sábado, 15 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17585: Historiografia da presença portuguesa em África (80): Uma peça de ourivesaria a exaltar o paternalismo colonialista (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Julho de 2017:

Uma peça de ourivesaria a exaltar o paternalismo colonialista

Beja Santos

A remexer num caixote de velharias numa loja de antiguidades, livros de bibliófilos, de estampas e mesmo de objetos bizarros, encontrei um documento intitulado “Algumas peças executadas por Leitão & Irmão, Antigos Joalheiros da Coroa”, o proprietário deixou nome na primeira página: Conde de Castro e Solla, lá dentro de verificará que o conde acompanhou o General Sá Carneiro a Berlim para entregar uma espada de honra oferecida pelo rei D. Luís ao Imperador Guilherme, no seu nonagésimo aniversário. O catálogo tem as armas do conde e diz que o valor em 1935 do documento era de 50 escudos. O que aqui se encontra são magníficos trabalhos de ourivesaria, encomendas da Casa Real, sobretudo, mas também encomendas como aquela em que mais demoradamente me detenho: a placa de prata oferecida ao Príncipe D. Luís Filipe pela Companhia do Caminho-de-Ferro do Lobito. Vejamos a descrição:
“Esta placa é uma obra de arte, executada nas oficinas dos joalheiros da coroa. Mede 42x33 centímetros, sendo de forma elegante, e representando uma paisagem africana, nas margens do Catumbela, vendo-se ao fundo a ponte de D. Luís Filipe onde uma locomotiva vai prestes a passá-la. No primeiro plano um engenheiro, sentado numa pedra, desdobra sobre um joelho um mapa de África e nele indica o lugar onde passa a ponte, a um africano que está a seus pés. Decoração de palmeiras contornam os lados da placa e o escudo de armas reais, de ouro, remata a parte superior”.

A ponte foi inaugurada em 21 de Março de 1905, a lembrança foi oferecida ao Príncipe Real em Agosto de 1907. Quem executou o trabalho foi um artista de nomeada, João da Silva.

O que impressiona neste trabalho de ourivesaria é a patente ideologia do colonizador mostrar a civilização ao africano em estado selvagem, como se dissesse: vê o progresso que trouxemos a estas selvas, este caminho-de-ferro vai espalhar riquezas, criando outras. Olha bem o mapa e vê como se atravessa o rio sem precisão das canoas. Esta ideologia, vale a pena enfatizar, era extremamente comum no tempo, era uma das pedras angulares da chamada missão civilizadora, revelar os benefícios da ocupação do território retirando o africano à vida selvagem.

E medite-se no contraste entre esta peça de arte e as exposições coloniais em que se traziam, africanos mostrando-os tal qual eles viviam, será assim no Porto, em 1934, onde preponderam os guineenses, na Exposição do Parque Eduardo VII, em 1937, e na Exposição do Mundo Português, em 1940, aí o significado das exibições introduzia elementos novos: vê com os teus olhos, ó branco, o que há no fundo das Áfricas, ufana-te com os rincões do teu império, Portugal não é um país pequeno (Henrique Galvão o disse, em 1934), tornou-se mensagem chave quando a guerra de África ganhou dimensão irreversível, vê lá se tens orgulho em seres muito maior do que muitos pensam.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17468: Historiografia da presença portuguesa em África (79): Carta da Guiné com o itinerário da viagem do subsecretário de Estado das Colónias em fevereiro de 1947 e obras do V Centenário

Guiné 61/74 - P17584: (De) Caras (90): Carteiro aéreo... à força!... Um susto para o resto da vida, num DO 27 em Porto Gole (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav) e Chegar a Bissau e já ter correio (Albano Costa, ex-1.º Cabo Atirador Inf)

1. Mensagem de Ernestino Caniço [ex-alf mil cav , cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá, Mansoa e Bissau, 1970/71; hoje médico, vive em Abrantes], com data de 13 de Julho de 2017:

Assunto: Aerogramas

Caros amigos:
Votos de ótima saúde.

Sobre o tema aerograma, em inquérito on-line (*) ocorre-me contar um episódio no qual fui interveniente.

Como o Carlos se lembrará, (estivemos ambos em Mansabá), o meu pelotão Daimler estava dividido em dois aquartelamentos, Mansabá e Mansoa.

Após alguns meses (cerca cinco) em Mansabá, fui para Mansoa. Face ao perigo das emboscadas, sempre que possível o correio era transportado por via aérea. Quando estava em Mansoa fui várias vezes a Mansabá aquilatar as ocorrências do Pelotão.
Numa dessas deslocações aproveitei a "boleia" da avioneta DO [27]. Nessa viagem, além do piloto, ia o comandante do batalhão,  Tenente Coronel Chaves de Carvalho, à frente, e, nos bancos laterais ia eu próprio e o Padre Zé Neves (presentemente nas Missões da Consolata em Moçambique)

Passámos por Porto Gole, o DO aproximou-se da pista e eu larguei o saco do correio. Logo se elevou, voando em círculo alargado com o piloto puxando energicamente a alavanca situada ao centro.

Imaginem o pânico que eu senti durante meio (?) minuto em que o DO subia cada vez mais e o capim ficava cada vez mais longe. Lá vai o Caniço pró c…!,   foi o pensamento natural. De imediato pensei: Está aqui o Padre Zé, Deus vai-nos safar!
Mal concluía o pensamento e... logo a alavanca se desencravou!
A interpretação fica ao critério de cada um.

Mais tarde vim a saber pelo piloto, que a avioneta tinha uma tal "démarche" que permitia a sua aterragem sem perigo.
Mas o pânico ficou, e por muitos anos, sendo que alguns resquícios ainda permanecem.

