sábado, 21 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10177: Do Ninho D'Águia até África (1): Mobilização e partida para um Comando de Agrupamento (Tony Borié, ex-1º cabo cripo, Cmd Agrup 16, Mansoa, 1964/66)

1. O Tony Borié*, que entrou há tempo para a Tabanca Grande, ofereceu-se para para publicar, no todo ou em parte, um livro em formato eletrónico (o chamdo e-book) que ele elaborou com as suas memórias de há quase meio século. Chamou-lhe Do Ninho de d´'Aguia até à África... É um caminho, coletivo, que todos nós também conhecemos. Mas é também um caminho, único, individual, singular... O caminho que nos levou, das nossas terras, até a um país, em África, na África Ocidental, a alguns milhares de quilómetros de casa... Combinámos com ele editar, no nosso blogue, todas as semanas, o livro eletrónico (que nunca foi publicado em papel, é portanto um inédito).

Há tempos eles explicou-nos a génese deste livro:

(...)"Eu relacionava-me bem com os meus camaradas, em especial do batalhão de artilharia 645, e de um pelotão de morteirosde que não me recorda o número, mas dormia na mesma camarata deles, e vivia todas as suas peripécias. Esse pelotão teve três mortos,  se não me engano, e eu chorei-os como se fossem meus irmãos. Eu tinha acesso a todos os reportes de toda a movimentação de tropas que se fazia na região do Oio e é com esses elementos de que me vou lembrando, que escrevi o livro. Não menciono nomes verídicos nem lugares, mas toda a história se passou na região do Oio e é verídica. Houve esses ataques e houve essas minas que rebentaram, e houve esses camaradas que desapareceram para sempre, embrulhados num camuflado todo roto e ensanguentado, e alguns, com um ar de crianças no rosto"- (...)

Ele vai-nos mandando um número de páginas que pode ser variável (4 a 8), é preciso é que cada poste (ou parte) corresponda a um "episódio", "situação", "cena" ou "pequena história"... para não se perder o fio à meada... Como ele estás nos EUA há quatro décadas (vive hoje na Florida), é normal aparecer um ou outro erro de português, ortográfico (ou até de simples processamento de texto) que vamos procurar detectar e corrigir, com a plena anuência e bom vontade do autor,  a quem agradecemos desde já o seu companheirismo e generosidade.  O título da série é dele: os substítulos serão, em princípio, da responsabilidade do editor de serviço. (CV)

2. Do Ninho D'Águia até África (1): Mobilização e partida
por Tony Borié (EUA, Florida)


O comboio das dez e meia da manhã levou o Tó d’Agar, da vila até à cidade. No quartel da cidade, vai  “às Sortes”. Os doutores ordenam-lhe que tire a roupa, e inspeccionam o seu corpo nu, de diversos ângulos. Mandam abrir a boca, mostrar os dentes, dar saltos, baixar-se, abrir e fechar as pernas, ler algumas letras, curvar-se e metem-lhe o dedo no ânus, que bastante lhe dói, verificam as mãos e os pés, se tem cinco dedos, tudo isto entre outras coisas. Falam entre si, numa linguagem, talvez técnica, mas incompreensível. No final, o que tem cara de mais velho, dos ditos doutores, ordena-lhe que se vista, e entrega-lhe um papel com o seu nome, que tem um carimbo a letras vermelhas, onde se lê “Apurado para todo o serviço militar”.

Algum tempo depois, recebe uma carta registada, na casa de seus pais, a notificá-lo para se apresentar num quartel militar da província, a fim de ser incorporado no exército de Portugal.

O Tó d’Agar, depois de passar por esse quartel militar da província, onde recebe uma instrução básica, que era concentrada em saber defender-se, e como deve matar. Matar de diferentes maneiras, usando diferente partes do corpo, onde pode produzir uma morte rápida, ou prolongada. A instrução foi baseada em saber matar. O militar que proporcionava a instrução, tinha regressado, há pouco tempo,  de uma comissão numa província do ultramar, contava histórias de combate, exemplificava, em cada instruendo, o local do corpo, em que devíamos acertar com uma bala, ou com uma faca. Fazia isso, com tal precisão, e com os olhos vidrados de raiva, que até assustava os instruendos.

Terminada essa instrução básica, é transferido para os arredores da capital, onde recebe um pequeno treino de especialização. Durante este treino, dizem-lhe constantemente que é um filho da Pátria, que deve dar a vida por ela, que a partir do final, quando receber todo este treino de especialização é um militar fora do normal, que não pode dormir na mesma caserna, com outros militares, pois pode ter insónias, e revelar segredos de Estado a que vai ter acesso no futuro, e fazer perder uma guerra, e mais um blá, blá, blá, que,  quando acaba o treino, vem com um peso no corpo, como se carregasse com dez milhões de portugueses às costas!

Entretanto, rebenta outra rebelião de independência, noutra província do então ultramar português. É mobilizado. O chefe do governo de Portugal dizia na rádio e na televisão, também do governo, para que o povo português, visse e ouvisse:

- VAMOS PARA A GUERRA, E EM FORÇA!

Não teve tempo, nem para se despedir da família na sua aldeia do vale do Ninho d’Águia.

Sem dar por nada, tem umas botas novas calçadas, e está vestido de amarelo, com um saco às costas e uma mala de cartão, no cais da alfândega de Lisboa, esperando a sua vez de entrar para o navio que havia de o levar para a província da Guiné, onde começava uma guerra traiçoeira e imprevista. Chora sem lágrimas, para dentro, pensando que já é um homem. O navio apita três vezes, chamando todos para bordo. O apito  é rude e de aflição, não é um apito bonito, como era o comboio das seis e meia, na sua aldeia do vale do Ninho d’Águia.

O primeiro dia no alto mar é de surpresa e admiração. Tanta água, de um lado e do outro, não dá para compreender, não há terra à vista, de vez em quando, passa um barco, lá ao longe, e apita. Ao terceiro, ou quarto dia, viam-se peixes voadores, saíam da onda, e voavam uns segundos, desaparecendo noutra onda, alguns iam de encontro ao barco. O convívio com futuros colegas de companhia começa a fazer-se. Alguns perguntam:
- De onde és? Como te chamas?

Se o nome é difícil de pronunciar, passa a chamar-se pelo nome da terra ou região onde nasceu. Assim, aparece em cenário de guerra, o primeiro cabo Bolinhas, o Açoriano, o Lisboa, o Matateu, o Setúbal, o Corcunda, o Morteiro. O Tó d’Agar passou a chamar-se “o Cifra”, talvez por causa da especialidade.

Passados uns tantos dias, chegam ao porto de destino. Era manhã cedo, um nevoeiro fraco, mas quente, muito quente e húmido, não corria nenhuma aragem, era abafado. Lá ao longe, algumas casas, um intenso arvoredo, verde e de outras cores, rente à água, com árvores gigantes aqui e ali. O cais de desembarque, via-se a umas tantas centenas de metros do barco. Não se podia atracar, apesar de o barco ser pequeno. Os militares iam sendo desembarcados, em lanchas, que os transportavam, assim como todo o equipamento militar, ao cais.

Esta operação, demorou um dia. Já em terra, e deslocados para uma área, onde se via a tal vegetação verde e de outras cores, rente à água, com árvores gigantes, aqui e ali, começou a organização, dentro da desorganização. É distribuída uma ordem, num papel, género da “ordem do dia”, onde era comunicado: O Agrupamento número tal vai juntar-se à Companhia de Infantaria número tal, que está estacionada no espaço número tal, e o Pelotão de Morteiros, número tal, fica agregado à Companhia de Infantaria número tal, que se deve encontrar na zona tal, e por aí adiante. Tudo em campo aberto. Com a movimentação de militares e viaturas, passado uns tantos dias, o local do acampamento estava coberto de lama, e com ela, milhares de mosquitos. Neste cenário, viveram quase três semanas, até serem enviados para o interior da província, e possível cenário de guerra.

Neste espaço de tempo, não havia água potável, nem para beber, ou lavar simplesmente a cara. Era em bidões vazios de gasóleo ou óleo, que se lavavam, e enchiam com água turva dos rios e pântanos próximos, esperava-se umas horas para que algumas impurezas assentassem no fundo, e depois essa água, era utilizada. Viviam à base de ração de combate. Pela manhã, em determinada área, ferviam água, e faziam café, muito forte, que distribuíam com um naco de pão, ou um biscoito. Um pouco retirado do acampamento, abriam-se valas no chão, que serviam de latrinas. Aqui começava a lei da sobrevivência. Tudo era motivo para discussão entre militares, e às vezes havia mesmo confrontos físicos. Neste maldito acampamento, com algumas centenas de militares, houve um suicídio, e vários casos de febre constante, que, diziam, era a doença do paludismo.

O Cifra, que é como o Tó d’Agar passa a ser conhecido em cenário de guerra, ao fim de aproximadamente três semanas, sai do acampamento, e vai para o interior da província, onde se começava a desenrolar o conflito. O Comando do Agrupamento a que pertence, instalou-se numa vila do interior, nas instalações do que diziam ser um antigo convento de padres de uma ordem religiosa francesa, quase em ruínas, onde já se encontrava alguns militares, que iniciaram a construção de um aquartelamento, que mais tarde, viria a ser o principal e mais importante posto avançado para o interior da província. (,,,)

(Continua)
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 13 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10150: Camaradas da diáspora (11): Tony Borié, ex-1º cabo cripto, Comando de Agrupamento nº 16 (Mansoa, 1964/66), a viver na Flórida, EUA

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10176: O Nosso Livro de Visitas (143): Gama Carvalho, ex-fur mil cav, 2ª C/BCAV 8323 (Piche, Buruntuma e Piche, 1973/74), aceita o nosso convite para se tornar grã-tabanqueiro...

1. Em resposta ao nosso convite, para ingressar na Tabanca Grande, o Gama Carvalho (ou Carlos Holyday ou Carlos da Gama) registou e respondeu que... sim, embora tendo que formalizar essa entrada só mais tarde, por não ter oportunidade de nos mandar agora as fotos da praxe... Recorde-se que é (i) o autor do blogue Estrada Fora (ou Memória da Micha,  nome de guerra da sua autocaravana, foto à direita) , (ii) vive em Braga e (ii) pertenceu á 2ª C/BCAV 8323 (Piche, Buruntuma e Piche, 1973/74).

(i) 17/7/2012:

Gama Carvalho: Estamos na campanha dos 600 grã-tabanqueiros até ao final do ano... Teríamos muito gosto em que entrasses, com a tua Micha... Manda duas linhas a teu respeito... Posto, companhia (2ª...), e o mais que quiseres acrescentar... Não há aí duas fotos tipo passe, uma dos 20 anos e outra dos 60 ou 59 ?,,, Vou publicar a história do teu regresso, em poste de amanhã... O Carlos Marques dos Reis (Fá Mandinga e Mansambo, CART 2339, 1968/69) também é caravanista... Um ab. LG


(ii) 19/7/2012:

Caro Luís Graça:


Antes de mais, quero deixar-lhe o meu vivo obrigado pela pronta e afetuosa recepção que muito me sensibilizou. Felicito-o, igualmente, pelo extraordinário blog «Luis Graça  & Camaradas da Guiné».

Como lhe referi, anteriormente, já há um bom tempo que visito esse espaço de memória onde gosto de me encontrar. Daí que tenha ganho coragem para me dirigir a si, dando conta de alguns pedaços de vida que, de quando em vez, guardo na «Memória da Micha».

Agradeço-lhe, uma vez mais, a oportunidade de recordar os tempos passados na nossa Guiné.

Pertenci, como referiu, à 2ª Companhia de Cavalaria do BCAV 8323, comandada pelo Cap Tapadinhas. Tinha o posto de furriel miliciano.

Vivo em Braga, terra do meu nascimento. Trabalhei no Ministério da Saúde, durante 36 anos, onde exerci alguns cargos de chefia (Chefe de Divisão, Diretor de Serviço e Sub-Diretor Geral). Daí que lhe confesse que alguns dos seus textos da área da sociologia da saúde foram de grande importância na minha vida profissional.

Quanto às fotos: de momento não tenho oportunidade de enviar. Fica para mais tarde.

Um abraço do

Carlos da Gama

2. Comentário de L.G.:


Na realidade, caro camarada, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!... Guiné e Saúde são já coincidências a mais... Também passei pela saúde (até 1994, a Escola Nacional de Saúde Pública era um organismo central do Ministério da Saúde, tendo nessa data passado para a Educação, como unidade orgânica da Universidade Nova de Lisboa), e continuo a trabalhador no campo da saúde, investigando e ensinando matérias de saúde pública...

Fico contente por saber que os meus textos de apoio, na érea da sociologia das organizações e profiasões de saúde, disponíveis em acesso livre na minha página çpessoal, tiveram utilidade para pessoas como tu que pertenceste à carreira de pessoal dirigente do Ministério da Saúde...

Enfim, temos mais uma razão ou um pretexto para nos sentarmos aqui à sombra do nosso poilão e pôr a conversa em dia... Vou então aguardar que um dia destes nos mandes as duas fotos da praxe para a tua apresentação formal aos restantes camaradas que integram a Tabanca Graende. Até lá, boas viagens com a tua Micha, e demais família. Muita saúde e longa vida, camarada! Luís Graça.


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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10131: O Nosso Livro de Visitas (142): Rodrigo Moura, de Leça do Balio, Matosinhos, ex-sold radiotelegrafista, CART 2440 / BART 2857, Piche, 1968/70... Já voltou a Bissau, desde 2000, cerca de 20 vezes...

Guiné 63/74 - P10175: Historiografia da presença portuguesa em África (42): Missão zoológica na Guiné, 1944/46, chefiada pelo naturalista Fernando Frade (1898-1983) (Parte I)





1.  Chefiada por Fernando Frade, a Missão Zoológica da Guiné decorre entre dezembro de 1944 e maio de 1946. Nesse período a que corresponderam cerca de 300 dias de trabalho de campo, a equipa deu um importante contributo para o conhecimento da fauna terrestre e marítimo-fluvial da província. Andou por sítios que muitos de nós conhecemos como a ilha de Bissau, Enxalé, Cuor, Bambadinca, Bafatá, Contuboel, Xitole,  Buba, Catió, Cacine, Piche, Madina do Boé... 

