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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Maio de 1973 > Casa  de tipo colonial, situada na avenida. Em primeiro plano, a Maria Helena Gamelas, a um mês de regressar à metrópole, já grávida.


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Janeiro de 1972 > "Extremo norte da Avenida. Dentro do perímetro da estátua a Teixeira Pinto, o alf mil  Francisco Gamelas e o alf mil Joaquim Correia Pinto, meu camarada de quarto. Nesta zona situavam-se as casas de comércio de libaneses." (Pela data, janeiro de 1972, o Joaquim Correia Pinto deveria pertender à CCS/BCAC 3863 (1971/73).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  Extremo Sul (à saída do aquartelamento) da avenida de Teixeira Pinto (Vd. foto nº 4) . Na abertura para a direita, a 50 metros, ficavam os correios, com serviço de telefone


Foto nº 6 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo (a nordeste de Teixeira Pinto).



Foto nº 7A e 7 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "Cine Canchungo, situado no início da avenida, próximo do Quartel, sobre a via ascendente (esquerda), numa praça que se abria entre o Cine  e a Casa da Assembleia do Povo, edifício paralelo a este, sobre a esquerda da fotografia. A antiga vila foi elevada a cidade pelo Ministro do Ultramar, Silva Cunha,  em 24 de julho de 1973."


Foto nº 8 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "A 'oficina' do Pelotão Daimler,  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o 'milagre de manter as viaturas sempre operacionais. 

"Chegámos a ter  duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para  'canibalizar'. Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão". (Em segundo plano, "a casa do chefe da PIDE/DGS".) 


Foto nº 9 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089 > Da esquerda para a direita,  José Eduardo Alves,  Gonçalo Garcia Pedroso, David da Silva Miranda, Lino Pereira Barradas, Manuel Lucas dos Santos, José Gabriel Caloira...


Foto nº 10 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos. > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089  > Da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.

No regresso do Pel Rec Daimler 3089, faltam o Alberto da Conceição (que também viajou connosco mas não ficou nesta foto de grupo), o José Matos (evacuado para a metrópole na primeira metade da comissão), o Manuel Ferreira (que substituiu o José Matos, e que ficou ainda lá, a completar o tempo de serviço) e o 1º sargento Rui Baixa (que ficou na Guiné).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Francisco Gamelas foi um dos nossos camaradas que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena) (*), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho, vila elevada a cidade em julho de 1973), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico,  ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador), lavadouro público, etc.

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas,  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.


Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.   


2. Neste seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973",  pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss-.)

(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)


3. O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeira, a Aline (**): era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria", passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render... 

Dedica-lhe inclusive um ternurento poema, "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que voltamos a reproduzir  a seguir.

O autor também tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... 

A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a Aline... E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... 

Sabemos que muitas das nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, não se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira (poderia custar 50 a 100 pesos por mês)... Muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... Sempre poupavam patacão... para a cerveja. 

E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão), a roupa  estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, em Teixeira Pinto, em Nova Lamego e em muito poucos mais sítios, por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica", como o caso do Francisco e da Lena...
 

A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento, num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir do que “herdou”.

Francisco Gamelas

In: "O
utro olhar - Guiné 1971-1973",
ed. de autor, Aveiro, 2016, p. 53


4. O testemunho do Francisco Gamelas (que, de resto, já era formado em engenharia pelo ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto) é um retrato vivo daqueles tempos, cheio de deliciosos detalhes que só quem lá esteve se pode lembrar e descrever. 

A história da Aline, a lavadeira que se tornou quase família, é um exemplo perfeito de como, mesmo no meio da guerra, no mato, se criavam laços humanos profundos e rotinas que davam alguma normalidade à vida.  

A figura da Aline, pela foto e pelo poema,  é fascinante. Ela não era apenas uma lavadeira: era uma ponte entre dois mundos. O facto de o Francisco se lembrar do nome dela (!), quatro décadas depois, e de lhe dedicar um poema, mostra como essas relações iam além do serviço doméstico. Eram relações de confiança, dependência mútua e até afeto.

Tal como em Bambadinca e noutros sítios, as lavadeiras "passavam" de um militar para outro, como se fosse parte do posto, e de acordo com a hierarquia militar.  A lavadeira de um antigo capitão não podia " baixar de posto", passando a trabalhar para um alferes... 

