas pelo camarada Jorge Santos, também não está correcta a quantidade nem os seus números. Havia apenas duas companhias e quatro destacamentos.

Um abraço Rui Ferrão

2. Comentário de L.G.:

Obrigado ao Rui pelos esclarecimentos. Fica convidado a ingressar na nossa Tabanca Grande. A representação da Marinha continua a ser escassa. Para não falar dos fuzileiros (**).

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Notas de L.G.:

(*) 2 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5580: FAP (44): A verdade sobre os incidentes, em Bissau, em 3 de Junho de 1967, entre páras e fuzos... (Nuno Vaz Mira, BCP 12)

(**) Encontrei, na preciosa página do nosso camarada Jorge Santos,  a indicação de uma Associação de Fuzileiros:

Rua Miguel Paes, nº 25 - 2830-356 Barreiro
Tel.: +351 212 060 079 / Fax : +351 210 884 752
Email: afuzileiros@netvisao.pt

Guiné 63/74 - P5901: Um monóculo do General Spínola no Museu de Silgueiros (Manuel Traquina)

1. Mensagem de Manuel Traquina (*), ex-Fur Mil da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70, com data de 29 de Outubro de 2009:

Caro Luis Graça:
Por esse país fora, um pouco por todo o lado encontram-se vestígios de camaradas da Guiné, efectivamente fomos tantos que por lá passámos!

Estive na passada semana a fazer um pequeno tratamento termal em S. Gemil que fica poucos quilómetros a sul de Viseu.

Nos arredores, a cerca de dez quilómetros de Viseu, na pequena localidade de Passos de Silgueiros encontrei por acaso, um pequeno museu** que, como habitual não deixei de visitar.

Ali fiquei surpreendido ao ver exposto um dos monócolos de General Spínola, acompanhado por um cartão com a sua assinatura, e mais ainda uma pequena vitrina com várias recordações oferecidas pelo pároco local que foi capelão militar na Guiné.

Curioso é que aquele pároco tem um pequeno crucifixo que ele próprio executou com estilhaços de granada de morteiro do inimigo que recolheu após um ataque a Aldeia Formosa.

Logo que me seja possível enviarei algumas fotos e mais alguns pormenores

Um Abraço
Traquina
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 6 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 – P4903: Notas de leitura (20): Histórias do pessoal da CCAÇ 2382, por Manuel Traquina (Parte I) (Luís Graça)

(**) Museu de Silgueiros

- Negritos da responsabilidade do editor

Guiné 63/74 - P5900: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (9): Memórias da viagem no Uíge, de 4 a 10 de Março de 1964

1. Mais uma Nota Solta da 643, enviada ao Blogue pelo nosso camarada Rogério Cardoso* (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), no dia 24 de Fevereiro de 2010.

MEMORIAS DA VIAGEM NO NAVIO UIGE, DE 4 a 10 de Março de 1964

Um embarque naquelas condições, era uma cena que nem quero lembrar, a todos nós foi doloroso.

Deixar os nossos familiares, pais, mulher e filhos, em alguns casos, e amigos, num choro convulsivo, íamos para a guerra, pelo menos a maior parte de nós.

Passadas aquelas primeiras horas e depois da terra desaparecer, particularmente eu como sou de Cascais, foi o ultimo local a deixar de vêr, o que me custou umas lágrimas junto à proa do navio, pois o esquecimento embora momentâneo estava no meio de nós.

Os dias eram passados ora na sala de jantar, diga-se de passagem que pelo menos a Sargentada era bem tratada, ora no bar onde se jogavam umas cartadas até de manhã, a maior parte das vezes. Também eram projectados filmes no convés do navio com o ecrã num dos mastros, o que quando havia vaga lateral e com os olhos fixos no mastro, com as estrelas no fundo a andarem de um lado para o outro, provocava alguns enjôos,mas claro o mar estava ali mesmo ao lado.

No dia da chegada, todo o pessoal ficou a admirar a lenta entrada do Uige no Rio Geba até Bissau.

O navio não atracou no Pidjiguiti, e antesde sermos transportados no ferry, fomos visitados pelos nossos queridos camaradas do SPM que nos vieram dar as boas-vindas. Boas-vindas que se traduziam na venda de selos, postais e trocando as notas de Escudos Metropolitanos, por Escudos da Guiné, mais vulgarmente chamados de Pesos, claro Escudo por Escudo, e nós inocentemente lá fomos na onda dos nossos amigos, posso dizer que foram muitos milhares trocados, éramos um Batalhão mais uma Companhia independente, mais uma vez obrigado aos nossos amigos do SPM, pelo grande barrete que nos enfiaram até às orelhas, porque mal pusemos pés em terra, os civis que eram às dezenas, vinham propôr a troca a 15 e 20% de ganho.

Logo deu que pensar, se isto é para amigos, o que nos fará o inimigo.

Saudações a todos ex-combatentes do
Rogério Cardoso

Foto 1 > 5 de Março de 1964 > Na sala de jantar do Uíge > À esquerda: Furs Mil Dias, Magalhães e Amaral. À direita: Fur Mil Massano (falecido), 2.º Srgt Justiniano e Fur Mil Pereira Almeida.

Foto 2 > Uíge > Na sala de jantar, Furs Mil: Rogério, Cabeças, Águas, Inácio e Peixoto (já falecido)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 19 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5842: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (8): Momentos de lazer

Guiné 63/74 - P5899: Agenda Cultural (61): Exposição Portugal nas Trincheiras - A I Guerra da República, de 23/2 a 23/4/2010, em Lisboa


Do Museu da Presidência da República , dirigido ao nosso blogue, chegou-nos   este expressivo cartaz com o anúncio da Exposição Portugal nas Trincheiras - a I Guerra da República, a decorrer de 23 de Fevereiro a 23 de Abril,  nos Museus da Politécnica, em Lisboa.


Mais informações estão disponíveis no Museu da Presidência:
 
(i) Trata-se de uma iniciativa no âmbito das comemorações do I Centenário da República;
 
(ii) Reune mais de 200 peças e documentos relativos à participação do contingente português na I Grande Guerra, desde a sua partida para a Flandres em Fevereiro de 1917 até ao Trataddo de Versalhes, em 1919;
 
(iii) O espólio exposto foi recolhido graças ao apoio do Exército, da Liga dos Combatentes e de dezenas de particulares;
 
(iv)  Destaque para o diário de um soldado, oriundo da  Beira Alta, que relata o quotidiano da guerra, na 1ª pessoa, em português.
 
Recorde-se que o grosso das nossas tropas era composto por uma massa de jovens camponeses, mal preparados e pior equipados, e além disso analfabetos, que não sabiam a razão por iam lutar e morrer, e muito menos conheciam o inimigo, a Alemanha e os alemães. O inferno das trincheiras, documentado na exposição, em fotogrfia e filmes, ficou associado, no imaginário dos portugueses, à terrível Batalha de La Lys, em que no curtíssímo espaço de 4 horas, em 9 de Abril de 1918, na sequência de uma contra-ofensiva das tropas alemães,  o nosso exército perderá cerca de 7500 homens, entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos.
 
