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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio faz um resumo da situação de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé e Príncipe em meados do século XIX, lançado-se depois na análise das principais causas da decadência do Império Português. Observa que quando foi descoberto o caminho para a Índia, os portos de África passaram a ser apenas portos de escala para as armadas; e descoberto o Brasil, a colonização encontrou em África o viveiro onde ia procurar os braços necessários para as minas e engenhos americanos, deu-se uma concorrência feroz no comércio negreiro, África despovoou-se. E tece as considerações que se prendem com a dominação espanhola, a ausência de um plano colonial e a abolição das ordens religiosas. Mas também se pode admitir um outro fator: a escolha dos governadores nem sempre se atendeu às qualidades e valor dos nomeados, eram escolhas que obedeciam a influências na corte, tudo se agravou com a guerra fratricida entre miguelistas e liberais. E o Marquês do Lavradio diz também o seguinte: "A péssima administração financeira do Estado, a falta de energia, o fatal hábito de fazer tudo fora de tempo, são outras tantas causas do estado da decadência." É neste quadro que se inicia a Era da Regeneração e a diplomacia portuguesa ir-se-á confrontar com ambições das grandes potências coloniais, será o caso da Questão de Bolama e a Questão de Lourenço Marques, que iremos ver proximamente.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 2

Mário Beja Santos

Incúria minha, desconhecia inteiramente a existência desta obra que saiu do punho do 6.º Marquês do Lavradio, que não deixa de causar uma certa estupefação, na data da sua publicação pela Agência Geral das Colónias, em 1936, já corria a torrente do nacionalismo imperial do Estado Novo, feita de glórias, de guerreiros invictos e de feitos estrondosos, nunca se questionando que aquelas parcelas exibidas no mapa tinham verdadeiramente 500 anos de presença portuguesa; e agora o Marquês do Lavradio vinha dizer que não era exatamente assim. Deu-se uma súmula do estado das colónias de Angola e Moçambique em 1851 e a narrativa vai agora prosseguir a partir de Cabo Verde.

“Cabo Verde fora sempre mais pobre e miserável de todas as possessões portuguesas. A sua colonização começou em 1562 com alguns casais do Algarve e Alentejo, a que e juntaram casais da Guiné das tribos Balanta, Papel, Bijagó, Felupe, Jalofo, dando origem a uma raça especial variável de ilha para ilha. Durante longos anos a sua importância resultava principalmente de ser um entreposto de escravos e a ilha de Santiago fora muito florescente quando os navios com escravos eram obrigados a ir ali pagar os quartos e vintenas.

A grande maioria dos terrenos, ainda os mais abundantes de água, e nas ilhas mais saudáveis, como S. Vicente, S. Nicolau e Fogo, estavam incultos; no interior das ilhas não havia estradas e as comunicações entre as diferentes ilhas e com a capital eram morosas e difíceis. João de Fontes Pereira de Mello, assumindo o Governo da Província em 1849, descreve o estado em que a encontrou nas seguintes linhas:
‘Achei exaustos os cofres públicos, o crédito perdido pelo não pagamento em Lisboa das letras sacadas aqui pela Junta da Fazenda; os oficiais e mais empregados públicos com cinco meses de atraso e o clero com treze; devendo-se um mês de pré, quinze dias de pão e onze contos de reis de massas aos soldados. A tropa estava desgostosa pelos descontos que são obrigadas a fazer as praças de pré (militares de baixa patente) para ocorrer à sua maior precisão de vestir e calçar. E finalmente encontrei a necessidade de mandar render os destacamentos da Guiné e a impossibilidade de acudir a este importante serviço’.”


O autor, na sequência de outros depoimentos refere os sacerdotes imorais, ébrios e debochados, homens sem vocação, o maior rendimento da Província, no passado, provinha da urzela.

Passando agora para a Guiné, dirá o autor que estava muito reduzida da sua antiga grandeza, marchava todos os anos para uma decadência total. E conhecia um apertar de cerco de franceses e ingleses. Dependia do Governador-Geral de Cabo Verde. Não tinha fronteiras explícitas, os seus limites só viriam a ser definidos pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É relevada a figura de Honório Pereira Barreto, comprara com o seu próprio dinheiro parcelas do território, fizera convenções que davam exclusivamente aos portugueses o direito de navegar e comerciar em certos pontos. Denunciou a ocupação da região do Casamansa, enviou cartas insistentes ao Governador de Cabo Verde, nada teve andamento. E o autor também explica o comportamento dos ingleses que disputavam a ilha de Bolama, vai referir uma série de peripécias que nós já temos conhecimento.

Falando das ilhas de São Tomé e Príncipe, desfaz-se em elogios:
“São, juntamente com o Brasil a maior coroa de glória da dominação portuguesa. Desde que as ilhas de São Tomé e Príncipe foram bem povoadas, em 1493, começaram logo sendo uma colónia agrícola importante; a primeira cultura experimentada foi a cana sacarina, transplantada para ali da ilha da Madeira; o grande desenvolvimento que essa cultura teve no Brasil aniquilou por completo as duas ilhas, forçando os colonos a experimentar novas culturas. Em 1800, o Governador Lagos mandou ir do Brasil sementes de café; a cultura desenvolveu-se rapidamente, a produção, devido à fertilidade do solo, compensou largamente a iniciativa, a qualidade premiou os agricultores e o café das duas ilhas do Equador em breve as tornou famosas.

Em 1822, foi introduzida a cultura do cacau, que devido a iniciativas particulares se estendeu pelas duas ilhas, transformando-as numa modelar colónia de plantação e dando-lhe o primeiro lugar nas colónias de plantação de toda a costa africana. As medidas repressivas do tráfico de escravos criavam grandes dificuldades ao recrutamento de serviçais para S. Tomé; embora os tratados com a Inglaterra autorizassem a ida de negros livres de Angola, os cruzeiros ingleses originavam conflitos constantes, davam origem a reclamações diplomáticas e impediam que o recrutamento se fizesse com regularidade.
Nas ilhas havia sossego, tranquilidade e segurança individual. Os naturais das ilhas, descendentes dos negros de Angola e judeus de Espanha, eram ignorantes, fanáticos e corrompidos e viviam de roubo e da rapina.”


