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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27739: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (22): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - II Parte






Fotogramas do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtidas a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo ("Amílcar Cabral", 28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué".

O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014): não tem som direto, é narrado em espanhol, tem subtítulos em espanhol, mas também pequenos diálogos em crioulo e em português (por ex., com o médico dr. Mário Pádua, angolano branco, oficial do exército português, de que desertou, tendo saído de Angola para se juntar mais tarde ao PAIGC). 

Há sequências de cenas que vão da preparação militar a saídas para atacar alegadamente o quartel de Madina do Boé,   do rital da caça à descontração das refeições, das jogatanas de futebol ao quotidiano do hospital de Boké, do outro lado da fronteira, na Guiné-Conacri... Enfim, até uma visita de Amílcar Cabral às "tropas em parada"... É impossível saber onde exatamemnte foram  obtidas as imagens. Parte delas são no Boé, outras em Boké, já na Guiné-Conacri,

Esta média metragem, "Madina Boé" (1968),  foi  financiado pelo Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficas, de que o José Massip foi cofundador, e pela Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina. O documentário retrata a organização do  PAIGC na região do Boé, e o quotidiano dos seus guerrilheiros. O Boé
é considerado como "área libertada". 
 
O cineasta José Massip e o operador de câmara Dervis Pastor Espinosa  estiveram na zona do Boé em março e abril de 1967,  pelo que as imagens do  alegado ataque ao quartel de Madina do Boé em 10 de novembro de 1966 (trágico para o PAIGC, com a morte de Domingos Ramos e outros militantes) só podem ser de arquivo e, nessa medida, são (ou podem parecer) um embuste: a verdade sobre o que se passou nesse dia trágico foi pura e simplesmente ignorada ou escamoteada, como convinha.

Sabe-se que em março-abril de 1967,  a equipa cubana não filmou nenhuma cena de guerra, alegadamente por razões de segurança. As imagens de guerra que foram incorporadas no filme terão sido obtidas por outra equipa cubana, que estava no terreno em 10 de novembro de 1966, o que ainda está por esclarecer. (Já fizemos referência à operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que estava ao lado do guineense Domingos Ramos e do cubano Ulises Estrada.)

De resto, tanto Cuba como  PAIGC mantiveram em segredo, mesmo depois da independência,  a "ajuda estrangeira" em conselheiros, instrutores, médicos e combatentes cubanos... No filme não aparecem combatentes estrangeiros, a não ser o médico Mário Pádua, de costas (que diz no filme: "eu sou um médico português antifascista e anticolonialista"... e acrescenta: a guerra que aqui se trava não é do povo guineense contra o povo português mas contra um regime político fascista...)

O filme do José Massip foi várias vezes premiado (nomeadamente em países do chamado bloco soviético), passou na televisão cubana mas não obteve grande entusiasmo  da crítica interna. Há cenas no filme que não terão agradado ao regime de Fidel Castro. Em contrapartida, foi muito útil à propaganda do PAIGC. Amílcar Cabral era hábil, a explorar, no plano mediático e diplomático, testemunhos como este que devem ter seduzido, por exemplo, os suecos do partido de Olof Palme.

Claro que em Portugal não passaria, antes do 25 de Abril. O filme, aliás, só foi estreado entre nós no doclisboa'16, em 24 de outubro de 2016, às  15h30, na Cinemateca Nacional, Sala M. F. Ribeiro.  Eis a sinopse que vinha no programa, e que não deixa de ser reveladora da santa ignorância ou ingenuidade (é o mínimo que me ocorre dizer) dos organizadores.

"Filmado nas áreas libertadas [sic] da Guiné-Bissau, durante a sua guerra de libertação de Portugal, o filme segue o Exército Popular para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, documentando a educação política dos combatentes, as técnicas de guerrilha e o treino físico."  

Enfim, Cuba não mandou, para o PAIGC, apenas instrutores, conselheiros militares e médicos, mandou também cineastas com o talento de um José Massip. Até nisso Amílcar Cabral foi hábil, soube pôr o cinema e os cineastas de vários países ao seu lado, contrariamente aos políticos e generais portugueses do Estado Novo... que escondiam ao povo a guerra que se travava em África, nomeadamente na Guiné. 