Um das razões por que os dirigentes políticos da I República apoiaram a nossa entrada na  I Grande Guerra, terá sido a defesa das colónias portuguesas de África, mas também a necessidade, para o novo regime político saído da revolução do 5 de Outubro de 1910, de criar (e reforçar) o culto de  novos símbolos identitários, como a bandeira verde-rubra. Se Portugal não estivesse entre os vencedores, na altura da assinatura do Tratado deVersalhes, nenhum de nós teria muito provavelmente ido parar à bolanhas da Guiné, na altura da guerra colonial (1963/74)... A Guiné teria caído nas mãos dos franceses ou dos ingleses. Amílcar Cabral não teria existido ou muito provavelmente escreveria em francês e seria amigo de Senghor...
 
O sacrifício em vidas humanas não ficou por aqui. Estima-se em cerca de 5000 o número de soldados do Corpo Expedicionário Português que regressaram, do teatro de guerra na Flandres francesa, com tuberculose... Em 1930,  a  mortalidade por tuberculose, no nosso país, atingiria  o valor máximo de 200 por cada 100 mil habitantes, correspondente a 10% de todos casos de morte, quando já estava em regressão nos países desenvolvidos... Sem falar a terrível peste da pneumónica (1918/19) que teve, em Portugal, consequências devastadores para os jovens adultos...

Por tudo isto, recordar é preciso... Há famílias portuguesas com três gerações de expedicionários (Flandres na I Grande Guerra, Colónias de África na I Grande Guerra - houve combates no sul da Angola, e no norte de Moçambique contra os alemães e seus aliados -, colónias de África e da Ásia na II Guerra Mundial, e depois Guerra Colonial, 1961/74)...  Já aqui falámos do caso de camaradas como o David Guimarães, cujo pai foi herói da Flandres... Mas haverá mais casos...que poderão chegar ao conhecimento do nosso blogue...

Guiné 63/74 - P5898: Tabanca Grande (206): Agostinho Gaspar, de Alqueidão, Boavista, Leiria, ex-1-º Cabo Mec Auto, 3ª C/BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74)



Acompanha o nosso blogue, de há muito, mas ainda não teve jeito de se inscrever formalmente. Usa o mail da filha, mas ainda não lida bem com estas novas tecnologias. Trabalhou na Mitsubish,  como mecâncio e responsável de sector. Hoje está reformado. Nome e morada: Agostinho Carreira Gaspar, R Carreira, nº 4, Alqueidão, Boavista, 2420-378 Leiria. (Boavista, em Leiria, para quem não sabe, também é terra de bom leitão...).

Faz parte da Tabanca do Centro. E o ano passado esteve presente no nosso IV Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 20 de Junho de 2009, Ortigosa, Monte Real. Fui ontem encontrá-lo novamente em Monte Real, por ocasião do convívio da Tabanca do Centro. Foi 1º Cabo Mecâncio Auto, 3ª C / BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74.

Diz-me que não tens histórias de guerra para contar. Em contrapartida, traz um saco de plástico onde guarda, como algo de precioso, a sua colecção da Guiné, constituída por vários álbuns:  moedas selos, notas e postas ilustrados...Insiste em que leve a sua colecção, para digitalizar e depois devolver. Trouxe apenas, a título de empréstimo,  o seu álbum de postais ilustrados (cerca de 90). De se reproduz, abaixo, um.





Guiné Portuguesa > Bilhete Postal > 140 - Banho de menino (Fulacunda). Edição "Foto Serra, C.P. 239, Bissau. Impresso em Portugal. 

Fonte: Exemplar da colecção do Agostinho Gaspar




Guiné > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 4612/72 (1972/74) > Agosto de 1974 > Guerrilheiros, armados, do PAIGC, presumimos que na véspera da transferência do aquartelamento. O BCAÇ 4612/72 regressou à Metrópole em finais de 1974.

Fotos: © Agostinho Gaspar (2010). Direitos reservados


Garanti-lhe que hoje o apresentava à Tabanca Grande. Emprestou-me também um DC com a história do seu batalhão, e mais álbuns de fortografias - documento que irei explorar noutra altura. Para já, quero que o Agostinho, que continua a ter a cara de menino com que foi para a Guiné, se sinta confortavel ao pé dos seus camaradas, operacionais ou não. Apreciei muito o seu gesto, confiando-me algo que para ele tem um grande valor sentimental. Espero que em breve ele nos mande o seu endereço de e-mail.

Deste batalhão é o nosso camarada Jorge Canhão, que tem escrito sobre a sua história no TO da Guiné. Temos pelo menos 24 referências, no nosso blogue, II Série,  ao BCAÇ 4612/72.

Guiné 63/74 - P5897: Os nossos médicos (16): Um Soldado Básico licenciado em Medicina (António Tavares)

1. Mensagem de António Tavares * (ex-Fur Mil da CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), com data de 23 de Fevereiro de 2010:

Caro Vinhal,
Nos Marcadores ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, que por razões óbvias omito o nome, mas recordo:

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23-02-1970, - (faz hoje 40 anos!) - no CIM de Santa Margarida, tivemos um Soldado Básico… Licenciado em Medicina!

Soldado Básico por motivos políticos com o único mal de ter ideias diferentes daquele que nos mandava ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Esteve no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um espírito João Semana!

Sentia-se útil ao auxiliar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do Campo de Instrução Militar.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!
Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma!
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… logo fui perdoado.
Se o não fui, a penitência foi cumprida no teatro de guerra: - Guiné.
No fim do IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento dos Comandos Militares o Soldado Básico - Médico - dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos Sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24-04-1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os Alf Mil Médicos Vítor Veloso; José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971 foi para Bafatá - Delegado de Saúde - e substituído pelo Alf Mil Médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O Médico, com Carteira Profissional, Soldado Básico - na tropa - continuou no CIM de Santa Margarida.

Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do Senhor Dr. ... Assim conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974 a vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril/74 por muito que leia, veja e ouça não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.

Com um abraço do,
António Tavares
Ex-Fur.Mil. SAM
Foz do Douro, 23-02-2010
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(*) Vd. poste de 7 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5234: Estórias avulsas (55): O ar assustado de uma prisioneira de guerra (António Tavares)

Vd. último poste da série de 30 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5732: Os nossos médicos (15): Professor Doutor Pereira Coelho (ex-Alf Mil Méd do BCAÇ 3872 e Director do Hospital Civil Bafatá, 71/74

Guiné 63/74 - P5896: Convívios (195): IV Encontro dos ex-combatentes da Guiné do Concelho de Matosinhos, dia 6 de Março de 2010 (Carlos Vinhal)

IV CONVÍVIO DOS EX-COMBATENTES DA GUINÉ DO CONCELHO DE MATOSINHOS

De acordo com o prometido*, a organização vem informar que o Almoço será servido no Restaurante Marisqueira Majara que fica situado na Rua do Godinho, 343, em Matosinhos, mesmo em frente à saída do Parque de Estacionamento das Marisqueiras.

O preço do almoço será de 25 €uros.

Para evitar publicar a Ementa por inteiro, esclarecemos que no preço estão incluídos serviço de Bar, Aperitivos, Sopa, Prato de peixe (quem quiser pode optar por carne), vinhos, sobremesa, café e digestivos.

Está já confirmada a presença, de novo, do senhor General Carlos Azeredo, o que muito nos honra.

Temos cerca de 125 inscrições confirmadas o que irá constituir um novo máximo de participantes.

Lembramos que a concentração dos ex-combatentes e acompanhantes será em frente ao edifício da Câmara Municipal (Jardim Basílio Teles), a partir das 12 horas.


