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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)


Foto nº 1


Foto nº 1A


Foto nº 1B


Foto nº 1C


Foto nº 1D




Foto nº 1E


Foto nº 2


Foto nº  2A


Foto nº 2B


Foto nº 2C

Lisboa > 9 de maio de 1967 > "Saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio,  transportando o BCaç 1857, acabado de chegar da Guiné, a caminho de Abrantes. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “
' cabeça de giz' ”.

Fotos (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem do Manuel Joaquim, que ontem celebrou o seu 85º aniversário,  e que nos chegou com atraso de... quatro anos (!). 

Foi o último mail que recebemos dele, mas não já não escrito por ele, por razões de saúde (que ele nos explicou, em texto anexo, a publicar em próximo poste), mas por um dos netos. A segunda parte será publicada em próximo poste: aí ele faz o ponto da situação do seu estado de saúde. Sendo um mail muito pessoal, não o publicámos na altura.  

Mas junto vinham estas duas fotos, de grande interesse documental, e até agora inéditas. São uma verdadeira viagem no tempo! Uma autêntica "cápsula do tempo" de Lisboa e das nossas vidas de antigos combatentes da Guiné. Têm já 6 décadas!

Merecem ser publicadas na série "O Cruzeiro das Nossas Vidas". Todos temos imagens imperecíveis da nossa partida para a Guiné (incluindo a viagem em..."comboio-fantasma", de noite, como eu, que vim justamente de Abrantes para o cais da Rocha Conde de Óbidos), mas poucos já têm, na memória, os detalhes da chegada, de barco,  muito menos da última viagem de comboio até à unidade mobilizadora (no meu caso, também o RI 2, Abrantes).

A partir daquele dia, com o regresso à "peluda", todos queríamos esquecer os 3 anos de vida que  a Pátria nos roubou...

O Manuel Joaquim foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67). Tem 114 referências no blogue. É membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009. É autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra". E padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também veio no mesmo T/T Uíge, e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim).

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim

Olá, Luís, boa tarde.

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa.

 Aqui trata-se da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio transportando o BCaç. 1857 a caminho de Abrantes, no dia 9 de Maio de 1967. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “cabeça de giz”.

Um grande e afetuoso abraço do Manuel Joaquim
Viva, meu caro Luís!

2. Comentário do editor LG:
Com a ajuda da IA (Gemini / Google) e pesquisas adicionais (no nosso blogue e na Net), bem como do conhecimento pessoal do local,  melhorámos a legendagem destas duas fotografias históricas, perdidas na nossa caixa de correio. Mas esperamos o concurso dos nossos leitores (e em especial dos lisboetas) para corrirgir ou complementar as legendas.

Lisboa, Alcântara, Cais da Rocha Conde d'Obidos, 9 de maio de 1967.

 Estas imagens (fotos nºs 1 e 2)  captam o momento histórico da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio militar. A bordo segue o pessoal do Batalhão de Caçadores 1857 (BCaç 1857). 

Estas imagens imortalizam o momento da partida  do comboio a caminho de Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do BCAÇ 1857). Também mostram a envolvente de Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Alcântara, Lisboa.

O BCAÇ 1857 acabava de desembarcar do T/T Uíge, da Companhia Colonial de Navegação (CCN) , no Cais da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.  Era nesta gare marítima  que atracavam habitualmente os grandes paquetes e navios de transporte de carga e passageiros do Ultramar. Era o "cais colonial".
O comboio, repleto de soldados nas janelas, seguia rumo a Abrantes. Na foto nº 1A, em primeiro plano (na  foto nº 2A, já de costas), é possível ver o trânsito a ser dirigido por um polícia sinaleiro, figura icónica da época popularmente conhecida como “cabeça de giz” devido ao seu capacete branco. É uma popular figura do passado. Foi a primeira grande vítima da automatização, neste caso com a introdução dos  primeiros semáforo automáticos em 1971, em Lisboa.  
Nas fotos do Manuel Joaquim, o comboio já está em marcha, vindo da Rocha do Conde de Óbidos (a leste) e a avançar para oeste ao longo da linha de cintura do porto, cruzando a artéria rodoviária na zona do cruzamento de Alcântara/Avenida de Ceuta.

O comboio iniciou a sua marcha nas próprias linhas do cais, porto de Lisboa,  junto à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos , onde as composições encostavam diretamente para receber os militares recém-desembarcados e as suas bagagens.

A composição circulava pelo Ramal de Alcântara (ramal ferroviário que ligava a zona ribeirinha e o Porto de Lisboa à rede ferroviária nacional), prosseguindo em direção à Estação de Alcântara-Terra   (através do Ramal de Alcântara), de onde engatava na Linha de Cintura para rumar ao interior do país, neste caso, com destino a Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do batalhão) para o posterior licenciamento das tropas. 

Análise mais detalhada dos elementos e locais identificados nas duas fotografias.

Cruzamento Alcântara / Av 24 de Julho 
 
A composição está a atravessar o entroncamento/cruzamento rodoviário na zona de Alcântara que articulava o tráfego vindo da Avenida 24 de Julho, da zona ribeira e do acesso à tancada de subida para a Ponte 25 de Abril (à data, Ponte Salazar) e Avenida de Ceuta.

Sinalização Direcional (Visível na Foto nº 2): a placa rodoviária em primeiro plano indica explicitamente as direções estratégicas criadas na altura da inauguração da ponte (1966):

  • "Ponte" (com seta a apontar para a rampa de acesso à Ponte Salazar (hoje, 25 de Abril); 
  • "Av de Ceuta" (com seta a indicar a ligação no sentido norte/Avenida de Ceuta).

Na foto nº 1, destaca-se ao fundo o viaduto metálico de acesso à Ponte 25 de Abril (inaugurada escassos meses antes, em agosto de 1966) (diz a IA,mas eu, confesso,  não o consigo ver).

Estação ferroviária de Alcântara-Terra


Na Foto nº 1, temos a Avenida de Ceuta, em Lisboa, vista a partir do cruzamento em direção a Alcântara. 

A estação que vemos à direita é a Estação Ferroviária de Alcântara-Terra. Na imagem, os carris ainda circulavam à superfície à face da estrada, antes de o canal ferroviário ter sido rebaixado e protegido como se encontra hoje em dia. (Não confundir com a estação de Alcântara-Mar, que fica mais abaixo, mais próxima do rio Tejo e junto à Linha de Cascais.)

O vale de Alcântara passou por uma transformação radical a partir da década de 1940 com a cobertura da antiga ribeira para a construção da Avenida de Ceuta, uma obra fundamental desenhada pelo urbanista Groer para ligar o centro e as zonas norte à margem do rio.
 

Polícia sinaleiro (“Cabeça de giz”) / Posto de trânsito

Na Foto 1 (no canto inferior direito) e na foto 2 (ao centro da via, junto a um pequeno estrado circular ou "talude" ou "peanha"), vê-se o polícia sinaleiro da Polícia de Segurança Pública (PSP) (O "Corpo de Policias Sinaleiros" foi criado em 1927, e chegou a ter  270 efetivos. )

A presença desse polícia sinaleiro no meio do cruzamento é um dos pormenores mais fantásticos e autênticos destas duas fotografias de 1967.

Em meados da década de 1960, a figura do sinaleiro era absolutamente vital para gerir o trânsito de Lisboa. O cruzamento da Avenida de Ceuta com a zona ferroviária de Alcântara era um ponto extremamente crítico e perigoso, onde o tráfego rodoviário em crescimento constante se cruzava diretamente com as linhas de comboio à superfície.

O polícia sinaleiro tinha um papel exigente neste local: 

(i) fardamento rigoroso: vestia o clássico uniforme com o capacete branco (perfeitamente visível na imagem), luvas brancas para destacar os gestos e uma farda impecável;  

(ii) coreografia de trânsito: controlava os automóveis através de movimentos de braços muito precisos e elegantes, em cima de um pequeno palanqute; 

(iii) coordenação ferroviária: quando um comboio como este vinha do cais a caminho de Abrantes, o sinaleiro tinha de mandar parar imediatamente todos os carros na avenida para dar prioridade absoluta à composição ferroviária, já que não existiam os automatismos e as barreiras modernas de hoje em dia.

Estes profissionais eram autênticas figuras castiças da capital, muito respeitados pelos condutores e pelos peões, que até lhes costumavam oferecer presentes e "boas-festas" na época do Natal (uma iniciativa do Automóvel Club de Portugal).

Viaturas automóveis e envolvente urbana de Alcântara

Na Foto 1, no lado esquerdo da via, sobressaem dois automóveis ligeiros característicos da época estacionados ou a aguardar sinalização: 

  • À esquerda, um Ford Cortina (Mark I) escuro (com a placa de matrícula da época EI-40-49).
  • Ao centro/esquerda, um Austin Cambridge / Morris Oxford (série Farina) de cor clara (com a matrícula LP-68-41).

Ao fundo e na lateral esquerda, observam-se os edifícios de traça industrial do Porto de Lisboa e dos armazéns de Alcântara, para além das colinas de Alcântara/Prazeres  (ao fundo, o Cemitério dos Prazeres)

Cemitério dos Prazeres / "Cerca de ciprestes"

Na crista da colina que se ergue ao fundo da Foto nº 1  (alinhada com o eixo da Avenida de Ceuta   e a encosta de Alcântara), sobressai uma mancha densa e escura de árvores perfeitamente alinhadas.

Trata-se da emblemática e monumental muralha/cerca vegetal de ciprestes do Cemitério dos Prazeres. Fundado em 1833 no topo do outeiro, o cemitério alberga uma das maiores e mais antigas concentrações de ciprestes (Cupressus sempervirens) da Península Ibérica, funcionando como um verdadeiro marco na paisagem urbana visto a partir do vale de Alcântara e do rio Tejo.

 Comando Local da Polícia Marítima de Lisboa / Capitania do Porto de Lisboa

O edifício em primeiro plano (lado esquerdo) (Foto nº 1), de tom claro/rosado com dois pisos, telhado de telha tradicional e janelas em fiada, situado logo atrás dos automóveis estacionados (o Ford Cortina e o Austin Farina), corresponde a instalações históricas ligadas à autoridade marítima/portuária na zona de Alcântara-Mar / Cais da Rocha.

Era (é ?)  a sede do Capitania do Porto de Lisboa  (área de Alcântara-Norte), responsável pela jurisdição do Porto de Lisboa e pela fiscalização das operações de acostagem e desembarque no Cais da Rocha Conde de Óbidos e Doca de Alcântara.

Ponte sobre o Tejo / Travessia ferroviária

Recorde-se que o comboio, operado pela Fertagus, na Ponte 25 de Abril (ex-Salazar) só  começou a circular a partir de 29 de julho de 1999. 
 
A ponte em si foi inaugurada muito antes, a 6 de agosto de 1966, mas a plataforma inferior foi projetada de raiz com espaço para receber a ferrovia dupla, que só viria a ser instalada décadas mais tarde.

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google IA) + Blogue
(Condensação, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)
   
 ____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22731: O cruzeiro das nossas vidas (31): a minha viagem (pacífica) no N/M Ambrizete, de 3 a 9 de novembro de 1970, com partida (atribulada) oito dias depois do programado (Hélder Sousa, ex-fur mil trms, TSF, Piche e Bissau, 1970/72)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28055: Efemérides (391): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte II: "o cruzeiro das nossas vidas"




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Luís Graça, Humberto  Reis 
e Luís Nascimento / Joaquim Bessa, 
Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Um velho poema meu... Quando fui para a Guiné no navio misto, de carga e passageiros, "Niassa", com pouco mais de 150 metros de comprimento. e 10,7 mil toneladas de arqueação bruta... Levava 1735 homens para a guerra (fora a tripulação, que era de c. 130)... 

Durante anos recusei cruzeiros, aliás só fiz um, à Grécia, antes da pandemia,  para "recordar"... Mas sou "crítico" dos cruzeiros turísticos... Ao primeiro, que fiz, em 24-29 de maio de 1969, no T/T Niassa, chamei-lhe, por ironia,  "o cruzeiro da minha vida"...Já não sou mais o mesmo de há meio século atrás...Nem poderia sê-lo. Mas aqui vai, em jeito de filme do tempo do cinema mudo, com intertítulos, uma evocação "poética" desse cruzeiro, em que "viajaram" também amigos que depois fiz para a vida como o Humberto Reis, o Tony Levezinho,  o António Fernandes Marques, o sargento Piça, o Arlindo T. Roda, o Luciano Severo de Almeida, e tantos outros, alguns dos quais vim aqui a reencontrar no blogue como o Carlos Fortunato, o Eduardo Estrela, o José Nascimento, o Luís Nascimento, etc.

 

Quando o Niassa apitou três vezes

por Luís Graça


Uma estranha maneira de dizer adeus,
um estranho povo este
que vem ajoelhar-se, no cais de partida,
não em oração para aplacar a ira dos deuses, mas vergado,
vergado à toda poderosa razão de Estado.

A tentacular força centrífuga
que, de há séculos, 
te leva os filhos teus, para fora,
paridos e expulsos do ventre da mátria,
para longe, bem para longe, muito para lá do mar.

Uma despedida breve,
com lágrimas salgadas no rosto
e lenços brancos em fundo preto.
Todas as despedidas são breves e tristes:
o momento em que o Niassa apita três vezes
e levanta a âncora,
nunca se poderia eternizar,
diz o capitão de terra, ar, mar e guerra,
lencinho ao pescoço, cheirando a Vat(e) 69, 
ontogenético, fotogénico, cinéfilo,
garboso, charmoso, glamoroso
pronto para a ação
... na mesa do king, do bridge ou da lerpa.

Passado o Bugio,
deixado para trás o velho do Restelo
de que há um pouco em todos nós,
desvanecido o azul da serra de Sintra,
há um briefing às cinco da tarde,
já em velocidade de cruzeiro,
no mar alto que outrora foi português.

O anúncio é do capitão,
muito pouco ou nada miliciano,
que serve de mordomo, pequeno e burguês.
De megafone em punho,
não vá alguém sabotar a instalação sonora do navio.

Vai na segunda comissão, o oficial provinciano,
que nunca ouviu falar da batalha de Dien Bien Phu
nem sabe onde fica a ilha do Como.
Nem o onde nem o como nem o porquê
nem muito menos o até quando.

E o filme da noite é uma comédia, 
do cinema mudo,
acrescenta o nosso primeiro,
que no T/T Niassa faz de porteiro
ao bar Cretcheu, Guiné.
Um gajo bacano, num país de bacanos, fulanos e sicranos,
de soldados rasos, primeiros cabos, furriéis, alguns forcados, 
e segundos sargentos, mangas de alpaca.

Uma tragicomédia, escreverás tu no teu diário.
Cadé os oficiais ?
Cadé a elite da nação ?
Onde estão os filhos-família,
a ínclita geração,
os primeiros, a fina flor, os morgados,
os cavaleiros andantes, os primogénitos,
os palmeirins, os fidalgos, 
a casta, a raça apurada,
o sangue azul, o pedigree, 
os Gamas e os Camões,
os melhores de todos nós ?
... Morreram todos em Alcácer 
Quibir. 

Lisboa revista, revisitada, revistada,
em filme de oito milímetros,
a preto e branco ou a preto e negro, dizes tu, corrosivo,
uma só nação, valente mas ferida mortalmente,
ironiza alguém.
O Niassa colonial na azáfama do seu vai-e-vem
antes de ir parar à sucata,
inglória a sucata da história que tu perdeste
aos dezoitos anos, quando deste o teu nome para as sortes.
Estranha palavra essa, a das sortes,
que rima com desnortes e com mortes e com fortes,
que dos fracos não reza a história.

A despedida breve e triste do Niassa,
o teu primeiro e único cruzeiro da vida,
e ainda mais triste é o filme, sem som,
sem palavras desnecessárias, a preto e branco,
que alguém terá feito no cais das sete partidas,
com a noiva que ia vestida de branco 
e de xaile preto, a louca, por cima dos ombros.
Dizem que levada em ombros, a espernear,
pela polícia militar.

A ponte, ainda reluzente, de Salazar, o velho,
o velho abutre que alisa as suas penas,
dirás tu, Sophia, pitonisa de Delphos,
quase morto mas não enterrado.
Os últimos golfinhos do Tejo,
a última fragata de vela erguida,
a última caravela,
a última nau do cais da Ribeira,
o último império que ficou por haver,
o último marinheiro sem terra,
sinal de tempestade,
o último uísque marado
que ficou por beber, de um trago
numa espelunca do  Cais do Sodré, amargo,
o mudo do Cristo Rei em terra
que outrora foi dos infiéis,
o Terreiro que continua do Paço, não do povo…
Lisboa e o seu casario, branco, sujo,
o filme a preto e branco, riscado,
um gato preto à janela,
sinal de mau agoiro.

Lisboa... e lá longe a Guiné,
a 4 mil km de distância, 
Lisboa, enfim, com as suas ruínas, pré-pombalinas,
o poço dos mouros, o poço dos negros,
o lundum, a umbigada,
a procissão da Nossa Senhora da Saúde,
mais a Santa Inquisição,
zelando pela pureza da raça e do sangue,
zurzindo corpos e almas,
o Cemitério dos Prazeres ao alto,
com os seus altos ciprestes negros,
os mastros dos navios da carreira colonial,
o império por um fio, dental,
a vida, ainda curta, que se recapitula, de fio a pavio,
no último comboio da noite
que veio do campo militar de Santa Margarida.

Ah!, e os jacarandás que, em fins de maio, já choram,
de lágrimas lilases,
e as santas das nossas mães que ficaram em casa,
a acender a vela à santa das santas,
a tecer o lenço de enxugar lágrimas,
um fado que tu ouviste numa tasca do Bairro Alto, 
e que já não era batido nem dançado nem cantado,
um fado apenas gemido, sussurrado.

Ordeiros os soldados,
como os cordeiros da matança da Páscoa,
anhos, dizem no Norte, 
alinhados, no Cais da Rocha Conde de Óbidos,
como os elétricos amarelos
que vão para a Cruz Quebrada,
empilhados, aboletados, requisitados
às mães para servir a Pátria,
o pai-patrão que lhes cobra o dízimo
em sangue, suor e lágrimas.

Mudos, agrilhoados, os básicos,
uns refratários, outros desertores,
cozinheiros, magarefes, corneteiros,
apontadores de dilagrama,
municiadores de metralhadora,
desenfiados, traidores, atiradores,
cangalheiros, sacristães, capelães,
barbeiros-sangradores, 
sapadores, pulhas, coirões,
coveiros, escriturários, bazuqueiros,
safados, bufarinheiros, cavaleiros,
trolhas, cavadores de enxada,
infantes, artilheiros, maqueiros,
heróis de torre e espada…

Coitadas das mães que tais filhos pariram,
diz a letra do ceguinho,
subindo o portaló, o cadafalso,
com um nó na garganta mal disfarçado,
os lenços brancos como em Fátima no 13 de maio.
Algumas bandeiras verdes-rubras,
poucas e loucas, que os tempos não são
de exaltação patriótica.
O hino canta-se em voz de cana rachada,
em disco riscado
por senhoras, poucas e roucas,
do Movimento Nacional Feminino.

A mesma atitude, admirável, de patética resignação
perante o arbítrio dos deuses
que tudo pedem e podem, diz o capelão,
cheio de unto e de virtude,
que este é um povo religioso
porque tem o sentido do pathos,
leia-se: da tragédia inelutável,
acrescenta o bispo de merda…suma.

Senhora Nossa, rogai por nós, pecadores,
protege-nos, das minas e armadilhas,
dos fornilhos e das bailarinas,
das canhoadas e roquetadas,
das morteiradas, dos estilhaços
e dos tiros de "costureirinha",
protege-nos do IN, leia-se inimigo,
dos esquentamentos e das sezões,
da mosca tsé-tsé e do mosquito anapholes,
dos ataques de abelhas e das formigas carnívoras,
mas também do cone de fogo
das nossas bazucas e canhões sem recuo,
das piçadas e dos louvores dos nossos comandantes...
Livrai-nos sobretudo de nós mesmos,
soldados malgré nous, soldados à força,
arrebanhados, arregimentados, requisitados,
condenados, ameaçados, camuflados,
acondicionados no porão como bestas
que vão para o matadouro.
Livrai-nos, Senhora Nossa,
da fome, da peste e da guerra,
e do marechal da nossa terra
que nos manda para tão longe.

Lisboa e as suas sete colinas
perdem-se na linha de água.
Puseste o combate do possível
na tua agenda de expedicionário da Guiné.
Puseste o fio com a medalha de ouro
ao peito, que te deu a tua namorada, coitada.
Não, não usas a cruz, o crucifixo, o amuleto,
não vais para a guerra santa,
não, senhor capelão-mor,
alguém há de rezar por ti, camarada,
para que voltes são e salvo.
Do regulamento é apenas a chapa de zinco,
com o número mecanográfico 13151468,
e o picotado ao meio,
para mais facilmente ser cortada em duas partes
que seguirão caminhos distintos,
tudo isto face ao risco, bem real e concreto,
de tu morreres longe, bem longe
da tua casa, da tua pátria, para lá do mar,
em terra que nunca te viu nascer.

Descansa, camarada,
alguém fará o teu espólio,
cerrará os teus dentes,
fechará os teus olhos,
engraxará as tuas botas,
comporá os atacadores e a boina,
e porá um moeda na boca
para pagares a viagem ao barqueiro Caronte,
no caso de morreres pela Pátria,
ainda jovem, belo e imberbe,
nas bolanhas, rias ou matas da Guiné

Levarás contigo a pedra-chave
que te liga ao além,
uma chapa de zinco, picotada ao meio,
que outrora era de xisto ou de grés,
entre o teu antepassado
calcolítico, castrejo, romanizado.
Ironia da história: 
também já foste escravisado, colonizado,
e nem a língua dos teus avoengos lusitanos chegou até ti.

Respeitaremos a tua última vontade,
lavrada no cimento fresco do teu abrigo:
Camaradas (que colegas é só nas putas!,
diz o pícaro do sargento Piça):
se eu morrer aqui,
que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico!



A bordo do T/T Niassa,
a caminho da Guiné,
24-29 de maio de 1969.

Visto, revisto, aumentado e melhorado,
Reino dos Algarves, Portimão, Praia do Vau, 26  de maio de 2026
 
__________________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27333: Notas de leitura (1853): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte IV: de Figo Maduro a Bissalanca "by air", e depois de LDG até Bolama para a estopada da IAO (Luís Graça)




Guiné > Zona Oeste >  Região do Cacheu , Có > 2ª C/BART 6521/72 (1972/74) > Messe da caserna do 2º pelotão. O autor em primeiro plano à direita. (Foto, com devida vénia, retirada da pág. 135 e reeditada por LG).



Crachá da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74)


Capa do livro 

1. Continuando a leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) 
(ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto:  J. Pinto de Carvalho.)


Com a especialidade de auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5,  Penafiel (jun / set 1972). 

No seu livro de memórias (elaborado sem recurso a fontes em papel), ele começa por perguntar como se formara aquele batalhão. 

O Luís, chegado a Penafiel, com mais dois camaradas que vieram com ele do quartel da Carregueira, Sintra,  não conhecia mais ninguém. Os três, munidos da respetiva "guia de marcha", acabavam de se apresentar de manhã no RAL 5, a unidade mobilizadora do seu batalhão. 

Chegaram às 3h00 da manhã. Tinham saído da Carregueira  às 11h00 do dia anterior, num dia de junho de 1972. Claro, aproveitaram para pôr o sono em dia, até ao toque de alvorada.  A cama foi improvisada: foram as pedras da calçada, com o saco da roupa a servir de travesseiro.

(pág. 39)


Achámos piada ao termo da gíria de caserna, "atiruense", forma engraçada mas irónica de designar, afinal,  a grande maioria dos militares que iam para o CTIG. Em 1969/71, eram também conhecidos como "amanuenses de gatilho",  enfim a derradeira especialidade que o diabo quereria ter ali, naquele "cu de Judas", a Guiné (hoje, Guiné-Bissau). 

Por outro lado, repare-se na observação sobre o médico e os quatro auxiliares de enfermeiro que em princípio deveriam seguir na 2ª C/BART 6521/72. 

 Médico não havia, e dos quatro 1ºs cabos da secção sanitária só seguia o Luis e o Faleiro. A solução "ad hoc" encontrada,  mais tarde, chegados a Có, foi fazer dois auxiliares de enfermeiro, "de aviário", à pressa, para suprir as faltas. 

Enfim, mais um exemplo do "desenrascanço" à portuguesa (pág. 40).

Estava-se, de resto, numa época em que já ninguém  ligava à qualidade, mas à quantidade. Um país pequeno, com menos de 9 milhões de habitantes e forte emigração (um milhão e meio de portugueses, sobretudo jovens, vão sair de Portugal no período da guerra colonial, entre 1960 e 1975), e que já de si tinha fraca capacidade de recrutamento.

E a prova estava ali, o Luís vai conhecer os seus novos camaradas, os militares da 2ª C/BART  6521/72. Verifica que só tem um militar profissional, em 160 homens: é um graduado do QP (Quadro Permanente), o 1º srgt  António José do Ó, e que era de todos obviamente o mais velho (e respeitado, acrescente-se). 

Era o único, afinal, "que sabia das coisas da tropa" (pág. 42).

A maioria dos militares eram jovens, na casa dos 21/22/23 anos. O capitão nem sequer era do QP, era um miliciano,  com mais cinco ou seis anos do que os restantes. Todos, ao fim ao cabo, iam mal preparados (e por certo contrariados) para aquela guerra e aquele território, do capitão aos quatro alferes, dos furriéis aos cabos. 

Foram de autocarro, de noite, a caminho do aeroporto militar de Figo Maduro, em Lisboa. Para o autor, só podia ser intencional, por parte do exército, a opção pela viagem de noite.  Quase furtiva. "Iam acabrunhados nos seus bancos. antevendo as posições futuras nos seus abrigos de guerra na Guiné" (pág. 43).  Fizeram uma pausa em Pombal, na bomba de gasolina, para a malta se "aliviar". (Ainda não se falava em "áreas de serviço", e a estrada nacional nº 1 era um pesadelo.)

Foi a primeira viagem de avião que o autor fez na vida. Aqueles de nós que foram de barco para a Guiné,  não sabem, naturalmente, "o que perderam"... Em meia dúzia de linhas,  o Luís descreve, com um leve toque de ironia,  o ambiente que viveu nesse já longínquo dia 22 de setembro de 1973, por sinal uma sexta-feira.  Nem sequer iam de camuflado, levavam o uniforme de passeio, mais cinzento e discreto.

(pág. 449

O saco ou mala de viagem não podia ultrapassar os 25 kg. Lá teve que se desembaraçar de alguns livros, uma navalha de marinheiro e uma faca de mato. Em contrapartida, teve a sorte de viajar junto à janela. E, por pouco tempo embora,  conseguir desviar o seu pensamento, o "de que estava a caminho do mais perigoso palco de guerra que o nosso governo nos conseguira arranjar"  (pág. 45).

A meio da viagem , os passageiros especiais daquele Boeing 707 recebem ordens para despirem "o blusão de burel", que serviria para o próximo "desafortunado"  ou iria parar à Feira da Ladra.

A bordo teve direito a um copo de água.

A título de curiosidade, ficamos a saber que os dois Boeing 707 dos TAM, encomendados em 1970 e entregues em finais de 1971, "transportaram nos 3 anos seguintes cerca de 318 mil passageiros do Exército (78%), Marinha (7%) e Força Aérea (15%), além de muitas toneladas de carga. sem que tenham falhado uma missão". Uma história exemplar, os TAM, ao que parece.

Mas o Luís é sincero, quando  escreve, fazendo o resumo dessa viagem, nos TAM, que o pôs no mesmo dia à porta da guerra;

(...) "Gostei da sensação que senti quando o Boeing, de bico empinado, começou a ganhar altitude. (...) Gostei de me sentir por cima das nuvens (...). A viagem decorreu dentro daquilo que julgo ser normal; por mim, não tenho nada a assinalar e gostei tanto que estava prontinho para no mesmo avião fazer a viagem de regresso!" (...) (pág. 45).

Julgo que o Luís interpretava bem o estado de espírito dos restantes passageiros. Ia a "guerra do ultramar" no seu 11º ano...

Na chegada a Bissalanca, e com a abertura das portas da aeronave, o Luís não levou a tempo a dar-se conta de que estava nos trópicos: "entrou um bafo de tal modo quente que, de imediato, começámos a transpirar e a sentir o incómodo que nos iria acompnhar ao longo de dois anos - o tempo que durou a nossa comissão de serviço na Guiné" (pág. 46).

Além desta sensação de calor e humidade extremos,  que todos experimentámos à chegada a Bissau, o Luís dá conta de uma segunda experiência sensorial, "a intensidade dos odores da terra que resulta  das fortes chuvadas sobre os solos sobreaquecidos" (pág. 46).

Foi tudo muito rápido. e já temos os recém-chegados a caminho do Cumeré,  a 30 km a sudeste de Bissalanca. Com o batalhão completo, lá seguiriam,  três dias depois, em LDG, a caminho de Bolama para mais um período de instrução e de adaptação, a IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional)... Enfim, estações do calvário por que todos (ou quase todos) tivemos que passar.

Sentado no chão da LDG, em cima dos seus pertences, o Luís faz um trocadilho que diz muito do estado de espírito daqueles jovens a caminho de um futuro incerto, e longe de pensar que a guerra teria um fim um ano e meio depois:

 (...) "saboreando as primeiras gotas de um fel que nenhum de nós na metrópole saboreara, ante os sonhos justos e devidos de mel que os jovens  (...) de 20 anos esperavam "(pág. 47).

Quatro horas de depois, de noite, "em mar chão e a maré cheia" (pág.47),  chegam a Bolama através do grande canal do Geba.

Vale a pena acompanhar a leitura deste livrinho, singelo e serôdio, mas nem por isso menos interessante (pela capacidade de ajudar a reavivar as nossas próprias memórias da tropa e da guerrra: "Os Có Boys: nos trilhos da memória".

(Continua)


Luís da Cruz Ferreira (n. 1950, Benedita, Alcobaça). 
É membro da Magnífica Tabanca da Linha. 
E esperemos que aceite o nosso convite para se sentar, connosco,
à sombra do poilão da Tabanca Grande

  • nasceu em 2 de março de 1950, mas só  foi registado  seis meses depois, em 4 de outubro;
  • de alcunha o "Beatle", quando jovem;
  • profissionalmente já estava ligado à restauração, antes de ir para a tropa,  tendo trabalhado em diversos estabelecimentos conhecidos da Linha, e nomeadamente em Cascais, a começar pelo famoso  Muchaxo (Guincho).
  • foi trabalhador-estudante;
  • na tropa e na guerra, foi 1º cabo aux enf, tendo sido mobilizado para o CTIG, integrado na 2ª C /BART 6521/72 (Có 1972/74);
  • o  batalhão estava sediado no Pelundo; regressaram a  casa já em finais de agosto de 1974;

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27326: Notas de leitura (1852): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (2) (Mário Beja Santos)



quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27277: Memórias dos últimos soldados do império (6): os "últimos moicanos" - Parte III: a viagem Bissau-Lisboa, a bordo do T/T Uíge, em 15 de outubro de 1974 (Eduardo Magalhães Ribeiro / Luís Graça)

 




Documento nº 1 


Documento nº 1A


Documento nº 1B



Documento nº 2




Documento nº 3



Documento nº 4

T/T Uíge, viagem Bissau - Lisboa, de 15 a 20 de outubro de 1974. Documentação distribuída a bordo.



Fotos (e legendas): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Sabemos que esta foi a última viagem do T/T Uíge, de Bissau a Lisboa, ao serviço do Exército. Oficialmente... 

Levou os "últimos soldados do império". O nosso amigo e camarada Eduardo Magalhães Ribeiro, coeditor do blogue, foi um dos passageiros da "classe turística", reservada aos sargentos. E guardou, no seu baú, esta documentação preciosa, respeitante a essa viagem histórica.

Ao que se sabe (mas não por esta documentação),  o navio, T/T Uíge, que estava ao largo (houve outro, o T/T Niassa, que também zarpou de Bissau nesse dia),  deixou a zona às 10h00 do dia 15 de outubro.

Não sabemos quantos militares levava (e de que unidades). O T/T Niassa, por exemplo,  transportou pessoal da 2ª Companhia do BCAV 8320/73. 

Boa parte do pessoal que foi no T/T Uíge deviam ser militares do QG/CTIG (Santa Luzia) e do QG/CCFAG (Amura), as últimas instalações das NT a serem entregues ao PAIGC, os "novos senhores da guerra". 

Deduz-de que o T/T Uíge ia a "rebentar pelas costuras". Havia 4 refeições a bordo (para oficiais e sargentos), em horários diferidos:

  • 08h30 | 13h00 | 17h00 | 20h00 (para os oficiais, que eram em menor número)
  • 07h30 | 11h30 | 16h00 | 19h30 (para os sargentos, que eram em maior número)

As praças, que iam no porão, comiam por turnos: havia 4 mesas... Os horários iam das o7h00 (pequeno almoço) (1ª mesa) às 20h15 (jantar) (4ª mesa), com intervalos de 30 m (pequeno-almoço) e 45 m (almoço e jantar)... A 1ª mesa jantava às 18h00, a última às 20h15...

O consumo de água (banhos, lavagens...)  e a barbearia também tinham horários estipulados, de acordo com o documento nº 4. Em suma, logística complicada. 

O capitão de bandeira era o cap-ten Alexandre de Carvalho Wandschneider.

Mas tudo correu bem (serviços a bordo e comportamentos dos militares), a avaliar pelo teor da mensagem de despedida, com data de 20 de outubro de 1974, à chegada a Lisboa, assinada pelo comandante militar de bordo, o cor António A. Marques Lopes (documentos  nº 2 e 3).

Dito por si:
No dia 15, na classe turística sabemos que foi servido ao almoço (documento nº 1): 

(i) sopa de coentros; (ii) peixe: bacalhau à Gomes de Sá; (iii) entrada: fígado com arroz de manteiga | pastelão à portugesa; (iv) queijo, fruta, chá, café, leite... 

Nada mau, para desenjoar da comida da tropa, do rancho, da ração de combate...

A vida a bordo também foi  "animada" nesse dia da partida: no bar da classe turística, às 16h30 havia jogo do loto... E à noite, às 21h30, "cinema ao ar livre"...

O filme em cartaz, "As 4 chaves" (documento nº 1B)... Erro tipográfico:  devia ser o filme brasileiro de 1971, "As Quatro Chaves Mágicas", do realizador Alberto Salvá.  Filme do género aventura & fantasia,  "é uma recriação do conto de fadas João e Maria, dos Irmãos Grimm"...

E assim tudo acabou: a guerra, a Guiné ("verde-rubra"), o Império, o Uíge, o Niassa... E nós, também estamos a acabar, nós, a geração dos últimos soldados do império, os "últimos moicanos"...

2. Comentário do editor LG:

Em 2/2/1974. o N/M Uíge passou a pertencer à CMT - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos SARL, por fusão da CCN - Companhia Colonial de Navegação (criada em 1922) com a Empresa Insulana de Navegação (mais antiga, de 1871).  

Fez 4 viagens às Ilhas em 1974, e ainda em junho de 1975 a única que realizou a Moçambique (fretado pelo Exército, para transporte de tropas). 

Em 23/11/1975 fez também a última viagem a Angola, a  sua ultima também como T/T, ao serviço do Exército. 

Ainda fará 3  viagens a Cabo Verde para repatriamento de cidadãos portugueses, cabo-verdianos, também fretado pelo Exército. 

Ao fim de 2 dezenas de anos (tinha sido lançado ao mar em 1954), tem o destino cruel de todos os navios: em 1976 fica imobilizado no Mar da Palha, no estuário do Tejo...Será desmantelado no Cais Novo de Alhos Vedros, em 1979/80...
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Nota do editor LG: