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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.

Um abraço do
Mário


Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.

Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.

Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!

Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.

- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”


Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.

Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.

Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”


Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.

- Estou vingado! – rematava o Barnabé.

Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…

Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.

Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.

Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”


Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.

João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
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Notas do editor:

Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28389: Para bom observador, meia palavra basta (9): Bingo, camaradas, a resposta certa era... Mansoa!


Foto nº 1

Foto nº 2

Guiné > Região do Oio > Mansoa > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 > 1968 > O Paulo Raposo (ex-alf mil at inf., com a especialidade de Minas e Armadilhas) esteve cinco meses em Mansoa, antes de partir para a zona leste (L1), Galomaro e Dulombi, subsector de Galomaro. Aí a  CCAÇ 2405  irá perder 17 homens no desastre do Cheche, no Rio Corubal, na sequência da retirada de Madina do Boé, em 6 de fevereiro de 1969 (Op Mabecos Bravios).

Nas fotos nºs 1 e 2, ele pousa junto a duas  placa toponímicas indicando  que, por estrada, Mansoa distava 96 km de Bafatá, 52 km de Farim e 30 km de Mansabá... Na  foto nº1, a distância em relação a Bafátá é mais curta (93 km). É possível que a foto nº 2 tenhasido tirada já na estrada para Jugudul (que distava 3 km, a sul,  de Mansoa). Ou, então, mais provavelmente. no encontro, a nordeste de Mansoa, das estradas para Bissora (a noroeste) e Mansabá e Farim (a nordeste).

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT/OpenAI, 2026.  As fotos orginais, a preto e branco, são do Paulo Raposo (2006).  A nº 2 era uma mera focópia, de muito má qualidade .


Foto nº 3

Guiné > Região do Óio > Mansoa > c. 1963 > Dois VCC,  militares presumivelmente  da CCAÇ 413 (1963/65)... posando junto a uma tabuleta rodoviária,  toponímica e quilométrica, indicando diversas localidades de destino e respetivas distâncias: Encheia (18 Km), Nhacra Posto (28 Km), Bissalanca / Bissau (48 Km), Porto Gole (28 Km), Enchalé (50 Km), Bambadinca (85 Km) e Bafatá (93 Km). Foto original, a preto e branco , reproduzida com a devida  vénia do livro "Nos celeiros da Guiné", de Albano Dias Costa e José Sá-Chaves (Lisboa: Chiado Editioar, 2015).

Vários anos separam as fotos nº 1 e 3: mas nas duas persiet a gralha ou o erro de impressão do topónimo "Bissau" (sem o "u").

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital das 3 fotos: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT/OpenAI, 2026.



1. Respondendo ao desafio lançado no poste P28386 (*), a resposta correta era Mansoa... Várias leitores acertaram, ou andaram lá próximos, no blogue e na página do Facebook daTabanca Grande... Outros (nomeadamente na página do Facebook, apontaram para o Norte ou para o Sul...).

(i) Cherno Baldé:

Na minha opinião o painel estaria situado no centro do país, mais precisamente na área de Mansoa, pois a distância de Bissau a Mansoa é de, aproximadamente, 57 km; e de Mansoa a Bafatá seriam os 93 km, perfazendo assim a distância aproximada de 150 km (57 km + 93 km) de Bissau a Bafatã, embora alguns defendam que a mesma é de 154 km.

 (ii) César Dias: 

Jugudul
 
 (iii) Arur Conceição:
 
Binar

(iv) Antº Rosinha

Mansoa provavelmente.

 (v)  Jerónimo Magina

Mansoa

(vi) Emanuel Ribeiro Fernandes

Penso que a localidade mais próxima será Mansoa, onde estive várias vezes.

(vii) Lucinda Aranha

Nem me atrevo...
 
(viii) Artur Godinho Gomes

Safim
 
(ix) António Sedas

Estava na zona de Mansoa.

 (x) João Reis Melo

Aposto as moedas todas em Mansoa. Quando muito, poderia ser Jugudul mas, passo lá todos os anos e, como de Jugudul a Mansoa, são menos de 3 km... poderá ser qualquer uma delas...

(xi) José Marques

Julgo ser Mansoa.
 
(xii) Tabanca Grande Luís Graça

Bingo, é Mansoa!.. Parabéns aos camaradas e amigos que acertaram!...

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 10 de março de 2023

Guiné 61/74 - P24135: Notas de leitura (1562): "Livro de Vozes e Sombras", de João de Melo; Publicações D. Quixote, 2020 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2020:

Queridos amigos,
É um belo romance, urdidura sólida, sempre a satisfação do autor a retratar personagens, a vincar ambientes, a levar-nos com imenso prazer pelos prados de S. Miguel, a sentir o vento e a humidade. Dá um tratamento imaginativo àquilo que se designa por uma história de retornos e até de exílios. Com um bom ponto de partida, uma entrevista com um operacional lendário da Frente de Libertação dos Açores. Deplora-se que o autor imagine uma Guiné de clichés, numa atmosfera de Angola de 1961, não houve o cuidado de perguntar a alguém como era o orografia daquele terreno, senão não teríamos o falsete de um operacional dementado a querer atirar um guerrilheiro para um precipício, é mesmo não ter o cuidado de saber que naquela terra há tudo menos montanhas e abismos. Mas do mal o menos, tirando este episódio menor, mal talhado e engerocado, lê-se com imenso agrado, toda a descrição turbilhonante daquela Angola em chamas, convulsiva, de 1975, assegura páginas brilhantíssimas do que há de melhor na nossa literatura contemporânea.

