sábado, 27 de março de 2021

Guiné 61/74 - P22044: Memória dos lugares (420): Ainda a bonita e hospitaleira vila de Sonaco do meu tempo (Manuel Oliveira Pereira, ex-fur mil, CCAÇ 3547 / BCAÇ 3884, Contuboel e Sonaco, 1972/74)

1. Mensagem do Manuel Oliveira Pereira [ex-fur mil, CCAÇ 3547 / BCAÇ 3884 (Contuboel, 1972//74), é membro da nossa Tabanca Grande, da primeira hora; é hoje jurista  e vive em Ponte de Lima]

Data - 26 mar 2021 17h03
Assunto - Legendas das fotos relativas a Sonaco


Caro Luís,

As minhas saudações.

Em resposta ao tey pedido de identificação das fotos, relativamente ao poste P22003 (*), já o fiz, mas talvez, erradamente. Fi-lo na página do "facebook"  da Tabanca Grande Luís Graça , isto porque não vi a minha resposta. 

Nesse sentido, aqui segue em anexo um texto com o solicitado.
Com abraço,

Manuel Oliveira Pereira
 

2. Memória dos lugares > Ainda Sonaco

Para melhor identificação das fotografias, supra publicadas, e porque sou o autor (*), à excepção dos mapas (Google): todas se reportam à bonita e hospitaleira (pelo menos à época) vila de Sonaco, localidade com Destacamento, cuja guarnição era constituída por um Grupo de combate,e um outro de Milícia, pertencente à quadricula (jurisdição) da Companhia sediada em Contuboel.

Assim temos:


Foto n.º 1 > Da esquerda para direita, em "T" invertido, vê-se a estrada que vinha de Jabicunda (leste) para Contuboel (oeste), e na esquina desta o Mercado. Também à esquerda, com telhado claro, o antigo Aquartelamento, agora Mesquita (, assinalada com rectângulo a vermelho).

Já na Rua Principal, a meio, e assinalado com seta a vermelho o estabelecimento do Sr. Orlando, e quase no fim, um Largo, ladeado pela Igreja (telhado claro e traseiras com arvoredo) e do lado contrário a Casa do Chefe de Posto Administrativo (a sede de circunscrição ou concelho era Bafatá, já elevada então a cidade).

O Sr. Orlando era um comerciante com estabelecimento de café e mercearia e ainda com outros negócios, nomeadamente o  gado bovino. A sua loja, situava-se, pois, a meio da "avenida", no sentido do antigo Aquartelamento  (hoje Mesquita) para casa do Chefe de posto.


Foto n.º 2 >  Estrada Jabicunda/Contuboel, e na esquina desta o Mercado, com arvoredo na frente, e ao lado direito o Aquartelamento (hoje Mesquita,  assinalada com rectângulo vermelho)


Foto n.º 3 >  De forma mais visível, a estrada de Jabicunda/Contuboel. Na parte inferior o Aquartelamento (, hoje Mesquita, assinalada com rectângulo vermelho). À direita fazendo esquina o Mercado. 

Na parte superior.  e onde Rua Principal, após passar o Largo à esquerda e a sombra de uma "árvore" parece cortar a estrada, vemos em forma de "Y", à direita, situava-se a Pista de Aviação (aeródromo) e o Equipamento de Meteorologia  (vd. sinal de localização, a vermelho)


Foto n.º 4 >  O mesmo que a anterior, mas ampliada e com sinal de localização a vermelho na Pista de Aviação.

Infografias (fotos de 1 a 4): Manuel Oliveira Pereira (2021) (com a devida vénia ao Google Earth]


Foto n.º 5 > Guiné > Região de Bafatá > CCAÇ 3547 (Contuboel, 1972/74) > Sonaco >   Natal de 1973 > O Comandante  da companhia (Cap mil inf Carlos Rabaçal Martins) no café do Sr. Orlando;


Foto n.º 6 > Guiné > Região de Bafatá > CCAÇ 3547 (Contuboel, 1972/74) > Sonaco > Natal de 1973 > Eu e a “minha guarnição” no interior do Aquartelamento.


Foto n.º 7 >  
Guiné > Região de Bafatá > CCAÇ 3547 (Contuboel, 1972/74) > Sonaco > Natal de 1973 > O meu Grupo (parte) à entrada do Aquartelamento.

Fotos (e legendas): © Manuel Oliveira Pereira (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Nota: As fotografias n.ºs 5, 6 e 7 foram tiradas na Noite de Natal  de 1973. Por ser um dia especial, fazíamos 18 meses de comissão, autorizei, que para a “Ceia”, todos, à excepção da Milícia, se vestissem à civil. 

Estivemos assim, cerca de hora e meia. Obviamente que tive a anuência do Capitão, que optou por fazer o mesmo, já que nos fez companhia nessa noite. 

Durante alguns dias que antecederam a “Ceia”, ninguém dormiu com lençóis. Assim, permitiu que os mesmos fossem várias vezes lavados, desinfetados e viessem, como vieram, a ser usados como “toalhas” na mesa natalícia. Para dar maior ar festivo, a “Porta de Armas” e o interior do Aquartelamento, foram ornamentados com ramos de “cibos”. (**)

2. Nota do editor LG:

A CCaç 3547 partiu para o TO da Guiné em 25 de março de 1972 e regressou a 25 de junho de 1974. Pertenceu ao BCAÇ 3884 (Bafatá, 1972/74).As outras unidades de quadrícula eram a CCAÇ 3548 (Geba) e CCAÇ 3549 (Fajonquito).

Após treino operacional e sobreposição com a CArt 2741, assumiu, em 28Mai72, a responsabilidade do subsector de Contuboel, tendo tido um pelotão destacado em Bafatá e em Sonaco. Manteve também dois pelotões em reforço do BCaç 4518/73, em Galomaro, de 10Abr74 a 10Jun74.