O autor vai agora explanar-se sobre as causas principais da decadência: a escravatura, dizendo que o lucro que os negreiros ofereciam não ficavam nas colónias e as receitas que o Tesouro arrecadava estavam muito longe de compensar o prejuízo que resultava da saída de tantos homens válidos que iam enriquecer com o seu trabalho domínios alheios; a dominação espanhola, entrámos em decadência com o desastre da Invencível Armada, fechado o porto de Lisboa ao comércio do inimigo, este foi procurar conquistá-lo nos mares, Castela levou-nos mais de 7 mil peças e havia 900 bocas de fogo que Sevilha guardava nos seus depósitos com as armas de Portugal, e escreve o Marquês do Lavradio:

“Foi sobretudo na Índia e nos últimos dez anos de dominação espanhola que os holandeses e ingleses mais nos perseguiram, mas as duas costas africanas tiveram de sofrer duros ataques, e o nosso domínio no interior foi fortemente abalado.
Em dez anos o nosso comércio do Oriente passou quase por completo para as mãos dos holandeses e quando, em 1669, se assinou finalmente a paz com os Países Baixos, estes guardaram o que nos haviam tomado na Índia, renunciando ao Brasil, donde os havíamos expulsado, mediante uma indeminização de 3 milhões de florins.”


Continuando as causas da decadência, refere o autor a completa ausência de um plano de colonização ou de administração colonial. E simplifica:
“A doação feita a Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) de 35 léguas de costa de Angola, do Cuanza para o Sul, sem limite para o interior, com obrigação de ali estabelecer cem famílias e levar quatrocentos homens válidos e seis cavalos (doação feita por El Rei D. Sebastião) não pode ser considerada como obedecendo a um plano de administração colonial, antes deve ser olhada como um ato isolado e como uma mercê arrancada ao Rei com fins bem diferentes daqueles que se encontravam na carta de doação”; e a última causa invocada pelo autor foi a abolição das ordens religiosas; desaparecidas as missões, com elas desapareceu a obra de séculos, caíram em ruína monumentos levantados pelos missionários, morreram plantações por eles feitas, diminuiu o nosso prestígio no sertão, e a falta de missionários portugueses facilitou mais tarde a Livingstone as missões protestantes que tão funestas nos foram.

De seguida o autor vai abordar questões diplomáticas começando pela Questão de Bolama.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27701: Historiografia da presença portuguesa em África (515): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1959 (73) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
O cartapácio do Boletim Oficial de 1959 é ilustrativo do crescimento da nossa presença na Guiné: reforçam-se verbas, abrem-se créditos e também concursos para admissões, alargam-se quadros, entra em funções a Santa Casa da Misericórdia da Guiné, regulamenta-se a prestação dos serviços dos cipaios que estão ao serviço das circunscrições e concelhos, é um ano de comemorações pois passam cem anos sobre a data da morte de Honório Pereira Barreto, haverá mesmo estátua para alguém que comprou à sua custa muito território, na República da Guiné Bissau, poderão não o tratar como pai fundador mas devem-lhe os guineenses o figurino do território tal qual ele foi definindo; o Museu da Guiné Portuguesa passa a ter arquivista e segundo-oficial; o Governo define os preços de compra do coconote e óleo de palma, é criada a povoação de Mejo, ficará ali bem perto de Guileje e do chamado Corredor da Morte, isto em termos da guerra desencadeada em 1963; tenta-se a melhoria dos transportes, aparece um ferryboat entre Bissau e Enxudé; Aristides Maria Pereira, o futuro n.º 2 do PAIGC, radiotelegrafista de 3.ª classe, tem uma promoção por substituição; altera-se a política da habitação na cidade de Bissau, os funcionários públicos poderão vir a adquirir casa própria; a Escola Técnica de Bissau passa a ser Industrial e Comercial; foi aprovado o Regulamento da alimentação, alojamento e assistência médica aos trabalhadores indígenas, em matéria de grande significado; e foi também criada uma escola de prendizagem do Posto Agrícola de Pessubé. Escuso de dizer que não há qualquer menção ao que se passou em 3 de agosto na região do Pidjiquiti - assunto que passará à História por outros meios.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1959 (73)


Mário Beja Santos

A governação do Oficial da Armada Peixoto Correia em 1959 foi vivida numa grande normalidade em que não faltou o reforço de verbas, a abertura de créditos, concursos para admissões do funcionalismo, avisos e declarações de repartições, conservatórias, editais autárquicos, avisos de juízes de Direito, comunicação de serviços dos CTT e muitíssimo mais. Procurou-se extrair o que de significativo viveu a Província. É o primeiro ano da Santa Casa da Misericórdia da Guiné, foi nomeada uma comissão para reunir os fundos e receber os bens atribuídos, consta no Boletim Oficial n.º 3, de 17 de janeiro.

No Boletim Oficial n.º 11, de 14 de março, toma-se uma disposição de política colonial, é a Portaria n.º 1086, assinada pelo Governador António Augusto Peixoto Correia, Capitão-tenente:
“A prática tem demonstrado que a longa permanência dos cipaios administrativos nas mesmas áreas administrativas onde foram inicialmente colocados é prejudicial e contraproducente, assim como a sua colocação em áreas onde predominem os grupos étnicos a que pertenciam antes do recrutamento.
Com efeito, os cipaios que prestam serviço nas áreas onde têm afinidades rácicas com os habitantes não dão garantias de fidelidade, isenção, lealdade e prontidão no cumprimento dos seus deveres e na execução das determinações superiores.
O mesmo sucede com aqueles que, devido a uma longa permanência na mesma região, acabam por criar interesses de ordem material ou adquirir hábitos de indolência que os inibem de cumprir oficialmente os seus deveres.”