Curioso, hoje tenho um filho que é piloto comandante da TAP.

Um abraço e a continuação de ótima saúde. (**)
Ernestino Caniço

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2. Mensagem do nosso camarada Albano Costa (ex-1.º Cabo da CCAÇ 4150, Bigene e Guidaje, 1973/74), com data de 13 de Julho de 2017:

Caros editores deste prestigiado meio virtual de comunicação entre ex-combatentes.

Eu escrevi sempre aerogramas, raramente escrevia cartas, mas também escrevi algumas, a minha namorada (hoje minha esposa), escrevia muitas vezes cartas talvez meio por meio.
Recebemos todas as cartas, nenhuma ficou nenhuma pelo caminho. Tínhamos combinado numerar as cartas e aerogramas sempre em numeração crescente algumas cartas, eram mais rápidas do que outras, mas com todos os atrasos lá foram chegando ao seu destino, tanto de cá para lá e vice-verso.

Eu tive conhecimento ainda na Amadora (RI 1), antes de embarcar no Niassa, do SPM da minha companhia e telefonei para a minha namorada a informar a minha direcção enquanto estivesse na Guiné, e para meu espanto quando chegamos a Bissau depois de uma semana de um cruzeiro pelo Atlântico, ainda antes de embarcar foi distribuído o correio ainda a bordo, e já lá tinha a minha primeira carta.

Nunca me apercebi de cartas ou aerogramas violados, para mim sempre chegaram em perfeitas condições, embora muitas vezes com atrasos bastante largos, mas julgo que seria por ter estado numa zona que demorava sempre bastante tempo a lá chegar. Chegávamos a estar sem receber correio entre 15 e 20 dias porque não tínhamos contactos físicos, só por telecomunicações, não era possível fazer colunas regulares e a aviação estava proibida de voar para Guidage.

Albano Costa
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 13 de julho de 2017 Guiné 61/74 - P17579: Inquérito 'on line' (124): num total de 64 respostas, metade (50%) considera que o aerograma (ou "aero") "em geral era seguro e rápido"... Imprescindível para o sucesso do SPM foi a colaboração da TAP e da FAP.

(**) Último poste da série > 14 de julho de 2017 Guiné 61/74 - P17583: (De) Caras (89): Gente boa, brava e chã da Tabanca dos Melros em dia de apresentação das "Memórias Boas da Minha Guerra", volume II, do José Ferreira: restaurante "Choupal dos Melros", Fânzeres, Gondomar, 8 de julho de 2017 - Parte I (Fotos e texto: Luís Graça)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17583: (De) Caras (89): Gente boa, brava e chã da Tabanca dos Melros em dia de apresentação das "Memórias Boas da Minha Guerra", volume II, do José Ferreira: restaurante "Choupal dos Melros", Fânzeres, Gondomar, 8 de julho de 2017 - Parte I (Fotos e texto: Luís Graça)


Foto nº 1 > Gondomar > Fânzeres > Quinta dos Choupos > Restaurante Choupal dos Melros > Tabanca dos Melros > A bandeira da Tabanca dos Melros e o seu régulo Carlos Silva. Esta tabanca alberga os ex-combatentes naturais do concelho de Gondomar, como é o caso do Carlos Silva, embora viva em Massamá, concelho de Sintra; acolhe naturalmente todos os demais combantentes da região, de todo Norte, e de todo o Portugal d'aquém e d'além mar; reune-se todos os segundos sábados de cada mês.


Foto nº 2 > A Tabanca dos Melros está sediada na Quinta dos Choupos, restaurante Choupal dos Melros.  É um belíssimo complexo, inserido numa quinta que há foi em tempos uma das maiores e melhores casas agrícolas da região. Por herança, está na posse do nosso grã-tabanqueiro Gil Moutinho, ex-fur nul piloto aviador  BA12, Bissalanca, 1972/73, anfitrião e outro dos  régulos da Tabanca dos Melros. O Gil mantém a parte agrícola e faz a gestão do restaurante, especializado em eventos (casamentos, batizados, festas...). Abre, ao público, aos domingos.



Foto nº 3 > Há já um pequeno nucleo museológico sobre a guerra colonial, constituído por objetos (fardas, guiões, crachás, bandeiras, mapas, medalhas, fotografias, e até armas) doados por antigos combatentes. Um dos mais entusiásticos e generosos doadores tem sido o Rui Vieira Coelho, ex-alf mil médico que esteve integrado nos BCAÇ 3872 e  BCAÇ 4518 (Galomaro, 1973/74).



Foto nº 4 > Mais uma peça de museu: o saco de viagem da TAP oferecido aos militares que vinham de licença de férias à metrópole. Oferta do Carlos Silva.


Foto nº 5 > Outra peça de museu, a farda (amarela) do nosso grã-tabanqueiro, Santos Oliveira



Foto nº 6 > A placa de homenagem do Jorge Teixeira (Portojo) (1948-2017), o "bandalho-mor" do Bando do Café Progresso, que prematura nos deixou. Era um dos mais entusiásticos frequentadores da Tabanca dos Melros, seu cofundador e editor do respetivo blogue, juntamente com o Carlos Silva e o Carlos Vinhal.


Foto nº 7 > Um dos muitos sítios aprazíveis da quinta: uma latada de "americano"...




Foto nº 8 > O antigo "quinteiro" da Quinta dos Choupos, onde estão alojados vários serviços de apoio ao restaurante Choupal dos Melros.


Foto nº 9 > A moderna cozinha do restaurante, com fogão... a lenha!... Tudo o que saí daqui é tem o sabor tradicional da nossa melhor cozinha regional portuguesa....