Um primeiro relatório, com 5 partes, é logo publicado em 1946, como separata dos Anais da Junta de Investigações Coloniais. Não tivemos ainda acesso a essa publicação, os excertos (texto e fotos) que aqui publicamos são possíveis graças à divulgação (e à cortesia) da página lusófona Triplov (leia-se: Triplo Vê), superiormente dirigida e animada por Maria Estela Guedes.


Escritora e crítica literária, Maria Estela Guedes (n. 1947), também bebeu, como nós, a "água do Geba": viveu na Guiné entre 1955 e 1966, para onde foi com os pais, emigrantes ( e sobre esse tempo, de que guarda uma viva e apaixonada memória, escreveu um livrinho de poesia, Chão de Papel, Lisboa: Apenas Livros Editora, 2009, 48 pp.)...


É também investigadora no Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL). O sítio (ou portal)  é dedicado a Ernesto de Sousa e é uma verdadeira caixa de surpresas, merecendo amiudadas e prolongadas visitas, já que os interesses científicos, estéticos e culturais de Maria Estela Guedes são tão vastos como o mundo e tão profundos como a vida, as artes, as ciências, o esoterismo. É diretora da revista digital TriploV de Artes, Religiões e Ciências.








FRADE, F. Amélia Bacelar, e Bernardo Gonçalves (1946) - Relatório da missão zoológica e contribuições para o conhecimento da fauna da Guiné Portuguesa. Separata dos Anais da Junta de Investigações Coloniais, Lisboa, Vol. I. Trabalhos da Missão Zoológica da Guiné (1-5): 259-416. Fernando Frade. Guiné-Bissau. Zoologia.











A equipa era constituída por: (i) Fernando Frade (professor extraordinário da Faculdade de Ciências de Lisboa), (ii) Amélia Bacelar (naturalista do Museu Bocage) e (iii)  Bernardo Gonçalves (assistente investigador da JIC - Junta de Investigações Coloniais.

  






Fonte: Cortesia do sítio Triplov > Missão Zoológica na Guiné: Fernando Frade, Amélia Bacelar e Bernardo Gonçalves


2. Alguns notas biográficas sobre Fernando Frade Viegas da Costa (1898-1983), recolhidas por L.G.:



(i) Nasceu em Lisboa, em São Mamede, em 27 de abril, e morreu, também em Lisboa, em 15 de abril., à beira de completar os 85 anos;



(ii) Era casado com Amélia Vaz Duarte Bacelar (n. 1890), também sua companheira da aventura científica (integrou, por exemplo, a missão zoológica na Guiné);

(iii) Em 1924, por concurso, Fernando Frade é nomeado naturalista do Museu Bocage; nessa qualidade organizou os catálogos sistemáticos das Aves e dos Mamíferos existentes no Jardim Zoológico de Lisboa.



(iv) Em 1938  é eleito Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, ao tempo do presidente Eduardo Rodrigues Carvalho (1930-44) que veio substituir o Duarte Pacheco (, nomeado ministro das Obras Públicas e Comunicações), e o nome ficará para sempre ligado  ao parque florestal de Monsanto.

(v) Chefiou várias missões científicas ao ultramar português;



(vi) Entre 1922 e 1980 publicou publicou centenas de artigos científicos ou de divulgação científica, capítulos de livros e livros, muitas vezes em colaboração  com a sua esposa, Amélia Bacelar;


(vii) Era um cientista da natureza, e sobretudo um zoológo, no sentido amplo em que a revista Garcia de Orta entende a Zoologia, abrangendo os seus diferentes ramos (Mamalogia, Ornitologia, Herpectologia, Ictiologia, Entomologia, Planctonologia, Helmintologia, etc.);


(viii) Foi muito importante o seu contributo para o conhecimento científico da fauna das antigas províncias ultramarinas portuguesas, com destaque para a Guiné, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.


(Continua)


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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de março de 2011 > Guiné 63/74 - P7925: Historiografia da presença portuguesa em África (41): A Carta de Chamada (A. Rosinha / A. Branquinho / C. Cordeiro / M. Joaquim / J. Amado / A. Guerreiro)

Guiné 63/74 - P10174: Notas de leitura (382): A Caça no Império Português, de Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montês (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 28 de Maio de 2012:

Queridos amigos,
Mais um achado da Feira da Ladra, em cima de um estrado onde se podiam encontrar revistas de cinema, publicações de viagem e estudos de genealogia, encontrei este fascículo de uma obra que é considerada das mais emblemáticas sobre a caça em Portugal. Terá interesse o que ali se escreve para os estudiosos de hoje, Henrique Galvão e colegas do projeto põem muitas reticências às espécies cinegéticas apontadas nos trabalhos de Monard, e são prudentes quanto ao que ouviram de naturalistas cotados e informações de caçadores.
Este fascículo fica a pertencer ao blogue.

Um abraço do
Mário


A Caça no Império Português: A Guiné

Beja Santos

“A Caça no Império Português” da autoria de Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montês, foi editada pelo jornal “O Primeiro de Janeiro”, em 1943 e depois editado em dois volumes, com uma belíssima apresentação. Os bibliófilos disputam a obra que se vende por importâncias que se aproximam dos 500 euros, dada a sua raridade. O fascículo nº 6 está sobretudo centrado na Guiné portuguesa.

Para os autores, a Guiné de então não podia ser apontada ainda como um paraíso de caçadores, mas as espécies cinegéticas interessantes são dignas de ser tomadas em atenção: antílopes, búfalos, leopardos, símios e hienas, hipopótamos, jacarés… Sendo das colónias menos estudadas por naturalistas, avançam os autores, dão, sob todas as reservas, a classificação científica dos animais que constituem a lista de espécies cinegéticas da Guiné. Queixam-se que falta uma lei de caça para a colónia e por isso estão desaparecendo ou escasseando algumas espécies cinegéticas.

Começando pelos grandes mamíferos, informam que o elefante é raro na Guiné e põem mesmo em dúvida se existe. O seu habitat situar-se-ia nas margens do Corubal e poderia ter ido até Buba e Fulacunda. Quanto ao hipopótamo ou cavalo-marinho reconhecia-se ser muito abundante na colónia.

Quanto aos bovinos referem o búfalo, abundante em S. Domingos e Susana e entre S. Domingos e Barro; no Leste, na região do Boé, em Quinara, em Fulacunda, em Enxalé e Xitole e no Sul em Cacine e na região de Tomabali.

O leão era já dado como raro embora houvesse relatos da sua existência em Xitole e Farim. O leopardo (impropriamente designado por onça e pantera), só era conhecido através de uma espécie. Os autores falam também na hiena, no mabeco, cão do mato e chacal.

Passando para os pequenos carnívoros põem em dúvida a existência do lince africano e dizem existir por toda a colónia o gato bravo e o gato tigre. Consideram que proliferam os manguços ou genetas, as lontras e algumas espécies de doninhas. No que toca aos grandes antílopes, põem reservas sobre a sua existência na Guiné e escrevem mesmo: “A existir, como alguns caçadores asseguram, é muito raro.