E fica determinado que os cipaios recrutados para o serviço das circunscrições e concelhos passarão a servir, por via de regra, por um período de seis anos em cada divisão administrativa e, dentro desta, por períodos nunca superiores a dois anos em cada posto administrativo; completados os seis anos de serviço na área de uma circunscrição ou concelho será transferido para outra divisão administrativa.

Vamos agora mudar de assunto, vai haver homenagem a Honório Pereira Barreto, consta do Boletim Oficial n.º 16, de 20 de abril, iam-se completar cem anos sobre a data da morte do grande português guineense, havia que reavivar a sua memória em atos solenes, cerimónias cívicas e atividades culturais. O Governo da Província encarregava o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa de elaborar um programa de comemorações. “Estas deverão ter a maior projeção dentro e fora da Província, em terras portuguesas e no país irmão – o Brasil – herdeiro das gloriosas tradições do Portugal Navegador e Missionário.” A apoteose será o descerramento da sua estátua no centro de Bissau. Por esta data, pela Portaria 1103 são definidos os preços de compra de coconote e óleo de palma.

No Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio, criam-se as condições para fundar a povoação de Mejo. Fizera-se o levantamento do terreno na área do Posto de Bedanda, da circunscrição de Catió, Mejo teria uma superfície de vinte hectares, e o seu centro estará no cruzamento da estrada de Bedanda-Cacine com o ramal para Quebo, é o que consta do Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio. No Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, fica-se a saber da existência de um ferryboat para a ligação Bissau-Enxudé, iam-se custear as despesas para a construção de um telheiro e muito mais coisas. Ficamos a saber no Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, que Aristides Pereira, o futuro n.º 2 do PAIGC, radiotelegrafista de 3.ª classe, fora designado para exercer, por substituição, as funções de segundo-oficial do quadro de exploração dos mesmos Serviços.

O Governador defrontava-se com o grave problema da habitação, e daí o Diploma Legislativo n.º 1715, publicado no Boletim Oficial n.º 29, de 18 de julho:
“No intuito de contribuir para a solução do grave problema da habitação da cidade de Bissau, tem o Governo da Província vindo a despender verbas consideráveis na construção da residência para funcionários. O número de residências já construídas é grande e importante a sua contribuição para a solução daquele problema. A solução adoptada, de construir casas por conta do Estado, traz como consequência o problema da sua conservação, que passa a exigir anualmente o dispêndio de verbas importantes. É já difícil ao Governo assegurar a conservação das habitações que atualmente possui em Bissau. Há necessidade de edificar mais casas e, a manter-se o sistema até agora seguido, mais aumentarão ainda os encargos de conservação, em desfavor da construção. Vantajoso de atribuir ao funcionário a propriedade da casa que lhe é distribuída, promovendo também a fixação do funcionário e seus descendentes.”
E para a concretização desta medida o Governo decidiu criar um Fundo de construção de casas para funcionários. São entregues ao Fundo todas as casas pertencentes ao Estado, as casas serão distribuídas a funcionários dos quadros privativos da Província e definem-se as receitas do Fundo.

No Boletim Oficial n.º 33, de 17 de agosto, consta o Decreto n.º 42 433 do Ministério do Ultramar, prende-se com a criação da Escola Técnica na cidade de Bissau em Escola Industrial e Comercial, com os seguintes cursos: Ciclo preparatório; industriais: Formação de Serralheiro, Carpinteiro-marceneiro e Montador-eletricista; Geral do Comércio e Formação Feminina.

Não se pode deixar de reconhecer o importante significado do Regulamento da alimentação, alojamento e assistência médica aos trabalhadores indígenas, é matéria que vem no Boletim Oficial n.º 37, de 14 de setembro, Portaria nº. 1147. Reconhecia-se a necessidade de estabelecer normas quanto ao abono de alimentação destes trabalhadores indígenas, havia igualmente de providenciar um sistema de alojamento quando o trabalhador se ausenta do seu meio natural para prestar serviços de longa duração. E daí ter-se aprovado o Regulamento da Alimentação, Alojamento, Vestuário e Assistência Médica, aos trabalhadores indígenas da Província da Guiné. É fixada a importância de 5 escudos diários para a alimentação deste trabalhador, a alimentação constará de, pelo menos, duas refeições diárias, a primeira entre as 11 e as 13 horas e a segunda depois de largar o trabalho. Há mesmo uma tabela para a constituição das rações alimentares destes trabalhadores em cereais, tubérculos, complementos de proteína vegetais, carne e peixe, óleo de amendoim, óleo de palma e frutos de palmeira de azeite; discrimina-se a composição do alojamento, a natureza do vestuário, a assistência médica obrigatória, a onde não falta a vacinação antivariólica e antiamarílica e discrimina-se a prevenção dos acidentes de trabalho.

Finalmente, no Boletim Oficial n.º 50, de 14 de dezembro, publica-se a Portaria 1183, era criada no Posto Agrícola de Pessubé uma escola de aprendizagem agrícola com o nome Dr. Silva Tavares. A escola terá por fim ministrar aos indígenas o ensino prático elementar agrícola, é uma escola de frequência voluntária e funciona em regime de internato. O ensino visa a: preparar profissionalmente os indígenas para as fainas agrícolas, através de instruções no campo e oficinas; aperfeiçoar, disciplinar e elevar o trabalho rural. O diploma estabelece a constituição dos cursos, o regime escolar e os períodos de frequência, os programas de ensino, a direção e pessoal docente, a admissão dos alunos, etc. etc.