Para vergonha nossa, o cinema português não tem um único filme com a assinatura de um cineasta de prestígo sobre a guerra na Guiné (1961/74), que possamos mostrar aos nossos filhos e netos. 

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Bissau > HM 241 > 1969 > O capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Fotograma, sem indicação de fonte (RTP ?). Cortesia da página do Facebook de António José Vale, 26 de maio de 2018. Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024), com a devida vénia...


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde... 

 Vamos fazer, em dois ou três postes,  uma síntese  (*) e análise crítica do  artigo cujo iriginal está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14

Temos  cerca de 3 dezenas de referências a Cuba, e cerca de 90 a cubanos

II. Análise crítica: entre a solidariedade e a realpolitik

O artigo é interessante sem ser original. Mas merece ser partilhado com os nossos leitores, e demais público lusófono. Apoia-se fortemente na investigação do historiador italiano Piero Gleijeses: o seu livro de 2002, "Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa, 1959–1976",  é uma obra de referência,  uma reavaliação exaustiva do envolvimento cubano na descolonização de África.  

Piero Gleijeses nasceu em Veneza em 1944, foi  professor de política externa dos Estados Unidos  na Universidade Johns Hopkins. 

É considerada uma autoridade em matéria de estudos sobre a política externa cubana sob Fidel Castro. Gleijeses, dizem-me,  é o único investigador estrangeiro a quem foi permitido o acesso aos arquivos governamentais cubanos da era Fidel Castro.

Fez o seu  doutoramento em relações internacionais no Graduate Institute of International Studies, em Genebra, e domina várias línguas:  além do italiano e do inglês, o afrikaans, o francês, o alemão, o português, o russo e o  espanhol.

 "Visions of Freedom" (2013) dá continuidade a "Conflicting Missions", analisando o confronto entre Cuba, os Estados Unidos, a União Soviética e a África do Sul no sul de África entre 1976 e 1991.

Além de revistas académicas, Gleijeses colaborou em publicações como a "Foreign Affairs" e a "London Review of Books" (Fonte:  Wikipedia, em inglês).


(i) Cuba: um ator único, "sui generis", mas não desinteressado

  • Solidariedade vs. estratégia: a ajuda cubana aparentava ser "genuína e desinteressada" em termos económicos, mas não era isenta de cálculo geopolítico; afinal, também aqui não há "almoços grátis".
  • Em nome do chavão do "internacionalismo proletário", a pequena mas "heróica" Cuba procura expandir a sua influência e o seu prestigio em África, em competição com as gigantescas mas rivais URSS e  China.
  • Guiné(zinha) portuguesa parecia ser um bom laboratório para testar, validar, promover e "vender" o  modelo revolucionário cubano, também baseado nos "campesinato".
  • O legado de Guevara: a presença cubana estava profundamente ligada à visão de Guevara de "internacionalismo proletário"; no entanto, a decisão de manter o envolvimento em segredo  deixou de dar dividendos (e teve custos humanos, mortos e feridos, que o PAIGC e Cuba sempre silenciaram, embora em nada comparáveios com o envolvimento em Angola.
  •  Havana, em todo o caso, também quis  evitar conflitos desnecessários com Portugal (com quem mantinha relações diplomáticas e comnercais) bem como com o poderoso vizinho, os EUA, que já monitoravam a região.
  • A célebre frase de Ernesto "Che" Guevara, "Criar dois, três, muitos Vietnames" (Crear dos, tres, muchos Viet Nam), surgiu na sua "Mensagem à Tricontinental" em 1967, apelando à multiplicação de focos de resistência armada para dividir e enfraquecer o "imperialismo".
  • Contexto: a frase foi publicada na revista Tricontinental em abril de 1967, originária de uma mensagem enviada por Che à Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL).
  • Significado: Guevara defendia que, se a resistência vietnamita conseguisse dividir as forças dos EUA, outros focos revolucionários no mundo teriam o mesmo efeito, enfraquecendo a dominação global.
  • O objetivo era incitar a luta armada internacional e a solidariedade entre os povos oprimidos contra o imperialismo (e o colonialoismo tardio, como era o caso da África lusófona; e o "apartheid" na África Austral).
  • O Vietname representava o exemplo máximo de um povo pobre a enfrentar com sucesso um exército poderoso, servindo de inspiração para movimentos revolucionários globais.
  • A frase (panfletária) tornou-se um lema para a resistência ao colonialismo e a defesa da soberania, simbolizando a luta colectiva.
(ii) Cabral, um líder pragmático que não foi nos futebóis dos cabuanos
  • Equilíbrio entre autonomia e dependência: Cabral soube gerir a ajuda externa sem comprometer a liderança do PAIGC (ou a sua liderança, que de resto não era contestado nessa época).
  • Cabral defendia que a luta devia parecer genuinamente africana e não parte de um estratégia mais vasta, geopolítica.

  • Ao limitar o número de cubanos e recusar ofertas de mais homens, evitou que o movimento se tornasse um "proxy" de potências estrangeiras, um risco comum em "guerras de libertação".
  • O uso da imagem: a colaboração com o cinema cubano para construir a sua imagem como líder de guerra revela uma compreensão avançada da importância da narrativa, Cabral não era apenas um estratega militar, mas também um construtor de mitos, essencial para a coesão do movimento.
  • Náo se pode diaer que a imagem de Cabral saia diminuída. Mas é inegável que o cinema (e os amigos do PAIGC, e náo apenas os cubanos) deram um bom retique na imagem de Cabral: encenação da sua presença na frente de batalha; construção simbólica do líder revolucionário.  Cabral nunca foi um "cabra-matchu", muiti menos boçal a maioria doso comandantes do PAIGC, a começar por 'Nino' Vieira,  como nem sequer precisava de o ser, para ficar na história de África.

  • (iii) Portugal, aliás, o Portugal de Salazar / Caetano, "orgulhosamente só"

  • A captura de Peralta: Portugal usaou o vaso Peralta para tentar deslegitimar o PAIGC, mas a sua recusa em libertá-lo, mesmo com a oferta de troca de um refém ameriano,  mostra a rigidez do regime de Salazar-Caetano.
  • Lisboa parecia mais interessada em "provar" a interferência estrangeira do que em resolver o conflito da Guiné (que se tenderia a"eternizar").
  • Falta de adaptação: enquanto o PAIGC e Cuba inovavam em táticas e comunicação, Portugal manteve uma estratégia militar rígida e pouco adaptada à guerra de guerrilha, pelo menos até à chegada de Spínola ao território.
  • O 25 de Abril de 1974 veio demonstrar que a solução para a guerra colonial não era militar, mas política (coisa que os militares portugueses, a começar por Spínola, já defendiam há uns anos, contra os "falcões" do regime que, de resto, mal conheciam África, a começar por Salazar que lá pôs os pés).

(iv) Memória e esquecimento

  • O silenciamento cubano: por que é que Cuba manteve o seu papel em segredo, mesmo depois da independência da Guiné-Bissau? 
  • A explicação oficial  ("respeitar os desejos do PAIGC") é plausível, mas também pode refletir uma política de não-confrontação com os EUA ou com os novos governos africanos, muitos dos quais queriam evitar tensões com antigos aliados de Portugal.
  • O 'papel técnico-militar dos cubanos não deve ser subvalorizado mas também náo pode ser sobrevalorizado. Cuba terá mandando ao PAIGC 435 homens, alegadamente todos "voluntários". 9 ou 17 terão morrido, há fontes contraditórias.

  • A memória portuguesa: em Portugal, a guerra colonial ainda hoje, passado ,mais de meio século, é um tema sensível; a narrativa dominante tende a focar-se no "trauma" dos soldados portugueses e na "ingratidão" das ex-colónias, ignorando cpmpletamemnte o papel de atores como Cuba (pelo menos, no cvaso da Guiné e,depois, em Angola, na chamada "guerra da II independència).
  • No nosso blogue, temos dado também voz a uma pluralidade de perspectivas, incluindo a cubana, "naturalmente" mais esquecida e mais difícil de compreender e aceitar pelos antigos combatentes portugueses.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Guiné 61/74 - P24306: Antologia (89): Cabo Verde, "refém de uma história contada" (Expresso das Ilhas, 27 de janeiro de 2022)

Expresso das Ilhas,  Praia. Cabo Verde > 27 jan 2022 16:52   


País refém de uma história contada

A propósito das controvérsias que sempre aparecem na chamada Semana da República entre os dias 13 e 20 de Janeiro, o Presidente da República, José Maria Neves, disse que “não temos cumprido uma grande promessa da democracia que é a educação para a cidadania”.

