Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27739: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (22): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - II Parte






Fotogramas do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtidas a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo ("Amílcar Cabral", 28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué".

O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014): não tem som direto, é narrado em espanhol, tem subtítulos em espanhol, mas também pequenos diálogos em crioulo e em português (por ex., com o médico dr. Mário Pádua, angolano branco, oficial do exército português, de que desertou, tendo saído de Angola para se juntar mais tarde ao PAIGC). 

Há sequências de cenas que vão da preparação militar a saídas para atacar alegadamente o quartel de Madina do Boé,   do rital da caça à descontração das refeições, das jogatanas de futebol ao quotidiano do hospital de Boké, do outro lado da fronteira, na Guiné-Conacri... Enfim, até uma visita de Amílcar Cabral às "tropas em parada"... É impossível saber onde exatamemnte foram  obtidas as imagens. Parte delas são no Boé, outras em Boké, já na Guiné-Conacri,

Esta média metragem, "Madina Boé" (1968),  foi  financiado pelo Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficas, de que o José Massip foi cofundador, e pela Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina. O documentário retrata a organização do  PAIGC na região do Boé, e o quotidiano dos seus guerrilheiros. O Boé
é considerado como "área libertada". 
 
O cineasta José Massip e o operador de câmara Dervis Pastor Espinosa  estiveram na zona do Boé em março e abril de 1967,  pelo que as imagens do  alegado ataque ao quartel de Madina do Boé em 10 de novembro de 1966 (trágico para o PAIGC, com a morte de Domingos Ramos e outros militantes) só podem ser de arquivo e, nessa medida, são (ou podem parecer) um embuste: a verdade sobre o que se passou nesse dia trágico foi pura e simplesmente ignorada ou escamoteada, como convinha.

Sabe-se que em março-abril de 1967,  a equipa cubana não filmou nenhuma cena de guerra, alegadamente por razões de segurança. As imagens de guerra que foram incorporadas no filme terão sido obtidas por outra equipa cubana, que estava no terreno em 10 de novembro de 1966, o que ainda está por esclarecer. (Já fizemos referência à operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que estava ao lado do guineense Domingos Ramos e do cubano Ulises Estrada.)

De resto, tanto Cuba como  PAIGC mantiveram em segredo, mesmo depois da independência,  a "ajuda estrangeira" em conselheiros, instrutores, médicos e combatentes cubanos... No filme não aparecem combatentes estrangeiros, a não ser o médico Mário Pádua, de costas (que diz no filme: "eu sou um médico português antifascista e anticolonialista"... e acrescenta: a guerra que aqui se trava não é do povo guineense contra o povo português mas contra um regime político fascista...)

O filme do José Massip foi várias vezes premiado (nomeadamente em países do chamado bloco soviético), passou na televisão cubana mas não obteve grande entusiasmo  da crítica interna. Há cenas no filme que não terão agradado ao regime de Fidel Castro. Em contrapartida, foi muito útil à propaganda do PAIGC. Amílcar Cabral era hábil, a explorar, no plano mediático e diplomático, testemunhos como este que devem ter seduzido, por exemplo, os suecos do partido de Olof Palme.

Claro que em Portugal não passaria, antes do 25 de Abril. O filme, aliás, só foi estreado entre nós no doclisboa'16, em 24 de outubro de 2016, às  15h30, na Cinemateca Nacional, Sala M. F. Ribeiro.  Eis a sinopse que vinha no programa, e que não deixa de ser reveladora da santa ignorância ou ingenuidade (é o mínimo que me ocorre dizer) dos organizadores.

"Filmado nas áreas libertadas [sic] da Guiné-Bissau, durante a sua guerra de libertação de Portugal, o filme segue o Exército Popular para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, documentando a educação política dos combatentes, as técnicas de guerrilha e o treino físico."  

Enfim, Cuba não mandou, para o PAIGC, apenas instrutores, conselheiros militares e médicos, mandou também cineastas com o talento de um José Massip. Até nisso Amílcar Cabral foi hábil, soube pôr o cinema e os cineastas de vários países ao seu lado, contrariamente aos políticos e generais portugueses do Estado Novo... que escondiam ao povo a guerra que se travava em África, nomeadamente na Guiné. 

Para vergonha nossa, o cinema português não tem um único filme com a assinatura de um cineasta de prestígo sobre a guerra na Guiné (1961/74), que possamos mostrar aos nossos filhos e netos. 

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Bissau > HM 241 > 1969 > O capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Fotograma, sem indicação de fonte (RTP ?). Cortesia da página do Facebook de António José Vale, 26 de maio de 2018. Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024), com a devida vénia...


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde... 

 Vamos fazer, em dois ou três postes,  uma síntese  (*) e análise crítica do  artigo cujo iriginal está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14

Temos  cerca de 3 dezenas de referências a Cuba, e cerca de 90 a cubanos

II. Análise crítica: entre a solidariedade e a realpolitik

O artigo é interessante sem ser original. Mas merece ser partilhado com os nossos leitores, e demais público lusófono. Apoia-se fortemente na investigação do historiador italiano Piero Gleijeses: o seu livro de 2002, "Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa, 1959–1976",  é uma obra de referência,  uma reavaliação exaustiva do envolvimento cubano na descolonização de África.  

Piero Gleijeses nasceu em Veneza em 1944, foi  professor de política externa dos Estados Unidos  na Universidade Johns Hopkins. 

É considerada uma autoridade em matéria de estudos sobre a política externa cubana sob Fidel Castro. Gleijeses, dizem-me,  é o único investigador estrangeiro a quem foi permitido o acesso aos arquivos governamentais cubanos da era Fidel Castro.

Fez o seu  doutoramento em relações internacionais no Graduate Institute of International Studies, em Genebra, e domina várias línguas:  além do italiano e do inglês, o afrikaans, o francês, o alemão, o português, o russo e o  espanhol.

