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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28447: Para bom observador, meia palavra basta (12): Decifrado o enigma dos grafitos deixados pela CCAÇ 1620 em Cameconde e no Cachil: "3798" era, de facto, o SPM da companhia (Manuel Cibrão Guimarães, Rio Tinto / Gondomar, organizador do encontro anual do pessoal em 2018)



Brasão da CCAÇ 1620, "Em Perigos e Guerras Esforçados".
 Coleção Carlos Coutinho (2009). Restauro com IA (Gemini Google AI)








Foto mº 1B, 1A, 1 > O Manuel Cibrão Guimarães foi o organizador, em 2018, do convívio anual da sua Companhia, a CCAÇ 1620. O convite, personalizado, e com o respetivo programa, foi feito de maneira original através de impresso digitalizado dos nossos antigos aerogramas, adaptado com o brasão da subunidade e o respetivo SPM, 3798. Por razões óbvias ( proteção de dados, privacidade, segurança...), eliminámos o nome da rua e o número de policia do destinatário e do remetente.


Foto (e legenda): © Manuel Cibrão Guimarães (2026) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].






Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620 (Bissau, Cameconde, Cacine, Sagonhá, Cachil, Bolama, 1966/68) > Aqui em Algés, na Tababnaca da Linha
Algés. Foto: Manuel Resende (2019)



1. Está decifrado o "enigma" dos grafitos do Cachil (1968) (foto de Manuel Cibrão Guimarães) e de Cameconde (2018) (foto de Patrício Ribeiro) (*). O número "3798" corresponde, de facto, ao SPM da CCAÇ 1620.

Aqui fica o esclarecimento, feito a nosso pedido, pelo nosso camarada de Rio Tinto, Manuel Cibrão Guimarães, membro da tertúlia O Bando do Café Progresso, Porto e da nossa Tabanca Grande:

Data - 18 de outubro de 2026, 16:28

Amigo e companheiro, administrador Luís Graça:

Espero que a tua saúde esteja a passar um momento.

Quanto ao cerne da questão do número do SPM da minha companhia, a CCAÇ 1620, efetivamente foi o 3798.
Tomei a liberdade de enviar este convite com o convívio organizado por mim no ano de 2018 que, como podes observar, foi feito em aerograma, e ainda tive o cuidado de imprimir o programa não esquecendo o nosso SPM 3798.
Então, o SPM é efetivamente o 3798. Isto para que não haja dúvidas para memória futura.

Cumprimentos, Cibrão Guimarães.



2. Sabíamos que esta companhia tinha passado por Cameconde e depois pelo Cachil, já no final da comissão.

Em 20 de março de 1968, por troca com a CCAÇ 1621, assumiu a responsabilidade do subsector de Cachil, ficando então integrada no dispositivo e manobra do BART 1913, e tendo entretanto, cedido um Grupo de Combate para reforço de forças daquele batalhão em operações, de 22 de março a 27 de abril de 1968.

Em 11 de julho de 1968, por retirada das forças aquarteladas em Cachil e consequente extinção do subsector, a CCAÇ 1620 recolheu a Bolama, onde permaneceu até ao embarque de regresso, no T/T Uíge.

A ordem de retirada (e consequente destruição) do aquartelamento foi dada por Spínola, que estivera no local quinze dias antes.


De há muito que o Cachil (desde1964) não oferecia condições para a permanências das NT: por exemplo, não havia água potável; o abastecimento era feito a partir de Catió, através de uma lancha, que vinha num dia, na maré-cheia, e só podia regressar no dia seguinte...

Fotos (e legendas): © Manuel Cibrão Guimarães (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Foto nº 2



Foto nº 3


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1620 > 11 de julho de 1968 > Retirada do Cachil. Em primeiro plano, á direita, o Manuel Cibrão Guimaraes (Foto nº 3). Fotos a preto e branco, reconstituídas e colorizadas com recurso à IA.




Foto nº 4


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1620 > 1968 > O "Forte Apache""... As instalações, forradas com chapas de bidões "grafitadas": pode ler-se, a olho nu e com a ajuda da IA, "lavadeiras", "am..", "CCaç 1620", "S. P. M. 3798", "Arouca"...


Em 11Ju168, por retirada das forças aquarteladas em Cachil e consequente extinção do subsector, a CCAÇ 1620 recolheu a Bolama, onde permaneceu até ao embarque de regresso. Mas antes passara por Cameconde, Cacine e Sangonhá. Foto, original, a preto e branco. Rescontituída e colorizada.

Foto (e legenda): © Manuel Cibrão Guimarães (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) (Gemini / Google AI(]



Foto nº 5 B

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cameconde > 11 de março de 2018> "Restos arqueológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"...Em 2018, ainda foi possível apanhar este grafito, na parede de um dos abrigos que ainda resistiam em Cameconde... Na parede de um deles lia-se da esquerda para a direita "3798. Bar". Deduzimos que o número "3798" fosse o SPM da CCAÇ 1620.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google) ].

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Nota do editor LG:

sábado, 10 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28422: Para bom observador, meia palavra basta (11): Grafitos: a CCAÇ 1620, do Manuel Cibrão Guimarães, que passou pelo Cachil e por Cameconde, tinha o SPM 3798 ? Um "enigma" a decifrar...


