Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Cabral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Cabral. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28350: Verso & reverso (5): (i) PIB do território na época da guerra colonial; (ii) "armazéns do povo"; (iii) peso da economia informal; (iv) realidade e propaganda



Fonte: PAIGC - História da Guiné e Ilhas de Cabo Verde. Porto: Edições Afrontamento. 1974

O PAIGC promovou a criação dos Armazéns do Povo por decisão tomada no 1º Congresso de 1964. O objectivo  era garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade à população sob o seu controlo ("áreas libertadas"), por meio de troca, receber produtos agrícolas que deveriam em seguida escoar-se para o exterior, criando-se e desenvolvendo-se assim, progressivamente, a base de um comércio externo. O número de Depósitos dos Armazéns do Povo terá passado  de 6, em 1964, para 16, em 1969.








O elogio dos "Armazéns do Povo"... Fonte: Excerto do relatório da Missão Especial da ONU na Guiné, Abril de 1972, pág. 8 (*)



1. Perguntámos à IA (ChatGP / Open AI) : (i) qual era o PIB (Produto Interno Bruto) da Guiné (hoje Bissau), no tempo da guerra colonial e da luta pela independência; e (ii) qual o peso da economia informal ?


Transmitimos a nossa impressão de que nas "áreas libertadas" do PAIGG havia os "Armazéns do Povo", mas era um mito, mais propaganda do que realidade económica...

No nosso tempo, e no decurso de operações militares, as NT podiam destruir algumas dezenas de toneladas de arroz, além de gado bovino e criação doméstica (estimativas, nalguns casos exageradas, mas que ficavama bem nos relatórios militares, como durante a Op Lança Afiada, Sector Leste, L1, 8-19 de março de 1969).

A verdade é que os famosos "Armazéns do Povo" colapsaram no tempo da economia planificada imposta pelo regime de Luís Cabral... Podiam ter funcionado pontualmente fora das fronteiras, no Senegal e na Guiné-Conacri, nas "bases recuadas" do PAIGC (com o Boké, Kandiafara, Conacri...) mas dificilmente nas "áreas libertadas" (cuja superfície, de resto, nunca foi sequer estimada, a não ser grosseiramente, e para efeitos de propaganda).

Na realidade, o PAIGC desde cedo, e ainda com o Amílcar Cabral vivo, reivindicou o controlo político-militar de 2/3 do território...Criou-se até o mito de que a Guiné, no fim do mandato do gen Arnaldo Schulz, estaria à beira do colapso militar...

O exército português, pelo menos no tempo do gen Spínola, como governador e comandante-chefe (maio de 1968 - agosto de 1973) entrava em todo o lado, incluindo o Cantanhez, na zona sul, e o Óio, na zona oeste, e em todo o lado na zona leste.

2. Não deixa de ser muito interessante, a resposta de várias ferramentas de IA que consultámos e pusemos em confronto, e de que reproduzimos o essencial neste poste e eventualmente noutros, da série "Verso & reverso" (**). Comecemos pelo ChatGPT.

"Camarada, aqui entramos num terreno muito escorregadio, porque a então Guiné Portuguesa praticamente não tinha estatísticas económicas fiáveis durante a guerra (1963-1974), e muito menos contas nacionais completas comparáveis às de hoje"

O conceito moderno de PIB (Produto Interno Bruto) era ainda rudimentar na colónia, e a esmagadora maioria da atividade económica escapava à contabilidade oficial. Recorde-se que o PIB é a medida monetária do valor de mercado total de todos os bens finais e serviços produzidos e prestados durante um período específico (normalmente um ano) por um país ou região; os principais componentes do PIB são: o consumo, os gastos do governo, as exportações líquidas (exportações menos importações) e o investimento; a alteração de qualquer um desses fatores pode aumentar o tamanho da economia.

Façamos então uma aproximação à realidade histórica.

(i) O que era a economia da Guiné nos anos da guerra ?

Assentava em cinco pilares:
  • agricultura de subsistência (arroz, milho, mandioca, coconte, óleo de palma);
  • exportações primárias: amendoim ("mancarra"), coconote (semente donde se extrai o óleo de palma ou dendê), algum pescado;
  • comércio africano informal (“djilas”, “bideiras”);
  • despesa militar portuguesa;
  • administração colonial.
A guerra acabou por distorcer tudo. A partir de meados dos anos 60, o principal “motor económico” passou a ser, paradoxalmente, a presença militar portuguesa: salários, construção de quartéis e outras infraestruturas, reordenamentos, transportes, abastecimentos, importações, contratos locais, serviços (lavadeiras, caçadores, guias, picadores, etc.). A Guiné deixou de ser autossuficiente em arroz, e passou a importar arroz, por exemplo. Muitas populações estavam dependentes do fornecimento de arroz pela tropa e pela administração do território.

(ii) Um PIB modestíssimo: entre 2,5 a 4 milhões de contos

As estimativas variam muito conforme as fontes (portuguesas, francesas, Banco Mundial retrospetivo e estudos da ONU posteriores à independência).

Em valores correntes da época, o PIB anual da Guiné Portuguesa no final dos anos 60/início dos 70 terá andado grosso modo entre 80 a 150 milhões de dólares da época (ou cerca de 2,5 a 4 mil milhões de escudos portugueses antigos, ou seja 2,5 a 4 milhões de contos). (Durante o sistema de Bretton Woods, ou seja, até 1971/1973, a taxa de câmbio oficial do escudo português manteve-se fixa em aproximadamente 28,75 escudos por 1 dólar USA).

O PIB "per capita" da Guiné Portuguesa na viragem da década de 1960 para 1970 (e ent~´ao com uma população estimada enter 530 e 580 mil habitantes, 
excluindo parte substancial do contingente militar metropolitano ali fixado), situava-se entre os 150 e os 300 dólares por ano (aproximadamente 4,3 a 8,6 contos), dependendo do ano específico e das estimativas populacionais utilizadas"

Per capita", era uma das economias mais pobres do império português, seguramente abaixo de Angola , Moçambique, Cabo Verde, São Tomé. Só Timor talvez estivesse em situação semelhante.

(iii) Comparação do PIB "per capita" no  contexto do Império e da Região (c. 1970)

  • Portugal Metropolitano: ~930 USD per capita (~26,7 contos).

  • Angola e Moçambique: Angola situava-se claramente acima (impulsionada pelo petróleo, café e diamantes, ultrapassando os 300–400 USD per capita), enquanto Moçambique oscilava numa gama intermédia superior devido aos serviços portuários e agricultura de rendimento.

  • Cabo Verde e São Tomé: apresentavam rendimentos médios superiores aos da Guiné, fruto de maiores taxas de urbanização e economias de plantation/serviços.