Em 15Jun74, foi rendida pela 1ª Comp/BCaç 4514/72 e recolheu a Bissau, e, fim de comissão.
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(**) Último poste da série > 25 de março de  2021 > Guiné 61/74 - P22034: Memória dos lugares (419): Ilha do Sal, ao tempo da CART 566 (17/10/1963 - 25/7/1964) (José Augusto Ribeiro, 1939-2020)

Guiné 61/74 - P22043: Os nossos seres, saberes e lazeres (443): Quando vi nascer a Avenida de Roma (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2021:

Queridos amigos,
Os confinamentos remetem-nos para passeios pedestres, em horas avessas ao bulício. Assim como alguém escreveu uma viagem à volta do seu quarto, regressei a um significativo local da minha infância e da minha adolescência e vou usar e abusar do privilégio que me foi concedido de ver nascer um importante troço da Avenida de Roma que em tempo meteórico apontou até à Praça de Londres, tornou-se numa artéria de grande significado, acolheu estratos da média burguesia, e ficou na memória um certo comércio que ainda hoje goza de lenda, cinemas, cafés, livrarias, discoteca, papelaria, loja dos cafés, para já não falar da roupa janota e mais tarde um centro comercial. Gerou uma imagem de culto, com as linhas aerodinâmicas de certos arrojos arquitetónicos, basta pensar em Jorge Segurado e Cassiano Branco, os cafés eram diversificados, quem frequentava o café Londres não era a mesma clientela do Café Roma, quem ia ao Tique-Taque não era a mesma clientela de Luanda ou da Sul América. Havia a tertúlia da Livraria Barata e o ponto de encontro dos intelectuais mais jovens no café Vá-Vá.
Um mundo que se extinguiu, compreende-se, já lá vão quase 70 anos. E a gente vai continuar a rememorar.

Um abraço do
Mário


Quando vi nascer a Avenida de Roma (1)

Mário Beja Santos

Desta feita, procedo a uma incursão pelo passado, retomo a um livro meu autobiográfico, intitulado O Fedelho Exuberante, Uma crónica familiar pequeno-burguesa no pós-guerra, Âncora Editora, 2015. Para criar atmosfera às imagens e texto que se segue, levo o leitor aos diferentes locais onde decorre a narrativa, como tudo começou. Em 1952, quando fui viver na Rua António Patrício, no chamado Bairro Social de Alvalade, a rua tinha um aspeto insólito, um enfiamento de prédios que vinham da Avenida de Roma e terminavam na Rua Afonso Lopes Vieira. Ao cimo, junto da Avenida de Roma, havia um quarteirão de casas de bairro social que culminava numa construção já diferente, dois prédios de gaveto a olhar para os muros oitocentistas da Quinta do Visconde de Alvalade. Tínhamos uma rua alcatroada, prédios do lado esquerdo de fachada semelhante, e a velha quinta onde a miudagem se entretinha. Vestígios do passado não faltavam. Logo a velha esquadra, um dos nossos colegas, o Aniceto, filho de agente da dita esquadra, tinha autorização para levar amigos para andarmos a brincar nos calabouços, foi sorte de pouca dura, um dia fechámos o Zeca numa das celas vazias, coisa mais lúgubre não conhecíamos, com uma janela gradeada lá no alto e um estrado de pau e uma pia no canto, o Zeca berrou, veio o agente de serviço, acabou-se a brincadeira, mesmo em dia em que não havia presos. Mas o dado mais extraordinário que a memória reteve foi termos visto nascer a Avenida dos Estados Unidos da América, a partir da sua ligação com a Avenida de Roma. Talvez valha a pena reproduzir o que se escreveu no sobredito livro autobiográfico:
Ao princípio da tarde, o Hipólito, que tinha ido levar comida à avó, no Hospital do Rego, entrou esbaforido na sala de aula e gritou a informação: Malta, já chegaram as máquinas grandes, estão a deitar abaixo o olival! Dona Emília, a nossa professora, bem gesticulava a tentar pôr a ordem, dentro da sua folgada bata branca, o ponteiro que empunhava na mão direita sibilava na nossa direção, era o pandemónio fora das carteiras, a fazer perguntas ao Hipólito, Dona Emília berrava a plenos pulmões: Ordem! Todos sentados!
Aguentámos a custo até ao toque da campainha, tirando a malta de Telheiras que precisava de lanchar e encher a barriga, nós, os rapazes do Bairro das Caixas, fomos a correr para junto da Estátua dos Heróis da Guerra Peninsular, do outro lado estava a Avenida 28 de Maio, nós na placa circular da Praça Mouzinho de Albuquerque, queríamos ver o grandioso espetáculo de baixo para cima. E o que estávamos a ver eram os caterpílares a remover a terra e a abrir o estradão da futura Avenida dos Estados Unidos da América. Diante dos nossos olhos, o olival da quinta estava a desaparecer, dentro de um ano teríamos ali uma avenida alcatroada, prédios altos, todos esverdeados, do lado esquerdo, prédios da arquitetura moderna, mais baixos, do lado direito, ali ficava o cinema Quarteto, saudosa memória. Por ali passarão, ao longo dos anos, o maestro Frederico de Freitas, o general Arnaldo Schulz, o marechal Costa Gomes, o compositor Joly Braga Santos a trautear as suas composições, pretéritas e futuras. Lá em cima teremos o café Vá-Vá, ali irão pontificar Eduardo Prado Coelho e Lauro António, à sombra de um painel de azulejos de Menez, que felizmente se conserva.
A malta perdeu um olival, baloiços, esconderijos, lugares de brincadeira. Desapareceram armazéns de toda a espécie de traquitana, um dia mais tarde será ali implantada a Clínica de São João de Deus. A Lisboa dos anos 1950 crescia, estendia tentáculos, uma forma de progresso arrancava aquele lugar chamado Alvalade, que confinava com as Avenidas Novas.
Estátua dos Heróis da Guerra Peninsular, à esquerda o início do coberto florestal do Campo Grande, para cima a nascente Avenida dos Estados Unidos da América, no lado esquerdo o Bairro Social de Alvalade, a primeira rua é a António Patrício, tendo em frente a Quinta do Visconde de Alvalade, onde a petizada brincava alegremente, em meados da década de 1950 tudo se transformará. Foi este o mundo que eu vi nascer e o outro que eu encontrei quando aqui cheguei, em 8 de março de 1952.
A velha esquadra do Campo Grande, já fora escola, será demolida para dar lugar a um enfiamento de prédios novos.