Bonito espaço compreendido entre o edifício da Câmara, à esquerda, e o Parque Basílio Teles, à direita da foto
Foto retirada da Página da Câmara Municipal de Matosinhos, com a devida vénia.


Se algum dos camaradas forasteiros se sentir desorientado, pode recorrer aos nossos números de telefone para saber como e onde nos encontrar.

- António Maria - 938 492 478
- Carlos Vinhal - 916 032 220
- José Oliveira - 917 898 944
- Ribeiro Agostinho - 969 023 731
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(*) Vd. poste de 10 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5800: Convívios (101): IV Encontro dos ex-combatentes da Guiné do Concelho de Matosinhos, dia 6 de Março de 2010 (Carlos Vinhal)

Vd. último poste da série de 27 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5892: Convívios (107): Visitei a Tabanca Pequena de Matosinhos e quero homenagear os seus mentores (Jorge Fontinha)

Guiné 63/74 - P5895: Blogpoesia (65): Porque Será (que não consigo esquecer) (Albino Silva)


1. Mensagem de Albino Silva* (ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70), com data de 23 de Fevereiro de 2010:

Carlos Vinhal
Aqui te mando este trabalhito para colocares na Nossa Tabanca Grande.
Espero que chegue bem, pois tenho mais para enviar, mas quero ter a certeza que chegou bem.

Um Abração para todos os Tertulianos.
Em Especial para os Chefes de Tabanca.
Albino Silva



PORQUE SERÁ

Por mais que eu queira esquecer
O passado no Ultramar
Eu bem tento mas não consigo
Pois o estou sempre a lembrar …

Não consigo esquecer
E se o Trauma assim é
A verdade eu não esqueço
Recordo sempre a Guiné …

Não consigo esquecer
Da Guiné é já Paixão
A Guiné e Camaradas
Com quem fui em Batalhão …

Não consigo esquecer
E ainda hoje eu sinto
Saudades dos Camaradas
Da Guiné Teixeira Pinto …

Não consigo esquecer
Locais por onde eu andei
Até mesmo a Enfermaria
Onde tanto Serviço prestei …

Não consigo esquecer
As Gentes daquela terra
Os Estrondos dos Morteiros
Mortos Feridos e Guerra…

Não consigo esquecer
Aquela Enfermaria
Do Ferido em Combate
Ou por Doença Morria …

Não consigo Esquecer
Camaradas a Chorar
Traumatizados da Guerra
Que eu tentava Consolar …

Não consigo esquecer
Esse tempo Dia a Dia
Rebentamentos constantes
Que toda a Guiné Tremia …

Não consigo esquecer
Tudo aquilo que Vivi
Tanto e tanto Camarada
Que na Guiné conheci …

Não consigo esquecer
As Picagens nas Estradas
Vejo ainda Inimigos
A dispararem Rajadas …

Não consigo esquecer
A companhia ou Pelotão
Camaradas Caçadores
Que eram do meu Batalhão …

Não consigo esquecer
Camaradas Paras e até
Os Fuzas lá no Canchungo
Teixeira Pinto Guiné …

Não consigo esquecer
Tantos Milícias que vi
Guineenses do Canchungo
Que com eles convivi…

Não consigo esquecer
Bem de tudo estou lembrado
Penso na Minha G 3
Companheira do passado …

Não consigo esquecer
Ainda me julgo Fardado
Na Guiné ainda estou
Com o meu Camuflado …

Não consigo esquecer
Momentos que lá Vivi
Ao ver Sofrer Camaradas
Com eles também Sofri …

Não consigo esquecer
Os Roncos ou Emboscadas
Com tantos Anos passados
Ainda ouço Rajadas …

Não consigo esquecer
Camaradas que lutaram
Defendendo sua Bandeira
E pela Pátria Tombaram …

Não consigo esquecer
O Calor aquele Inferno
O Cheiro constante a Pólvora
E as Chuvas no Inverno …

Não consigo esquecer
Da Guiné me lembro Sim
Dos Reforços e Psico
Guardas á Ponte e Fortim …

Não consigo esquecer
Mesmo por muito tentar
Quando penso estar esquecido
Estou com a Guiné a Sonhar …

Eu não consigo esquecer
Coisas em minha memória
E sonhar com a Guiné
Faz parte da minha História …

Eu não consigo esquecer
Nem Guiné nem sua Gente
Eu Sonho que sou Soldado
E ainda sou Combatente …

Eu não consigo esquecer
E a Dormir vou Sonhando
Caindo numa Emboscada
Com Gritos vou acordando…

Eu não consigo esquecer
Efeitos que a Guerra tem
E o Trauma que hoje tenho
Tem a Familia também …

Eu não consigo esquecer
O passado que vivi
Que de bom só hoje tenho
Camaradas que conheci …

Eu não consigo esquecer
É bem verdade o que digo
Por hoje deixo a Escrita
E vou fugir para o Abrigo…


Albino Silva
Sol. Maq. Nº 011004/67
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 16 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5827: Convívios (102): Ex-militares do BCAÇ 2845, no dia 1 de Maio de 2010 em Buarcos (Albino Silva)

Vd. último poste da série de 28 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5717: Blogpoesia (64): À uma e meia da tarde... Em homenagem ao António Marques, que sobreviveu, dois anos depois, à explosão de um vulcão (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P5894: Em busca de... (119): Afilhado de guerra, Hélder Martins de Matos, ex-1.º Cabo Escriturário, Bafatá, 1963/64 (Felismina Costa)

As lavadeiras, os barcos e o Geba com as suas canoas.
Foto: © Fernando Gouveia (2009). Direitos reservados



Felismina Costa, no dia 27 de Fevereiro de 2010, deixou este comentário no Poste 5513*:

Boa-noite!
Tomei a liberdade de vos perguntar se algum dos senhores, conheceu um militar de nome Hélder Martins de Matos, 1.º Cabo Escriturário n.º 384/62, que prestou serviço na Guiné entre 1963/64, inclusivé, em Bafatá e de quem fui madrinha de guerra durante esse periodo. Lembro-me de que enviava a correspondência para o SPM 1588 - Guiné.

Com o regresso perdi o contacto, eu tinha à data 15 anos, e um destes dias lembrei-me de pesquisar na NET sobre a guerra da Guiné e encontrei o vosso blog que acho muito interessante pelo vosso espírito de camaradagem e sobretudo por não deixarem morrer um tempo... o tempo da vossa juventude, donde trazemos quase sempre as melhores recordações da nossa vida.

Agradecia-vos que se tiverem notícias desse senhor que refiro, me enviem o seu contacto para o meu e-mail: felismina.mealha@hotmail.com.

Para mais fácil identificação, envio estas duas fotos do Hélder à época.



Com os meus cumprimentos, faço votos para que durante muitos anos os senhores se continuem a encontrar nos vossos almoços e em outros eventos que vos aprouver.

O meu muito obrigada pela vossa atenção.
Sou respeitosamente:
Felismina Costa


2. Comentário de CV:

Cara amiga Felismina Costa
Estamos a publicar este poste na espectativa de que algum camarada que esteve em Bafatá entre 1963/64 o leia e possa dar uma pista quanto ao paradeiro do camarada Hélder Martins de Matos.
Os elementos que nos fornece são muito escassos, pelo que se se lembrar de mais algum pormenor acerca do nosso camarada, envie para nós.

Entretanto na nossa tertúlia temos alguns camaradas especialistas em dar pistas para ajudar na pesquisa.