Apareceria, ocasionalmente, na região do alto Geba e nas nascentes do Cacheu”. Boca branca é o nome que na Guiné se dá à palanca de Angola e afirmam estar espalhada no interior tal como o Bubal. Quanto a médios e pequenos antílopes registam a gazela de lala, o sim-sim, a gazela pintada, as cabras e cabritos de mato e põem em dúvida a existência do cabrito aquático. Escrevem que os javalis se encontram nas grandes florestas e elencam vários tipos de macacos: galago do Senegal, chimpanzé, macaco fidalgo, macaco sera, macaco verde, macaco de nariz branco, macaco fula e macaco cão. No que toca a outros mamíferos dão com existência comprovada o porco-espinho, a lebre ou porcos formigueiros.

A lista de aves da Guiné é vastíssima, abrange centenas de espécies. Os autores entendem só dever referir as que têm interesse cinegético: pelicanos, marabus, garças e patos; a lista de aves de rapina é enorme: milhafre, açor, águia, abutre, isto sem esquecer mochos, corujas e o corujão; seguem-se as galinhas do mato, perdizes (a choca era a espécie mais conhecida) galinha de água, maçarico, calhandra do mar, perna longa; e convém não esquecer os pombos, as rolas e codornizes.

E chegámos aos répteis: jiboia, cobras (os autores dão como venenosas a capelo, a cuspideira e a surucucu), víboras venenosas, o lagarto de água e os crocodilos. A edição é muitíssimo bem apresentada, a título de curiosidade juntam-se algumas imagens que seguramente nada tem a ver já com a caça da Guiné-Bissau.

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 16 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10157: Notas de leitura (381): O Meu Diário, Guiné - 1964/1966, CCAÇ 674, de Inácio Maria Góis (3) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10173: Patronos e Padroeiros (José Martins) (35): São Lourenço de Brindisi, Frade, combatente e Santo

1. Mensagem do nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 15 de Julho de 2012 trazendo até mais um Padroeiro:

Boa noite
Não sendo Patrono de alguma "coisa", foi um capelão militar, portanto um combatente que se tornou Santo.
É uma homenagem aos capelães que, no exercício da sua missão, foram missionar terra inóspita, mas junto dos tiros que ouvimos, em colunas ou nos destacamentos, porque julgo que os comandantes de batalhão não os deixavam participar em patrulhas.
José Martins


Patronos e Padroeiros XXXV 

São Lourenço de Brindisi

Frade, combatente e santo

Imagem Lepanto, com a devida vénia

Júlio César Russo, filho de Guilherme Russo e Isabel Masella, nasceu em Brindisi, centro da Itália, a 22 de Julho de 1559. Os seus pais, gente simples mas muito devota, tentaram incutir-lhe, desde o berço, os princípios da Fé Cristã. Aos oito anos, ainda uma criança, perdeu o pai. Mesmo assim é encaminhado para um pequeno seminário de franciscanos, destinado a meninos oblatos, onde se distinguiu pela sua inteligência e memória, facto que foi notado pelos mestres e condiscípulos.


Quando chegou à adolescência, foi viver com um tio paterno, o Padre Rossi, que dirigia uma escola privada, em Veneza, para os alunos que seguiam o seu curso na Universidade de São Marcos. Apercebendo-se dos dotes do seu sobrinho, não hesitou a incentivá-lo a seguir a vida eclesiástica.

Júlio César decide entrar para a Ordem dos Capuchinhos em Veneza, adoptando para si o nome de Lourenço, dedicando-se ao estudo das línguas latina, hebraica e grega, enquanto aprofunda os conhecimentos em História, Filosofia e Teologia. O seu grau de memorização era tal que, confidenciou a um condiscípulo que, se a Bíblia desaparecesse ele, Lourenço, seria capaz de reconstrui-la.

Mesmo antes de ser ordenado sacerdote, já Frei Lourenço fazia sermões, que levaram muitos à conversão, e de tal forma o fez que, o Papa Clemente VIII o incumbiu de pregar aos judeus de Roma.

Aos 30 anos foi eleito Superior do Convento de Baiana del Grappa, a que se seguiu a eleição para Vigário Provincial da Toscana e Definidor Geral da Ordem e, mais tarde Superior do Convento de Veneza e Provincial de Veneza.

Surgem apelos, do Tirol e do Império Austro-húngaro, para a ida de missionários católicos romanos para aquelas paragens, a fim de “contrapor” a influência que os protestantes exerciam sobre o Imperador Rodolfo, através de várias figuras da sociedade, que reivindicavam a expulsão dos missionários.

Liderando um grupo de doze confrades, Frei Lourenço dá início à fundação de novos conventos no império em Praga, Viena e Gratz, cidade de que era governador o Arquiduque Ferdinando, que veio a ser Imperador.

Noutra fase, quando a Hungria foi invadida pelos turcos, que após a sua conquista avançaram sobre Viena, foram solicitados dois frades para servirem de capelães do exército. Frei Lourenço foi um dos que se ofereceu para esse mister e, de tal forma o levou à prática, que era normal vê-lo, no meio dos combates, com o crucifixo ao alto, incitando os soldados ao combate.

Os invasores ao notarem a figura do religioso que, mesmo desarmado, animava as tropas na batalha, passaram a dirigir os seus ataques sobre ele, mas nada o fazia derrubar. De tal forma que os próprios soldados o seguiam com confiança, certos de que a sua presença era uma muralha que os protegia.

Frei Lourenço também protagonizou uma outra situação semelhante quando, a pedido do Papa Paulo V, solicitou a Filipe III de Espanha uma acção contra os mouros daquele país que, organizados, já constituíam uma força considerável. O pequeno exército comandado por Dom Pedro de Toledo e, com o ânimo de Frei Lourenço, expulsou os antagonistas das suas posições e apoderaram-se dos seus bastiões.

Frei Lourenço, na sua ânsia de defesa da Fé Católica, não só esteve sempre na linha da frente contra o que considerava herético, mas também desenvolveu actividade diplomática, junto dos príncipes católicos, evitando muitas vezes o confronto pelas armas, como era uso na época para a resolução das divergências entre estados.

De cima do púlpito, da forma como interpretava e transmitia a sua fé e os seus conhecimentos aos fiéis, deixou bem expressa a sua devoção a Maria, Mãe de Deus: "Todo dom, toda graça, todo benefício que temos e que recebemos continuamente, nós os recebemos por Maria. Se Maria não existisse, nós não existiríamos e não haveria o mundo" e "Deus queira que todos, todos, todos, e desde a infância, aprendessem bem depressa essa verdade: aquele que se confia a Maria, que se entrega a Maria, não será jamais abandonado, nem neste mundo nem no outro".

A missão que enfrentou junto de Filipe III, rei do maior país católico da Europa no final da segunda década do Século XVII, estava a tornar-se muito difícil de levar a cabo, o que o levou a “prever” e a anunciar a sua própria morte, a que se seguiria a morte do rei espanhol e do próprio pontífice, e que, o oponente do monarca espanhol também teria a sua morte a curto prazo.

Em 22 de Julho de 1619, na cidade de Lisboa no dia em que completava sessenta anos de idade e na sequência de um ataque de gota, morria Frei Lourenço de Brindisi, que seria trasladado para Villafranca del Bierzo, no norte de Espanha.