Cap-Ten António Augusto Peixoto Correia, Governador da Província da Guiné
Intervenção do Estado no preço da mancarra
Cumprimentos do Novo Ano a Sua Excelência o Presidente da República
Régulo Felupe com a sua mulher
Sacerdote muçulmano de Cambor
Mandinga a descansar na rede
Cherno Alfa Alio e a sua família

Imagens retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1959

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27680: Historiografia da presença portuguesa em África (514): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1958 (72) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Com a maior discrição, a verve reivindicativa que temos notado do Boletim quase que se apagou, conquanto o responsável do Boletim avise solenemente os associados que se estava num quadro de grandes mudanças. A participação guineense do Boletim reduziu-se drasticamente, vamos ter artigos do Comandante Teixeira da Mota de cariz histórico, publicam-se as intervenções do deputado James Pinto Bull, há noticiário económico, verbera-se uma Biblioteca associativa que está vazia, chama-se a atenção dos associados para o que a Associação tem a dar, desde um fundo de assistência, apoio médico, um curso para tenistas, sucedem-se os artigos históricos tendo inclusivamente um artigo sobre o Líbano e a sua história. Conforme já informei o leitor, temos Boletim até 1966, escrevi para a Biblioteca Nacional, ali nada existe. E é tudo.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 6


Mário Beja Santos

O que posso dizer ao leitor sobre o ano de 1963 é que se alterou profundamente a natureza da escrita, é de admitir que a eclosão da guerra de guerrilhas tenha levado os associados à contenção, fruto das incertezas produzidas pelas alterações demográficas na região Sul, nas margens do Corubal, nas florestas do Morés. São convocados deputados e investigadores, chega-se mesmo a apresentar escritos de Brito Camacho e Paiva Couceiro. Logo no número de janeiro aparece um apontamento assinado pelo deputado da Guiné James Pinto Bull, sublinhando toda a conveniência em se incrementar a concessão de bolsas de estudo aos estudantes autóctones do nosso Ultramar, dizendo mesmo:
“A Guiné Portuguesa, com uma população de cerca de 530 mil habitantes, tem apenas treze indivíduos habilitados com um curso superior, o que corresponde a um formado por cada 41 mil habitantes, e onze indivíduos habilitados com um curso médio, isto é, um diplomado por cada 48 mil habitantes; encontram-se presentemente cursando escolas superiores e médias na Metrópole 36 bolseiros que terminaram os seus estudos na Província.”

É certo que se mantém o cuidado em apresentar os dados económicos sobre a exportação do amendoim, arroz, borracha, cera, coconote, couros, madeiras, óleo de palma. Está em curso na Associação um Fundo de Assistência para associados em estado de precariedade; há um clínico avençado na Associação que presta assistência médica.

Num outro número do Boletim reproduz-se a intervenção do deputado Pinto Bull na Assembleia Nacional, em 6 de fevereiro desse ano, lembra a quem está no hemiciclo que é preciso encarar mais objetivamente as aspirações da população quanto ao ensino geral, as bolsas de estudo em particular, a assistência sanitária fixa e móvel, a assistência social e os seus mais diversos aspetos; e de novo enfatiza que é muito baixo o número de guineenses com formação superior, estão praticamente ausentes de cargos diretivos no escalão médio-superior nas organizações. Fará uma desenvolvida exposição sobre o sistema educativo e apela ao crescimento das bolsas de estudo. Na sua esteira, temos uma extensa exposição do deputado José Fernando Nunes Barata sobre o estado atual do desenvolvimento da Guiné e as suas potencialidades. Outra questão marcante em diferentes números passa pela enumeração das vantagens da Unidade Económica Nacional, a política do Estado Novo demarcara até então os regimes pautais entre a Metrópole e as colónias, procurava-se a todo o transe sossegar os investidores e os proprietários e os agentes económicos em geral com alívios aduaneiros.

Chegou o momento de saudar o novo Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o ainda Coronel Tirocinado Fernando Louro de Sousa. Surge o primeiro artigo do Comandante Teixeira da Mota dedicado a Honório Pereira Barreto, este falecera em 26 de abril de 1851, portanto há 104 anos. A Associação criou uma escola de ténis. Sucedem-se os artigos sobre a história da Guiné. Faz-se um abate exaustivo das comemorações do 46.º aniversário da Associação. Reapareceu a secção “Atentos à Legislação”. Faz-se o obituário do escritor Aquilino Ribeiro. Segundo artigo de Teixeira da Mota desta vez sobre a morte de dois franciscanos martirizados em 1742. Publica-se a notícia sobre a criação da Liga dos Amigos da Guiné Portuguesa, na Metrópole. Há um número completo dedicado ao obituário de Presidente da Associação, António José Osório Flamengo. Seguramente a pensar-se na comunidade sírio-libanesa publica-se um artigo intitulado O Líbano na História.

Fica-se com a sensação de que a vida associativa deu uma reviravolta e o diretor do Boletim dedica um texto aos perigos do individualismo, texto esse que termina com uma séria advertência:
“A Guiné prestou-se idealmente aos propósitos e manejos do individualismo mais desaforado, e, tendo sido alfobre de ganhunças, houve para si apenas as migalhas do lauto festim.
Chegados ao termo de uma época particularmente favorável há reprodução de cifras em progressão geométrica, em que as preocupações eram nenhumas, as oportunidades timbravam pela constância e os problemas financeiros quase não se punham porque o crédito era fácil, temos que reconhecer a superioridade, a argúcia, a inteligência dos indivíduos para melhor manobrarem. Os factos deram-lhes razão.
Doravante, porém…
A recente e inopinada reviravolta no tradicional sistema ‘quem tem olho é rei’ e o consequente estendal de complicações e vicissitudes, supomos venha a transformar, apesar de inveterados, os hábitos anti fraternos, se é que já não destroçou a até agora solidíssima razão do cisma isolacionista – ‘chacun s’arrête’. E ninguém nos convence que do colapso ao ‘debacle’ do individualismo medeie ainda muito tempo.”


