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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28293: A Nossa Poemateca (12): Ruy Belo (1933-1978) no "país sem olhos e sem boca", onde "não acontece nada", que "é o que o mar não quer", e que tem "a forma do sável que vem nas enxurradas"... Como construir o "Portugal futuro" ?


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Fez agora 48 anos que morreu Ruy Belo (Rio Maior, 1933- Monte de Abraão, Queluz, Sintra, 1978).
 
Morreu cedo, aos 45 anos. De edema pulmonar. Em  9 de agosto de 1978. Desconfio que a Pátria, ingrata, distraída ou descuidada, o deixou morrer (para não dizer que que o matou, precocemente, por negligência). Como tem deixado morrer ou matado, precocemente, alguns dos melhores de nós... 

Ele, um dos "vencidos do catoliscismo",  não foi soldado de armas na mão, mas lutou por (e sonhou com)  "O Portugal futuro"... 

Este é justamente um dos poemas  de que eu mais gosto, ao ponto de o ter reproduzido na dedicatória (à Alice, à Joana e ao João),  constante da minha tese de doutoramente em saúde pública/saúde ocupacional, "Política(s) de saúde no trabalho: um inquérito sociológico às empresas portugueses" (Universidade NOVA de Lisboa, 2004).

Tal como gosto, particularmente, dos três outros poemas, que aqui também reproduzo na nossa poemateca (*):  "Portugal sacro-profano - Lugar onde",  "Portugal sacro-profano - Vila do Conde" e "Morte ao Meio-Dia". 

Na "explicação preliminar" à 2ª edição do seu livro de 1970, "Homem de Palavra(s)", ele escreveu, três meses antes de morrer,  que em "O Portugal futuro"  nos surge "um país descolonizado", que tinha a forma de um "sável", um peixe que vinha nas enxurradas, em Rio Maior, "quando os barcos navegavam entre as cepas" (Ruy Belo, "Todos os poemas", 2000, pág. 187)...

Já nos  nos outros dois poemas ele retoma o tema da dicotomia pátria / país (onde nada acontece), que lhe era particularmente caro. "Desenhar" um país novo implicaria, de algum modo, renunciar ao passado: afinal, "o meu país é o que o mar não quer", diz ele no célebre e genial verso do poema "Morte ao Meio-Dia":

(...) No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça (...)

(...) A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


E o que o mar não quer,  são os "náufragos", os destroços da história trágico-marítima, do Império, do Estado Novo, os pescadores, os marinheir0s, os cavadores de enxada, as mulheres que pariam com dor os futuros s soldados, mas também os mortos das guerras de descolonização,  os desterrados, os retornados, e todos os demais perdedores...
 
Quando leio e releio este poema icónico, não posso deixar de pensar nos soldados 
que, como eu, se sentiram "náufragos" de uma guerra sem sentido... (Eu, pelo menos, nunca consegui encontrar o fio à meada no labirinto desta guerra.)

Por outro lado,  chama a Portugal "país sem olhos e sem boca", uma "pátria" que da palavra só tem a "superfície"...

E Vila do Conde, "o lugar onde o coração se esconde"  ? Bom, foi lá que o poeta, ribatejano,  se casou com uma minhota, Maria Teresa Carriço Marques, professora de liceu, mãe dos seus 3 filhos, um deles um notável fotógrafo, Duarte Belo.

Não sendo um poeta "fácil", Ruy Belo merece ser lembrado e sobretudo melhor conhecido, por nós, antigos combatentes... Um poema como  "Portugal sacro-profano: lugar onde",  ajuda-nos a questionar o que foi (e é)   "Portugal", milenar, um lugar de memória, de ausência, de conflitos (internos e externos)...

Por outro lado, o título ("Portugal sacro-profano") sugere uma tensão dicotómica entre o sagrado (o ideal, o espiritual, o transcendente, a missão, o dever) e o profano (o real, o quotidiano, o imanente, a violência, a dúvida). 

Eu leio-o como  uma metáfora poderosa para a experiência da guerra da Guiné: o ideal de servir a pátria 'versus' a realidade brutal de um conflito absurdo, e  sem fim à vista.

Ruy Belo era um homem de/da palavra. Também um artesão. Um perfeccionista. E um incansável poeta.  Teríamos hoje uma obra gigantesca, se ele fosse vivo.  (Mesmo assim, a sua obra completa, em edição crítica da Assírio & Alvim, é um grosso volume de quase 7 centenas de páginas.)

São quatro poemas, os da minha antologia pessoal,  que têm uma estrutura, um ritmo, uma cadência, uma oralidade,  que os torna fáceis de ler em voz alta, em qualquer  uma das nossas tertúlias... ou encontros de antigos combatentes. (Gostaríamos de os levar comigo, na minha derradeira viagem, quando me despedir um dia destes da Terra da Alegria: é, de resto, o título do seu penúltimo livro de poesia, publicado em 1977, "Despeço-me da Terra da Alegria".)

Não são poemas panfletários, "à Guerra Junqueiro", não têm uma leitura imediatista, são intemporais, o que é um  ponto a favor do nosso  público-alvo de quem se diz que "não gosta nem  sabe nada de poesia"... O que até nem é verdade: fomos também na Guiné homens de/da palavra, veja-se o nosso "cancioneiro da guerra", com os seus lamentos e protestos, a  sua irreverência, o seu humor de caserna, o apelo à liberdade, à justiça, à paz, enfim, com letras que glosavam a  saudade, a esperança do regresso, sem esquecer a paródia que fazíamos a letras de fados, baladas, canções, bem como a grandes obras e poetas, como os "Lusíadas", de Luís Vaz de Camões...  LG
 ___________________

PORTUGAL SACRO-PROFANO ‑ LUGAR ONDE

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

(pp. 196/197)

PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

(pp. 197/198)

O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

(pp. 199/200)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência  cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga  calado cada prestação
Para banhos de sol nem se precisa
E cai-nos  sobre os ombros quer a armaquer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

(pp. 363/364)


Ruy Belo (1933.1978) - Todos os Poemas. Liaboa: Assírio e Alvin, 2000 (com  devida vénia...) 






(1978), “Diário de Lisboa”, n.º 19727, ano 58, quarta, 9 de agosto de 1978, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos, Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_3667 (consultado em 2026-08-23)


____________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27262: A Nossa Poemateca (11): "Aforismos", de Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Postes anteriores da série:

12 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27007: A Nossa Poemateca (10): Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999), um grande poeta cabo-verdiano bilingue

28 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26536: A Nossa Poemateca (9): Cesário Verde (1855-1886): Excertos de "Nós", seguidos de "O sentimento de um ocidental"

10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26482: A Nossa Poemateca (8): José Gomes Ferreira (Porto, 1900 - Lisboa, 1985), por Mário Gaspar

21 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26410: A Nossa Poemateca (7): Adília Lopes (1960-2024): "Os amores / que não tive / (e foram muitos) /moeram-me / o juizo"...

4 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26347: A Nossa Poemateca (6): Adeus, de Eugénio de Andrade ("Os Amantes Sem Dinheiro", 1950) (escolha de Mário Vitorino Gaspar, ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé,1967/69)

2 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26335: A Nossa Poemateca (5): Romance de Tomasinho Cara-Feia, de Daniel Filipe (Ilha da Boavista, 1925-Lisboa, 1964 ) (escolha de Alberto Branquinho, ex-alf mil, CART 1689,1967/69)

31 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26331: A Nossa Poemateca (4): Força de Crecheu, de Eugénio Tavares (1861 - 1930) (escolha de Luís Graça)

30 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26328: A Nossa Poemateca (3): Adeus, irmão branco!, de Geraldo Bessa Victor (Luanda, 1917 - Lisboa, 1985) (escolha de Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)

29 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26323: A Nossa Poemateca (2): "Lágrima de preta" (1961), de António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997) (escolha de Beja Santos, nosso crítico literário)

27 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26318: A Nossa Poemateca (1): "Ladainha dos Póstumos Natais" (1971), de David Mourão Ferreira (1927-1996) (escolha de Valdemar Queiroz, minhoto de criação, alfacinha por adoção)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

 Imagem: A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. E se os portugueses de Quatrocentos tivessem dado ouvidos ao "velho do Restelo" ? 

Nunca teriam descoberto o "caminho marítimo para a Índia"...
Nunca teriam aberto a "autoestrada" para o Novo Mundo...
Nunca teriam conhecido o "Cabo das Tormentas"... 
Nem nunca o teriam rebatizado como "Cabo da Boa Esperança"...
Nunca teriam chegado ao Japão, ao Brasil, à Califórnia, à Austrália... 
Nem o  pobre do Camões  teria sonhado sequer escrever "Os Lusíadas"...

E o nosso el-rei Dom João II ?  Esse, nunca teria seria o "Príncipe Perfeito"
E muito menos o Dom Manuel I,  a ter reinado, seria  o "Venturoso...

Nem eu nunca teria ido passar umas "férias" à Guiné, à pala do Estado...

Nem, por  certo, teria havido a República, o Estado Novo, o 25 de Abril...
Nem sei se Portugal ainda existiria hoje... 
(era mais provável que fosse uma província do Reino das Hespanhas
e os portugueses falassem "portunhol")...

Esta é a uma "caricatura" da  história que  não se escreveu... 
Foram os portugueses os primeiros a dobraram o "Cabo das Tormentas"
e chegarem  a "Porto Seguro" no Novo Mundo...
Mas bem poderiam ter sido outros!...

Bom,  é um facto que há muito mais gente no mundo a falar português 
do que os portugueses de Portugal...
(aqui, o Portugal europeu representa só 3% do universo dos falantes lusófonos).

Mal ou bem, caros leitores,  é a história, a nossa história...

PS - E eu, e eu, e nós, e nós... o que é que fazemos aqui, neste blogue ?!


A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

A obra prima do pintor académico Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 1832 — Rio de Janeiro, 1903).  A tela é um hino ao ecumenismo, ao retratar a chegada pacífica da armada de Álvares Cabral a Porto Seguro, no sul da bahía, e a celebração da primeira missa, no Novo Mundo, assistida pelos habitantes locais, tupiniquins, pertencentes á nação tupi... Os descendentes dessas hstóricas testemunhas da chegada dos portugueses ao Novo Mundo não deverão ultrapassar hoje um milhar...

"A primeira missa no Brasil foi celebrada por Dom Frei Henrique de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. Foi um marco para o inicio da história do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia" (Fonte: Wukipédia).
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)





Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição (e legendagem)  orientada pelo editor LG, sob história contada pelo FJA/JAPC .11 de maio de 2026 


1. Quem é que não se lembras destas expressões da gíria ou calão de caserna  que usávamos para designar "dormir" ?!... Quem é que, nas longas noites quentes e húmidas da Guiné, naquelas horas mortais da madrugada, no aquartelamento ou destacamento no mato, no seu posto de sentinela, não foi apanhado pela ronda a "chonar", a "ferrar o galho", a "passar pelas brasas", a "bater a sua sorna", com a sua "namorada" (a G3), pousada no peito...? 

A gíria ou calão de caserna é um universo à parte, cheio de criatividade e ironia, especialmente para escapar à monotonia e ao cansaço das noites intermináveis na Guiné: onde havia de tudo, mosquitos, e miríades de outros insetos, calor, humidade, chuva, trovoada (conforme a estação),  uivos das hienas, silvos de granadas, very ligths, balas tracejantes...  Mas também tédio, cansado, medo, lassidão, angústia, sono, sobretudo muito sono...

Eis algumas expressões para "dormir" (ou tentá-lo) no posto de sentinela, em emboscada,  no mato, ou na caserna, em véspera de uma "saída":
´
  • "Chonar" ( ou "xonar") – Clássico, vindo do calão lisboeta, mas adoptado em todo o lado; era o verbo por excelência para "dormir" (ou "tirar uma sesta", mesmo que fosse só uns minutos entre turnos);
  • "Ferrar o galho" – Esta era mais usada para "dormir profundamente", muitas vezes em situações menos formais ou quando se aproveitava um momento de folga;
  • "Passar pelas brasas" – Esta tinha um tom mais irónico, como se fosse um ritual de resistência: aguentar o sono a todo o custo, mas acabava por ser o mesmo que "adormecer"; sinónimo: passar pelo sono;
  • "Bater a sorna" – Outra pérola! Sorna era o sono, e bater era tirá-lo, mesmo que fosse à pressa: às vezes ouvia-se também "bater uma soneca";
  • "Pegar no sono" – Mais literal, mas também muito usada.
  • "Dormir a sono solto" – Quando o cansaço era tanto que nem a ronda ou os mosquitos ou os "turras" conseguiam acordar.
  • "Ninar" – Usada mais em tom de brincadeira, como se alguém estivesse a embalar-se e a dormecer (ao som de uma cantiga);
  • "Dormir como um prego" – Esta era mais específica: dormir em pé, encostado a uma parede ou a um poste, como os soldados faziam nos postos de sentinela (com a G3 ao peito); ter um sonmo profundo; sinónimo: dormir como um anjo;
  • "Fazer a sesta do leão" – Para quem conseguia dormir em qualquer lado, como os animais do mato;
  • "Estar a sonhar com a terra" – Quando o sono era tão profundo que se sonhava com Portugal, com a família, ou com a comidinha da mamã.
 
Outras expressões relacionadas com o sono (ou a falta dele):
 
  • "Ficar a olhar para o teto" – Quando não se conseguia dormir, mas se fingia que sim (neste caso, olhar para o céu estrelado, ou para o negrume da floresta à volta);
  • "Ficar a contar carneiros" – Quando não se tem sono, ou quando se tem insónias;
  • "O sono é o melhor soldado" – Um ditado que se ouvia muito, especialmente nas noites antes de uma operação; sinónimo: passar a noite em branco;
  • "A ronda não perdoa" – Para quem era apanhado a "chonar" em serviço.
  • "Dormir de olho aberto" – Literalmente, tentava-se, mas não era fácil com o calor, a humidade,  os mosquitos, os ruídos da mata;
  • "O sono é o único luxo que não se paga" – Uma forma de justificar uns minutos de descanso roubados;
  • "O sono é o melhor médico" – Provérbio judaico;
  • "O teu mal é sono" – Quando  uum gajo andava a bater com a cabeça pelas paredes (ou nas árvores e arbustos, em operações, ou no gajo da frente); sinónimo: bêbedo de sono.


Pinto Carvalho.

Foto  LG (2010)

E a G3 como "namorada"? Essa sim, era uma imagem recorrente! A G3 era a nossa companheira constante, sempre ao peito ou ao lado (na cama, na caserna) como uma namorada (ciumenta) que não se podia largar. E quando se adormecia com ela ao colo, era sinal que o cansaço tinha ganho a batalha.


2. E a propósito do sono ( em tempo de guerra), temos hoje mais   um contributo do  nosso colaborador permanente
Joaquim António Pinto Carvalho (JAPC) que, como já o dissemos, é reconhecidamente, um homem dotado de apurado sentido de humor. 

Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73). É hoje advogado, ainda no ativo. 

Da brochura, de que é autor,  com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021,  vamos "sacar" mais uma historieta engraçada,  que o JAPC recolheu junto do seu camarada, também ele alf mil at inf, Fernando de Jesus Anciães (FJA).



Fonte: "A 'chama' que nos chamou: um contributo para a história da CCAÇ 3398, "Os Incendiários", Buba, Guiné, 1971-1973, na comemoração do seu cinquentenário. Edição de autor, s/l, 2021, pp. 55/56. (Com devida vénia...)

domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28007: Humor de caserna (265): Quando, em 1991, o António Graça de Abreu meteu uma "cunha" ao imortal poeta chinês do séc. VIII, Li Bai, para que fosse desbloqueado, na nossa Secretaria de Estado da Cultura, o "patacão" do Prémio de Tradução que ele ganhara e que só receberia ano e meio depois (eram 500 contos, c. 6 mil euros a preços de hoje, o que dava para os dois beberem uns copos valentes)


Ilustração: representação clássica de Li Bai, poeta chinês do século VIII.


Capa do livro: "Poemas de Li Bai: tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, 2ª ed. Macau: Instituto Cultural de Macau, 1996, 328 pp.  (1º ed., 1990).

Fotos (e legendas) : © António Graça de Abreu (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo e camarada António Graça de Abreu (n. Porto, 1947),  é licenciado em Filologia Germânica e Mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Esteve na Guiné, como alferes miliciano, pertenceu ao CAOP 1 (Teixeira Pinto/Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74). Integra a nossa Tabanca Grande desde 2007, tendo cerca de 390 referências no nosso blogue.

Entre 1977 e 1983 viveu e trabalhou na China, em Pequim e Xangai, tendo sido professor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Pequim e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.

Tem diversos livros publicados na área da sinologia, da poesia e dos estudos luso-chineses, além da crónica de viagens (é um compulsivo viajante). 

Tem traduzido para português os grandes poetas clássicos chineses, a começar por Li Bai, Han Shan, Su Dongpo, Bai Juyim,  Wang Wei, Du Fu,  e outros.

Professor do ensino secundário, leccionou Sinologia na Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e, mais recentemente, na Universidade de Aveiro. É casado com uma médica chinesa de Xangai. O casal, que tem dois filhos, vive no concelho de  Cascais.

Publicou há dias um texto que merece honras de figurar na nossa série Humor de Caserna, mesmo que não se refira diretamente à tropa e à guerra.

De facto, ele é um homem de muitos talentos. Em 1991 ganhou um prémio de tradução de 500 mil escudos (equivalente a preços de hoje a pouco mais de 6 mil euros). Mas demorou ano e meio a receber o prémio. Daí esta carta, bem humorada, a meter uma "cunha" ao poeta Li Bai (séc. VIII) que ele traduziu. Os portugueses, que também gostam de meter cunhas a Deus através dos santos (e sobretudo das santas), reveem-se neste texto.  E os nossos camaradas ainda mais

É um texto delicioso,  um "mix" elegante de ironia fina, erudição e humor, com uma pitada de sarcasmo pela nossa proverbial e secular burocracia. 

É um exemplo magnífico de como o humor pode ser usado para criticar, sem azedume, sem amargura, os passos de lesma com que às vezes achamos que o país marcha.  

Fica bem no espírito e  na letra da série "Humor de Caserna". O tom é leve, mas inteligente, e a referência à vida militar (ainda que indireta) está lá, no nosso espírito de resiliência e desdém pelas teias burocráticas, sejam civis ou castrenses.

De resto, a narrativa é envolvente: a  estrutura da carta é cativante,  começando com uma descrição poética do paraíso de Li Bai, passando depois  pela frustração terrena do prémio anunciado mas não pago, e finalizando com um convite a uma viagem etílica por Portugal em com ou sem a "massa" do prémio... 

O prémio acabou por ser pago, tarde e a mais horas, em outubro de 1992, só não sabendo nós como e onde  é que o patacão foi gasto... e se o Li Bai acabou por aceitar vir cá baixo beber uns valentes copos com o António.


2. Facebook > António Graça de Abreu > Quinbta feira, 7 de maio de 2026, 19:56 > A propósito de um Grande Prémio de Tradução

Estes Poemas de Li Bai obtiveram o Grande Prémio de Tradução 1990, da Associação Portuguesa de Tradutores e do Pen Club, tendo o júri sido constituído por Yvette Centeno, Pedro Tamen e Casimiro de Brito.

O prémio, no valor de quinhentos mil escudos — e não mil contos, como inicialmente eu imaginara — foi-me entregue pelo poeta Pedro Támen, em outubro de 1992, em cerimónia na Livraria Buchholz, em Lisboa. 

O atraso na sua entrega deveu-se a dificuldades na obtenção da verba referente ao prémio, resultantes da reestruturação entretanto levada a cabo por Pedro Santana Lopes, então Secretário de Estado da Cultura.

Longe de todos estes problemas, em dezembro de 1991 escrevi uma carta ao poeta Li Bai, que foi publicada no jornal Comércio de Macau em fevereiro de 1992 e no Jornal de Letras em abril do mesmo ano. É essa carta que agora recupero e transcrevo:

Carta aberta ao poeta Li Bai (*)

Meu caríssimo Amigo

Escrevo-te para o Céu, onde vives há muitos milhares de anos. Um grou imaculado levar-te-á a minha carta.

Desculpa incomodar-te com míseras coisas terrenas. Sei que continuas a brincar em mares de névoa púrpura, a subir às nuvens, a humedecer o teu corpo com vapores rosa, a levantar a mão e a tocar a Lua, a passear entre os pontos cardeis, a beber vinho mágico em taças de jade, a voar com o vento e a rodopiar à vontade na imensão do céu. Gostava muito de te poder fazer companhia, mas quem sou eu para merecer tal benção dos deuses?

Foi célere a tua passagem pelo mundo dos homens. Por comportamento menos atilado entre as divindades celestiais, foste condenado a um duro degredo na Terra, entre os anos de 701 e 762. Imortal no exílio, inundaste então a China com a tua grande poesia. Depois, quase todos os homens te consideraram o maior de todos os poetas chineses. No país que habitaste, os meninos de escola — há muitas, muitas gerações —, conhecem bem o teu nome e sabem sempre de cor dois ou três poemas teus.

Eu conheci-te em Pequim e durante oito agitados anos, por Xangai, por Macau, por Lisboa, outra vez por Pequim, fui traduzindo para língua portuguesa alguma da tua poesia. Foi um alvoroço, uma longa aprendizagem, um prazer transmutar, recriar, reinventar os teus gufeng, lushi e jueju em versos na língua de poetas como Camões e Pessoa. Creio que sabes quem são. Talvez já os tenhas encontrado aí pelo Céu, o Camões finalmente feliz, trepando às árvores e amando docemente a sua Dinamene chinesa (?), o Pessoa, sereno e solitário, agora à vontade para ir “buscar ao ópio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente.”

Em 1990, o Instituto Cultural de Macau editou os teus (meus) Poemas de Li Bai. A 7 de junho de 1991, recebi um simpático telegrama assinado pela Yvette Centeno, professora, escritora e literata. Um júri, representando a Associação Portuguesa de Tradutores e o Pen Club, havia acabado de decidir, por unanimidade, conceder-me o Grande Prémio de Tradução 1990 pelos teus (meus) Poemas de Li Bai.

Podes imaginar, fiquei naturalmente satisfeito. A tua grande poesia obtinha reconhecimento em Portugal, o meu trabalho merecera uma recompensa. Depois, importante, o prémio era de quinhentos contos, uns largos milhões de sapecas para gastar com a minha mulher chinesa, os meus filhos, livros, vinho e pequenos prazeres.

Há doze séculos, quando da tua passagem por este mundo, não existiam estes prémios literários. Quando muito, o imperador honrava os mais subservientes e medíocres letrados com um lugar na Academia Hanlin, por onde tu também passaste, com a velocidade de uma estrela cadente. Estamos agora no fim do século XX, em Portugal, um pequeno país da Europa, quase há quinhentos anos ligado à China através de Macau.

Apesar de Macau e do Grande Prémio de Tradução, pouca gente conhece o velho poeta Li Bai, beberrão e sábio, há tantos séculos inebriando-se de sol e de luar. No entanto, lá do outro lado do mundo, nas Nascentes Amarelas, o lugar habitado pelos mortais imortais, tu, de vez em quando, repetes com o teu amigo Han Yu (768-824), a ouvidos desatentos e desinteressados, que “o mais perfeito dos sons é a palavra e a poesia é a forma mais perfeita da palavra”.

Escrevo-te esta carta para te pedir um favor: depois de haver sido informado, em junho passado, que os teus (meus) Poemas de Li Bai haviam ganho o Grande Prémio de Tradução, não mais fui contactado por quem quer que seja. O Prémio caiu no absoluto silêncio e esquecimento, e nunca me foi entregue. Creio que o vou receber, algum dia.

Na tua estada neste mundo, nunca tiveste jeito para lidar com os poderosos, mas tenho a certeza de que aí no Céu vivem pessoas influentes, hábeis no trato, no relacionamento com o mundo dos homens, cá em baixo. Essa gente, hoje, respeita-te.

Peço-te, caríssimo Li Bai, que fales com alguém poderoso aí no Céu, sugerindo-lhe que interceda junto de alguém poderoso aqui na terra portuguesa, compondo as coisas de modo a que o Grande Prémio de Tradução me seja entregue.

Eu não estou zangado com ninguém. Conheço o meu país, sei como em Portugal — na tua China também —, decidir, resolver demoram sempre algum tempo. Mas caríssimo Li Bai, este prémio são quinhentos contos, dinheiro suficiente para uma festa de arromba.

Conheço também o teu gosto pelo vinho, pelos prazeres da vida e, mesmo sem prémio, queria-te convidar a descer, pelo alto das montanhas, até à minha aldeia. 

Portugal é bonito, as pessoas são afáveis e o vinho é óptimo. Eu vou-te buscar e viajaremos pela terra fora, pelo Douro, pelo Alentejo, de taberna em taberna, de adega em adega, saboreando, encharcando-nos em preciosos néctares. Lucidamente bêbados, afogaremos em bom vinho as tristezas da existência.

Depois, diante do mar, com o azul a passear nos olhos, iremos buscar uma nuvem branca, aconchegá-la-emos no coração e deslizaremos no espaço.

Saúda-te, com muito respeito e amizade, o
António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, título: LG) (**)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Observações:
  • Li Bai (701–762): poeta chinês da dinastia Tang, conhecido como o "Poeta Imortal"; escreveu sobre vinho, lua, montanhas e a efemeridade da vida; o  António traduziu a sua obra para português.
  • Gufeng, lushi e jueju: formas poéticas chinesas que Li Bai dominava.
  • Academia Hanlin: Instituição imperial chinesa onde Li Bai serviu brevemente.
  • 500 mil escudos (e náo mil contos, como pensava inicialmente o premiado): equivalente a cerca de 6 mil euros hoje; o prémio foi entregue apenas em outubro de 1992, um ano e tal depois da decisão do júri.
  • O Grande Prémio Internacional de Tradução Literária é um prémio literário instituído pela Associação Portuguesa de Tradutores. Inicialmente foi organizado em associação com o PEN Clube Português e o patrocínio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, atualmente realiza-se com o patrocínio da Sociedade Portuguesa de Autores; o prémio é atribuído a traduções publicadas no ano anterior. O valor pecuniário atual é de 3 mil euros.
  • Dois membros do Prémio de 1991 já morreram, Pedro Tamen e Casimiro Brito.

(**) Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27222: Felizmente ainda há verão em 2025 (34): Mata-mouros e outros apelidos e alcunhas, raros, exóticos, pícaros, brejeiros, etc. - Parte I




"Santiago, foi um dos quatro primeiros apóstolos que seguiram Jesus e seu primeiro mártir, foi mandado degolar pelo rei Herodes. Os seus restos mortais foram levados para a região galega de Compostela, tendo aí nascido o maior centro de peregrinação da Europa cristã, Santiago de Compostela. A imagem existente na igreja Matriz de Castelo Rodrigo representa um guerreiro a cavalo lutando com um mouro já dominado e debaixo das patas do cavalo, normalmente designado de Santiago “Matamouros”.

Fonte: Adapt de: Aldeias Históricas de Portugal > Santiago, Mata Mouros, Castelo Rodrigo | Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. O termo ficou no léxico da língua portuguesa: "mata-mouros" (nome masculino, de dois números) é o "indivíduo que exagera os seus feitos e valentias", sinónimo de fanfarrão, ferrabrás, valentão...

E ficou também na toponímia e na antroponímia: referências históricas apontam para a existência de indivíduos com este apelido, como "Fernão Domingues Mata Mouros" e "Alberto Mata Mouros de Resende da Costa", sugerindo que, embora raro, o apelido tem raízes antigas nosso território. 

Há também relatos anedóticos da presença de famílias com este apelido na região do Algarve, uma zona de forte influência muçulmana e palco de inúmeros confrontos durante a "Reconquista".

A toponímia portuguesa também conserva a memória destes tempos, com exemplos como a "Quinta de Mata Mouros" em Silves, no Algarve, um local histórico que hoje alberga uma adega. Em Espanha, na Extremadura, Badajoz, há o município Valle de Matamoros.; e haverá maisde 3,3 mil indivíduos, com este apelido, de acordo com a Geneanet ,

Rara ou incomum, a expressão  chegou todavia aos nossos dias como apelido de família (ou sobrenome), erm Portugal. A origem deve ter sido por alcunha, e não por via patronímica (nome do pai), toponímica (nome do lugar de nascimento) ou outra.

 Encontrámos, na Net, pelo menos duas figuras públicas portuguesas com este apelido:
  • um senhor, Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas no XV Governo Constitucional (entre 2002 e 2005);
  • uma senhora, antiga  juiza conselheira  do Tribunal Constitucional, há uns atrás.
 
Fomos também encontrar na Guiné um Luís Mata-Mouros Resende Costa, colono, branco, 36 anos de idade, natural de Bissau, ligado ao comerciante Benjamin Correia em meados dos anos 50. 

O apelido "Mata-mouros", carregado de conotações históricas da "Reconquista Ibérica", revela-se de rara presença em Portugal e é praticamente inexistente nos restantes países lusófonos.  

(i) Origem e significado histórico

O termo "Mata-mouros" é uma alusão direta às batalhas travadas durante a chamada Reconquista Cristã da Península Ibérica, que se estendeu por séculos (séc. VIII- séc. XV), acabando com a conquista do reino de Granada, o último reino mouro, em 1492 (o ano da descoberta do "Novo Mundo").

A expressão  significa literalmente"aquele que mata mouros". Era frequentemente usada como epíteto,  alcunha ou cognome, atribuído a guerreiros que se destacavam pela sua bravura nos confrontos com os muçulmanos do Al-Andalus.

Esta designação está intrinsecamente ligada à figura de Santiago Maior, o apóstolo padroeiro de Espanha e de Portugal, frequentemente representado na sua faceta de "Santiago Matamoros" (ou "Mata-mouros"). 

A iconografia do santo a cavalo, brandindo uma espada sobre mouros caídos (vd. imagem acima), tornou-se um símbolo poderoso da cruzada cristã e inspirou a toponímia e, nalguns casos, a antroponímia.

Em Portugal, a palavra "mata-mouros" adquiriu também um significado figurado: por exemplo, o Dicionário Priberam  define-o como  o indivíduo fanfarrão, ferrabrás ou valentão, uma derivação curiosa que reflete a transformação de um epíteto de guerra numa expressão popular.

(ii) Presença em Portugal: um apelido raro mas notável

Apesar da sua forte carga histórica, o apelido "Mata-mouros" é pouco comum em Portugal. A sua raridade é atestada pela dificuldade em encontrar famílias com este nome em listas telefónicas e a ausência de referências em  bases de dados genealógicas.

A pesquisa da IA em bases de dados e registos "online" do Brasil, Angola, Moçambique e outros países de língua portuguesa também não revelou  a presença do apelido "Mata-mouros".  

A ausência do apelido "Mata-mouros" nos PALOP e no Brasil pode ser explicada pela sua origem muito específica e ligada a um contexto histórico-geográfico que não se transportou da mesma forma durante o período da colonização. As peregrinações a Santiago entraram em decadência acelerada já em meados do séc. XIV (com a "peste negra", a crise demográfica, as guerras, etc.). A formação da sociedade brasileira,  colonial e escravocrata, em contrapartida, vai dar-se num contexto diferente, com outras influências e dinâmicas na atribuição de apelidos.

Em suma, o apelido "Mata-mouros" é uma herança direta da chamada Reconquista em Portugal, um testemunho onomástico de um passado de conflitos e da construção de uma identidade nacional. A sua raridade contrasta com a força da sua simbologia. 


2. Felizmente ainda é verão, apesar da "rentrée" para muitos (a escola, o trabalho, as vindimas, as consultas médicas, etc.). Nós, entretanto, vamos continuando por Candoz por mais uma semana. (*)... 

E vamos blogando...Existem ainda outros apelidos portugueses igualmente raros, exóticos ou de origem curiosa que refletem episódios históricos, lendas, factos anedóticos,  toponímias ou devoções religiosas pouco comuns.


(i) Devoção religiosa e santoral:

 apelidos como "dos Anjos", "das Dores", "do Rosário", "de São João", "dos "Santos",  "de Todos os Santos", “da Anunciação” ou até... "Cara d'Anjo"!... eram usados como complemento de nome, especialmente por mulheres, religiosos ou conversos para evidenciar devoção, refúgio ou proteção sobrenatural; as nossas "Marias" têm quase todas um santo ou uma santa por detrás do nome: a minha mãe era "Maria da Graça",  uma das minhas irmãs "Maria do Rosário", há muitas "Marias de Fátima", etc. 

(ii) Toponímicos exóticos

alguns apelidos derivam de lugares muito pequenos, aldeias desaparecidas ou microtopónimos pouco conhecidos (exemplos:  “Xabregas”, “Alcaçovas”, “Mosteiro”, "Matacões',  ou “Miragaia”, usados para indicar origem rural ou urbana invulgar).

(iii) Apelidos-epíteto ou de alcunha

da Idade Média, herdaram-se apelidos derivados de alcunhas descritivas, físicas ou até jocosas, como “Espadana”, “Buzina”, “Melro”, “Passarinho”, “Queimado”, “Valente”, “Foge”, “Parvo”, “Quebra-Costas”, “Caçador”; ou outros e outras, talvez de origem mais recente,"Mata-frades", "Piça", Minorca", "Caga-tacos", "Meia-Leca", "Mata-pintos", "Fala-baixo", etc.

(iv) Apelidos de conotação guerreira ou étnica

além de "Mata-mouros", encontram-se registos raros como “Mata-cães” (às vezes associado a confrontos com populações mouriscas), “Mouro”, “Mourão”, “Mourisco”, "Judeu", "Mulato", "Cigana", "Preto",  “Cristão Novo” (para os convertidos), e ocasionalmente “Castelhano”, "Galego, "Alemão", "Francês "ou  “Inglês” para estrangeiros integrados.

(v) Hagiotoponímicos raros:

 existem apelidos tirados de santos ou mártires pouco comuns localmente, como “Santa Bárbara”, “Santo Amaro”, “Santo Tirso”, "Espírito Santo", ou ainda, por justaposição, “Santidade”.

Muitos destes apelidos começaram como alcunhas, marcas de devoção, ou indicações de origem, e só mais tarde se fixaram como sobrenomes de família. Os contextos de nomeação variavam amplamente, desde motivos de sobrevivência (mouros,  judeus, escravos africanos que foram obrigados a converter-se e adotar nomes cristãos), percursos de peregrinação (“Santiago”, “Compostela”, “Peregrino"), até sátira, história pessoal ou identificação local, a alcunha ("apelido", em português do Brasil) funcionando como uma verdadeira "etiqueta" que não precisa(va) de ser colada á testa.

Em resumo, "Mata-mouros" junta-se assim a lista de apelidos históricos insólitos em Portugal, muitos deles provenientes de episódios da "Reconquista", da escravatura, da perseguição aos mouros e aos judeus,  da cristianização forçada (1497), inquisição ou de eventos locais marcantes. 

3. Durante a guerra colonial na Guiné, era frequente usarmos alcunhas para melhor identificar,  "marcar" ou "etiquetar" os nossos camaradas: muita gente tinha alcunhas: 

  • desde os superiores hierárquicos (Caco Baldé,"Aponta, Bruno!,  Pimbas, Alma Negra, Gasparinho, Bagabaga, Major Elétrico, Coronel 11, Trotil...); 
  •  até aos milicianos e praças ("Tigre de Missirá", "Pato da Bolanha", "Mec-Mec", "Chico", Chicalhão", "Pastilhas", "Caga-tacos", "Meia-leca","Meia-foda",  "Mouraria", "Bolha d'Água", "Parte-punho", "Cara de Cu", "Quatrocentos", "Aguardente", "Tempo Embrulhado", etc., até ao "Se-te-vens" (corruptela do nome de uma marca de cigarros, por que era conhecida a esposa de um  camarada nosso), etc. ) (**); 
Temos vinte tal postes com referências a "alcunhas".

4. Também existem, no português europeu, apelidos e alcunhas de natureza pícara, brejeira, maliciosa, erótica ou até pornográfica, em Portugal, e  especialmente no Alentejo, onde o calão e o humor popular têm longa tradição. 

Estes apelidos são herança oral e, muitas vezes, só circulam localmente, sendo raros em documentação oficial, mas ainda estão vivos na memória coletiva (veja-se o  incontornável "Tratado das Alcunhas Alentejanas", 4ª ed., Colibri, 2002, da autoria de Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva).

Francisco Martins Ramos (1943-2017) era antropólogo, natural da Amareleja. O Carlos Alberto da Silva é sociólogo da saúde e também antigo professor da Universidade de Évora.

Exemplos de Apelidos e Alcunhas Pícaras do Alentejo

  • Bicha/Galhofo/Maricas: termos que circulam como apelidos depreciativos devido à sexualidade ou maneiras.
  • Calhandro(a):  não tem conotação sexual, mas designa alguém "atiradiço", insinuação de promiscuidade ou pouca vergonha;
  • Galdéria: mulher de reputação duvidosa ou de vida sexual livre, às vezes usada como epíteto familiar;
  • Escalda: “Rapariga muito quente nos bailes”, apelido para mulher considerada fogosa ou promíscua;
  • Javardice/Javardo(a): usado para pessoas consideradas desleixadas ou de hábitos sexuais libertinos, pode ser alcunha direta;
  • .Joana dos Moços: mulher que teve vários filhos de diferentes pais — insinuação maliciosa sobre a sua vida íntima;
  • Lambança: conversa atrevida, mexericos de natureza sexual, também pode ser usada como apelido para quem gosta de "porcaria";
  • Langonha: sgnifica esperma (sémen), também usada em sentido jocoso;
  • Meia-Foda: muito comum, usada para designar pessoa de baiza estatura, mas também associada à situações ambíguas ou mal resolvidas em matéria sexual (igual a "meia-leca", na tropa);
  • Minete: calão direto para sexo oral (=cunilíngua),  ocasionalmente designando alguém atrevido;
  • Ó Punheta: usado como exclamação, mas também como alcunha para alguém dado à masturbação ou simplesmente irreverente (equilavente a "parte-punho", na Guiné, no calão da tropa);
  • Pai do Cu: alcunha dada a homens considerados sexualmente libertinos, mulherengos ou, segundo usos, alvo de pilhéria por algo relacionado com sexo anal ou escatologia; tornou-se célebre nas aldeias porque existiam mulheres que, sendo vítimas de violência doméstica, gritavam: “Valha-me o Pai do Cu!”.
  • Pandarilho/Pandelero/Panasca: são variantes antigas e regionais para homem afeminado ou homossexual, por vezes maliciosamente aplicadas ou sentido pejorativo;
  • Passarola: termo popular para órgãos genitais femininos (=vagina; "pito", no Norte), usado como alcunha, servindo de mote trocista ou para atribuir a alguém fama de devasso;
  • Pentelho/Pintelho: pèlo púbico,pormenor insignificante, pessoa irritante, aborrecida,importuna;
  • Pixa, Gaita, Pau, Piça, Picha d'aço: diversos calões penianos conferidos como alcunha a, por exemplo, jovens atrevidos, mulherengos ou simplesmente alvo de chacota;
  • Prenha: mulher grávida fora do casamento;
  • Tronga: mulher da vida/prostituta;
  • Zorra: prostituta ou mulher de reputação duvidosa; "filho de zorra": bastardo, filho natural, filho de padre (em Trás-os-Monres).

 

Complementarmente, consulte-se também o "Dicionário do Calão e Expressões Idiomáticas", de José João Almeida (Editora Guerra & Paz, 2019; vd também aqui, em Projeto Natura | Universidade do Minho).

Muitos destes termos da linguagem informal, da gíria ou do calão foram (e são usados ainda) como alcunhas entre amigos, conhecidos ou inimigos para marcar uma diferença, ironizar, satirizar hábitos de alguém ou, simplesmente, como herança do falar local, muitas vezes não se sabendo sequer qual a sua origem.

Existem casos de famílias que ficaram conhecidas na aldeia durante gerações por uma alcunha deste tipo, independentemente do apelido registado no cartório paroquial ou na conservatória do registo civil.

Em contextos mais fechados e tradicionais, alguns destes apelidos podem ser mais ou menos ofensivos, dependendo do contexto,  do tom ou da confiança entre os interlocutores. Nalguns casos, são "formas carinhosas de tratamento"; "ó meu Cara de Cu â Paisana!!... 

A presença, existência ou sobrevivência destes nomes evidenciam o lado irreverente, humorístico e, por vezes até, transgressor da cultura rural  alentejana, onde o dito popular, a sátira e a oralidade são ferramentas de convivência social e de criação identitária. (***)

Muitas destas alcunhas alentejanas com conotação sexual, pícara, erótica ou maliciosa fixaram-se oralmente e, por vezes, até integravam o quotidiano rural. 

De um modo geral, refletem o humor, o descaramento, a verve ou o olhar picante da cultura popular da região e estão extensamente documentadas por  sociólogos, etnógrafos e outros estudiosos dos usos e costumes, etc.
 
 Deve ainda acrescentar-se que muitas destas alcunhas surgem do contacto diário, de episódios de alcova ou de determinadas  condições sociais (do trabalho à infidelidade conjugal,  do lazer e das festas  à sexualidade).

A atribuição era (e é) frequentemente pública e marcava para sempre um indivíduo ou família na pequena comunidade rural, fechada como, por exemplo, Aldeia Nova de São Bento (***).

Há grande criatividade, ironia e até  intencionalidade social: reforçar a moralidade coletiva pela sátira, pela provocação ou pelo controle do comportamento sexual.

Estas alcunhas testemunham a riqueza, a ousadia, a espontaneidade e a criatividade o falar popular alentejano, fazendo parte de uma tradição de oralidade onde o erótico e o pornográfico convivem com o burlesco, o pícaro, o brejeiro e o satírico.

(Continua)

(Pesquisa: LG  + Assistente de IA /Gemini, ChatGPT)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de setembro de 2025  > Guiné 61/74 - P27216: Felizmente ainda há verão em 2025 (33): A natureza tem horror ao vazio... Reflexões, mais ou menos melancólicas, no dia seguinte à primeira vindima de Candoz

(**) Vd. poste de:

5 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20706: Memórias ao acaso (Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845) (4): Alcunhas

28 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16141: In Memoriam (258): Soldado Ilídio Fidalgo Rodrigues, o "Esgota Pipas" da CCAÇ 2382, morto por um estilhaço de um projéctil IN (Manuel Traquina, ex-Fur Mil)

6 de setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10342: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (25): "O Aguardente"