  • Timor Português: era o único território imperial que rivalizava diretamente com a Guiné nos patamares mais baixos de rendimento per capita (frequentemente abaixo dos 100–150 USD).

 Na Guiné Portuguesa do final dos anos 60, este valor médio dissimulava duas realidades profundamente distintas:

  • economia monetarizada / urbana (Bissau, Bafatá, Bolama): concentrada no comércio colonial, na administração pública e no forte consumo gerado pela presença das Forças Armadas Portuguesas, que sustentava artificialmente o setor de serviços e importações.

  • economia de subsistência rural: a grande maioria da população autóctone vivia da agricultura de subsistência (arroz, mancarra/amendoim), cujos circuitos escapavam em larga escala à contabilidade nacional oficial; adicionalmente, o estado de guerra a partir de 1963 desarticulou a produção agrícola tradicional em vastas zonas do interior, acentuando a dependência de subsídios e transferências da Metrópole.


Depois da independência (1974/75), a economia formal praticamente entrou em colapso parcial por múltiplas razões: "cofres do Estado vazios"; saída de quadros portugueses e inexistência ou insuficiência de quadros técnicos locais (apesar do esforço de formação de cabo-verdianos e guineenses que foram para a URSS, China, Cuba, Suécia);  rutura logística; queda brutal do comércio externo; nacionalizações (a começar pelo pequeno comércio, substituído pelos Armazéns do Povo); hostilização dos pequenos comerciantes (portugueses, libaneses e cabo-verdiano), dos poucos que ficaram; administração central praticamente inexistente; seca e desorganização produtiva. 

A Guiné-Bissau passou a viver da "caridade internacional" (doações)... Meio século depois o PIB da Guiné-Bissau será da ordem dos  2,5 mil milhões de dólares, o que dá um o PIB "per capita" nominal de cerca de 800 a 1.000 dólares por ano (dados do Banco Mundial e FMI).

Em termos estritamente nominais, o valor atual é cerca de 3 a 5 vezes superior. No entanto, esta comparação direta é enganadora devido ao efeito da inflação do dólar ao longo de mais de meio século (100 dólares de 1970 equivalem a mais de 800 dólares atuais).

(iii) O peso da economia informal e de subsistência

A economia “real” era sobretudo informal, rural e não monetarizada. Os estudos retrospetivos sugerem que:

  • mais de 70% da população vivia quase totalmente da agricultura familiar;
  • grande parte das trocas fazia-se fora do mercado formal;
  • o autoconsumo tinha peso enorme;
  • o comércio fronteiriço “paralelo” com Senegal e Guiné-Conacri era decisivo.

Se usássemos critérios atuais, talvez apenas 20% a 35% da atividade económica passasse pelo “Estado” ou por circuitos contabilizados. O resto pertenceria à economia informal, tradicional ou clandestina.

Ou seja: o “PIB oficial” provavelmente captava menos de metade da riqueza realmente produzida e consumida.

(iv) As “áreas libertadas” e os "armazéns do povo":  realidade e propaganda

Sobre isto, a tua leitura aproxima-se bastante da de muitos historiadores atuais. O PAIGC construiu uma narrativa político-militar muito eficaz: escolas; hospitais; tribunais populares; produção agrícola organizada; "armazéns lojas do povo”; administração paralela; construção do "homem novo"...

Parte disso existiu mesmo. Não foi pura invenção. Mas a escala foi frequentemente exagerada... A estabilidade territorial era muito variável, muitas “zonas libertadas” eram permeáveis. Enfim, o controlo militar português continuava intermitente em vastas áreas.

Tens razão ao lembrar que as tropas portuguesas penetravam regularmente em zonas consideradas “libertadas”: Cantanhez, Óio, Sara, Morés, Choquemone, Cubucaré, Fiofioli, etc., nunca foram espaços estanques. O domínio do PAIGC era mais político e noturno do que administrativo e diurno, permanente, em muitos sítios.

A própria expressão “áreas libertadas” era também um instrumento diplomático, que servia para convencer a ONU e a OUA, legitimar reconhecimento internacional, justificar a generosa ajuda soviética, chinesa e escandinava (e nomeadamente sueca).

 Os “Armazéns do Povo” existiram, mas tiveram, muito provavelmente, mais importância política, ideológica e simbólica do que peso económico estrutural.

Funcionavam sobretudo como pontos de redistribuição; ontrolo político; abastecimento de guerrilheiros e populações sob o seu controlo; tentativa de demonstração de “Estado em construção”.

O problema era estrutural: não havia estradas; o PAIGC só tinham viaturas de transporte, de origem soviética, na Guiné-Conacri e no Senegal; economia não monetirazada; escassez de produção excedentária; dependência externa; guerra constante.

Como tu sugeres, o sistema podia funcionar nas bases recuadas do Senegal e da Guiné-Conacri e junto dos corredores logísticos externos... mas dificilmente no "mato", no interior da Guiné onde o PAIGC não tinha (nem nunca teve) estruturas físicas edificadas (quartéis, armazéns, escolas, hospitais, etc.)

Depois da independência, o modelo de economia centralizada de Luís Cabral colapsou rapidamente por falta de quadros, incompetêncai, incapacidade administrativa, corrupção, nepotismo, contrabando, mercados paralelos, desincentivo à produção, fufa dos campos para Bissau...

Os “Armazéns do Povo” estavam, muitas vezes, de prateleiras vazias... A organização e o funcionamento eram burocráticos, enfim, foram rapidamente ultrapassados pela comércio informal. Até por que a população precisava de comer e sobreviver.

E a ironia ha História: a economia informal que o PAIGC pretendia disciplinar acabou por sobreviver ao próprio modelo estatal revolucionário.

(v) O que sobreviveu realmente ?

Em termos reais (volume de bens e serviços por habitante), o PIB "per capita" atual da Guiné-Bissau é praticamente equivalente ou até inferior ao do período colonial tardio. Ou seja, cinquenta anos depois da "libertação do colonialismo", o nível médio de vida da população (e sobretudo rural) não melhorou.

Vários fatores explicam este estagnação e perda de rendimento real ao longo de cinco décadas:
  • explosão demográfica: a população cresceu de cerca de 550 mil habitantes em 1970 para mais de 2,1 milhões atualmente; o crescimento do produto nacional bruto não conseguiu acompanhar proporcionalmente o ritmo de crescimento populacional;
  • impacto da guerra e instabilidade: a destruição das infraestruturas agrícolas durante a guerra colonial (1961–1974), seguida por sucessivos golpes de Estado, pela guerra civil de 1998/1999 e pela instabilidade política crónica, paralisaram o investimento produtivo a longo prazo;
  • fim do "Efeito de Enclave Militar": no final dos anos 60, o PIB colonial estava fortemente "inchado" de forma artificial pelo enorme consumo e despesa do contingente militar português e da máquina administrativa metropolitana, criando um setor de serviços urbano que colapsou após a independência;
  • monocultura do caju: a economia desindustrializou-se e perdeu diversidade agrária (como a produção de arroz, na qual o país era autossuficiente antes da guerra), tornando-se quase totalmente dependente da exportação da castanha de caju bruta e do setor das pescas.
O que resistiu, antes e depois da independência, foi a importância do "chão", da tabanca, da bolanha, o pequeno comércio africano, as redes familiares e comunitárias, o mercado paralelo, o comércio transfronteiriço, as “bideiras”, os "gilas", etc.

