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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 63/74 - P28411: In Memoriam (592): Joaquim Ganhão, natural de Moura (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965)



Joaquim José Moita Ganhão, natural de Moura  (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965). Faleceu na sua terra natal, em 23/1/2026, aos 83 anos. 


Crachá do CAV 489 / BCAV 490 (restaurado digitalmente com recurso á  IA | Gemini Google AI)



1. Ao procurar o seu nome na Net, tive a triste supresa de ficar  a saber que já havia falecido, ainda recentemente, em 23 de  janeiro passado, aos 83 anos, em Moura, sua terra natal (*). (Fonte: Página do Facebook QuemMorreuMoura, 23/1/2026, 16:53)

Não o conhecia pessoalmente, nem ele pertencia à Tabanca Grande. No entanto, foi um dos primeiros camaradas da Guiné ser aqui evocado, ainda  na I Série do nosso blogue (**), em poste de 17 de novembro de 2005.  

No ano anterior tinha sido entrevistado pelo "Diário do Alentejo". Infelizmente a publicação, de 23 de abril de 2004, já não está disponível "on line", desde ha muito. Nem eu consegui recuperá-la através do Arquivo.pt (nem do Internet  Archive). O link já foi descontinuado:

Voltamos a publicar a sua pequena / grande história de vida. É também a nossa forma de afirmar que o Joaquim Gamhão não  vai ficar inumado na "vala comum do esquecimento". Pelo menos, deixa aqui, aos seus camaradas, o essencial das suas memórias de guerra. 

 Para a família, vai também  a nossa solidariedade na dor por esta perda.
 


por Alberto Franco

"Diário do Alentejo", de 23 de Abril de 2004 
( Com a devida vénia...)



O alentejano Joaquim Ganhão foi um dos milhares de portugueses que lutaram em África, nos anos da Guerra Colonial. Nas dificuldades e sustos que viveu em terras da Guiné – participou na célebre Operação Tridente, em 1964 – certamente muitos outros ex-militares se reconhecem. Quando passam 30 anos sobre o 25 de Abril, é oportuno recordar a longa guerra, unanimemente considerada uma das principais causas da revolução.

Quando o Niassa zarpou de Lisboa, em 17 de Julho de 1963, não se pode dizer que os rapazes do Batalhão de Cavalaria 490 estivessem inquietos. Afinal, iam para Moçambique, onde a guerra que lavrava noutras colónias portuguesas não tinha ainda chegado. Mas a meio da viagem o programa sofreu alterações. O agravamento da situação militar na Guiné obriga ao reforço do contingente naquele território. O Niassa recebe ordem de rumar a Bissau, e aí desembarcar as tropas que transportava.

 – Foi um balde de água fria para todos nós – recorda Joaquim Moita Ganhão, 61 anos, nado e criado em Moura, um dos muitos alentejanos que integravam o Batalhão Quatro Noventa.

A guerra na Guiné começara há escassos meses, mas o território gozava já de má reputação entre os militares portugueses. À ameaça que a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) representava, combinava-se com uma geografia inóspita e um clima duríssimo, quente e húmido, favorável ao paludismo e a outras doenças tropicais. 

Quem esperava passar dois anos em Moçambique, no sossego de Vila Pery, e se vê inesperadamente atirado para a Guiné, não podia ter outra reacção que não fosse o alarme. Mesmo que se tivesse 20 anos, muito sangue na guelra e se pertencesse a um batalhão cujo lema era Sempre em Frente.

Em casa de Joaquim Ganhão eram nove irmãos, que o curto salário do pai, caiador de profissão, não chegava para sustentar:

– Eu ficava em casa a cuidar dos meus irmãos mais novos, enquanto a minha mãe trabalhava a dias. Essa a razão porque só entrei para a escola com nove anos.

Aos 12, Joaquim perde o pai. Com o amparo reduzido, vê-se forçado a trabalhar antes do tempo. Aprende o ofício de pedreiro, que exerce até aos 20 anos, idade em que é mobilizado para a tropa.

O soldado 328 estaciona três meses em Beja e dali segue para Estremoz, onde o BCAV 490 está a ser formado. No Quatro Noventa, os alentejanos estavam em maioria:

 – Havia gente de Elvas, Estremoz, Messejana, Aljustrel, Salvada. Só os cozinheiros eram do Norte… – assinala Joaquim Ganhão.  – A instrução em Estremoz foi dura. Preparam-nos para combater, segundo os modelos da época.

Vendo os conflitos que deflagravam nos territórios coloniais de outros países europeus, o exército português tinha-se preparado para enfrentar o fenómeno a que uns chamavam guerra subversiva e outros guerra de libertação. Oficiais portugueses estagiaram junto do exército francês na Argélia e especialistas estrangeiros ministraram em Portugal acções de formação. Mas uma coisa era a guerra teórica, outra a guerrilha nos pântanos da Guiné, as bolanhas, nas matas de Angola e Moçambique. Pela sua parte, Joaquim Ganhão fez pela vida e frequentou em Estremoz o curso de cabos:

– Fui o segundo melhor classificado. Quando embarquei para África, em Julho de 1963, já era 1º cabo da minha Companhia, a CCAV 489.


Baptismo de fogo no Oio-Morés

Até àquela data, o pedreiro de Moura não tinha posto os pés num navio, e em matéria de cursos de água só conhecia os mansos rios Ardila e Guadiana. Mesmo assim não se deu mal na jornada a bordo do Niassa:

– Tive a sorte de não enjoar, ao contrário de muitos companheiros.

 Os seis dias de viagem passou-os a dormitar nas baleeiras do Niassa, a espantar as saudades com cartas para a família e em camaradagem com o seu amigo de infância Henrique Pinto, outro militar mourense em trânsito para a Guiné.

Chegados a Bissau em plena estação das chuvas, são alojados no quartel da Amura, um antigo entreposto de escravos. O clima doentio surpreende-os desde logo:

–  Era diferente de tudo o que conhecíamos. Com a humidade, a roupa colava-se-nos ao corpo. Só estávamos bem debaixo do chuveiro. De vez em quando, caíam trovoadas que metiam medo.

Outro motivo de espanto é a pobreza do território. Com poucos ou nenhuns recursos naturais, sem núcleos urbanos desenvolvidos, a Guiné era a peça menos valiosa do império português e, como tal, a mais desprezada por Lisboa. Ganhão sublinha “a miséria das populações, as filas de mulheres e crianças com latas, à espera que lhes dessem alguma comida”.