Foto nº 1


Foto nº 2

Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1620 > 1968 > O "Forte Apache""... As instalações, forradas com chapas de bidões  "grafitadas": pode ler-se, a olho nu e com a ajuda da IA, "lavadeiras", "am..", "CCaç 1620", " S. P. M. 3798", "Arouca"... Fotos, originais, a preto e branco. Restauradas e colorizadas.  A nº 2 mais fiel ao original...

Fotos (e legenda): © Manuel Cibrão Guimarães (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]




Foto nº 3 B, 3A, 3

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cameconde > 11 de março de 2018> "Restos arqueológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google) (ChatGPT / Opena AI) ].

 

Manuel Cibrãão Guimarães >
Algés. Foto de Manuel Resende (2019)
1. O que nos intriga nestas fotos (nºs 1 e 2) do Cachil, 1968, do Manuel Cibrão Guimarães,  e de Cameconde, 2018, do Patrício Ribeiro, são estes quatro algarismos: "3798".

Trata-se de simples coincidència ? Ou há alguma relação ?

Precisamos de confirmar se o SPM da CCAÇ 1620 era o "3798" ou o "3718". Ou nenhum deles.  (Falta-nos uma lista dos código SPM.)  Esta subunidade esteve no Cachil e em Cameconde, topónimos do sul da Guiné - Bissau.

É possível que os "grafitos",  na parede exterior  de antigo abrigo de cimento, que terá servido de "bar", tenha resistido á erosão do tempo ? Meio século num país tropical como a Guiné-Bissau é muito tempo. 

Alguém terá, entretanto, reavivado o grafito de Cameconde ?  Algum "turista", ex - combatente
 que voltou ao " local do crime".... ou algum elemento da população atual ?

Fica o desafio para o Manuel Cibrão e os demais camaradas que passaram pelo Cachil e por Cameconde,  para ajudar a "decifrar" este pequeno enigma (*)...


2. Sobre  o nosso camarada Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620 (1966/68), que vive  em Rio Tinto, Gondomar,  escrevemos em tempos o seguinte, na sua apresentação à Tabanca Grande:

(i) dos cinco "Bandalhos" (leia-se: autodesignados membros do Bando do Café Progresso, Porto), que vieram ao 35º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha (Oeiras, Algés, Restaurante "Caravela d Ouro", 17/1/2018), era o único que ainda não era grão-tabanqueiro (leia-se: membro da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas...);

(ii) manifestou o seu acordo ao meu convite "instantâneo" e logo ali, no "Caravela de Ouro", me mostrou um molhe de fotos do seu tempo do Cachil, Cameconde, Cacine e Gadamael";

(iii) fotografei umas tantas, e tomei algumas notas apressadas, não fosse o diabo da memória tecê-las e eu depois  baralhar os lugares: umas eram as  do Cachil, outras de Gadamael, outras ainda do T/T Niassa;

(iv) mais tarde, por mail,  mandou-.me umas tantas, com as devidas legendas sumárias; ficquei a  saber que ele foi quem fez o "check-out" do Cachil, que é como quem diz: estava lá quando foi a "extinção" do "forte Apache"...

Não tínhamos, até então ninguém da CCAÇ 1620, mobilizada pelo RI 1. Uma subunidade que partiu para o CTIG em 12/11/1966, no T/T Niassa, e regressou a 16/8/1968. Esteve em Cameconde, Sangonhá, Cachil ...  três sítios desgraçados que serão depois abandonados por  ordem do novo  com-chefe, o brig  António Spinola.

O Manuel Cibrão Guimarães passou a honrar-nos com a sua presença, sentando-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 766.

Mas ao fim destes anos todos, temos poucas referências (6) dele no blogue. Reparo agora que também foi "camecondense" (**)... E continua a ser, ao fim destes anos todos, o único representante da CCAÇ 1620. Mas o que me chamou a atenção é a existência das fotos "intrigantes" do Cachil (1968) e de Cameconde (2028).

3.  Ficha de unidade  > Companhia de Caçadores n.º 1620

Identificação CCaç 1620
Unidade Mob: RI 1 - Amadora
Cmdt: Cap Mil Inf Fernando António de Magalhães Oliveira
Divisa: -
Partida: Embarque em 12Nov66; desembarque em 18Nov66 | Regresso: Embarque em 16Ago68

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 18Nov66, substituíu a CCaç 762 nas suas funções de segurança e protecção das instalações e das populações da área de Bissau, na dependência do BCaç 1876, efectuando, simultaneamente, uma instrução de adaptação operacional na região de Nhacra, de 25Nov66 a 11Dez66.

(ii) Em 05Jan67, rendendo, por troca, a CCaç 799, assumiu a responsabilidade do subsector de Cameconde, com um pelotão destacado em Cacine, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1861 e depois do BArt 1896.

(iii) Em 01Ago67, por rotação com a CArt 1692, assumiu a responsabilidade do subsector de Sangonhá, com um pelotão destacado em Cacoca, mantendo-se no mesmo sector do BArt 1896.

(iii) Em 20Mar68, por troca com a CCaç 1621, assumiu a responsabilidade do subsector de Cachil, ficando então integrada no dispositivo e manobra do BArt 19l3, tendo entretanto, cedido um GComb para reforço de forças daquele batalhão em operações, de 22Mar68 a 27Abr68.