Fiquemos então com a esperança de que se há-de arranjar alguma informação.

Dirigindo-me agora directamente à tertúlia, deixo o meu pedido a quem possa fornecer pistas a esta Madrinha de Guerra que não se esqueceu o seu afilhado, mesmo volvidos estes anos todos.

Para a amiga Felismina Costa as nossas homenagens e o agradecimento pelas palavras simpáticas que nos dirige.

Carlos Vinhal
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 21 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5513: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (19): Referências a lugares

Vd. último poste da série de 18 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5837: Em busca de... (118): O meu meio-irmão, filho de Júlio Tavares, o Madragoa, nascido presumivelmente em Catió, e hoje com 42 anos, se for vivo (Marisa Tavares, Canadá)

Guiné 63/74 - P5893: O 6º aniversário do nosso Blogue (8): Como é que se consegue pôr centenas de ex-combatentes a falar? (Manuel Marinho)

1. Mensagem de Manuel Marinho (ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4512, Nema/Farim e Binta, 1972/74), com data de 23 de Fevereiro de 2010:

Caro Amigo Vinhal.
Envio este modesto contributo para festejar o blogue.


6.º ANIVERSÁRIO DO BLOGUE

Ao fundador Luís Graça.
Aos Editores Carlos Vinhal, Eduardo Magalhães, Virgílio Briote.

Porque é que este blogue atingiu o alto patamar de prestígio que hoje está à vista, e é por todos reconhecido?

Como é que se consegue esta proeza de pôr centenas de ex-combatentes a falar uns com os outros, de coisas que só eles compreendem?

A identidade comum, o espaço verdadeiramente único de ser centrado em, e para os ex-combatentes da Guerra Colonial da Guiné, que com as suas vivências, de formas distintas, em sítios diferentes, mas com um sentimento que amplia a noção de camaradas e amigos.

Foi esta a forma encontrada em boa hora pelo Luís Graça, que ganhou espaço, adquiriu a confiança dos ex-combatentes da Guiné para que estes fizessem o esforço de voltarem lá onde a memória já tinha bloqueado esses anos das coisas de que não queriam falar.

Este blogue coloca a nossa voz por intermédio dos escritos, ao serviço da História que um dia se há-de fazer, ao narrar de formas múltiplas a guerra que uma geração sacrificada, teve de fazer, mas que honrou os seus compromissos históricos.

Falamos todos a mesma linguagem, embora em tons desiguais porque as estórias que vão sendo vertidas para o blogue foram vividas por nós em situações diferentes, mas facilmente compreendidas, porque nos são familiares.

O nosso mutismo finalmente pôde ser desbloqueado pelo efeito deste blogue, aliviamos o espírito, deixamos os fantasmas soltarem-se, elevamos a nossa estima ao relatarmos o que estaria porventura soterrado para sempre na memória, não fosse o blogue.

Para mim foi uma descoberta a todos os títulos notável, conheço dezenas de camaradas apenas pelo computador, mas é tão natural esta empatia, que parece que nos conhecemos desde sempre.

Por outro lado fiquei com o vício de todos os dias ter de ler o blogue.

Depois por todos aqueles que não podendo por razões várias, dar os seus testemunhos ao blogue, sentem que este espaço também lhes pertence, por se sentirem por ele representados, através dos escritos dos Tertulianos e amigos do blogue.

Pela homenagem que presta aos nossos camaradas mortos, e aos que ficaram para sempre com mazelas físicas e psíquicas, o blogue fica engrandecido de forma nobre, que só nos pode deixar orgulhosos.

O bem-haja ao fundador Luís Graça e aos editores Carlos Vinhal, Eduardo Magalhães e Virgínio Briote, o magnífico trabalho em prol dos que como eles, um dia lutaram por este País, cumpriram o seu dever, nada pediram em troca, e foram sempre ignorados e maltratados pelos sucessivos (des)governos deste País, também por isso este blogue é extremamente importante, ao tornar incómodos os silêncios instalados.

Finalmente a todos os Tertulianos que com os seus escritos enriquecem diariamente o blogue de uma forma extraordinária, o meu grande abraço, para todos vós.

Manuel Marinho
__________

(*) Vd. poste de 13 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5810: (Ex) citações (53): Os maus exemplos de um 1.º Sargento (Manuel Marinho)

Vd. último poste da série de 21 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5860: O 6º aniversário do nosso Blogue (7): Sempre em frente (José Eduardo Reis de Oliveira – JERO -, ex-Fur Mil Enf da CCAÇ 675)

Guiné 63/74 - P5892: Convívios (194): Visitei a Tabanca Pequena de Matosinhos e quero homenagear os seus mentores (Jorge Fontinha)

Jorge Fontinha, pela primeira vez presente no almoço da Tabanca de Matosinhos, no dia 24 de Fevereiro passado.

1. Mensagem do nosso camarada Jorge Fontinha (ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2791, Bula e Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 27 de Fevereiro de 2010:


Caro Carlos.
Hoje não vou enviar a costumada "Estória do Jorge Fontinha".

Venho prestar uma homenagem, à nossa TABANCA DE MATOSINHOS e aos seus mentores.

Nunca tinha lá estado, muito embora eu tenha tido conhecimento que o meu nome por algumas vezes lá tenha sido mencionado.

De passagem pelo Porto, por motivos de doença familiar, coincidiu, estar disponível dos meus deveres de assistência à minha mulher, junto da Casa de Saúde da Boavista na hora de almoço, pelo que, pela primeira vez fui visitar a TABANCA.

Fui encontrar um bom amigo de infância, que há cerca de 50 anos não via e que inclusive nem sabia que tinha estado na Guiné.
Da parte dele se pode afirmar o mesmo em relação a mim.
Claro que ele e o José Manuel, da Régua, viriam a ser os meus padrinhos de associado.
Espero em breve, receber o cartão em casa.
O amigo em causa é o Silvério Lobo.

No mesmo encontro apareceram como eu, mais 3 novos camaradas que igualmente preencheram a ficha de inscrição.
Foram eles o Eduardo Monteiro que esteve na Guiné em 69/70; o Joaquim Ramos Silva de 72/74 e o Manuel Santos que esteve em XIME.

Um verdadeiro convívio que espero repetir, por todos os motivos e pela organização impecável, que me agradou e de que maneira.

Os meus parabens a quem em boa hora lançou mãos à obra.

Amigo Carlos se achares conveniente, gostaria que mandasses este testemunho para o Blogue.

Um abraço
JORGE FONTINHA

Quem aparece na Tabanca de Matosinhos, às quartas-feiras, não vem só em busca de convívio, mas...

...também de boa comidinha como só em Matosinhos se pode saborear.
Fotos descaradamente surripiadas ao Poste 356 da Tabanca de Matosinhos

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 27 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5354: Estórias do Jorge Fontinha (9): Homenagem a Fernando Barradas, ex-Fur Mil Fotocine e ex-jornalista de "O Comércio do Porto"

Vd. último poste da série de 24 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5879: Convívios (106): Encontro anual do pessoal da CCAÇ 3518 (Gadamael e Guidaje, 1972/74), dia 15 de Maio de 2010, em Coimbra (Daniel Matos)

Guiné 63/74 - P5891: Memória dos lugares (72): O Cripto na primeira foto do poste P5801, sou eu (Vasco Santos)




1. O nosso Camarada Vasco Santos, ex-1º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6, Bedanda - 1972/73 -, com data de 22 de Fevereiro de 2010, a seguinte mensagem em relação à primeira foto do poste P5801, de 11 de Fevereiro de 2010, da autoria do Mário Silva Bravo, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 6, sobre o isolamento de Bedanda:

Olá Amigo luís,





Gostaria de informar o nosso querido Dr. Mário Bravo, que na foto incluída no poste em epigrafe, o cripto sou eu, Vasco David de Sousa Santos, natural de Vila do Conde, e que já tive a oportunidade de entrar em contacto com ele há algum tempo.