Tendo sido já considerado santo pelos seus seguidores, a Igreja Católica reconhece-o como Beato em 1783, pelo papa Pio VI, é canonizado pelo papa Leão XIII em 1881 e proclamado Doutor da Igreja, em 1959, pelo Papa João XXIII, sendo fixada a sua festa litúrgica para o dia 21 de Julho.

José Marcelino Martins
14 de Julho de 2012
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10152: Patronos e Padroeiros (José Martins) (34): S. João Capistrano - Patrono dos Capelães Militares

Guiné 63/74 - P10172: Fauna & Flora (29): Que raio de cobra é esta? (José Colaço)



1. O nosso camarada José Colaço, (ex-Soldado Trms da CCAÇ 557, CachilBissau e Bafatá, 1963/65), enviou-nos em 10 de Julho a seguinte mensagem. 


Camaradas,

Para os analistas.

Será que é possível dizerem-me que tipo de cobra é esta que se vê morta na foto? 

Foi abatida  na mata das cobras no Cachil, após uma luta para a fazer cair de uma palmeira. 

Um dos processos usados para ela cair, foi atear fogo à palmeira. 


Os nativos diziam que era cobra cuspideira, tinham razão ou não?

Um abraço,
José Colaço
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Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 


Guiné 63/74 - P10171: (Ex)citações (190): Conhecemos pessoas que ignoramos serem camaradas de armas (Carlos Nabeiro)

1. Comentário deixado pelo nosso camarada Carlos Nabeiro* (ex-Fur Mil da CCAÇ 2357/BCAÇ 2842, Moçambique, 1968/70), deixado no Poste 10151:

Se os Camaradas me dão licença, este Post do Camarada Abel Santos contando a sua relação de vizinhança com um dos estimados editores deste fabuloso blog, tem algo de semelhante acontecido comigo.

Sendo também veterano, não do TO da Guiné, sou um visitante diário e com amigos pessoais, entre eles o MR e o Mário Gualter Pinto.

Há vinte anos que sou vizinho de um camarada veterano da Guiné, mora numa rua transversal à minha a cinquenta metros.
Este camarada foi até ao Verão passado o meu padeiro, altura em que se reformou. Nunca tínhamos falado de termos estado na guerra. Devido à sua reforma e a outra situação devastadora na sua vida, morreu-lhe o único filho (filha) enfermeira, num dos hospitais da nossa cidade. Vítima de um melenoma, tinha trinta e oito anos,deixou uma menina com pouco mais de um ano de idade que os avós maternos provavelmente terão de criar.

Como disse anteriormente foi devido aos dois acontecimentos que eu ao fim de vinte anos a ver quase todos os dias o camarada, José Amarante, soube dele ter estado na Guiné.


Não sou mandatado pelo senhor Zé, mas este post deu-me a ideia de por à disposição de quem possa estar interessado no paradeiro de:

José Amarante, natural de Figueira de Cavaleiros (Ferreira do Alentejo).
Pertenceu ao Esquadrão de Reconhecimento FOX 1578 - Nova Lamego - 1966/68.
Foi seu comandante o Capitão Marquilhas.
O camarada José Amarante vive em Setúbal.

Como todos nós temos pelo menos sessenta e mais anos, há quem não esteja muito familiarizado com um computador, daí muitos não saberem da existência deste ou qualquer outro blog.

Desculpem se me alonguei, como encontrei semelhança na matéria atrevi-me a contar-vos.

Obrigado pela atenção.
Carlos Nabeiro
Setúbal

OBS: - Emblema com a devida vénia ao nosso camarada Carlos Coutinho
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10110: Sondagem: "Um blogue de veteranos nostálgicos da sua juventude ?" (Parte II) (A. Graça de Abreu / António Rosinha /Armando Pires / Carlos Nabeiro / J. Pardete Ferreira / Manuel Joaquim / Manuel Maia

Vd. último poste da série de 16 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10158: (Ex)citações (189): Chamem-lhe destino, providência, desígnio ou simplesmente sorte... mas a verdade é que eu estive para me sentar duas vezes no lugar do morto (Jorge Narciso, ex-1º cabo espec MMA, Bissalanca, BA 12, 1969/70)

Guiné 63/74 - P10170: Estórias dos Fidalgos de Jol (Augusto S. Santos) (4): De caçador a caçado

1. Mensagem do nosso camarada Augusto Silva Santos (ex-Fur Mil da CCAÇ 3306/BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73), com data de 15 de Julho de 2012:

Camarada e Amigo Carlos Vinhal,
Na sequência das minhas anteriores estórias e, porque a "veia" das recordações se tem mantido aberta, eis-me novamente a enviar-te mais três relatos de situações que, pelo seu desfecho final, até passaram a ser mais ou menos divertidas.
Como habitualmente, deixo ao teu critério a sua possível publicação com as alterações que entenderes fazer.
Com cada uma delas, junto mais algumas fotos da minha passagem por terras da Guiné.

Com um grande e forte abraço, vão também os meus agradecimentos pela tua preciosa colaboração nestes trabalhos.
Augusto Silva Santos


ESTÓRIAS DOS FIDALGOS DE JOL (4)

DE CAÇADOR A CAÇADO

Estando a época das chuvas em plena actividade e, consequentemente os reabastecimentos por via terrestre à Companhia demoradas por tempo indeterminado dadas as dificuldades de acesso a Jolmete, nalgumas ocasiões começava a escassear a comida dita normal, pelo que o recurso à mais variada alimentação de ocasião era absolutamente comum, embora repetitiva e nem sempre do nosso agrado.

Assim, passados alguns dias nesta rotina alimentar, o pessoal começava a ficar farto das rações de combate e de outro tipo de alimentação à base de conversas, sempre com o arroz presente, pelo que era igualmente normal o recurso aos mais variados estratagemas para se arranjar algo fora daquele esquema.

Uns recorriam ir à tabanca na tentativa de arranjar um leitão ou um frango (nem sempre da forma mais correcta), ou mesmo comprar alguns peixes apanhados pela população nos braços do rio Cacheu.
Outros tentavam caçar algo, se bem que da caça grossa estivéssemos dependentes de quem sabia onde efectivamente a podia fazer, nomeadamente de noite, como era o caso do Comandante da Milícia, de seu nome Dandy. Ainda me lembro de ter comido hipopótamo, gazela, e búfalo.

Da outra bicharada menor encarregávamo-nos nós de tentar caçar, quase sempre à volta do quartel. Lembro-me de numa ocasião me terem dado a comer macaco que alguém caçou numa armadilha, julgando eu que era cabra do mato. Na altura foi um manjar. Este era o meu caso que, beneficiando do empréstimo de uma espingarda de pressão de ar de 5,5mm, lá me ia aventurando a caçar alguma pardalada para o petisco (o lema era tudo o que voasse era bom para comer), e assim lá me iam orientando com as mais diversas aves e, quando a sorte estava do meu lado, com algumas rolas e pombos verdes à mistura, para a partilha com os amigos mais próximos.