 "Visions of Freedom" (2013) dá continuidade a "Conflicting Missions", analisando o confronto entre Cuba, os Estados Unidos, a União Soviética e a África do Sul no sul de África entre 1976 e 1991.

Além de revistas académicas, Gleijeses colaborou em publicações como a "Foreign Affairs" e a "London Review of Books" (Fonte:  Wikipedia, em inglês).


(i) Cuba: um ator único, "sui generis", mas não desinteressado

  • Solidariedade vs. estratégia: a ajuda cubana aparentava ser "genuína e desinteressada" em termos económicos, mas não era isenta de cálculo geopolítico; afinal, também aqui não há "almoços grátis".
  • Em nome do chavão do "internacionalismo proletário", a pequena mas "heróica" Cuba procura expandir a sua influência e o seu prestigio em África, em competição com as gigantescas mas rivais URSS e  China.
  • Guiné(zinha) portuguesa parecia ser um bom laboratório para testar, validar, promover e "vender" o  modelo revolucionário cubano, também baseado nos "campesinato".
  • O legado de Guevara: a presença cubana estava profundamente ligada à visão de Guevara de "internacionalismo proletário"; no entanto, a decisão de manter o envolvimento em segredo  deixou de dar dividendos (e teve custos humanos, mortos e feridos, que o PAIGC e Cuba sempre silenciaram, embora em nada comparáveios com o envolvimento em Angola.
  •  Havana, em todo o caso, também quis  evitar conflitos desnecessários com Portugal (com quem mantinha relações diplomáticas e comnercais) bem como com o poderoso vizinho, os EUA, que já monitoravam a região.
  • A célebre frase de Ernesto "Che" Guevara, "Criar dois, três, muitos Vietnames" (Crear dos, tres, muchos Viet Nam), surgiu na sua "Mensagem à Tricontinental" em 1967, apelando à multiplicação de focos de resistência armada para dividir e enfraquecer o "imperialismo".
  • Contexto: a frase foi publicada na revista Tricontinental em abril de 1967, originária de uma mensagem enviada por Che à Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL).
  • Significado: Guevara defendia que, se a resistência vietnamita conseguisse dividir as forças dos EUA, outros focos revolucionários no mundo teriam o mesmo efeito, enfraquecendo a dominação global.
  • O objetivo era incitar a luta armada internacional e a solidariedade entre os povos oprimidos contra o imperialismo (e o colonialoismo tardio, como era o caso da África lusófona; e o "apartheid" na África Austral).
  • O Vietname representava o exemplo máximo de um povo pobre a enfrentar com sucesso um exército poderoso, servindo de inspiração para movimentos revolucionários globais.
  • A frase (panfletária) tornou-se um lema para a resistência ao colonialismo e a defesa da soberania, simbolizando a luta colectiva.
(ii) Cabral, um líder pragmático que não foi nos futebóis dos cabuanos
  • Equilíbrio entre autonomia e dependência: Cabral soube gerir a ajuda externa sem comprometer a liderança do PAIGC (ou a sua liderança, que de resto não era contestado nessa época).
  • Cabral defendia que a luta devia parecer genuinamente africana e não parte de um estratégia mais vasta, geopolítica.

  • Ao limitar o número de cubanos e recusar ofertas de mais homens, evitou que o movimento se tornasse um "proxy" de potências estrangeiras, um risco comum em "guerras de libertação".
  • O uso da imagem: a colaboração com o cinema cubano para construir a sua imagem como líder de guerra revela uma compreensão avançada da importância da narrativa, Cabral não era apenas um estratega militar, mas também um construtor de mitos, essencial para a coesão do movimento.
  • Náo se pode diaer que a imagem de Cabral saia diminuída. Mas é inegável que o cinema (e os amigos do PAIGC, e náo apenas os cubanos) deram um bom retique na imagem de Cabral: encenação da sua presença na frente de batalha; construção simbólica do líder revolucionário.  Cabral nunca foi um "cabra-matchu", muiti menos boçal a maioria doso comandantes do PAIGC, a começar por 'Nino' Vieira,  como nem sequer precisava de o ser, para ficar na história de África.

  • (iii) Portugal, aliás, o Portugal de Salazar / Caetano, "orgulhosamente só"

  • A captura de Peralta: Portugal usaou o vaso Peralta para tentar deslegitimar o PAIGC, mas a sua recusa em libertá-lo, mesmo com a oferta de troca de um refém ameriano,  mostra a rigidez do regime de Salazar-Caetano.
  • Lisboa parecia mais interessada em "provar" a interferência estrangeira do que em resolver o conflito da Guiné (que se tenderia a"eternizar").
  • Falta de adaptação: enquanto o PAIGC e Cuba inovavam em táticas e comunicação, Portugal manteve uma estratégia militar rígida e pouco adaptada à guerra de guerrilha, pelo menos até à chegada de Spínola ao território.
  • O 25 de Abril de 1974 veio demonstrar que a solução para a guerra colonial não era militar, mas política (coisa que os militares portugueses, a começar por Spínola, já defendiam há uns anos, contra os "falcões" do regime que, de resto, mal conheciam África, a começar por Salazar que lá pôs os pés).

(iv) Memória e esquecimento

  • O silenciamento cubano: por que é que Cuba manteve o seu papel em segredo, mesmo depois da independência da Guiné-Bissau? 
  • A explicação oficial  ("respeitar os desejos do PAIGC") é plausível, mas também pode refletir uma política de não-confrontação com os EUA ou com os novos governos africanos, muitos dos quais queriam evitar tensões com antigos aliados de Portugal.
  • O 'papel técnico-militar dos cubanos não deve ser subvalorizado mas também náo pode ser sobrevalorizado. Cuba terá mandando ao PAIGC 435 homens, alegadamente todos "voluntários". 9 ou 17 terão morrido, há fontes contraditórias.