A guerra aberta na Guiné principiou em 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, embora desde 1961 se registassem actos de sabotagem levados a cabo pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Bem armada, apoiada por países fronteiriços como a Guiné-Conacri e o Senegal, a guerrilha alastra pelo território guineense como um regueiro de pólvora. A companhia do 1º cabo Joaquim Ganhão recebe o baptismo de fogo no Norte da colónia:

–  Fomos render uma companhia que se encontrava em Mansabá. Aí sofremos uma emboscada nocturna, na zona do Oio-Morés, que por ser muito pantanosa e de acesso difícil era um bom refúgio para os guerrilheiros.

Joaquim Ganhão lembra-se que a noite estava escura e a mata era cerrada:

– Ia à frente da minha companhia, quando senti o encosto de uma arma. O guia deu o alarme, eu comecei a disparar no escuro e a correr pelo capim, como um doido. Quando as coisas acalmaram e a companhia se reorganizou, deparo com um guerrilheiro a apontar-me uma pistola-metralhadora. Tentou atirar, mas, felizmente para mim, a arma estava encravada.

O soldado 328 captura o homem, apreende-lhe a metralhadora e três carregadores de munições:

–  O guerrilheiro chamava-se Albino Sampa. Mais tarde cheguei a ir visitá-lo à cadeia, em Bissau.

O melhor desta aventura acabou por ser o prémio de um mês de licença na Metrópole  [Prémio Governador da Guiné].

– Quando me deram a notícia, ia ficando maluco de alegria. O pior foi que a minha família, quando soube que eu estava em Lisboa, pensou que estava todo partido... Só descansaram quando a minha irmã me foi buscar a Estremoz e viram que estava bem de saúde.



Tridente da morte


Mas a emboscada no Oio-Morés foi uma brincadeira, comparada com o que veio a seguir. O Batalhão de Cavalaria 490, e com ele Joaquim Ganhão, foi um dos participantes na operação Tridente, uma das mais aparatosas ofensivas portuguesas na Guerra Colonial. 

Denominada Tridente porque envolvia a marinha, o exército e a força aérea, a operação visava ocupar as ilhas do Como, Caiar e Catunco, no Sul da Guiné, onde os combatentes do PAIGC dispunham de importantes bases. Ali se movimentava o astuto comandante 'Nino' Vieira, formado nas técnicas da guerrilha pela Academia Militar de Pequim, que teria no Como cerca de 300 homens, incluindo militares da Guiné-Conacri.

Um dos objectivos da missão consistia em conquistar o apoio da população das ilhas, que os guerrilheiros controlavam:

– Em todas as tabancas (aldeias tradicionais) do Como, se viam retratos de Amílcar Cabral  – observa Joaquim Ganhão.

A operação Tridente iniciou-se em 15 de Janeiro de 1964. O 1º cabo Ganhão só soube o que o esperava quando se viu a bordo de uma lancha LDM, dos fuzileiros. Através das bolanhas, ladeadas por uma vegetação densa e asfixiante, o tarrafo, a CCAV 489, comandada pelo capitão Pato Anselmo, avançou até à ilha de Catunco. Ganhão permaneceu ali mais de dois meses, “entrincheirado num buraco, juntamente com dois companheiros, agarrados às G3, com as balas do inimigo a passarem-nos rente”. Quem disparava?

– Nenhum de nós sabia. Os tiros vinham da mata, onde os guerrilheiros estavam bem escondidos . 

Por isso, sair do buraco só em último caso:

– Tínhamos o exemplo de um companheiro que se levantou para beber uma pinga de água e foi atingido por um tiro no queixo.

Quando se iniciou a segunda fase da operação, foi necessário deixar os abrigos e patrulhar as ilhas:

– Saíamos aos ziguezagues, em grupos de três. Depois deitávamo-nos ao chão e saíam outros três. E isto sempre aos tiros. 

Foi numa destas acções que Joaquim Ganhão perdeu o seu amigo Henrique Pinto, o primeiro militar de Moura a tombar na guerra [em 24 de Janeiro de 1964].


– O Henrique, que pertencia à CCAV 487, seguia numa patrulha, formada em leque. Ele, que estava numa das pontas, avançou demais e foi capturado, às três da tarde do dia 24 de Janeiro. [de 1964].

Ganhão e outros tinham ido buscar mantimentos à base logística da operação, instalada numa praia. Aí viu chegar um helicóptero com o cadáver de Henrique, resgatado pelos fuzileiros. O choque foi terrível. Quarenta anos passados, ainda hoje a voz de Ganhão se embarga quando fala do caso:

– Podia ter sido eu. Tive sorte, não calhou.

Os aviões F-86 e T-6 flagelavam as matas do Como com napalm, as granadas explodiam a toda a hora, mas os resultados práticos da operação tardavam em ver-se. A única evidência era o sofrimento dos militares portugueses:

–Bebia-se qualquer água e a alimentação resumia-se a rações de combate – conta o 1º cabo Ganhão –.  Comemos carne fresca uma única vez, quando os fuzileiros abateram algumas vacas. 

Não admira que durante a operação Tridente 193 militares tenham sido retirados do teatro de guerra, por motivo de doença.

Setenta e um dias depois, a missão é considerada finda. As estatísticas apontavam 76 guerrilheiros mortos, 15 feridos e 9  detidos. Do lado português contaram-se 9 mortes e ferimentos em 47 soldados. Foram disparadas 124 mil balas, 1200 granadas de artilharia e 550 granadas de morteiro. 

Os militares aliviaram a tensão consumindo 15 500 garrafas de cerveja e fumando 10 100 maços de tabaco. Números que não maquilham o insucesso da operação. A última palavra pertenceu à guerrilha, que continuou a servir-se do Como, só abandonando a região quando os seus interesses se transferiram para outros locais.




Moura > Placa toponímica > Rua Henrique José Pinto > 10 de Abril de 2010 > Natural da freguesia de Santo Agostinho, o 1º Cabo At Henrique José Pinto, da CCav 487 / BCav 490, morreu em combate, na ilha do Como, em  24 de Janeiro de 1964, no decurso da Op Tridente. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Bissau.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


Cruz de Guerra no 10 de Junho [de 1966]


Depois de intervir na Tridente, a CCAV 489 é destacada para o Norte:

 – Fomos para junto da fronteira com o Senegal, com o objectivo de dificultar as entradas e saídas dos guerrilheiros e das forças que os apoiavam.