Acontece que numa dessas minhas deambulações pelas cercanias do quartel, e sempre avisando as sentinelas de que andaria por ali perto, mais propriamente pela orla da mata, sou surpreendido pela correria mais ao menos desenfreada de uma bajuda acompanhada pela sua mãe, a qual passando por perto me gritou bem alto:

- Fuji Furriel, fuji…

Escusado será dizer que qual Carlos Lopes, deitei a correr quanto pude e só parei ofegante já dentro do quartel. Na altura não vi ninguém, mas no outro dia ao passarmos com uma patrulha pelo local e num sítio um pouco mais afastado, lá estavam as marcas de algumas sandálias de plástico, daquelas tão bem conhecidas de todos nós e que eram usadas pelo PAIGC.

Por pouco não virei de caçador a caçado...

Bissau, Dezembro de 1971 > Com o meu irmão

Jolmete, Março de 1972 > Junto ao morteiro

Teixeira Pinto, Abril de 1972 > Estação dos Correios

Jolmete Abril de 1972 > Na Messe em convívio com camaradas

Jolmete, Novembro de 1972 > Convívio com o pessoal dos petiscos
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 9 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10135: Estórias dos Fidalgos de Jol (Augusto S. Santos) (3): A cobra cuspideira

Guiné 63/74 - P10169: Os Nossos Regressos (28): Gama Carvalho, 2ª C/BCAV 8323 (Piche, Buruntuma, Piche, 1973/74), autor do blogue Estrada Fora, surpreendido em Figo Maduro pelo ardina que vendia o jornal A Merda, em 11 de setembro de 1974...



Com a devida vénia... Do blogue Estrada Fora,  do nosso camarada Gama Carvalho, que pertenceu 2ª C/ BCAV 8323 (Piche, Buruntuma, Piche, 19773/74)...

[ Recorde-se, a propósito do  BCAV 8323/73:  (i) foi mobilizado pelo RC 3,  (ii) partiu para o TO da Guiné em 22/9/1973, (iii) egressou a 10/9/1974; (iv) steve sediado em Pirada; (v) teve como comandante o ten cor cav Jorge Eduardo Rodrigues y Tenório Correia Matias;:  (vi) dele faziam parte a 1ª C/BCAV 8323 (Bajocunda), a 2ª C/BCAV 8323 (Piche, Buruntuma, Piche) e a 3ª C/BCAV 8323 (Pirada)].

1. Estrada Fora > Quarta-feira, 29 de Junho de 2011 > O mais belo nascer do sol


O regresso à metrópole estava previsto para as 23.00 horas no aeroporto de Bissau. Mas, a meio da tarde desse dia [, 10 de setembro de 1974], eram já muitos os militares a dirigirem-se para o local de embarque. A ânsia da partida manifestava-se por um imenso desassossego, visível nos constantes olhares para o relógio, nas contínuas espreitadelas às pistas e na postura inquieta dos corpos.

Foram 12 meses passados no mato, sob uma enorme pressão psicológica. Lembro bem, em Buruntuma, só me sentia mais calmo e seguro pela calada da noite, pois eram raros os ataques da guerrilha local nesse período de tempo.

Estávamos em meados do mês de Setembro de 1974. A revolução de Abril tinha constituído, para os militares que lutavam nas três frentes de guerra em África, um farol de esperança a iluminar os caminhos do futuro. Com a queda do regime político português, dissiparam-se as dúvidas sobre o final daquele conflito colonial. Pelo que o pensamento fixou-se, a partir daí, no regresso a casa.

À hora marcada, fomos informados que o avião, vindo, propositadamente, de Lisboa, ainda estava a caminho. Só pelas três horas da madrugada levantamos voo para uma viagem que me proporcionou o mais belo espectáculo que assisti, até hoje, nas alturas do firmamento: um magnifico nascer do sol, com raios multicolores, mistura de vermelho vivo com um amarelo rebelde. Na admiração daquele magnifico quadro, senti que uma nova era se iniciava na minha vida. Para trás, deixava um tempo que pretendia esquecer rapidamente.

Todos sabíamos, pelas notícias que nos chegavam de camaradas regressados de férias, que Portugal estava em vertiginosa mudança social e politica. E foi no preciso momento em que desembarquei, no aeroporto militar de Figo Maduro, em Lisboa, que dei conta dessa enorme mudança que o meu país sofreu no tão curto espaço de um ano. O primeiro sinal dessa mudança foi trazido, no cais de desembarque, por um vendedor de jornais que, junto de mim, apregoava: >
- Compre A Merda. Leve A Merda para casa!.

Um pouco incrédulo, fixei-me, por momentos, no ardina e nos jornais que carregava. Constatei, surpreso, que um dos deles tinha esse título tão pouco ortodoxo e impensável há um ano atrás.

A minha perplexidade era do tamanho da diferença de liberdade política e social com o país que tinha deixado: rural, fechado sob si próprio, amargurado pelo destino dos embarcados para o ultramar, pobre e abandonado pelos mais jovens num fluxo emigratório sem precedentes. Tudo isso estava em mudança vertiginosa.

A liberdade trazida pela «Revolução dos Cravos» estava a dar frutos a nível do desenvolvimento social e político e, um pouco mais tardiamente, a nível da economia e finanças.

O jornal «A Merda» mais não era que um apêndice dos excessos que o exercício da liberdade sempre comporta. Sobretudo, após uma asfixia tenebrosa de 40 anos de ditadura!

Mas, de tudo isto, retenho, na minha melhor memória, o mais belo nascer do sol!


2. Comentário de L.G.:

Ainda me recordo, apenas de o ver nas bancas de jornais, não de o ler, do jornal, de combate político, "A Merda", que era conotado com o movimento anarquista em Portugal.  Perdurou na nossa memória mais do que outros como o "Coice de Mula" ou até como a revista (doutrinária) "Ideia", mais séria e intelectual  (onde pontificou o meu confrade João Freire, como diretor, editor e proprietário, nos anos 70/80) ... De referir ainda, segundo José Nuno Matos, outras publicações congéneres que apareceram no pós 25 de abril: o Pasquim (Cascais), o Satanaz (Almada), a Sabotagem, o Rastilho e a Terra Livre (Amesterdão), a Revolta (Leiria), a Acção (Tomar), a Libertação (Pombal) e, mais tarde, o Apoio Mútuo (Évora), A Sementeira (Lisboa), a Lanterna Negra (Lisboa) e o Anarquista (Leiria)...

De qualquer modo, e na esteira do poste do nosso camarada Gama Carvalho, quem não se lembra do célebre refrão dos ardinas de Lisboa que vendiam "A Merda" ?!
- Olh' A Merda!... Compr' A Merda!... Lei' A Merda!... Gand' A Merda!...

Lembro-me também das pichagens nas paredes, algumas das quais resistiram anos e anos a fio à ação dos homens e das intempéries... mas não à nova horda de grafiteiros. Lembro-me, de cor, de uma ou outra palavra de ordem, anarquista, ou de inspiração anarquista, com conteúdo libertário, iconoclasta, sarcástico, corrosivo, subversivo, irónico, pungente ou simplesmente filosófico, ético ou poético.... (Enfim, recorro aqui também ao auxiliar de memória que é a notável amostra, de mais de 500 murais,  do pós 25 de abril, fotografados e tratados pelo Centro de Documentação 25 de Abril)...