Um abraço do
Mário



Um ex-operacional da Frente de Libertação dos Açores na guerra da Guiné

Mário Beja Santos

Não hesito em considerar o romance "Livro de Vozes e Sombras", de João de Melo, Publicações D. Quixote, 2020, como uma das obras mais bem conseguidas do autor de "Autópsia de um Mar de Ruínas" e "Gente Feliz com Lágrimas", tem sólida estrutura, ressuscita o período da agitação independentista nos Açores, dá-nos quadros fulgurantes, entre os melhores que a literatura portuguesa produziu sobre o fim do nosso Império, da tragédia da descolonização angolana, e estabelece um arco feliz, original, nestes diferentes passos tumultuosos. Tudo começa quando uma jornalista, umas boas décadas depois das turbulências em que se contextualizaram as atividades da FLA – Frente de Libertação dos Açores, consegue permissão para ir entrevistar um antigo operacional, de nome lendário. Aqui se inicia uma narrativa de múltiplos regressos. Não menos singular e inspirador é o modo como decorre a entrevista e a substância da mesma, o jogo de cintura entre entrevistado e entrevistadora, a importância do não dito, como igualmente, pela voz de uma cega é-nos dada uma apreciação do retorno, e poder discretear sobre o fim do Império, obrigando aquela jornalista a entender que algo havia de novo no seu trabalho: a dignidade das vítimas.

Mariano Franco, o ex-operacional da FLA, combateu na Guiné, o tema surgiu necessariamente na entrevista. Foi voluntário, quis ir defender a sua pátria de então, passou pelas Operações Especiais, esteve em Tancos, a aprender minas e armadilhas. “A pátria que fui defender à Guiné unia num todo as nossas terras ultramarinas e europeias, a História nacional, séculos carregados de obras por esse mundo fora, a luz acesa da civilização lusíada nas trevas primitivas de Catió, Bafatá, Farim e Bassorá [provavelmente o autor queria ter escrito Bissorã]”. Conheceu rios e pântanos, matou cobras e ratazanas, adoeceu de paludismo, começou a ficar louco. Confessa à entrevistadora que viu de tudo na Guiné, “pernas e braços decepados pelo rebentamento das granadas, peitos abertos e vazios como arcas arrombadas, negros degolados e com as cabeças empaladas, cadáveres sem sepultura na sua própria terra, e que dariam de comer aos crocodilos; vi mulheres esventradas que acabavam de dar a vida pelos filhos, restos humanos cobertos de enxames de moscardos, à espera dos abutres e das hienas malhadas; vi corpos despedaçados no meio da lama, olhos abertos de espanto e ainda por morrer: pareciam seguir-nos no caminho que levávamos, tal e qual os olhos dos retratos e das pinturas nos salões e nos museus. A minha loucura foi varrida pelo sopro dos canhões sem recuo nos ataques ao quartel. Aguentou o clamor, o desvario das explosões, o fogo repentino das emboscadas, capaz de resistir a qualquer massacre. Até que um dia ela, essa minha loucura, se moveu dentro de mim, entre silêncios e estrondos, para me tornar mais feroz do que tudo quanto nos feria e nos matava na guerra”.

E conta uma história, durante uma operação intersetaram gente que à cabeça carregava cestos, trouxas de roupa, sacos de farinha e arroz, decretou-se uma sentença de morte para alguns deles, era o olho por olho, dente por dente, ainda recentemente tinham tido mortos e feridos no pelotão de Mariano Franco. Bem podiam ter dado voz de prisão a uma vintena ou até um pouco mais daqueles carregadores do mato e trazê-los para Bissau, o general Spínola até podia atribuir uma condecoração, daquelas que eram dignas do 10 de junho. Mas Mariano tinha sede de sangue, estava turvado pela vindicta, ordenou que lhe reservassem um prisioneiro só para ele. O prisioneiro, um carregador do mato, dir-lhe-á, pensa ele em imaginação: “Branco colono, tuga militar, traficante de escravos, limpa-retretes do Salazar, capataz do fascismo português em África!”. E continua: "ele a tratar-me por esclavagista e por colonizador, veja, estando eu na Guiné a arriscar a vida civilizadora de tantas etnias da pretalhada: mandingas, manjacos, fulas, papéis, balantas, bijagós, felupes, uns macacos do inferno que cuspiam no prato que se lhes dava a comer!”.

E avançam para um penhasco, do cimo do qual se precipitava um barranco fundo. O prisioneiro continua a fazer frente ao torcionário, já descontrolado preparou-se para o degolar, e foi Pires, o seu guarda-costas que se atirou ao prisioneiro de catana em punho, despachou-o com uma guilhotinada na nuca. “Voou-lhe uma rodela do casco traseiro da cabeça. E empurrou-o para o abismo. O corpo guinou, deu meia volta no ar e ainda se voltou para mim, parecia que o comissário da guerrilha pretendia olhar-me uma última vez nos olhos e acusar-me do meu crime de guerra. Não sinto culpa nem remorsos de nada. A minha ideia de pátria multicontinental começou a morrer aí. E acabou de vez no meu regresso ao país anterior, não este; o que me mandou morrer e matar para defender o que nunca fora meu”. Mariano Franco guarda alguns cadernos onde fez o inventário dessa guerra que teima em não lhe sair da pele. “A minha guerra pessoal amarrei-a com uma mordaça em cinco cadernos escritos à mão. Depois de a escrever, expulsei de mim o espírito do mal que me possuíra. Pude voltar a dormir, sem pesadelos nem sonhos, sem novos regressos a África por entre suores ardentes e sobressaltos, a boca seca e as goelas a arder, com uma sede de tísico a meio da noite, e eu afinal deitado na minha cama”.

É o troço da obra de João de Melo menos inspirado, tudo aquilo é um cenário de papelão, não procurou informação condigna sobre o terreno da Guiné, senão não teria inventado aqueles precipícios e abismos que seguramente viu em Angola, quando por lá andou, e que não existem na Guiné, o que há de mais elevado é na região do Boé, umas elevações raquíticas, inadequadas à fantasmagoria que ele criou. Acresce que não há nada de novo, é uma escrita mastigada, em que se rebuscam violências, cabeças empaladas, gente sanguinária a dar com um pau. Mesmo a imagem do guerrilheiro resistente, convertido em mártir, é aqui excessivo e postiço, e João de Melo socorre-se de frases destemperadas, do género: “Tinha pela frente o meu Gungunhana, novo imperador de Gaza: tão soberbo quanto ele perante o Mouzinho ao mandá-lo sentar-se no chão, a seus pés, e ele a recusar dizendo que não se sentava. Porque não? Porque o chão estava sujo! Assim via eu esse homem à minha frente, de pé, qual feiticeiro da tribo, de rosto levantado, a olhar de alto para mim. Eram sobretudo os olhos que me desafiavam. Os olhos, os olhos. Sanguíneos, na expetativa de um desvario na cobardia dos meus atos”.