Provavelmente despistou-se, pois também já lhe tinha enviado uma foto em que estávamos juntos.



Já agora, se fosse possível, como estive em Bedanda, todo o ano de 1972, e em 1973 até Novembro, de que arma era o Fur Mil José Vermelho, pois de certeza que nos conhecemos.

Como vou várias vezes a Lisboa/Almada/Setúbal, pode dar-se o caso de nos podermos encontrar, quem sabe?!

Um abraço,
Vasco Santos
1º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6


Foto 1: GUINÉ > 1971/72 > GRUPO NORTENHO: Da Esquerda para a direita -Lopes (Cozinheiro, de Torre de D.Chama;), Dias (Enfermeiro, de Viana do Castelo); Cripto (Não me lembro do seu nome, nem naturalidade),Nelinho (Atirador, do Porto) e Eu (Médico, do Porto).



2. Recorda-se que da CCAÇ 6, se encontram 5 elementos entre a tertúlia bloguista da Tabanca Grande:





Além do Vasco Santos, ex-1.º Cabo Op Cripto, estão o nosso Camarada Mário Silva Bravo (ex-Alf Mil Médico), o Carlos Azevedo (ex-1.º Cabo At inf), o Hugo Moura Ferreira (ex-Alf Mil At Inf) e o Carlos Ayala Botto (hoje Cor Cav, na situação de reforma, que foi Comandante da CCAÇ 6).





Emblema da colecção pessoal: © Carlos Coutinho (2010). Direitos reservados.


___________


Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em:



Guiné 63/74 - P5890: Parabéns a você (83): Luís R. Moreira, ex-Alf Mil Sapador da CCS/BART 2917 e BENG 447, Guiné 1970/71 (Editores)

1. Hoje, 27 de Fevereiro de 2010, faz anos o nosso camarada Luís R. Moreira (ex-Alf Mil Sapador da CCS/BART 2917 e BENG 447, Guiné 1970/71).

A tertúlia da Tabanca Grande vem felicitar o nosso camarada pela feliz data e desejar-lhe muitos anos de vida junto dos seus familiares e amigos.



2. As pesquisas no nosso Blogue estão muito dificultadas pela enorme quantidade de informação já armazenada. Assim, do nosso camarada Luís consegui muito pouco.

Há referência a um poste da I Série e pouco mais*.

Vamos transcrever um pouco do que lá se pode ler:

Mensagem enviada pelo Luís Moreira ao David Guimarães, com data de 11 de Setembro de 2005:

Caro camarada ex-combatente:

Pela mão do Belmiro Vaqueiro, que conheço há muitos anos mas que só há pouco tempo soube que também ele esteve na Guiné nos mesmos locais que percorremos, tive acesso ao site do Luís Graça e a felicidade de rever fotos de locais que muito me dizem e de alguns camaradas do meu Batalhão, no qual te incluis assim como o Padre Poim, o Quaresma, o Cap. Espinha de Almeida, o Alf. Soares e outros a quem a memória já não me ajuda a recordar.

Estive em Bambadinca na CCS [do BART 2917] e sou o ex-alferes sapador Luís Moreira que fui ao ar com uma mina anti-carro no reordenamento dos Nhabijões (espero não estar a errar no nome).

Na sequência desse acidente passei aos serviços auxiliares e fui colocado no Batalhão de Engenharia, em Bissau, até ao fim da minha comissão que terminou já depois de vocês terem regressado e que fez com que eu hoje faça parte do grupo dos DFA [Deficientes das Forças Armadas].

Infelizmente não me recordo do nome da maioria dos camaradas com quem convivi, talvez devido ao traumatismo craneano que sofri na sequência do acidente. No entanto gostaria de recordar e contactar com o maior número de camaradas para tentar reconstituir esse período de quase um ano que passei em Bambadinca.

Tenho algumas fotos que vou retirar da "arca" onde têm estado depositadas todos estes anos, e que depois enviarei. Ainda recordo o nome dos alferes Machado e Guerreiro, da CCS, e tenho bem presente a figura do alferes mecânico, mas já não lhe recordo o nome. Outra figura ímpar que recordo com saudade é a do alferes Vacas de Carvalho, das Daimler, e da sua viola que nos animava os serões.

Fico a aguardar notícias e possíveis contactos.

Um abraço, Luís Moreira.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Destacamento e reordenamento de Nhabijões > Finais de 1970 > O Alf Mil Sapador Luís Moreira, pertencente à CCS/BART 2917, destacado no reordenamento de Nhabijões. Evacuado para o HM 241, em Bissau, por ferimentos graves em 13 de Janeiro de 1971, passaria depois aos Serviços Auxiliares e terminaria o resto da comisão - os 15 a 16 meses que lhe faltavam! - no BENG 447.
Foto: © Luís Moreira (2006). Direitos reservados


Nesta foto > Cap Art Passos Marques, comandante da CCS/BART 2917 e, à civil, o Alf Mil Sapador Luís Moreira.
Foto: © Gualberto Magno Passos Marques (2009). Direitos reservados

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 24 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática

Vd. último poste da série de 26 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5885: Parabéns a você (82): João Carlos Silva, ex-Cabo Especialista da FAP, BA6 (Montijo, 1979/82) (Editores)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5889: Estórias cabralianas (58): O Dia do Patacão e a Dívida do Alfero (Jorge Cabral)

1. Mensagem do Jorge Cabral, membro sénior, senador ou Homem Grande da nossa Tabanca Grande (isto quer dizer que já vem da I Série do blogue, pelo menos desde 2005...):

Caros Amigos,

Um País endividado? ... É porque não conheceram o 'meu' Missirá.

Aí vai 'estória'. Até breve

Abraços Grandes

Jorge Cabral



2. Estórias cabralianas (59) > O Dia do Patacão e a Dívida do Alfero
por Jorge Cabral


Tenho a certeza que os primeiros cabelos brancos do Alfero lhe nasceram nos dias do Patacão.

No final de cada mês, deslocava-se a Bambadinca (**) a fim de levantar o dinheiro para pagar os ordenados aos Militares do Pelotão e aos Milícias. Era o dia do Patacão, ansiado por todos e ainda mais pela multidão de credores, que desde manhã acorria ao Quartel. Usurários, Pré-Sogros e Sogros, Batoteiros Profissionais, Dgilas, Alcoviteiros, Fanatecas, Músicos… havia sempre alguém à espera que o Alfero liquidasse as dívidas dos seus homens. Todos devedores, incluindo o Alfero, que prometera pagar,  em prestações suaves, a conta do Fontória (***), onde em férias, numa noite, oferecera de beber a todos e terminara na Esquadra da Praça da Alegria.