Foto nº 10 >  Gondomar > Fânzeres >Tabanca dos Melros > 8 de julho de 2017 > Sessão de apresentação do II Volume do livro "Memórias Boas da Minha Guerra", de José Ferreira (Lisboa, Chiado Editora, 2017) > Aspeto da decoração da sala (um telheiro) onde foi apresentado o livro: um manequim, com a farda nº 2, e as divisas de furriel, e uma pistola metralhadora Uzi (réplica)... A decoração esteve a cargo do nosso grã-tabanqueiro Ricardo Figueiredo, que tem um sonho: construir uma réplica de um aquartelamento de uma subunidade de quadrícula (companhia), típico do TO da Guiné, no âmbito do seu ambicioso projeto Museu Vivo da Guerra Colonial.



Foto nº 11>  Gondomar > Fânzeres >Tabanca dos Melros > 8 de julho de 2017 > Sessão de apresentação do II Volume do livro "Memórias Boas da Minha Guerra", de José Ferreira (Lisboa, Chiado Editora, 2017) > Aspeto geral da assistência



Foto nº 12 >  Gondomar > Fânzeres >Tabanca dos Melros > 8 de julho de 2017 > Sessão de apresentação do II Volume do livro "Memórias Boas da Minha Guerra", de José Ferreira (Lisboa, Chiado Editora, 2017) > O anfitrião, Gil Mourinho, tendo ao lado as esposas dos nossos camaradas Carlos Vinhal e Carlos Silva.


Foto nº 13>  Gondomar > Fânzeres >Tabanca dos Melros > 8 de julho de 2017 > Sessão de apresentação do II Volume do livro "Memórias Boas da Minha Guerra", de José Ferreira (Lisboa, Chiado Editora, 2017) > Um dos oradores, o Jorge Teixeira, chefe do Bando do Café Progresso, fazendo o elogio do autor (o Zé Ferreira, em segundo plano) e da obra. É um camarada de fino trato e humor à moda do Porto. tal como de resto o outro Jorge Teixeira, de alcunha, Portojo (1948-2017).

(Continua)

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor:

Último poste da série > 29 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17522: (De) Caras (88): O fur mil inf Hércules Arcádio de Sousa Lobo, natural da ilha do Sal, Cabo Verde, foi gravemente ferido pelo primeiro fornilho acionado no CTIG, às 9h00 do dia 3 de julho de 1963, na estrada São João-Fulacunda, vindo a morrer no HMP, em Lisboa, no dia 16, devido às graves queimaduras. Eu era o comandante da coluna (António Manuel de Nazareth Rodrigues Abrantes, ex-alf mi inf, CCAÇ 423, São João e Tite, 1963/65)

Guiné 61/74 - P17582: Notas de leitura (977): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (5) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Julho de 2017:

Queridos amigos,
No seu impressionante levantamento documental, o autor permite-nos o acesso a relatórios enviados aos respetivos ministros pelos governadores: diz-se a verdade para pedir mais efetivos, mais armamentos, mais dinheiro e até mais atenção às permanentes dificuldades em que vive a província.
O período em análise, 1903-1910, dá conta de insubmissões, operações bem e mal sucedidas, aqui e acolá cria-se um posto militar, mas não se ilude o que se passa um pouco por toda a parte, a operação no Cuor era vital para manter a navegação e comércio do Geba, não é possível ter bom comércio com tantos ataques a barcos, territórios fechados aos brancos, guerras étnicas dissuasoras da livre circulação. É um problema constante, um nó górdio que só será cortado com as campanhas do capitão João Teixeira Pinto.

Um abraço do
Mário


A presença portuguesa na Guiné: história política e militar 1878-1926, 
Por Armando Tavares da Silva (5)

Beja Santos

O impressionante levantamento documental plasmado na obra “a Presença Portuguesa na Guiné, Histórica Política e Militar, 1878-1926”, por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos, 2016, não pode deixar indiferente quem quer que seja que se dedique ou pretenda saber mais sobre a história da Guiné Portuguesa, uma colónia que teve uma génese nebulosa em meados do século XV, numa região também de caráter híbrido, a Grande Senegâmbia, que viveu séculos como entreposto de escravos, um lugar de praças e presídios. A Conferência de Berlim, a Convenção Luso-Francesa de 1886, e previamente a desafetação da Guiné de Cabo Verde, obrigaram o governo de Lisboa a tomar medidas relacionadas com uma gradual ocupação efetiva, a submissão dos diferentes régulos à soberania portuguesa, à organização da administração, a planos de desenvolvimento.

De tudo o que o autor nos refere deste impressionante levantamento entre 1878 e até ao princípio do século é de que a presença portuguesa procura afirmar-se, mas sempre precariamente, os efetivos são mínimos, os tratados de paz rasgados a qualquer momento por quem os assina, à volta de Bissau, no Sul, no Forreá, em Farim. Há salteadores ou homens de guerra que vêm do que é hoje o Senegal ou a Guiné Conacri, geram tumultos, sequestram, incendeiam povoações, roubam. Nem sempre a administração tem possibilidades de dar luta, muito menos de pôr cobro. Surgem figuras no governo com têmpera, caso de Pedro Ignacio de Gouveia, há militares valorosos que depois darão um piparote nos atos de bravura cometidos. Enfim, uma história permanentemente acidentada.