Queixa do diretor do Boletim, a Biblioteca devia estar permanentemente às moscas…
Falando por mim, tive um estremeção quando vi esta imagem, instantaneamente me ocorreu a minha vida numa enxovia, alimentação rudimentar, sempre sujeitos a faltas de toda a ordem, com a agravante de que na época das chuvas transportávamos à cabeça e às costas, cheguei mesmo a meter pacotes de esparguete nos bolsos das calças, o vinho era uma zurrapa, mas a água era Perrier ou Evian, questionei sempre, sem resposta, havendo aqui água de Carvalhelhos, do Luso, e muito mais, a que título bebíamos obrigatoriamente Perrier ou Evian.
Eram outros tempos, o tabaco dava estatuto, era prestigiante, nas décadas seguintes vieram em catadupa as doenças cancerosas, os AVC, e tudo o mais que se sabe.
Raparigas Bijagós
Mulher Nalú
Pesca à linha no rio de Sonaco

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1963

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27153: A nossa guerra em números (37): Colonos - Parte II: cabo-verdianos (uma pequena burguesia que, na Guiné, foi viveiro de militantes e dirigentes do PAIGC)


Foto nº 1 > Lisboa > s/d > Sede do BNU - Bnaco NacionalUltramarino (Hoje sede do MUDE - Museu do Design



Foto nº 2 



Foto nº 3

Lisboa > Antiga sede do BNU,  na Rua Augusta, que hoje aloja o Museu do Design   (MUDE). Esculturas de Leopoldo de Almeida (1964), que representam a expansão do BNU como banco emissor pelos antigos territórios ultramarinos portugueses, e os respetivos escudos, incluindo a Guiné (cujo escudo é o da direita, a contar de baixo para cima, inspirado no original, a seguir descrito

"Escudo composto tendo a dextra em campo de prata, cinco escudetes de azul, cada um com cinco besantes de prata em aspa e a ponta, de prata com cinco ondas de verde - pretendiam simbolizar a ligação à metrópole; a sinistra em campo de negro, um ceptro de ouro com uma cabeça de africano, alusão ao ceptro utilizado por D. Afonso V, rei de Portugal à época da exploração da região. Brasão de armas simplificado, de 8 de maio de 1935 a 24 de setembro de 1973."

Fonte: BNU. (Reproduzido com a devida vénia...)

Foto nº 4 > Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa, antigo embaixador da República de Cabo Verde em Roma. 

Foto (e legenda): © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. 8Edição: LG]


1. Os colonos na África Portuguesa não eram só cidadãos portugueses da metrópole, mas também das ilhas atlânticas (Madeiras, Açores e Cabo Verde) e igualmente estrangeiros como os libaneses, ou sírio-libaneses (oriundos do antigo império otomano, que emigraram para a África Ocidental nos anos de 1910/20) (*) sem esquecer os luso-indianos de Goa, Damão e Diu, e até os macaenses. 

Já aqui destacámos o papel dos sírio-libaneses, "comerciantes e empreendedores" (*), e falámos da sua presença na Guiné até à independência (em 1974). Falemos agora de outros grupos e comunidades, começando pelos cabo-verdianos (que eram, na altura,  cidadãos portugueses, a quem não se aplicava o famigerado estatuto do indigenato).


(i) Funcionários e Trabalhadores: A Diáspora Cabo-Verdiana

A emigração de cabo-verdianos para as outras colónias portuguesas em África foi um fenómeno de grande relevo.

Impulsionados por secas e fomes cíclicas (1901-1904, 1920-21, 1941-43,  1947/49) e pela escassez de recursos (agricultura, indústria, educação, saúde, emprego, transportes,  etc.) no seu arquipélago, 
muitos cabo-verdianos procuraram melhores condições de vida na Guiné, em Angola, Moçambique e, especialmente, em São Tomé e Príncipe, onde chegaram a constituir uma parte significativa da população. (Para além de terem emigrado para Portugal, Holanda, EUA.)

Dada a sua familiaridade com a língua e a administração portuguesas, foram frequentemente empregados em cargos de baixa e média hierarquia na função pública, nos correios,  nas alfândegas, na banca, bem como em atividades comerciais, transportes marítimos, etc. e em geral como mão de obra qualificada.

Esta posição intermédia na hierarquia social colonial era, por vezes, fonte de tensões com as outras comunidades como aconteceu na Guiné-Bissau, antes e durante a guerra colonial, bem como depois da independência (golpe de Estado de 'Nino' Vieira,  primeiro-ministro, contra o presidente da república, Luís Cabral, em 14 de novembro de 1980, em que os cabo-verdianos foram "demonizados").

Os cabo-verdianos tiveram um papel importante na colonização da África portuguesa, e em especial a Guiné, onde foram comerciantes, "ponteiros", e ocuparam lugares de nível médio (na administração civil, banca, correios, educação, etc.).

A presença e o papel dos cabo-verdianos na colonização da África portuguesa, especialmente na Guiné, foram marcantes e multifacetados. Desde o início da ocupação portuguesa na África Ocidental, a história da Guiné e de Cabo Verde esteve profundamente entrelaçada, não apenas por laços geográficos, mas também por interesses económicos e sociais compartilhados.

Em boa verdade,  a Guiné  foi tratada como uma "dupla colónia", sendo administrada  por  Cabo Verde até 1879, altura em que foi separada das ilhas, passando a ser governada autonomamente.

Os cabo-verdianos atuaram como comerciantes, estabelecendo-se principalmente na zona costeira e nas margens dos rios guineenses, donde desenvolveram intensas atividades mercantis. Esses comerciantes envolveram-se no tráfico de escravos (até meados do séc- XIX), além de serem depois  detentores de lojas e proprietários de transportes coletivos, fluviais e rodoviários, exercendo influência significativa no mercado local.

Além do papel comercial, muitos cabo-verdianos ocupavam posições médias na administração colonial: eram funcionários na banca, nos correios, na educação, e em outros setores de serviços públicos. Na realidade, ocuparam lugares que os portugueses da metrópole não queriam, devido à "má fama" do território (insegurança, atraso, clima, paludismo e outras doenças tropicais, etc.). 

Registe-se, a par disso, a atividade agrícola como “ponteiros”, ou sejam,  
pequenos agricultores que exploravam "pontas" (geralmente hortas, pequenas quintas), em zonas férteis, nas bacias hidrográficas: Cacheu. Mansoa, Geba, Corubal, Buba, etc.

 Os cabo-verdianos na Guiné também foram proprietários de pequenas embarcações e prestadores de serviços de transporte local. Esses serviços fluviais e costeiros eram essenciais para a interligação das comunidades em regiões onde o rio e o mar eram os principais meios de circulação.