  • A memória portuguesa: em Portugal, a guerra colonial ainda hoje, passado ,mais de meio século, é um tema sensível; a narrativa dominante tende a focar-se no "trauma" dos soldados portugueses e na "ingratidão" das ex-colónias, ignorando cpmpletamemnte o papel de atores como Cuba (pelo menos, no cvaso da Guiné e,depois, em Angola, na chamada "guerra da II independència).
  • No nosso blogue, temos dado também voz a uma pluralidade de perspectivas, incluindo a cubana, "naturalmente" mais esquecida e mais difícil de compreender e aceitar pelos antigos combatentes portugueses.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
________________

Nota do editor LG:

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27736: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (21): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - Parte I


Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.243 | Título: Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanosn| Assunto: Fernando de Andrade [irmão de Lucette de Andrade, esposa do Luís Cabral] com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e grupo de internacionalistas cubanos | Data: 1963 - 1973  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografia.

(1963-1973), "Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanos", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43457 (2026-2-14)


Guiné > Alegadamente Região do Boé  > 1968 > Amílcar Cabral revistando as suas tropas

Fotograma do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtido a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo (28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué". O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014). 

O documentário chama-se "Amílcar Cabral" (e pode ser aqui visualizado) (Imagem reproduzida com a devida vénia).


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde (*)... 

Não diz muito mais do que aquilo que a gente já aqui sabia. Por exemplo, não diz quanto cubanos passaram pelo território da Guiné (não terão chegado a meio  milhar),  nem quantos morreram ou foram gravemente feridos (menos de duas dezenas) (**).

Alguns de nós, pelo contrário, começaram a entrar na paranoia de ver cubanos por todo o lado. Às centenas, aos milhares, uma invasão (!) (**)... "Brancos, que só podiam ser cubanos"... Mas não, o Amílcar Cabral não queria "brancos", queria "escurinhos", como ele... Lá tinha as suas razões... Ele,  que nunca foi um grande "cobói", terá acolhido,  porventura um pouco a contragosto, a ajuda dos "bons escoteiros cubanos"... Afinal Cuba dava lições ao mundo em matérias como a guerra de guerrilha... E o PAIGC tinha que aprender com os mestres. 

Enfim, ainda há muitos "mitos" para desmontar. 

Em todo o caso, munca foram particularmemnte queridos os cubanos que, achávamos nós,  nada tinham a ver com aquela guerra (nem com aquela terra). "Dor de corno" ?!...Se calhar, mas alguns cubanos diziam tinham lá antepassados que foram escravizados.

 Bom, sorte, sorte, apesar de tudo, teve o "capitão Peralta" a quem os páras do BCP 12 salvaram a vida, depois de gravemente ferido numa emboscada (Op Jove, corredor de Guileje, em 18 e novembro de 1969). 

O Peralta que, não tendo morrido, acabou por ser uma peça fora do baralho, que veio estragar o arranjinho entre o Amílcar Cabral e o Fidel Castro... E estes dois, que depois se tornaram amigalhaços, lá tiveram que arranjar uma desculpa de mau pagador para a presença, no corredor de Guileje, a milhares de quilómetros de casa (mais de 7 mil), daquele "ovelha tresmalhada".

Afinal, éramos todos bons rapazes, mas o Amílcar Cabral nunca chegou a pagar em vida  os favores que devia aos cubanos, mandando por exemplo os "seus balantas" para Cuba, para ir cortar cana de açucar na altura dela... Amor com amor se paga, diz o provérbio popular português.

Enfim, tem algum interesse em sabermos, pelo menos, como  é que eles, os cubanos, 500 anos depois, voltaram à  Guiné à procura das suas origens... (Esse era um dos argumentos utilizados pelo Cabral para justificar a sua presença em África.)

Vamos fazer, em dois postes,  uma síntese e análise crítica do  artigo cujo original está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14


A. Síntese: o papel de Cuba na luta do PAIGC


(i) Contexto e motivações

  • Autonomia cubana: ao contrário de outros apoiantes do PAIGC (como a URSS, a China ou até a Suécia), Cuba terá agido por iniciativa própria, motivada pela visão de 'Che' Guevara  do "internacionalismo proletário" e da da "luta contra o imperialismo ", pelo empenho pessoal de Fidel Castro e pelo interesse estratégico de Cuba  na África subsaariana como "laboratório revolucionário". 
  • Os contactos com o PAIGC remontam a 1963, mas a "ajuda cubana" só se  materializou  após a viagem de Guevara à África em 1964-65.
  • Primeiros contactos: em agosto de 1963, o PAIGC pediu formação militar e política para cinco combatentes, em Cuba; não se sabe ao certo se houve resposta, nem se esses cinco militantes chegaram a ir a Cuba (quanto mais fosse para provar um "Mojito", um "Daiquiri" ou uma "Cuba Libre"...).
  • Foi preciso esperar ano e meio para que, a partir da reunião entre o 'Che' Guevara e o Amílcar Cabral, em 12 de janeiro de 1965, em Conacri, se desse o início da "cooperação efetiva"entre o PAIGC e Cuba.
  • Em janeiro de 1966, Cabral, que gostava muito de viajar,  foi pela primeira vez a Cuba (não é "á Cuba", no Baixo Alentejo), chefiando a delegação do PAIGG  na  Conferência Tricontinental em Havana.
  • Após aqueles intermináveis discursos panfletários do Fidel Cabral (supomos que o do Amílcar Cabral fosse mais curto e comedido, até  para compensar), o Cabral e Castro foram "tabaquear o caso", como dizem os alentejamos: lá tiveram uma conversa (longa, claro...), a que apenas assistiu o Oscar Oramas,  na altura um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, mais tarde embaixador de Cuba em Conacri (, de resto, um homem afável, que eu irei conhecer, em Bissau, em março de 2008).  

(ii) A ajuda cubana: logística, militar e humana

  • Em maio de 1965, o navio "Uvero" levou a primeira remessa de ajuda cubana: armas (cerca de 60 caixas), alimentos e medicamentos a Conacri, cumprindo a promessa do 'Che' a Cabral.
  • Em 6 junho de 1966, chegam 31 "voluntários" cubanos, além de charutos, açúcar mascavado e outros mimos ( a revolução também se faz com estas coisas que fazem bem a alma).
  • Desses trinta e um, (i) onze eram especialistas em artilharia; (ii) oito motoristas; (iii) um mecânico; (iv) dez médicos (sete cirurgiões e três de clínica geral); e (v) um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo.
  • Não sabemos (o jornalista cabo-verdiano não satisfaz a nossa curiosidade), quantos eram "brancos" e quantos eram "mais escurinhos", de acordo com as recomendações do Amílcar Cabral. A maior parte dos médicos seriam "brancos", mas quem sabe dessa parte é o Jorge Araújo, que é o nosso especialista em "internacionalistas cubanos":   teve, inclusive,  um duelo de morte, no Xime, com um deles  (já aqui contou essa história).
  • A missão mlitar cubana, sediada em Conacri (claro, não podia ser em Dacar, muito menos no Fiofioli...), reportava diretamente a Havana e era liderada por Víctor Dreke (veterano da guerrilha no Congo).
  • Além de formação de guerrilheiros, os cubanos passaram a participar em missões de combate e a fornecer apoio logístico e médico.
  • O grupo reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia (um veterano, negro, da Sierra Maestra, que depois irá lutar ao lado de Domingos Ramos, no Leste da Guiné; estaria ao lado dele, segundo me confidenciou, em Bissau, em 2008, quando o Domingos Ramos foi mortalmente ferido em 11 de novembro de 1966, no ataque a Madina do Boé, ataque que redundou num enorme desaire para o PAIGC).
  • Apesar da ajuda, que foi bem vinda, Cabral  (que era pobre mas não era mal agradecido e sobretudo era inteligente)  fez questão de restringir o número de cubanos a 5 ou 6 dezenas de cada vez: tratava-se de preservar a autonomia do PAIGC, e não ferir o orgulho dos seus "cabra-matchu", como o 'Nino' Vieiria.
  • Aém disso, preferia "negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo" (sic) (por favor, não venham agora acusar o Cabral de "racista": depois de morto, não se pode defender).
  • A presença cubana foi "mantida em segredo" (sic), a pedido do próprio PAIGC; em 1966 estava em curso uma grande operação contra Madina do Boé: foi adiada para 11 de novembro, no início da época seca; 350 combatentes do PAIGC atacaram o aquartelamento português com a intenção de dar cabo dos "tugas" e libertar  definitivamente o Boé; o PAIGC acabou por sofrer pesadas baixas; morreu o comandante Domingos Ramos (já aqui contámos como foi).
  • “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC; issso levou Castro à acção; o líder cubano “sugeriu que fizessemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”.
  • Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz, ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. Fidel confiou a Dreke "o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.
  • "Em fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA, que estava á  coca, escreveu que 'pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC' ", escreveu o autor do artigo, Júlio Montezinho.
  • "Em fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha"; além disso, inspirava enorme confiança e respeito, diz o jornalista cabo-verdiano.
  • "Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC (recordam-se ? o puto biafada que deitou fogo ao capim, em Tite, em 23 de janeiro de 1963.). “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, por sua vez.
  • Os cubanos, por seu turno, ficaram impressionados com o empenhamento e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.


(iii) Impacto estratégico e simbólico
  • Formação e especialização: os cubanos foram "cruciais" no treino dos combatentes do PAIGC, em áreas-chave como artilharia, minagem e uso de armas sofisticadas (ex.: RPG ou bazucas, canhões sem recuo, morteiros, antiaéreas); a sua presença, por outro lado, elevou o moral dos combatentes do PAIGC, que viam neles aliados dispostos a partilhar sacrifícios ( incluindo o da própria vida).
  • "Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos", escreve o jornalista do "Expresso das Ilhas". (Não sei se o Manecas Santos concorda com esta "boca".)
  • Adaptação à estratégia de Cabral: embora preferissem táticas mais agressivas, os "cabra-matchu" cubanos respeitaram a estratégia de desgaste de Cabral, evitando confrontos diretos com os "tugas" que pudessem causar baixas elevadas (e a ira dos irãs).
  • "O estilo de Amílcar Cabral 'não era necessariamente o nosso',  comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país, em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro. Ora, as actividades diplomáticas de Cabral mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. 'A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.' "(diz Julio Montezinho)
  • Cinema e propaganda: Cuba vai usar entao o  a arma do cinema (vd. o documentário "Madina de Boé", de José Massip) para construir a imagem de um Cabral como um verdadeiro comandante,  um "cabra-matchu", um  líder presente na  linha da frente de batalha, mesmo que apenas... para russo  e cubano ver ( com a censura, era impossível  o filme passar nos nossos ecrãs). Isso ajudou a legitimar o PAIGC perante críticas internas e externas.
  • "Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época."
  • "O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em "Los Dias del Kankouran", Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no 'matu', para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o 'matu' onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra".

(iv) O  caso Peralta e o segredo cubano

  • Captura e negação: em 1969, o capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta foi capturado pelos portugueses,
  • Cabral negou a sua participação militar, como lhe convinha, descrevendo-o como um "visitante" dos médicos cubanos; ou seja, o rapaz veio em viagem turística, mas sem passaporte nem visto dos "tugas".
  • Portugal (leia-se, o Governo de Marcelo Caetano) usou a captura para provar o envolvimento estrangeiro. Mas Cuba manteve o bico calado.
  • Libertação tardia: Peralta só foi libertado uns meses depois do 25 de Abril de 1974,  apesar de tentativas, goradas, de troca com um "espião" dos EUA;
  • O caso ilustra a política de negação do PAIGC e o respeito de Cuba por essa posição, que também lhe convinha.
(Continua)

(Pesquisa, condensação, fixação / revisão de texto, negritos: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 3 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)

(**) Vd. poste de 13 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26041: A nossa guerra em números (26): Aceitemos, provisoriamente, o número (oficioso) de 437 "internacionalistas cubanos" que terão combatido ao lado do PAIGC, "de 1966 a 1975"

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27513: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VI: o guarda-roupa feminino





Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > Damas e cavalheiros dançando a rigor a morna... E trajados a rigor.


Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:

https://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=1378&type=Video



O elogio da "Monte-Carlo Beach", a praia artificial de Monte-Carlo, o sítio mais chique da Europa...Artigo de Maria de Eça, a propósito da chegada da época  balnear, da "elegância da nudez" ( feminina), e dos benefícios do sol e do mar...Estas imagens eram  muito ousadas para a época, num país parolo, provinciano, conservador, e vigiado pelos censores...  Estamos nos primeiros anos do Estado Novo, impante e triunfante.  Mesmo uma década depois, nas praias portuguesas os fatos de banho, femininos e masculinos, obedeciam a uma bitola...e as infrações estavam sujeitas a coimas.



Fonte: Excerto de. Maria de Eça - As praias portuguesas e estrangeiras". Ilustraçáo, nº 232, 16 de agosto de 1935, ág. 25  (Cortesia de Hemeroteca Municipal de Lisboa)

 

1. Voltemos ao nosso "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente" (*)... Foi há 90 anos... 20 anos depois começávamos nós a ir para as últimas guerras do Império:  Índia,  Angola, Guiné, Moçambique, Timor...

De repente, vendo o filme, as cenas do baile no Liceu Infante Dom Henrique, no Mindelo, dado em honra dos "excursionistas" (maioritariamente "cavalheiros", só 20% é que eram senhoras: duas professoras, seis estudantes, e trinta e uma mulheres entre as “pessoas de família”), veio-nos à cabeça a pergunta: como era a moda, e nomeadamente feminina, naquela época ? O que é que as senhoras vestiam a bordo numa viagem daquelas, de quase dois meses, com escala por Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola e, no regresso, Principe e Madeira ?

Com a ajuda da IA (Gemini / Google, ChatGPT), e outars fontes (bibliográfcias), apurámos alguns apontamentos interessantes, que passamos a condensar.

Em 1935, as senhoras que faziam essas longas viagens de navio para as colónias portuguesas em África eram, de facto, poucas. Eram maioritariamente esposas de funcionários coloniais (**), militares, médicos, grandes comerciantes ou fazendeiros ricos. (Os missionários, como eram católicas, não levavam esposas; as "irmãs", as freiras, missionárias, ainda deviam ser poucas na África Portuguesa.)

Em 1935,  os "africanistas" propunham-se  desmistificar África, tornando-a apelativa para as senhoras... A colonização portuguesa até então era maioritariamente masculina. Não ficava bem as senhoras serem... doutoras ( nem muito menos esposas de colonos). Em 1914, no início da I Guerra Mundial, e sendo governador-geral o general Norton de Matos, Angola tinha 11 mil brancos (6 mil em Luanda). Com a mobilização militar para África (Angola, Guiné, Moçambique), nas "campanhas de pacificação" e I Grande Guerra, houve militares que se fixaram naqueles territórios.

Em 1935, as senhoras que embarcaram no vapor "Moçambique", eram sobretudo familiares dos estudantes e professores a quem se destinava o cruzeiro (de lazer, turismo, educação e propaganda). (Repare-se apenas 6 eram estudantes, num total de 79, o que representava menos de 8%.)

"Uma lição portuguesismo", diria, no fim, embevecido e em jeito de balanço, o jovem professor Marcello Caetano, responsável da parte cultural. 

De um modo geral, estas  viagens em si, num paquete da Companhia Nacional de Navegação (CNN) ou da Companhia Colonial de Navegação (CNN), não eram vistas como um  verdadeiro "cruzeiro" de férias no sentido moderno do termo, mas sim como um evento social, de grande formalidade. 

A roupa (masculina e feminina) refletia isso mesmo.

Falando das senhoras, o guarda-roupa para uma viagem que podia durar várias semanas ( conforme o destino),  tinha de ser vasto, funcional e, acima de tudo, elegante, cobrindo diferentes momentos do dia e a transição para o clima tropical ( incluindo a praxe da travessia do Equador para os novatos). Claro que o guarda-roupa também dependia do poder de compra.

(i) O contexto: a moda de 1935

Temos de esquecer as "flappers" de 1920. Em 1935, a moda era muito mais curvilínea, feminina e elegante, influenciada pelas estrelas ou "divas" do cinema de Hollywood (como Greta Garbo ou Marlene Dietrich).

Silhueta: a cintura voltava ao seu lugar natural; as  saias eram compridas (a meio da perna ou mais longas para a noite) e fluidas. O corte em viés (bias-cut) era a grande inovação, fazendo com que os tecidos (como o crepe de seda) se moldassem ao corpo de forma elegante (e, inevitavelmente,  erótica).

Ombros: os ombros eram frequentemente realçados, por vezes com pequenos enchumaços, mangas com folhos ou detalhes.

(ii)  O guarda-roupa a bordo (em alto mar)


A vida no navio era pautada por regras sociais rígidas. O que obrigava uma senhora a trocar  de roupa várias vezes ao dia. E nisso esgotando-se a sua energia. De resto, não tinha mais nada que fazer. As diversões a bordo eram limitadas. O navio, ainda a vapor, de 57 mil toneladas e 112 metrpos de comprimento estava em fim de vida; construído na Escócia em 1908, seria desmantelado em 1939.

  •  De Dia (manhã e tarde no "deck")

O vestuário de dia era "prático" (para os padrões da época), mas sempre impecável.

Vestidos de dia: eram feitos de tecidos mais robustos mas elegantes, como crepe, lã leve (na saída da Europa) ou seda, tinham mangas (curtas ou a três-quartos) e saias a meio da perna; os padrões  eram discretos ou de cores lisas (como azul-marinho, bege, bordeaux);

Conjuntos (fatos de saia e casaco): muito populares; um casaco cintado com uma saia a condizer; era um visual muito "arranjado" para passear no convés ou almoçar.

Acessórios essenciais:

Chapéu: absolutamente obrigatório para sair ao sol no convés; podiam ser cloches (ainda em uso) ou chapéus de aba mais larga, que se tornavam populares;

Luvas: quase sempre usadas, mesmo de dia; de couro leve ou algodão;

Sapatos:
fechados, de salto baixo ou médio, frequentemente de duas cores (estilo "spectator");

Desporto (ou "sport" como então se dizia) (para atividades no convés): os navios tinham áreas de lazer (jogos de "shuffleboard", ténis de convés); para isto, existia o "traje sport", que era o mais informal que se usava em público;

Pantalonas (calças): a grande novidade, os  "pijamas de praia" (calças largas e fluidas, de cintura subida) eram o auge da moda chique para relaxar no convés; eram feitas de linho ou algodão e muitas vezes com padrões náuticos (riscas, âncoras); 

Vestidos-amiseiros: de algodã,  mais simples, muitas vezes de riscas azuis e brancas (o estilo "riviera" ou náutico).

  • Noite (jantares e bailes)

Este era o ponto alto (tal como nós cruzeiros modernos): o  jantar era um evento de gala, especialmente na primeira classe, já de si reservada a uma.minoria privilegiada.

Vestidos de noite: eram longos, arrastando-se muitas vezes pelo chão;

Tecidos nobres: seda, cetim, veludo (para as noites mais frescas no Atlântico Norte) ou crepes pesados;

Corte:  o  "corte em viés" era rei; os vestidos eram fluidos, marcando a silhueta; as costas decotadas eram muito comuns e consideradas o cúmulo da elegância.

Acessórios:

Estolas: de pele (raposa) ou seda, para cobrir os ombros;

Joias: brincos compridos, pulseiras, colares;

Luvas compridas: de seda ou cetim, quase sempre acima do cotovelo;

Pequenas malas de mão ("pochetes"): elaboradas, de metal ou tecido bordado.

(ii) A chegada aos trópicos (Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola)

À medida que o navio se aproximava do Equador e o calor aumentava, o guarda-roupa mudava drasticamente; as lãs e sedas pesadas eram guardadas nas "malas" (baús de viagem).

O que predominava:

Branco e marfim: estas eram as cores dominantes; refletiam o sol e eram um símbolo de estatuto (mostravam, por exemplo, que se tinha criados para lavar a roupa, que se sujava facilmente);

Tecidos leves: o linho era o tecido de eleição, apesar de amarrotar facilmente;  algodão piqué e a seda crua ("shantung") também eram muito usados;

Vestidos "safari":
embora o "safari suit" fosse mais masculino, a influência era vista em vestidos-camiseiros de linho branco ou bege, muitas vezes com cintos e bolsos utilitários;

Proteção solar:
esta era a maior preocupação;

Chapéus de aba larga
: essenciais; de palha ou tecido leve;

Capacete colonial ("pith helmet"): embora hoje seja um símbolo controverso (associado ao colonialismo europeu e aos sangrentos safaris), em 1935 era comum tanto para homens como para mulheres em certas situações, como uma forma prática de proteção contra o sol intenso; as senhoras usavam versões mais leves e elegantes, muitas vezes forradas a seda;

Óculos de sol: tornavam-se um acessório de moda, além de funcionais;

Em suma, as senhoras (uma minoria) que em 1935 viajavam para a África, ainda negra,  misteriosa, exótica,  levavam um guarda-roupa que projetava elegância europeia, estatuto social e uma tentativa (nem sempre eficaz nem confortável) de adaptação ao clima tropical, mantendo sempre a máxima formalidade. 

Por outro lado, as senhoras  das classes alta e média-alta, que faziam estas viagens nos navios da CNN ou da CCN, com destino a África (e neste caso, o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente) (***) poupavam-se, evitando o sol, a poeira, a terra batida, os insetos, etc., nem sempre saindo para "visitas de estudo" que só interessavam aos homens (neste caso, alunos e professores).

 Imaginamos que ficavam, resguardadas (nos hotéis), a beber chá, a cavaquear, a jogar  às cartas...  Enfim, o culto da frivolidade...

Nessa época, elas ainda não tinham um papel ativo na sociedade, na economia, na política, na cultura...E não trabalhavam. A mulher que  trabalhava (nas fábricas e nos campos) não tinha direito ao tratamento... de "senhora".

(Pesquisa: LG + Net + IA / Gemini Google)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

______________

Notas do editor LG;


(**) Vd. poste de 15 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26268: Timor Leste: passado e presente (29): Uma viagem de mais de um mês de Lisboa a Díli, no N/M holandês Sibajac, em agosto/setembro de 1936 (Cacilda dos Santos Oliveira Liberato, "Quando Timor foi notícia: memórias", Braga, Pax, 1972)

(***) Último poste da série > 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27398: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte V: preços só para meninos ricos ou gente da classe média-alta... Hoje daria para dar a volta ao mundo em 100 dias.

sábado, 15 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27424: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (13): Mindelo, agosto de 1935: o que mostra e o que omite o filme de San Payo, de 1936 ("1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente") - Comentários -. ParteI (Adriano Lima, cor inf ref)



Cabo Verde > São Vicente > Mindelo > c. 1943 > A cidade, a baía do Porto Grande e o Monte Cara ao fundo.  Ao centro,  em segundo plano, o edifício de maior volumetria é o Liceu Gil Eanes (Infante Dom Hienrique, até 1937), por onde passou a elite do Mindelo e onde estudou Amílcar Cabral (que ali completou o 7º ano do liceu, em 1944, seguindo depois para Lisboa onde se licenciou em engenharia agronómica, no Instituto Superior de Agronomia
). Mas por lá passaram também os nossos camaradas Adriano Lima e Carlos Filipe Gonçalves, que agora se reencontram através do nosso blogue. E viveram na mesma rua! O Adriano Lima só voltou a sua terra 40 anos depois. E o Carlos vive ha muito na Praia (desde que regressou da Guiné -Bissau em 1975).

Cortesia de Adriano Miranda Lima / Blogue Praia de Bote (2012). Informação complementar de Adriano Miranda Lima: Foto de origem desconhecida mas que parece ser da Foto Melo ou do José Vitória. Legenda: LG.



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Outubro de 1941 > "O belo porto de mar de São Vicente; ao centro o ilhéu que se confunde com um barco [o ilhéu dos Pássaros]"... Foto (e legenda) do álbum de Luís Henriques, ex-1º cabo at inf, 3ª Companhia do 1º Batalhão do RI5, unidade mais tarde integrada no RI 23 (São Vicente, Cabo Verde), 1941/43). Origem: provavelmente Foto Melo.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.




1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > O jovem professor Marcello Caetano, diretor cultural do Cruzeiro, discursando na câmara municipal. Visto de perfil, à esquerda. Ao meio, o fundador dos Sokols de Cabo Verde, Júlio Bento Oliveira (1905-1984), parente do Adriano Lima. Está de farda branca (a de comandante dos Sokols).





 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > A miudagem disputando as moedas deitadas para o meio da rua pelos turistas do "Moçambique"... Um espectáculo degradante, aos olhos de hoje, mas que fazia parte do "folclore" de "Soncent". A ilha, do Barlavento, a segunda mais populosa do arquipélago, continua a perder hoje o concurso dos seus melhores filhos para a Praia (a capital política) e para emigração. Apesar do desenvolmento socioeconómico da ilha e do resto do arquipélago.

Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:

http://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=1378&type=Video


(Seleção e edição de imagens, numeração, legendagem, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

1. Comentários, por email, aos postes P27409 e P27416 (*), enviados por Adriano Lima  (cor inf ref, membro da Tabanca Grande nº 560, desde 2/12/2012; natural de Mindelo, Ilha de Sáo Vicente, Cabo Verde, reside em Tomar; fez comissões de serviço em Angola e Moçambique):

Data - quarta, 12/11/2025, 22:58 

Caro Luís.

Agradeço ter sido um dos destinatários deste mail.

Não respondi mais cedo porque andei a tentar abrir o filme, coisa que me escapava de todo. Só agora o consegui, mas sem o respectivo som. Tentei de todas as formas, mas sem sucesso.

Mas, vá lá, vi o filme. Quanto aos músicos, não consigo identificar nenhum deles. Foi pena que a ausência de som me tenha impedido de ao menos ouvir as músicas tocadas.

Abraço amigo.
Adriano

2. Resposta do editor LG:

Data - 13/11/2025, 09:42

Adriano, é mesmo "sem som". Os documentários na época não tinham som . O som síncrono ainda era tecnicamente complicado.

Olha, divulga pela Praia do Bote. Um abraço para o  Joaquim Saial e colaboradores. Ab, Luís
PS. - Descobri um texto teu,  fabuloso,  sobre a Fazenda Tentativa, Angola. Vou cita-lo mais a frente.

3. Novo comentário Adriano Lima: 

Data - 13/11/2025, 17:01 

Luís, boa tarde.

Sim, desconfiava que o filme não tinha som, mas precisava confirmar. Vale pelas imagens e pelo estilo narrativo, que nos retratam o Estado Novo na sua genuinidade. A visita destes excursionistas foi uma decisão simpática e compreensível, exemplo que estava longe do pensamento de Salazar, que nunca pôs os pés no Ultramar.

Os meus olhos centraram-se na miséria bem patente nos jovens e crianças com vestes esfarrapadas e descalças, com os miúdos mais novos completamente nus, em disputa para apanhar umas moedas que os visitantes lhes terão atirado junto ao Mercado Municipal. 

Claro que 1935 estava ainda sob os efeitos da crise mundial de 1929, que afectou drasticamente todo o mundo, mesmo os países ricos. Mas era endémica a pobreza em Cabo Verde, pois lembro-me de ver na minha infância quadros idênticos ao observado, com crianças (rapazes) completamente nuas nos atredores de Mindelo. 

Mais tarde, já na minha adolescência/juventude, o panorama melhorou um pouco, pois crianças nuas eram já raras. Em todo o caso, bem antes do meu tempo as autoridades terão proibido a ida de crianças nuas à cidade, que em crioulo se diz "morada". 

No filme vêem-se também miúdos desnudados em botes, que asssediavam os navios que chegavam. Era hábito atirar moedas para o mar para eles as irem apanhar no fundo. Desde muito cedo faziam pela vida no meio da baía.

As coisas mudaram bastante e hoje, aliás desde há muito, e já não se vêem pessoas com roupas rotas ou remendadas ou descalças.


Francisco Xavier da Criuz
(B.Leza) (1905-1958)

Voltei a mirar os músicos e não consegui reconhecer nenhum (eu só nasceria 10 anos depois deste acontecimento). Era já célebre o músico e compositor B. Leza (Francisco Xavier da Cruz), que em 1935 tinha 30 anos, mas não sei se é alguns dos músicos. À época também eram já célebres o Mochim d' Monte e o Manuel Querena, ambos violinistas. Serão alguns dos que estão no filme? O B. Leza é este da foto (à direita).

Ah, no filme reconheço o que foi o fundador dos Sokols de Cabo Verde, Júlio Bento Oliveira, meu parente. Está de farda branca (a de comandante dos Sokols) e ao lado de Marcelo Caetano quando este discursa na recepção da Câmara. 

Creio ter também identificado o industrial Manuel de Matos 
na recepção dada aos visitantes numa propriedade rural num lugar chamado Ribeira do Julião.
 
Já não me lembrava desse texto, "Sentimentos Retroactivos", que escrevi em 2016. Obrigado pela tua apreciação.

Vou enviar o mail ao Joaquim Saial.
Abraço amigo

Adriano

(Revisão / fixação de texto,negritos: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Últimos postes da série :

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27416: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (12): o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente: Mindelo, agosto de 1935 - II ( e última) Parte



Fotograma nº  17 e 17A > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > O grupo musical que animou o bailo liceu Infante Dom Henrique. São seis jovens midelenses (presume-se): duas rebecas, duas violas, um cavaquinho, percussão... 


Fotograma nº 18  > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Espero que o nosso grande especialista em música de Cabo Verde, o mindelense Carlos Filipe Gonçalves,nos ajude a completar as legendas...


Fotograma nº 19  > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 >  Interior do liceu Infante Dom Henrique (Gil Eanes, a partir de 1938)... Uma das figuras de referência deste importantíssimo estabelecimento de ensino e polo de desenvolvimento cultural foi o professor e escritor Baltazar Lopes 
 da Silva ( São Nicolau, 1907 — Lisboa, 1989). Fou um dos fundadores, em 1936.  da revista "Claridade". E é autor de uma das obras-primas da literatúra em língua portuguesa, "Chiquinho" (1947).




Fotograma nº 20 e 20A > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > Damas e cavalheiros dançando a rigor a morna (1)


Fotograma nº 21 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Fachada do mercado municipal que é dos anos 20


Fotograma nº 22 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho (1922) (1)



Fotograma nº 23 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 >Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho (1922) (2)

 

Fotograma nº 24 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Uma vendedor5a de rua com a bnandeirinha portuguesa.



Fotograma nº 25 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Dois polícias locais junto ao quiosque da Praça Nova



Fotograma nº 26 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Aspeto parcial da Praça Nova.. Ao fundo o coreto.


Fotograma nº 27 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Outra vista da Baía Grande e, ao fundo, o sempre presente Monte Cara.




Fotograma nº 28 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Uma ida ao interior, para visitar uma pequena exploração agrícola apresentada no filme como um verdadeiro oásis


Fotograma nº 29 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > Marecllo Caetano em primeiro plano, vestido a rigor, de fato completo... Visita ao "oásis"... As senhoras ficaram na cidade a tomar chá... SEgundo oo nosso camarada mindelense Adriano Lima o sítio é na Ribeira do Julião.



Fotograma nº 30 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentario de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >   Mindelo > Agosto de 1935 > O "ponteiro", diríamos na Guiné.. O domo do "oásis#"



Fotograma nº 31 > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente, documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >  Ribeira do Julião > Agosto de 1935 > Jovens da comitiva, tomando notas e fotografando...Dois deles envergam chapéus colonais... O preto parece que estava na moda: vejam-se as camisas (negras ou pretas) e as calças (brancas) dos jovens do lado direito. 


Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:


(Seleção e edição de imagens, numeração, legendagem, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)


1. Estas imagens foram obtidas de fotogramas do filme do realizador (e fotógrafo)  San Payo (Por, 1936, 91' 13'', em formato 35 mm, a preto & branco, sem som). O detentor dos direitos é a Cinemateca Portuguesa. Mas o filme já é, presumo, do domínio público. E merece ser conhecido dos nossos amigos e camaradas mindelenses. 

E não só. Merece ser conhecido de todos nós, amigos e camaradas da Guiné. Para já ajudam- nos a seguir a seguir a rota deste l Cruzeiro de Férias as Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola).

Sobre a ilha de São Vicente e em especial o Mindelo, gostariamos que os nossos amigos e camaradas que são naturais do Mindelo ou que lá vivem ou que conhecem o Mindelo, se pronunciassem: o Carlos Gilipe Gonçalves. o Adriano Lima, o Manuel Amante da Rosa, a Lia Medina, o Nelson Herbert... (São membros da Tabanca Grande.)

O filme tem 15 minutos dedicados a Cabo Verde, São Vicente e Santiago. Durante algumas horas os nossos "excursionistas" (sic) visitaram o Mindelo (de 7 a 15') e a Praia (de 15' a 23'), com breves incursões pelo interior.

Selecionámos alguns fotogramas desta visita de cerca de 200 "turistas coloniais" (mais de 1/3 eram jovens estudantes, finalistas do liceu). O diretor cultural do cruzeiro era o então professor Marcello Caetano, que viria a ser, em plena II Guerra Mundial, o comissário nacional da Mocidade Portugueesa (1940-1944) e a seguir Ministro das Colónias (1944-1947), e já na altura apontado como delfim de Salazar.

Nunca fui ao Mindelo. Fiz apenas uma paragem técnica, no avião da TAP, na ilha do Sal.  Tenho pena. E sobretudo penitencio-me de nunca ter lá levado o meu pai, expedicionário em 1941/43, Luís Henriques (1920-2012). É também em homenagem a ele e ao seu amor a "Soncent" que edito estas imagens, que me deram uma trabalheira a visionar, selecionar, editar, legendar...

PS - Vejo, pela consulta do "Diário de Lisboa", que o paquete "Moçambique" regressou a Lisboa, em 3/10/1935. É, portanto,a data do términmus do cruzeiro, um sucesso segundoos seus organizadores.

______________________