O mesmo se passava em Angola, segundo o testemunho do meu amigo Jaime Silva, alferes paraquedista. Isso reflete uma realidade comum nos diferentes TO da  guerra colonial: as populações locais adaptavam-se à presença estrangeira, criando pequenos negócios ou serviços que, por sua vez, tornavam a vida dos militares e suas famílias um pouco mais suportável.

Na Guiné, ao contrário de Angola ou Moçambique, as mulheres (fulas, mandingas, manjacas...)  teriam um papel mais ativo,  assumindo sobretudo a tarefa de lavadeiras.  Eram oriundas, de resto, de sociedades patriarcais, onde o lugar da mulher estava mais codificado.  Elas eram donas da economia doméstica.

Histórias como a da Aline ou da Maria Helena (***) são fragmentos de humanidade que a guerra não conseguiu apagar. Elas mostram que, mesmo em situações extremas, as pessoas criam laços, constroem rotinas e encontram formas de existir,  resistir e sobreviver.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Os volumes que guardam o Boletim Oficial da Guiné estão descaradamente a engordar, e 1961 é a prova provada que o Ministério do Ultramar está afanosamente a apagar o Império e a dar corpo jurídico a um Portugal que vai de Minho a Timor, a legislação governamental está a crescer desmesuradamente, a despeito do Governo da Guiné continuar a definir os preços de compra e venda de arroz com casca e descascado, a alertar para a campanha contra a tuberculose, fruto da transformação do Portugal colonial num Portugal ultramarino e multirracial, ao aparecimento de comissões municipais, ao reforço da Polícia de Segurança Pública com companhias móveis de polícia. É neste quadro que o Ministro do Ultramar (Decreto-Lei n.º 43893) elabora o quadro explicativo para que de um dia para o outro deixe de haver indígenas e passe a haver cidadãos portugueses. Como é evidente, o aparelho do Ministério da Defesa vai-se adaptando às contingências da guerra em África, no Decreto-Lei n.º 43914, o Ministro da Defesa Nacional manda centralizar na Agência Militar todas as operações que impliquem transferências de fundos entre a metrópole e as províncias ultramarinas respeitantes aos serviços militares. No futuro, os familiares de quem combate em África irão à Rua D. Estefânia em Lisboa buscar as pensões dos seus maridos e filhos, isto no caso da região de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1961 (75)


Mário Beja Santos

Os volumes anuais do Boletim Oficial da Guiné são cada vez mais opulentos no peso, grande parte para não dizer toda a legislação que afeta o Ultramar é inscrita ao lado do que se passa na colónia da Guiné. Adivinha-se que há cada vez mais gente na colónia, basta ler as colocações, nomeações, promoções, propostas de financiamentos, gratificações, autorizações de férias, avisos de recenseamentos… surgem até medidas para disciplinar os folguedos carnavalescos e multiplicam-se os concursos públicos para empreitadas; continua também o acompanhamento da política de pesos. Não tanto como os anos seguintes, há já a sombra da subversão, chegam contingentes militares, criam-se policiamentos locais e anunciam-se viagens gratuitas para as mulheres de oficiais; e não param os acórdãos nos altos de recurso e decisões do Conselho Superior de Disciplina Militar. Vejamos a tomada de medidas desde o princípio do ano.

Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 7 de janeiro, por despacho, são mantidos durante o ano os preços de compra e venda de arroz com casca e descascado mecanicamente. O Governador determina que é permitida a aquisição ao produtor indígena de arroz de pilão num conjunto de localidades, o trânsito deste arroz nas áreas onde é permitida a aquisição ao produtor indígena é regulado pela autoridade administrativa local, sendo o arroz obrigatoriamente acompanhado de guias.

No Boletim Oficial n.º 3, de 21 de janeiro, publicam-se normas para o fornecimento de oleaginosas alimentares, a medida é emanada dos Ministérios do Ultramar e da Economia: é fixado um contingente de 40 000 toneladas de mancarra da Guiné para abastecimento da metrópole. Neste mesmo Boletim Oficial é publicada a Portaria n.º 1302 em que se anuncia a campanha contra a tuberculose em que a Fundação Gulbenkian contribui com uma substancial ajuda material e financeira. “É necessário, finda a primeira fase desta campanha contra a tuberculose, caracterizada pelo trabalho intensivo, tendo como finalidade a avaliação da incidência da doença sobre as populações da Guiné, continuar tal trabalho em ritmo possivelmente mais lento, mas dentro das mesmas normas, para tratar dos doentes dispersos entre a população da província foi criado um lugar de tisiologista.”