Essa posição como donos e operadores de embarcações permitiu_lhes  ser intermediários cruciais nas trocas comerciais e no transporte de pessoas e mercadorias. 

Por estarem nessa interface, os cabo-verdianos mantinham uma relação próxima com o poder colonial, já que facilitavam a logística e o funcionamento dos mecanismos administrativos e económicos do regime português.

Além disso, essa função conferia-lhes um papel importante como intérpretes culturais, sociais  e económicos, mediando entre as autoridades coloniais e as populações locais de diversas origens étnicas e culturais. 

Essa mediação contribuía para que os cabo-verdianos se posicionassem como uma ponte social, favorecendo a comunicação, negociações e intercâmbios entre diferentes grupos dentro do contexto colonial.

É importante destacar ainda a forte componente crioula presente nesse contexto, já que boa parte dos  grupos intermediários que atuavam nesses espaços eram de origem mista, fruto de séculos de convivência e intercâmbio entre Cabo Verde e a região da Guiné. Essa dinâmica reforçou a ligação social e cultural entre ambas as regiões. Por exemplo, Amílcar Cabarl, nascido em Bafatá em 1924, era filho de pai cabo-verdiano, o professor primário Juvenal Cabral, e de mãe guineense, de etnia fula, Iva Pinhel Évora.

Em resumo, os cabo-verdianos desempenharam um papel crucial na economia e na administração da África portuguesa, especialmente na Guiné, forma verdadeiros marginais-secantes, exercendo funções estratégicas como comerciantes, ponteiros, donos de barcos de cabotagem e ocupantes de cargos de nível baixo e médio na sociedade colonial.
 
Sublinhe-se que a atuação dos cabo-verdianos na sociedade colonial da Guiné foi muito além do comércio e da administração, incluindo também um contributo notável na agricultura de pequena escala e de subsistência.


Apresenta-se a seguir um esquema detalhado sobre o papel dos cabo-verdianos na colonização da Guiné, então colónia portuguesa, com enfoque no século XX, complementada por alguns exemplos históricos


(ii) Papel dos cabo-verdianos na Guiné colonial (séculos XIX e XX)

1. Intermediários, "lançados" e gestores comerciais

  • Desde os séculos XVI e XVII, muitos cabo-verdianos, especialmente mestiços e "lançados",  atuavam como intermediários comerciais ao longo da costa da Guiné; filhos de colonos com mulheres africanas, esses indivíduos formavam uma classe de “lançados” que facilitava o trânsito de mercadorias, escravos e informações entre as ilhas e o continente; eles eram peças cruciais na economia regional, estabelecendo redes comerciais e vínculos sociais locais;

  • Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné (1675), criada em Portugal, conferia privilégios aos residentes de Cabo Verde, mesmo sob monopólio, permitindo-lhes embarcar seus próprios produtos e manter certa autonomia comercial na costa da Guiné.

2. Agricultores ("ponteiros"), grandes proprietários, comerciantes e navegadores fluviais

  • O termo “ponteiros” (donos de “pontas”, pequenas explorações agrícolas em zonas férteis) e grandes proprietários agrícolas, como os envolvidos na produção de arroz, corresponde exatamente à presença de cabo-verdianos que, aproveitando zonas férteis nas bacias hidrográficas, ocuparam-se com a agricultura;

  • Além disso, muitos eram donos de embarcações, que operavam as ligações fluviais, essenciais na mobilidade de pessoas e mercadorias na Guiné.

Embora menos documentado com nomes específicos, esse conjunto de funções estava bem representado na elite cabo-verdiana que ocupava o espaço colonial de forma bastante atuante. (A IA não sabia o que eram "ponteiros", tive que lhe explicar... Há subtilezas da nossa língua e da nossa história, que lhe escapam: como também sabia não distinguir "régulo", termo que só existia na Guiné e em Moçambique, e não em Angola).

Historicamente, o termo "ponteiro" está ligado ao sistema de "pontas", que remonta ao período colonial. Estas "pontas" eram inicialmente zonas de controlo comercial, tendo depois evoluído para explorações agrícolas. A relação entre os "ponteiros"  e os  "tabanqueiros", nem sempre terá sido  isenta de tensões e conflitos,  originando dispustas por terras com criadores de gado (nomeadamente,fulas).

3. Funcionários públicos (pequenos e médios), ensino, correios, banca

  • No século XX, especialmente entre 1920 e 1940, mais de 70% dos postos no sector público da Guiné eram ocupados por cabo-verdianos ou seus descendentes; isso incluía cargos administrativos, ensino primário, correios, banca e outros serviços públicos.

  • Esses emigrantes, escolarizados, foram incorporados ao sistema colonial português, prestando um apoio técnico essencial à administração e à expansão estatal.

4. “Crioulização social” e intelectuais cabo-verdianos, ou de origem cabo-verdiana

  • A chegada massiva de cabo-verdianos à Guiné no início do século XX deu origem a uma "crioulização social", um processo que aproximou as sociedades cabo-verdiana e guineense: o elemento cabo-verdiano funcionava como uma ponte entre colonos e indígenas.

  • Alguns exemplos notáveis na área intelectual, cultural,  educacional e política incluem:

    • Fausto Duarte (1903-1953), romancista;

    • Juvenal Cabral, pai de Amílcar Cabral; professor

    • Fernando Pais de Figueiredo: professor primários; ele e o Juvenal Cabral defenderam a expansão e a melhoria do sistema educativo para a população guineense;

    • Amílcar Cabral (1924-1973) (imagem à direita);

    • António Carreira (1905-1994), administrador , investigador, escritor;

    • Artur Augusto Silva (1912-1983), advogado, escritor, jurista, especialista em direito consuetudinário, casado com Clara Schwarz (1915-2017), professora no liceu Honório Barreto;

    • Não sei exatamente quantas senhoras brancas viviam em Bambadinca no meu tempo (1969/71), mas algumas eram cabo-verdianas, como por exemplo  a professora do ensino primária, que raramente era vista, mas que vivia dentro das nossas instalações militares, no edifício da escola, a dona Violete da Silva Aires e sua mãe; muitos alunos se lembram dela, e que depois foram quadros importantes da Guiné-Bissau (de jornalistas a engenheiros),

    • Carlos Silva Schwarz (1949-2012),  engenheiro agrónomo, director executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau, particularmente ativo depois da independência; membro da nossa Tabanca Grande.