Joaquim Ganhão andou por Cuntima, Farim, Bula, Bafatá, Mansoa. Porém, antes de pensar em fiscalizar o que quer que fosse, era preciso construir as bases necessárias ao estacionamento de tropas. Na Guiné, como na generalidade das vastas colónias portuguesas, faltavam aquartelamentos, vias de comunicação e demais infra-estruturas.

Por outro lado, no caso específico do Norte da Guiné, tornava-se necessário atrair e organizar a população que tinha cruzado a fronteira do Senegal, fugindo à guerra. Os soldados da 489 ajudavam à reconstrução de tabancas, construíam abrigos, “à mão, sem a ajuda de quaisquer máquinas”, de valas em redor dos quartéis e outras infra-estruturas defensivas, muitas vezes debaixo de fogo. Quando empunhavam a G3, vigiavam a fronteira e montavam as suas emboscadas. A tropa “saía por volta da meia-noite. Então víamo-los passar, a pé, outras vezes de bicicleta”. Nessas alturas, “a fuzilaria era tanta que nem os raios das bicicletas se aproveitavam.”

As normas da altura determinavam que o tempo de serviço militar era de 24 meses. Todavia, muitos militares excediam, contra vontade, este período. Às vezes morriam em África, quando, segundo a lei, já deviam estar em Portugal. Joaquim Ganhão lembra um episódio ocorrido em Bula, com uma companhia de caçadores que já tinha atingido os 27 meses de comissão:

–  Por sermos mais novos, a nossa companhia seguia atrás deles, numa deslocação pelo mato. De repente, caem numa emboscada. Recordo-me que os guerrilheiros tinham cortiços de abelhas em cima de árvores; cortavam as cordas e os cortiços caíam em cima dos soldados. Com este truque e com o tiroteio, morreram dois ou três caçadores. Que já não deviam estar na Guiné, porque já tinham cumprido o seu tempo.

Ganhão teve mais sorte. Regressou a Moura em Setembro de 1965, são e salvo. Um ano depois, já casado, recebeu em Évora, nas cerimónias do 10 de Junho de 1966, a Cruz de Guerra de terceira classe, pelo seu desempenho na Guiné. Quarenta anos depois, Joaquim Ganhão, mestre de construção civil, pai de duas filhas, olha para trás com serenidade:

- É bom que se diga que fui para a Guiné obrigado. Tínhamos que livrar o corpo, para não morrer. Foi o que eu fiz. Estimo muito a Cruz de Guerra, mas lamento que além da medalha ninguém me tenha compensado pelos dois anos de vida que perdi.


Manhas de soldado

Nem sempre o soldado 328 estava disposto a dar o corpo ao manifesto. Um enfermeiro amigo livrou­-o de uma ou outra incursão, atestando que Joaquim Ganhão não se encontrava a cem por cento. “Eram manhas típicas da guerra”, recorda. O truque nem sempre resultava:

– Aconteceu quando tive que substituir um furriel, que tinha cegado com o rebentamento de uma granada. Uma noite em que me chamaram para uma operação, pedi ao Fernando, o enfermeiro, que me desse uma ou duas injecções. Ele assim fez. Passei a estar doente, incapacitado para qualquer missão. Mas o alferes que devia chefiar a missão não engoliu o truque. Chega ao pé de mim e diz-me: ‘Tu está tão doente como eu! Levanta-te da cama, que o pessoal está todo à tua espera’. E lá fui, mesmo com duas injecções.


A Guerra Colonial e o 25 de Abril

O desgaste que a guerra provocou nas forças armadas portuguesas e a ausência de soluções pacíficas para a questão colonial, contam-se entre as principais motivações do 25 de Abril. Treze anos de confrontos exigiram o destacamento de 70 mil homens para Angola, 42 mil para a Guiné e 57 mil para Moçambique.

Segundo a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de de África (1961-1974), registou-se um total de 8 290 mortos, nas três frentes de batalha. A este número há a juntar 112 000 feridos, dos quais 30 mil terão sofrido deficiências para toda a vida, e perto de 100 mil vítimas do stresse de guerra.

Este factor conjugou-se com uma série de transformações na instituição militar, ditadas pelo esforço de guerra. A falta de capitães para o comando de companhias levou o Governo a recorrer a oficiais milicianos, para postos normalmente ocupados por militares de carreira. Facilitou-lhes o ingresso na Academia Militar, reduziu a duração dos cursos e criou um “quadro especial de oficiais”. Por um lado, esta situação refrescou as fileiras das forças armadas, mas gerou tensões e conflitos entre milicianos e oficiais oriundos de cadetes da Academia Militar.

A gota de água acabou por ser o famoso Decreto 353/73, de 13 de Julho, que introduziu diversas alterações ao nível da antiguidade na carreira das armas. Os protestos levam o Governo a recuar, publicando um outro diploma que protege os interesses dos oficiais superiores e põe em causa os dos capitães. O avolumar da contestação, a que se junta, naturalmente, a oposição ideológica entre militares e governantes, e as aspirações de liberdade dos primeiros, está na génese do Movimento dos Capitães, que desencadeou o 25 de Abril.

(Seçeção, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)

(Os subtítulos são da responsabilidade do jornalista)

2. Cruz de Guerra de 3º Classe

1.° Cabo de Cavalaria, nº 328/63
JOAQUIM JOSÉ MOITA GANHÃO
CCav 489/BCav 490 - RC 3

GUINÉ

3ª  CLASSE

Transcriçâo da Portaria publicada na O.E. Nº 16 - 3ª série,de 1964.
Por Portaria de 05 de Maio de 1964:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3ª classe, o militar a seguir designado, ao abrigo dos artigos 9´º  e 10º  do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província
da Guiné Portuguesa:

O Primeiro-Cabo, Joaquim José Moita Ganhão, nº 328/63, da Companhia de Cavalaria nº 489 / Batalhão de Cavalaria nº 490 - Regimento de Cavalaria nº 3.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Publicado na OS n.o 3, de 07 de Janeiro de 1964, do CTIO):

Louvado, o 1º Cabo nº 328/63, Joaquim Moita Ganhão, da CCav 489, porque,  além das boas qualidades militares do antecedente reveladas no serviço e que fazem com que se distinga como graduado dentro do seu Pelotão, na operação levada a cabo pela Companhia na região de Morés, teve ocasião de demonstrar grande espírito de disciplina e serenidade perante o perigo que, junto da povoação de Cai, culminou na prontidão e sangue frio como encarou de noite, indo à frente, um grupo de onze terroristas fortemente armados, dos quais pôs um fora de combate com a apreensão de uma
pistola-metralhadora e três carregadores cheios de munições que a este pertenciam.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1962-1965). Lisboa, 1991, pág. 332.
 