É um belíssimo romance, bom será que em novas edições este ridículo episódio guineense seja totalmente retocado para ser digno de caber num romance onde se fala de alguém que viveu as asperezas de uma vida operacional, mas sem os delírios, os precipícios e os abismos que não houve na guerra e continua a não haver no espaço físico da Guiné.

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Nota do editor

Último poste da série de 6 DE MARÇO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24123: Notas de leitura (1561): Curiosidades guineenses no fundo do baú (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 2 de março de 2020

Guiné 61/74 - P20700: Notas de leitura (1269): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, por João de Melo, 9.ª edição reescrita pelo autor; Publicações Dom Quixote, 2017 (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Fevereiro de 2017:

Queridos amigos,
São notórias as mudanças que João de Melo introduziu no seu romance dado à estampa em 1984. Onde, na primeira versão, dominavam as sequências da guerra à volta da qual se movia a exploração colonial numa atmosfera caótica de vida de sanzalas, agora há um confronto permanente entre o que se passa na guerra em geral no Norte e as suas incidências em Calambata, quartel e duas sanzalas. Nesta nova versão é o libelo anticolonial que triunfa, o destino da guerra tornara-se cada vez mais turvo.
É um livro duríssimo, a dimensão ideológica é muito mais saliente, por vontade do autor é um livro para ser amado ou detestado, a despeito dos inegáveis primores literários.

Um abraço do
Mário


Autópsia de um mar de ruínas, nova edição reescrita pelo autor (2)

Beja Santos

Importa recordar que este romance “Autópsia de um Mar de Ruínas”, de João de Melo, Publicações Dom Quixote, 2017, é uma versão reescrita daquele que foi dado à estampa em 1984. É mais encorpado e, como o autor justifica, potencia duas narrativas paralelas: “Uma centrada na ação dos militares portugueses no Norte de Angola, outra no quotidiano de medo e de miséria, na revolta silenciosa e fria, na vitimização de duas sanzalas. Numa delas vivem pessoas de distintas etnias que para ali foram desterradas sob suspeita de relação familiar ou cumplicidade com os guerrilheiros. A outra aldeia fundaram-na soldados que desertaram dos exércitos de libertação e se renderam à tropa, para com ela combater a guerrilha que se infiltrava em território angolano a partir da fronteira”.

Há que reconhecer que o texto que João de Melo reserva à atmosfera das sanzalas é muitíssimo bem elaborado, implica o leitor em ambiente africano que o autor estudou com apurado rigor: “Mamã Josefa zanga de repente. Berra para os miúdos que nada disso interessa nas pessoas que não podem ir na escola aprender as coisas que estão falar para aí. Calem-se a boca, já! Tou doente em minha cabeça. Tomara haja sempre comida para se comer e não venha a guerra na Calambata matar nas pessoas. Logo vem vavó Katuela se manifestar, com sua voz envinagrada: menino pequeno tem mesmo é de falar da boca para fora as coisas que vai aprendendo e que precisa nunca esquecer, pró bem da nossa terra e do nosso povo, ‘tá ouvir, Josefa? E fala sua infância distante, sempre na escuridão da ignorância, que nem mesmo pôde aprender nas letras do português dos brancos”.
Os meninos da sanzala vão até ao quartel na mira de arrecadar os restos do rancho, por vezes havia respostas cruéis, como a do primeiro-sargento que assolava os cães nas pernas dos cambutas, mas os meninos não desistiram: “Os miúdos iam saltar os muros baixos do refeitório, à espera dos restos da comida dos soldados. A fome que eles tinham, esses meninos! Xi, mesmo magoa o coração da gente. Barriga parecia que falava no lugar da boca, as tripas enroladas como jiboias enfurecidas. Se sobrava comida, cozinheiro Augusto, um bailundo, sipaio da tropa, procedia à distribuição: concha de sopa em cada um, uma batata, bocado de pão misturado nas latas velhas – onde que as mãos desses fulaninhos mergulhavam à pressa, pois a fome estava lhe esperar havia muitas horas”.

O furriel Gouveia percorre a cidade de São Salvador, encontrou alguém que lhe traz notícias da família, por ali deambula, e tem aqui lugar um episódio tocante:
“Sentiu à sua beira a presença de um menino perdido que o seguia e o fixava pelas costas. Devia querer pedir-lhe uma moeda. Procurou nos bolsos do dólman, e nada: não tinha trocos. Quando atentou melhor na criança, viu um rosto largo, salpicado de lama, com muito ranho no nariz. Enojado, pensou em enxotá-lo, mas suspendeu o gesto e disse-lhe:
- Tem dinheiro não, minino preto; paciência então, minino preto.
- Furrié, nosso furrié…
- Estou-te a ouvir ainda, minino preto. Diz logo.
- Não queres ir foder na minha mãe?
- Se você queres ir fodes na minha mãe, nosso furrié, vem então, que está te esperar ainda. Cinquenta escudos, é só.
- Nosso furrié, ouve ainda: se não queres mesmo ir na minha mãe, eu vou então te fazer punheta, vinte e cinco tostões o meu preço”.