Chegado a Missirá, já o seu braço direito Branquinho, montara a mesa, na qual amontoara papéis e mais papéis, que titulavam débitos da cantina, do arroz, de adiantamentos, de empréstimos…

E logo começava a cerimónia que obedecia a uma ordem hierárquica ascendente. Em primeiro lugar, recebiam os Milícias, depois os Soldados, em seguida os Cabos, por fim os Furriéis e em último sempre o Alfero.

As discussões por parte dos credores externos eram acaloradas e às vezes chegavam mesmo a vias de facto. No meio da algazarra, e com muitas reclamações, lá se ia pagando o que restava a cada um.

Porém e quase sempre, quando finalmente cabia a vez do Alfero receber, já se tinha acabado o Patacão. Paciência, pensava ele. Que se lixe o Fontória.

... O narrador confessa que se tinha esquecido desta dívida e que foi o Blogue a recordá-lo. Há um mês, de novo Alfero, porque isto de ser Alfero é vitalício, resolveu liquidá-la, apresentando-se no Cabaret. Dirigiu-se ao Porteiro. Informou tratar-se de uma dívida de Janeiro de 1971. Ele chamou um Segurança. Repetiu o seu propósito. Veio o Gerente. Insistiu. Trataram-no como um tonto. Exaltou-se. Disparatou. Juntaram-se pessoas. Chegou a PSP

Velho e honesto Alfero. Como há 40 anos, lá foi parar à Esquadra da Praça da Alegria.

Jorge Cabral

3. Comentário de L.G.:

Tenho um (in)confidência a fazer: o livro de estórias do nosso alfero vai tem editor e patrocínios, o que quer dizer que vamos ter ronco, festa de lançamento, (re)encontros felizes, salgadinhos, sumos e Portos de honra... No Fontória, no Maxime, num cabaré de Lisboa!!! Para já, o alfero já me pediu para escrever o prefácio, coisa que vou fazer com todo o gosto, gozo  e esmero... O autor está a dar os retoques finais da sua selecção das 50 melhores estórias cabralianas...

Isto não quer dizer que o alfero arrumou as botas, tirou os mezinhos do corpo, e lançou ao Geba a chave do baú das memórias trágico-burlescas da sua passagem por Fá Mandinga, Missirá, Bambadinca e outras terras exóticas da Guiné, e muito menos a caneta de ouro com que ele escreve as estórias cabralianas...

Isto quer apenas dizer que o nosso alfero não quis decepcionar os/as seus/suas muitos/as admiradores/as que de há muito lhe vinham pedindo o livrinho, autografado, do Humor Negro & Branco em Tempo de Guerra... Que isto de e-books ainda não é a mesma coisa...

Parabéns, Jorge! Ah, e no dia 28 de Maio próximo, lá estarei na tua Universidade Lusófona, no teu mestrado de criminologia (****), às 18h, para a charla sobre... a violência da  guerra que nos acompanha no pós-guerra até à hora da nossa morte, amen!...  A ti, não poderia dizer que não, mesmo enterrado até ao pescoço no tarrafo da vidinha do dia-a-dia que está bera...

___________

Notas de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 22 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5522: Estórias cabralianas (57): As duas comissões do Alfero... ou a sua dolce vita em Bissau, segundo a Avó Maria e a Menina Júlia (Jorge Cabral)

(**) Sede do BART 2917 (1970/72), a que estava adido o Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, 1969/71), de que o Alf il Art Jorge Cabral foi comandante.

(***) Famoso cabaré da Praça da Alegria, Lisboa...

Vd. poste de 5 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3025: Os nossos regressos (7): Perdido, com um sentimento de orfandade, pelos Ritz Club, Fontória, Maxime, Nina... (Jorge Cabral)

(...) Queria voltar de barco, ciente que precisava de pôr a cabeça em ordem. Mas não, vim de avião. Numa anterior colaboração, relatei a chegada – o ralhete do Pai, e a tristeza da Mãe.



Em Lisboa procurei os antigos Amigos. Uns haviam fugido, outros faziam perigosas “comissões” no Museu Militar, no Ministério do Exército, no Quartel General… Queriam eles lá saber da Guiné ou da Guerra…

Por mim sentia-me perdido, invadido por um sentimento de orfandade… Então desanuviei… estagiando entre copos e carinhosas damas, que até compreendiam a angústia do combatente.


Ritz-Clube, Fontória, Maxime, Nina, Cantinho dos Artistas… Cá, como lá, em Roma, fui sempre Romano.


Estágio concluído com distinção, acabei por assentar. (...)

(****)  É amorosa, competente e oportuníssima a tua secretária, veja-se o mail que me mandou e que eu tive em conta na edição deste poste. Reparo, por outro lado, que contrariamente a muito boa gente da nossa Ágora (leia-se: Praça Pública) ainda não estás, meu caro Jorge, com o temível Alzheimer, doença que não havia na Guiné do nosso tempo (pelo menos, na zona leste por andámos)... Posso garantir que ainda conheces o RDM e és capaz de contar todos os postos da hierarquia militar de soldado básico a general de quatro estrelas, e do cabo à ré... Pormenor de não somenos importància: um Cabo é um Cabo e escreve-se sempre em caixa alta...

Exmos. Professor,

Pede-me o Professor Jorge Cabral que envie este e-mail para que proceda a uma pequena alteração. Onde se lê cabos com letra minúscula, deverá ler-se Caboos.

Sem mais de momento
Melhores Cumprimentos

Instituto de Criminologia
Sec Pedagógico
Petrouska Ribeiro

instituto.criminologia@ulusofona.pt
Grupo Lusófona
Tel.: 217 515 500 Ext.: 2383 / Móvel.: 962 534 503

Petrouska:  Para a próxima deixa lá,no caixote do lixo do computador, a palavra Excelência... Faz-me imaginar, não sem um arrepio pela espinha acima, os discursos dos gatos pingados que terei de gramar no dia do meu funeral...

Guiné 63/74 - P5888: Notas de leitura (71): Além do Bojador, romance de estreia de Manuel Fialho (I) (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2010:

Queridos amigos,
Aqui vai o primeiro texto referente ao romance de Manuel Fialho.

Lanço a todos o seguinte apelo: quem tiver os romances “A Lebre” ou “Capitão Nemo e Eu”, de Álvaro Guerra, peço a caridade de mos emprestar, já agora gostava de fazer o repertório do Álvaro Guerra escritor/combatente da Guiné por completo.