Em 1952, erigia-se um arrojado projeto de Jorge Segurado, quatro prédios monumentais esquinando a Avenida dos Estados Unidos da América com a Avenida de Roma, a petizada saía da escola e deslumbrava-se com aqueles longos andaimes e um estilo arquitetónico totalmente diferente do que se praticava no nosso bairro. Passeávamos demoradamente no estaleiro que era a Avenida de Roma, íamos bisbilhotar o Bairro de São Miguel, também distinto do nosso, o nosso era conhecido por Bairro das Caixas, dele se falará mais adiante, também era conhecido por Bairro das Caixas de Previdência, o meu prédio pertencia à Caixa de Previdência dos Empregados da Assistência e estava ladeado por um prédio da Caixa de Previdência dos Médicos e Caixa de Previdência do Pessoal da CUF, quando se começara a construir os chamados prédios verdes entre a Rua António Patrícia e a Avenida dos Estados Unidos da América preponderão a Caixa de Previdência do Ministério da Educação e o Cofre de Previdência das Forças Armadas.
Com o passar dos anos, observámos que o comércio mais atrativo se implantara do cruzamento entre a Avenida dos Estados Unidos da América e a Avenida de Roma até à Praça de Londres, no sentido contrário, isto é, entre o cruzamento e a Avenida do Brasil, tendo ao alto o Hospital Júlio de Matos, havia pequenos cafés, caso do Jacaré Paguá (que ainda sobrevive) e o cinema Alvalade, de saudosa memória, recordo os ciclos de cinema que ali passavam no verão com filmes de culto. Demolido, deu lugar a uma outra construção, o que resta é um fresco da pintora Estrela Faria.
Havia a preocupação de incrustar motivos escultóricos nos novos edifícios, motivos algo mitológicos, desde sereias a centauros, quem por ali passava sentia que a nova classe residente gostava de viver com as paredes aprimoradas, um género de baixo-relevos introduzia um toque de classe.
Aproveita-se o espaço do lintel e neste caso a senhora deitada parece estar a convocar a Natureza úbere ou a fecundidade
Mulheres desnudadas não faltam pela Avenida de Roma, esta amazona leva os louros a triunfador qualquer, o cavalo olha-a com profunda admiração
As ruas laterais da Avenida de Roma abrem-se aos novos bairros que então surgiam, esta é a Rua Frei Amador Arrais, uma entrada para o Bairro de São Miguel, vai por aí fora até à Rua de Entrecampos, desemboca na Avenida de Roma, tem pracetas e a sua arquitetura, mesmo a uma escala mais baixa, tem o seu parentesco com a dos residentes da Avenida de Roma. Aqui na esquina funciona o Fruta Almeidas, procurado pelos sumos, frutas e legumes, pastelaria sobretudo os lendários pastéis de massa tenra
Um dos aspetos mais curiosos desta arquitetura é dado pela variedade de materiais usados nas portas de entrada para os residentes; a chamada porta de serviço, entrada das criadas, do leiteiro e do padeiro é de grande modéstia. Passadas todas estas décadas, continuo a parar regularmente frente a esta porta, tem a sua majestade mas também anuncia uma rutura com as linhas convencionais, felizmente que no restauro lhe conservaram as cores de origem, gera-se o sentimento que se entra num prédio de gente com as suas posses. A nova média burguesia tinha nestas entradas um belo cartão de visita. Vasco Pulido Valente dedicou um dia um artigo à Avenida de Roma, aos novos residentes, oficiais das Forças Armadas, chefias da administração, gente dos negócios. Décadas depois, a artéria deixara de ser uma referência, as crianças de outrora, agora gestores, quadros, professores, etc., mudavam-se para Miraflores ou para a linha do Estoril, ficaram os seniores, deu-se um notório envelhecimento dos residentes, pensionistas com um certo caráter de remediados.
Muitos dos edifícios da Avenida de Roma caprichavam com as suas portas em metal, era então uma novidade, com molduras em mármore e boa escadaria até ao elevador. Países como a Alemanha classificam hoje este tipo de ornamentos, são verdadeiramente símbolos de uma época, não se podem alterar
A Sinfonia, considerada hoje loja com história, vem dos tempos primitivos, o seu interior é impressionante, em madeiras da época, um belo design de interiores, tem conhecido dificuldades e a pandemia agravou a sobrevivência. Quando a pandemia passar e o leitor tiver oportunidade de deambular ali à porta não se escuse a entrar, tem um interior com largas décadas, foi uma livraria com grande prestígio, a sua rival, a Barata fica no outro lado da Avenida, umas escassas centenas de metros à frente, perto da Avenida João XXI, era ali que nós íamos à procura dos livros proibidos
Imagine o leitor o que era a petizada do bairro social de Alvalade sair da escola primária nº 151 e vir praticamente todos os dias assistir à construção deste troço da Avenida de Roma, olhávamos embasbacados as linhas aerodinâmicas das varandas, em frente a loja era a Pastelaria Suprema, infelizmente perdida, tinha mezanino e nos últimos anos era ali que iam comer os seniores da zona (ali ou no Café Luanda). Recordação desaparecida. Olho agora para a cave ali à direita, está ligada a um filme de culto.
O filme Os Verdes Anos, de Paulo Rocha (saído em 1963) com Isabel Ruth e Rui Gomes, marca o início do Novo Cinema português, história dramática de um jovem que vem do campo para a capital, integra-se com enorme dificuldade num universo todo em construção, ainda marcado pela ruralidade ali bem perto, trabalha como sapateiro e namora com uma criada de servir nas chamadas Avenidas Novas. Tudo vai correr mal. A música de Carlos Paredes atinge níveis do sublime.

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P22020: Os nossos seres, saberes e lazeres (442): Convento de Jesus de Setúbal, com o restauro recente, ainda mais belo! (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22042: Parabéns a você (1944): Armando Pires, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2861 (Bula e Bissorã, 1969/70); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732 (Mansabá, 1970/72) e Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Esp da CCS/BCAÇ 4612/74 (Mansoa, 1974)

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Nota do editor

Último poste da série de 25 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P22033: Parabéns a você (1943): Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil Inf da CCAÇ 816 (Bissorã, Olossato e Mansoa, 1965/67)

sexta-feira, 26 de março de 2021

Guiné 61/74 - P22041: In Memoriam (389): Ilídio Sebastião Vaz (1945/2021), ex-fur mil enf, CCaç 14 (Bolama e Cuntima, 1969/1971): morreu em Havana, Cuba, em sequência da Covid-19 (Eduardo Estrela)



Convívio do pessoal da CCAÇ 14 >s/l > s/d> À direita está o Ilídio Vaz (Zé Vaz ) e á esquerda o Vítor Dores.


Foto (e legenda): © EduardoEstrela  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem do Eduardo Estrela (ex-Fur Mil da CCAÇ 14, Cuntima, 1969/71)

Data . sexta feira, 26 de março de 2021, 15h23

Assunto . Em memória do Zé Vaz

Boa, tarde Luís!

Mais um camarada que nos deixa privados da sua presença física. Em Cuba, onde ia com alguma frequência, faleceu o companheiro Ilídio Sebastião Vaz (1945/2021). Foi Fur Mil Enf da C.Caç 14 (1969/1971). 

Deixa-nos um enorme vazio pois em cada um dos que com ele privaram nas agruras da Guiné, cimentou laços fraternos de solidariedade. Na zona operacional onde estávamos instalados, sempre esteve disponível para alinhar em toda a actividade militar, sendo mais um dos enfermeiros da Companhia, de modo a que o pessoal que comandava ficasse um pouco mais aliviado. 

Para poder viajar fez um teste á Covid que deu negativo, mas outro feito na chegada a Havana deu positivo, foi hospitalizado e permaneceu perto de mês e meio numa unidade de saúde. Quatro dias após a alta hospitalar não resistiu a uma paragem cardiorrespiratoria.

Um grupo de camaradas, encabeçado pelo António Bartolomeu, ainda se disponibilizou para repatriar o corpo para Portugal, mas a verba que inicialmente foi pedida depressa subiu para quase o dobro e a iniciativa ficou votada ao insucesso.

Fica na nossa memória e nos nossos corações. A sua verdadeira família éramos nós. Que descanse em Paz.

Anexo foto dum dos nossos convívios, onde á direita está o Ilídio Vaz ( Zé Vaz ) e á esquerda o Vítor Dores.

Se achares por bem, publica no blog.
Grande abraço, 
Eduardo Estrela

2. Comentário do LG:

Eduardo, o Zé Vaz tinha que ser um bom homem e um bom camarada para tu evocares,de maneira tão sensível e generosa a sua memória.  



O Ilídio Sebastião Vaz em 2019.
Fotograma de vídeo do Museu do Aljube.
Com a devida vénia

Apurámos que o teu/nosso camarada era
 natural de Lisboa e vivia em Almada. Tinha página no Facebook, que utilizava pouco, a última "postagem" datava de 13 de novembro de 2019. Via-se que tinha "vários amigos do Facebook", originários de Cuba. 

Ainda em 2019 dera uma longa entrevista ao Museu do Aljube e Resistência e Lisberdade, de que foi publicado um pequeno excerto (3' 20'') no You Tube, disponível aqui.  A versão completa  deve estar disponível no Centro de Documentação do Museu do Aljube.

[Sinopse: Ilídio Sebastião Vaz deixou-nos o seu testemunho repleto de memórias, de familiares e as suas próprias, desde as referentes aos “amigos” que ele sabia serem da PIDE e dos negócios destes com a prostituição, ao terror do franquismo, até à sua experiência como enfermeiro na guerra colonial, na Guiné, sem qualquer tipo de formação.]

Um abraço para ti, o António Bartolomeu e demais camaradas da CCAÇ 2592 / CCAÇ 14:  partimos ttodos juntos para a Guiné no mesmo navio, o T/T Niassa, em 24 de maio de 1969. Infelizmente não me lembro Zé Vaz, já que ele foi para o CIM Bolama e nós (CCAÇ  2590/ CCAÇ 12) para o CIM Contuboel, mais o António Bartolomeu que ali formou um pelotão mandinga.

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Nota do editor:


Guiné 61/74 - P22040: Da Suécia com saudade (89): Filhos de portugueses mas... desconhecidos em Portugal - Parte III: João Rodrigues Cabrilho, o primeiro navegador e explorador europeu a chegar à costa californiana, c. 1542/43 (José Belo)




EUA > Califórnia > A memória do navegador e explorador João Rodrigues Cabrilho... Para além da autoestrada ao longo da costa californiana, esta ponte também tem o seu nome... Foi o primeiro europeu a explorar a costa californiana... Há um monumento nacional ao Cabrilho em San Diego, Califórnia...

Fotos: Cortesia de José Belo (2021)



1. Mensagem de José Belo, o nosso luso-sueco, cidadão-do-mundo, membro da Tabanca Grande, que reparte a sua vida entre a Lapónia (sueca), Estocolmo e Key-West (Florida, EUA). Foi nomeado por nós régulo (vitalício) da Tabanca da Lapónia...

Data: sábado, 20/02/2021 à(s) 15h42

Assunto: Mais um português famoso nos States ... quase desconhecido em Portugal: João Rodriguez Cabrillo (*)



João Rodrigues Cabrilho
(Cabril, Montalegre, c. 1499 - Novo Mundo, Califórnia, 1543)

 

Tal como ao Magalhães, 
os espanhóis também o querem para só si, ao Cabrilho 
(efígie acima)...


João Rodrigues Cabrilho (ou Cabrillo, para os espanhóis)  foi um soldado e explorador português ao serviço de Espanha.

É famoso nos Estados Unidos, mormente na Califórnia, por ter sido o primeiro europeu a explorar a costa norte-americana do Oceano Pacífico em 1542/43.

A sua nacionalidade ainda hoje é objecto de  disputa entre portugueses e espanhóis. (#)
 
Está demonstrado ter sido filho de família portuguesa, mas, segundo os espanhóis, nascido em Espanha (Palma del Rio),  a 13 de Marco de 1499 (ou 1475).

No entanto, nas Beiras portuguesas mais de uma localidade afirma ser a terra de nascimento do navegador Cabrillo, e que familiares com esse nome ainda por lá vivem. Certo é que foi educado em Espanha, sendo de origens humildes.

Ainda muito jovem terá navegado para as Índias Ocidentais fazendo parte de uma grande armada de 30 navios e 2500 soldados que colonizou Cuba.

Em 1519 foi enviado para o México com a missão de aprisionar o então revoltado Hermán Cortez que tinha desobedecido a ordens reais aquando da conquista do reino Azeteca. Esta missão foi mal sucedida devido a popularidade de Cortez junto dos seus homens, tendo Cabrillo juntado-se a Cortez no assalto à capital azeteca de Tenochtitlán (Hoje, Cidade do México).

Depois da derrota dos azetecas juntou-se à expedicão militar de Pedro Alvarado na área geográfica dos actuais México do Sul, Guatemala, e El Salvador.

Em 1530 Cabrillo tornou-se imensamente rico com a exploração de minas de ouro na Guatemala. 
Desde um porto da costa guatemalteca controlava as exportações e importações para Espanha, não só a partir da Guatemala mas também de outros locais do Novo Mundo.

Aplicou pesados impostos às populações locais, e usou muitos dos habitantes masculinos como mineiros escravos, ao mesmo tempo que entregava os elementos femininos da população, também como escravas, aos seus marinheiros e soldados. Conscientemente, quebrou deste modo todo o tecido social e familiar da vasta região.

Crê-se ter sido neste período que terá tido uma companheira indígena, e que desta relação terão resultado dois filhos.

Em 1532, já famoso e com enorme fortuna, voltou a Espanha onde se casou, em Sevilha, com Beatriz Sanchez de Ortega. Ela acompanhou-o de volta à Guatemala e o casal teve dois filhos.

Neste período, Cabrillo foi contactado por António de Mendoza, então Vice-Rei da Nova Espanha, para explorar a costa americana do Pacífico na esperança de serem encontradas cidades ricas a saquear e uma possível passagem marítima entre os Oceanos Pacífico e Atlântico.

Recebeu também instruções para procurar encontrar-se com Francisco Vasquez de Coronado, então enviado por via terrestre desde o Atlântico em direção ao Pacífico.

Cabrillo construiu com capital próprio o navio almirante da expedição (o San Salvador), colocando-se deste modo em posição óptima para beneficiar de possíveis relações comerciais a serem estabelecidas ou tesouros encontrados.

 A 24 de Junho de 1542 partiu do actual porto de Manzanilha/México com o navio almirante acompanhado de dois outros, o Vitória e o San Miguel. Quatro dias depois encontraram uma baía que constituía um excelente porto de abrigo (hoje San Diego Bay).

Seguidamente exploraram as ilhas situadas junto à costa da Califórnia, Santa Cruz, Catalina e San Clemente, ao mesmo tempo foram encontrando inúmeras pequenas povoações ao longo da costa. (Curiosamente os espanhóis só voltaram a estas áreas em 1769 (!), fazendo-se então acompanhar de soldados e missionários.)

A expedição continuou rumo ao Norte tendo atingido um local que denominaram Cabo de Pinos (actual Point Reyes). Então os temporais do Outono obrigaram-nos a voltar para o Sul até à Baía de Los Pinos (actual Monterey Bay).

Neste local da costa, e devido aos densos nevoeiros aí normais, não descobriram a entrada da Baía da Actual cidade de San Francisco (San Francisco Bay). Este erro foi repetido por numerosos navegadores nos dois séculos seguintes, precisamente devido aos densos bancos de neblinas locais. A expedição regressou a San Miguel onde passou o Inverno.

Na véspera do Natal foram atacados por guerreiros indígenas (Tongva). Procurando ajudar os seus homens, Cabrillo escorregou e caiu sobre algumas pedras ponteagudas. O ferimento posteriormente gangrenou, morrendo Cabrillo a 3 de janeiro de 1543. Julga-se estar sepultado na ilha de Catalina.

A expedição voltou a navegar ao longo da costa rumo ao Norte. Atingiu, segundo se julga, a costa do actual Estado Norte Americano do Oregon. Regressaram então para a Natividad em Abril de 1543.

Esta expedição de Cabrillo não atingiu os seus objectivos quanto a encontrar ricas cidades costeiras. Também não foi encontrada a mítica passagem marítima do Pacífico para o Atlântico.

O encontro com o explorador terrestre Coronado também não se deu. No entanto demarcou uma vastíssima área da Costa Norte Americana a partir do México, que o Reino de Espanha viria a ocupar e colonizar dois séculos mais tarde.
 
(#) Vd. Wikipedia (em português: vd. também versão em inglês):

(...) A nacionalidade Portuguesa de João Rodrigues não oferece dúvidas, pois é o próprio cronista e Chefe das Índias Espanholas, D. António Herrera y Tordesillas, que na sua "Historia General de los hechos de los Castellanos en lás Islas y tierra firme del Mar Oceano" o confirma, ao dizer ter D. António de Mendonça aprestado os navios "São Salvador" e "Victoria" para prosseguirem na exploração costeira da Nova Espanha "y que nombrô por Capitan dellos a Juan Rodriguez Cabrillo Português, persona muy platica en las cosas de la mar " (...) embora alguns biógrafos e historiadores, em especial Harry Kelsey, afirmem que Cabrillo tenha nascido em Sevilla (Andaluzia) em data incerta.

Na freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, há a "Casa do Galego" (origem aliás sugerida pelo seu apelido), onde alegadamente Cabrilho nasceu, como é afirmado em placa comemorativa. O investigador João Soares Tavares, após pesquisa morosa em Portugal, Espanha, México e Guatemala, apresentou dados comprovativos nos seus livros, que o navegador é português natural de Lapela (Cabril) do concelho de Montalegre.(...)
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P22039: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (45): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Março de 2021:

Queridos amigos,
As férias da Páscoa já passaram, correram deliciosamente, retoma-se o trabalho e Paulo Guilherme discute com o seu grande amigo Gilles Jacquemain os desafios que se põem às medidas de política dos consumidores, a direção do movimento está dividida entre aqueles que preferem trabalhar confinados às medidas de política existentes e os outros que alertam para as incidências da globalização, a falta de regulamentos que permitam travar as acentuadas desigualdades sociais, o imperativo da sustentabilidade, as alterações profundissimas que a era digital está a impor em todas as sociedades, remexendo nos modos de trabalho, nas comunicações, nas vivências. A organização de que fazem parte reúne em Bruxelas, aproveitou-se aquele período festivo para uma reunião de trabalho, Paulo recebeu a incumbência de preparar um documento de orientação estratégica, precisa muito do apoio de Gilles Jacquemain, é isso que transparece nesta carta e fala-lhe igualmente de um convite bastante insólito que lhe foi feito para falar num clube dedicado a tertúlias sobre a presença de Portugal na Flandres e na Bélgica.
Paulo não sabe como nem porquê, aceitou mais esta incumbência.

Um abraço do
Mário


Rua do Eclipse (45): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Mon cher Gilles Jacquemain, escrevo-te um tanto à pressa para tecer alguns comentários em torno da reunião da Direção da nossa Associação Europeia de Consumidores e dar-te conta do insólito convite que me fizeram Noël Molisse, da Confederação Europeia das Famílias, Magda Van Gompel, da Liga das Mulheres Previdentes Socialistas da Bélgica e John Jacobs, do recém-criado Clube Europeu dos Direitos do Homem. Antes, porém, quero manifestar o meu regozijo pela tua boa companhia no jantar de Dia de Páscoa, em casa da Annette. Se o almoço foi um festim dos melhores petiscos belgas, se a companhia da família se revelou encantadora, não menos feliz me deixou a tua presença ao jantar, bem como da tua mulher. Acho a Françoise já bem restabelecida de toda aquela grave situação em que viveu depois das terapêuticas para combater o cancro da mama, e com tão bom sucesso.

Começo pelo menos importante, o convite. Imagina tu que a tertúlia Maurice Maeterlinck pretende animar um conjunto de conversas sobre as relações entre a Bélgica e os diferentes Estados-membros. Estes nossos amigos deram-me a saber que pretendiam não um estudioso como Eduardo Prado Coelho ou um escritor como Vasco da Graça Moura, querem que seja alguém ligado aos problemas da cidadania para falar da presença de Portugal na Bélgica, estão já aprazadas as conversas com os convidados da Irlanda, da Dinamarca e do Luxemburgo, eu entro a seguir, em data a agendar para julho, mesmo no limite antes das férias. Um tanto irresponsavelmente, aceitei, não posso negar que o conhecimento histórico não faz parte da minha formação universitária, mas sinto-me muito arredado desse Henrique da Borgonha que casou com uma filha natural de Afonso VI, D. Teresa, detiveram o Condado Portucalense, aí nasceu Portugal. É evidente que não ignoro as relações entre Portugal e o Ducado da Borgonha, vem nos nossos compêndios de História a participação dos Cruzados flamengos na formação de Portugal, a Flandres, como tu te recordas da belíssima exposição em Antuérpia intitulada As Feitorias, terá um papel fulcral nas nossas relações económicas no povoamento açoriano, nos negócios do açúcar da ilha da Madeira, nas compras indispensáveis para a economia dos Descobrimentos Portugueses. Há casamentos importantes na Primeira Dinastia, temos depois a Feitoria Portuguesa de Bruges e a Feitoria Portuguesa em Antuérpia, não te esqueças que Carlos V, nascido em Gand, casou com Isabel de Portugal, desse casamento temos Filipe II de Espanha e I de Portugal. Isto são ideias soltas que me vêm à cabeça, não sei como é que vou arranjar tempo para ordenar todos estes dados cronológicos, tenho que estudar todo este comércio que fazíamos com a Flandres, ele está bem repertoriado do lado português, um dos nossos notáveis historiadores do século XX, Vitorino Magalhães Godinho, escreveu obras incontornáveis sobre esta economia. Um dia estava a visitar a Catedral de S. Miguel e Santa Gudula, olhei para um vitral e vi as armas de Portugal, procurei saber de que se tratava, o doador do vitral era o rei D. João III de Portugal, casado com a irmã de Carlos V. Um dos nossos mais influentes escritores românticos, Almeida Garrett, foi o primeiro encarregado de negócios de Portugal na Bélgica de Leopoldo I, entre 1834 e 1835. Do que tenho lido, não prestou grandes serviços, mas ficou conhecido pelas suas toilettes espampanantes e muitos amores de ocasião. Por ora basta, prepara-te para em julho compareceres na dita tertúlia, não falaremos dos consumidores, mas dos portugueses na Flandres e na Bélgica.

Vamos agora a assuntos mais sérios. Sinto que há uma nítida fratura entre nós para adotar uma estratégia adequada aos novos tempos. Espero que te recordes que comecei a minha intervenção falando da revisão no fim do século da Carta Mundial dos Direitos do Consumidor, em que se introduziu o direito ao consumo sustentável. Não teremos grande futuro se não apostarmos no princípio da sustentabilidade dos modos de produção, distribuição e consumo, seremos ultrapassados por aqueles que começam agora a falar no comércio justo, nos consumidores responsáveis, na responsabilidade social, etc. Gostes ou não, o ambiente, tal como o consumo, é uma problemática que atravessa a sociedade inteira. O cidadão que adquire bens e serviços é a mesma pessoa que não pode viver sem árvores nem água, as doenças do ambiente são igualmente doenças da economia, do mercado, das aspirações de vida. De um lado, temos os padecimentos ambientais, do outro lado a sofreguidão do consumo. Ultrapassámos as questões dos aerossóis, dos CFC, das vacas loucas, mas temos recursos hídricos envenenados, o espetro de acidentes com substâncias químicas, e prosseguem os duelos intermináveis a favor e contra os transportes coletivos e a restituição de ruas aos peões. Fui apoiado nesta discussão pelo Bengt Ingestarm, dos consumidores suecos, e pela Margaret Dampier, da Liga Britânica do Consumo e Ecologia. Os nossos colegas dos países do Sul parecem mais interessados em manter-se na coutada dos direitos do consumidor na esfera da proteção jurídica. Parece que lhes é indiferente que os consumidores e os ambientalistas têm trabalhado praticamente sempre de costas voltadas, e por isso têm visões fragmentadas do mercado. No documento que estou a preparar para a Direção, digo claramente que o ambientalista pretende valorizar em primeiro lugar o ambiente, ao passo que o defensor dos consumidores se mostra mais antropocêntrico e tecnocêntrico, isto é, tem a convicção de que os conhecimentos científicos podem servir tanto para regular o mercado como para resolver os problemas ambientais por meios tecnológicos. Isto faz parte de um paradigma em que não têm um papel relevante as formas de recuperação, redução ou reciclagem de todos os elementos da produção, que é um dado fundamental para a economia circular. E temos inclusivamente que produzir documentos de reflexão entre as nossas associações e depois enviá-los para a Comissão Europeia sobre a globalização em curso: de que modo é que o potencial da globalização encaixa com o desenvolvimento sustentável.

Gilles, meu inesquecível amigo, há também que ter em conta o que se passou na recente Cimeira de Joanesburgo, onde novamente se afirmou a importância dos modos de consumo ambiental e socialmente responsáveis, e parece-me que a Comissão Europeia ouviu bem o recado, o novo Programa Europeu para o Ambiente não deixa equívocos quanto ao princípio do poluidor-pagador, lembras-te com certeza, do papel que produzimos quando se pôs à discussão o VI Programa de Ação Comunitária em Matéria Ambiental (2001-2010), apoiámos as medidas de ajuda para que as organizações de consumidores apoiem os seus membros a fazer escolhas bem informadas. A dimensão ética da economia parece estar na ordem do dia, já demos apoio à legislação europeia sobre os cemitérios de automóveis, isto para dizer que a reciclagem passou a ser encarada como uma excelente oportunidade de negócio: resíduos urbanos, atividades de autorias ambientais e energéticas, bioarquiteturas, descontaminação de solos, ecodesign, gestão dos recursos hídricos, etc. E temos que estar do lado dos incentivos às empresas que insistem na reciclagem nos domínios do vidro, embalagem, sucata, indústrias gráficas e transformadoras. Detenho-me por aqui Gilles. Se a política dos consumidores faz parte da estratégia da União Europeia para melhorar a qualidade de vida, temos que nos declarar, na prática quotidiana a favor de uma agenda que não pense só nos direitos clássicos da proteção do consumidor, mas que os faça intervir na era digital, no desenvolvimento sustentável, nos novos desafios económicos, e igualmente devemos insistir em ter um papel mais representativo nas políticas de saúde, devemos ir muito mais longe do que dar opinião sobre os preços dos medicamentos ou a informação ou publicidade dos mesmos. É esse o documento que eu vou preparar, com os múltiplos afazeres do presente, tenho que fazer das tripas coração para obter papel que estimule a discussão. Conto com a tua fraternidade. Logo que esteja pronto, irás apreciá-lo, comentá-lo, beneficiá-lo. Faço-te encarecidamente este pedido.

As férias da Páscoa tiveram o condão de nos aproximar mais, já não sei o que seria a minha vida sem o ânimo que me dá Annette, a distância que nos separa já deixou de ser dolorosa, é um amor verdadeiro que nos traz imensa serenidade, cumplicidade, é um convívio sempre criativo. Há momentos em que olho para o meu passado recente e abençoo aquele encontro na Rue Froissart que tudo transformou, Annette e eu não temos dúvidas que nada será como dantes e batalhamos dia-a-dia pelo futuro radioso que o nosso amor semeia. Vê se me ajudas, também temos que encontrar o melhor azimute para o futuro das políticas da cidadania no consumo. Bien à toi, Paulo.
Henrique de Borgonha, conde de Portucale
Filipe o Bom e Isabel de Portugal
Retrato de António da Borgonha, de Rogier Van der Weyden, mas há quem diga que se trata do filho do Regente D. Pedro, irmão de D. João I, que era conhecido com o nome de Messire João de Coimbra
Fonte do Brabo, Antuérpia
Fachadas de belos edifícios na Grand-Place de Antuérpia
Almeida Garrett
Um momento de amizade luso-belga junto da imagem icónica do Manneken Pis, monumento de 1619, em Bruxelas

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P22018: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (44): A funda que arremessa para o fundo da memória

quinta-feira, 25 de março de 2021

Guiné 61/74 - P22038: Ser solidário (237): Consignação do IRS - uma ajuda à ONGD "Ajuda Amiga", NIPC 508617910 ...Foi fundada por um grupo de antigos combatentes...Vamos ajudar a acabar a construção da escola de Nhenque, Bissorã


Foto nº 1 > 2010 – Armazém da Ajuda Amiga na Amadora: orrganizando e embalando livros escolares: da esquerda para a direita, Carlos Silva, Helder Pereira, Bernardes, Armando Pires, António Ortet e Ilídio.
 

Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque [, a nordeste de Bissorã, na margem direita  do Rio Mansoa].  > 23 de março de 2021 > Construção da Escola da Ajuda Amiga de Nhenque,  em progresso


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque > 2020 > Faia Djaló, filho de pai português


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque > 2019 > Crocodilo aguarda oportunidade


Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque > 2020 > Pequeno crocodilo capturado na bolanha.


Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Bissorã > Nhenque > 31 de março de 2019  > As crianças pedem ajuda 

Fotos (e legendas):: © Carlos Fortunato (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem dp Carlos Fortunato, ex- ao Carlos Fortunato (ex-fur mil trms, CCAÇ 13, Os Leões Negros, Bissorã, 1969/71, e presidente da direcção da ONG Ajuda Amiga) [, foto à direita]:

Assunto - Ajuda Amiga

Data - 24 mar 2021, 13h33

Amigo e Camarada Luís Graça

Envio-te um post pedindo o favor de o publicarem. É um post na continuação de outro que foi publicado em 13-04-2019.

O projeto está a avançar de acordo com o planeado, começamos a preparação em 2020 e vamos terminar esta fase até Abril, para podermos abrir a escola em Outubro.

Darei noticias quando da conclusão desta fase.

Um abraço, tudo a correr pelo melhor e muito obrigado pela vossa colaboração e apoio.

J. Carlos M. Fortunato
Presidente da Direção da ONGD Ajuda Amiga
E-mail jcfortunato2010@gmail.com | E-mail jcfortunato@yahoo.com
Telem. +351 935247306

Escritório > Ajuda Amiga – Associação de Solidariedade e de Apoio ao Desenvolvimento
Rua do Alecrim, nº 8, 1º dtº
2740-007 Paço de Arcos

Sede > Ajuda Amiga – Associação de Solidariedade e de Apoio ao Desenvolvimento
Rua Mário Lobo, nº 2, 2º Dtº.
2735 - 132 Agualva - Cacém

Armazém > Centro de Atendimento da União das Freguesias do Cacém e São Marcos
Rua Nova do Zambujal, 9-A, Cave
2735 - 302 - Cacém

NIPC 508617910
ONGD – Organização Não Governamental para o Desenvolvimento
Pessoa Coletiva de Utilidade Publica

Telemóvel +351 937149143


SER SOLIDÁRIO > AJUDA AMIGA CONSTRÓI ESCOLA 
EM NHENQUE, BISSORÃ

por Carlos Fortunato 

A Ajuda Amiga foi constituída em 2008 por um grupo de antigos combatentes que estiveram na Guiné, sensibilizados pela situação daquele povo e dos seus antigos camaradas que por lá ficaram.

A Ajuda Amiga enviou e distribuiu desde 2008 até 2020 154,4 toneladas de artigos, entre os quais 208.290 livros, que beneficiaram mais de 300.000 alunos. Os elementos da Ajuda Amiga que acompanham os projetos pagam as suas despesas.(Foto nº 1)-

Em 2018 o principal objetivo da Ajuda Amiga passou a ser apoiar a construção de uma escola, pelo que todos os donativos passaram a ser canalizados para esse fim. O projeto será realizado por fases em função das receitas que se consigam angariar. (Foto nº 2) 

Em 2021 ficará construída uma sala polivalente, com uma pequena arrecadação que servirá de secretaria, biblioteca, sala de reuniões, etc., duas salas de aulas e duas latrinas, uma para as meninas, outra para os meninos. A escola entrará em funcionamento no inicio do ano letivo 2021/2022.

O Faia Djaló é o mestre-de-obras que está a construir a escola, não sabe quem é o seu pai, segundo a sua mãe foi um militar português que passou por Bissorã em 1965 ou 1966. (Foto nº 3)

A criação desta escola permitirá as crianças mais pequenas deixarem de ter que atravessar uma perigosa bolanha.

Os alunos do primeiro e terceiro ano irão ter aulas de manhã e o segundo e o quarto ano à tarde. As próximas estruturas a construir serão um poço, uma terceira sala de aulas para o quinto e sexto ano, uma cozinha e um refeitório.

A componente alimentar tem aqui grande importância, pois através do PAM – Programa Alimentar Mundial é possível conseguir alimentos e dar uma refeição às crianças, o que tem um impacto enorme.

Nhenque (localizada no setor de Bissora, fica perto de Binar e a uns 14 kms de Bula) foi escolhida pelo drama que as crianças vivem para ir à escola, pois têm que atravessar uma bolanha com crocodilos para lá chegarem. (Fotos nºs 4 e 5). 

Ao fazerem a travessia as crianças vão acompanhadas pelos familiares mais velhos para as proteger, vão armados com paus com os quais afastam os crocodilos, é uma tarefa arriscada e difícil, pois quando o crocodilo mergulha é impossível vê-lo naquela água castanha. 

O Sambu Utna Sanha,  de 22 anos. que estava a proteger as crianças foi apanhado pela perna por um crocodilo, valeram-lhe os restantes elementos que, ao baterem na cabeça do crocodilo com os paus,  o convenceram a largar o jovem

As crianças de Nhenque pedem ajuda e agradecem através da Ajuda Amiga todos os donativos (Foto nº 6), pois é com base neles que conseguimos cumprir esta nossa missão, eles são totalmente utilizados nos projetos, neste caso no projeto de construção da escola, as despesas de funcionamento da Ajuda Amiga são suportadas pelas quotas dos sócios. (**)

No site da Ajuda Amiga, na página “Noticias” estão mais textos, fotos e vídeos da nossa atividade como associação ao longo destes anos e na página “Atividades” os nossos Relatórios e Contas.

Vd aqui: http://www.ajudaamiga.com

Conta da Ajuda Amiga

NIB   0036 0133 99100025138 26

IBAN PT50 0036 0133 99100025138 26

BIC   MPIOPTPL




2. Comentário do editor LG:

Carlos, parabéns pela tua/vossa abnegação!... E mais: persistência, generosidade, solidariedade, credibilidade...Temos que falar mais destas resistentes e heróicas ONGD...

Zero vírgula cinco por cento do nosso IRS é como um afluente de um afluente do rio Geba... Não é muito, ajuda a aumentar o caudal que desagua no estuário...

Infelizmente não tenho notícias da AD - Acção para o Desenvolvimento, desde que o Pepito morreu... (e nos deixou um grande vazio e muita saudade).

Está o pedido publicado, estávamos justamente à espera de elementos informativos da Ajuda Amiga... Vamos também divulgar no Facebook da Tabanca Grande.

Mantenhas. Luis


3. Resposta do Carlos Fortunato:

Obrigado pela rápida resposta, disponibilidade e empenho.

Relativamente à AD, depois do falecimento do Pepito continuámos a colaborar com a AD e enviámos dois contentores com a sua colaboração, contudo houve falta de informação da parte AD, bem como o envio de documentos, fotos, etc., não podemos aceitar um buraco negro onde as coisas desaparecem, até porque sem elas também não podemos dar conta aos nossos doadores.

Depois de quase um ano à espera de respostas, perante a nossas insistência responderam que não eram nossos criados.., isso levou a deixarmos de colaborar com a AD e passámos a colaborar com a FED - Fundação Educação e Desenvolvimento, que é do Alexandre Furtado.

Presentemente não enviamos contentores, o que enviamos de bens é muito, muito pouco e essa colaboração no envio e distribuição deixou de ser importante.

Não há pessoas imprescindiveis, mas o Pepito faz muita, muita falta.

Aquele abraço

Carlos Fortunato
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Notas do editor:


(*) Vd. postes de 8 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20711: Ser solidário (227): Vamos ajudar a "Ajuda Amiga", consignando-lhe 0,5% do nosso IRS... Recebeu em 2019 a importância de 2.240,48 euros... Vamos utrapassar esta verba este ano.