No Boletim Oficial n.º 24, de 26 de junho, Decreto-Lei dos Ministérios do Interior, das Finanças e do Ultramar, visa o reforço da Polícia de Segurança Pública com companhias móveis de polícia, e explicam-se todos os requisitos.

No Boletim Oficial n.º 32, de 12 de agosto, mexe-se com alguma profundidade na organização administrativa, pelas Portarias n.ºs 1358 e 1359. Pela primeira são criadas Juntas Locais em diferentes postos administrativos; o segundo é de maior complexidade, atenda-se à nota explicativa:
“Os concelhos de Bissorã, Cacheu, Catió, Farim, Mansoa e Gabu, com sedes, respectivamente nas vilas de Bissorã, Teixeira Pinto, Catió, Farim, Mansoa e Nova Lamego, atingiram já o desenvolvimento económico e social previsto na lei, de modo a justificar a criação, nas suas sedes, de comissões municipais, por nas suas áreas existirem povoações com forte aglomeração de população civilizada, actividade mercantil e industrial intensas, e numerosos edifícios com boas condições de aspecto, duração e higiene”.
Por estas razões são criadas comissões municipais.

Vejamos agora o Boletim Oficial n.º 38, de 27 de setembro, Decreto-Lei n.º 43893, tem a ver com o Estatuto do Indigenato, convém ler o que vem no preâmbulo:
“O problema do Estatuto dos Indígenas assume grande relevância na conjuntura política actual e porque tal diploma nem sempre tem sido atingido de modo a fazer-se justiça às razões e intenções que o determinaram, há vantagem nalgumas considerações sobre os motivos que deram origem à já tradicional existência, no Direito português, de um diploma que especialmente se ocupasse da situação jurídica dos chamados indígenas.
Em primeiro lugar deve salientar-se a tradição portuguesa de respeito pelo direito privado das populações que foram incorporadas no Estado a partir do movimento das descobertas e a que demos o quadro nacional e estadual que desconheciam e foi elemento decisivo da sua evolução e valorização no conjunto geral da humanidade. A permanente atitude respeitadora do direito privado corresponde à convicção de que tal direito exprime os valores fundamentais de qualquer comunidade e nunca lhe pusemos os limites que não fossem os derivados dos princípios superiores da moral que mais tarde foram reconhecidos pelas Declarações Universais dos Direitos do Homem (…) Mas foi sobretudo a implantação de conceito de Estado, a que eram alheios os territórios a onde, sem violência, se estendeu a soberania portuguesa, que levou a formular lentamente um conjunto de exposições que depois viriam a ser sistematizadas no Estatuto dos Indígenas. Dispersa a Nação por todos os Continentes, entrando em contacto com as mais variadas gente e culturas, acolhendo a todos com igual fraternidade, foi necessário estabelecer um conjunto de preceitos que traduzissem a ética missionário que nos conduziu em toda a parte com fidelidade à particular maneira portuguesa de estar no Mundo. Os imperativos legais destinados a proteger as populações que entravam no povo português vieram a constituir um todo harmonioso, onde o respeito pela dignidade do homem, expressa nas formas tradicionais da propriedade, da família e das sucessões, se tornou um imperativo para todos os agentes, públicos os privados, da acção ultramarina portuguesa.”


Estou em crer que se trata da mais espantosa forma de ficção de imaginar como foi e como evoluiu o Império, aqui paraninfado como um todo harmonioso; contudo, como a legislação vai prever, havia que revogar o Estatuto dos Indígenas, o mundo era outro e a defesa do Império requeria uma adequação subtil, que o leitor nunca mais se esqueça deste Decreto-Lei n.º 43893 do Gabinete do Ministro do Ultramar. Estávamos em setembro de 1961, as Nações Unidas insistiam que o Governo apresentasse elementos comprovativos de que Portugal não tinha colónias ou territórios administrados, coube a Adriano Moreira ir soterrando as peças comprovativas do Império Colonial Português, este Decreto-Lei é uma peça exemplar de como se dava a cambalhota, como se escreve em determinado ponto:
“Foi da sábia e oportuna conjugação de dois factores – respeito pelos usos e costumes locais e vincado propósito de assimilação – que resultou a harmoniosa sociedade multirracial que se contém nos limites do território português e que, mau grado as fáceis e interessadas críticas dos nossos detractores de hoje, constitui um dos maiores serviços jamais prestados à dignificação do homem. Continuá-lo representa imperativo de consciência a que não sabemos furtar-nos, e daí que, embora naturalmente preocupados com os escolhos e dificuldades que abundantemente se colocam no nosso caminho, persistimos em seguir na mesma linha de rumo.”