É um romance em que não se dá tréguas à brutalidade: emboscadas com muitos mortos e feridos, agonizantes, muito trabalho forçado, a exploração dos preços do café, um alferes a passear-se em Luanda com um colar de orelhas ao pescoço, a destruição de sanzalas, medida punitiva, um exemplo para que os guerrilheiros não se esqueçam de que morrem homens, mulheres e crianças nos locais que os acolhem. Os guerrilheiros aparecem sobredimensionados, agressivos, fulminantes:  
“A nova ofensiva chegou na manhã do dia seguinte, à entrada para a ponte do rio Luvo. Um sopro de aço explodiu e ergueu no ar a pesadíssima ferragem da Berliet, obrigando-a a sair da picada para a orla do capim, com a dianteira destruída. Aconteceu algo de idêntico a uma coluna da Luvaca, dias depois: viajam ao encontro de um fim de semana na cidade de São Salvador, quando de novo uma mina de alta potência explodiu, destroçando uma segunda Berliet. Seguiram-se os ataques, numa só noite, aos quartéis do Luvo, do M’Pozo e da Mama Rosa. Todo o Norte se encheu de sons, estouros e desvarios. Voaram casernas desfeitas pelas balas de canhão, telhados, placas de zinco, trens de cozinha, bidões crivados pelo tiro a tiro das espingardas e de outras armas ligeiras. Os cães do quartel a uivar à morte”.

Calambata irá sofrer as consequências, mais patrulhamentos e interrogatórios nas sanzalas. Iremos assistir a nova onda de violência, os guerrilheiros estão manifestamente próximos, a polícia política entra em campo. João de Melo encaminha o desfecho final para um martírio que deixa uma mensagem de esperança. O herói chama-se Romeu, andava desaparecido, o alferes Alexandrino ameaça com uma terrível repressão, Romeu aparece, sabe que vai ser executado para não haver mais imolações. O alferes Alexandrino parece o demónio à solta:  
“Morde os lábios, puxa o bigode. Terá de enfurecer-se. É o que esperam dele: uma fúria a fim de repor a normalidade. Fecha os punhos, dá alguns passos em frente, sopra a sua ira na cara do outro. E larga-lhe um pontapé que lhe acerta em cheio no baixo-ventre. Romeu enrolha sobre a barriga, fica de joelhos. Alexandrino, que ainda não cumpriu o seu papel, despede-lhe um murro na nuca, o qual soa na noite como uma marretada. Ainda assim, Romeu não se defende, não grita nem geme. A sua dor é também a dos outros”.
Está sentenciado o martírio, falta a execução:
“Dois soldados erguem-no pelas axilas e levam-no de rastos, semiconsciente. Ajudam-no a subir para o carro. O povo assiste ao endireitar do busto e à altivez da cabeça levantada, a escorrer sangue como um Cristo coroado de espinhos. Os carros afastam-se, ganham a subida da rampa até à porta do quartel e à pista dos helicópteros. Só então o silêncio do povo se rasga de alto a baixo. Ficam para trás os gritos, os prantos, as raivas loucas que as pessoas guardam dentro de si, no sítio que os missionários estrangeiros do Sul falavam outrora se chama alma, mas não é nada. A alma é o coração em sangue. O que nos dá e o que nos tira a vida, mais a razão e a luz perpétua da nossa única estrela”.

O romance reescrito de João de Melo toma novos revérberos, assume novo peso literário nesta mudança, é mais um retrato de uma tropa exangue e um libelo anticolonial onde no passado sobressaía um indiscutível romance da literatura de guerra, a sua primeiríssima narrativa, que agora fica sujeita à esperança o dia da independência de Angola.
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Notas do editor

Poste anterior de 24 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20681: Notas de leitura (1267): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, por João de Melo, 9.ª edição reescrita pelo autor; Publicações Dom Quixote, 2017 (1) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 28 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20691: Notas de leitura (1268): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (47) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Guiné 61/74 - P20681: Notas de leitura (1267): “Autópsia de um Mar de Ruínas”, por João de Melo, 9.ª edição reescrita pelo autor; Publicações Dom Quixote, 2017 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Fevereiro de 2017:

Queridos amigos,
Em 1984, João de Melo deu à estampa, sob forma de romance, a sua experiência como furriel enfermeiro em Calambata, São Salvador, Norte de Angola. Livro duríssimo, a contingência militar entremeada com a opressão colonial explorando os paupérrimos agricultores do café, a vida martirizada nas sanzalas onde não se pode iludir que há simpatias com os movimento os de libertação.
Em 2017, temos uma versão reescrita que veio acentuar as duas narrativas paralelas entre tropa e colonos e tropa, colonos e colonizados. Esta nova versão é deliberadamente excessiva em tudo: muita gente gananciosa e torpe, muito ideal revolucionário, a tal ponto que podemos encarar esta nova versão como um manifesto anticolonial a pretexto de se situar inteiramente num palco de guerra, Calambata, onde o autor ganha contornos de um verdadeiro apóstolo amado pelo gentio.
Texto de inegável qualidade, e exigente na interpretação desses excessos que foi aquele mar de ruínas em que viveu João de Melo e que agora o reconta sob a forma de uma guerra sem sentido.

Um abraço do
Mário


Autópsia de um mar de ruínas, nova edição reescrita pelo autor (1)

Beja Santos

João de Melo
“Autópsia de um Mar de Ruínas”, por João de Melo, 9.ª edição reescrita pelo autor, Publicações Dom Quixote, 2017 tem por base uma das obras consagradas da literatura da guerra colonial, cuja 1.ª edição data de 1984. João de Melo explica o ponto de partida e a reformulação. Onde inicialmente pesava a narrativa da presença colonial em Calambata, perto de São Salvador, no Norte de Angola, um quartel erguido sobre um monte estratégico tendo duas aldeias africanas por baixo, agora as duas narrativas decorrem paralelamente: o que fazem os militares em contraponto com a vida quotidiana nas duas sanzalas, onde vivem pessoas de diferentes etnias e soldados que desertaram dos exércitos de libertação. Nesta reescrita, torna-se mais claro quais as duas razões sociais do que nas edições anteriores. Reescrever tem os seus custos, João de Melo, conscientemente ou não, alterou o cerne da obra, de um romance de guerra toda a trama ganha a dimensão de um retábulo barroco, não há roupagem que não se torne excessiva, ondulante, sujeita a leituras diferenciadas.

