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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Tive a felicidade de estar presente, não conhecia pessoalmente este ilustre historiador, dele muito tenho falado no blogue e fiz uma súmula do seu magistral trabalho a "História das Missões Católicas na Guiné" no Tomo I de "Guiné Bilhete de Identidade". Miraculosamente, apareceram à venda alguns exemplares deste livro, de há muito esgotado, parecíamos sete cães a um osso, e havia também um conjunto de brochuras onde encontrei este trabalho de Pinto Rema datado de 1972, faço dele um curto comentário acerca dos cruzamentos entre o rigor histórico e as movimentações propagandísticas, naturalmente distorcedoras da verdade documental. A Academia Portuguesa de História, de que Pinto Rema foi seu Secretário-Geral, esteve presente em força, a historiografia deste Franciscano excede a Guiné e em muitos pontos é constituída por obras de referência.

Um abraço do
Mário



Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné

Mário Beja Santos

O Centro Cultural Franciscano situa-se no Largo da Luz, em Carnide, anexo de uma casa apalaçada que também pertence à Ordem Franciscana, atravessei a Feira da Luz em plena ebulição com olaria, padaria e haveres de muitas espécies, em 23 de setembro, pelas quinze horas, iria ocorrer a sessão de homenagem pelos seus 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema, a quem a história da Guiné muito deve, com destaque para uma obra de referência História das Missões Católicas na Guiné. Ali chegado, verifiquei que havia publicações à venda, esta História das Missões Católicas estava completamente esgotada e apareciam ali alguns exemplares, atirei-me como gato a bofe, em minutos desapareceu um stock que tinha ficado estranhamente em depósito, fui um dos felizardos a arrebanhar um exemplar espúrio. E descobri uma pequenina brochura intitulada Os Lusíadas e a Guiné, obra do Padre Rema, publicada nas comemorações do IV Centenário da publicação d’Os Lusíadas, Bissau 1972. Dele falaremos mais adiante, e até se encontrou um documentário da RTP alusivo, vamos ver o Padre Rema em Bissau a apresentar a exposição camoniana a pessoas como o Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, o Ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa e o Governador António de Spínola. O leitor pode consultar o respetivo site aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-camoniana-em-bissau/.

Os académicos cumpriram o seu serviço, seguiu-se uma tocante homenagem ao aniversariante, sempre sorridente deu conta das velas e choveram as palmas após o cântico da praxe. Vim para casa e comecei a ler a brochura, era a melhor homenagem que podia prestar a este homem devotadíssimo à sua missão apostólica e que deixou uma obra cultural assente numa investigação rigorosa e perdurável.

Comecei por ver os comentários da obra ímpar de Camões em cujas estâncias se alude às viagens de Gama pela costa ocidental africana. O navegador está a contar a sua viagem para a Índia. Diz que deixaram Massília, que é a África do Norte, uma costa estéril, porque não produz nada, o deserto do Sara, em baixo vivem os Azenegues na Barbaria, segue-se a “Etiópia” ocidental, este é o tema da Estância VI do Canto V. Fala-nos depois de o “limite aonde chega o sol” é o trópico de Câncer, abaixo vivem os povos de cor negra, a quem os navegadores irão chamar Terra dos Negros. Camões usa linguagem mitológica, fala do pai Apolo (ou Sol). O primeiro rio que se encontra é o Senegal. Na Estância VII fala-se no Cabo Arsinário, nome que foi dado por navegadores para Cabo Verde, perto de onde hoje se levanta a cidade de Dakar. O épico volta atrás para falar das Ilhas Canárias, noutra Estância falará de Santiago, e assim chegamos à Estância X onde ele refere a província Jalofo, a mui grande Mandinga e o rio Gâmbia. Na Estância seguinte falará das Dórcadas, há quem as identifique com o arquipélago dos Bijagós. Nas estâncias seguintes, Camões refere-se à viagem em direção ao sul (“Austro”), deixando para trás a Serra Leoa com o seu Cabo das Palmas, nome dado pelos portugueses.

Importa agora refletir a que propósito foi dado como altamente conveniente publicar sobre os Lusíadas e a Guiné e fazer uma exposição evocativa do IV Centenário d’Os Lusíadas em Bissau. O Padre Rema deixa claro que a Guiné pertence À memória histórica e literária de Portugal, à presença portuguesa em África, à conexão lusíada com África. Recorde-se que o Padre Rema vinha publicando desde a década de 1960 estudos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, caso de A primeira envangelização da Guiné (1434-1533). Camões é a ponte entre o passado e o presente. Este tipo de análise acabaria por se cruzar com interesses políticos tanto do governador Spínola como da lógica da política ultramarina, mas há uma distinção a fazer: Rema reflete no plano da memória, da história da cultura, o regime e o governador da Guiné tem objetivos políticos e propagandísticos, estamos em 1972, o marcelismo intenta pôr as comemorações ao lado da sua política. Numa intervenção de “conversa em família”, em 1971, Marcello Caetano apontava 1972 como um ano de grandes comemorações, associando a celebração de Camões com a presença de Portugal no mundo e até a defesa do Ultramar.

O trabalho de Pinto Rema era útil para o regime, mas o historiador era muito mais do que um agente necessário para aquela ocasião evocativa. Na sua obra maior, História das Missões Católicas na Guiné, publicada em 1982, a profunda investigação nada tem de propagandístico, espelha fielmente sucessos, fracassos, conflitos e contradições da presença missionária portuguesa.

O evento de Bissau procurava fazer acreditar que a história de Portugal, o poema épico, as referências ao Senegal e Cabo Verde, tal como as referências às Canárias e a presença portuguesa, a menção do Jalofo, da mui grande Mandinga era tudo e a mesma coisa, Os Lusíadas davam chancela à Guiné Portuguesa. Acontece que a História não teve o mesmo curso que o poema épico. A tal Guiné, Senegâmbia, Rios de Guiné de Cabo Verde, Etiópia menor, Terra dos Negros e menções afins, como aparece em textos dos séculos XV e XVI era uma extensão geográfica com outra amplitude que aquela Guiné, que teve uma superfície reconhecida pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. Um aspeto muito curioso de um outro texto de Pinto Rema, dedicado às missões católicas na Guiné, é que ele utilizou a estância X do Canto V para definir historicamente a Guiné.

Não podemos iludir que a Guiné pertence à memória histórica portuguesa e à sua presença naquela região africana. A lógica do regime era aproveitar o poema épico para dar um aval à presença portuguesa contemporânea na Guiné. Só que os versos camonianos nada têm a ver com o Estado ou o território definido em 1886. Pinto Rema procedeu a uma leitura histórica retrospetiva, tem o ponto de partida numa geografia africana cabo-verdiana e coloca-a na história daquilo que, no século XX, era a Guiné Portuguesa.

É neste contexto que a brochura é muito interessante como objeto de análise. Se ir saudar este homem de grande envergadura missionária e historiador de alta qualificação da Guiné era o meu propósito, também beneficiei ficar com uma brochura que nos ajuda a pensar como existe uma diferença abissal entre o rigor da história e o manuseio propagandístico.

O Padre Henrique Pinto Rema vai soprar as velas do bolo do seu aniversário
Mesa da sessão de homenagem aos 100 anos do Padre Rema, ele foi Secretário-Geral da Academia Portuguesa de História, e a Academia esteve presente em cheio, incluindo os académicos franciscanos
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Notas do editor:

Vd. post de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28412: Prémio Governador da Guiné e outros prémios (1): uma criação "patriótica" da TAP que tinha o monopólio das "linhas de África"



Lisboa > 1970 > O cap graduado 'comando', cmdt da 1ª CCmds Africanos João Bacar Jaló com o nosso veteraníssimo João Sacôto (ex-alf mil, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66), hoje comandante da TAP reformado, membro da nossa Tabanca Grande desde 20/12/2011.

O João Bacar Jaló veio a Lisboa, nessa altura, no 10 de Junho, receber a Torre e Espada. Em 1965 tinha ganho o Prémio Governador da Guiné, Era então alferes de 2ª linha, comandante de millícias. Nasceu em Cacine, em 1929, e morreu em 1971, em combate, no sector de Tite (*)

Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] + IA (ChatGPT / Opena Ai) 





Cópia do ofício do presidente do CA da TAP,     Amílcar José de Gouveia Marques  con data de 30dez1974, a anunciar  o fim  dos Prémips instituídos pela empresa para "recompensar os miliatres e civis que se tivessem distingudio na luta em África" (sic): Prémio Govrenador-Geral de Angola (1962), Prémio Governador da  Guiné (1965) e Prémio Governador de Moçambique (1966), Prémio Governador de S. Tomé e Príncipe (1966) e ainda Prémio 'Heróis de Portugal' (1972) (este para os condecorados, no 10 de Junho, com a Torre e Espada).

Documentro disponibilizado leo nosso camarada paraquedista Pedro Castanheira no Portal Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, e qui reproduzido parcialmenet, com a devida vénia.



1. O Prémio Governador da Guiné (e os seu congéneres, o Prémio Governador-Geral de Angola e  Prémio Governador-Geral de Moçambique) foi criado no contexto da Guerra Colonial/ Guerra do Ultramar (1961–1974),  por iniciativa da TAP  (Transportes Aéreos Portugueses).

Tratou-se de uma iniciativa de promoção de "imagem corporativa e institucionalo" (como diriamos hoje) mas também de "apoio  patriótico" ao esforço de guerra em África A nossa companhia aérea nacional (na qual continuamos a gostar de viajar) quis, explicitamente,  apoiar moralmente e premiar materialmente as Forças Armadas e os agentes civis envolvidos nas operações militares e de segurança no Ultramar.

A TAP, portanto, aparecia como empresa comercial, mas estava profundamente ligada às estruturas e aos interesses do Estado português no Ultramar.  Claro que náo podemos julgar ninguém (e muito menos os nossos camaradas que foram distinguidos com este prémio). De acordo com  o espíerito e letra do nosso "livro de estilo",  não podemos nem devemos  julgar os nossos antigos combatentes com os valores,  e a informação e o conhecimento  que temos hoje.  Mas também não podemos aceitar acriticamente a linguagem oficial com que eles foram apresentados ao longo do tempo (de 1961 a 1974). 

A nossa postura é sempre:  (i) compreender sem absolver; (ii) criticar sem diabolizar;  (iii) contextualizar sem apagar a experiência humana de cada um de nós.

 Dito isto, não podemos  esquecer a posição da TAP no xadrez dos interesses então em jogo.


A TAP como "stakeholder" do império ultramarino 

Claro que também aqui não há "almoços grátis". O patriotismo (ou o sentido de responsabilidade social e nacional)  da TAP era uma moeda com cara e coroa, verso e reverso... 

Fundada em 1945 como um serviço do Estado, foi transformada em sociedade anónima (SARL) em 1953 (através do Decreto-Lei n.º 39 188), num modelo em que o Estado lhe concedia a exploração, mas permitia a participação de capitais e acionistas privados.

Embora fosse a companhia aérea de bandeira e cumprisse objetivos estratégicos do Estado (Novo) (com destaque para a forte ligação e "monopólio" das chamadas "linhas de África" e territórios ultramarinos), tinha o estatuto de empresa comercial privada (SARL).

 Este regime manteve-se até ao período pós-25 de Abril, quando a empresa passou por um processo de intervenção e foi formalmente nacionalizada em 1975  (através do Decreto-Lei n.º 469-A/75), deixando de ser uma SARL para passar a integrar o setor público empresarial.


Origem e criação do Prémio:

Foi instituído em 1965 (o Prémio Governador da Guiné) pelo Conselho de Administração da TAP (e extinto em 30dez1974). Em 1962 tinha já sido criado o Prémio Governador-Geral de Angola (eem 1966, o de Moçambique).

O propósito era valorizar publicamente ações de combate e atos de bravura militar ou civil contra os "movimentos de libertação" (designados pelo regime do Estado Novo como "terroristas"). 

A TAP associou-se assim à doutrina do esforço de guerra nacional, atribuindo aos prémios o nome das mais altas autoridades das províncias ultramarinas (o Governador da Guiné, os Governadores Gerais de Angola e Moçambique).  

A periodicidade era anual. Era atribuído anualmente a elementos destacados nos 3 Teatros de Operações (Guiné, Angola e, mais tarde, Moçambique).

 Critérios de seleção dos candidatos

Os critérios para a atribuição do prémio  assentavam essencialmente em três eixos:

(i) Atos de bravura e feitos de armas: concessão a militares das Forças Armadas (Exército, Força Aérea e Armada) ou elementos das forças de segurança que tivessem tido um desempenho excecional em combate no teatro de operações da Guiné;

(ii) Mérito e heroísmo extraordinário: frequentemente associado a militares já propostos ou condecorados com ordens de bravura como a Cruz de Guerra ou a Ordem da Torre e Espada;

(iii) Serviços relevantes: incluía civis ou forças militarizadas (como a PIDE/DGS, PSP, Milícias ou Companhias de Caçadores Especiais) que tivessem prestado serviços considerados assinaláveis na defesa do território.

As propostas dos candidatos eram enviadas ao Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, que as submetia ao Governador e à administração da TAP para homologação.

Beneficiários e recompensas


(i) Além do reconhecimento público e do diploma, o prémio incluía a oferta de uma viagem aérea de ida e volta  à Metrópole (ou Ilhas Adjacentes,  da Madeira e dos Açores);

(ii) Perfil dos galardoados: oficiais, sargentos e praças de diversas especialidades, armas e ramos  (desde fuzileiros e paraquedistas a comandos e tropas de linha), bem como civis em funções de segurança e apoio às populações sob ataque do PAIGC;

(iii) Não era uma condecoração, mas uma distinção  honorífica:  João Bacar Jaló, por exemplo, recebeu-o em 1965, como alferes de 2ª linha; voltou a Lisboa para receber a Torre e Espada, no 10 de junho de 1970, já como capitão graduado 'comando'.

Não conseguimos apurar quantos foram os beneficiários do Prémio por ano e por teatro de operações. Mas o seu número deve ter sido restrito, a avaliar pela pequena amostra que recolhemos dos vídeos da RTP Arquivos. 

Em 67 registos da nossa pesquisa pelo descritor "Prémio Governador", obtivemos 7 válidos, ou seja, vídeos referentes a galardoados com o Prémio Governador da Guiné ou Prémio Governador-Geral, de Angola ou Moçambique:

  • 11 em 1965; 
  • 6 em 1966;
  • 14 em 1968; 
  • e  2 em 1969;
  • Média dos 4 anos=8,25. 
Trata-se de uma mera amostra de conveniência. Há outros registos que ficam de fora (1963, 1967...). E nem todos os premiado seriam recebidos por representantes do Governo (Ministro do Ultramar, do Exército, da Marinha, etc.) com direito a "honras de telejornal".


Extinção em 1974

Com a revolução de 25 de Abril de 1974 e o subsequente processo de descolonização, a TAP extinguiu o  Prémio em finais de 1974: a orientação política e institucional mudou radicalmente com a cessação das hostilidades e o reconhecimento, por Portugal, da declaração de independência da Guiné-Bissau.

De acordo com a cópia do ofício, de 30/12/1974, que acima reproduzimos, o Conselho de Administração da TAP extinguiu formalmente os Prémios Governador da Guiné e Governador-Geral de Angola/Moçambique (mais o Prémio Governador de Sáo Tomé e o Prémio 'Heróis de Portugal')  apagando do seu regulamento orgânico os prémios associados ao esforço de guerra no Ultramar.

Pesquisa: LG + Blogue  + Portal UTW + IA (Gemini / Google AI)

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)


Fontes: 


Tem um dossiê completo, com elementos coligidos pelo  paraquedista Pedro Castanheira, sobre os os regulamentos destes e doutros prémios como o Prémio Governador de São Tomé e Príncipe, Prémio Heróis de Portugal, Prémio Almirante Américo Thomaz,  Prémio Movimento Nacional Feminino,  Prémio Jornal Província de Angola.

Vídeos > RTP Arquivos >


Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, Ministro do Ultramar, entrega uma espada ao Alferes João Bacar Jaló, distinguido com o Prémio Governador da Guiné. (Vídeo, 0' 55'', a preto e branco, sem som.)

Luz Cunha recebe militares condecorados > 1965-06-29 00:01:22

Ministro do Exército Joaquim Luz Cunha recebe militares distinguidos com os Prémios Governador-Geral de Angola e Guiné-Bissau, por atos praticados nas campanhas em curso naquelas províncias ultramarinas.  (Num total de 6 premiados, 3 são alferes, e 1 cabo. LG)
(Vídeo, 1': 22'', a preto e branco, sem som)

Silva Cunha recebe galardoados do Ultramar > 1965-07-30 00:00:52

Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, ministro do Ultramar, recebe galardoados com prémios por atos de bravura contra o terrorismo nas províncias ultramarinas, que visitam a metrópole a convite da TAP. Silva Cunha conversa e cumprimenta José Olímpio, cabo de sanzala, galardoado com o prémio "Governador Geral de Angola", José Avelino de Sousa, administrador do Posto de Encheia, e Leonel Baldé, monitor escolar em Aldeia Formoso, galardoados com o prémio "Governador da Guiné". (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)

Soldados galardoados com o “Prémio Governador Geral de Angola” > 1966-06-15 00:01:23

Lisboa, Joaquim da Luz Cunha, Ministro do Exército, e João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebem grupo de soldados portugueses galardoados com o "Prémio Governador Geral de Angola", por se terem distinguido no combate contra grupo de terroristas no Ultramar. (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)


Lisboa, Fernando Quintanilha Mendonça Dias, Ministro da Marinha, recebe (3) fuzileiros galardoados com o prémio "Governador Geral de Moçambique" por bravura em combate.Quintanilha Mendonça Dias conversa e entrega prémios aos fuzileiros Raul Brandão, Segundo-Tenente, António Pais, Cabo Fuzileiro Especial, e Mário Guerreiro, Marinheiro. (Vídeo, 0' 52'', a preto e branco, sem som.)

Joaquim da Luz Cunha recebe militares 1968-05-30 00:00:49

Coronel Joaquim da Luz Cunha, ministro do Exército, recebe militares galardoados com o prémio "Governador Geral" por bravura em combate. João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebe os militares à entrada do gabinete e Joaquim da Luz Cunha conversa com os galardoados. (Vídeo, 0' 49'', a preto e bramco, sem som.) (Não se sabe se são oriundos do TO de Angola ou de Moçambique; são 11 os galardoados, 4 pelo menos são furrieis, não há nenhum africano; parecem ser todos do Exército. LG)

Manuel Pereira Crespo recebe fuzileiros 1969-08-06 00:01:13

Ministério da Marinha, Almirante Manuel Pereira Crespo, ministro da Marinha, recebe Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha, fuzileiros especiais distinguidos com o Prémio Governador da Guiné devido aos serviços que prestaram no território ultramarino português.Almirante Manuel Pereira Crespo cumprimenta, conversa com Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha e oferece-lhes prenda.  (Vídeo, 1' 13'', a preto e bramco, sem som.)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Nota do editor LG:


(*) Vd. poset de 20 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19604: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte VI: Em Príame, a tabanca do João Bacar Jaló (1929 - 1971)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina



Foto nº 1 e 1A > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Da direita para a esquerda:

(i) na primeira fila: o Comandante do CAOP 2, o General Spínola, e o ten cor Polidoro Monteiro (comandante do BART 2917);

(ii) atrás, na segunda fila,  o Paulo Santiago (,de bigode e óculos escuros), o ten-cor Tiago Martins (comandante do BART 3873,que foi render o BART 2917). e o antigo administrador do oncelho de Bafatá, o então intendente Guerra Ribeira (de seu nome completo, Manuel da Trindade Guerra Ribeiro. natural de Chaves) (*).(vd. Foto nº1-A).



Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Em primeiro plano, dois civis, da administração ultramarina sendo o segundo o intendente Guerra Ribeiro (o primeiro pode ser  talvez o chefe de posto de Bambadinca) no meio de militares, com o gen Spínola ao centro; ao fundo, à direita o nosso grã-tabanqueiro Paulo Santiago, na altura instrutor e comandante de companhia de milícias.

Fotos (e legendas): © Paulo Santiago (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Vd. também na RTP Arquivos o vídeo (5'14') (sem som, a preto e branco) , "General António de Spínola, Governador Geral da Guiné Bissau, visita campo de instrução de milícias em Bambadinca, na Guiné Bissau" (passou  na RTP, no noticiário nacional, em 24/10/1971).

Resumo Analítico (revisto e melhorado, RTP/LG):

(i) lápides e monumentos em memória de soldados mortos em combate colocados junto ao pau da bandeira e em frente ao edifício da escola local, pertencentes a várias unidades e subunidades que passaram por Bambadinca: CCAV 678 (1964/66),  BCAÇ 1888 (1966/68), Pel Mort 1192 (1967/69), BCAÇ 2852 (1968/70), Pel Mort 2106 (1969/70), CCAÇ 2590 / CCAÇ 12  (0'-23'');

(ii) helicóptero aterra; general Spínola (com o seu ajudante de campo, cap cav Lourenço Fernandes Tomás), desce do helicóptero e cumprimenta militares (24''-30'');

(iii) população local assiste à chegada do Governador e acompanha-o, saudando-o efusivcamente (31''- 38'');

(iv) Spínola dirige-se às milícias formados em parada; é acompanhado pelo cmdt do BART 2917, ten cor Polidoro Monteiro e pelo intendente Guerra Ribeiro;  milícias apresentam armas; Com-chefe em continência perante a parada e a passar revista às tropas; população aplaude (39'' - 1' 04'');

(v) general Spínola e individualidades militares na tribuna de honra; desfile militar; militares realizam exercícios físicos com arma e exercícios de obstáculos (1' 05'' - 1' 32'')

(vi) comitiva dirige-se à carreira de tiro (perto do destacamento da ponte do rio Udunduma, na estrada Xime-Bambadinca (alcatroada); milícias desmontam e montam a G3; General Spínola observa os militares durante o exercício; militares praticam tiro ao alvo e fazem fogo com morteiro 60 e LGFog; vista do campo de tiro (pareço reconhecer o José Luís Vacas de Carvalho, junto aos milícias que operam a bazuca, ele seria, na altura, o oficial de tiro) (1' 33 - 2' 03'');

(vii) visita as obras de construção da nova ponte do rio Udunduma; milícias simulam operação de guerra com progressão no mato (2' 04'' - 2' 50'');

(viii) regresso a Bambadinbca; Spínola e demais individualidades, militares (ten cor Polidoro Monteiro, major Carlos Fabião, cmdt do CAOP2 / Bafatá, ajudante de campo de Spínola...) e civis (intendente Guerra Ribeiro) percorrem o recinto e entregam ofertas aos mílicias; alguns são graduados; vista geral do recinto (2' 51'' - 3' 40'');

(ix) General Spínola e individualidades locais, apoiantes da "causa nacional" (incluindo o régulo de Badora) discursam (sem som) (3'41'' - 4' 13''):

(x) parte final: desfile militar; General Spínola conversa com militares, dirige-se para o helicóptero e despede-se; helicóptero descola (4'14'' - 5' 14'').



Guiné > Região do Cacheu > Outubro de 1964 > Tabanca de Caboiana > O chefe de posto do Cacheu, mais duas senhoras: (i) a esposa do chefe de posto; e (ii) a esposa do tenente [que o autor não diz quem é; seria o comandante do Pel Caç Ind 953, a quem o 1º cabo António Paulo Bastos pertencia?]

Foto (e legenda): © António Bastos (2015). Todos os direitios reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe (ou administrador) de posto de Bambadinca. Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; em 1972, no vídeo supracitado, aqui já era intendente, e colaborador próximo de Spínola).

Acrescente-se que esta gente tem sido ignorada por nós, aqui no blogue, e sobretudo pelos  historiadores académicos. Temos falado pouco destes homens que, de resto, conviviam pouco ou nada connosco, militares. Mesmo sendo nossos vizinhos... E, temos que o reconhecer,  foram "maltratados" depois da descolonização.  Como sendo os "maus da fita", a começar pelos cabo-verdianos, que levaram com o "rótulo" de "turras"; outros, os régulos, os cipaios, os milícias, etc. , "cães dos colonialistas". 

Mais de meio século depois, está na altura de rever o discurso da "diabolização colonial" e da "hagiografia revolucionária".  Por exemplo, Amílcar Cabral tinha um ódio de estimação ao António Carreira que foi administrador colonial, funcionário da Casa Gouveia e grande etnógrafo, estudioso da história e da sociedade tanto da Guiné como da sua terra, Cabo Verde...

Na Guiné (tal como em Angola ou em Moçambique), o administrador de circunscrição e o chefe de  posto não eram apenas burocratas (nem muito menos pequenos déspotas). Em vastas regiões do interior eram simultaneamente representantes do governo, gestores de conflitos, magistrados, coordenadores de obras públicas, recrutadores de mão-de-obra, coletores de impostos, responsáveis pelo recenseamento, interlocutores dos régulos e, por vezes, a autoridade mais visível do Estado (embora, com a guerra, suplantados pela tropa).  

Além disso, não eram todos "maus, racistas e colonialistas"... 

Essa dimensão,  prática, quotiana, de "interface",  ajuda a compreender porque tantas memórias locais (leia-se o nosso António Rosinha, o nosso Cherno Baldé...)  ainda hoje recordam "o administrador" ou "o chefe de posto" pelo nome próprio. Por boas ou más razões... Guerra Ribeiro e António Carreira, por exemplo, são dois nomes que nos vêm à memória. O primeiro transmontano, o segundo cabo-verdiano. 

E ainda há dias falámos aqui do caso do Agnelo Macedo (1925-1972),  chefe de posto de Catió, vítima de perseguição política, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e transferido compulsivamente para Moçambique.

No ultramar português, os administradores de circunscrição (ou de concelho) e os chefes ( ou administradores) de posto pertenciam a uma carreira específica da Administração Civil Ultramarina, integrada no funcionalismo público do Ministério do Ultramar e, portanto, distinta das carreiras da função pública na metrópole.

O recrutamento, a progressão e as atribuições destes funcionários eram regulados por legislação própria, nomeadamente pelo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino e pelos diplomas orgânicos dos Serviços de Administração Civil.

A hierarquia administrativa estruturava-se, de forma simplificada, da seguinte maneira:
  • Aspirante administrativo; categoria de ingresso na carreira, destinada aos candidatos em fase de formação e aprendizagem prática;
  • Administrador de posto ( tradicionalmente designado por chefe de posto): responsável pela unidade administrativa básica, assegurando o contacto direto com as populações, as autoridades tradicionais e os serviços locais do Estado;
  • Administrador de circunscrição ou de concelho: encarregado da administração de uma área territorial mais vasta, coordenando vários postos administrativos e exercendo amplas funções de governo local;
  • Intendente de distrito e inspector administrativo: categorias superiores, responsáveis pela coordenação, fiscalização e orientação dos serviços administrativos;
  • Inspector superior de administração ultramarina: um dos patamares mais elevados da carreira.

Ao longo do século XX, o acesso à carreira passou a estar fortemente associado à formação ministrada pela:
  • Escola Colonial (criada em 1906 e instalada na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa);
  • posteriormente Escola Superior Colonial (a partir de 1926/27) (em 1933 passa a ocupar o  Palacete dos Anjos, no Príncipe Real, ficou mais diretamente dependente do Ministério das Colónias);
  •  Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU) (a partir de 1954, integrando-se na Universidade Técnica de Lisboa com o início da guerra colonial em 1961);
  • e, mais tarde, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (1962-1974 (quando passa a ocupar o Palácio Burnay, na Rua da Junqueira);
  •  e finalmnete,  com o 25 de Abril,  ISCSP - Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP / UL).(em 2001 mudou-se para o Campus da Ajuda). 

Claro que hoje não é mais a escola de quadros da administerçáo colonial, já que Portugal "liquidou" o seu velho império...  A instituição, que comemora 120 anos,  nasceu por decreto de 18 de janeiro de 1906, durante a monarquia constitucional, no reinado de Dom Carlos, inserindo-.se  a  sua criação no  movimento europeu de profissionalização da administração colonial, semelhante ao que existia, de resto,  em países como a França, a Bélgica ou o Reino Unido.

O curso de Administração Colonial (e depois ultramarina) procurava preparar os futuros administradores para lidar com as realidades políticas, jurídicas, económicas, sociais e culturais dos territórios do Ultramar, muito diferentes das da Metrópole.

Entre as disciplinas lecionadas nesta escola de quadros da admistração colonial (e, depois, de 1951, ultramarina) encontravam-se o Direito Administrativo e Colonial, a Administração Colonial, a Antropologia, a Etnografia, a Geografia Económica, a História da Expansão Portuguesa, a Higiene Tropical,  Línguas Africanas e Orientais, e outras matérias ligadas às sociedades africanas e asiáticas. 

Diferentemente de um funcionário administrativo da metrópole, o administrador ultramarino acumulava frequentemente funções de:
  • representação do Estado;
  • administração local;
  • polícia administrativa;
  • recolha de impostos;
  • recenseamenmto da população;
  • coordenação de serviços públicos; 
  • relacionamento com as autoridades tradicionais, etc.
Nas regiões mais afastadas dos centros urbanos, era frequentemente a figura que personificava a presença do Estado português perante as populações locais.

2. Outro tema a explorar no nosso bloguye seria o desenvolvimento  da etnografia / antropologia coloniais já no séc. XX... Vários administradores coloniais portugueses atuaram também como antropólogos ou etnógrafos. 

Durante o século XX, a própria administração ultramarina incentivava estes funcionários a recolher dados culturais e físicos para melhorar o controlo e a governação das populações locais. 

A partir de 1945, por exemplo, o concurso para administrador de circunscrição passou a exigir obrigatoriamente a apresentação de uma "monografia etnográfica original".

Um dos momes mais conhecido é o do cabo-verdiano António Carreira (que tem mais de 45 referências no nosso blogue). Foi mais tarde funcionário da Casa Gouveia e, ao que parede, injustiçado (e até diabolizado) na história do 3 de Agosto de 1959 (o chamado massacre do Pidjiguiti). 

António Barbosa Carreira nasceu na Ilha do Fogo, em 1905. Morreu em Lisboa, aos 82 anos, em 1988. 

3. Fontes a consultar (legislação e regulamentação) | Sitografia:

Decreto n.º 44 241, de 19 de março de 1962:  Orgânica dos Serviços de Administração Civil do Ultramar > Define a hierarquia do quadro administrativo (inspectores, intendentes, administradores de circunscrição e de posto).

Decreto n.º 46 982, de 27 de abril de 1966:  Aprova o novo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino.

Decreto n.º 48 792, de 24 de dezembro de 1968:
  Reorganização dos serviços de administração civil e atualização das categorias administrativas.

História institucional do atual ISCSP, herdeiro da Escola Colonial (1906), Escola Superior Colonial, ISEU e ISCSPU. A ligação da escola à formação dos quadros administrativos ultramarinos está bem documentada.
______________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2013 > Guiné 63/74 - P11288: (De) caras (13): Guerra Ribeiro, natural de Bragança: de administrador colonial no tempo do Schulz a intendente no tempo de Spínola (Paulo Santiago / Cherno Baldé / António Rosinha)

(...) No poste P11281 (...) fala-se do Guerra Ribeiro, Administrador de Bafatá. Conheci a pessoa num dia em que apareceu no Saltinho,e lá pernoitou.

Mais tarde, apareceu em Bambadinca na cerimónia de encerramento do curso de Milícias. Nesta altura, já não era Administrador, era Intendente, e penso que estava em Bissau, mas sei muito pouco sobre estes cargos da Administração Civil.

(...) Voltei a Bambadinca em Janeiro de 72 e, durante o novo curso de milícias, tive duas visitas do Com-Chefe, uma aí pelo meio e a outra no final tendo, desta vez, sido cumprido todo o programa de encerramento, que incluiu uma deslocação de viatura à carreira de tiro, que ficava para lá do destacamento da Ponte de Udunduma, a caminho do Xime. (...)

Nas fotos juntas, Março de 72, aparece o então Intendente Guerra Ribeiro. Na primeira, é a pessoa de farda amarela, atrás do Polidoro Monteiro e do Spínola. Na segunda, está a olhar para o lado esquerdo, e vê-se, também fardado,um outro elemento da Administração Civil que não sei quem é. (...)

(**) Último poste da série > 19 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74)

quarta-feira, 11 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27810: Os nossos médicos (93): ten cor médico António Campos Felino de Almeida, falecido em 28/1/2011; em 24 de junho de 1969 era diretor do HM 241, em Bissau


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4

RTP Arquivos > 1994 > Reportagem sobre o antigo HM 241, em Bissau, com assinatura da jornalista Fátima Matos Lima: passou no Telejornal da RTP1, em 25 de agosto de 1994. Não são propriamente fotogramas do vídeo, mas fotografias obtidas do seu visionamento (a exibição do conteúdo está sujeito a licença da RTP Arquivos).

Na foto nº 1,  o antigo diretor Felino de Almeida, comenta, desolado, as imagens da brutal degradação por incúria e abandono do seu antigo hospital (que depois da independência ainda integrou o complexo militar "3 de agosto") (Fotos nºs 2, 3 e 4).


O que restava do antigo HM 241 foi entretanto demolido em 2025 (*).



Ministério do Exército > CTIG > Hospital Militar nº 241 > Bilhete de identidade do alf mil médico José António Pardete da Costa Ferreira, nosso grão-tabanqueiro, já falecido. O documento emitida em 24 de junho de 1969 tem a assinatura do comandante, Felino de Almeida, major médico.


1. Já tínhamos, no nosso blogue, uma ou outra referência ao médico militar Felino de Almeida  (**). Em 1969 ele era diretor do HM 241, como se comprova pela cópia do BI do alf mil médico José Pardete Ferreira (1941-2021).

Foi também pelo dr. Pardete, que vivia em Setúbal, que soubemos que este antigo diretor do HM 241 já tinha falecido em janeiro de 2011 (***)

Por pesquisa na Net, e com base nas Ordens do Exército Português, descobrimos que:

(i) morreu em 28 de janeiro de 2011;

(ii) com o posto de tenente-coronel médico;

(iii) pertencia à Secção de Apoio / RRRD;

(iv) chamava-se, de seu nome completo,  António Campos Felino de Almeida;

(v) e devia viver no Porto.

Com base numa ferramenta de IA, ficamos a saber que a sigla RRRD refere-se à Repartição de Recrutamento, Reserva e Disponibilidade.

Esta repartição está inserida na Direção de Administração de Recursos Humanos (DARH) do Exército Português e é responsável por processos administrativos relacionados com o pessoal militar, tais como: gestão de situações de licença ilimitada; processos de reserva e disponibilidade de oficiais, sargentos e praças. A secção de apoio (SecApoio/RRRD) dá suporte a estas áreas.

Diz o Virgínio Briote (*) que o Dr. Felino de Almeida (***) tinha consultório na cidade do Porto. 

O que foi confirmado por nós: tinha a especialidade de dermatologia e venereologia, e o agendamento de consultas, na cidade do Porto, ainda se mantém ainda hoje "on line" (!), quinze anos depois da sua morte (na plataforma Doctoralia).

2. Também o nosso camarada Manuel Freitas (ex-1º cabo escriturário, HM 241, Bissau, 1968/70,  empresário, técnico de contabiliudade e de seguros), que vive em Espinho e que há anos organiza o encontro anual do pessoal desta unidade de saúde, escrevia o seguinte, em 2011 (****), em comentário ao António Paiva (que infelizmente desapareceu há muito do nosso radar, tudo levando a crer que terá morrido em 2017/2018) (*****):

Olá,  Paiva,

Não compreendo porque andei tanto tempo sem consultar este blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné. Já estava desatualizado porque, organizando há já 9 anos convívios com os ex-militares do HM 241, onde já estiveram o Dr. Felino de Almeida (diretor do hospital do nosso tempo), o Dr. Diamantino, o Dr.Rui Meireles, o Dr. Ventura e outros, não consegui trazer-te para este evento que por certo vais gostar pois junta a malta de 1967 a 1971.

Das histórias que contas lembro-me do resultado desta cobiça.(**)

Lembras-te daquela africana que veio evacuada, trazendo alojada numa anca, uma granada, e foi um espetáculo a preparação no bloco para retirar sem rebentar?

Vou inscrever-me no blogue e depois conto algumas histórias que tenho registadas no meu álbum. 

Sou o Manuel Freitas e estive no HM 241 de 1968 a 1970,  era o treinador e jogador da nossa equipa de futebol. (...) 
Manuel Freitas.


(*****) Vd. poste de 3 de maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22168: Desaparecido do nosso radar (1): António Duarte de Paiva, ex-sold cond ambulâncias, HM 241, Bissau, 1968/70

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27113: A nossa guerra em números (31): Angola e Moçambique: População europeia total: ~535 mil / 600 mil | Total geral de "retornados" (incluindo os restantes territórios): c. 500 mil / 520 mil pessoas


Angola > Colonato de Cela > Aldeia de Freixo >  Família de colonos, oriunda do distrito da Guarda, uma das 22 que partiram para Angola, em 10 de março de 1953. Do lado direito, um padre católico, missionário, de chapéu colonial na mão.  

Fonte: Capeia Arraiana, 10 de março de 2015 (com a devida vénia...)


Legenda:

"Colonos da Guardam parte para Angola: 

No dia 10 de Março destacamos a partida de Lisboa de famílias do distrito da Guarda para colonizarem Angola em 1953.

Há 62 anos 22 famílias oriundas do distrito da Guarda partem de Lisboa para Angola a bordo do navio Benguela, a fim de se fixarem no planalto Amboim.

Salazar quis colonizar as terras do interior angolano enviando da metrópole pessoas oriundas da província, de modo a construir as chamadas 'aldeias novas', que constituíam os Colonatos. 

As habitações eram similares às das aldeias de onde os colonos eram originários e o objectivo era a exploração agrícola dos terrenos angolanos.

Muitas dessas aldeias receberam os nomes das aldeias de onde os camponeses eram originários. Exemplo disso foram as aldeias de Vimieiro, Freixo e Santiago de Adeganha, que faziam parte de um conjunto de 15 aldeias, que foram sendo construídas ao longo do Rio Cossoi, na região de Cela, distrito de Cuanza Sul, na zona de transição entre as regiões cafeícolas e o Planalto Central Angolano, cobrindo uma área de cerca de 300.000 hectares.

Os novos colonos foram instalados pela Brigada de Colonização Europeia dos Serviços de Agricultura. Em Maio de 1951, foram iniciadas as obras de instalação. A 23 de Julho de 1952, por força da Portaria Provincial nº 7884, foi criada a Secção de Colonização, sediada em Nova Lisboa (Huambo), à qual ficaram afectos as obras de colonização da Cela e os Colonatos de Caconda e 31 de Janeiro. Os primeiros colonos chegaram ao Colonato de Cela, mais precisamente à aldeia do Vimieiro."

(Ver aqui, nos Arquivos da RTP, um documentário de 20' 26'', sobre o Colonato de Cela, com data de 22 de março de 1961.  Foi um dos maiores e mais ambiciosos projetos agrícolas de colonização branca em Angola, implantado nos anos 1950 na região do planalto do Cuanza-Sul, mais precisamente na Cela, na altura, Santa Comba Dão, hoje município do Waku Kungo, a cerca de 300 km a sudeste de Luanda.)

Fonte: Capeia Arraiana (jornal regiuonal "on line", diário, de .acesso gratuito. Tem âmbito: nacional mas "privilegiando o concelho do Sabugal, a região raiana, os distrito da Guarda e de Castelo Branco, as Beira Alta e Beira Baixa e a emigração").

 

1. O termo “colonos”, em Angola e Moçambique (mas também em São Tomé e Príncipe e, em menor grau, na Guiné.Bissau)  remete para uma  categoria algo difusa. 

Nos últimos anos da guerra colonial / guerra do ultramar  havia uma percentagem relevante de população de nacionalidade portuguesa que estava em África de forma não permanente (sobretudo militares e pessoal administrativo destacado).


(i) Angola (1974)

População europeia total: ~335 mil /350 mil

Distribuição aproximada:

  • colonos permanentes (famílias, comerciantes, agricultores, técnicos, etc.): ~270 mil / 280 mil;
  • funcionários civis do Estado (professores, médicos, enfermeiros, magistrados, etc.): ~15 mil /  20 mil
  • militares destacados (rotação 2 anos, incluindo quadro permanente e milicianos): ~40 mil / 50 mil

Observação: Angola tinha um núcleo urbano e rural de colonos estáveis (alguns de há 2 ou 3 gerações), sobretudo no planalto central e em Luanda.

(ii) Moçambique (1974)

População europeia total: ~200 mil  / 250 mil 

Distribuição aproximada:

  • colonos permanentes: ~160 mil /  180 mil;
  • funcionários civis: ~10 mil / 15 mil;
  • militares destacados: ~25 mil /  35 mil

Observação: Lourenço Marques (hoje, Maputo) concentrava cerca de ⅓ dos europeus; havia também forte presença na Beira, Nampula e zonas de agricultura do Vale do Zambeze.


(iii) Total Angola + Moçambique


População europeia total: ~535 mil / 600 mil

  • colonos permanentes: ~430 mil / 460 mil
  • funcionários civis: ~25 mil / 35 mil 
  • militares destacados: ~65 mil / 85 mil 

(iv)  O êxodo

“Colonos”: 

  • a categoria não engloba todos os europeus; 
  • nos censos coloniais, “europeu” incluía não só os colonos permanentes, mas também militares em serviço temporário e pessoal administrativo que não tinha intenção de permanecer.

Grande parte dos militares regressou a Portugal logo em 1974/75; a saída massiva de famílias de colonos aconteceu entre meados de 1974 e 1976.

Em Angola, a transição para a independência (1975) foi acompanhada de guerra civil e violência urbana, acelerando o êxodo. 

Em Moçambique, o Acordo de Lusaca e as políticas iniciais da FRELIMO levaram também a uma saída rápida, embora um pouco mais ordenada.

2. Quais as estimativas mais credíveis do número de  “retornados” que chegaram a Portugal, vindos de Angola e Moçambique em 1974, 1975 e 1976 ?

Vamos então ao número dos “retornados” (termo usado em Portugal para designar quem regressou das antigas colónias após 1974).

Convém ter presente que:

  • o termo abrangeu sobretudo civis (colonos permanentes e funcionários),
  • mas também militares do quadro permanente que decidiram não permanecer em África;
  • a maior parte regressou entre meados de 1974 e final de 1976;
  • os registos não são perfeitos: alguns vieram para Portugal via outros países (África do Sul, Brasil, etc.), outros ficaram em trânsito.

Estimativas mais sólidas (base: Comissão de Apoio aos Retornados e dados do SEF)

(i) Angola

Total estimado de retornados: ~310 mil / 330 mil.

Pico de chegadas: junho / novembro de 1975, coincidindo com a intensificação da guerra civil e a retirada das tropas portuguesas.

Inclui: famílias de colonos, pessoal técnico, comerciantes, agricultores e parte do funcionalismo público.

(ii) Moçambique

Total estimado de retornados: ~180 mil / 200 mil.

Pico de chegadas: agosto de 1975 / início de 1976, sobretudo após as nacionalizações de empresas e imóveis em 1975.

(iii) Outras colónias:

Guiné-Bissau: ~3 mil / 5 mil (a maior parte militares e funcionários civis).

Cabo Verde: ~20 mil /25 mil

São Tomé e Príncipe: ~15 mil / 20 mil


(iv) Total geral de “retornados” (1974–1976)

Estimativa mais consensual: c. 500 mil / 520 mil  pessoas.

Aproximadamente 62/65%  (menos de 2/3) vieram de Angola, 35/36% (pouco mais de 1/3) de Moçambique, e uma pequena fração das restantes colónias.

(v) Conclusão:

Estes valores confirmam que o número de colonos permanentes em Angola e Moçambique somado era claramente inferior a 1 milhão. 

Os "retornados" representam, grosso modo, a quase totalidade dessa população fixa de origem europeia, já descontando militares temporários.




(Pesquisa: LG / ChatGPT / Revisão e fixação de texto, negritos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27110: A nossa guerra em números (30): 17 milhões de portugueses perderam a nacionalidade com a descolonização e a independência dos antigos territórios do "ultramar português" em África

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26212: (Ex)citações (431): Ainda o caso do nosso saudoso António da Silva Baptista (1950-2016), o "morto-vivo": nas vésperas do "verão quente de 1975" era herói da literatura de cordel nas feiras e romarias do Norte



Fotogranma de vídeo da RTP Arquivos  > Programa: Memórias da Revolução: Soldado António Silva Baptista (passou na RTP, em 2 de junho de 2015; duração: 1'13''). Foto: LG (2024)
 

1. Em junho de 1975, nas vésperas do "verão quente de 1975", nas feiras e romarias do Norte,  o nosso querido António da Silva Baptista (1950-2016), o "soldado morto-vivo", era herói da literatura de cordel... 

Em junho de 1975, nas romarias, a sua história, ao lado de outros dramalhões,  era vendida em folha de jornal. de grande formato, com o título "Dor, Lágrimas e Alegria", ao preço de 5 escudos (o equivalente, a preços de hoje, a 1 euro; no vídeo, que é de 2015, a 69 cêntimos)...Com direito a lágrimas de dor e alegria,  à mistura com  a música de acordeão...

Sabemos como foi o princípio,  meio e fim (*)... Menos de um ano depois, em junho de 1975 ele já era uma lenda: feito prisioneiro do PAIGC em 17 de abril de 1972, e trocada a sua identidade com outro camarada (o António Ferreira, 1950-1972,  que esse, sim, foi efetivamente umas das vítimas mortais da brutal emboscada do Quirafo), só foi libertado em setembro de 1974  (por troca de prisioneiros entre as NT e o PAIGC)... 

Em junho de 1975 a sua história, mesmo mitificada, já era connhecida e os cantadores ambulantes de feiras e romarias já ganhavam uns cobres com ela, narrando o seu drama: prisioneiro, incomunicável,  sem ninguém saber que  estava vivo, fez parte das partilhas do que sobrou da Guiné... Entretant0o, já tinha  sido enterrado em 1972 (por troca de identidade com o António Ferreira) ...Voltaria à sua terra, Moreira da Maia, para espanto dos vivos, e iria visitar a sua própria campa em 18 de setembro de 1974. 

Eu próprio me emocionei,. quando há dias descubri este vídeo da RTP (**)...que merece ser partilhado com os nossos leitores.

2. Sinopse e ficha técnica do vídeo (que pode ser visto acima, no sitío da RTP > Arquivos, e conteúdo está sujeito a licenciamento razão por que não o podemos pôr aqui diretamente):

Programa de caráter histórico que assinala as comemorações dos 40 anos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), que ocorreu entre 11 de março e 25 de novembro de 1975, com destaque para a história de António Silva Baptista, o soldado "morto-vivo", dado como morto na Guiné em abril de 1972, quando na verdade tinha sido feito prisioneiro pelo PAIGC.

Ficha técnica:

Nome do Programa: Memórias da Revolução: Soldado António Silva Baptista

Nome da série: Memórias da Revolução

Locais: Lisboa

Temas: História, Política

Canal: RTP 1

Data: 2015-06-23

Duração: 00:01:13

Menções de responsabilidade:

Autoria: Instituto de História Contemporânea e RTP - Série promovida pelo Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL em parceria com diversas instituições.

Tipo de conteúdo: Programa

Cor: Cor

Som: Stereo

Relação do aspeto: 16:9 PAL


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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 25 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15899: Recortes de imprensa (79): Uma "histórica" entrevista dada, em 18/9/1974, pelo António da Silva Batista (1950-2016) ao extinto "Comércio do Porto", quando regressou ao "mundo dos vivos" (Mário Miguéis da Silva, ex-fur mil rec Inf, Bissau, Bambadinca e Saltinho, 1970/72; vive hoje em Esposende)

(**) Último poste da série > 12 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 – P26146: (Ex)citações (430): Habitações palacianas de Gabu (José Saúde)

quarta-feira, 13 de março de 2024

Guiné 61/74 - P25267: 20.º aniversário do nosso blogue (3): Alguns dos nossos melhores postes de sempre (III): "Liberdade ou evasão: o mais longo cativeiro da guerra", de António Lobato (1938-2023) (excertos do livro e notas de leitura de Mário Beja Santos)

 

António Lobato (1938-2024), maj pil av ref  (*): 
É bem evidente a marca da catanada na região frontal, que lhe foi desferida em 22 de maio de 1963, na ilha do Como, por um habitante local.


O António Lobato entrevistado em 1996, num programa da RTP1, "Operação Mar Verde - Parte l", Série "Enviado Especial",  apresentado pelo  jornalista José Manuel Barata-Feyo,   em 7 de julho de 1997. Fotograma capturado e editado, com a devida vénia à RTP Arquivos. (Vídeo: 17' 38'').
 


I. é uma pequena homenagem do nosso blogue ao camarada maj pil av ref António Lobato (Melgaço, 1938 - Lisboa, 2024) (**). Reunimos aqui alguns excertos do seu livro "Liberdade ou Evasão: o mais longo cativeiro da guerra", que teve pelo menos 5 edições (entre 1995 e 2014). A maior parte dos nossos leitores nunca o leu. 

O nosso crítico literário, Mário Beja Santos, recenbseou  aqui a 2ª (1996) e a 5ª edição (2014). Reunimos, entretanto, o essencial das suas notas de leitura: P20534, P20555, P20577 (com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)



Capa da primeira ediçáo (1995, Erasmios, Amadora)

´

Capa da quinta ediçáo (2014, DG, Linda-A-Velha)


1. A narrativa do major pil av António Lobato melhora de edição para edição, estou consciente que este aprimoramento vem da reflexão a que ele tem procedido, o que dá um caráter mais intimista à história do seu cativeiro. E, no entanto, somos agarrados sem qualquer possibilidade de despegar a nossa atenção tão avassaladora, veja-se logo aquela aterragem que lhe salva a vida em condições excecionais:  

"O ponto de contacto com o solo confirma-me a justeza do planeamento, mas surge um imprevisto que do ar foi impossível de detectar - o terreno não é totalmente liso; sulcos profundos, espaçados metro a metro, cortam-no de lés a lés. É uma bolanha, terreno preparado para a cultura do arroz. 

"Ao intradorso das asas do T-6 estão suspensas duas metralhadoras Browning, saliências que, ao entrar nos sulcos da bolanha, oferecem uma forte resistência ao deslizar do avião no solo. Atendendo a que este tipo de aterragem é feito com o trem recolhido, o entrar das metralhadoras num dos sulcos teve o efeito de arrancar instantaneamente as asas à aeronave. Fico sentado dentro de um charuto que rebola agora dentro de si mesmo, ao longo do terreno".

E assim vai começar o cativeiro, o mais longo cativeiro da guerra. Um relato superior, de um homem que soube superar a adversidade, que procurou fugir, mas que teve que esperar pela Operação Mar Verde para ser restituída a liberdade. (...)
 

2. (...) No prólogo das diferentes edições do seu livro, dá-nos uma síntese dos acontecimentos e da situação que viveu, nestes termos precisos:

“Em 1963, no céu português da Guiné, dois aviões da Força Aérea colidem na sequência de uma missão de ataque ao solo e após um deles ter sido atingido por projécteis inimigos.

"Um dos aparelhos despenha-se em plena selva e o piloto morre; o outro, aterra de emergência numa bolanha e o piloto, depois de agredido à catanada pela população local é capturado por guerrilheiros do PAIGC e conduzido à vizinha República da Guiné Conacri. Aí, é-lhe facultado optar entre e deserção e a cadeia.

"Optando pela fidelidade aos princípios do seu povo, é encarcerado na temível Maison de Force de Kindia, com o rótulo de criminoso de guerra.

"Durante sete anos e meio é submetido a maus-tratos, subnutrição, isolamento e contínuas ameaças de morte pelos agentes de um governo pró-soviético chefiado por um dos maiores tiranos da África Ocidental – Sékou Touré.

"Tenta três vezes a evasão, mas só na última consegue respirar, durante uma semana, o ar fresco da liberdade. Percorre cerca de noventa quilómetros em plena selva, atravessando a cadeia montanhosa do Futa Djalon em direção à Guiné Portuguesa. Ao sexto dia, é recapturado e reconduzido à prisão de onde partira.

"Ao cabo de mês e meio de total isolamento, é transferido de prisão e libertado, tempos depois, durante a Operação Mar Verde, chefiada pelo Comandante Alpoim Calvão.

"É por instâncias de familiares e amigos, por dever de cidadania e para comemorar os vinte e cinco anos do regresso à liberdade que hoje se propõe condensar em curtas páginas, não apenas os horrores, mas sobretudo algumas das vias possíveis de sobrevivência no meio hostil e o consequente enriquecimento da pessoa humana, quando, perante situações-limite, consegue vencer-se a si próprio”. (...)

Não se irá aqui cotejar as inúmeras alterações introduzidas de edição para edição. O que se pretende relevar é a melhoria substancial da qualidade literária e a introdução de um processo intimista, em edição recente, António Lobato revela as estratégias de que se socorreu para que a tremenda solidão da clausura não o destruísse, pelo menos moral e psicologicamente.

Fala-nos da sua juventude  em Paderne, como se alistou jovem na Força Aérea, depois temos o curso de pilotagem em S. Jacinto, a fase básica na Base Aérea n.º 1 em Sintra, em 22 de maio de 1958, um acidente quase que o ia matando, após dois meses de imobilização, e ao fim de cerca de oito meses de treino intensivo, ei-lo pronto para voar mais alto. Tem 21 anos e é-lhe confiada a tarefa e a responsabilidade de ensinar outros a voar. E, como ele escreve, em 1960 rebenta a guerra colonial.

 A Força Aérea não possui na Guiné qualquer tipo de estrutura. Em julho de 1961, em companhia de um outro camarada, seguirá para a Guiné em missão de soberania. 

Em 19 de setembro de 1961 descola pela primeira vez da pista de Bissalanca aos comandos de um T-6. Descreve com incisão e economia todos estes acontecimentos, casa-se, regressa à Guiné com a mulher e em 21 de maio de 1963 parte em missão para a Ilha do Como, um acidente obriga-o a uma aterragem de emergência, aterra no Tombali, é ferido e levado por guerrilheiros do PAIGC para território da Guiné Conacri.

Não é despiciendo observar como naquela região do Tombali há população afeta ao PAIGC e os guerrilheiros movimentam-se com certo à-vontade. A guerrilha tinha capturado um barco da Sociedade Comercial Ultramarina, de nome Bandim, transportará Lobato para o cativeiro. 

É bem tratado em Sansalé, tem feridas graves na cabeça e num braço. Seguem no Bandim até Boké. Segue-se um prolongado interrogatório. É interrogado, pretendem saber qual o regime político em Portugal, o que ele sabe da situação colonial, Lobato remete-se ao silêncio, depois de ter dado os seus dados militares, depois de uma longa viagem entra na Maison de Force de Kindia.  

(...) “Entramos num hexágono aberto para o céu, com duas portas em cada um dos seis lados. Encaminham-me para a direita e indicam-me uma dessas portas, em ferro maciço, com o número 7 ao centro, encimada por uma grelha, feita em varão de diâmetro não inferior a 3 centímetros. 

"Entro e a pesada porta fecha-se atrás de mim com aquele ruído sinistro das portas de todas as prisões do mundo. Dou quatro passos e chego ao fim do espaço de que posso dispor. 

"Do lado direito, fazendo corpo com a parede e até dois terços de comprimento, ergue-se, até à altura de sessenta centímetros, um bloco maciço de cimento armado sobre o qual assenta um velho colchão de pano cheio de palha. Depreendo que é a minha cama. 

"Não sei bem porquê, mas sinto um forte cansaço. Sinto-me deprimido como antes nunca me tinha sentido. Apetece-me chorar. Atiro-me para cima da palhaça e não consigo conter os soluços que me sufocam. Choro tudo o que tenho a chorar e adormeço no cume da infelicidade”. (...)

Segue-se a descrição do dia-a-dia, ele é o prisioneiro da cela n.º 7, falam-nos do currículo de Sékou Touré e como ele mantém o seu regime de terror; vamos saber como é a sua cela, a degradação a que vai ser sujeito, o início da sua luta para se manter corajoso. 

A condição física começa a dar sinais de ruína, como ele próprio comenta:  

(...) “Porque não como uma boa parte das magras refeições, sinto que vou perdendo, lenta mas seguramente, toda a pujança da juventude; porque não me é fornecido qualquer tipo de medicamento, começa a ter fortes ataques de paludismo; porque a alimentação é pobre demais, a cárie dentária torna-se num flagelo; porque permaneço imóvel horas sem fim, começo a ter problemas de bexiga, a urinar pus e a sentir dores de barriga e cólicas insuportáveis. 

"Os ataques de paludismo surgem a uma cadência semanal e manifestam-se por acessos de frio, que me obrigam a bater os dentes durante horas, seguidos de vagas de calor, que me deixam exausto e banhado em suor. As dores de dentes, por vezes são tão intensas que me perturbam a visão e provocam vómitos e tonturas próximas do desmaio. A degradação do meu estado físico, se, por um lado, é dolorosa e me perturba a mente, por outro, prende-me o pensamento ao corpo e não me deixa grandes hipóteses de fuga em busca de recordações bem mais amargas que as dores da carne”. (...)


3.  (...) Descreve primorosamente a luta para se manter racional, para ir resistindo a um corpo que perde tonicidade, ocupa a mente e um dia vem até ao pátio, o recluso pode conviver.

Começam as peripécias, com todos os riscos: escreve à família, dá a sua localização, várias vezes procura a evasão, sempre sem sucesso. A liberdade irá chegar a 22 de novembro de 1970, no decurso da Operação Mar Verde. 

O seu regresso deixa-o atordoado, não pode falar do seu cativeiro, vai à televisão contar umas patranhas. E volta ao seu mundo dos aviões. E terminará o dia numa conferência citando o personalista cristão Emmanuel Mounier:

"Falta uma dimensão ao homem que não conheceu a prisão".

Não se entende como esta obra não encontrou um editor comercial, é um testemunho único. Vamos agora à edição de 2014, o agora Major Lobato remexeu na obra, deu-lhe outra palpitação sem renegar o escopo inicial. Esta edição catapulta o testemunho de Lobato para o patamar das grandes obras da literatura da guerra da Guiné.


4. Estamos a seguir de perto a edição de 1995, mais tarde tomar-se-á em conta as edições introduzidas na 5.ª edição, de janeiro de 2014, ver-se-á como o testemunho do Sargento Lobato ganhou em vibração literária, em intimismo, em vigor sobre a reflexão de um cativeiro. Ele é o preso da cela n.º 7, em Kindia, Guiné Conacri. 

Procura aperceber-se de quem são os outros presos, vai-se cronometrando com as rotinas, o dia que começa com várias portas de ferro a ranger nos gonzos, as latrinas fétidas removidas das celas, Lobato tem dois baldes, um deles serve de sanita, o outro contém água para beber, para se lavar e para substituir o papel higiénico. 

Põe a mente a funcionar, é preciso resistir à loucura ou ao embrutecimento. Os sentidos afinam-se, a sua capacidade de sobreviver também. O almoço é constituído por quatro bananas cozidas. Pesquisa à volta, põe os sentidos a funcionar, passa por um estado de dormência.

(...) “A minha cabeça está dorida e muito sensível. O simples toque dos dedos nos cabelos parece fazê-los enterrar-se, como espinhos, pelo crânio dentro. Este voltar do meu interesse para o corpo diz-me que continuo consciente da realidade vulgar, mas alerta-me também para outra realidade, muito mais real: é que bastou um simples avivar de sentimentos, provocado por um olhar para o firmamento, para desfazer a ilusão em que sempre tenho vivido de que o corpo sou Eu”. (...)

Põe os ouvidos à escuta, adapta-se às rotinas da prisão, às orações dos muçulmanos, toma consciência de que perde tónus, surgiu a cárie dentária, há momentos de grande desânimo:

(...) “Há cerca de três meses que oscilo entre o ser e o nada. Ou enlouqueço, ou me anulo, ou faço qualquer coisa para sobreviver até onde for fisicamente possível. Este estado caótico dentro de mim chegou ao limite do suportável. Isto que agora me tritura a alma, deve chamar-se desespero”. (...)

Dá luta aos percevejos, vai descobrindo a resiliência, tudo faz para se manter lúcido, doseia a plena atenção com o entorpecimento:

(...) “Quando o coração já não é mais que uma chaga e nem sequer reage aos golpes do punhal da lembrança; quando já não posso mais porque o cérebro, extenuado, se recusa a pensar por mais tempo e a evocar ou a lembrar-se; então a besta reclama, atiro-me para cima do catre e adormeço profundamente. 

"Ao acordar, tudo renasce, recomeço a evocar, a lembrar-me, de novo a sofrer mas com resignação. Consolo-me com a vitória de ter enfrentado a dor, de a ter vencido, de não lhe ter fugido e de ter ganho qualquer coisa de muito preciso que me ajuda a crescer”. (...) 

Depois de um ano de isolamento, é-lhe facultada uma hora de recreio todos os dias, pode agora observar seres humanos e aperceber-se melhor de tudo quanto se passa dentro da prisão. Encontra leprosos, tuberculosos, sifilíticos, gente que vai morrer. 

Então encontra alguém que se chama Chambord Lambert Joseph Alexandre Raymond e que lhe abre espaço para escrever para o exterior. Em 28 de novembro de 1964, da sua cela vedada com cimento e ferro, sai um código e o relatório da missão do dia 22 de maio de 1963, junta informações sobre a prisão em que se encontra, dedica alguma poesia a pessoas que ama profundamente, é de uma extrema beleza a mensagem que manda à mulher:

(...) “Durante toda esta ausência que tanto nos faz sofrer, neste abismo de miséria que submerge, nas horas que tudo me abandona, a fé inclusive, é sempre a tua imagem que me ajuda a flutuar, que me impede do naufrágio irreparável”. (....)

Encontra outro soldado português capturado, António Lauro, de Sernancelhe. Recebe propostas do PAIGC para denunciar a guerra colonial e partir para o exílio, tudo recusa. Aparecem dois graduados portugueses, Rosa e Vaz. Rosa é alferes miliciano e foi capturado em Bissássema, virá a escrever o seu testemunho, cuja recensão existe no blogue. O testemunho de Lobato vai falar das tentativas de fuga e os seus insucessos, na última andará uma semana a monte.

E em 22 de novembro de 1970, acontece a liberdade. Durante a Operação Mar Verde, um grupo assalta a prisão e liberta os 23 cidadãos portugueses, prisioneiros de guerra. Atravessam Conacri e embarcam num vaso da Armada, Lobato é apresentado a Alpoim Calvão, este está inquieto, teme que os aviões MIG, que não tinham sido destruídos, possam vir no alcance dos navios da Armada. Mas nada acontece, o contingente regressa até à ilha de Soga, daqui Lobato é transportado para Bissalanca.

Em 26 de novembro, todos os prisioneiros de guerra aterram na Portela e vão no autocarro para o Forte de Catalazete, estão oito dias consecutivos trancados numa sala com luz artificial e guardados por dois inspetores da DGS. 

Lobato interroga-se se saiu de uma prisão para entrar noutra. Ao fim de oito dias, aparece um coronel da Força Aérea com a missão de propor a liberdade desde que se comprometa a guardar segredo sobre o que sabe do desembarque em Conacri e ir à televisão contar uma evasão fictícia. Lobato está estarrecido, tem que aceitar.

Finalmente vai encontrar-se com a família, segue com a mulher e os pais para Melgaço, onde é recebido apoteoticamente. 

Passam-se meses sem que a Força Aérea o convoque, Lobato escreve uma carta a Marcello Caetano, é então chamado a Lisboa onde o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea o recebe com gritaria e ameaças. 

O importante é que Lobato volta aos aviões, termina o seu relato falando de uma conferência que fez na Academia da Força Aérea e onde referiu que o choque que o indivíduo sofre quando é brutalmente retirado do seu ambiente habitual e colocado em condições precárias de sobrevivência coloca-o frente a frente consigo como se de duas pessoas distintas se tratasse. 

É uma luta transfigurante, tão intensa como a dialética interior à procura de uma fresta que mantenha o homem no limiar da razão. Lobato conseguiu fundir numa união racional aquilo que prevalece do homem social com o indivíduo.

(...) “A partir do instante em que há passagem do ponto crítico com luz à reconciliação, acede-se a um estado de paz interior, a uma lucidez parente próxima da clarividência, a um racionalismo em que nada existe de insignificante. O que ainda resta da emotividade, reflete-se apenas em esporádicas euforias provenientes de um sentir, revelador da aquisição de qualquer coisa nova que nos sobredimensiona e que Mounier (filósofo francês, criador do personalismo cristão) exprime melhor do que ninguém:

- ‘Falta uma dimensão ao homem que não conheceu a prisão’.” (...)


5. Na última parte  iremos abordar as adições que acabam por valorizar este testemunho e tornar o depoimento de Lobato uma das memórias mais impressivas de toda a guerra colonial que os portugueses viveram entre 1961 e 1975.

António Lobato mexe e remexe no seu poderoso testemunho, de edição para edição:

 (....) Verificam-se aprimoramentos que, é o meu pensar, tornam este documento imorredoiro na história da literatura da guerra da Guiné, pegam-se em duas descrições, uma a fulgurante aterragem depois do acidente aéreo no regresso da Ilha do Como, é de uma vivacidade impressionante, incluindo não só os gestos necessários à pilotagem mais adequada às circunstâncias como o texto faz fé ao estado de alma de quem vai procurar sobreviver; o segundo texto é uma narrativa de cativeiro, releva o macabro da sordidez do presídio, o macabro e o nauseabundo de toda aquela escravidão a que estavam submetidos os adversários de Sékou Touré.

6. (...) Temos agora uma narrativa ainda mais vigorosa e em muitos pontos ganhou intimismo, espelhando os altos e baixos de um cativo que descobre força anímica para acreditar em si próprio e tentar escapar ao degredo.

A primeira descrição relaciona-se com o acidente aéreo, tem mais detalhe, dinâmica, a clara perceção do risco, a mestria da operação para aterrar em condições excecionalmente hostis:

(...) “O meu avião continua a vibrar como que sacudido por uma peneira gigante, devido ao desequilíbrio provocado pelo hélice todo torcido. Nestes casos, o procedimento para evitar o descontrolo total é parar o motor e saltar em paraquedas, ou então tentar uma aterragem de emergência sem motor.

"Num relance de olhos para o exterior, vejo uma clareira no meio da mata onde me parece que sou capaz de meter o avião. Como o motor está parado, sei que tenho de guardar uma velocidade tal que me permita manter o avião a voar como um planador e fazer uma avaliação muito correta de aproximação ao início da clareira, tão baixa quanto possível, mas sem bater nas árvores que a circundam.

"A quem não está familiarizado com os assuntos de aerodinâmica e pensa que a um avião com o motor parado só resta cair, devo esclarecer que, enquanto houver altitude suficiente para descer e manter uma velocidade de planeio, este voa normalmente até chegar ao solo.

"Perante a rapidez de decisão que a situação exige, o afluxo de adrenalina é tal que todas as faculdades passam a ter uma acuidade várias vezes superior ao normal. Todas as mnemónicas aprendidas há cinco anos atrás, ainda na fase da formação, para fixar procedimentos de emergência, afluem à memória com um rigor e uma fidelidade alucinantes.

"Nos escassos segundos que me separam do contacto com o solo, enquanto vigio e controlo com a cabeça, com as mãos e com os pés, não só o valor sagrado daquela velocidade mínima que ainda permite voar, mas também a altitude, a direção e as manobras de glissagem, perigosas mas necessárias para encaixar o avião no início da exígua clareira, vou simultaneamente executando os restantes procedimentos que contribuem para o sucesso de uma aterragem de emergência, tais como: apertar cintos, abrir cabine, desligar combustível, mistura e magnetos, desligar bateria e assumir uma atitude de corpo e alma bem encostados à cadeira.

"O ponto de contato com o solo confirma-me a justeza do planeamento, mas surge um imprevisto que do ar foi impossível detetar – o terreno não é totalmente liso; sulcos profundos, espaçados metro a metro, cortam-no de lés a lés. É uma bolanha.

"Ao intradorso das asas do T6 estão suspensas duas metralhadoras Browning, saliências que, ao entrar nos sulcos da bolanha, oferecem uma forte resistência ao deslizar do avião no solo.

"Atendendo a que este tipo de aterragem é feito com o trem recolhido, o entrar das metralhadoras num dos sulcos teve o efeito de arrancar instantaneamente as asas à aeronave. Fico sentado dentro de um charuto que rebola agora sobre si mesmo, ao longo do terreno”.(...)

E é com esta chave explicativa, em pleno clímax, que Lobato sai incólume e vai ser capturado, ao princípio ainda acredita que quem com ele vem dialogar o ajudará a percorrer as duas dezenas de quilómetros para chegar a Catió, é brutalmente ferido, o calvário vai começar.

Lobato já está na cela n.º 7 na Maison de Force de Kindia, Guiné Conacri.

Vai-nos contar o início do dia nessa cadeia de segurança onde jazem inimigos de Sékou Touré:

(...) “Não resisto à curiosidade de ver o que se passa no exterior e penduro-me nas barras de reforço da porta para elevar a cabeça a uma altura que me faculte uns metros de horizonte.
O que vejo aterroriza-me! O pátio é hexagonal, um espaço a céu aberto para onde se abrem quatro portas de ferro, totalmente opacas, bem mais baixas que a minha e sem grades a encimá-las, vai-se enchendo de negros de todas as idades, descalços e quase nus, manifestamente subalimentados, que saem por aquelas portas como rebanhos escorraçados por uma fera invisível que os persegue.

"No centro do pátio, chicote em riste e porta de carrasco, um guarda sem expressão facial, tão ameaçador quanto esquelético, orienta para o grande portão de saída aquela enxurrada de negros totalmente desprotegidos, distribuindo chicotadas à direita e à esquerda, vociferando insultos apenas intercalados por nojentas cuspidelas num chão de cimento muito irregular.

"Junto ao portão de saída para o exterior, alinhadas ao lado de cada uma das ombreiras, duas colunas de homens armados. Nos pés trazem sandálias de plástico coloridas pela terra avermelhada dos caminhos que percorrem. Vestem calças engelhadas, de um caqui esverdeado, e uma camisa sem mangas, do mesmo tipo de tecido. À medida que os prisioneiros saem para as GMC que os esperam à porta, vão sendo contados pelos soldados.

"Terminada a tarefa do embarque para trabalhos forçados, os grandes portões fecham-se e tem início outra tarefa, atribuída aos inaptos para o trabalho no exterior e àqueles que alguma vez tentaram a fuga.

"De cada uma daquelas quatro portas opacas, ainda abertas, saem agora pequenos grupos que se movem com alguma dificuldade. Uns são leprosos a que já faltam partes do corpo, sobretudo das mãos e dos pés; outros tossem convulsivamente e expelem escarros amarelos para aquele chão meio desfeito; outros, ainda, apoiam-se às paredes para não tombar e arrastam-se com dificuldade em direção a uma outra porta que entretanto se abriu e dá acesso a uma área de recreio.

"Os menos afetados por doença ou caducidade sustentam nos braços metades de bidões de duzentos litros que transbordam de fezes e outros dejetos. Acompanhados por um guarda, saem pela porta principal. Minutos depois, oiço-os nas traseiras da minha cela a despejar os imundos recipientes.

"Todos os dias, após esta operação, o mau cheiro engrossa como se de coisa sólida se tratasse e põe a prisão a transbordar de nojo. O trágico amanhecer não fica por aqui. O encetar de uma terceira operação obriga-me a descer do meu posto de vigia, mas ainda bem que isso acontece, porque já tenho os braços dormentes de estar tanto tempo suspenso.

"O guarda começa a abrir as portas das sete celas que também dão para o pátio hexagonal. Dois negros estropiados retiram do interior de cada cela um balde de zinco que a seguir despejam num bidão colocado para o efeito num dos ângulos do pátio.

"Também eu tenho aqui dois baldes, sendo um deles substituto da sanita e outro servindo de contentor de água para todos os fins, isto é, para beber, para lavar e para substituir o papel higiénico que por estas paragens é desconhecido”. (...)

A transcrição destes dois textos é um convite para que se releia António Lobato, um jovem sargento piloto-aviador capturado no Tombali, em maio de 1963 e libertado durante a “Operação Mar Verde”, em novembro de 1970.

Foi considerado herói nacional e voltou ao ativo até ter passado à reserva em 1981. Exerceu outros cargos, posteriormente.

É um dos mais impressionantes documentos de vida em cativeiro, senão mesmo o mais impressionante de todos. De leitura obrigatória.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste 10 de março de  2024 > Guiné 61/74 - P25259: In Memoriam (50): António Lobato, maj pil av, ref (Melgaço, 1938 - Lisboa, 2024), autor de "Liberdade e Evasão: o Mais Longo Cativeiro": Falta uma dimensão ao homem que não conheceu a prisão, escreveu ele, citando o filósofo Emmanuel Mounier. A sua vida foi também ela uma luta contra o esquecimento e a ingratidão. Repousa, finalmente, em paz, em Rio de Mouro.