5. Exemplo histórico destacado: Honório Barreto

Resto da estátua do Honório Barreto.
 Foto: João Melo (2025)



  • Um caso emblemático é o Honório Barreto (1813-1859), de ascendência cabo-verdiana por parte de pai, que exerceu funções elevadas como governador da Colónia Portuguesa da Guiné entre 1852 e 1859;  dirigiu a administração, investiu em agricultura, comércio, educação e saúde e até liderou esforços militares para preservar  o controle português, ao mesmo tempo que os seus negócios de família no Cacheu (incluindo o tráfico de escravos). 

  • A sua figura foi muita mal tratada por gente boçal do PAIGC, a seguir à independência.



6. Resumo

Função / Papel | Detalhes / Exemplos
  • Comerciantes e "lançados" | Ativos nas rotas comerciais da Guiné, frequentemente mestiços com redes locais;
  • Ponteiros / Agricultores / Donos de embarcações de cabotagem | Pequenas explorações e produção de arroz; donos de embarcações nas rotas fluvial;
  • Funcionários da administração colonial | Entre 1920–1940, os cabo-verdianos ocupavam >70% dos cargos públicos; foram administradores e chefes de posto, etc.
  • Empregados e quadros intermédios de importantes casas comerciais como a Gouveia e a Sociedade Ultramarina (ligada ao BNU) | Luís Cabral (***)
  • Intelectuais e professores | Fausto Duarte, Juvenal Cabral, Amílcar Cabral, Fernando Pais de Figueiredo, entre outros.
  • Governança e elite local | Honório Barreto (1813-1859): governador, empresário, administrador da Guiné colonial; filho de mãe guineense e de pai cabo-verdiano

~
Luís Cabral (1931-2009)

Enfim, uma pequena burguesia onde o PAIGC foi buscar muitos dos seus primeiros militantes e dirigentes,  a começar pela família e clã Cabral (Amílcar, Ana, Luís, Lucette Andrade, etc.)

Este é ponto central da história social e política da Guiné-Bissau no século XX: a pequena burguesia cabo-verdiana radicada na Guiné, formada por comerciantes, funcionários públicos, professores, empregados de casas comerciais e pequenos proprietários agrícolas. foi decisiva tanto para o funcionamento do sistema colonial como para a génese da luta de libertação. (**).

Ainda a talhe de foice, lembre-se os nomes de Aristides Pereira, que era chefe da Estação Telegráfica dos CTT, e o Fernando Fortes era o chefe da Estação Postal, na prática os "donos" dos CTT , em Bissau.


PS - É difícil saber, com rigor, qual era a população cabo-verdiana (ou de origem cabo-verdiana) na Guiné nos anos de 1950, 60 e 70 (***)

(Pesquisa: IA / Gemini / Perplexity / ChatGPT LG | Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


___________________


(**) Último poste da série > 22 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27141: A nossa guerra em números (36): Auxiliares da administração colonial: régulos, sobas e liurais...

(***) Estimativa do assistente de IA / Gemini. Pesquisa, revisão / fixação de texto:   LG


População Cabo-Verdiana na Guiné-Bissau em Meados do Século XX: Números e Proporções


Na metade do século XX, a presença de cabo-verdianos na então Guiné Portuguesa era uma realidade demográfica significativa, especialmente nos centros urbanos e na administração colonial. 

No entanto, a quantificação precisa dessa população, bem como a sua proporção em relação ao total de habitantes, enfrenta desafios devido à natureza dos registos da época, que distinguiam a população entre "civilizada" e "não-civilizada".

Com base nos dados disponíveis, é possível apresentar uma estimativa detalhada para 1950 e informações mais gerais para 1960 e 1970.

(i) 1950: Uma Presença Notável no Estrato "Civilizado"

No censo de 1950, a população total da Guiné Portuguesa foi registada em 517.290 habitantes. Deste total, a esmagadora maioria, 508.970 indivíduos, era classificada como "não-civilizada".

A população "civilizada" ascendia a 8.320 pessoas (1,61% do total), e é neste grupo que os dados permitem uma análise mais detalhada da presença cabo-verdiana. 

De acordo com estudos demográficos da época, nomeadamente os do investigador António Carreira, os cabo-verdianos representavam uma fatia importante deste estrato:

  • População de origem cabo-verdiana: Cerca de 1.478 indivíduos.

  • Proporção de cabo-verdianos na população "civilizada": Aproximadamente 17,8%.

  • Proporção de cabo-verdianos na população total: Cerca de 0,29%.

Esta expressiva percentagem na população "civilizada" reflete o papel que muitos cabo-verdianos desempenhavam como funcionários públicos, comerciantes e em outras profissões liberais na estrutura colonial.

(ii) 1960: Crescimento Populacional e Lacunas nos Dados Detalhados

Em 1960, a população total da Guiné Portuguesa era de aproximadamente 525.437 habitantes, um ligeiro aumento em relação à década anterior. Contudo, os dados detalhados sobre a composição da população "civilizada" por naturalidade para este ano são mais difíceis de apurar a partir de fontes abertas.

Embora o censo de 1960 tenha sido realizado e analisado em publicações como o "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa", os números exatos da população de origem cabo-verdiana não estão facilmente acessíveis. É razoável presumir que a tendência de uma presença cabo-verdiana significativa nos centros urbanos e na administração se mantivesse, mas a sua quantificação precisa para este ano permanece um desafio.

(iii) 1970: O Impacto da Guerra e a Incerteza Estatística

A década de 1970 foi marcada pela intensificação da guerra de libertação/guerra colonial, o que torna os dados demográficos para este período particularmente complexos e, por vezes, divergentes. As estimativas para a população total em 1970 variam consideravelmente, situando-se entre 571.000 (550.000 a 600.000 habitantes para 1970 seria uma estimativa  mais realista e alinhada com os dados históricos).