E chega-se agora à pirueta que procura dar lógica à revogação do Estatuto dos Indígenas:
“Considerou-se que o condicionalismo político e social das nossas províncias da terra firme da África permite já hoje dispensar muitas das normas que definiam o mecanismo de protecção das populações inteiramente confiadas ao Estado, e que haveria vantagem em generalizar o uso de mais latos meios para a gestão e defesa, dos seus próprios interesses e, também, para a participação na administração dos interesses locais.”
Reza o diploma que a decisão da revogação do Estatuto dos Indígenas se baseia nas conclusões de trabalho e que mereceu o voto unânime do venerando Conselho Ultramarino. E com este passo de mágica deixou de haver indígenas e todos os africanos das nossas colónias passaram a ser portugueses de gema.

1 de junho de 1961, regresso da metrópole do Governador da Guiné, Peixoto Correia, partirá em 1962, ano em que tomará posse como Ministro do Ultramar. Imagem retirada da RTP Arquivos, com a devida vénia
1952, a Rapariga Manjaca do regulado de Tame, idade aproximada 16 a 18 anos, escarificações feitas há cerca de 2 anos.
No “chôro” mancanha
O artista manjaco Sugá Mendes
Mancebos Felupes

Quatro imagens retiradas do Boletim Oficial da Guiné Portuguesa, ano 1961

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27725: Historiografia da presença portuguesa em África (516): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1960 (74) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26465: Por onde andam os nossos fotógrafos? (39): Zeca Romão, de Vila Real de Santo António, ex-fur mil at inf, CCAL 3461 / BCAÇ 3963 e CCAÇ 16, Teixeira Pinto e Bachile, 1971/73) - Parte I

 


Foto nº 1 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 > s/d  (c. 1972/73) > O Zeca Romão junto a um obus 10,5, do 21º Pel Art 


Foto nº 2 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 > s/d (c. 1972/73) > O Zeca Romão  examinando uma granada de obus 10,5 cm.


Foto nº 3 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 >  1972 > Helicanhão pousado na pista

Foto nº 4 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 >  s/d (c. 1972/73) > Brincando um macaco-cão.

Foto nº 5 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 >  s/d (c. 1972/73) > Um frágil perímetro de defesa com bidões cheios de areia.

Foto nº 6 > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 >  s/d (c. 1972/73) > Um algarvio com saudades da sua terra, lá longe, a 4 mil km.

Foto nº 7  > Guiné > Zona Oeste > Sector 05 (Teixeira Pinto) > Bachile > CCAÇ 16 >  1973 > O destacamento que tem todo o aspeto de ter sido construído de raíz pelo BENG 447.


Fotos (e legendas): © José Romão (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada José Romão, de Vila Real de Santo  António, tem um especial carinho pela sua terra, as suas gentes, as suas tradiçóes, o seu património...  E tem uma segunda terra, a Guiné-Bissau, e em especial o "chão manjaco", do qual  guarda "recordações inesquecíveis" do tempo em que foi fur mil at inf, CCAÇ 3461 / BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, e CCAÇ 16, Bachile, 1971/73.

Tem 17 referências no nosso blogue. É membro da Tabanca Grande  desde 20/6/2010. Tem página no Facebook. Foi atleta na sua juventude. É um fotógrafo compulsivo. Tem centenas e centenas de fotos no seu Facebook. Estamos a recuperar as da Guiné, todas dispersas. Serão reeditadas e publicadas no blogue,  com a devida vénia.

2. Recorde-se que a CCAÇ 16, a "companhia manjaca":

(i)  era uma subunidade do recrutamento local, tendo sido  organizada no CIM de Bolama, em 4 de fevereiro de 1970;

(ii) à semelhança de outras, da chamada "nova força africana", era constituída por quadros (oficiais, sargentos e praças especialistas, condutores, operadores de transmissões, cabos auxiliares de enfermagem, etc ) de origem metropolitana e por praças guineenses, neste caso de etnia manjaca;

(iii) colocada em Teixeira Pinto (ou Canchungo), em 4 de março de 1970, destacou dois pelotões para Bachile, passando a estar integrada no dispositivo do BCAÇ 1905, e substituindo a CCAÇ 2658, que se encontrava em reforço no sector;

(iv) em 30 de abril de 1970, já com o quadro orgânico de pessoal completo, passa a ser a unidade de quadrícula de Bachile;

(v) em 28 de janeiro de 1971 passa a depender do CAOP 1 (com sede em Teixeira Pinto);

(vi) a partir de 1 de fevereiro de 1973, fica na dependência do BCAÇ 3863 e do BCAÇ  4615/73, que assumiram, a seu tempo, a responsabilidade do sector em que aquela subunidade estava integrada;

(vii) destacou forças para colaborar nos trabalhos de reordenamento de Churobrique;

(viii) em 26 de agosto de 1974, desactivou e entregou o quartel de Bachile ao PAIGC, recolhendo a Teixeira Pinto, onde foi extinta a 31 de agosto desse ano,


3. O Zeca Romão passou por Teixeira Pinto, Bachile, Churobrique, Cacheu... Tem fotos também interessantes de Bissau. Vamos fazer alguns postes temáticos. 

Fica assim feita a sua "prova de vida".  Vai daqui um abraço fraterno para o Zeca, que é uma figura popular na sua terra e um camarada que continua a participar nos convívios do seu batalhão. (Julgo que na vida civil foi bancário.)

Em 1/7/1973, Bachile pertencia à Zona Oeste, Sector 05. O comando e CCS do BCAÇ 3863 estavam em Teixeira Pinto. Susetores: Cacheu, Bachile e Teixeira Pinto. 

No subsetor de Bachile estava a CCAÇ 16, com um pelotão (-) em Churobrique e uma secção na ponte Alferes Nunes (mais uma secção de milícias). O quartel de Bachile era ainda guarnecido pelo 21º Pel Art (10,5 cm).

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26400: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (35): Jorge Pinto (ex-alf mil, 3.ª C / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74) - Parte V

domingo, 26 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26426: O segredo de ... (47): Antonio Medina (1939-2025) - Parte III: O Cajan Seidi, régulo de Jolmete, é neto do Cambanque Seidi, régulo de Jol, morto pelas NT em 1964, junto com outros homens grandes... Mostrou-me, em 2017, a vala comum, muito perto do sítio onde foram mortos em 1970 os nossos 3 majores (Eduardo Moutinho dos Santos, ex-alf mil, CCAÇ 2366, e cap mil grad, CCAÇ 2381, 1968/70)


Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Jolmete > 2017 > Moutinho dos Santos com Cajan Seidi, a quem convidou para  ir almoçar em Canchungo (ex-Teixeira Pinto).


Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Jolmete > 2017 >  Moutinho dos Santos e o Fernandino Leite  com a Amélia,  a 3ª mulher de Cajan Seidi, e com os seus filhos,  em Jolmete.

Fotos (e legendas): © Eduardo Moutinho Santos / Manuel Resende (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Blogue
Memórias de Jomete > 30 de agosto de 2018 > Post nº 76 - Cajan, Régulo
de Jolmete (*)

Manuel [Cármine] Resende [Ferreira],  ex-alf mil art,  CCAÇ 2585 / BCAÇ 2884, Jolmete, Pelundo, Teixeira Pinto (maio 69/mar 71), régulo da Magnífica Tabanca da Linha [foto à direita]

Nota informativa para quem não se lembra: 

Moutinho dos Santos era alferes da Companhia que esteve antes de nós em Jolmete, a CCAÇ 2366. Era a Companhia do sr. capitão Barbeites. 

Depois de sair de Jolmete em 28 de maio de 1969 (dia em que ficámos por nossa conta, e logo com um grave acidente com a bazuca do 1º cabo Brotas), tal como mais tarde o nosso alferes Almendra, foi graduado em capitão pelo sr. general Spínola e a Companhia foi para Quinhamel, gozar “férias”, mas ele, como capitão, teve que ir comandar outra Companhia no Sul [CCAÇ 2381]. 

Presentemente exerce advocacia no Porto e é um excelente elemento [um dos régulos] da Tabanca Pequena de Matosinhos, com várias idas à Guiné para entrega de bens.



Eduardo Moutinho Santos, ex-alf mil, CCAÇ 2366 (Jolmete e Quinhámel) e cap mil grad cmdt da CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada)
[foto à esquerda]


Pergunto eu a Moutinho dos Santos:

“Amigo Moutinho Santos, recentemente estive com o Marques Pereira, alferes da minha Companhia, a 2585,  que vos sucedeu. Presentemente vive em Moçambique, e veio cá. 

"Mostrei-lhe fotos do Cajan e disse-lhe que o Cajan tem um filho médico no Hospital de Santo António, creio que foste tu que me deste essa informação.

"Sabes quem é a mãe? perguntou ele, será a Maria Sábado, do nosso tempo ?.... Sabes alguma coisa dele, ou contactos... “ (*)


Resposta de Moutinho dos Santos:

(...) De facto, o Cajan Seidi, soldado milícia do Pelotão de Milícias de Jolmete, que "alinhou" connosco, e convosco, nas matas do Jol, tem em Portugal, mais especificamente no Porto, um "filho" médico, o dr. Jorge Seidi (conhecido entre os amigos por Jorgito). 

Ele faz parte das equipas de Urgências do Hospital de Santo António, penso que como contratado de uma empresa de "manpower" que presta serviços aos hospitais do Porto. Pus a palavra filho entre aspas, pois, na verdade ele não é filho biológico do Cajan, mas sim sobrinho.

Como sabes, segundo as "leis" da etnia manjaca, e de outras etnias da Guiné, em que os sobrinhos e primos também são considerados "filhos" quando vivem todos na mesma morança, o irmão que herda a "posição" (sucede no cargo) de outro irmão mais velho, também "herda" a mulher e os filhos do irmão. Com o Cajan sucedeu isso.

O avô do Cajan, de nome Cambanque Seidi, régulo do Djol, tinha vários filhos, sendo um deles o pai do Cajan, de nome Domingos, que foi morto pelo PAIGC logo no início da luta pela independência.

O avô, ao tempo régulo, foi um dos mortos na "chacina" praticada em 1964 pelas NT contra os homens grandes da tabanca de Jolmete e outras do regulado.

Este "assunto" consta de um poste do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, ali colocado por um Furriel [António Medina] de uma companhia [CART  527] da guarnição de Bula / Teixeira Pinto em 1964, antigo combatente que emigrou para os USA (**) (foto à esquerda, EUA, 2016)(***)... 

O Cajan teria nessa data 15/16 anos...
 
Este "assunto", a que ninguém se referia quando estivemos em Jolmete, e também nunca yinha sido falado anteriormente quer pelo nosso Exército quer mesmo pelo PAIGC, foi-me confirmado pelo Cajan e por dois dos seus "filhos" que, inclusive, na última visita (2017) que fiz a jolmete, quiseram indicar-me o local onde foram enterrados, em "vala comum", muito perto do sítio onde os nossos 3 majores foram mortos em 1970...

Como o Cajan era o neto sobrevivo mais velho do régulo, veio a "herdar" o cargo do avô, pois o irmão/primo a quem tal cargo pertenceria já tinha falecido, deixando viúva a Quinta e o filho Jorge que - na altura em que estivemos em Djolmete - estaria à guarda de um tio em Dakar (Senegal) e internado numa Missão Católica. Oficialmente ninguém se referiu - que eu saiba - ao cargo do Cajan durante a nossa estadia em Djolmete.

Assim, o Cajan com o cargo de régulo do Djol, herdou como 1ª mulher a cunhada, de nome Quinta - que vivia em Djolmete ao tempo em que nós por lá estivemos -, de quem veio a ter mais 3 filhos (Joãozinho, falecido, Minguito e Melita, médica em Bissau). Atualmente está em Portugal com o filho,  dr. Jorge.

 O Cajan tem mais 4 mulheres... e 25 filhos ao todo...

A segunda mulher do Cajan é a Maria Sábado - nossa conhecida - de quem o Cajan tem vários filhos (um deles o Fidalgo,  que é professor e director da Escola E/B de Canchungo, ex-Teixeira Pinto).

A terceira mulher do Cajan é a nossa conhecida Amélia, de quem o Cajan tem 6 filhos (vários deles a viver em Bissau).

A quarta mulher do Cajan é a Emília de quem o Cajan tem vários filhos. 

Por fim, a quinta mulher, ainda muito nova, de nome Maria, também tem já filhos...

Para o ano, se tudo correr bem, se houver "patacão"  e a saúde ajudar, tenciono voltar à Guiné-Bissau e a Jolmete para, com a Tabanca Pequena de Matosinhos, fazermos a instalação de um poço artesiano, pois, os poços tradicionais que a ACNUR abriu na Tabanca de Jolmete, quando serviu de Campo de Refugiados dos independentistas do Casamansa, secaram todos e a população (3 mil  habitantes), que só tem uma hora de água por dia do poço do Centro de Saúde, voltou a ter de ir buscar a água à bolanha (...)