________


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Guiné 61/74 - P23783: Fichas de unidades (28): BCAV 490 (Bissau e Farim), CCAV 487 (Farim), CCAV 488 (Jumbembem), e CCAV 489 (Cuntima), 1963/65


(Tem 117 referênias no nosso blogue)

Identificação BCav 490

Unidade Mob: RC 3 - Estremoz

Cmdt: TCor Cav Fernando José Pereira Marques Cavaleiro

2.° Cmdt: Maj Cav Alexandre António Baía Rodrigues dos Santos | Maj Cav Raul Augusto Paixão Ribeiro

OInfOp/Adj: Cap Cav Domingos Vilas Boas de Sousa Magalhães

Cmdts Comp:

CCS: Cap Cav Luís Augusto Rodrigues de éarvalho | Cap Cav Luís Alberto Paço Moura dos Santos | Cap Cav João Luís Moreira Arriscado Nunes | Cap Cav Manuel Correia Arrabaça
Cap SGE António Joaquim Marques

CCav 487: Cap Cav António Varela Romeiras Júnior | Cap Cav Rui Gonçalves Soeiro Cidrais

CCav 488: Cap Cav Fernando Manuel Lopes Ferreira | Cap Cav Manuel Correia Arrabaça | Ten Cav Lourenço de Carvalho Fernandes Tomás

CCav 489: Cap Cav António Ferreira Cabral Pais do Amaral | Cap Cav João do Nascimento de Jesus Pato Anselmo |  Cap Mil Cav António Tavares Martins

Divisa: "Sempre em frente"

Partida: Embarque em 17Ju163; desembarque em 22Jul63 | Regresso: Embarque em 12Ago65

Síntese da Actividade Operacional

Após o desembarque, permaneceu em Bissau em função de intervenção, com duas subunidades em reforço do BCaç 512, a partir de 2ago63, por rotação, a fim de actuarem intensivamente na região de Óio-Morés e Mansoa.

De 14jan64 a 24mar64, assumiu o comando das forças terrestres da  Op Tridente, realizada nas ilhas de Como, Caiar e Catunco, reforçado com outras subunidades, incluindo fuzileiros especiais e paraquedistas.

Em 23mai64, seguiu para Farim a fim de preparar a organização, deslocamento e instalação das forças no Sector C3, mais tarde, Sector 02, então criado e cuja área se encontrava incluída do antecedente na zona de responsabilidade 
do BCaç 512. 

Em 31mai64, assumiu a responsabilidade completa do referido sector, com a sede em Farim que abrangia os subsectores de Cuntima, Jumbembém, Bigene e Farim e a partir de 29jun64 o de Binta, então criado.

Em 25mar65, instalou forças para ocupação da povoação de Canjambari, no seu sector, tendo as suas subunidades ficado integradas no seu dispositivo e
manobra do Batalhão, a partir de 31Mai64.
 
O batalhão continuou a desenvolver assinalável actividade operacional de reconhecimentos, emboscadas, batidas, abertura e protecção dos itinerários e
acções sobre grupos inimigos.

Destacam-se, pelas baixas causadas e pela captura de bastante armamento e outro material, as operações "Jocoso", "Vouga" e "Invento", entre outras.

Dentre o armamento capturado mais significativo, destaca-se uma metralhadora
ligeira, 19 pistolas-metralhadoras, 36 espingardas, 10 minas e 9145 munições de armas ligeiras.

Em 15Jun65, foi rendido no Sector 02 pelo BArt 733 e recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso, tendo ainda destacado nesse período alguns efectivos das suas subunidades para segurança e protecção dos meios de travessia do rio Cacheu, em S. Vicente.

***


A CCav 487, enquanto na função de intervenção, foi empregada em diversas operações nas regiões de Encheia, Fajonquito, Bissorã e Morés, em reforço de outros batalhões e, integrada no seu batalhão, na Opperação Tridente, atrás referida.

Em 11Mar64, seguiu para Farim a fim de substituir a CArt 640 na função de subunidade de intervenção e reserva do sector, inicialmente na dependência do BCaç 512 e depois do seu batalhão. 

Em 15Ju165, após curto período na dependência do BArt 733, foi substituída em Farim pela CArt 731 e recolheu então a Bissau a fim de se integrar novamente no seu Batalhão até ao embarque de regresso.

***

A CCav 488, enquanto na função de intervenção, foi empregada em diversas operações nas regiões de Mansoa, Cutia, Bissorã e Morés, em reforço do BCaç 512 e, integrada no seu batalhão, na Op Tridente atrás referida.

Após deslocamento por Bafatá, Cambajú, Canhamina e Sitató, ocupou e instalou-se em Jumbembém em 31mai64, assumindo a responsabilidade do espectivo subsector e ficando integrada no dispositivo e manobra do seu
batalhão.

Em 06Jun65, foi rendida pela CArt 730, tendo recolhido seguidamente a Bissau com o seu batalhão e onde se manteve até ao seu embarque de regresso.

***


A
 CCav 489, enquanto na função de intervenção, foi empregada, com base emMansabá, em diversas operações efectuadas nas regiões de Mansabá, Bissorã e Morés, em reforço do BCaç 512 até 27dez63 e, integrada no seu Batalhão, na
Op Tridente,  atrás referida, tendo ainda sido atribuída temporariamente
ao BCaç 236 e depois ao BCaç 600 para colaborar na segurança e protecção das
instalações da área de Bissau, de 03Set63 a 210ut63, a fim de colmatar a saída
da CCaç 154.

Após deslocamento conjunto com a CCav 488 até Sitató, instalou-se em Cuntima em 31mai64, onde substituíu forças da CCaç 461 e da 1ª CCaç, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector, então criado e ficando integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 6jun65, foi rendida pela CArt 732, tendo recolhido seguidamente a Bissau com o seu batalhão e onde se manteve até ao seu embarque de regresso.

Entretanto, a partir de 13jun65, dois pelotões estiveram temporariamente deslocados em Bula, em reforço do BCav 790, por períodos de 10 a 15 dias, com
vista à realização de patrulhamentos e contactos com as populações da região de
S. Vicente.