Estamos em 1903, o Governador Soveral Martins sucedeu a Júdice Biker. Parece polarizado pela chamada questão indígena: o Oio parece um verdadeiro estado livre, por ali não pode passar um comerciante europeu, considera que a ocupação do Oio é o maior passo para o domínio efetivo da província; informa o ministro de que a situação é verdadeiramente precária: os vários reinos de Bissau não pagam imposto e é vulgar haver assaltos a embarcações; não se pode sair da apertada cintura de muralhas da praça de Bissau; os Balantas viviam em perfeito estado selvagem, enumera outros povos como os Beafadas, os Fulas e os Grumetes, e adianta o seguinte juízo:  
“Sei muitíssimo bem que o país reage contra o estado de guerra quase permanente que tem há anos mantido nas colónias; sei que os recursos não abundam e que é um patriótico dever evitar tudo quanto possa perturbar a difícil marcha dos nossos negócios; também sei que a fadiga produzida pelas guerras africanas faz sempre, embora injustamente, prever pruridos de glória adquirida em façanhas que, quando não fundamentadas, são uma mentira ao país e portanto uma torpeza”.
É um impressionante documento como registo daquela Guiné do princípio do século. O governador faz propostas, o ministro não responde. Teremos uma nova operação contra o gentio do Churo, descrita minuciosamente. Soveral Martins será exonerado em Outubro de 1904, altura em que retomam os trabalhos de delimitação da fronteira Norte pela missão conjunta Luso-Francesa. Oliveira Muzanty estará presente.

No final do ano é nomeado novo governador, o capitão Carlos d’Almeida Pessanha. Tem logo que se pronunciar sobre o regime de concessões de terrenos no Ultramar, um pedido fora apresentado pela Companhia Francesa da África Ocidental. O imposto de palhota torna-se uma prática corrente, parece que se restabeleceu o comércio no Oio, há desacatos na Costa de Baixo, região Manjaca. Pela primeira vez, no trabalho de Armando Tavares da Silva, vem referência a Abdul Indjai, que se fizera notório pelos seus excessos na região do Oio, nas suas operações roubava e matava os indígenas, é deportado para S. Tomé. Quando o Príncipe Real D. Luiz Filipe visitar S. Tomé, Abdul Indjai regressará à Guiné em finais de 1907, será auxiliar de Oliveira Muzanty nas campanhas de Badora e Cuor, será régulo do Cuor onde se notabilizará por extorsões e crimes de vária ordem. O 1.º Tenente da Armada Oliveira Muzanty sucederá Almeida Pessanha, em 1906. Vem preocupado com a reorganização militar e administrativa. Continuam os incidentes com Graça Falcão, acabará por ser expulso. Devido a um incidente praticado por Infali Soncó, régulo do Cuor, e as ameaças que pendem sobre a navegação do Geba, prepara-se na resposta. Envia um relatório ao ministro onde lhe dá conta de que é necessário fazer para uma soberania efetiva, pede centenas de praças europeias, meios navais, mostra-se profundamente crítico das práticas dos comerciantes, di-lo sem tibiezas: “Convém a todos […] o manterem as suas relações com os indígenas e conservá-los o mais possível afastados das autoridades para os explorarem à vontade"; e o seu relatório adianta as operações militares que pretende fazer. É um período em que o governador pede com firmeza a Lisboa que deixem de enviar mais vadios, era situação insustentável. Ocorre uma revolta em Badora, o régulo Boncó aliara-se ao régulo do Cuor para invadir o Xime, invasão que não será bem-sucedida. O dado militar mais saliente da governação Muzanty serão as operações em Geba, nunca se vira tanto branco, nunca se investira tanto para bater Infali Soncó, a operação está altamente documentada e até se possui um álbum fotográfico com muitíssimo interesse, para marcar efetiva presença decide-se criar no Cuor o posto de Caranquecunda, ficam ali inicialmente os macuas de Moçambique. Mas há novas operações em Varela, em Quínara, em Bissau. O caso Graça Falcão continua a dar que falar.

Oliveira Muzanty segue para Lisboa, fica encarregado do governo o Secretário-Geral Duarte Guimarães. Dá conta ao ministro da situação: Quínara ocupada por Beafadas, estava insubmissa; considera Abdul Indjai um mau elemento, comandante de bandidos; no Xime estava o famigerado Abdulai; o Oio não pagava imposto; a região dos Balantas também não pagava imposto, na circunscrição de Cacheu a insubmissão era quase completa. Prosseguem operações em terras dos Balantas, na região de Porto Gole. Os comerciantes estrangeiros não andam nada felizes com os assaltos, as operações, as retaliações, pedem indemnizações. No final de 1908 Muzanty regressa à Guiné, é presença de pouca dura. Começa a vincar-se na administração a fórmula colonial de dividir para reinar, ganham clareza as alianças com etnias islamizadas que estão prontas a enfrentar os animistas. Abdul Indjai não esconde a sua arrogância, mas contam com ele para garantir a presença no posto militar de Porto Gole. O autor descreve as causas da revolta na região Balanta do rio Geba.

Em meados de 1909 temos novo governador, Francelino Pimentel. Recebe uma missão do Oio, vinham pedir a paz, reaparece Infali Soncó, também quer perdão. Houve incidente fronteiriço na circunscrição de Cacine, cria-se um posto militar em Bissorã. Começa o recrutamento de indígenas. Cai a monarquia e a 6 de Outubro de 1910 Francelino Pimentel pede a sua exoneração não se esquecendo de dizer que “como português desejo o bem da minha pátria que sempre hei de servir”.

Chega o primeiro governador republicano, Carlos Pereira. Ficará conhecido por ter mandado derrubar as muralhas que cercavam Bissau, dava-se assim sinal que acabara o medo de ataques das etnias circundantes.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17563: Notas de leitura (976): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17581: "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", brochura de 2002, da autoria do nosso camarada Gabriel Moura do Pel Mort 19 (5): Págs. 33 a 40

Capa da brochura "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra"

Gabriel Moura


1. Continuação da publicação do trabalho em PDF do nosso camarada Gabriel Moura, "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", enviado ao Blogue por Francisco Gamelas (ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 3089, Teixeira Pinto, 1971/73).



(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior da série de 11 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17566: "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", brochura de 2002, da autoria do nosso camarada Gabriel Moura do Pel Mort 19 (4): Págs. 25 a 32

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17580: Agenda cultural (573): O II volume de "Memórias Boas da Minha Guerra", da autoria de José Ferreira, foi apresentado no passado dia 8 de Julho de 2017, na Quinta dos Choupos, em Fânzeres, Gondomar


No passado sábado, dia 8 de Julho, foi apresentado o II Volume de "Memórias Boas da Minha Guerra", da autoria de José Ferreira, ex-Fur Mil Art da CART 1689 (Guiné, 1967/69).

Cartaz anunciando o acontecimento. © Luís Bateira

A sessão decorreu na Quinta dos Choupos (propriedade do nosso camarada Gil Moutinho, ex-Fur Mil PilAv, Guiné, 1972/73), sede logística da Tabanca dos Melros, onde nos segundos sábados de cada mês se reúnem em almoço de confraternização os combatentes da Guiné do Concelho de Gondomar.

No acto solene estiveram presentes: familiares, camaradas e amigos do Zé da CART, que assim se quiseram associar nesta hora de alegria.

A Mesa era coordenada por Alberto Moura, amigo do autor, e também nosso camarada de armas, que tinha à sua direita: Luís Graça, fundador e editor do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné; Ricardo Figueiredo, que tem em andamento um projecto para a criação de um Museu da Guerra do Ultramar; Jorge Teixeira, Presidente do "Bando do Café Progresso, das Caldas à Guiné"; e José Ferreira, autor do livro "Memórias Boas da Minha Guerra, II Volume", que ia ser apresentado. À esquerda do coordenador sentavam-se: a representante da Chiado Editora, D. Teresa Mesquita; Carlos Silva em representação da anfitriã "Tabanca dos Melros"; e Carlos Vinhal, co-editor do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

Alberto Moura, abrindo a sessão. © Dina Vinhal

Momento em que a representante da Chiado Editora, D. Teresa Mesquita, em breves palavras, se congratulava pela oportunidade da Editora publicar o segundo volume desta obra. © Carlos Silva

A apresentação do II Volume de "Memórias Boas da Minha Guerra" esteve a cargo de Luís Graça, que também prefaciou a obra, fundador e editor do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Doutorado em Sociologia, não teve dificuldade em prender a assistência, dissertando sobre a facilidade com que o autor analisa pessoas e acontecimentos, encontrando em cada indivíduo ou na sociedade em que está integrado, matéria para passar a escrito, donde saem, conforme a apreciação do leitor, verdades ficcionadas ou ficção pura. 
As estórias de guerra, humoradas ou sérias, esplanadas na sua obra, são um modo diferente de contar o quotidiano de homens vivendo em ambiente de alta tensão e perigo constante. As do pós-guerra caracterizam pessoas, suas condições sociais e épocas. Nestes quase 50 anos após o seu regresso da Guiné, muito mudou na sociedade portuguesa, e isso reflecte-se também na sua escrita.  A linguagem utilizada, o vernáculo e o calão, mais não é que uma escrita honesta, sem disfarces para púdico ler, primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Luís Graça sugeriu ao José Ferreira, a quem qualificou como homem muito vivido e experiente, que pense numa autobiografia, obra que reputa já de grande interesse e de êxito garantido.

Luís Graça durante a sua intervenção. © Dina Vinhal

Seguiu-se a intervenção do nosso camarada Ricardo Figueiredo, que na linha do orador anterior, salientou a qualidade da escrita do José Ferreira. Que o autor, a par de outros combatentes, deixa um legado, em dois livros, para que os vindouros saibam como foi o nosso tempo e a nossa experiência de guerra.

Ricardo Figueiredo no uso da palavra. © Dina Vinhal

Seguiu-se o momento mais humorado da sessão com a intervenção do "Bandalho" Jorge Teixeira, que falou dos livros do José Ferreira mais no sentido estético do que propriamente do conteúdo. Sabemos que esta intervenção só podia ter sido assim, vindo de alguém muito amigo.

Jorge Teixeira, Presidente dos "Bandalhos", tecendo as suas opiniões estéticas sobre o livro do José Ferreira. Não se esqueceu de elogiar as qualidades pessoais do autor, também ele um dos "Bandalhos". © Carlos Silva

Seguiu-se a intervenção do "Presidente" da Tabanca dos Melros, também ele elogiando as qualidades pessoais do autor e caracterizando a sua maneira muito própria de escrever. Em tom mais ligeiro, frisou que tendo já lido centenas de livros sobre a Guiné, ultimamente é a sua mulher quem os lê e lhe conta depois as partes mais importantes. Só nos faltava ouvir esta, nem todos temos uma leitora/narradora.

 Carlos Silva, na sua intervenção. © Dina Vinhal

O último orador convidado foi o co-editor do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, Carlos Vinhal, que falando por último, ficou sem assunto. Toda a gente já tinha dito bem do Zé Ferreira, tinham feito já a devida crítica literária à obra... mais isto e mais aquilo. Qual a saída? Entalar o Zé, e ler uma das suas estórias publicadas neste segundo volume. Escolheu e leu, contendo a muito custo o riso, "Morteiradas em Canquelifá". Foi outro momento divertido.

O ar divertido na Mesa não se deve aos dotes do orador mas do autor José Ferreira. © Dina Vinhal

...E por último falou o "bombo da festa", perdão, o autor José Ferreira. Visivelmente atrapalhado por estar a ser alvo de tantos elogios por parte dos seus amigos e pela presença dos seus familiares, onde pontuavam as 5 netas e o neto, uns maiores que outros, assim, uns mais atentos que outros, que não quiseram deixar de estar junto do avô, uma pessoa muito importante como estava ali patente.
Na sua genuína humildade, o Zé Ferreira agradeceu aos presentes e ao ausente Alberto Branquinho a quem deve o empurrão definitivo que o levou a este desafio de escrever estas suas Memórias. Agradeceu especialmente ao Luís Graça, fundador do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné que o deu a conhecer ao mundo como o primeiro repositório das suas Memórias, agora transportas em dois livros. Agradeceu-lhe também a disponibilidade para se  deslocar expressamente de Lisboa para estar ali, e pelo prefácio neste segundo volume.

O autor José Ferreira durante a sua alocução. © Dina Vinhal

A sala estava repleta. No exterior havia algumas pessoas a assistir de pé. © Luís Bateira

Segue-se uma sequência de fotos da sessão de autógrafos

Na fila. © Carlos Silva

Silvério Lobo, só podia. © Luís Bateira

 Uma leitora muito especial. © Luís Bateira

José Barreto Pires. © Carlos Silva

Ricardo Figueiredo. © António Tavares

Seguir-se-á o almoço/convívio

Texto, selecção e edição das fotos: Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17571: Agenda cultural (572): Exposição "Manuel Ferreira, capitão de longo curso", Museu Malhoa, Caldas da Rainha. Convite para a inauguração, no próximo dia 22 de julho, sábado, às 15h00 (João B. Serra, comissário)

Guiné 61/74 - P17579: Inquérito 'on line' (124): num total de 64 respostas, metade (50%) considera que o aerograma (ou "aero") "em geral era seguro e rápido"... Imprescindível para o sucesso do SPM foi a colaboração da TAP e da FAP.


Um original aerograma, escrito em linhas concêntricas, reproduzido no livro do nosso camarada António Graça de Abreu, Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa, Lisboa: Guerra e Paz, Editores. 2007), pag. 185.. O nosso camarada numerava, cronologicamente, os aerogramas que escrevia e punha no correio, endereçados à sua esposa, este era o nº 301, com data de 17/1/1974, a escassos meses do regresso a casa (que ocorreria já nas vésperas do 25 de abril de 1974).

Cufar, 17 de Janeiro de 1974

Logo escrevo carta. Agora vais rodar o aerograma.
Tivemos ontem ministerial visita, Baltazar Rebelo de Sousa, do Ultramar. Impressionantes medidas de segurança que o Sr. Ministro não lobrigou. Tropa emboscada em Catió, pára-quedistas que vieram de propósito de Bissau emboscados em Caboxanque, Fiats lá por cima a grande altitude, prontos a actuar, os helicanhões protegendo os itinerários de passagem. Resumindo, lindo de ver! E o ministro, quando chegar a Lisboa é capaz de botar discurso e afirmar que se deslocou livremente por toda a Guiné, foi onde quis, contactou com as populações, etc., etc.


Foto: © António Graça de Abreu (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I. INQUÉRITO DE OPINIÃO: 

"EM GERAL, O AEROGRAMA ERA SEGURO E RÁPIDO"

Resultado final (=64)



1. Era seguro e rápido  > 32 (50,0%)



2. Era seguro mas não rápido  > 4 (6,2%)

3. Era rápido mas não seguro  > 14 (21,9%)

4. Não era nem seguro nem rápido  > 5 (7,8%)

5. Não sei / já não me lembro  > 9 (14,1 %)

Total > 64 (100,0%)

Inquérito 'on line' fechado,  quinta feira, dia 13, às 16h59

II. Comentários (na página do Facebook da Tabanca Grande)


(i) António Vidigal 

O correio nas províncias ultramarinas era um bálsamo para os nossos combatentes : eu que o diga porque por muitos motivos estive à frente na distribuição do correio da minha companhia, a CART 6254,  no Olossato... Como era gratificante ver no rosto dos meus amigos quando eu lhes chamava pelos nomes ! 

Um abraço do tamanho do mundo para os meus colegas de companhia em especial e para todos os outros em particular.

11/7/2017


(ii) Fernando Oliveira


Nós, os do Pelotão de Morteiros 2138 (Buba, 1969/1971), fomos prestigiados, semanalmente, por uma avioneta civil, que além de nos trazer o tão esperado correio, ainda nos brindava com um verdadeiro show aéreo. Fazia umas piruetas antes de aterrar (Ganda Maluco, aquele +iloto, certamente estava apanhado pelo clima) para a felicidade da ,alta, que ansiava por notícias da Metrópole. Gostaria muito de beber uma cervejola com esse piloto que nunca conheci pessoalmente, Estávamos sempre em alerta máximo para proteção ao nosso piloto greferido. Bem haja! (**)

11/7/2017
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(**) Vd. também outros postes (uma pequena seleção de muitos textos publicados no nosso blogue sobre o aerograma e o SPM):

27 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17518: Antologia (76): "O Correio durante a guerra colonial", por José Aparício (cor inf ref, ex-cmdt da CART 1790, Madina do Boé, 1967/69)... Homenagem ao SPM - Serviço Postal Militar, criado em 1961 e extinto em 1981.

15 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14882: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (4): Os amigos e amigas que nos ligaram ao nosso mundo (José Teixeira)

13 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P12974: Memórias dos últimos soldados do império (1): “Bate estradas” histórico, escrito à minha filha em 1973, e uma redacção da minha neta, vinte anos depois (Albano Mendes de Matos)

21 de setembro de  2009 > Guiné 63/74 - P4989: FAP (33): Correio ao Domicílio (Miguel Pessoa)

(...) Uma vez, um aviador de Fiat G-91, depois de executar uma missão no sul do território onde largou o ferro que levava, quando regressava a Bissalanca detectou uma anomalia suficientemente grave para o fazer dirigir-se de imediato para o sítio mais próximo que fosse apropriado para pôr o estojo no chão. Lá fez uma aproximação cuidadosa à pista, conseguindo parar o avião dentro do espaço disponível, sem mais problemas para além do susto inicial.

Ainda a recuperar do stress, enquanto saía do avião, vê que a capacidade de apoio do aquartelamento era superior à que esperaria, pois de imediato se aproximam rapidamente do local vários militares. Só então se apercebe das suas intenções quando um deles lhe dispara a pergunta sacramental:
- Traz correio?! (...)


10 de fevereiro de 2008 >  Guiné 63/74 - P2519: As Nossas Madrinhas de Guerra (1): Os aerogramas ou bate-estradas do nosso contentamento (Carlos Vinhal / Luís Graça)

Guiné 61/74 - P17578: Convívios (817): Almoço dos ex-militares da CART 564, dia 15 de Julho de 2017 em Oliveira do Hospital (Júlio Santos, ex-1.º Cabo Escriturário)

1. A pedido do nosso camarada Júlio Santos, ex-1.º Cabo Escriturário da CART 564, estamos a divulgar o próximo Encontro do Pessoal da sua Unidade, a levar a efeito no próximo dia 15 de Julho de 2016, em Oliveira do Hospital.




Almoço convívio dos ex-militares da CART 564

15 de Julho de 2017

Oliveira do Hospital

O almoço decorrerá no Santuário Nossa Senhora das Preces - Vale de Maceira - Aldeia das Dez - Oliveira do Hospital.

Contacto:
Abel Gouveia: 918 832 241 / 238 676 358. 
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17545: Convívios (816): encontro da Tabanca de Porto Dinheiro... em Porto das Barcas, com o nosso tabanqueiro nº 1, o João Crisóstomo (, sempre a correr: Timor, Nova Iorque, Portugal, Eslovénia...) e sem o nosso régulo, o Eduardo Jorge Ferreira... Foi no passado sábado, dia 1, com o mar do Serro em frente... e Timor no coração!

Guiné 61/74 - P17577: Em busca de... (276): Fotografia da entrega de uma arma "turra", em Bissum, em finais de 1967 ou princípios de 1968, ao tempo da CCAV 1747...Eu era criança (8/10 anos)... O meu pai, que era civil, pagou com a vida, mais tarde, pela entrega dessa arma à tropa... Preciso de encontrar essa foto (Martinho Arroz, Sesimbra, Cotovia)


Guiné > Bissum Naga > CCAÇ 1497 > Março/abril de 1967 > Início da construção do aquartelamento... Como se pode ver, estas construções davam-nos cá uma qualidade de vida... Foto do álbum de Carlos Gomes Ricardo, cor inf DFA (ex-alferes da CCAÇ 1496 / BCAÇ 1876, Bula e Bissum Naga, 1967/68; ex-capitão, CCS/QG/Bissau e cmdt  da CCAÇ 3, Guidaje, 1970/72) (*)

Foto e legenda: © Carlos Ricardo (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Do nosso leitor, de origem guineense, Martinho Arroz:

De: Mart Arroz <m2arroz@yahoo.com>

Data: 10 de julho de 2017 às 00:25

Assunto: Procuro foto

Antecipadamente endereço os meus agradecimentos. Sou de Bissum-Naga, era eu criança, mais ou menos tinha aproximadamente 8-10 anos de idade, quando foi instalado o  aquartelamento de Bissum (Naga).

Eu era uma das tantas crianças que trabalhava no quartel. Eu concretamente estava no posto de rádio. Lá estava o cabo Pinheiro, era delgadinho e estava um gordo cujo nome não me lembro. O Pinheiro deu-me nome de Fula-Fula e Martinho.

O caso é seguinte: Meu pai entregou arma de IN (turras). A partir dessa entrega, eles,  turras, começaram à procura do meu pai para o matar. Foi assim que ele foi morto pelo IN (turras). Meu pai não era milícia, era civil.

Tenho certeza que, quando ele fez a entrega da arma, foi fotografado. Penso que o acto da entrega da arma foi nos anos...  fins de 1967 ou princípios de 1968.

Nesse quadro peço o favor de ajudarem-me a encontrar essa fotografia,  ficaria  muito grato pela vossa ajuda. (*)

Vivo em Portugal,  concretamente em Sesimbra, Cotovia.


2. Comentário do nosso editor Carlos Vinhal, ao encaminhar o assunto para mim e para o nosso colaborador permanente  José Martins:

Caros amigos:

Esta é que é mesmo difícil. Que fazemos?

Ab, Carlos


3. Resposta do "consultório militar" do Zé  Martins:

Bom dia,  Carlos

Há situações que mais vale serem mortas à nascença, do que alimentar esperanças.

O blogue não é uma "agência estatal" e, portanto, não se move nos meios militares à vontade.

A foto, a existir, não está "ali a olhar para nós". Estará dentro de um dossiê ou até digitalizada, se é que chegou às mãos do arquivo, e não se sabe qual.

Se o blogue quiser ser "politicamente correcto", em minha opinião, poderá facultar a informação de que o Arquivo Histórico Militar está localizado nas instalações do Museu Militar, Largo Caminhos de Ferro 2, 1100-105 LISBOA, telefone 800 205 938.

Há ainda o Arquivo Histórico Ultramarino, Calçada da Boa-Hora, nº 30, 1300-095 LISBOA, Tel 210 30 91 00, E-mail Geral:ahu@ahu.dglab.gov.pt

Com toda a estima e consideração, vai um quebra-ossos.

Zé Martins


4. Comentário de LG:

Sobre Bissum Naga temos cerca de 4 dezenas de referências no nosso blogue. Sabemos que foi a CCAÇ 1497 quem, entre 17 de março de 1967 e 14 de setembro de 1967,  construiu (ou iniciou a construção de) o aquartelamento e assumiu a responsabilidade do subsetor então criado.  O nosso camarada Carlos [Gomes] Ricardo foi alf inf [QP] desta companhia (**),  e pode por certa ajudar-nos a responder ao pedido do Martinho Arroz.

No fim desse período,em 14 de setembro de 1967, a CCAÇ 1497 foi rendida pela CCAV 1747 (Bissum, 1967/69).

Os factos referidos pelo Martinho, a terem  ocorrido em finais de 1967, princípios de 1968, seriem então do tempo da CCAV 1747 (1967/69).

Sobre a CCAÇ 1497 /BCAÇ 1876 (Fajonquito, Binar, Bissum e Bissau, 20/1/1966 - 4/11/1967), há três referências no blogue. Teve 2 comandantes: cap inf Carlos Alberto Coelho de Sousa, e cap mil art Carlos Manuel Morais Sarmento Ferreira.

Quanto à CCAV 1747 (Farim e Bissum, 20/7/1967.- 7/6/1969) teve como comandante o cap mil inf Manuel Carlos Dias. Desse tempo e lugar  temos no nosso blogue pelo menos dois testemunhos: o do José Saúde, contando as desventuras do seu amigo Toy Sardinha, ferido em combate na véspera do natal de 1967 (***) e do João Martins. alf mil do pelotão de artilharia, que chegou a Bissum a 21/12/1967, ali teve o seu batismo de fogo. e ali permanceu até junho de 1968 (****).

A CCAV 1747  deve ter sido substituída pela CCAÇ 2465 (Có e Bissum, 1969/70), comandada pelo nosso grã.-tabanqueiro António Melo de Carvalho, ex-cap inf, hoje cor ifn ref..

Em resumo, quem pode ter uma cópia da fotografia pedido pelo Martinho é a rapaziada da CCAV 1747 [, guião, à direita, gentileza do Carlos Coutinho]. Vamos contactar o José Saúde e o João Martins, já que não temos ninguém, registado na Tabanca Grande, pertencente a essa subunidade  que esteve em Bissum, quase toda a comissão, desde setembro de 1967 a junho de 1969. Os coronéis Carlos Gomes Ricardo e António Melo de Carvalho também nos podem dar alguma pista,

Bem hajam a todos!
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Notas de leitura:

(*) Último poste da série > 25 de abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17282: Em busca de... (275): duas crianças do Oio, levadas durante a guerra, uma para Mansabá, Saliu Seidi, e outra para o Olossato, Malam Cissé, e depois para Portugal... Parece que os dois rapazes se encontraram uma vez com [o sueco] Lars Rudebeck em Portugal... Pede-se encarecidamente notícias do seu paradeiro (Manuel Bivar / Sadjo Turé, INEP, Bissau)

(**) Vde. poste 13 de fevereiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12712: Tabanca Grande (426): Carlos Gomes Ricardo Cor Inf DFA (ex-Alferes da CCAÇ 1496/BCAÇ 1876, Bula e Bissum Naga, 1967/68; ex-Capitão, CCS/QG/Bissau e CMDT da CCAÇ 3, Guidaje, 1970/72)

(***) Vd. poste de 7 de outubro de  2013 > Guiné 63/74 – P12125: Estórias avulsas (70): Balas de raiva: o meu amigo Toy Sardinha, da CCAV 1747 (Bissum, 1967/69), gravemente ferido em 24/12/1967, é evacuado para o HMP... Os médicos não lhe encontram a bala... que virá a sair, anos mais tarde, da perna... contrária! (José Saúde)


(...) Bissum-Naga

Chegámos a Bissum a 21 de Dezembro [de 1967], portanto, na semana que precede o Natal, pelo que, como de costume, e talvez para esquecer as saudades das famílias que nessa quadra ainda são mais intensas, iniciámos a operação “Bolo Rei”, a que se seguiu a operação “Cavalo Orgulhoso”.

Tive uma adaptação particularmente difícil, porquanto logo nos meus primeiros dias tivemos feridos e mortos, e, na véspera de Natal, de forma imprópria de gente civilizada, houve um elemento considerado afecto ao inimigo que foi muito, mas muito maltratado, pelo que fiquei a saber da selvajaria de que também éramos capazes. Foi um dos piores locais da Guiné por onde passei.

Terra de balantas, etnia altiva e independente, nunca me senti muito bem visitando as palhotas e interagindo com a população, dir-se-ia que, ao longo de cerca de 500 anos de convivência os nossos povos tiveram muito poucos contactos.

A tabanca localizava-se entre o aquartelamento e o rio Cacheu, ao longo da estrada, de modo que eramos atacados apenas dos quadrantes Sul e Este. Nós e a população éramos frequentemente sujeitos a flagelações por parte do IN que nos atacava tanto de dia como de noite, pelo que, durante os meses que estive lá, dormi sempre sem saber o que eram uns lençóis e um pijama. (...)