Ou seja: a sociedade guineense profunda mostrou-se, e ainda bem,  muito mais resiliente do que o aparelho colonial português, ou o socialismo de Estado do pós-independência.


Pesquisa: LG + Blogue + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AII)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Recorde-se, aqui, o oportuno e contundente  comentário de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente (vive em Bissau), ao poste P23609 (***):


(...) Como em tudo que diz respeito ao PAIGC e a sua "gloriosa luta de libertação", os Armazéns do Povo não passou de mais um mito para Sueco ver.

A rede que, aparentemente, funcionou durante a luta nas chamadas zonas libertadas, eram postos ou depósitos móveis para a distribuição das ajudas dos países Nórdicos, com especial destaque para a Suécia, que contribuía com ajuda humanitária.

Estou em crer que, embora a propaganda do partido fale do povo e da comercialização através da permuta, a realidade dos factos diz-nos que os principais destinatários seriam os guerrilheiros das barracas do interior que, como se sabe, tinham muitas dificuldades de abastecimento.

Caso os famosos Armazéns tivessem funcionado bem no mato em plena guerra, era suposto o sucesso ser maior nas condições do pós-guerra, mas na verdade, os vícios do consumo gratuito e da gestão danosa e irresponsável não permitiram o florescimento desta rede de comércio nacional que estava destinada para substituir o comércio das lojas das casas Gouveia e Ultramarina em toda a extensão do território.

Quando ocorreu o golpe de 14 de Novembro de 1980, embora os Suecos ainda continuassem a fornecer auxilio "humanitário" já com algumas contrapartidas, na verdade, já não restava nada destes Armazéns para além de prateleiras vazias e, de tal maneira que o regime que surgiu do golpe de 'Nino' Vieira foi obrigado, para além de solicitar a ajuda do FMI, uma instituição do capitalismo outrora abominado, a proclamar a abertura ao comércio privado para que o país não morresse de fome.

De salientar que o Consulado do gen Spinola na Guiné tinha criado alguns hábitos de consumo, mormente, no meio da população urbana e não só, que os dirigentes do PAIGC queriam extirpar de raiz, o que criou uma situação de fome e um ambiente explosivo de mal-estar que acabou por desembocar na mudança do regime de Luís Cabral. (...) 



(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura deste importante estudo organizado por Patrick Chabal e que contou com uma equipa de especialistas de topo que apresentaram estudos sobre as cinco antigas colónias portuguesas africanas. Não é um estudo que aprofunde o pré-colonial, a presença e a colonização em si, a vida dos movimentos de libertação.
A questão fulcral proposta por Chabal e outros é avaliar o primeiro quarto de século da vida destes países independentes, a partir das descolonização, e encontrar pontos de relação entre essas mesmas cinco colónias portuguesas.
O estudo de Joshua Forrest dá-nos conta das governações de Luís Cabral e Nino Vieira, relata o que de fundamental aconteceu no conflito político-militar de 1998-99, no seguimento de outros trabalhos seus não esquece pôr ênfase sobre o afastamento do poder central das comunidades locais e como estas se revigoraram neste quadro de afastamento; o autor procede a uma narrativa que revela como durante esse quarto de século, o povo, mesmo descurado pelo Estado central assumiu energias de subsistência e, espantosamente, sempre que há eleições, vota em soluções genuinamente democráticas.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 4


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

Recapitulando o que se escreveu nos três textos anteriores, temos um longo ensaio de Patrick Chabal, expondo o propósito de uma história abrangente destes cinco países africanos, seguindo-se estudos complementares desses mesmos cinco países de que aqui se dá destaque à Guiné-Bissau. Já se comentou como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico. Nino Vieira viu-se obrigado a abrir o país a eleições multipartidárias, isto numa atmosfera de reconhecimento de que as experiências socializantes tinham caído na água, houvera mau aproveitamento da ajuda internacional quer na saúde, nos transportes e na habitação, ficara-se cada vez numa maior dependência do FMI e do Banco Mundial. O PAIGC iniciou programas de ajustamento estrutural que incluíam o incentivo à iniciativa privada, à desvalorização da moeda, à redução da despesa pública, cortes em subsídios etc, etc. O Governo da Guiné-Bissau recebeu um total superior a 31 milhões de dólares do FMI no período 1987-90 como incentivo para prosseguir as reformas.

Diferentes autores já se pronunciaram sobre o resultado destas reformas. Apareceram empresas privadas ligadas à cultura do caju e da amêndoa de palmiste, e o caju tornou-se a principal cultura de exploração do país. Mas houve consequências bastante problemáticas. A expansão do comércio de import-export saudou-se numa proliferação de “pontas”. Algumas dessas pontas foram originalmente criadas durante o século XIX como explorações agrícolas do amendoim. A expansão dessas pontas no final da década de 1980 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros, quem mais beneficiou do empréstimo a médio e a longo prazo associado ao programa de ajustamento estrutural – a maioria destes ponteiros eram altos funcionários do Governo que não tinham competências para transformar as novas pontas em empresas produtivas. Resultado: dinheiro dos empréstimos perdido, a agricultura não melhorou; com as sucessivas desvalorizações disparou os preços dos bens alimentares sociais; não houve crédito para os pequenos agricultores, não se conseguiu estimular o aumento da produção de amendoim. Cresceu a economia informal, as trocas diretas que asseguraram a subsistência da maioria das pessoas. Os bens importados (caso do vestuário, rádios, pilhas e bicicletas) eram trazidos do Senegal ou da Guiné-Conacri.

Deu-se, portanto, uma combinação do comércio informal local com o comércio não regulamentado de longa distância. As reformas do ajustamento estrutural não beneficiaram os pequenos agricultores, mas os ponteiros; houve uma divisão entre os comerciantes privados, predominantemente orientados para a exportação e ligados ao Estado e a grande maioria dos produtores rurais. Cresceu a dependência do regime de Nino Vieira em relação a fontes de financiamento externas, e num contexto de grande debilidade financeira ponderou-se a hipótese de trocar o peso guineense pelo franco CFA, o que veio a acontecer em janeiro de 1997.