(Reproduzido com a devida vénia. Revisão  e fixação de texto: LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 5 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P18988: Blogues da nossa blogosfera (103): "Memórias de Jolmete", de Manuel Resende: Cajan Seidi, o atual régulo de Jolmete, neto de Cambanque Seidi, o régulo de Jol que, em 1964, foi uma das cerca de 20 vítimas de represálias das NT (Manuel Resende / Eduardo Moutinho Santos)

(**) Vd. poste de 24 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13326: De Lisboa a Bissau, passando por Lamego: CART 527 (1963/65) (António Medina) - Parte II: Foi há 50 anos, a 24 de junho de 1964, sofremos uma emboscada no regresso ao quartel, que teria depois trágicas consequências para a população de Jolmete: como represália, cerca de 20 homens, incluindo o régulo e o neto, serão condenados à morte e executados pelas NT, dois meses depoisVd, postes de:

(***) Últimos postes da sérioe:

sábado, 14 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26264: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (50): A velha fortaleza do Cacheu, com os seus inúteis canhões de bronze, e o triste Diogo Gomes lá aprisionado, a ver o pintor de canoas nhomincas...

Foto nº 13


Foto nº 14A


Foto nº 14

Foto nº 15

Foto nº 16A


Foto nº 16


Foto nº 17


Foto nº 17A


Foto nº 2 

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Cacheu >  4 e 5 de dezembro de 2024 >  

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  Aqui vai o resto das fotos da  última viagem ao Cacheu, em 4 e 5 do corrente,  partilhadas pelo  Patrício Ribeiro, nosso amigo e camarada, histórico membro da Tabanca Grande, nosso "embaixador em Bissau",  cicerone, autor da série "Bom dia desde Bissau" (*)...

Legendas:

Foto nº 13 > Ele, o Diogo Gomes, lá dentro, fechado, a assistir às pinturas das canoa nhomincas 

Foto nº 14 >   Os canhóes apontados para o rio

Foto nº 15 > O portrão da fortaleza

Foto nº 16 > Lateral oeste da fortaleza

Foto nº 17 > Igreja de Cacheu (ou de Nossa Senhora da Natividade)  

Foto nº 2 > Canoas nhomincas, com pinturas originais, no porto de manutenção, na margem esquerda do rio Cacheu

Sobre a foto nº 17, o fotógrafo escreveu, já com data de 8 do corrente:


"Hoje está a decorrer a peregrinação anual entre Canchugo e Cacheu.

"A peregrinação é a pé. Normalmente, é nesta altura de Dezembro, com o tempo frio, em que alguns milhares de pessoas percorrem a estrada durante a noite, onde o capim tem cerca três metros de altura e o cheiro da palha anima os corações dos fiéis crentes. As pessoas, durante a maior parte do tempo vão a cantar cânticos religiosos. No percurso passam em cima da ponte metálica antes do Bachil, e da mítica floresta de Cobina [ou Caboiana, segundo a nossa antiga carta militar de 1953],  local onde os Manjacos fazem as cerimónias ao irã ."


Igreja do Cacheu. Fonte: HIPP

2. Comentário do edit0r LG:

Sobre esta igreja, lê-se no portal HIPP - Património de Influência Portuguesa, este apontamento de Manuel Teixeira:

"Historicamente, constitui a primeira igreja portuguesa erigida na costa ocidental africana, padroeira da urbe. Em 1680 ruiu, devido a uma inundação do Rio Cacheu, sendo mandada reconstruir pouco depois pelo bispo de Cabo Verde, D. António de São Dionísio. Encontra‐se hoje relativamente bem preservada".



Guiné > Bissau > Região de Cacheu > Forte de Cacheu (séc- XVIII) > Restos da estátua de Diogo Gomes, que até à Independência, estava em Bissau, frente à ponte cais de Bissau...


Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




(...) "Edificado à beira‐rio, em 1641‐1647, é de pequena dimensão, consistindo num quadrado de cerca de vinte metros de lado, defendido nos cantos por pequenos bastiões, e uma muralha com quatro ou cinco metros de altura. 

"Em 1822 há notícia da sua existência, com estrutura de paredes em adobe. 


Forte do Cacheu (séc. XVII).
 Fonte: HIPP
"Em 1988 foi assinado um protocolo de geminação com Viana do Castelo, que contribui para diversos melhoramentos da vila, nomeadamente a recuperação do forte e o restauro da Capela de Nossa Senhora da Natividade. Mais recentemente, por iniciativa da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e da Câmara Municipal de Lisboa, procedeu‐se a nova reabilitação do forte. A reabilitação incluiu o interior e as muralhas exteriores, danificadas pelo tempo e pelas correntes do Rio Cacheu, que em alguns pontos lhe corroeram os alicerces. 