 Acrescenta ainda que “quem quer ser cidadão tem de procurar conhecer a história, sobretudo, a contemporânea do seu país”. A falha detectada pelo PR tem pelo menos duas causas mais visíveis.

A primeira é que o Estado não se esforça o suficiente para passar para as pessoas, para a sociedade e em particular para as novas gerações os princípios e valores universais a começar pelo respeito pela dignidade humana e o direito à liberdade, que estão plasmados na Constituição de 1992, nem a importância do pluralismo, do princípio da separação de poderes e da independência dos tribunais no funcionamento pleno da democracia. 

Em consequência, fica por desenvolver adequadamente a vontade de participação, autonomia de pensamento e acção, auto-responsabilidade e o espírito de pertença à comunidade que se espera de cidadãos plenos. 

Pelo contrário, põe-se demasiado ênfase em alegados actos libertadores e heróicos de indivíduos e grupos, revoltas e ressentimentos do passado e manifestações de um paternalismo “salvítico” que deixa todos gratos e dependentes do Estado e na condição de cidadãos menores.

A outra causa tem a ver com a disputa permanente no país entre a “história contada” e a “história vivida”, entre factos e mitos, entre a procura da verdade e as tentativas de mascarar a realidade fazendo apelo a sentimentos, a lealdades antigas e a demonização do outro. 

De facto, a única história que realmente se é permitido conhecer não é a que aconteceu nas ilhas, mas a que supostamente teria passado nas matas da Guiné e em Conakry. 

Uma história perpassada por narrativas carregadas de heroísmo, de generosidade e de boas intenções que depois com as independências e o poder conquistado não se viu correspondência com a realidade dos regimes implantados tanto na Guiné como em Cabo Verde. 

Os seus protagonistas surpreenderam toda a gente com a perda da liberdade, a arrogância de “melhores filhos” no exercício do poder e a visão curta de quem sempre que foi dado a escolher entre desenvolvimento das pessoas e do país e o seu regime político ditatorial invariavelmente optava pela manutenção do poder

A outra história, aquela vivida nas ilhas e que foi da ditadura, de oportunidades perdidas e de vidas amarfanhadas pela falta de liberdade, pela inibição de iniciativa individual e pela sujeição a ideologias simplistas e ultrapassadas, essa durou quinze anos, mas é como se não tivesse acontecido.

É uma história praticamente ignorada pelas instituições, pelas escolas, pela comunicação social pública e até pelos estudiosos e académicos. 

Só se estudam acontecimentos até à independência e depois da chamada abertura política em Fevereiro de 1990. São os momentos em que os “heróis” entram em cena, num caso para dar ao povo a independência e noutro para, em mais um acto de generosidade, oferecer liberdade e democracia. 

No meio fica um hiato que ninguém quer transpor com receio de ferir as susceptibilidades dos auto-indigitados “Comandantes” (ver decreto-lei nº 8/75 e decreto nº 18/80) que ocuparam os lugares-chave do poder durante a ditadura. 

Mesmo assim, nunca estão satisfeitos e todos os anos pelo 5 de Julho e pelo 20 de Janeiro repetem que a história da luta não é estudada suficientemente nas escolas e que os ensinamentos da Cabral não estão a ser seguidos. É uma pressão que vai continuar mesmo que hipoteticamente um número de pessoas próximo, dos 100% se submetesse à narrativa heróica, declarando “estar em paz com a história”.

Com esse tipo de pressão, feita com o beneplácito do Estado e das suas instituições, dificilmente vai-se ter o cidadão pleno que o PR diz que precisa conhecer a história contemporânea do seu país. 

Não se ajuda, porém, nesse conhecimento quando se procura transpor o hiato dos quinze anos, durante os quais a aplicação dos ensinamentos de Cabral pela organização por ele criado, o PAIGC, e por dirigentes por ele formados resultou em sucessivas tragédias na Guiné-Bissau e em um Cabo Verde sem liberdade e economicamente estagnado, e se propõe elegê-lo “como o símbolo maior dessa luta pela liberdade e dignidade da pessoa humana e pela igualdade”. 