A realização de um censo em 1970 é documentada, mas a sua execução e a fiabilidade dos dados em todo o território foram certamente afetadas pelo conflito em curso. Além disso, a abolição do estatuto do "indigenato" em 1961 alterou as categorias de recenseamento, o que dificulta uma comparação direta com os censos anteriores.

Não foram encontrados dados específicos que permitam quantificar a população de origem cabo-verdiana na Guiné-Bissau em 1970. É de notar que, durante a luta pela independência, a relação entre as populações da Guiné e de Cabo Verde foi complexa, com muitos indivíduos de origem cabo-verdiana a participarem ativamente no movimento de libertação (PAIGC), que lutava pela independência de ambos os territórios.

Em suma, enquanto para 1950 é possível apresentar um retrato relativamente claro da população cabo-verdiana dentro do quadro estatístico da época, para 1960 e 1970 os dados são mais escassos, impedindo um cálculo preciso da sua dimensão e proporção na população total da Guiné-Bissau.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27098: Facebook...ando (92): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte IX: Praça Che Guevara (antiga Praça Honório Barreto)

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Av Domingos Ramos (via Praça dos Mártires)

Foto nº 1A > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Av Domingos Ramos (via Praça dos Mártires) > Hotel K / Hotel Kalliste, restaurante  e esplanada

Foto nº 2> Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Rua Eduardo Mondlane (via Rua Osvaldo Vieira) 


Foto nº 2A > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Rua Eduardo Mondlane (via Rua Osvaldo Vieira) > Restaurante Chinês Bar Bayana


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Rua Eduardo Mondlane (via Av Amílcar Cabral)



Foto nº 3A  e 3B > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Rua Eduardo Mondlane (via Av Amílcar Cabral) > Centre Culturel Franco bissau guinéen (Centrro Cultural Franco-bissau-guineense)


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Av Domingos Ramos  (via Av  Francisco Mendes) > 


Foto nº 4A > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara / Av Domingos Ramos  (via Av  Francisco Mendes) > Farmácia



Foto nº 5 e 5A > Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara  > Efígie e placa: "Praça Ernesto Guevara, 'Che' "


Foto nº 6 > Guiné-Bissau >  Região do Cacheu > Cacheu > Fortaleza do Cacheu > Parte da antiga estátua do Honório Barreto, uma figura da história da Guiné-Bissau, vista pelo partido independentista como um "simbolo do esclavagismo e da opressão colonial" e liminarmente rejeitado e diabolizado: a sua estátua foi apeada e parcialmente destruída, o liceu que tinha o seu nome foi "rebatizado" (subtituído por uma das figuras do pan-africanismo),  enfim, como sempre, "deitou-se fora a água do banho com a criancinha"...  

A história é sempre um parto violento... Cabe agora aos historiadores (e aos guineenses) "redescobrir" o Honório Barreto na sua complexidade e no contexto do seu tempo, reconhecendo-o como uma importante e paradoxal figura da proto-história da Guiné-Bissau. Ele também faz parte do processo de nascimento da nação...

Fotos (e legendas): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Bissau > s/d [c 19690/70] > "Praça Honório Barreto e Hotel Portugal"... Bilhete postal, nº 130, Edição "Foto Serra" (Colecção "Guiné Portuguesa") (Detalhe). Colecção: Agostinho Gaspar / Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010)

Agora a Praça chama-se Che Guevara (vd. mapa do Google)... e o antigo Hotel Portugal agora é o Hotel Kalliste (vd. foto nº 1). A estátua do Honório Barreto foi derrubada e levada (o que restou)  para a fortaleza do Cacheu (Foto nº 6).



João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74):

(i) é profissional de seguros, vive em  Alquerubim,  Albergaria-a-Velha;

(ii) viaja regularmente, desde 2017, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente, o clube de futebol local);

(iii) regressou há pouco mais de 2 meses  da sua viagem deste ano de 2025;

(iv) tem página no Facebook (João Reis Melo);

(vi) tem mais de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.

1. Na sua viagem, em maio passado, de Bissau a Cumbijã, no sul, na região de Tombali, o nosso grão-tabanqueiro João Melo, passou por várias das nossas geografias emocionais... E fotografou esses lugares (Bissau, Quinhamel, Bula, Susana, Cacheu, Bambadinca, Saltinho, Buba, Mampatá, Cumbijã...).

 Temos procurado, com a sua autorização, fazer uma seleção das suas melhores imagens. Ele tornou-se um grande conhecedor e um excelente cicerone da atual Guiné-Bissau. 

2. Excerto da página do Facebook do João Reis Melo, postagem de 25 de julho de 2025, 15:29

“Retalhos de uma passagem pela Guiné-Bissau:

"A antiga Praça Honório Barreto em Bissau, atual Praça Ernesto Guevara “Ché”, é uma praça com rotunda uniforme e quatro vias perfeitamente delineadas que são o resultado do cruzamento das Avenida Domingos Ramos e a Rua Eduardo Mondlane.

"Quando foi desenhada, atribuiram-lhe o nome   de Honório Barreto, e lhe foi ali erigido um monumento em sua homenagem,  uma estátua em bronze construída em 1958 e que,  hoje, está depositada na Fortaleza de Cacheu. No antigo pedestal, restaurado ou reaproveitado,  foi colocada uma efígie do 'Che' Guevara e uma placa com o seu nome (Ernesto Guevara, 'Che').

"Honório Pereira Barreto (1813-1859), filho de pai cabo-verdiano e mãe guineense, nasceu na fortaleza de Cacheu, onde o pai estava como capitão-mor, atingindo depois os mais altos cargos da antiga província ultramarina portuguesa e falecendo na fortaleza de São José de Amura, em Bissau, onde estava como capitão-mor.

Apresento-vos fotos de minha autoria da mesma praça tiradas em maio passado."

(Revisão / fixação de texto: LG)