Logo aquele soldado no seu posto de sentinela em completa tensão e desorientação com os movimentos que pressente na mata, seguem-se fogachos, a tropa responde a um ataque fantasma:
“Dezenas de metralhadoras ligeiras, apontadas ao foco luminoso do Seixel, uniram-se às rajadas das quatro Bredas dos postos. Bocas de chamas em crepitação, das quais saíam, numa torrente, balas incendiárias que pareciam lançar para os céus de Calambata um estrondo de um vulcão em atividade”. Entra em cena um capitão medíocre e reles, de nome Marinho, oficiais e sargentos são pessoas pouco estimáveis, depois deste grotesco capitão surge o alferes Alexandrino que leva uma coça valente no escuro. Mas a figura do capitão é alvo de uma atenção implacável: “Ia na terceira comissão de serviço, depois de Moçambique e da Guiné. Envelhecera depressa de mais. Era-lhe difícil lembrar-se de quais eram, e como, as suas qualidades marginais. Deixara-se cair no cerne das maquinações de guerra”. O capitão também não aprecia o alferes Alexandrino: “Nunca gostara daquele bigodinho ralo e descaído sobre as pontas. Detestava a sua cabecinha adamada, a voz aflautada, o risinho tortuoso”.

Como se tece a narrativa em planos paralelos, estamos agora na sanzala, Romeu pontapeou o cão do senhor Valentim, autoridade colonial, vai ser sovado, brutalmente sovado. O soba Mussunda não reage, a sua autoridade é simbólica, sabe que não manda na sanzala, vive sob a ordem dos brancos. Num rasgo de dignidade pede ao polícia Valentim para parar, o agente colonial fica enraivecido, o chicote vira-se contra o soba: “Vibra o primeiro golpe no pescoço de Mussunda, que abre muitos olhos atónitos, ante a violência da agressão. Mais cego ainda, o golpe seguinte atinge-o em pleno rosto. O branco não está pelos ajustes. Assenta-lhe um punho na boca, estende-lhe uma joelhada por baixo, nos órgãos sensíveis dos machos”. Está esclarecida a correlação de forças, é a vez de a tropa transpor os velhos perigos do mato, uma coluna põe-se em movimento.

E João de Melo mostra os beneficiários da guerra, gente do quadro permanente e colonos, em pinceladas brutais:
“Tinham vindo ali parar trazidos pela mãozinha rufiona do dever patriótico dos outros, dos outros que serviam a pátria à sombra das cidades e dos seus palmares junto ao mar; dos outros que ganhavam o dinheiro com a guerra, dormiam, tranquilos e saciados, com um braço por cima do corpo amado das mulheres; dos outros que planeavam surdamente a morte à distância e criam mais e mais e sempre mais das tropas: armas apreendidas, mortos e feridos em combate, prisioneiros de guerra para interrogar sob tortura da fome e da sede, muita pancadaria, mutilações e mortes anunciadas. Havia-os de todos os aspectos próximos e distantes, desde generais velhos, atormentados pelo reumatismo, que usavam faixas cor de quaresma sobre as fardas de gala e traziam os dedos sáurios em louvados de negro, não possuindo mais nada de seu: nem o cabelo, nem o bigode com que lambiam a hierarquia dos poderes militares, de baixo para cima. Havia sargentos excedentários nos depósitos e arrecadações de víveres, outros à sombra dos paióis e das secretarias, outros de quem se dizia serem de uma palidez assustada, de uma fealdade fria, com o mistério profissional que a toda a gente lembrava negócios secretos, expedientes turvos, favores, homossexualidades reprimidas. Havia cabos gorduchos, de fardas muito coçadas pelo uso, com uns olhos alcoólicos e muito propósito de estragar a vida dos inferiores – campónios pouco mais do que analfabetos que pela mesma via das comissões sucessivas de serviço no ultramar reclamavam a promoção a sargentos. A outra realidade da guerra começava na figura dos colonos, donos de tabernas, mercearias e lojas de roupa, alguns dos quais, ao serem desmobilizados, acabavam por ficar em África, cafrealizados em pleno mato. Outros perdiam-se por outros caminhos, no tráfico dos homens contratados para irem trabalhar como escravos nas roças e fazendas, nos negócios do café e do algodão, nos comércios e contrabandos das cidades”.

Mas João de Melo tece considerações ainda mais punitivas:  
“Colonos de ontem e de hoje. Antes, usavam caçadeira e chicotes sangrentos nas costas nuas dos negros. Agora, dão o braço aos funcionários da Administração, aos polícias à paisana, ao regedor e ao pároco”. Parte a coluna e entra em cena João de Melo com o nome de furriel Gouveia, o enfermeiro, é um apóstolo estimado por todo aquele gentio: “As 750 pessoas de Calambata, entre militares e civis, ficavam entregues ao expediente, à intuição clínica e ao honesto estudo de Gouveia, um rapaz que sofria de insónias e não dava nada por aquela guerra nem por outra qualquer. A esperança do furriel estava toda posta nas crianças desprotegidas de Calambata, nos partos improvisados, no olhar de lodo e de pura bondade das velhas senhoras, que se sentavam à porta das suas cubatas, na tensão arterial, no pulso agónico dos anciãos, nos assobios de asma que se lhes soltavam dos pulmões para os seus ouvidos. Vacinava os meninos contra a cólera, a difteria, o sarampo, a Varíola e a tuberculose”. Parece que este furriel Gouveia precisa de ser vigiado, jamais o leitor merecerá a explicação sobre o seu passado antifascista ou os seus credos anticoloniais.

E temos a apresentação das crianças que vêm até ao quartel à espera das sobras do rancho:  
“Os pobres infelizes meninos atacaram em bando os caixotes do lixo rasparam com as mãos o arroz encaroçado no fundo dos tachos e panelas, serviram-se de gravetos para remover as bolas de cimento do esparguete e as cabeças do peixe. Com as mãos a servirem de conchas, foram pondo para dentro das latas enferrujadas, com uma pressa de predadores, porções de sopa, pedaços de pão ensopado no caldo, os ossos mal raspados ou ruídos que levaram para os irmãos mais novos e mais velhos, para mamã doente, para vavó com fastio de morrer em breve”.

E a trama romanesca volta a centrar-se nas sanzalas de Calambata.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20672: Notas de leitura (1266): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (46) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Guiné 61/74 - P20660: Notas de leitura (1265): Dicionário de Paixões, por João de Melo; Dom Quixote, 1994 (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Fevereiro de 2017:

Queridos amigos,
João de Melo não precisa de apresentações, basta pensar nesse livro memorável que é "Autópsia de um Mar de Ruínas", em Fevereiro de 2017 apareceu a 9.ª edição reescrita pelo autor, é romance marcadamente autobiográfico da sua experiência como furriel enfermeiro algures no Norte de Angola.
Peguei neste "Dicionário de Paixões" à procura da alma açoriana, que ele tão bem exprime e dei com estas páginas a que nenhum velho combatente pode voltar a cara. Alguém que sabe confessar-se assim: "Trata-se de uma paixão inquieta, povoada, um pouco depressiva talvez. Mas trago-a desde a minha infância numa ilha dos Açores - desde o tempo em que me era preciso ser amado por todos; justamente porque tinha já uma imensa e universal paixão por toda a gente".

Um abraço do
Mário


A guerra de África em páginas soltas de João de Melo

Beja Santos

O escritor João de Melo é a figura cimeira tanto no estudo da literatura da guerra colonial como operário dessa escrita. Devemos-lhe “Os Anos da Guerra”, organizou em 1988 uma antologia de escrito representativos das três frentes da guerra e que ainda hoje é de consulta obrigatória. Em 1984, publicou “Autópsia de um Mar de Ruínas”, em 9.ª edição, reescrita em 2017, está na lista das obras-primas da literatura de guerra. Em “Dicionário de Paixões”, que apareceu em 1994 nas Publicações Dom Quixote, João de Melo deu à estampa crónicas que são textos que falam de sentimentos, visões, desejos, estranhezas, aproximações, experiências dos sentidos. Chamou-lhes crónicas sentimentais e ensaios de sonhos, fragmentos de uma autobiografia apócrifa.

Respigo das suas lembranças de África, combateu na região de S. Salvador, no Norte de Angola:  
“Continuo a vê-las, as crianças de África, chegaram à porta de armas, obedecerem à ordem do soldado louro que está de plantão e as manda pôr em formatura. Trazem velhas latas cheias de ferrugem, os rostos sujos, os pés descalços, as roupas inacreditavelmente rotas: ainda assim, há nelas uma muito extraordinária dignidade, uma alegria que só é possível no rosto e na inocência das crianças. Vêm pelos restos e comida, pelo rancho que sobra sempre do fastio da tropa. Entram em fila, quartel dentro, marchando ao som dos dedos que tamborilam o fundo das latas. Vejo-as e oiço-as. São as crianças de África, e vão-se lentamente acercando do refeitório da tropa. Param alguns metros, suspendem o clamor do batuque. Faz-se um silêncio trágico, feito de uma paciência triste, árida, longamente vexada. Penso: não é o justo o mundo tão grande e a grandeza humana tão pequena (…) Vejo-as, ontem e hoje, com os olhos da memória, nos livros que li e na prosa que em mim regressa. Continuam as sôfregas mãos, trémulas de febre, a mergulhar no lixo, no riso e nas vozes trocistas da tropa. Com os dedos em concha, pescam escamas, espinhas trucidadas de peixe, bagos encaroçados de arroz, ossos esburgados, batatas por descascar. Comem clandestinamente, devorando, rilhando o dente, ardendo em febre fria, escondendo-se do soldado que varre agora do lado de lá do refeitório. Disputam aos cães os restos de comida, com a avidez canina e a maldade de se empurrarem umas às outras, numa rixa surda. Enchem as latas com lixo e comida, deitam a correr parada fora, papá, mamã e os cambutas vão ter enfim o jantar assegurado”.

Estamos agora em plena guerra colonial, chegou uma mensagem ao aquartelamento, o operador de transmissões, qual alquimista, decifra códigos ultrassecretos, e a mensagem decifrada é entregue ao superior. “Lendo-a, o capitão estremeceu, pálido, quase estarrecido, como se nele viesse a notícia do seu próprio funeral. Ao entrar no gabinete, vinha aéreo, poroso, levitante. Chamando os alferes à sua presença, trancou a porta por dentro, abriu perante eles grandes gestos nervosos, antes de partilhar o insuportável conteúdo daquele segredo. Nela se garantia (e a PIDE nesse tempo, tal como Deus, nunca se enganava, que cerca de 300 elementos inimigos e respetivas famílias haviam atravessado a fronteira, a fim de se entregarem às tropas portuguesas. Impunha-se, por isso, que os quartéis do Norte ficassem em estado de máxima prevenção”. Começava assim a operação para intercetar e recolher os tais desertores. Marcara-se um lugar previsto e saíram pelotões a cumprir a sua missão.
E temos o desfecho:
“Um quarto para a meia-noite, e nós no mato, abrindo trilhos no capim, em progressão para o objetivo. 200 metros à frente, desarmados e em pânico, o alferes e os furriéis repetiam o santo e a senha. De duas uma: ou o guia dos desertores inimigos já lá estava à espera, de braços erguidos e pronto a entregar-se, ou então seriam eles a cair, abatidos como tordos, trespassados por uma rajada de metralhadora (…) Longas horas à espera desses corvos noturnos – espiando o capim, ouvindo a ilusão dos pequenos ruídos da noite, vendo o que por força sempre fora invisível. Até que o dia clareou e pelo rádio veio a ordem de suspender a operação. No regresso, com alma embrulhada nos logros frios do desencanto e da derrota, vivêramos não um pesadelo, mas a crueldade de mais uma mentira de guerra… Ao fim desse mesmo dia, uma segunda mensagem veio repor a outra, a segunda verdade da nossa tragédia: afinal, tratara-se de um simples exercício militar; nunca estivera prevista a entrega voluntária de quaisquer desertores. Mas, em contrapartida, os sublimes comandos portugueses mandavam dizer que as nossas tropas tinha estado perfeitamente à altura das circunstâncias”.