Observações  - Tem História da Unidade (Caixa n." 127 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 253/255


Imagens: Cortesia de Coleção de Brasões, Guiões e Crachás de Carlos Coutinho (2009)
________

Nota do editor:

Último poste da série > 17  de outubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23714: Fichas de unidades (27): 1.ª CCAÇ/CCAÇ 3 (Bissau, Nova Lamego, Farim, Barro, Guidaje, Bigene, 1961/74)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21404: Memórias cruzadas: relembrando os 24 enfermeiros do exército condecorados com Cruz de Guerra no CTIG (Jorge Araújo) - Parte I

Foto nº 5 – Guiné > Região de Bafatá >Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) > Finete > Elementos da 1.ª secção do 2.º Gr Comb da CCAÇ 12 , num patrulhamento ofensivo ao Mato Cão, para montagem de segurança à navegação do rio Geba Estreito > 

"Eu à esquerda, na primeira fila, com a mala de primeiros socorros, e a minha G-3 (nunca usei pistola), com malta de da 1ª secção do 2º Gr Comb, da CCAÇ 12. Além do Arménio Monteiro da Fonseca [, que vive no Porto, em Campanhã], a secção era composta por: (i) soldado arvorado Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7); e ainda os sold Samba Camará, Iéro Jaló, Cheval Baldé (Ap LGFog 8,9) [, à direita do Arménio), Aruna Baldé (Mun LGFog 8,9) [, à minha esquerda], Mamadú Bari, Sidi Jaló (Ap Dilagrama) (FF) [, dado como tendo sido fuzilado depois da independência], Mussa Seide, e Amadú Camará, todos fulas ou futa-fulas. Desta vez, também, a secção, o fur mil arm pesa inf Henriques [, o nosso editor, Luís Graça], de óculos escuros, ao lado do Arménio". (*)

Foto (e legenda): © Fernando Andrade Sousa (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 
 .

Foto nº 1 > Lisboa > s/d [ c. 1880-1890] > Formatura de pessoal e material sanitário militar.

[In; Revista Militar n.º 2544, Janeiro de 2014, p12 (pdf) do Artigo do TCor Med Rui Pires de Carvalho "Factos relevantes da Saúde Militar nos últimos 200 anos"], com a devida vénia.



 

Foto nº 2 – Guiné > Bissau > Hospital Militar 241 > s/d > Entrou em funcionamento em 16 de Agosto de 1961 (4.ª feira).

Fonte: CECA, 7.º Vol, pp 679/680 e foto: Carlos Cardoso; P1578, com a devida vénia.

 

Foto nº 3 – Guiné-Bissau > Bissau > Novembro de 2000  > Ruínas do Hospital Militar 241, em Bissau. Foi entregue ao PAIGC em 12 de Outubro de 1974 (sábado). 

Fonte: CECA, 7.º Vol, pp 679/680 e foto: Alberto Costa (Nov2000), com a devida vénia.


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Bissau > s/d > Ruínas do Hospital Militar 241 (de 1961 a 1974). Depois passou a chamar-se "Hospital 3 de Agosto". 

Fonte: https://triplov.com/guinea_bissau/guine-bissau/index.htm com a devida vénia.



O nosso coeditor Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger,CART 3494 (Xime e Mansambo, 1972/1974), professor do ensino superior; vive em, Almada: acaba de regressar de Abu Dhabi, Emiratos Árabes Unidos, onde foi "apanhado" durante vários meses pela pandemia de Covid-19; tem mais de 260 registos no nosso blogue... e já está a preparar o próximo ano letivo, que não vai ser fácil paar ninguém: professores, e demais pessoal da conunidade escolar: pessoal não docente,alunos, pais e encarregados de educação, etc. Espera que este ano lectivo (2020/21) seja o último, antes de se reformar.


MEMÓRIAS CRUZADAS

NAS "MATAS" DA GUINÉ (1963-1974):

RELEMBRANDO OS QUE, POR MISSÃO, TINHAM DE CUIDAR DAS FERIDAS CORPOREAS PROVOCADAS PELA METRALHA DA GUERRA COLONIAL: «OS ENFERMEIROS» 

OS CONTEXTOS DOS "FACTOS E FEITOS" EM CAMPANHA DOS VINTE E QUATRO CONDECORADOS DO EXÉRCITO COM "CRUZ DE GUERRA", DA ESPECIALIDADE "ENFERMAGEM"

PARTE I 



1. - INTRODUÇÃO


Não sendo possível comparar o que é incomparável – a Guerra Colonial / Guerra do Ultramar / Guerra de África  (1961-1974) e a Expressão Pandémica do Covid-19 (2020) – encontrei no âmbito da segunda situação, nomeadamente em quase todas as manifestações espontaneamente organizadas por grupos de cidadãos e divulgadas nos media, uma forma de homenagear os profissionais que trabalham na áreas da saúde, homens e mulheres, por estes se terem colocado na "linha da frente" do combate à actual ameaça, de natureza viral, com que a saúde pública mundial se viu/vê confrontada, desde o início do presente ano.


Por ser verdade, inspirei-me nestas últimas manifestações de carinho e gratidão que acima relevo, para recordar, também, a importância e o importante papel (insubstituível) desempenhado pelos nossos camaradas da "saúde militar" (e igualmente dos civis/população local) – médicos e enfermeiros – na missão de socorrer todos os que deles necessitassem, quer em situação de combate, quer noutras ocasiões de menor risco de vida (medicina geral), mas sempre a merecerem atenção e cuidados especiais. [Vd. foto nº 5, acima]


Neste novo trabalho de investigação (**), dividido por fragmentos, procuramos descrever cada um dos contextos em campanha, que na fita do tempo tem mais de meio século, analisando "factos" e "feitos" (os encontrados na literatura) dos seus actores directos "especialistas de enfermagem", onde cada caso acabaria por influenciar a Chefia Militar na argumentação para um "louvor" e que se transformaria, depois, em "condecoração" com «Cruz de Guerra», maioritariamente de 3.ª e 4.ª Classe.


Na construção das narrativas, a principal fonte de consulta foi a documentação oficial do Estado-Maior do Exército, elaborada pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974), abaixo designada pelo acrónimo  "CECA".