Uma ou outra dessas palavras de ordem ainda se vê por aí, tentando em vão interpelar-nos, provocar-nos... Diga-se, en passant, que o anarquismo nunca teve grande implantação histórica em Portugal (contrariamente à Grécia e à Espanha), se excetuarmos a influência do anarcossindicalismo dos finais do séc. XX até aos anos 20 do séc. XX, nalguns polos industrais (e portanto operários) de um país onde o capitalismo da 1ª geração foi atípico, periférico e serôdio... Não confundam, por favor, essas pichagens de humor ácido, corrosivo, com a "cultura grafiteira" das tribos suburbanas do início do séc. XXI... Sinto-me, apesar de tudo, mais confortável com os primeiros do que com os segundos...

- A Anarquia vencerá!
- À portuguesa só conhecemos o cozido!
- Abaixo a Ditadura, viva a Coca-Cola!
- Abaixo as relações sexuais!
- Abaixo os organismos de cúpula, vivam os orgasmos de cópula!
- Apoiamos a justa luta dos bichos da fruta
- As pulgas não sabem nadar, não lavem os cães!
- Greve ao papel higiénico, compremos os jornais.
- Já não há eleições, o Dom Sebastião volta para a semana!
- Junta a tua à nossa merda! [, paródia da palavra de ordem do PCP: "Junta a tua à nossa voz"]
- Na aula de educação sexual teve falta de material
- Não encostem o cu à parede, não!...
- Nem Deus nem Chefe!
- Nem Deus nem Chefes... e muito menos anarcas!
- Nem Deus nem Pátria nem Família nem Chefe nem Governo, Autogestão!
- Nem mais um faroleiro para as Berlengas!
- O trabalho dá preguiça, a preguiça dá trabalho.
- Os nossos sonhos não cabem no nosso mundo.
- Poder aos glutões.
- Putas ao poder, que os filhos já lá estão!


- Se a merda valesse ouro, os pobres nasciam sem cu!
- Se Deus existe, o problema é dele.
- Se o governo é merda, de quem é a culpa? Da merda ou do governo?
- Sejamos realistas, exijamos o impossível!
- Unicidade pró menino e pra menina.
- Viva a dentadura do proletariado!

... Pode ser que, entretanto, alguém se lembre de mais algum!... Hoje fazem-nos apenas sorrir, com um sorriso amarelo ou amarelecido. Perderam toda a carga humorística e até subversiva que podiam ter tido na época, de descompressão política, social, cultural e mental, que foi o 25 de abril e o pós-25 de abril.

[As duas imagens de cima foram tiradas  o Porto, numa das escolas  do IPP - Instituto Politécnico do Porto, em Paranhos, no dia 6 de junho de 2012. LG].
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Nota do editor:

11 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9027: Os nossos regressos (27): Faz hoje 44 anos que desembarquei na Estação Ferroviária de Barcelos (José Lima da Silva)

Guiné 63/74 - P10168: Blogpoesia (193): Deste-me asas para voar... (Joaquim Mexia Alves)


Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) > 1969 > Heli Al III,. a descolar do heliporto...

Foto: © Humberto Reis a (2006) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados




Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > BART 2917 (1970/72) > c.1970 > Heli Al III, pousado n


Foto: ©  Benjamim Durães (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Do livro de poemas Orando em verso, de Joaquim Mexia Alves, nosso querido amigo e camarada, régulo da Tabanca do Centro [, foto à direita]:

Deste-me asas para voar

Deste-me asas para voar
e eu não voo.

Tenho uma âncora de orgulho,
de vaidade,
ligada a uma corrente do mundo,
de dinheiro, de sociedade,
que não me deixa voar
nas asas que Tu me deste...

E eu puxo, Senhor,
luto, revolto-me,
mas acabo por deixar-me ficar
preso a este mesmo chão,
rasteiro sem poder voar...

Tens que ser Tu,
Senhor,
a partir a corrente,
a libertar a âncora,
a dar-me golpe de asa
que me levante aos céus
e faça partir à desfilada
nas nuvens da Tua graça.

Quero voar no vento
que sopra do Teu amor,
agora e sempre,
em cada momento,
quero voar para Ti,
voar sempre, sempre, 
cada vez mais alto e melhor.

Derruba, Senhor,
as barreiras,
os medos,
dá força às minhas asas,
que me levantem aos céus
e todos os dias me tragam  
para junto dos filhos teus.

Quero voar aqui,
sem nunca daqui sair,
pois é aqui que se voa
até ao momento de partir...

E quando então me chamares,
que as asas que Tu me deste,
se aquietem, Senhor,
porque apenas quero ser levado
nas asas do Teu amor...

Monte Real, 20 de maio de 2008.

Fonte: Joaquim Mexia Alves - Orando em verso: poemas. Lisboa: Paulus Editores. 2012. 142-143


2. Comentário de L.G.:


Estranha coincidência...Ao Joaquim que me acaba de dizer, por mail, e em post scriptum, que "na terça feira [ passada, dia 17, ] morreu 'mais' uma irmã minha. A família grande vai ficando pequena".., eu respondi-lhe de imediato nestes termos:

"Joaquim: Embora esperada, a morte é sempre um mistério e deixa uma dor muito funda nos seres humanos. És uma homem de fé, e a fé ajuda-nos a superar as nossas limitações humanas e terrenas. Também eu comecei a ir ao cemitério e a falar em voz alta com o meu pai... Recebe um xicoração fraterno... Curioso, hoje ia (vou) 'postar' um poema teu...Vê se gostas. Está agendada para antes do almoço"...

Gosto deste poema, porque ele aborda, de maneira singela mas profunda, o conflito intrapessoal entre o ter e o ser... "Deste-me asas para voar/ e eu não voo"... E o voar aqui deve ser entendido metaforicamente: voar é realizar-se como pessoa, como ser humano, nas suas dimensões mais nobres, na sua plenitude... Há um "lastro" (a materialidade mesquinha das coisas terrenas)  que não nos deixa descolar e ganhar alturas... Não basta "ter" asas para voar, é preciso "saber" voar... Voar que não é o mesmo que "voltear"... (Como diz o nosso povo, prosaicamente, "tudo o que volteia no ar, tem um dia de se aquietar"). Esse mesmo povo que, na sua sabedoria de vida, também nos diz (e, de algum modo, nos tranquiliza): "Dá Deus asas a quem sabe voar"... O mesmo povo, crente mas irónico, que sabe tirar lições do passado, da sua experiência própria: "Muita saúde e pouca vida, que Deus não dá tudo"...

Se sim, se Deus não dá (nem pode dar) tudo, fiquemos então ao menos com a poesia e com os nossos poetas, sob o poilão mágico e fraterno da nossa Tabanca Grande...
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Nota do editor:

Último poste da série > 14 de julho de 2012 >
14 de julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10153: Blogpoesia (192): Quem somos? (Felismina Costa)

Guiné 63/74 - P10167: Parabéns a você (451): José Santos, ex-1.º Cabo Aux. Enf.º da CCAÇ 3326 (Guiné, 1971/73)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 17 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10159: Parabéns a você (447): Álvaro Basto, ex-Fur Mil Enf.º da CART 3492/BART 3873 e José Manuel Pechorro, ex-1.º Cabo Op. Cripto da CCAÇ 19

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10166: Fauna & Flora (28): A Mamba-verde, particulamente temida pelos recolectores de chabéu ...

Mamba-verde - Dendroaspis viridis Hallowvell  (Família Elapidae - Proteroglypha).