E fala também dos heróis da guerra, operacionais que nunca se separavam da sua faca de mato, nem das granadas presas ao cinturão. “Muitas virtudes assistiam aos heróis da minha guerra. Era o caso de dormirem apenas o essencial. Sem sono nem fadiga, passavam as noites à bebida, temperando-as com latinhas de anchovas, atum, sardinha de conserva, pasta de fígado. Ao terceiro dia de permanência no quartel, entre uma operação e a seguinte, urravam como bois pela parada, clamando contra o tédio, desesperados com os formigueiros do cio, fartos de tudo, implorando que os deixassem voltar depressa para a mata (leia-se guerra) e lhes dessem turra a matar (…) Os heróis da minha guerra espumavam de raiva contra as ideias dos traidores de Portugal, e largavam bojardas, partiam garrafas de cerveja contra o pavimento da messe dos sargentos. Mas eu sabia que eles, todos eles, absolutamente todos, um dia, quando as coisas mudassem e outra fosse a linguagem (e outros os donos e servos dela), seriam impolutos, sérios, democratas. E havia de ouvi-los garantir que nunca tinham dado um tiro ou maltratado um prisioneiro de guerra, que também eles eram vítimas do fascismo, que em Angola, em Moçambique e na Guiné se tinham empenhado não em fazer a guerra, mas em sabotar as operações, numa espécie possível de desobediência ao regime colonialista de então”.

Falando do seu autorretrato, volta a falar da guerra:
“Dizem que por ter feito a guerra colonial em Angola (1971-1974), perfilhou dela uma visão sensível, determinante, porventura radical, nos romances, novelas, contos e antologias que sobre ela publicou. Nada disso é certo nem falso”.

Não esqueçamos que o título da obra é Dicionário de Paixões, onde o autor explicita:
“A paixão existe. Não é um sentimento perdido. Ela tem a idade, a sombra, a explicação e o destino da literatura. A sua honra, também. Nunca o esquecimento foi necessário à literatura. O prazer e o sofrimento sim. Os seus excessos, também. E as suas perdições”.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de fevereiro de 2020 > Guiné 61/74 - P20649: Notas de leitura (1264): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (45) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P17949: Notas de leitura (1012): "A Antepenúltima Caravela", de Emanuel Filipe, inserido na obra “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 (Abel Santos)



1. Em mensagem do dia 2 de Novembro de 2017, o nosso camarada Abel Santos, (ex-Soldado Atirador da CART 1742 - "Os Panteras" - Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), enviou-nos o texto, que se publica com a devida vénia, da autoria de Emanuel Filipe, que faz parte da obra “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988.[1]


A ANTEPENÚLTIMA CARAVELA 

pp. 205-212) (excerto)

por Emanuel Filipe

Há treze anos de guerra, e ainda se julgam inocentes, limpos, sem nódoas de sangue na roupa, nem indícios de pólvora nos poros minúsculos das mãos. Deixara apenas de poder suportá-los, tanto quanto ao homenzinho que, lá dentro aos microfones de bordo, entre uma música e a seguinte, aproveitava para contar uma anedota sem graça. Esgotara-se há muito o reportório das suas mulheres maliciosas e cínicas. Não havia pachorra para ouvi-lo imitar os improvisos do general Spínola. E a ninguém ocorria que o general Kaúlza pudesse ser comparado a um treinador de futebol.

Quem poderá compreendê-los, a esses homens, quando daqui a algum tempo, estando nós longe deles, pudermos acusá-los de tudo o que nos aconteceu em África? Vê-los-emos baixar os olhos e cerrar os punhos, apenas. Seremos infinitamente piores do que eles. Somos a geração do ódio, da vingança desnecessária e do discurso fácil. Cometeremos não os seus crimes sórdidos, mas crimes de palavra, delitos ociosos. Quem poderá então compreender-nos também a nós?


Homens geralmente brunidos, em cujas fisionomias avançavam já os primeiros sinais de velhice, mas os subalternos jamais perdoariam o toucinho dos seus ventres, o princípio da calvície, as suíças ruivas ou malhadas e sobretudo os dentes postiços. Começavam a cheirar a treze anos de guerra, em comissões sucessivas, e ao sacerdócio político das armas. Não poderia haver compaixão para esses homens proscritos?


Passaram os anos, mas nunca mais seremos os mesmos. Vivos e mortos por dentro, e não mais aqueles rapazinhos especializados à pressa, para fazer uma guerrazinha menor, onde nunca nada de importante aconteceria. Passaram os anos, e o país continua heroicamente de cócaras, mas se o puserem a falar do seu remorso de guerra, só um arrepio conseguirá atravessar-lhe a voz. (...)


Vd. aqui o índice da obra, na qual colaboraram alguns escritores consagrados.
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Notas do editor

[1] - Vd postes de:

23 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16124: Nota de leitura (841): “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 (1) (Mário Beja Santos)
e
27 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16140: Nota de leitura (842): “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 (2) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 6 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17940: Notas de leitura (1011): “A PIDE no Xadrez Africano, Conversas com o Inspetor Fragoso Allas”, por María José Tíscar; Edições Colibri, 2017 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16140: Nota de leitura (842): “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Agosto de 2015:

Queridos amigos,
O trabalho de investigação de João de Melo foi tão rigoroso e cuidado, que publicados estes dois volumes sobre a literatura das três frentes em 1988 a sua leitura continua a ser imprescindível, bem entendido para quem pretenda conhecer as primeiras décadas da literatura da guerra.
O jornalista e escritor Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos, seguem-se as antologias.
Deixamos para a próxima incursão a revelação de um conto de Álvaro de Guerra de altíssima qualidade, e até agora não divulgado entre nós, "O Tempo em Uane".