Divisa: "Entre os braços dos serviços de saúde "



2. - SUBSÍDIO HISTÓRICO DO HOSPITAL MILITAR 241 (BISSAU)


Tendo por Divisa "Inter Arma Medicina", o Hospital Militar 241, em Bissau, iniciou a sua actividade em 16 de Agosto de 1961 (4.ª feira), sob a direcção clínica do Major Médico José Libertador Ferraz Pereira Monteiro. A missão era de dois anos.


Com início em 16 de Dezembro de 1968, entrou em vigor a figura de Subdirector do Hospital Militar, sendo este lugar ocupado, então, pelo Capitão Médico Ernesto Mendes Ferrão.


Como elemento estatístico, entre 1961 e 1974, período considerado na historiografia militar como o da Guerra Colonial, só pelo Exército foram mobilizados, para os três TO, cerca de 1.100 [mil e cem] Médicos Milicianos, permitindo uma experiência técnica adicional e ímpar. 


O HMP, em particular, teve grande incremento e desenvolveu capacidades e prestígio: Cirurgia Plástica, Fisiatria e Neurocirurgia, entre outras. 


[Fonte: https://www.revistamilitar.pt/artigo/113. 


2.1 - SÍNTESE DA ACTIVIDADE OPERACIONAL


O Hospital Militar 241 [HM 241] foi criado a partir do Destacamento Sanitário/Equipa Cirúrgica, anteriormente mobilizada pelo 1.º GCS [Grupo de Companhias de Saúde, em Lisboa]. O seu desembarque em Bissau ocorreu por fracções, entre 08 de Junho de 1961 e 05 de Julho de 1961.


Em 14 de Junho de 1972, a sua designação foi alterada para Hospital Militar de Bissau, por despacho ministerial de 19Mai72, com aprovação concomitante de novos quadros orgânicos.


Desenvolveu as acções de hospitalização de todas as categorias de indisponíveis, realizando o seu tratamento definitivo ou preparando para ulterior evacuação os que dela necessitassem. 


Atingiu a capacidade de 250 camas e dispôs de serviços especializados de cirurgia geral, ortopedia, oftalmologia, otorrinolaringologia, análises clínicas, radiologia, estomatologia, dermato-venerologia, reanimação e sangue, fisioterapia, psiquiatria, medicina geral e cardiologia.


Dispôs ainda de equipas itinerantes de cobertura estomatológica, orientou a profilaxia antipalúdica e ministrou instrução de formação de maqueiros e auxiliares de enfermagem, tendo colaborado também com os serviços de saúde civis na assistência à população.


Após chegada dos primeiros elementos do PAIGC, a partir de 04Set74, para recepção dos serviços, o Hospital Militar de Bissau [HMB] foi entregue em 12Out74, sendo portanto extinto. (Ceca; 7.º Vol., pp 679-680), [Vd.  fotos, acima, nºs 1, 2, 3 e 4]


 

3.   - OS CONTEXTOS DOS "FEITOS" EM CAMPANHA DOS MILITARES DO EXÉRCITO CONDECORADOS COM "CRUZ DE GUERRA", NO CTIG (1963-1974), DA ESPECIALIDADE DE "ENFERMAGEM" - (n=24)

 





Nota: A descrição de cada caso seguirá a ordem estruturada no quadro supra.

 

3.1        - FRANCISCO GONÇALVES MOREIRA, 1.º CABO MAQUEIRO DA CCAÇ 152, CONDECORADO A TÍTULO PÓSTUMO COM A MEDALHA DE PRATA DE VALOR MILITAR, COM PALMA


A primeira ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração (a título póstumo) a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército aconteceu quatro dias após o início do conflito armado, tendo por origem uma emboscada sofrida por um Gr Comb da CCAÇ 152, entre Bichalá e Budom (ver mapa abaixo).


► Histórico



 

◙ Fundamentos relevantes para atribuição da Condecoração


"Pelo seu acto valoroso de abnegação, camaradagem e desprezo pela vida, que me apraz registar e enaltecer, aponto-o como exemplo vivo de todo o soldado português" – Joaquim da Luz Cunha [Faro, 1914-?], Ministro do Exército [de 4 de Dezembro de 1962 a 7 de Agosto de 1968].





▬ Portaria de 26 de Novembro de 1963:


"Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar a título póstumo, com a Medalha de Prata de Valor Militar, com palma, nos termos do parágrafo 1.º do art.º 51.º, com referência ao art.º 7.º, do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, o 1.º Cabo Maqueiro, n.º 264/60, Francisco Gonçalves Moreira, da Companhia de Caçadores 152 [CCAÇ 152], Regimento de Infantaria n.º 8, porque, na Guiné Portuguesa, numa emboscada sofrida [a 27Jan63, em Bichalá] por um Pelotão na região de Budom, em que tombou ferido pelo inimigo o seu comandante de Secção [Abílio Monteiro de Brito, Fur Mil Inf], num acto valoroso de abnegação, extraordinária coragem e com risco da própria vida, progrediu debaixo de fogo intenso para o socorrer e, quando já o segurava em seus braços, veio também a morrer." (CECA; Vol. 5, Tomo I, p 210). (Os seus corpos não foram recuperados).

 

◙►CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA


Em 27 de Janeiro de 1963 (domingo), quatro dias após o ataque ao Aquartelamento de Tite, um Gr Comb da CCAÇ 152 efectuou uma das primeiras acções militares realizadas no território da Guiné, executando um golpe de mão sobre um acampamento temporário instalado na região de Budom (Bichalá), a norte de Chugué. 


Durante a missão, o mesmo Gr Comb, do qual fazia parte o 1.º Cabo Maqueiro, Francisco Gonçalves Moreira, sofreu uma emboscada vindo a tombar quando socorria o seu comandante de Grupo, o Furriel Miliciano de Infantaria, Abílio Monteiro de Brito. Os seus corpos não foram recuperados. (CECA; 7.º Vol. Tomo II, p 308).




3.1.1    - SUBSÍDIO HISTÓRICO DA COMPANHIA DE CAÇADORES 152

= BUBA - CACINE - ALDEIA FORMOSA - GADAMAEL - SALTINHO - BISSAU (1961-1963)


Mobilizada pelo Regimento de Infantaria 8 [RI8], de Braga, a Companhia de Caçadores 152 [CCAÇ 152], embarcou em Lisboa, em 28 de Julho de 1961, 6.ª feira, por via aérea, sob o comando do Capitão de Infantaria Carlos Alberto Blasco Gonçalves, rumo à Guiné (Bissau), onde chegou no mesmo dia.