O partido do poder ia-se progressivamente afastando da população em geral. Joshua Forrest detalha como foi desaparecendo a presença do Estado na administração regional e comunitária. “Ressurgiu com um particular vigor um conjunto de estruturas sociais e políticas camponesas localizadas, com raízes no período pré-colonial e que nunca tinham sido totalmente capturadas pelo Estado colonial. As lealdades políticas, as redes sociais e os recursos locais passaram a organizar-se mais claramente em torno de bases de poder controladas pelas aldeias e não pelo Estado. Não pretendo afirmar que os camponeses guineenses eram agora contra o PAIGC, mas sim que estavam mais interessados em reivindicar a sua autonomia política relativa.”

Temos, portanto, um Estado que deixou de exercer o controlo direto sobre as comunidades rurais e que nos seus escalões mais elevados de poder central revelava incoerência e discórdia, dominado por uma burocracia interna. Quem estava no topo do poder só podia subsistir reforçando as suas cliques e integrando nelas apoiantes da burocracia e das Forças Armadas. De Luís Cabral a Nino Vieira vão suceder-se golpes de Estado, repressão dos opositores e rutura da unidade interétnica. Agravou-se o conflito até então surdo entre as alas cabo-verdiana e guineense do PAIGC. Num contexto de dificuldades causadas pela escassez de arroz, Nino Vieira organizou grupos de apoio com as Forças Armadas e concluiu um golpe de Estado praticamente sem derramamento de sangue.

O regime de Vieira assumiu um carácter cada vez mais autoritário. Em setembro e outubro de 1999, descobriram-se duas valas comuns, uma perto de Bissau, com 14 corpos de pessoas que se crê terem sido mortas em meados dos anos 90, e outra perto de Mansoa, contendo 22 corpos, aparentemente de indivíduos acusados de conspiração golpista e executados em 1986. A descoberta destas valas fez aumentar o nível de hostilidade popular contra a ditadura de Vieira. O autor dá-nos um quadro da evolução das eleições, demissões sucessivas de primeiros-ministros, o descontentamento das Forças Armadas era por demais evidente, Vieira forçou a destituição de Ansumane Mané, Chefe de Estado-Maior, foi a gosta de água para a rebelião que se iniciou em 7 de junho de 1998; nem a chegada de tropas estrangeiras fez estancar aa rebelião, pois o apoio popular maciço aos rebeldes fez com que o regime de Vieira ficasse praticamente confinado à Guiné-Bissau.

Houve tentativas de negociação internacionais, procurou-se levar por diante um Governo de transição que não revelou operacionalidade, e em 8 de maio de 1999, cedendo à provocação que foi a chegada de um navio de guerra da Guiné-Conacri que transportava armas pesadas destinadas aos partidários de Vieira, os rebeldes atacaram os aliados do Presidente e as suas tropas de apoio senegalesas. Era a decisiva batalha final, as tropas pró-Mané empurraram para o centro de Bissau todos os apoiantes da fação presidencial e os senegaleses, derrotaram-nos em combates de rua. Vieira refugia-se na Embaixada de Portugal e parte depois para o exílio, primeiro para a Gâmbia e depois das Portugal.

O sonho da estabilidade durou pouco tempo. Formara-se uma Junta Militar, houve eleições em novembro desse ano, ganhou o Partido de Renovação Social, seguido do Partido Resistência Guiné-Bissau, o PAIGC ficou em terceiro lugar.

Em 2000 foi eleito o Presidente Kumba Ialá, tudo acabou mal. Aqui termina o ensaio de Joshua Forrest e damos por concluída a recensão ao livro "História da África Lusófona Pós-Colonial", organizado por Patrick Chabal e outros colaboradores, Tinta-da-China, 2026.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Após dois textos em que se sumariou o pensamento de Patrick Chabal que analisou em grande angular a guerra e a descolonização, a emergência de políticas pós-coloniais, como se tentou construir o socialismo, quais as falhas do Estado de partido único e como se operou a transição para o pluralismo político, segue-se agora o estudo da Guiné-Bissau, trabalho que coube ao renomado investigador Joshua Forrest.
Veremos neste primeiro texto como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico, analisam-se as reformas económicas, como e porque falharam e, igualmente, como a liderança do PAIGC, desprezando o pensamento de Cabral, se foi afastando de auscultar e fazer vingar as aspirações populares.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 3


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

A Guiné-Bissau nasce num quase estado de graça, confiava-se no PAIGC pelo seu comportamento durante a luta armada, a liderança de Amílcar Cabral colocara a Guiné com uma enorme visibilidade internacional. Cabral avisara os seus companheiros dos perigos emergentes da independência e da afirmação de comportamentos ingénuos e até imitativos da herança colonial. Foi exatamente o que veio a acontecer, as opções de política económica beneficiaram diretamente as elites do Estado; subavaliaram-se as heranças sociais, políticas e económicas do período colonial e a atividade política do PAIGC tornou-se facciosa, desfasou-se a direção política dos reais interesses da população. As elites políticas tomaram decisões que levaram à explosão da dívida externa; no período de Luís Cabral (1974-1980) alimentou-se a ideia de que o país tinha que acelerar a sua industrialização, o desenvolvimento da agricultura viria depois, isto esquecendo a lição de que a infraestrutura estatal colonial praticamente não é à lei de Bissau, o mesmo é dizer que o Governo não possuía capacidade administrativa para a pôr em prática com êxito. Com empréstimos externos e com a ajuda internacional, sonhou-se na construção de um gigantesco complexo agroindustrial que custou milhões e nunca funcionou; numa fábrica de montagem de automóveis; recebeu-se uma fábrica de refrigerantes pronta a funcionar e não se instituiu um plano de gestão viável, etc. etc. Como observa Forrest, enquanto cresciam as falhas de abastecimento e faltava dinheiro e era bem visível que as elites estavam de costas voltadas para as populações fora dos principais aglomerados, o interior rural onde vivia cerca de 85% da população, as pessoas mantiveram vivas as instituições políticas na dimensão comunitária.

Não se conseguiu romper com este problema existente em toda a África subsariana: a ausência de burocracias bem institucionalizadas e falta de familiaridade com uma cultura política baseada em regras. Problema que se manteve durante a presidência de Nino Vieira, esta agravada pelo personalismo e pelo florescimento da discórdia entre fações. Forrest analisa a reforma económica, seria a trave-mestra para transitar para o socialismo, nacionalizou-se tudo, a economia formal passou a ser gerida através dos Armazéns do Povo, uma cadeia de 120 pontos de venda de mercadorias e da SOCOMIN (Sociedade Comercial Industrial) um organismo governamental de importação-exportação que procurava proporcionar aos guineenses uma troca justa dos seus produtos agrícolas por bens importados. Acontece que se impuseram preços baixos aos produtores, estes procuraram melhores preços fora dos organismos nacionalizados, cresceram as práticas corruptas, como a especulação por parte dos gestores.

As reformas falharam, o Estado tornou-se cada vez mais dependente da ajuda externa e dos projetos internacionais de desenvolvimento. A classe política revelou-se incapaz de criar uma visão rigorosa nos métodos de produção. “Por exemplo, decidiu-se utilizar tratores e vários dispositivos mecânicos modernos em substituição do trabalho normal e da participação local da construção de barragens fluviais, com vista a criar arrozais ou a restaurar os mais antigos. No entanto, tal como sucedera no período colonial, a coordenação múltipla e os erros técnicos produziram resultados insatisfatórios – foi o caso das eclusas dos canais incorretamente instaladas. Como resultado destes e de outros fatores, metade das minibarragens e dos diques modernos teve efeito negativo na produção de arroz.”

O autor recorda que no final da década de 1970 assistia-se a uma paralisia do setor comercial formal, o Governo iniciou reformas de privatização em 1984, apareceu uma linha de crédito do FMI, iniciaram-se programas de ajustamento cultural, que incluíam o incentivo à iniciativa privada, a desvalorização da moeda, a redução da despesa pública, cortes dos subsídios alimentares e o aumento dos preços ao produtor, nomeada no caju e nos óleos.

Estas reformas do ajustamento estrutural e a nova política de privatização teve consequências bem problemáticas. Apareceram em grande quantidade propriedades rurais, as chamadas “pontas”, estas têm uma longa história desde o século XIX. “A expansão destas pontas no final dos anos 80 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros quem mais beneficiou de empréstimos a médio e longo prazo. O problema é que a maioria desses ponteiros se compunha de altos funcionários do Governo que não eram comerciantes ou agricultores e, portanto, não possuíam as competências nem o compromisso de transformar as suas novas contas em empresas produtivas. Como consequência, poucos hectares de terra foram efetivamente dedicados à agricultura comercial, apesar de estes ponteiros terem recebido empréstimos favoráveis no âmbito do processo de privatização agrícola.”

Com a dependência do regime de Nino Vieira face às fontes de financiamento externas, acreditou-se no milagre da moeda, integrou-se a Guiné-Bissau na zona do franco CFA, passou a ser a moeda oficial em janeiro de 1997. Alguns comerciantes tiraram proveito da liberalização do comércio. A maior parte dos guineenses continuou a sobreviver à custa dos mercados informais locais e de longa distância. De modo insidioso, o regime no poder deslocava-se confiante para órbitas estrangeiras, completamente indiferente às repercussões mais alargadas das suas decisões para a população em geral.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Patrick Chabal já era um investigador distintíssimo quando se lançou neste empreendimento que se transformou num trabalho que é hoje de consulta obrigatória de quem se lança na pesquisa no antes, no durante e depois do grito anticolonialista das cinco colónias portuguesas em África. Trabalho que se desdobra em duas partes, a primeira completamente a cargo de Chabal, ele disserta sobre as condições em que se processou o fim do Império português em África, como os novos Estados se lançaram na construção do socialismo, como ocorreu o falhanço e se transitou para o pluralismo político; a segunda parte prende-se com os estudos dos cinco países, investigação imensa, a cargo de especialistas altamente qualificados.
Iremos dar voz à dissertação de Joshua Forrest sobre a Guiné-Bissau. Recordo ao leitor que esta vasta investigação compreende os primeiros 25 anos dos cinco novos países independentes de língua portuguesa, foi editado originalmente em 2002 e só este ano é que teve direito à edição portuguesa graças a Tinta-da-China. Por todas as razões, é de leitura obrigatória para todos os públicos.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 2


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Patrick Chabal, como vimos no texto anterior, alude aos aspetos essenciais que levaram ao fim do Império, como se desenvolveu a guerra até ao ponto de se ter enquistado a ideia de não haver solução militar; dá-nos depois uma perspetiva histórica da descolonização, e conclui como historiador dizendo que nos últimos 20 ou 30 anos as análises apresentadas é do Estado na África pós-colonial, mas há um senão que ele aponta:
“É intrigante concluir que durante muito tempo os estudiosos insistiram em alimentar a crença de que a evolução do Estado Africano pós-colonial devia ser igual à de outras partes do mundo. A enorme discrepância que marca o desenvolvimento dos Estados europeus devia ter alertado os africanistas para a improbabilidade de o Estado Africano pós-colonial seguir o exemplo de qualquer antecessor reconhecível. Os africanistas foram durante muito tempo induzidos a acreditar que os caprichos do Estado africano pós-colonial explicavam a política africana.”

E, mais adiante:
“A resistência, assim como as deficiências do Estado pós-colonial explicam-se melhor pela natureza dos laços muito complexos que unem, em vez de simplesmente oporem, Estado e sociedade. As redes clientelistas que ligam o Estado e a sociedade são de tal modo numerosas e extensas que garantem a manutenção de um sistema político neopatrimonialista no qual o Estado só detém a supremacia na medida em que é colonizado pela sociedade. Os políticos derivam a sua legitimidade da capacidade de apaziguar os seus clientes. Na África pós-colonial é, em grande parte, uma ilusão ver o Estado como o agente do desenvolvimento económico (socialista ou capitalista). Enquanto no Sudeste e no Leste Asiático, por exemplo, o Estado tem sido, com frequência, o responsável direto por taxas de crescimento económico impressionantes, em África ele tem sido o principal instrumento do ímpeto neopatrimonialista. Tem facultado aos detentores do poder do Estado e a todos os que a ele estão ligados por múltiplas redes o acesso aos recursos por si controlados.”

Chabal irá versar depois como se deu a criação da nação na África lusófona, qual o legado da experiência colonial, os obstáculos sentidos pelos dirigentes destes países, como se processou a construção do socialismo, já que para todos se afigurava o marxismo como ideologia orientadora; dá-nos um quadro de referência de como atuaram os dirigentes, as atuações foram verdadeiramente díspares. Veja-se como ele observa o caso da Guiné-Bissau:
“Embora se possa dizer com segurança que a ideologia deixou de ser politicamente relevante na Guiné-Bissau a partir do início da década de 1980, os alicerces do regime permaneceram estruturalmente socialistas até à alteração da Constituição, em 1994. A verdade, no entanto, é que o socialismo não afetou de forma significativa a construção da nação, ao contrário da construção do Estado, quer porque a legitimidade do partido não estava inicialmente em causa, quer porque a política formal, não teve repercussões importantes no plano local. Em grande medida, a evolução do regime pós-colonial respeitou a dos países vizinhos da África ocidental: um Estado neopatrimonialista de partido único, autoritário (mas não altamente repressivo), ainda que muitíssimo ineficiente. A alteração de liderança, em 1980, não afetou grandemente a natureza do sistema político. A cisão no interior do partido e a criação do PAICV ajudaram a liderança guineense a acelerar a sua transformação num instrumento de políticas patrimonialistas.”

Obviamente que a dimensão internacional acabou por ser determinante, havia o compromisso ideológico socialista e a ligação com o bloco soviético, mas cada um dos países agiu com flexibilidade, como foi o caso de Cabo Verde, com uma larga diáspora dos EUA e na Europa. Luís Cabral, na Guiné-Bissau, também procurou diversificar as fontes da ajuda externa, sem prejuízo de manter uma atitude amigável em relação ao universo socialista (Cuba e Europa de Leste). Com o tempo, ficou claro que a maioria do auxílio viria do bloco ocidental. Esta transição para uma política externa mais orientada para o Ocidente fortaleceu-se na presidência de Nino Vieira. Como também a Guiné-Bissau e Cabo Verde tinham beneficiado de um forte apoio por parte dos países ocidentais mais progressistas (Escandinávia, Países Baixos e Canadá) que tinham protegido os seus movimentos de libertação antes da independência. Nino, incapaz de corresponder ao modelo de desenvolvimento para o seu país aderiu à zona do franco CFA, estava à espera de um milagre económico e financeiro que não aconteceu. Chabal detalha o comportamento de todos estes cinco países.

A matéria seguinte tem a ver com as falhas dos Estados de partido único, tornaram-se clamorosas com o desmoronamento do Estado soviético, com maior ou menor velocidade mudou-se para um sistema político pluripartidário, também aqui o historiador destaca as nunces da diversidade, havia conflitos que não ficaram sanados, caso de Angola e Moçambique, Cabo Verde revelou a sua maturidade, o PAICV perdeu as eleições para o MPD; também o MLSTP, o partido do poder, foi derrotado pelo Partido de Convergência Democrática; veja-se agora o que ele escreve sobre a Guiné-Bissau:
“O caso da Guiné-Bissau é muito mais típico do que tem acontecido na África negra nos últimos dez anos. Apesar do enorme descontentamento contra o regime existente no país, não houve uma pressão organizada sistemática no sentido de uma mudança para um sistema político multipartidário. O único partido de oposição verdadeiramente ativo, o RGB/MB, estava sediado em Lisboa e contava apenas com um apoio limitado no país. Havia evidentemente cisões no seio do PAIGC, o partido governante, mas o presidente Nino Vieira conseguiu, ao longo dos anos, usá-las a seu favor e manter-se no poder com pulso firme. Foram as pressões externas que forçaram Vieira a aceitar a transição para a política multipartidária. Com efeito, só quando o Banco Mundial se recusou a manter os pagamentos do programa de ajustamento estrutural, é que o regime iniciou as reformas necessárias para a transição política. Vieira só agiu quando não lhe restou alternativa. Quando a Constituição foi alterada, em maio de 1991, o presidente já tivera oportunidade de analisar de perto o resultado das eleições em Cabo Verde e em São Tomé. Decerto, retirou os ensinamentos apropriado da derrota dos partidos no poder.”
Não deixará de agir até com crueldade esmagando oposições, deu brado a perseguição que fez a Vítor Saúde Maria, Paulo Correia e Viriato Pã, em eleições subsequentes perderá temporariamente o poder, irá retomá-lo depois do seu exílio em Portugal, culminará na sua execução bárbara, morto à catanada, e mostrado nas redes sociais.

Finda esta investigação de Patrick Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada, seguir-se-ão estudos dos cinco países, investigação de altíssima qualidade, iremos no texto seguinte falar da Guiné-Bissau e da investigação topo de gama do historiador Joshua Forrest.


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27583: Notas de leitura (1879): Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2025:

Queridos amigos,
Procuro estar atento ao que foi e continua a ser publicado da banda de líderes e combatentes do PAIGC. Haverá um dia em que se tocará ao piano com quatro mãos, quer eu dizer que se irá sacudir a turvação das inverdades, das pesporrências e até das vaidades camufladas, de ambas as partes. 

Do lado do PAIGC, a fonte monumental é e será sempre Amílcar Cabral, impõe-se prudência com o que nos legou Aristides Pereira e Luís Cabral, prudência ainda com o que escreveu Filinto Barros, Delfim Silva; e tem aparecido mais recentemente relatos de quem andou pela União Soviética, de todos eles aqui tenho procurado fazer o registo.

Manecas Santos deixa-nos uma narrativa que se lê agradavelmente pela fluidez e também pela incisão, conta-nos o ambiente em que nasceu, a sua vinda para Lisboa, a solidificação das suas opções políticas, o ingresso nas fileiras do PAIGC, onde fez a tarimba até se transformar em comandante na frente norte, e depois responsável pelo uso dos mísseis Strela.

Confesso que não entendo como é que é possível um homem chegar aos 80 anos e escrever que em 1968 o PAIGC administrava dois terços do território, que presume que houve a mão colonial por detrás do assassinato de Cabral, que revela uma total incapacidade para entender dados da história de longa duração, quando a administração colonial, a burocracia e múltiplos serviços estavam na mão de cabo-verdianos que funcionavam como verdadeiros agentes do colonialismo; deixa-nos um importante relato do desmoronamento do PAIGC, foi líder político, companheiro próximo de Nino Vieira, ministro da Economia e das Finanças, o seu relato deixa-nos o coração contrito mas também ficamos sem entender se teve ou não responsabilidades diretas nesse desmoronamento, descreve os acontecimentos com uma hábil distância, foi a maneira que encontrou para não admitir que colaborou, participou em quase todo o processo do desmoronamento.

Recomendo vivamente a leitura de tudo o que ele ditou à autora.

Um abraço do
Mário



Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História

Mário Beja Santos

Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores. 

Há uma primeira obra de Aristides Pereira, para a qual concorreu Leopoldo Amado, uma segunda também deste alto dirigente entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes, desta feita mais disponível e quebrando sigilos do passado; há o testemunho de Luís Cabral sobre a obra do irmão, a par do seu percurso dentro do PAIGC, biografia e hagiografia; temos igualmente testemunhos de dirigentes ou quadros do PAIGC de origem cabo-verdiana ou guineense, mas o cabal esclarecimento que comportam é diminuto, alguns deles têm até a particularidade de serem de pura vanglória ou procurarem trazer justificação às tragédias de governação a partir de 1974 (das quais eles não têm qualquer responsabilidade).

O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado. 

Temos, pois, Manecas Santos na primeira pessoa, em jeito de prólogo fala da sua chegada à Guiné em 1968, como fez a tarimba, com quem combateu e aonde, em 1971 passa a ser comandante de um corpo de Exército e no ano seguinte, tendo voltado de treinos em antiaéreos na Crimeia, irá assumir o comando militar na frente norte.

Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral. 

“Cabral cuidava pessoalmente da formação de todas as unidades do Exército. Era ele quem escolhia o comandante, o segundo oficial e organizava toda a estrutura. Apesar da sua baixa estatura, emanava autoridade, e quando era necessário impor-se, fazia-o sem titubear. No entanto, possuía uma natureza afável e um trato agradável. Mantinha uma relação de extrema proximidade com os soldados, chamando cada um pelo nome e visitando frequentemente as bases para verificar o andamento das operações.”

Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.

Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir. 

O doutor Carlos Lopes, a quem devemos estudos de alto significado, escreveu que na Operação Tridente o PAIGC tinha abatido 500 militares portugueses; o historiador português Rui Ramos veio dizer que em 1970 o PAIGC tinha sido sustido, já não tinha bases na Guiné, vinha do exterior, flagelava e retirava – pergunta-se como é que é possível uma tirada destas quando possuímos a história das campanhas da Guiné que demonstram inequivocamente que nesse ano de 1970 íamos aos mesmos santuários em que PAIGC estava instalado há anos, e com pouco sucesso.

Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá:

“Sofremos baixas absolutamente negligenciadas: cinco feridos e nenhum homem morto. O exército colonial sofreu baixas pesadas. O adversário deixou 16 cadáveres em campo, todos de comandos africanos.” 

Desse-se Manecas Santos ao cuidado de investigar o que sabemos sobre tal operação, teria ido ao Arquivo da Defesa Nacional, onde existe um registo das transmissões portuguesas que interferiram nas transmissões de Cumbamory para Conacri, onde se diz abertamente que as forças do PAIGC tiveram um número de mortos superior a 60… 

Quanto ao assassinato de Cabral, é contido, não fala nem na PIDE nem em Spínola, dirá que foi praticado por ilustres desconhecidos, está certamente esquecido que o embaixador de Cuba em Conacri, Oscar Oramas, chegou pouco depois ao local do crime, e escreveu mais tarde que viu Osvaldo Vieira, entre outros, a esconder-se atrás da vegetação; acontece que esses ilustres desconhecidos ameaçaram todo o grupo cabo-verdiano de morte, deram-lhes ordem de prisão, enquanto se dirigiam para Sékou Turé. 

Acontece que não existe nenhum documento que comprove qualquer propósito de Spínola ou da PIDE para induzir tal assassinato. Mas convém deixar sempre no ar de que o complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados.

Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quanto aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta. 

A história seguramente estará na desmemória de Manecas, haverá fuzilamentos, que estão devidamente registados até dezembro de 1977, e há que perguntar como é que é possível um chefe de segurança andar a praticar matanças sem o presidente saber. Nino Vieira será uma rábula parecida depois de 14 de novembro de 1980, manda abrir as valas de gente executada, ele que era primeiro-ministro, também não sabia…

Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.


Rosário Luz e Manecas Santos na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, em 6 de dezembro de 2024
Manecas Santos ao lado de Amílcar Cabral, em 1972
_____________

Nota do editor

Último post da série de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25770: Notas de leitura (1711): Aqueles anos horríveis do ajustamento estrutural, fim do sonho coletivista: Dois ensaios de cientistas sociais suecos, um documento importante de Lars Rudebeck, amigo da Guiné (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Fevereiro de 2023:

Queridos amigos,
Procura e acharás, sempre desejei chegar a este documento, bati a várias portas, nada. Entro numa loja de comércio justo, aqui está ele, entre outras publicações, o leitor paga o que quiser e mete na caixinha. Não coube em mim de contente, sou confesso admirador destes cientistas sociais suecos, de um rigor intocável. Dir-me-ão, desta síntese do olhar de Kenneth Hermele que esta sua visão sobre a quebra de alianças era algo de óbvio, fatal como o destino, não só houve falta de entendimento sobre o que devia ser uma política de reconciliação e perdão como se cavalgou nas nuvens, agravaram-se as dívidas externas, isto quando os patronos de Leste caminhavam paulatinamente para o definhamento, aquilo que Mikhail Gorbachev chamou de estagnação. Kenneth Hermele faz no seu ensaio um apelo a uma reformulação de políticas internas, como sabemos, era demasiado tarde. Vamos seguidamente dar a palavra a Lars Rudebeck, iremos cair em cheio na Guiné.

Um abraço do
Mário



Aqueles anos horríveis do ajustamento estrutural, fim do sonho coletivista:
Dois ensaios de cientistas sociais suecos, um documento importante de Lars Rudebeck, amigo da Guiné (1)


Mário Beja Santos

Entro numa loja de comércio justo ligada ao CIDAC, à procura de uma publicação sobre Cabo Verde e encontro a tradução portuguesa de um documento de que há muito ando no encalço: o que representou o ajustamento estrutural em três países africanos de língua portuguesa que foram insurgentes (esclarecedor documento de Kenneth Hermele) e a profunda análise que Lars Rudebeck faz do que significou o ajustamento estrutural numa aldeia a cerca de 100 quilómetros de Bissau, foi matéria de um seminário que decorreu na Universidade de Uppsala em maio de 1989, organizado por AKUT.

Cabe a Kenneth Hermele a grande angular: ajustamento estrutural e alianças políticas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Este último assinou em 1984 o Acordo de Nkomati, um pacto de não agressão com a África do Sul, abriu assim caminho para ser membro do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, era o fim da destabilização internacional e da mudança de um processo de transformação socialista numa economia de mercado. Logo nos primeiros anos da década de 1980, Moçambique estava confrontado com o serviço da dívida e, entretanto, o COMECOM não aceitou apoiar Moçambique, o país viu-se obrigado a alterar as suas alianças internacionais. Em Angola o processo foi diferente, o regime do MPLA quis evitar a imposição de condições estabelecidas pelo FMI e pelo Banco Mundial, mas a comunidade internacional dos doadores obrigou o país a apresentar o país de adesão ao FMI. O caso da Guiné-Bissau revelava-se dramático, o país tinha-se tornado quase completamente dependente da ajuda estrangeira para sustentar, não só a sua dívida externa, mas praticamente todo o aparelho de Estado. O trabalho de Kenneth Hermele põe uma questão basilar: em que aspetos é que o processo de ajustamento estrutural que Moçambique e a Guiné-Bissau estavam a viver, e que a Angola estava à beira de iniciar, tem relação com as fases anteriores à constituição da nação nestes três países, mais concretamente lança o seu olhar sobre as alianças políticas na luta da libertação.

Observa que durante estas lutas estabelecera-se uma aliança entre o campesinato e os nacionalistas. Os dirigentes vinham de um estrato social a que se pode chamar pequena burguesia, com sentimentos nacionalistas muito fortes. Era um estrato que tinha laços de família com a classe camponesa média, francamente apoiada pelos nacionalistas portugueses. Nas três colónias, os respetivos líderes procuraram criar frentes amplas para poder unir a ação política e militar, sob a consigna de que tinham direito a ser independentes. Juntaram grupos sociais com notórias diferenças: camponeses sujeitos a trabalho forçado, nacionalistas burgueses, agricultores e pequenos capitalistas, grupos religiosos e culturais que se consideravam excluídos, bem como alguns representantes do poder tradicional.

Após a independência, os vencedores reivindicaram que a luta de libertação conduzira a uma nova ordem social em que os camponeses tinham dado os primeiros passos no sentido da propriedade coletiva das terras e distribuição equitativa de bens e rendimentos. Só que as alianças do passado foram quebradas pelas estratégias de desenvolvimento adotadas pelos movimentos de libertação.

A coletivização da terra não era apreciada pela maioria dos camponeses, havia mesmo um estrato camponês que aderira à luta de libertação para readquirir as terras de onde os portugueses os tinham expulsado. Muitos chefes tradicionais também se sentiram traídos, eram permanentemente acusados de tribalistas e obscurantistas. Também nas áreas urbanas, a estratégia de desenvolvimento colocou as antigas alianças sobre grande pressão. Pretendia-se, no caso de Angola e Moçambique, uma estratégia industrial que visava o restabelecimento rápido dos níveis de produção do último ano colonial (1973). As necessidades do setor rural ficaram secundarizadas. Veja-se o exemplo de Moçambique onde a produção local de enxadas baixou a níveis muito inferiores do tempo colonial.

Em Angola e Moçambique, as frentes nacionais de libertação não estiveram para meias medidas, apresentaram-se como partidos marxistas-leninistas, promovendo a partir do topo a transformação socialista. Vinha muita inspiração da Europa de Leste, mas a implementação práticas das políticas foi basicamente da responsabilidade do que restava da burocracia portuguesa e de poucos africanos. Tudo somado, as políticas pós-independência vieram a significar uma nova aliança, uma partilha do poder entre o partido dirigente e a burocracia do Estado. Na Guiné-Bissau, deu-se claramente uma dissolução da aliança camponesa, pretendia-se um desenvolvimento numa dependência total em relação à ajuda externa, assim cresceu um aparelho de Estado que se tornou cada vez mais irrelevante para a maioria dos camponeses. Em Moçambique, a tentativa de modernizar a agricultura em cooperativas e machambas estatais foi um verdadeiro golpe para a antiga aliança. E a interferência externa (Rodésia e África do Sul) e a destabilização de RENAMO enfraqueceu ainda mais a aliança. Em Angola passou-se algo de idêntico, o MPLA acabou por se isolar pela falta de atenção à importância do setor camponês.

No início dos anos de 1980, o falhanço nos três países era evidente. Não chega pôr em cima da mesa as pressões externas e as mudanças na situação internacional, quebrada a aliança ampla, foi crescendo o apoio a uma economia de mercado. E Kenneth Hermele põe nova questão: qual o tipo de desenvolvimento capitalista que estava a ser promovido. Havia defensores do ajustamento estrutural que afirmavam que os programas de reforma não pretendiam ir mais longe do que lanças as bases do crescimento económico. Da observação deste cientista social, o capitalismo que se estava a promover não apresentava nenhum dos aspetos relevantes do chamados capitalismo milagre do Sudeste Asiático. Aí, a direção do Estado, reforma económica e social, incluindo reforma agrária, políticas de longo alcance promovendo a educação, por exemplo, constituíam uma condição prévia necessária para as fases posteriores do crescimento de exportação. Ora nada de semelhante estava a ser implementado na Guiné ou em Moçambique. Parece razoável concluir que aquilo que estava a ser criado através do ajustamento estrutural na Guiné-Bissau e em Moçambique era um capitalismo fraco e subserviente. Observa igualmente Hermele que no que dizia respeito à Angola e Moçambique, o objetivo final das políticas impostas era preparar a África austral para uma situação pós-Apartheid.

Em termos de conclusão, o autor refere que as alianças nestes três países passaram por três fases: luta de libertação apoiada por uma frente ampla; tentativa de modernização que falhou em parte devido a uma alteração de aliança entre os camponeses e as burocracias estatais e o partido líder; na terceira fase, com a imposição do pacote de política de ajustamento estrutural estava a ser criada uma nova aliança entre capitalistas e instituições internacionais de finanças e cooperação, estando as burocracias de Estado a desempenhar uma papel complementar independente.

E o autor dizia que não se estava a verificar qualquer desenvolvimento, nem capitalista nem socialista, na ausência de um aparelho de Estado que se baseasse numa aliança interna, havia uma tendência das agências doadoras para enfraquecer ainda mais as funções do Estado. A erosão da base política interna entre o campesinato guineense, por exemplo, destituiu o regime do apoio interno que teria sido necessário para poder resistir às condições impostas pelo sistema financeiro internacional. Concluiu o autor que as organizações não-governamentais, grupos de solidariedade e as agências de desenvolvimento deviam pôr em prática ações adequadas no sentido de fortalecer o poder de resistência interna. Mas que não houvesse ilusões, era a capacidade de Angola, da Guiné-Bissau e de Moçambique em estabelecer internamente alianças políticas novas que permitiria lançar em simultâneo as bases do desenvolvimento socioeconómico. E termina de forma taxativa: pessoas do exterior só poderão desempenhar um papel secundário; mas nós poderemos contribuir para certificar que os poderes ocidentais e as suas instituições não imponham a continuação do subdesenvolvimento e da dependência e que – pelo menos – se encontrasse resistência dentro do país.

Vamos seguidamente dar a palavra a Lars Rudebeck, vamos até uma tabanca guineense.

Kenneth Hermele
Lars Rudebeck
O antigo hospital militar nº241, imagem do Triplov, com a devida vénia
A casa comercial Taufick-Saad, imagem do Triplov, com a devida vénia
Fevereiro de 1965, o governador Arnaldo Schulz passa revista a uma unidade da Mocidade Portuguesa, no ato inaugural de uma escola, Arquivos da RTP, com a devida vénia
Nino Vieira e Luís Cabral na Suécia, 1973, imagem retirada do blogue Herdeiro de Aécio, com a devida vénia
Nota de 100 Pesos da Guiné-Bissau, emissão de 1975, reverso da nota na face está a efígie de Domingos Ramos

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 19 DE JULHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25761: Notas de leitura (1710): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, anos 1868 e 1869) (12) (Mário Beja Santos)