Pedro Pires tem mais razão ao apresentá-lo como personalidade que “deu tudo o que tinha a favor da libertação do país”. E é libertação porque liberdade e dignidade individual, que certamente não é reconhecida quando em vez de pessoas se veem massas populares e se define a pertença à comunidade política com base em concepções do tipo o povo é quem está com o partido, são princípios e valores que só seriam conquistados 15 anos depois pelos homens e mulheres das ilhas.

Pelas reacções de diferentes personalidades durante a chamada Semana da República vê-se claramente que mais de trinta anos depois da instalação da democracia a “história contada” ainda se sobrepõe à “história vivida” mesmo quando colide frontalmente com os princípios e valores constitucionais. Instrumental nisso tudo tem sido precisamente as instituições do Estado e particularmente os órgãos de soberania. 

Resistências várias impediram durante 17 anos que o 13 de Janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia, fosse comemorado pela Assembleia Nacional, a casa da pluralismo e a sede do contraditório na democracia. Agora já há quem queira comemorar o 20 de Janeiro com uma sessão especial da Assembleia Nacional quando se sabe pela experiência de outras democracias que comemorações da independência, da república e da memória, porque momentos de unidade e exaltação nacional, normalmente são presididas pelo presidente da república. A guerrilha continua como que para demonstrar o quanto a iniciativa da semana da república é um fiasco na tentativa de reconciliação à volta das datas históricas.

Nos últimos dias a colisão de narrativas históricas com a Constituição centrou-se sobre o que devem ser as comemorações do Dia das Forças Armadas (FA). O Governo na pessoa da Ministra da Defesa, em linha com os ditames da Constituição de 1992, realçou a função constitucional das forças armadas de assegurar a defesa nacional, a sua subordinação ao poder civil, o seu serviço à nação e o seu apartidarismo e neutralidade política. Os “comandantes” vieram à liça reivindicar a reposição da história das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) e o papel que teriam tido na sua origem.

O problema é que as FARP que sempre foram concebidas como braço armado do partido, como está explícito no texto da proclamação da Independência e confirmado pela voz autorizada de Aristides Pereira em 1985 ao dizer que “a acção política e ideológica constitui uma componente essencial no trabalho das forças de defesa” e ter-se referido ao facto de as FARP, serem integradas, não por militares, mas por militantes armados”, deixaram de existir com a entrada em vigor da Constituição a 25 de Setembro de 1992 dando lugar às FA. Não faz, portanto, qualquer sentido referir-se a papéis ou missões passadas que conflituam directamente com as funções constitucionais actuais.

Mesmo na questão do Dia das Forças Armadas nota-se a conveniência e o desejo de auto glorificação. Até 1987 o dia das FARP comemorava-se a 16 de Novembro em referência à origem das forças em 1964 na sequência do Congresso de Cassacá, assim como é ainda comemorado pelas FARP na Guiné-Bissau. O objectivo então era identificarem-se com a luta na Guiné. 

Em 1988, oito anos depois do golpe na Guiné e com o poder seguro em Cabo Verde acharam que podiam fazer das suas pessoas a referência do braço armado do partido. Com um simples decreto (decreto nº 5/88) criaram um novo Dia das FARP (15 de Janeiro de 1987). Agora acham que as FA não podem ter outra referência mais consentânea com a sua função actual. É mesmo patético.

É evidente que o país não deve continuar refém de uma narrativa que glorifica pessoas responsáveis por um regime ditatorial, que promove o culto de personalidade em plena democracia e que pode causar instabilidade institucional pelos seus persistentes conflitos com os princípios e valores constitucionalmente estabelecidos. 

Os titulares dos órgãos de soberania devem lembrar-se todos do seu juramento de respeitar e cumprir a Constituição da República. Estar ao serviço do povo e não de quais outros interesses é a via certa para a construção de uma vida de liberdade, paz e prosperidade para todos.

Humberto Cardoso

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1051 de 19 de Janeiro de 2022.

(Reproduzido aqui com a devida vénia. Revisão / fixação de texto / negritos, exlusivamente para publicação neste blogue: LG)
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Nota do editor:

Último poste da série > 
18 de janeiro de 2023 > Guiné 61/74 - P23991: Antologia (88): estereótipos coloniais: os balantas de Bambadinca, vistos pelas NT (BCAÇ 2852 e BART 2917)