3.1.2    - SÍNTESES DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CCAÇ 152


Após a sua chegada a Bissau, a CCAÇ 152 foi colocada em Buba, a fim de substituir a 4.ª CCAÇ, com dois Grs Comb destacados em Cacine e Aldeia Formosa e secções em Gadamael e Saltinho, sendo integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 237 [25Jul61-19Out63; do Maj Inf António Tavares de Pina e TCor Inf Carlos Barroso Hipólito], e orientando a sua actividade para acções de soberania, segurança e controlo das populações, procurando impedir a instalação do inimigo na área.

Em 30Abr63, foi substituída em Buba pela CCAÇ 411 [09Abr63-29Abr65; do Cap Inf João Gomes do Amaral], sendo colocada em Bissau a fim de integrar o dispositivo do BCAÇ 236 [25Jul61-19Out63; do TCor Inf José Alves Moreira], com vista a garantir a segurança e protecção das instalações e das populações da área, colmatando a saída anterior da CCAÇ 84 [09Abr61-12Abr63, do Cap Inf Manuel da Cunha Sardinha e Cap Mil Inf Jorge Saraiva Parracho]. 


Em 18Out63, foi rendida em Bissau pela CART 565 [18Out63-27Out65; do Cap Art Luís Manuel Soares dos Reis Gonçalves], a fim de efectuar o embarque de regresso, ocorrido em 19 de Outubro de 1963, a bordo do N/M «Ana Mafalda» (CECA; op. cit., p. 308).




3.2   - ADOZINDO CARVALHO DE BRITO, 1.º CABO AUXILIAR DE ENFERMEIRO DA CCAV 489, CONDECORADO A TÍTULO PÓSTUMO COM A CRUZ DE GUERRA DE 1.ª CLASSE  


A segunda ocorrência a merecer a atribuição de uma condecoração (a segunda a título póstumo) a um elemento dos «Serviços de Saúde» do Exército aconteceu durante a «Operação Adónis B-3», realizada na região do Morés (ver mapa abaixo).


► Histórico


 

◙ Fundamentos relevantes para a atribuição da Condecoração


▬ Portaria de 05 de Maio de 1964:


"Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe, ao abrigo dos artigos 9.º e 10.º do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província da Guiné Portuguesa: A título póstumo, Primeiro-Cabo auxiliar de enfermeiro, Adozindo Carvalho de Brito, n.º 1826/62, da Companhia de Cavalaria 489 [CCAV 489] – Batalhão de Cavalaria 490, Regimento de Cavalaria n.º 3."


● Transcrição do louvor que originou a condecoração:


"Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, adoptar para todos os efeitos legais, o seguinte louvor, conferido a título póstumo, em Ordem de Serviço n.º 24, de 29 de Dezembro de 1963, do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné Portuguesa, ao Primeiro-Cabo, auxiliar de enfermeiro, Adozindo Carvalho de Brito, n.º 1826/62, da Companhia de Cavalaria 489 [CCAV 489] – Batalhão de Cavalaria 490, Regimento de Cavalaria n.º 3:


Porque numa acção de fogo na região de Morés [«Operação Adónis B-3», em 02/03Nov63], na qual tomou parte o Grupo de Combate a que pertencia, abnegadamente se dirigiu à frente, debaixo de intenso fogo inimigo, a fim de fazer curativos a um seu camarada ferido, o que executou com prontidão, desprezo pelo perigo e risco da sua própria vida, após o que foi por sua vez gravemente atingido por ferimentos que lhe vieram a causar a morte.


A par da sua grande coragem, manteve até ao fim elevado moral e espírito de sacrifício, tendo desta forma honrado da melhor maneira a Companhia de Cavalaria a que pertenceu [CCAV 489], cujo pessoal, oficiais, sargentos e praças, jamais poderão esquecer o dignificante exemplo dado por este Primeiro-Cabo auxiliar de enfermeiro, em circunstâncias tão difíceis." (CECA; Vol. 5. Tomo II, p 331).





◙► CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA


Após o desembarque em Bissau, verificado em 22Jul63, o comando do BCAV 490 e as suas três unidades de quadrícula (CCAV's 487, 488 e 489), ficaram inicialmente instaladas na Capital, como forças de intervenção. A partir de 02Ago63, duas dessas subunidades passaram a actuar intensivamente na região de Óio-Morés e Mansoa, como reforço do BCAÇ 512 [22Jul63-12Ago65, do TCor Inf António Emílio Pereira de Figueiredo Cardoso].


É neste âmbito que tem lugar a «Operação Adónis B-3», cuja missão seria a entrada no acampamento IN (base) de Morés.


Assim, em 02 de Novembro de 1963, sábado, a CCAV 489 iniciou esta acção militar sob o comando do Cap Cav António Ferreira Cabral Pais do Amaral, que contou ainda com a participação do Cmdt do BCAÇ 490, TCor Cav Fernando José Pereira Marques Cavaleiro (1917-2012).


Eram 23h00, de 02Nov63, quando se deu início à «Operação Adónis B-3», com a saída de Mansabá. Durante a progressão, as forças mobilizadas foram sendo repartidas, enquanto umas emboscavam, as outras marchavam em busca do acampamento (base) de Morés. Até Cai, as NT não encontraram obstáculos. Ultrapassada esta tabanca, e quando eram cerca de 04h30, os dois elementos da frente da força abriram fogo de G-3. Progredindo encontraram um elemento IN, gravemente ferido na anca, armado com uma PM [pistola-metralhadora], que se prontificou a colaborar para o cumprimento da missão de chegar ao Morés. O outro guerrilheiro ferido em fuga foi avistado, mas a uma distância que não foi possível tentar a sua perseguição.


Na progressão foram encontradas várias munições e carregadores. Debaixo de fogo intermitente, eram 08h30 quando as tropas penetraram na "Tabanca de Morés". Aí foi encontrado um casal idoso, ele acamado e a mulher ao lado. As informações obtidas naquele momento confirmaram as anteriormente recolhidas. O acampamento situava-se junto ao caminho que de Morés conduzia a Talicó [ver infografia acima], a meio de duas bolanhas. Eram 10h00 quando um "heli" recolheu o guerrilheiro ferido. Uma hora depois chegou, também de "heli", o Comandante-Chefe, Brigadeiro Fernando Louro de Sousa. Na presença do Cmdt-Chefe, e pelas mãos de elementos da CCAV 489, foi hasteada a Bandeira Portuguesa no Morés (Imagem - CECA; 6.º Vol., Tomo II, p 122).