(iv) Em 11Ju168, por retirada das forças aquarteladas em Cachil e consequente extinção do subsector, recolheu a Bolama, onde permaneceu até ao embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa no. 70 - 2a.  Div./4a. Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág, 360
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28408: Para bom observador, meia palavra basta (10): Gadamael, 2 de junho de 1973, CCP 122/ BCP 12: Usar ou não usar o capacete, eis a questão... (António Dâmaso / Carmo Vicente / Bernardino Sena)

(**) Vd. poste de 26 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18257: Memória dos lugares (372): Cachil, na altura da extinção do aquartelamento, em 1 de julho de 1968 (Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620, Bissau, Cameconde, Cacine, Sangonhá, Cacoca, Cachil e Bolama, 1966/68)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28420: As nossas geografias emocionais (69): Cameconde, ontem e hoje - Parte I



Foto nº 1A e 1 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial do aquartelamento,  com as suas valas e trincheiras. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro. Vê-se que o  espaço foi alargado e melhoradas instalações, em relaçáo à situação em 1968.  No entanto, em em meados de 1973 "não tinha capacidade para albergar uma companhia inteira".

Fotos (e legendas): © Manuel Domingos Ribeiro  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]


Foto nº 3



Foto nº 4A e 4





 Foto nº  5C, 5B, 5A e 4

Guiné > Região de Tombali > Setor de Cacine (S3) > Cameconde > 1968 > Três aspetos gerais do destacamento > Fotos, a preto e branco, e fraca resolução,  do álbum do nosso camarada António José Pereira da Costa, que era na altura alferes QP da CART 1692/BART 1914 (Cacine, Cameconde, Sangonhá e Cacoca, 1967/69) e mais tarde cap e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74).  As imagens foram restauradas e colorizadas digitalmente com recurso à IA.

Na Foto nº 5C, assinalado com um círculo a amarelo há um obus 10.5 cm,do 1º Pel Art.  Na  Foto nº 3. no original, a bandeira portuguesa não estava hasteada...

Fotos (e legenda): © António J. Pereira da Costa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]



Foto nº 6, 6A




Foto nº 7B, 7A. 7

Guiné-Bissau  > Região de Tombali > Cameconde > de março de 1968 >  "Restos arqeuológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (Gemini / Google( (ChatGPT / Opena AI) ].


Guiné > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Cameconde, Cacoca e Sangonhá, nas proximidades da fronteira com a Guiné-Conacri, tendo a norte Gadamael e Ganturé. Cacine ficava a noroeste de Cameconde, a escassa meia dúzia  de quilómetros Cacine (vd. carta de Cacine). Nesta linha de fronteira, Cacine, Cameconde e Gadamael aguentaram até ao fim (25 de Abril de 1974). Cacoca, Sangonhá, Guileje, Mejo,  Gandembel, Balana, foram posições  abandonadas pela NT.

Cameconde era a guarnição militar portuguesa mais a sul, na região de Quitafine, na estrada fronteiriça Quebo-Cacine... Em 1968 era o batalhão que estava em Buba (BART 1896, 1966/68) quem defendia esta importante linha de fronteira...


Guiné > Carta geral da província (1961) > Escala 1/ 500 mil   >  Posição relativa de Cacine, Cameconde, Cacoca, Sangonhá, Gadamael, Ganturé (e mais acima Guileje, Gandembel e Balana)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1.  Sobre Camemonde temos mais de 60 referências no blogue. É uma das muitas estações do nosso calvário na Guiné. Desde o princípio da guerra, foi sempre um osso muito duro de roer. Diversos camaradas nossos (aqui representados na Tabanca Grande) lá estiveram e por lá passaram  (e por lá penaram...).

 Estive a organizar uma lista dos "camedondenses" mas  desapareceu, num daqueles "truques de magia" que, desgraçadamente, acontecem,  de vez em quando, aos pobres dos editores (e também aos leitores, que nos comentam...): basta, às vezes, tocar  na tecla errada... e é a morte do artista (irrecuperável,  irremediável, irreversível).

Um gajo fica "piurso"... Mas não adianta partir o computador... O material tem sempre razão, aprendemos na tropa. Por isso, siga a Marinha... 

O nosso último grão-tabanqueiro, o Fernando Villalôbos Filipe,  (foto acima) foi um deles, um dos "camedondenses". E, por sinal, comandou a CART 6552/72 a quem coube a entrega (pacífica e planeada) das fracas instalações aos novos "senhores da  guerra"... Em 19 de julho de 1974. No mesmo dia que Gadamael.

 

2. O José Vermelho, nosso grã-tabanaqueiro nº 471, ex-fur mil, CCAÇ 3520, Cacine,  e CCAÇ 6,  Bedanda, CIM Bolama (1972/74), descreveu Cameconde nestes termos realistas

(...) Cameconde era um destacamento de Cacine, distando 6/7 Kms entre si. Tinha uma forma mais ou menos rectangular, talvez aí de uns 50 por 70 mts., encravado no meio da mata, completamente isolado, sem qualquer população civil.

Era o destacamento das N/T situado mais a sul da Guiné. Tinha em permanência 1 Pelotão de Artilharia + 1 Grupo de Combate de Cacine, sendo este substituído mensalmente por outro, em regime rotativo.

Era feita uma coluna diária Cacine - Cameconde (com picagem) e volta. Nos primeiros meses de 1972, também fui um dos "turistas voluntários à força", convidado a visitar Cacoca... isto é... o pouco ou nada que restava dela! (...)

Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:


3. O Juvenal  Candeias (ex-alf mil, CCAÇ 3520,  Estrelas do Sul, Cacine e Cameconde e Guileje, 1971/74] ajudou-nos a melhor fazer o enquadramento de Cameconde na península de Quitáfine: 

(...) A região do Quitáfine, a Sul de Cacine, era considerada o santuário do PAIGC, que aí estava fortemente instalado e provido de dispositivos de segurança, que tornavam os nossos movimentos impossíveis, salvo com utilização de meios excepcionais. 

Trilhos minados e sentinelas avançadas, permitiam-lhes uma tranquilidade apenas quebrada pelos obuses de 14 cm, disparados do nosso destacamento de Cameconde!

Os efectivos de que dispunham com um grupo especial de 20 lança-granadas, responsável pelas constantes flagelações a Cameconde, apoiado por um bigrupo disperso pela zona de Cassacá e Banir (onde se supunha estar o comando), eram reforçados por uma vasta população armada em autodefesa, distribuída, entre outras, pelas tabancas de Ponta Nova, Bijine, Dameol, Cassacá, Banir, Campo, Cassebexe e Caboxanque.

O PAIGC furtava-se sistematicamente ao contacto, optando por uma estratégia defensiva de protecção às populações que controlava, privilegiando as flagelações e a colocação de engenhos explosivos! Quem circulava a Sul de Cambaque (que distava cerca de 3 km de Cameconde) tinha como certo algumas surpresas no trilho! Provavelmente um campo de minas e a seguir (algum humor-negro), munições de Kalash espetadas no chão formando a palavra PAIGC!

O Quitáfine permitia ainda, ao PAIGC, um reabastecimento regular e seguro, processado a partir da República da Guiné, através de vários rios, em especial o Caraxe e o Camexibó! Ao dispositivo militar juntava-se uma mata densa intransponível!

Os paraquedistas, após uma operação no Quitáfine, só à noite conseguiram chegar a Cameconde, com grande dificuldade e orientados pelo clarão da queima de cargas de obus, em cima dos abrigos!  O grupo de Marcelino da Mata, largado de helicóptero, fez um golpe de mão a Cabonepo, a base do PAIGC mais a Norte do Quitáfine, onde estaria instalado um posto transmissor. Quando chegou, após lenta progressão através da mata… não havia lá nada… a base tinha sido abandonada momentos antes!

O Quitáfine era, efectivamente, o santuário do PAIGC, desde o início da guerra! Foi ali que se realizou, na tabanca de Cassacá – a 15 Km de Cacine e a 8 Km de Cameconde -, em meados de fevereiro de 1964, o 1º Congresso do PAIGC, com a presença de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Aristides Pereira e outras individualidades do Partido!

A CCaç 3520 tinha chegado ao porto de Cacine, a bordo da LDG Montante, em 24 de Janeiro de 1972, para render a CCaç 2726 – companhia açoriana comandada pelo Capitão Magalhães -, o homem que retorcia as pontas do bigode com cera e a quem o tabaco nunca faltava! Dizia-se mesmo, à boca pequena, que, quando o tabaco acabava em Cacine, o PAIGC deixava, no mato, uns macitos para o Capitão! Rumor ou realidade… ninguém sabe! Ficou por provar!

Decorria ainda o período de sobreposição, que se prolongou até 22 de fevereiro, quando foram recebidas instruções de Bissau, para ser preparada uma operação ao Quitáfine – Cabonepo e… Cassacá! (...)


4. Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro  tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:

(...) Cameconde > Algumas fotos da fortaleza (quartel) que lá construíram, para os que lá dormiram dentro, recordar 

Ainda hoje são impressionantes, as construções. (...)

A estrada que liga Cameconde, Cassacá, até Campeane, está em bom estado, ainda encontramos muita floresta frondosa, muito verdejante, esta zona é muito bonita. Onde se produz muita fruta; cola, laranja, ananás, banana, etc. Mas a plantação de caju, já está a chegar, para deitar a floresta abaixo.

A estrada passou a ser uma rua, com muitas casas durante alguns quilómetros muita população. Como está perto da fronteira, muitos vieram do outro lado (...)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28246: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): A árvore sagrada, secular, da tabanca de Bijante, junto à baloba, na ilha de Bubaque, Bijagós, é muito provável que seja uma Ficus polita




Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2, 2Ae 2B


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante >   1 de agosto  de 2026 > A árvore sagrada, junto à baloba (ou casa dos irãs) (*)

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, no dia 10 de julho, por volta das 13:55. Em trabalho.
 

 Devido à lentidão da Net, costuma mandar-nos sempre uma foto de cada vez. Estas foram tiradas em 1 de agosto, por volta das 14h15, na tabanca de Bijante.  Têm legendas lacónicas, como sempre



Data - sábado, 1/08/2026, 20:35

Foto nº 1 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Árvore, do género "Figueira",  de grande tamanho, junto da baloba.

Foto nº 2 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Tronco da "Figueira", com mais de 5 mt de diâmetro
 

2. Comentário do editor LG:

Patrício  obrigado pelas fotos. Não sou especialista em botânica, e muito menos da tua terra adotiva (, sou apenas um curioso da fauna e flora), mas três ferramentas de IA que consultei ( Gemini Google | ChatGPT Open AI | Vibe Mistral AI ), além da plataforma African Plants: A photo guide, estão de acordo com a tua observação:  analisando as tuas fotos, concluíram que tens razão, trata-se de um exemplar do género Ficus (uma figueira-brava/estranguladora); é um belo exemplar das figueiras sagradas que se encontram na Guiné-Bissau, e em especial no arquipélago dos Bijagós.

2.1. Na Foto no. 2,, é possível observar claramente a estrutura botânica que explica o aspeto e as dimensões do tronco:

Hábito estrangulador (Figueira-Mata-Pau), em português do Brasil): a árvore hospedeira original (provavelmente um poilão/Ceiba pentandra ou outra espécie de grande porte) foi envolvida ao longo de décadas pelas raízes aéreas e ramos de uma figueira epífita,

Fusão de troncos: o tronco massivo visível na base resulta da fusão e espessamento (anastomose) dessas raízes aéreas adventícias ao redor do tronco central, criando uma estrutura colossal composta;

Massa e dimensão: esse processo de crescimento colateral e fusão de raízes explica a enorme largura da base (que pode atingir facilmente perímetros invulgares e uma copa extremamente densa e ramificada, como se nota na foto nº 1).

Na Guiné-Bissau e no Arquipélago dos Bijagós, estas grandes figueiras e poilões centenários junto a balobas são habitualmente integrados nos locais sagrados, servindo de morada aos espíritos (irãs) e de ponto de reunião ritual da comunidade. (Fonte: Gemini | Google).

2. 2. O ChatGPT também está de acordo, dezendo que, sem quaisquer dúvidas, se trata uma figueira-brava, do género Ficus.

As fotografias mostram vários indícios característicos de uma Ficus adulta: o tronco gigantesco, muito engrossado na base; tronco muito espesso e irregular, com numerosas protuberâncias; raízes tabulares ("sapopemas") e raízes adventícias aderentes ao tronco; ramos muito pesados e pendente; numerosas raízes aéreas que descem dos ramos e acabam por fundir-se com o tronco; copa extremamente densa e arredondada, em forma de guarda-chuva; hábito de formar um verdadeiro "bosque" sobre um único indivíduo.

A foto nº 2 é particularmente elucidativa: essas raízes adventícias, que abraçam o tronco e descem dos ramos, são praticamente uma assinatura das grandes figueiras tropicais.

Espécie:

É mais difícil de identifcicar.

Na Guiné-Bissau existem várias espécies de Ficus. Mas a mais provável é a Ficus polita, muito comum na África Ocidental, frequentemente preservada junto das tabancas e dos locais sagrados.

O ChatGPT exclui, como menos prováveis a Ficus sycomorus (copa mais aberta; folhas bastante maiores; tronco menos "nodoso"; sicónios abundantes diretamente no tronco); e Ficus elastica (a figueira-da-borracha), introduzida, cujas folhas são muito maiores e brilhantes.

Idade:

Se o diâmetro referido pelo Patrício Ribeiro ronda os 5 metros ( perímetro visível do conjunto do tronco ou a uma medição aproximada "de vista"), e observando a enorme base, as raízes incorporadas, e o grau de deformação do tronco, o ChatGPT dar-lhe-ia 200 a 250 anos de existência.

Nas tabancas bijagós, onde uma árvore ligada à baloba nunca é abatida, exemplares desta idade não são nada improváveis.

Se o fotógrafo mediu cerca de 5 m de diâmetro, isso corresponderia a quase 16 metros de perímetro, o que faria dela uma árvore verdadeiramente excecional, provavelmente com vários séculos de idade.

Há, contudo, uma particularidade nas figueiras: muitas vezes o que parece um único tronco resulta da fusão de diversos troncos e raízes aéreas ao longo do tempo. Por isso, o "diâmetro" é um conceito algo enganador nestas árvores.

Altura:

A fotografia permite fazer uma estimativa razoável,  usando as casas (moranças). Uma casa tradicional bijagó tem normalmente: cerca de 2,6–3 m até ao beiral; e  cerca de 4–4,5 m até ao cume do telhado.

Comparando essas referências com a copa,  a árvore mede aproximadamente 8 a 9 vezes a altura do telhado. Ou seja, qualquer coisa entre 31 e 37 m

Relação com a baloba

As figueiras sagradas são centrais nas balobas das tabancas bijagós
, servindo como eixo espiritual para rituais, assembleias e culto aos irãs (espíritos ancestrais).

A idade centenária e a preservação junto a locais sagrados alinham-se com a prática de conservar estas árvores como símbolos de memória coletiva e ligação aos antepassados (Mistral AI).

Aliás, esta figueira poderá ser mais antiga do que a própria tabanca atual. É perfeitamente possível que Bijante tenha crescido em torno dela e que sucessivas gerações a tenham preservado precisamente por ser considerada sagrada. (ChatOpen AI).

Seria interessante perguntar aos anciãos da tabanca se existe uma tradição oral sobre a idade da árvore ou sobre quem ali fundou a baloba.

 Essas narrativas, mesmo quando não são historicamente verificáveis, costumam conservar uma memória muito antiga do lugar. Muitas vezes, estas narrativas guardam memórias ancestrais valiosas

Em praticamente toda a África Ocidental, as grandes figueiras constituem lugares privilegiados para: assembleias da comunidade; julgamentos tradicionais; cerimónias de iniciação; culto dos antepassados; sacrifícios e oferendas.

A árvore não é apenas uma árvore: é um marco da memória coletiva, um eixo simbólico que liga os vivos, os antepassados e os espíritos protetores da tabanca (irãs).

Em conclusão, a legenda mais apropriada para as fotos do Patrício Robeiro:

Grande figueira (Ficus sp.), provavelmente Ficus polita (ou espécie muito próxima), junto à baloba da tabanca de Bijante, ilha de Bubaque. Exemplar monumental com cerca de 34 metros de altura e idade provavelmente superior a dois séculos. A preservação secular desta árvore está muito ligada ao seu carácter sagrado para a comunidade bijagó.

Se o Patrício Ribeiro conseguir uma fotografia aproximada de um ramo com folhas e, sobretudo, dos figos (sicónios), mesmo verdes, com uma moeda ou uma mão ao lado para escala, é possível chegar à identificar a espécie com uma confiança de 95% ou mais, com a ajuda  da IA.


Pesquisa: LG +  African Plants: A photo guide, ´ IA (Gemini /Google | ChatGPT / Open AI | Vive Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos; LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós

domingo, 2 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28234: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): a baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós, e a força securitária do sagrado



Foto nº 1, 1A e 1B



Foto nº 2, 2A e 2B

Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > Sábado > 1 de agosto de 2026  > A  baloba local, o sítio mais seguro da tabanca.

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Patrício Ribeiro, o nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, em trabalho,  no dia 10 do mês passado, mandou-nos mais fotos de Bijante, incluindo a baloba local...

Data - sábado, 1/08/2026, 20:31

Assunto - Baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós

As pinturas na baloba de Bijante, local sagrado, onde guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.


Mantenhas

Patrício Ribeiro
Impar Lda


 Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > Destacamento de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12 (Luís Graça, fundador e editor deste blogue) junto a uma baloba,   um dos locais de culto dos irãs (espíritos da floresta).

A população era maioritariamente balanta, animista. Mas também havia um núcleo Mandinga. Era conhecida a sua colaboração com o PAIGG, sobretudo com as populações e os guerrilheiros de Madina/Belel, no limite do Cuor, a noroeste de Missirá, mas também com os do subsetor do Xime. "Tinham parentes no mato", dizia-ser então.

 O reordenamento desta população, considerada até então sob duplo controlo e pouco colaborante com  as NT (e senão mesmo hostil), iniciou-se em 1969, sob a iniciativa do BCAÇ 2852 (1970/72), tendo sido continuada pelo BART 2852 (1970/72). Foi criado um destacamento para apoio a (e defesa de) o reordenamento.

No seu diário de então, o furriel Henriques usava um termo demasiado forte (e manifestamente desajustado...), "etnocídio", para qualificar a construção deste reordenamento, a que chamava "aldeia estratégica". 

Era então um dos maiores, se não o maior, em construção  no CTIG, com cerca de  300 fogos, pelo exército em colaboração (franca e leal) com a população local. 

Porquê "etnocídio" ?  Na altura, ele referia-se à  destruição do habitat socioecológico destas populações ribeirinhas, dispersas pela margem esquerda do rio Geba Estreito (do outrro lado, era o "mato do Cão") que passavam a ser "reordenadas"  e "militarizadas" (o reordenamento passava a ter umqa guarnição militar, constituída por um Grupo de Combate do batalhão de Bambadinca e por milícias balantas...).

Há uma diferença entre etnocídio e genocício: ele falava, em 1970,   da  destruição da cultura, da perda da identidade e do fim dos costumes da comunidade de Nhabijões, o que era manifestamente exagerado... A baloda construída no reordenamento, embora "liliputiana" (quando comparada com as dos Bijagós)  era a prova de que os "reordenadores" tinham a preocupação de preservar "usos & costumes" da população"... Estávamos em plena "Spinolândia!... 

O PAIGC,  mais tarde, "ressaibiado" com a colaboração da comunidade de Nhabijões com a tropa,  iria flagelar o reordenamento. Sem consequências.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Comentário do editor LG:

Patrício, a tua sensibilidade sociocultural vale ouro. Não és turista, nem antropológo, és empresário, andas no teu trabalho, a "cirandar" por toda a Guiné-Bissau, embora "reformado... a meio tempo"... E vai-nos, sem querer, e sem a gente te pedir nada (a não ser "partir mantenhas" ), mandando de vez em quando estas preciosas fotos, em geral acompanhadas de lacónicas legendas, da terra que tu amas e nós amamos, mesmo não conhecendo, como tu, todos os cantinhos.

É o caso destas, tiradas na tabanca de Bijante, Bubaque,  Bijagós. Estas fotografias da balofa local são, para mim, um pequeno achado etnográfico. Não sou especialista em etnografia guineense. Sou sociólogo, e tive uma cadeira de antropologia, de um ano, com um grande professor e antropólogo, o Joaquim Pais de Brito. O "bichinho" da antropologia / etnologia ficou cá para sempre...

Lembro-me das balofas de Nhabijões (vd. foto acima, de 1970), nos arredores de Bambadinca, bem como das boas e más memórias desse reordenamenyo (apanhei lá com uma mina anticarro que bem poderia ter-me mandado para os anjinhos). 

Mas, confesso, sei pouco do "animismo" que sobrevive na Guiné-Bissau, "entalado", cada vez, entre duas poderosas religiões monoteístas e proselitistas, como são o cristianismo e o islamismo.  Coitados dos irãs da Guiné-Bissau, até as últimas florestas sagradas  já perderam. (Felizmente, não parece terem-se repetido os ataques a duas balofas e uma igreja cristã, em Bissau, em março de 2024.)

Patrício, recorrendo à menina da IA (e a outras fontes da Net),  eis aqui algumas dicas que me parecem pertinentes, e que nos podem ajudar  a "ler" as tuas fotos da baloba de Bijante. 

(i) o interesse documental, "etnográfico",  destas tuas imagens:

Não tem tanto a ver com a qualidade das pinturas (que já estão muito gastas), mas com o facto de mostrarem uma baloba viva, ainda em uso e respeitada pela comunidade.   

(ii) o que é uma baloba

A palavra "baloba" (ou " baloba di irã") entrou no crioulo da Guiné (ainda no nosso tempo) a partir das línguas locais e designa, de forma geral, um santuário comunitário, a casa dos espíritos (os Irãs entre os Bijagós). 

Já está grafada em português. Segundo a Infopedia, o termo crioulo "baloba" vem do do felupe bu-loba, «feitiço falante»

Baloba não é simplesmente um "templo animista". É simultaneamente: lugar de culto;
lugar de iniciação; sede do poder espiritual da tabanca; espaço onde se realizam sacrifícios, consultas e cerimónias; depósito de objetos rituais...

Nos Bijagós, a baloba está intimamente ligada ao culto dos antepassados e dos irãs, que podem assumir formas humanas,  ou  elementos da fauna e flora.

(iii) O que podemos ver fotografias do Patrício (fotos nºs 1 e 2):

Para já é curioso que a morança dos irãs esteja identificada pela palavra "baloba", escrita en português, em letras do alfabeto latino, a par de pinturas murais. 

Tudo indica, entretanto , que a decoração da parede exterior, que tem uma  porta de entrada principal (e provavelmente única), seja relativamente recente (seguramente do período pós-independência,  ou  últimas décadas).

O edifício passa, pois, a ser mais facilmente identificado quer pelos turistas (que visitam Bubaque), quer pelos membros mais jovens, alfabetizados, da comunidade, que estão em rápida perda da sua identidade cultural (bijagó e guineense), com a "globalização".

Outro símbolo, as setas:  convergem para a porta, podendo indicar tanto a entrada ritual como a direção obrigatória da circulação. Não sabemos se há uma porta de saída.

Acima da porta aparece um peixe enorme (em estilo naturalista).  O que não é estranho. Estamos numa ilha, estamos em Bijagós, um arquipélago onde a população tem uma forte ligação ao mar e vive também do mar. 

O peixe significa  "mafé", abundância, proteção... Pode também representar um irã associado ao mar; ou ser simplesmente um marcador identitário da aldeia. Falta-nos aqui as "explicações" dos moradores locais.

Mais intrigante é a figura do morcego. Não é um elemento decorativo. No animismo, nos sistemas religiosos africanos, o morcego aparece frequentemente associado  à noite, aos espíritos, à passagem entre vivos e mortos.

Já a serpente, à esquerda do morcego, é um símbolo extremamente antigo e constante em quase toda a África Ocidental.
 Pode ser a Píton-africana ou píton-da-rocha-centro-africana ou Píton-norte-africana (Python sebae), também conhecida (e temida) como "irã-cego"... Mas não sei se  este réptil existe no arquipélago dos Bijagós. 

Pode representar fertilidade, continuidade da vida, proteção do recinto, ou pode ser a própria representação de um irã (os irãs tendem a assumir a forma animal).

O grande lagarto, à direita da porta e da palavra "Koreti", pode ser um crocodilo estilizado. Não arrisco o seu significado.

 "Koreti", também não faço ideia do que seja... Nome gentílico ?  Nome, cristianizado (por influência dos missionários cristãos),  de mulher e rainha, guardiã do templo ? Pode ser uma variante ortográfica ou erro de audição para Goreti , da santa italiana  Santa Maria Goretti. 

O Cherno Baldé, que nos ajude, não é bijagó, mas é guineense, muito mais guineense e melhor etnólogo do que eu.

Quanto às figuras humanas (no lado direito da parede, a seguir à porta): temos uma figyura antropomórfica  (uma mulher ?), sentada o chão, em cima de uma esteira, com uma lança ou bastão, em postura cerimonial. Difícil descodificar este signo.

O músico (?), por sua vez,  tem barrete, usa colares  segura um instrumento (que pode ser uma espécie de cordofone tradicional) (?). Representa o músico ritual, o  cantor cerimonial, a personagem das iniciações.

Os triângulos à volta da porta são, sem dúvida,  o elemento mais claramente decorativo. Esses padrões geométricos são frequentes em várias casas rituais dos Bijagós. Podem simplesmente marcar o caráter sagrado do local,  a transição entre exterior e interior.
 
Estas pinturas murais não contam uma história, como acontece nos nossos murais.  Funcionam antes como  marcadores identitários; proteção simbólica, representação de espíritos, memória ritual. Dizem muito simplesmente:  "isto é uma baloba".

Cada figura poderá provavelmente ter um significado que só é conhecido pelos iniciados da aldeia, e que  não é necessariamente explicado aos não-iniciados.

(iv) O grande especialista dos Bijagós foi o missionário e linguista italiano Luigi Scantamburlo.

Na sua obra sobre Bubaque refere que cada tabanca  tem os seus irãs próprios; estes, por sua vez, tendem a ter formas animais; a baloba guarda objetos onde reside a força espiritual; certas esculturas representam a alma dos antepassados ("orebok").

Ainda em relação às pinturas: parecem ter sido feitas por várias mãos, em épocas diferentes. O traço do morcego, por exemplo,  é muito diferente do do músico (?). Também as cores são diferentes. 

Algumas figuras  podem  ser mais antigas; outras foram acrescentadas ao longo dos anos;  esta morança  foi sendo "renovada" ritualmente, não apenas reparada. Tem agora telhado de zinco, um material de construção mais recente (e caro) na ilha.

 
(v) a força securitária do sagrado

Há uma observação da  IA que merece ser citada, porque é muito personalizada e homenageia simultaneamente o Patrício e a tabanca de Bijante:

(...) "E termino com uma observação que me parece belíssima. O Patrício escreveu apenas: '...guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.'

"Essa frase vale quase uma lição de antropologia. Num país onde a autoridade do Estado pode ser frágil em muitas regiões, a autoridade do sagrado continua eficaz. Não é a fechadura da porta que protege os painéis solares ou as ferramentas da Impar; é o respeito coletivo pela baloba. Esse respeito, construído ao longo de gerações, continua a regular comportamentos de forma muito concreta".


 





3. Numa leitura posterior, mais fina, pormenorizada e atenta das duas figuras humanas, volto atrás, e encontro outras pistas:

Patrício: em relação à primeira figura humana, decididamente não pdoe ser um homem, mas uma  figura feminina, numa postura ligada à maternidade ou ao parto ... 
 
Postura: a figura está sentada com as pernas muito abertas, numa posição que lembra uma posição ritual ou de parto, mais do que numa posição de autoridade masculina; é uma  postura que aparece em diversas representações africanas relacionadas com a fecundidade e a maternidade.

Tronco: o peito está desenhado de forma muito esquemática, mas não também não há qualquer indicação evidente de órgãos genitais masculinos. Pelo contrário, o traço central dirige o olhar para a zona pélvica, que parece ser precisamente o foco da composição.

Região inferior: na fotografia, a tinta está muito degradada; mas aquilo que inicialmente podia ser interpretado como um pénis,  pode muito bem representar sangue, ou sangue menstrual,  cordão umbilical; ou simplesmente um símbolo gráfico hoje quase ilegível.

Bastão: o bastão vertical não é necessariamente um atributo masculino; não é uma lança; nas balobas, muitos objectos rituais (bastões, lanças, remos, cajados) são símbolos de autoridade espiritual e não apenas de género (masculino, feminino).

Cabeça:  há uma  "meia cabaça" invertida na cabeça, com motivos geométricos; esse pormenor é muito importante; não se trata de nenhum penteado. Ora, a cabaça é um objecto ritual de enorme importância em praticamente toda a África Ocidental, podendo  simbolizar fecundidade, maternidade, iniciação, ancestralidade,  ou conter substâncias sagradas.

Saia bijagó: a figura enverga a típica saia bijagó...





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cantanhez > Iemberém > 6 de Dezembro de 2009 > 10h26> "Festa de baptizado muçulmano"... Rapando a cabeça da criança, com uma gilete...A mãe tem um olhar "inexpressivo", indiferente à presença do fotógrafo (**)-.

Fotos: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


O meu filho João Graça fotografou, em Iemberém, 6 de dezembro de 2009, um ritual (a que ele chamou, talvez indevidamente, "batizado muçulmano") em que uma parturiente usava precisamente uma meia cabaça semelhante (mas lisa); isso pode constituir uma pista iconográfica muito valiosa, mesmo que o ritual fosse fula.

É verdade que Fulas e Bijagós pertencem a universos culturais bastante diferentes, mas certos objectos rituais circulam há séculos entre povos vizinhos. Aliás, a própria cabaça é um objecto transversal a quase toda a Senegâmbia.

Vamos avançar então com uma outra hipótese etnográfica: em muitas sociedades da África Ocidental, incluindo os Bijagós, a fertilidade da mulher, a fecundidade da terra e a prosperidade da comunidade pertencem ao mesmo domínio simbólico.

Não seria surpreendente que uma parturiente fosse considerada uma imagem suficientemente poderosa para figurar na parede de uma baloba. Aliás, a posição das pernas abertas é um motivo conhecido em esculturas de maternidade africanas. Não é uma cena obstétrica realista; é antes um símbolo da capacidade de dar vida.

À cautela, poderíamos descrever a primeira figura nestes termos: figura antropomórfica de interpretação incerta, mas mais do que provavelmente feminina, podendo representar uma parturiente, uma antepassada ligada à fertilidade ou uma entidade protectora da maternidade.

A segunda figura, pelo contrário, é seguramente masculina. usa um chapéu com cocar, um adorno de penas (símbolo de elevado estatuto) (embora o cocar seja de origem indígena ameriucan). Parece segurarum grande animal sacrificado (ou uma pele) (e não um instrumento de música); ao lado vê-se um tridente ou lança ritual; transmite uma imagem de sacerdote, adivinho ou responsável pelos sacrifícios.

As duas pinturas podem representar momentos complementares do mesmo universo ritual: a mulher (ou antepassada) ligada ao nascimento, fertilidade e continuidade da linhagem; o homem, sacerdote ou guardião que assegura a comunicação, a ligação, com os espíritos.

(Pesquisa: LG + IA | Chat GPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
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Notas do editor LG

(*) Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós

(**) Vde. poste de 28 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7686: Notas fotocaligráficas de uma viagem de férias à Guiné-Bissau (João Graça, jovem médico e músico) (2): 6/12/2009, domingo, 1ª consulta, um baptizo muçulmano, um casório católico, uma visita a uma fábrica de caju... 7/12/2009, 2ª feira: 1º dia de consultas. 42 doentes à porta do C.S. Materno-Infantil de Iemberém