"A zona adjacente ao forte é o local onde as autoridades da Guiné‐Bissau, após a independência, vieram depositar as estátuas ligadas ao período colonial. Estão há trinta anos no meio da vegetação, desmontadas, à beira do forte."



Guiné > Região de Cacheu > Carta de Cacheu / São Domingos (1953) > Escala 1/50 mil > Pormenor dos rios Cacheu e seus afluentes: Pequeno de São Domingos (margem norte); Caboi, Caboiana e Churro (margem sul), a montante da vila de Cacheu.


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015).

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26252: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (47): Viagem até Cacheu, onde dormi, passando por Cachungo e Bachile - Parte II: Ao longo da estrada no chão manjaco, encontramos à venda algumas dezenas de ratos-africanos-gigantes (em crioulo "Joquim-doido"), por jovens que os apanham, por 1.500,00 FCA. É a época do arroz quase maduro nas bolanhas, onde eles se alimentam.



Foto nº  6 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Chão manjaco  >  5 de dezembro de 2024 > Jovem vendedor de "joquim-doido",  o rato-gigante-africano (Cricetomys gambianus)


Foto nº  7 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Chão manjaco > 5 de dezembro de 2024 > Um "joquim-doido", esfolado, vendido a 1500 CFA (c. 2,3 euros).


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mais duas fotos, enviadas pelo Patrício Ribeiro, que esteve em 4 e 5 do corrente, no Cacheu, fazendo o percurso Bissau - Cachungo -Bachile - Cacheu (e vice-versa) (*)... Eis como ele legendou estas duas fotos:

" Para os que não gostam de peixe... Joquimdoido. Um belo de um petisco. Ao longo da estrada na zona dos manjacos, encontramos à venda algumas dezenas de ratos, por jovens que os apanham, por  1.500,00 CFA. É a época do arroz quase maduro nas bolanhas, onde eles se alimentam."

Joaquim-doido é o nome comum, na Guiné-Bissau, 
O rato-gigante-africano.
Pode atingir um 1 metro
de comprimento (só metade é a cauda),
e pesar 1 a 1,4 kg.
Vive em colónias e é omnívoro.
Fonte: Adapt. de Animalia.pt 
 (com devida vénia...)

do Cricetomys gambianus,  uma espécie de roedor da família Nesomyidae.... Está grafado nos nossos dicionários como "rato-gigante-africano":
 
(...) ZOOLOGIA (Cricetomys gambianus) mamífero roedor, endémico das regiões da África Central a sul do Sara, pode atingir perto de um metro de comprimento (incluindo a cauda, longa) e tem pelagem curta de coloração castanha ou cinzenta, com aros escuros em redor dos olhos e ventre branco. (...)

Fonte: Porto Editora – rato-gigante-africano no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2024-12-10 05:54:27]. Disponível em  https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/rato-gigante-africano

Para saber mais, ver aqui entrada na Wikipédia, em inglês: "Gambian pouched rat"... 

É um animal que também pode ser útil aos humanos, tendo já sido treinado, na Tanzânia, para detetar a tuberculose, e no Cambooja para detetar minas terrestres, implantadas nas guerras civis de 1975/98.  
E também é criado e vendido como "pet", animal de estimação!

2. Patrício, convenhamos, é um petisco caro, para o nível de vida da Guiné-Bissau. 1500 CFA são 2,287 euros....É produto gourmet... Mas um bicho daqueles, alimentado a arroz da bolanha (mas também de outros vegetais, como os frutos das palameiras, e ainda insetos, caranguejos, caracóis, etc.), , é uma grande fonte de proteina... E deve ser uma delícia, bem temperado e cozinhado... Ou será grelhado ? E aquelas patinhas também se comem ? 

Depois do "macaco-cão", temos mais esta iguaria... que não havia no nosso tempo, pelo menos no chão fula. 

 Não vale a pena torcer o nariz de repugnância (nem muito menos vomitar). Os ocidentais detestam o rato, a ratazana e outros roedores, que associam, e bem, aos vetores de transmissão da peste e outras doenças, vindas em geral do Oriente... 

Mas não sejamos tão etnocêntricos. Durante a II Guerra Mundial e no pós-guerra, o rato, a ratazana, etc., matou a fome a muita e boa gente... 

E a gente, caro leitor, sabe lá o que é que já comeu, no passado, do cão ao gato, dois mamíferos, tal como o rato, que fazem parte dos nossos tabus alimentares. Como o porco, para os nossos queridos camaradas fulas e mandingas, que eram muçulmanos.

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