Depois, com a prisioneira (Mala Seidi) como guia, as tropas continuaram a progredir em direcção à "casa de mato" que se pensava ser o "Quartel-General" dos grupos que, desde Julho'63, vinham desencadeando acções contra a tropa e a população. Os guerrilheiros aguardavam-nas pacientemente. Atacadas pelos flancos, as NT reagiram com tiros de bazuca trazendo acalmia momentânea. A cada passo reacendia-se a refrega. Momentos houve, que o relatório da operação minuciosamente descreve, em que quase se combateu tiro a tiro, individualmente.


As nossas tropas tinham feridos e corpos de guerrilheiros espalhavam-se pela mata. O 1.º Cabo enfermeiro, Adozindo Carvalho de Brito, foi atingido quando estava a socorrer um soldado ferido. Os alf mil Rui Noronha Ferreira e fur mil António Covas transportaram para a rectaguarda um dos feridos mais graves. Foram 45 minutos de "inferno de fogo e sangue", até que chegaram os «T-6», de acordo com o pedido feito de intervenção sobre as zonas das casas de mato, que metralharam.


Às 16h00, o Morés é atingido, ao mesmo tempo que começaram a chegar os "hélis" para procederem à evacuação dos feridos mais graves, um dos quais o 1.º Cabo enfermeiro, Carvalho de Brito, e que, lamentavelmente, foi o único que não resistiu aos ferimentos recebidos.


O TCor Fernando Cavaleiro decidiu que se devia permanecer em Morés até ao dia seguinte. Escolheram-se os locais para as sentinelas, limparam-se alguns arbustos e improvisaram-se abrigos. Às 19h00 recomeçou o tiroteio, interrompido pela reacção das NT e recomeçando às 22h00. Elementos IN, ao abrigo da escuridão, aproximaram-se do improvisado aquartelamento e arremessaram granadas de mão. Às 01h, 02h e 03h00 os ataques foram feitos com mais força e as flagelações vinham de vários lados… numa longa noite de muitas "memórias". (…)





● Fonte: P3329 (adap.): "Breve resumo da História do BCAV 490" (Virgínio Briote).

Ø  Outras consultas sugeridas: P19993 e P20013.


 

3.2.1    - SUBSÍDIO HISTÓRICO DA COMPANHIA DE CAVALARIA 489


= MANSABÁ - ILHA DO COMO - CUNTIMA - BULA - BISSAU (1963-1965)


Mobilizada pelo Regimento de Cavalaria 3 [RC3], de Estremoz, a Companhia de Cavalaria 489 [CCAV 489] embarcou em Lisboa, a 17 de Julho de 1963, 4.ª feira, a bordo do N/M «Niassa», sob o comando do Capitão de Cavalaria António Ferreira Cabral Pais do Amaral, rumo à Guiné (Bissau), onde chegou a 22 de Julho.


3.2.2    - SÍNTESES DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DA CCAV 489


Após a sua chegada a Bissau, a CCAV 489 e o restante contingente do seu BCAV 490, ficaram provisoriamente instaladas na capital como forças de intervenção. Durante cinco meses, de 02Ago63 a 27Dez63, esteve instalada em Mansabá, onde na função de força de intervenção reforçou o BCAÇ 512, tendo participado em diversas operações na região do Óio, nomeadamente nas zonas de Mansabá, Bissorã e Morés. Neste intervalo de tempo, ainda cumpriu outra missão, tendo sido atribuída temporariamente ao BCAÇ 236 [23Jul61-19Out63, do TCor Inf José Alves Moreira], e depois ao BCAÇ 600 [18Out63-20Ago65, do TCor Inf Manuel Maria Castel Branco Vieira], para colaborar na segurança e protecção das instalações da área de Bissau, de 03Set63 a 21Out63, a fim de colmatar a saída da CCAÇ 154 [21Jun61-03Set63, do Cap Inf Fernando Barroso de Moura].


Integrada nas forças do seu Batalhão envolvidas na «Operação Tridente», que decorreu nas Ilhas de Como, Caiar e Catungo, durante o primeiro trimestre de 1964, contabilizou um novo deslocamento até Sitató, desta vez em conjunto com a "irmã" CCAV 488 [do Cap Cav Fernando Manuel Lopes Ferreira (1.º); Cap Cav Manuel Correia Arrabaça (2.º) e Ten Cav Lourenço de Carvalho Fernandes Tomás (3.º)], instalando-se em Cuntima em 31Mai64, onde substituiu forças da CCAÇ 461 [20Jul63-07Ago65; do Cap Mil Inf Joaquim Lourenço da Rocha e Santos (1.º) e Cap Inf Joaquim de Jesus das Neves (2.º)] e da 1.ª CCAÇ, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector, então criado e ficando integrada no dispositivo e manobra do seu Batalhão.


Em 06Jun65, foi rendida pela CART 732 [14Out64-07Ago66; do Cap Art Guy Stélio Pereira de Magalhães], tendo recolhido seguidamente a Bissau com o seu Batalhão e onde se manteve até ao seu embarque de regresso, verificado em 12 de Agosto de 1965. Entretanto, a partir de 13Jun65, dois dos seus Grs Comb estiveram temporariamente deslocados em Bula, em reforço do BCAV 790 [28Abr65-08Fev67; do TCor Cav Henrique Alves Calado], por períodos de 10 a 15 dias, com vista à realização de patrulhamentos e contactos com as populações da região de S. Vicente.


 

Foto nº 6 – Elementos da CCAÇ 489 (1963-1965), na curva da picada para Jumbembem - P14827, com a devida vénia. 

(Continua)

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► Fontes consultadas:

Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 5.º Volume; Condecorações Militares Atribuídas; Tomo II; Cruz de Guerra, 1962-1965; Lisboa (1991).


Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 7.º Volume; Fichas das Unidades; Tomo II; Guiné; 1.ª edição, Lisboa (2002).


Ø  Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 1; 1.ª edição, Lisboa (2001).

Ø  Outras: as referidas em cada caso.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

28Set2020


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Nota do editor:


(*) Vd. poste de 25 de abril de 2016 > Guiné 63/74 - P16011: Álbum fotográfico do Fernando Andrade Sousa, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71) - Parte I: Uma ida ao Mato Cão