Um abraço do
Mário


Além do Bojador (I)

Beja Santos

“Além do Bojador”, é o romance de estreia de Manuel Fialho, um engenheiro mecânico de Moura que por vezes trabalha a sul do Cabo Bojador. Subintitula esta ficção com o dizer: “Na guerra colonial da Guiné, a história pré-colonial da África Ocidental”. É um livro longo, generoso, onde os objectivos didácticos não são iludidos. O narrador é um franciscano (Frei Miguel) que vai aparecer como capelão na região de Farim, aí por 1970. Vem de Assis, Itália, onde vive em recolhimento na sua ordem religiosa. Depois de passar uns dias na companhia de seu pai, que vive em Cacela Velha, no Algarve, embarca num paquete com os seus livros e músicas, vai tomando conhecimento da unidade militar onde o inseriram. É uma narrativa serena, minuciosa, como se o autor tivesse o propósito de contar tudo a leigos, a começar pela organização de um batalhão. Inclusivamente se forja a apresentação do teatro de operações: “Farim ficava a sul, numa ponta do nosso território, junto ao Cacheu, um daqueles caudalosos rios da Guiné. Para nordeste havia uma estrada em direcção a Cuntima e ao Senegal, que passava por Jumbembem. Daqui saía outra estrada em direcção a sudeste, até Canjambari, onde se encontrava uma companhia independente. E de Farim mais duas estradas: uma para o noroeste, para Dungal, também muito perto da fronteira com o Senegal, mas esta, aparentemente, estaria intransitável, e ainda outra para sudoeste em direcção a Binta, aonde se poderia também chegar através do rio Cacheu. A partir daí, continuando para noroeste e atravessando com dificuldade a bolanha, ou a zona alagada do Cufeu, Binta ligava-se por estrada a Guidage, mesmo em cima da fronteira com o Senegal, mas defendida por pessoal de outra companhia. Estas duas pequenas povoações – Binta e Guidage – pertenciam ao sector operacional vizinho do nosso. A sul de Farim, na outra margem do Cacheu, que se atravessava por uma balsa, ficava a pequena tabanca de Saliquinhedim. Talvez pela dificuldade do nome, esta tabanca era mais conhecida por K3, porque se situava apenas a três quilómetros do rio, de onde emergia a nova estrada, agora em construção, que depois se bifurcava em duas, uma para o Olossato e a outra para Mansabá, ambas fazendo a ligação de Farim a Bissau, após a travessia do Cacheu por essa balsa e que, eventualmente, ficaria pronta durante a nossa comissão”. Se imaginarmos esta conversa num esboço improvisado no bar de oficiais de um paquete, temos um conjunto de alferes candidatos à Academia Militar. Aos poucos, vamos ficando a saber o que é um oficial de transmissões, um sapador, um administrativo, o alferes da manutenção até o médico exprime o que vai fazer. Os alferes operacionais falam de pistas de aviação e locais para os helicópteros aterrarem, dissertam sobre os corredores de passagem dos guerrilheiros. Um capelão à cautela, depois de tomar conhecimento da guerra que o esperava foi fazer as suas orações na capela: “Depois de rezar fiquei ali sentado, reflectindo sobre aquela juventude tão generosa que interrompia os seus estudos e se via coagida a participar numa guerra que nada tinha a ver com ela... a nossa juventude parecia não ter alternativa. Apenas uma minoria, mais propensa a tomar outra consciência política, opondo-se frontalmente a um regime autocrático, onde não faltava uma feroz polícia política, é que resolver a seguir os caminhos da emigração, desertando...”.

E assim se chega a Bissau, daqui o batalhão parte por LDG para Farim. Junto do Cacheu, Frei Miguel vê com assombro aquele pequeno forte que lhe recorda uma história que começou no século XV e XVI, discorre sobre os acontecimentos da região até ao início da luta armada (quem nada sabia sobre a história da Guiné fica com duas páginas de síntese). O franciscano fixa o percurso da lancha, regista pormenores do tarrafo, descreve a paisagem e depois Farim, povoação que percorrer demoradamente. O comandante vai dando ordens, lança advertências: “Os nossos alferes tenham muito cuidado ao receber as viaturas, os rádios e, acima de tudo, as ferramentas. De modo algum descentralizem essas conferências. Confiram muito bem, pessoalmente, todas as listas de material e vejam se está tudo lá, e, principalmente, em que estado de uso. Só, então, passem essa responsabilidade para o sargento mecânico e para os furriéis. E, sobretudo, não dêem qualquer hipótese de essas ferramentas puderam voltar às mãos anteriores. Não seria nada inteligente da nossa parte assistir, por exemplo, à contagem do mesmo alicate por duas, três ou mais vezes...”

Frei Miguel vai fazer obras na Capela de Farim, depois começa a viajar, acompanha as colunas, o seu zelo religioso é infatigável. Descreve as suas viagens, como é que se desatola uma GMC, embevece com um recital de guitarra clássica, aos poucos adapta-se à rotina. É aqui que surge o fascínio inter-religioso e inter-cultural: vai até à tabanca, conhece um homem grande, de nome Malan, será o princípio de uma relação que o leva a estudar e a descrever a história pré-colonial e a afeiçoar-se por Binta (aliás, Fátima, o nome da filha do Profeta). É uma larga divagação histórica, a epopeia do império Mandinga vem ao de cima.

A guerra manifesta-se em toda a sua pujança: flagelações, morteiradas, emboscadas, minas anti-carro e minas anti-pessoal. Nos intervalos dos seus trabalhos de capelão, Frei Miguel conta às crianças a história grandiosa desse mundo que precedeu a colonização. É nisto que ele vai sentir um sentimento diferente por Binta, uma forte atracção, isto na altura em que fala do apogeu do povo Songhai de Tombuctu e do império do Mali. Os Mandingas de Farim estão orgulhosos. Frei Miguel entra num derriço por Binta: “Aqueles olhos sorriam como se fossem de uma menina que tivesse cometido alguma travessura. O seu rosto tinha o mesmo ar de intensa frescura, com o cabelo ainda por secar, após o banho da tarde. Eu não me cansava de admirar a sua figura tão esbelta e tão linda, ali à minha frente. Usava o mesmo tipo de corpete muito reduzido e todo aberto nas costas, uma saia comprida de um outro tecido estampado, que a fazia ainda mais alta e realçava a sua extrema elegância”.

Frei Miguel vive a tentação, repete infinitamente as suas orações, até à exaustão, vestido no seu hábito franciscano. O impensável acontecera, o mundo de um jovem capelão de 27 anos entrara na deriva.

Este livro de Manuel Fialho é de 2008, Edição 100 Luz.


(Continua)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5877: Notas de leitura (70): Os Sinos de Bafatá, de Joaquim Ribeiro Simões (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5887: Os Unidos de Mampatá, por Luís Marcelino, ex-Cap Mil da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74 ) (4): Actividades desenvolvidas

1. Mensagem de Luís Marcelino (ex-Cap Mil, CMDT da CART 6250/72, Mampatá, 1972/74), com data de 7 de Fevereiro de 2010:

Caríssimos editores e amigos,
Junto envio um apontamento mais da CART 6250
Um abraço


OS UNIDOS DE MAMPATÁ (4)

Olá Luís, demais editores e amigos tertulianos.

Neste início de ano de 2010, desejo a toda a família da Tabanca Grande muitas alegrias e profícuas realizações.

Após um longo período de ausência venho aqui, uma vez mais, trazer outro apontamento do dia a dia da CART 6250 de Mampatá, relatando sinteticamente algumas das actividades desenvolvidas.


ACTIVIDADES DESENVOLVIDAS

Como é sabido, a actividade em campanha não se esgotava nos patrulhamentos e demais trabalhos de caris operacional.

Sendo aquela a actividade principal, outras tarefas preenchiam o nosso tempo, tornando-o mais agradável, motivante e interessante.
Assim, o tempo extra-operacional era dedicado ao desporto, actividades recreativo-culturais, concursos de trabalhos manuais festivais...

Enfim, várias iniciativas que visavam preencher o tempo com vista a tornar mais suave a ausência das famílias e desanuviar a tensão do dia a dia da actividade operacional, sempre muito exigente e stressante.

Mas o apoio à população era também uma preocupação sempre presente que se manifestava de diversas formas: fornecimento de transporte, apoio sanitário, apoio alimentar, e sobretudo apoio na cultura/educação, através do ensino pré-primário e primário.