[Imagem à esquerda: Aguarela do pintor Silva Lino (1911-1984)]


Principais caraterísticas desta espécie de serpente (*):

(i) Serpente longa (comprimento: até 210 cm) e relativamente delgada, com a cabeça estreita, pescoço pouco distinto e cauda comprida, atilada;


(ii) Olhos pequenos, com pupila redonda; coloração verde-olivácea, por cima, e amarelada ou esverdeada na face ventral, com escamas e placas finamente debruadas de negro;

(iii) Dentes: dentadura proteroglifodonte: dentes inoculadores sulcados, erécteis mas não retrovertíveis, na parte anterior do maxilar, sem precedência de outros dentes;


(iv) Sinais da mordedura: três pares de perfurações dilatadas, inoculadoras, ladeando o extremo anterior de duas linhas de perfurações, mais finas, dos dentes normais palatino-pterigóides; 

(v) Veneno:  mortal, neurotóxico;

(vi) Costumes:  espécie arborícola, frequentando plantações de palmeiras, bananeiras, etc., muito agressiva, especialmente na época da reprodução, e, por isso, temida pelos nativos, que chegam a ser perseguidos;

(vii) Reprodução por oviparidade;

(viii) Alimento: aves e pequenos roedores;

(ix) Distribuição geográfica: desde o Senegal até à Costa do Marfim; encontra[va]-se com relativa frequência na [antiga] Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau; em São Tomé foi coligida por A. Moller (1885), mas não tornou a ser assinalada, nem encontrada durante as pesquisas recentes da Missão Científica; em Angola, encontram-se as espécies D. jamesoni e D.angusticeps, ao passo que em Moçambique existe apenas esta última. 



Fonte: Cortesia do sítio Triplov > Serpentes do ultramar português

Referência bibliográfica: FRADE, Fernando - Serpentes do Ultramar Português. Garcia de Orta. Lisboa; 1955; III (4), pp. 547-553. Em colab. com Sara Manaças. Legendas e notas de aguarelas de Silva Lino.

Vd. tambEm em Google >Imagens >Dendroaspis viridis Hallowvell [Nome comum em inglês:  Western Green Mamba]



2. Comentário de L.G.:

Ainda há dias, falando com um amigo e conterrâneo meu, L.R., antigo alf mil pil Al III, no TO da Guiné (1970/72), parece que era relativamente frequente o pedido de helievacuações para civis que faziam a recolha do chabéu, trepando às palmeiras, e se atiravam, instintivamente, para o chão, muitos metros abaixo, quando eram surpreendidos por uma mamba verde (n

ão confundir com a vulgar cobra verde, em inglês a smooth green snake, norteamericana, não venenosa)... 

De acordo com as observações da missão científica que estudou, em meados dos anos  40 do séc. XX, a fauna da Guiné (chefiada por essa grande figura de naturalista que foi o prof Fernando Frade, cuja vida e obra merece ser melhor conhecida pelos nossos leitores ), esta espécie - a mamba verde - abundava nos palmeirais e nas plantações de bananeiras, e era particularmente temida pelos "nativos" da Guiné, recolectores de chabéu [vd. imagem em baixo; cortesia do sítio Novas da Guiné-Bissau]...



Fui testemunha de um caso desses, numa ponta, em Contuboel, por volta de junho/julho de 1969... Na Guiné, chamávamos-lhe simplesmente a cobra verde ou cobra verde das palmeiras...

Claro que "os desgraçados chegavam todos partidos ao hospital de Bissau", acrescentava o L.R., o meu amigo e conterrâneo, piloto da FAP...
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Nota do editor:

 Último poste de 10 de julho de 2012 > Guiné-Bissau - P10138: Fauna & Flora (27): A cobra cuspideira (de seu nome científico Naja nigricollis Reinhardt)

Guiné 63/74 - P10165: Em bom português nos entendemos (9): Uma declaração de amor, bem humorada, à língua portuguesa (Teolinda Gersão + netos)


Sítio do Observatório da Língua Portugesa (OLP)... Constituído em Junho de 2008, o OLP -  é uma associação sem fins lucrativos que tem por objectivos contribuir para:  (i) o conhecimento e divulgação do estatuto e projecção, no mundo,  da Língua Portuguesa; (ii) o estabelecimento de redes de parcerias visando a afirmação, defesa e promoção da Língua Portuguesa; e (iii) a formulação de políticas e decisões que concorram relevantemente para a afirmação da Língua Portuguesa como língua estratégica de comunicação internacional, hoje já com 250 milhões de falantes.


1. Porque (i) somos um blogue lusófono, com milhões de "baites" debitados para a blogosfera,  e (ii) fazemos questão de "em bom português nos entendermos", todas as questões da defesa e da promoção da língua portuguesa não nos são indiferentes, antes pelo contrário... Além disso, também (iii) temos (muitos de nós) filhos e netos em idade escolar, fazendo por isso parte da comunidade educativa... Mais: (iv) como antigos combatentes, também gostamos de escrever e de contar histórias aos mais novos, na escola ou fora dela... Temos, na Tabanca Grande, (v) gente que até já dá autógrafos e tem livros sobre a temática da guerra colonial... Enfim, e não menos importante, (vi) achamos que ninguém é dono da língua portuguesa, a começar pelo sr. ministro da educação de Portugal, mais todos os srs. ministros da educação da CPLP e os demais (e)duqueses, portugueses, brasileiros ou outros. Para aqueles que a têm como língua materna é provavelmente a única coisa que nada nem ninguém lhes pode roubar, mesmo cortando-lhes... a língua.


Com a devida vénia ao Observatório da Língua Portuguesa, reproduz-se aqui um bem humorado mas oportuno e contundente artigo de crítica ao atual estado do ensino da língua portuguesa, a nível do ensino básico e secundário, sob a forma de uma redação de um neto, João Abelhudo, do 8º ano C (Cê... de Carvalho). A autora é a avó Teolinda Gersão, que também é contra o NAO (Novo Acordo Ortográfico). O texto foi originalmente publicado no jornal "Público".


Teolinda Gersão é uma conhecia escritora de língua portuguesa. [Foto à esquerda]:  (i) nasceu em Coimbra; (ii) estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra,Tuebingen e Berlim; (iii) foi leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim; (iv) docente na Faculdade de Letras de Lisboa e posteriormente professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada até 1995; (v) partir dessa data passou a dedicar-se exclusivamente à literatura;  (vi) além da Alemanha (3 anos), viveu ainda em São Paulo, Brasil (2 anos...reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes,1984); (vii) conheceu Moçambique, cuja capital, então Lourenço Marques, é o lugar onde decorre o romance A Árvore das Palavras (1997); (ix) foi ainda escritora residente na Universidade de Berkeley (Fevereiro e Março de 2004).

B. Teolinda Gersão faz uma declaração de amor à Língua portuguesa

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.11-06-2012

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.


No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. 

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).



Teolinda Gersão, junho, 2012
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Nota do editor:

Último poste da série > 26 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P10074: Em bom português nos entendemos (8): O angolês, termos angolanos que pode dar jeito integrar no nosso léxico (Luís Graça, com bué de jindandu para o Raul Feio e demais kambas kalus)