Um abraço do
Mário


Os Anos da Guerra, por João de Melo (2)

Beja Santos

“Os Anos da Guerra”, com organização de João de Melo, dois volumes, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988, constitui o primeiro e até agora o mais significativo levantamento sobre a literatura da guerra colonial, nas suas três frentes. No primeiro volume, o escritor João de Melo passa em revista as principais etapas que conduziram os movimentos de libertação à luta armada, percorrem-se os itinerários da preparação militar e analisa-se a literatura de Angola. Este segundo volume integra as literaturas de Moçambique e da Guiné e diferentes olhares sobre e no regresso da guerra. Como sempre, Joaquim Vieira procede às introduções dos respetivos conflitos. No caso de Moçambique, refere que em 1964 a FRELIMO procurou lançar a insurreição em cinco distritos, descobrirá que não possuía forças suficientes e concentra-se em Cabo Delgado e Niassa, aproveita-se dos apoios situados na Tanzânia. A FRELIMO demorou a impor-se, sofreu divergências internas, tinha no seu seio duas grandes correntes, a pró-ocidental e a francamente pró-chinesa. O projeto de Cahora Bassa, no distrito de Tete alterou por completo o ruma da situação em Moçambique. Eduardo Mondlane foi assassinado nos escritórios da FRELIMO em Dar-es-Salam, Samora Machel sucede-lhe na presidência no ano seguinte e a ala mais moderada do partido é afastada, tendo-se alguns dos seus dirigentes entregue às autoridades coloniais. O período do Comandante-Chefe Kaúlza de Arriaga irá ficar assinalado pela operação Nó Górdio, proclama que a guerrilha está à beira do aniquilamento, numa altura em que a FRELIMO se concentra no distrito de Tete e ameaça a construção da barragem de Cahora Bassa. A guerra avança, o equipamento da FRELIMO melhora e em 11 de Abril é disparado o primeiro míssil Strella. Escreve Joaquim Vieira:
“O relatório do quartel-general da Região Militar de Moçambique, referente aos quatro primeiros meses de 1974, indica um acréscimo global da atividade da guerrilha, um pouco por toda a parte. Impressionado pela deterioração da situação, Costa Gomes decide afastar o Comandante-Chefe”.

Vários são os autores referenciados, mas a figura principal é necessariamente Carlos Vale Ferraz e o seu “Nó Cego”, aqui fica um estrato:
“Ao Passos pareceu-lhe distinguir silhuetas de palhotas, de gente entre os arbustos. Parou, avisou os soldados da sua equipa, o alferes e o capitão. Agachados, dispostos num rosário de contas ao longo do trilho, pressentindo a chegada do momento, retida a respiração, os homens, em equipas de cinco, foram-se desfiando em linha.
Prontos? Interrogaram os olhos antes de se lançarem ao assalto correndo e disparando sobre tudo o que bulisse, sombras e corpos. Atiravam as granadas de mão para o interior das palhotas como garotas assustando galinhas, rebentavam a pontapé as frágeis portas enquanto atravessavam o pequeno aldeamento, agarravam pelos panos os corpos dos negros que não tinam conseguido fugir.
- Encosta esse par de jarras aí a essa árvore para lhes retirar o retrato! – gritava o Pierre o para o Vergas, que passava arrastando um casal de negros velhos, ela, a cocuana, de tronco nu, as mamas descaídas quase até à cintura, a pele cinzenta escamada do calor e da sujidade, ele, curvado e dorido, as articulações deformadas.
O Vergas hesitou em entregá-los ao Pierre, sentia-se estranho, já não possuía as mesmas certezas dos primeiros meses de guerra, abriu a mão para os deixar entregues ao pequeno tripeiro e ficou de olhos parados vendo-o colocá-los a jeito antes de disparar uma rajada curta. Seguiu o descair lento deles até se enrolaram sobre a terra nos últimos estertores.
- Esta não! – rugiu o Passos, com uma negra jovem agarrada por um braço, para o Pierre a rir-se ainda com a G3 a fumegar, preparando-se para repetir a cena. 
– Esta vai pagar-mas doutra maneira! Puxou-a para trás de um arbusto enquanto os homens da companhia continuavam a disparar e a partir os potes de barro. Deitou-a sobre o capim seco, escutando deliciado os gritos e os tiros, arregaçou-lhe o pano da saia, abriu-lhe as pernas e enfiou-se nela. Resfolgou que nem um toiro cobridor.
A negra continua deitada depois de ele se levantar limpando-se antes de apertar as calças, os panos enrolados na cintura, os olhos parados, muito abertos, apenas os músculos tensos do pescoço erguiam ligeiramente a cabeça fixando inexpressiva, a cara dos soldados que se aproximavam.
- Vá, ó Transmissões de um cabrão, vá, agora tu! – berrava o furriel.
O Brandão, pálido como sempre, cuspiu e passou adiante. Foi o Freixo quem lhe tomou a vez, deitou a G3 ao lado do corpo e bombeou-se para cima e para baixo, rápido a despachar antes que outros viessem ou o capitão passasse por aquele canto escondido na periferia do aldeamento assaltado”.

E chegamos ao contexto da Guiné, Joaquim Vieira fala do significado comercial da colónia, da pujança da ofensiva rebelde, da desarticulação do território, da chegada de Spínola, da sua ofensiva psicológica e militar, são informações que todos nós já dispomos no blogue. A escolha de João de Melo para a literatura inclui nomes grados como Álvaro Guerra e José Martins Garcia. Começa logo por destacar o conto “O Tempo em Uane”, que veio incluído em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, antologia organizada por António Borga, Lisboa, 1968, mas que apareceu também numa antologia de literatura ultramarina organizada por Amândio César em 1966. É uma narrativa belíssima, merece destaque no próximo texto, nunca dela se falou aqui. Uma das razões fundamentais por que se deve procurar conhecer os textos que João de Melo escolheu para esta obra incontornável é a visão do depois da guerra a diferentes vozes e aí depõem escritores como Olga Gonçalves, António Lobo Antunes e Lídia Jorge, entre outros. “Os Anos da Guerra” incluem a bibliografia geral sobre a guerra colonial e a cronologia sobre as lutas de libertação, evidentemente tudo reportado a 1988. É ocioso dizer que muitíssima água correu depois sob as pontes.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16124: Nota de leitura (841): “Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História”, organização de João de Melo, colaboração de Joaquim Vieira, Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 (1) (Mário Beja Santos)