Quando chegámos já havia uma escola onde era ministrado o ensino primário.
Porque a existente já era insuficiente para as necessidades daquela povoação, por ordens superiores, iniciámos ainda em 1972, ano da nossa chegada, a construção de uma nova escola, que concluímos no ano seguinte.

Escola já existente

A nova Escola

Frequentaram a escola durante os anos de 72/73 e 73/74, 221 crianças, na pré-primária, 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª classes.
Fizeram o exame da 4.ª classe 16 crianças.

Afecto a esta actividade esteve sempre o Furriel Simões, que deixou de ser um operacional do 1.º GCOMB para passar a ser conhecido pelo Senhor Professor, que ensinava e coordenava toda a actividade escolar.
É claro que esta actividade também muito contribuiu para o óptimo relacionamento existente entre os militares da Companhia e toda a população que ali vivia.

Também os adultos foram objecto da nossa atenção através das escolas regimentais que se destinavam aos militares;

No aquartelamento, que, como já referi em anterior apontamento, era uma tabanca, onde moravam lado a lado os militares e a população, nas mesmas moranças, estavam a Companhia, um Pelotão de Africanos e uma Companhia de Milícias.

Frequentaram as aulas regimentais 25 militares africanos no ano 72/73, na 3.ª e 4.ª classes e 26 no ano 73/74.
Juntamente com militares da Companhia, fizeram exame da 4.ª classe 28 militares.

Professor Simões com seus alunos

A Companhia dispunha de uma equipa de obras muito dinâmica. Além da escola já referida, o edifício de Comando, balneários e outras, concretizou um sonho muito antigo da população: construiu um pequeno edifício no centro da Tabanca a que se denominou MESQUITA, onde a população passou a poder fazer as suas orações e actos de culto.

Festividade religiosa. Ao fundo a Mesquita

Estou certo que a nossa presença em Mampatá não foi em vão. As obras falam por si e os destinatários poderão testemunhar esta realidade que também serviram para acentuar e alimentar o espírito de coesão e amizade que a todos unia e que fazia jus ao nosso lema e que ainda hoje é uma realidade, traduzido nos encontros que anualmente realizamos expressando sempre uma alegria transbordante.

Festividade muçulmana em Mampatá
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Nota de CV:

16 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4964: Os Unidos de Mampatá, por Luís Marcelino, ex-Cap Mil da CART 6250 (Mampatá, 1972/74 ) (3): Onde mora o perigo

Guiné 63/74 – P5886: Histórias do Eduardo Campos (11): CCAÇ 4540, 1972/74 - Somos um caso sério (Parte 11): Nhacra 6/Final



1. O nosso camarada Eduardo Ferreira Campos, ex-1º Cabo Trms da CCAÇ 4540, Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74, dando continuidade às suas memórias da Companhia em Nhacra, iniciadas nos postes P5711, P5729, P5796, P5812 e P5869:enviou-nos a 11ª fracção e mais alguns documentos históricos do seu arquivo pessoal:


CCAÇ 4540 – 72/74

"SOMOS UM CASO SÉRIO"

NHACRA 6

Os dias passavam e, com as noticias que chegavam de Lisboa, a ansiedade do regresso cada vez se acentuada mais. Afinal a guerra tinha mesmo acabado e continuava a sentir-se uma certa anarquia entre as forças militares. Os meus presságios não eram os melhores, mas acabou por ser só “fumaça” minha, como disse mais tarde o Almirante.

Um torneio de futebol de salão surgiu então em boa altura, criando nova diversão e distracção, que passava pela discussão clubista, as críticas sobre as arbitragens, os golos marcados e sofridos, os “frangos” dos guarda-redes, etc., servindo, em parte, para que nos abstraíssemos durante alguns dias, do total “deserto” de acção e movimentação, que agora nos rodeava.

EQUIPA STORNOS CAMPEÕES. De pé, esquerda para a direita: Sequeira, Mendes e Barros. Em baixo, da esquerda para a direita: Silva, Eu e Saraiva

O “Jornal” continuava a trazer problemas, com saneamentos e demissões à mistura, seria a aprendizagem da democracia a funcionar?

A 16 de Agosto de 1974, fomos substituídos pela C CAÇ 4945/73, ficando nós, a partir dessa data, a aguardar transporte para o regresso a casa.

O pessoal da Companhia, começava a não disfarçar o que lhe ia na alma e, houve até quem quisesse ir para Bissau, criando alguns distúrbios, fruto de vários boatos e rumores, de que estariam a embarcar de regresso à Metrópole, tropas com menos tempo de permanência de Guiné, que nós.

A 23 de Agosto, já era difícil segurar os militares no quartel e foi que então que saímos do Cumeré, acompanhados de militares de outras unidades e marchamos sobre Bissau, sendo barrados por um cordão de segurança humano em Safim.

Alguém do Comando Chefe se deslocou a Safim, e, nas negociações efectuadas ali, no local, foi-nos prometido que o Uíge, que nesse momento se encontrava no cais de Pijiguiti, em Bissau, a carregar material de guerra, passados dois dias permitiria que embarcássemos nós também.

Às primeiras horas do dia 25 de Agosto/74, finalmente deu-se o nosso regresso, a bordo do Uíge, tendo o mesmo chegado a Lisboa em 30 de Agosto.

A poucos dias de completar 24 Meses de Guiné, e em pleno mar alto, assisti a algo que jamais poderia imaginar ver algum dia, depois de tudo o que tinha passado na Guiné.

Não sei porque razão, mas fiz a viagem toda numa cabine do navio, enquanto os meus companheiros o fizeram no porão.

Por curiosidade, um dia desloquei-me ao porão e que os meus olhos viram e o nariz sentiu, jamais me abandonou até aos dias de hoje. As condições de transporte daqueles camaradas era simplesmente, inumana, indigna e até incoerente com o tempo da nossa era, em que tanto se apregoava a civilização.

O pessoal (praças), que vinha no barco já tinham algumas bases de aprendizagem sobre o que era ser “revolucionário”, e, vai daí, como não tinham acesso ao bar de oficias e sargentos toca a ocupá-lo.

O Comandante do Uíge, que os devia ter no sítio, ordenou que se a malta não abandonasse de imediato o bar desviaria o navio para Cabo Verde. Só assim foi reposta a legalidade hierárquica “copofónica” de imediato.

Se a memória não me atraiçoa o navio passou pelo Funchal, onde desembarcou uma Companhia de Madeirenses, retomando de novo a via marítima para Lisboa.

Já em pleno rio Tejo, os militares receberam instruções que teriam de ir à Amadora entregar o fardamento. Não gostando do que ouviram, alguns começaram a deitar os sacos ao rio. Foi-nos pedido para “aguentar”, e, mais tarde, as novas ordens foram para que deixássemos tudo a bordo.

Terão os SUV nascido na Guiné?

Anexo a seguir alguns documentos com história, que estavam guardados no meu baú das recordações, entre os quais um pequeno livro que nos foi distribuído pelo Estado Maior do Exército, intitulado Missão na Guiné. Recordam-se?




Livro que nos foi distribuído pelo Estado Maior do Exército, intitulado Missão na Guiné.





















Um abraço Amigo,
Eduardo Campos
1º Cabo Telegrafista da CCAÇ 4540

Fotos e documentos: © Eduardo Campos (2009). Direitos reservados.
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Notas de M.R.:

Vd. último poste desta série em: