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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca

A partir de agora, estamos em novembro de 1969, quando tenho saudades do Cuor, venho até ao porto de Bambadinca e olhar para lá da bolanha de Finete, fico ali especado a ver toda aquela massa florestal, por vezes o barqueiro, de nome Mufali Iafai, que me atravessou vezes sem conta de um lado para o outro, vem conversar comigo, faço dele o meu elemento de ligação com o passado. Ele lembra-se muito bem daquela noite de 28 de maio de 1969, quando Bambadinca sofreu a sua primeira flagelação, tomei a liberdade de vir em seu auxílio, o Geba na maré-baixa, ganhei lama até ao umbigo, este mesmo Mufali queria levar-me às costas para não entrar na lama da outra margem, recusei, mas não esqueci a deferência.

A intervenção em Bambadinca traduz-se numa multiplicidade de operações: levar e trazer correio de Bafatá; fazer patrulhamentos noturnos; fracionarmos o pelotão em secções, cada uma vai para o seu mister; passar noites abomináveis num lugarejo que dá pelo nome de Undunduma; participar em operações em Mansambo, Xitole, Xime; fazer colunas de reabastecimento entre Bambadinca e Xitole… enfim, um desgaste, uma perda da relação com os meus homens, por ironia estaremos sempre juntos nas operações ou naquelas emboscadas defensivas em que passamos a noite toda num ponto ermo para hipoteticamente defender Bambadinca.

O último mês de verdadeira atividade operacional, julho, traduz-se em sair de madrugada para proteger os trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Até que recebo a notícia de que devo partir para Bissau, antes de partir voltei a ver uma nova prova do rancor que separa os guineenses dos cabo-verdianos, o meu substituto é cabo-verdiano, os soldados convocaram-me, acusam-me de deslealdade, tanta amizade, tanta amizade e agora entrega-nos ao velho patrão com chicote, um gajo que certamente nos odeia. Tudo se veio a concertar, mas a estadia do meu substituto não foi longa.

Depois de doze dias de viagem, de Bissau para o Sal, do Sal para Mindelo, de Mindelo para Ponta Delgada e daqui para o mesmo cais da Rocha do Conde Óbidos, regresso a Lisboa, sei que tenho que acalmar as recordações, prometo a mim mesmo que não quero descurar as amizades feitas, mas sei perfeitamente que tudo vai mudar, desisti de voltar ao meu antigo emprego, fiz um contrato com o Ministério do Exército, darei recrutas em Mafra, serei colocado em Lisboa na Agência Militar, recomecei os estudos, gota a gota vou fazendo exames, tenho família, nasceu-me uma filha, restabeleci uma vida social mitigada, fazer exames é o mais importante.

Veio depois o 25 de abril, o país tem uma inflação superior a 30%, os governos provisórios são obrigados a tomar medidas que obriguem à contenção dessa inflação. É agora nesse serviço público que eu vou descobrir a política dos consumidores, tanto a nível profissional como na participação cívica. A Guiné parece estar cada vez mais longe, visito e recebo em casa os meus soldados gravemente sinistrados, escrevo e recebo mensagens, há trocas de fotografias, descubro que falar da guerra incomoda muita gente, aliás o Governo garrota toda e qualquer informação que revela a evolução a que chegou a guerra nos três teatros de operações, é facto que há as notícias necrológicas, as mensagens de Natal do soldado, as campanhas do Movimento Nacional Feminino, não se mostram as partidas e chegadas dos contingentes militares, a filosofia é de que toda aquela tropa está em missões de policiamento, existe terrorismo que vem de outros territórios, é tudo estratégia do comunismo. Claro que há famílias enlutadas, mas a guerra continua longe.

O grande abalo, o de 1961, parece ultrapassado. De 1973 para 1974 entramos numa maré de sobressaltos: qualquer coisa de muito grave aconteceu na Guiné, não se sabe muito bem o quê; uma guerra para os lados de Israel vai desencadear uma crise petrolífera, as consequências serão visíveis na sociedade portuguesa, todos os preços sobem; em fevereiro de 1974 o General Spínola publica um livro onde consta uma frase fatal, não há solução militar para aquela guerra, só solução política. E assim chegámos ao 25 de abril.



VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita

Trabalhei no Ministério da Economia, no Ministério do Comércio e Turismo e até no Ministério do Ambiente, estou ativo na tal política dos consumidores, só a tutela é que muda. Ora algo aconteceu em 1989 que leva a que dois funcionários do Instituto do Consumidor se desloquem à República da Guiné-Bissau para discutir da viabilidade de um protocolo na área da política dos consumidores. Em janeiro de 1990, regresso à minha Guiné. O ministro do Ambiente de então, reunira-se com os seus colegas da lusofonia para negociar uma posição comum relativamente a um acontecimento que iria ocorrer em 1992, a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. O ministro da Indústria e dos Recursos Naturais da Guiné-Bissau surpreendeu o ministro português quando lhe pediu um programa de recuperação na área da defesa do consumidor. O ministro português disse que sim, encarregou o Instituto do Consumidor das diligências necessárias.

Foi uma semana intensa de contactos, sentia-se a ver sinceridade e preocupação quando se expunham os motivos de pedido de protocolo, dando uma grande abrangência à defesa do consumidor. Tomou-se nota de tudo e prometeu-se elaborar um documento favorável ao que se pedia e enviá-lo ao ministro português. Mas o meu coração não descansava, senti uma enorme vontade de visitar o regulado do Cuor. Um cooperante com quem se almoçava na chamada Pensão Central, ou da Dona Berta, ofereceu-se para lá irmos num domingo. Como aconteceu. 20 anos depois entrei em Missirá, houve choro convulsivo, abracei muitos amigos, recebi inúmeras cartas com pedidos, reencontrei o meu guarda-costas a quem prometi que tudo faria para vir para Portugal. Como aconteceu.

Chegado a Lisboa, preparei um relatório da missão em concordância com a expetativa das autoridades guineenses quanto ao lançamento daas bases de uma política para consumidores, eles pediam intervenção legislativa e formativa na área alimentar (punha-se a necessidade de saber minimamente o que se importava) no combate ao esbanjamento dos recursos naturais, na criação de uma instituição onde se articulasse as intervenções a favor dos consumidores, em paralelo com a concertação dos programas das agências das Nações Unidas em projetos com impacto no consumo; reconhecia-se como tutela o Ministério de Recursos Naturais e da Indústria, da Guiné-Bissau, a entidade colaboradora seria o Ministério do Ambiente de Portugal. Passaram-se semanas e meses, até que em maio de 1991 o Ministro do Ambiente convocou-me para me dizer que tinha conversado com o seu homólogo da Guiné-Bissau e que ele insistia numa cooperação para uma estrutura muito maleável que ajudasse os consumidores a otimizar os seus recursos. O Ministro previa um protocolo envolvendo um pequeno financiamento do lado português, lera o meu relatório, nomeava-me para essa missão. E em pleno verão português e até às vésperas de Natal dediquei-me de alma e coração a fomentar alianças entre a administração, as agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais. Tive a satisfação de fazer uma série de programas para a televisão da Guiné-Bissau, o título era Um milhão de consumidores. Deu-se então uma cena caricata, já tinham sido emitidos seis programas e um dos diretores da referida televisão veio-me pedir que encontrasse um patrocinador, caí das nuvens, não era a mim que cabia tal missão, sugeri alguns nomes de empresas públicas, o dito diretor entendeu que não havia condições para continuar, intuí que ele não percebia que um cooperante estrangeiro não podia andar diretamente a angariar patrocinadores.

Chegou-se ao entendimento, e mesmo houve uma decisão presidencial, para se criar uma comissão interna e industrial, propunha-se uma verba para fazer obras em instalações dadas pelo Governo guineense, nomeava-se um secretário-geral remunerado e pagava-se ajudas de custo aos participantes das reuniões. Vim para Lisboa, trazia a promessa do Ministro guineense de que enviaria o seu colega português os termos da aceitação. Silêncio total, insisti por carta e por telefone. Aprendi amargamente quanto pesam os silêncios africanos.

Chegou, entretanto, a Lisboa o filho mais novo do régulo do Cuor, passei a receber assiduamente notícias de gente que eu tanto estimava. O diretor de uma revista destinada a estudos coloniais, Carlos Cruz Oliveira, pediu colaboração, publiquei alguns artigos, escritos à pressão, não sentia disponibilidade para intervir a fundo, tinha o propósito de esperar pela reforma para lançar mãos à empreitada. É nisto que recebo um telefonema de um antigo furriel de armas pesadas de uma unidade de Bambadinca, estávamos paredes meias na sede do batalhão, vinha-me pedir autorização para reproduzir no seu blog um texto que eu publicara numa revista científica online. Combinámos encontro no seu ganha-pão, a Escola Superior de Saúde, e ainda hoje estou para saber o que me levou, imprevistamente, a declarar-lhe de que ia publicar o meu diário da Guiné no blog. Trabalhei neles durante dois anos, foram publicados em 2008 e 2009, ano a ano, de 1968 a 1969 com o título "Na Terra dos Soncó", nome de família do regulo do Cuor, e de 1969 a 1970, com o título "O Tigre Vadio", nome da operação mais sangrenta em que participei.

Enquanto ia publicando no blog estes trechos, juntavam-se outras peças resultantes das informações que me eram dadas por gente que tinha estado no Cuor ou regiões próximas. Também antigos militares meus residentes em Portugal me prestavam informações, eram sinistrados de guerra ou fugitivos da repressão do PAIGC sobre os comandos guineenses. Um acontecimento dramático, a perda de uma filha, em 2009, deu-me ocasião de me envolver em projetos de bastante fôlego, um inventário da literatura da guerra colonial da Guiné e um romance envolvendo uma mulher nonagenária que tinha vivido na Guiné entre os anos de 1950 e o início da guerra, proporcionou-me um relato sobre uma Guiné colonial antes do desencadear da luta armada.

Lia no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné relatos de ex-combatentes que visitavam a Guiné ou que acompanhavam projetos de ajuda humanitária. Sabe-se lá que as saudades do Cuor e de Bambadinca não estavam a ser avivadas por esta escrita. E comecei discretamente a congeminar uma viagem, fazia perguntas soltas, diziam-me frequentemente não vás, aquilo está tudo uma miséria, o país entrou num ocaso, se acaso alguma vez foi um país, virás de lá traumatizado, ainda por cima não encontras instalações disponíveis, é tudo uma insegurança e sozinho, se estás mesmo com saudades viaja em grupo.

Fui então estabelecendo um plano, conversei com os meus amigos guineenses em Lisboa, consegui obter apoio logístico perto no Cuor, em Santa Helena, na outra margem do Geba, escrevi a um amigo muito querido a viver em Bambadinca, um sinistrado de guerra, de nome Fodé Dahaba para ver da possibilidade de me encontrar toda a rapaziada dos antigos caçadores nativos e dos dois pelotões de milícias, queria visitá-los, o meu propósito era ir despedir-me deles todos, agradecer-lhes a leal colaboração que me tinham dado, visitar os locais onde combatera, falar com antigos combatentes do PAIGC. Pedi mesmo ajuda junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau. E em novembro de 2010, ajoujado de sacos com livros e lembranças, com uma listagem de endereços, inclusivamente transportando um bom conjunto de encomendas de guineenses residentes em Portugal para guineenses residentes na Guiné-Bissau, apresentei-me no Aeroporto da Portela. A sonhar da viagem da reconciliação e sem qualquer ilusão quanto ao peso das emoções que me esperam, vai começar.


(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Foi mais um reencontro, moramos em ruas paralelas, ambas a desaguar na Avenida de Roma ou no Campo Pequeno. Encontramo-nos muitas vezes na rua, sempre com promessas de reencontro, desta vez aconteceu, pedi-lhe para trazer os seus álbuns e que me desse licença para tirar algumas imagens, falei-lhe do blogue, ele é assumidamente info excluído, prometi-lhe que no dia da publicação lhe iria telefonar, ele encontraria uma solução para ver as imagens. Devo-lhe imenso, como explico no texto, foi de uma dedicação sem limites, confessou-me que fez muitas vezes um esforço enorme para não se zangar com a minha hiperatividade, com tantas obras nos quartéis de Missirá e Finete, emboscadas e aquelas malditas viagens quase diárias a Mato de Cão. Agora somos octogenários, um tanto especiais, não falámos das maleitas, mas das lembranças da Guiné.

Um abraço do
Mário



Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca:
O Furriel João Manuel Sousa Pires


Mário Beja Santos

Quando cheguei a Missirá e Finete, em 4 de agosto de 1968, os meus colaboradores diretos no Pelotão de nativos eram os Furriéis Saiegh e Ferreira, estavam de partida até ao final do ano. No ano seguinte, a conta-gotas, chegaram os furriéis Sousa Pires, Luís Casanova e Pina.

Depois de muitas promessas para encontros prometidos, em 4 de setembro de 2025 houve nova troca de recordações ao vivo, antes pedi-lhe para trazer os seus álbuns e licença para fotografar algumas imagens, o que me foi concedido.

Voltei a dizer em João Sousa Pires que lhe estava profundamente grato, dera-me uma ótima colaboração, apoiara-me em momentos decisivos, por exemplo, contava sempre com ele para as contas e pagamentos, a burocracia dos autos de abate, a resposta expediente, até as escalas de serviço. Nunca esqueci o apoio indefetível que me deu quando caí na cama e o médico do Batalhão, David Payne Pereira, determinou que eu ficasse vários dias no estaleiro, socorri-me do Sousa Pires para mandar correio à família; também ele me apoiou do princípio ao fim quando me foi aplicada uma pena de dois dias de prisão simples, esbracejei junto de todas as instituições militares possíveis, isto independentemente de, na data em que era punido, o comandante do Agrupamento de Bafatá me louvava e me dava como exemplo pela mentalidade ofensiva e de liderança das forças a meu cargo.

O João Sousa Pires desembarcou em Bissau em setembro de 1968, foi colocado temporariamente na CCS do Quartel-general, deram-lhe trabalho no Serviço Postal Militar, só mais tarde é que foi despachado para o regulado do Cuor, começou aí uma cooperação que forjou a minha estima e elevada consideração pelo apoio que dele recebi.

Só nesta conversa é que me apercebi que ele estivera mobilizado para Moçambique, nas marchas finais, numa noite escura como breu espetou-se no arame farpado de uma propriedade rústica, estatelou-se e fraturou o ombro, hospitalização no Porto, regresso a Tavira e daqui mobilização para a Guiné. Fez-me companhia em Bambadinca até qualquer coisa como junho de 1970, foi então destacado para a secretaria do BART 2917, eu regressei em agosto e ele em outubro. Foi com maior satisfação que lhe redigi um louvor que lhe foi dado pelo Comandante do Batalhão.

Fotografei algumas imagens alusivas aos nossos tempos, tenho muito orgulho que fiquem no blogue:

Este era o nosso balneário primitivo, espaço tenebroso, aquelas chapas afiadas ensanguentaram muita gente, meses depois o Batalhão de Engenharia forneceu um novo conjunto de bidões e mandou material para renovarmos o balneário, entretanto chegou sanita e criou-se um espaço sanitário que acabou com a degradação da fossa. Quando fui castigado com dois dias de prisão simples, bem aleguei, mostrando cópias da documentação que mandava para Bambadinca, que pedia materiais para renovar o quartel, grande parte dos abrigos estavam podres, nada feito. Foi preciso haver a destruição de 19 de março de 1969 e eu ter ido a Bissau para fazer uma operação que me permitiu uma conversa com o Capitão Rui Gamito e o Alferes Emílio Rosa, ganhei uma carrada de materiais e duas grandes amizades, entre os benefícios veio o novo balneário.
Este espaço era conhecido pelo nome pomposo de parada, por detrás do Sousa Pires estava o abrigo do morteiro 81 e as suas granadas encaixotadas, era aqui que eu trabalhava nas noites de flagelação auxiliado pelo Cabo António da Silva Queirós, ele metia uma braçadeira resistente às altas temperaturas e ali estávamos até a força do PAIGC nos deixar em paz.
Não escolhi esta fotografia por mero acaso. O Sousa Pires pousou para a fotografia no limite do porto de Bambadinca o que permite ver ao fundo uma canoa no Geba a caminho da bolanha de Finete, havia depois um caminho acidentado com cerca de quatro quilómetros, enchíamos o burrinho (Unimog 411) com os nossos haveres, primeira paragem Finete, dezasseis quilómetros depois Missirá. Quando voltei pela primeira vez a Missirá, vinte anos depois, tinham encerrado aquele caminho, tudo se resolvera com uma ponte a atravessar até Bambadinca, chegava-se a Finete de autocarro, mota, bicicleta, automóvel, camião, mas nada de atravessar a bolanha de Finete.
Não é a primeira vez que aqui se publica esta imagem, não escondo que me comovo profundamente quando a revejo. É dia de Natal de 1969, no ano anterior, nesse mesmo dia, vivi a festa mais emocionante que a vida me proporcionou, irrepetível. Neste ano estamos na ponte do rio Undunduma, um dos sítios mais horríveis pelas condições deploráveis, pelos riscos de ali estar sem os meios de defesa combatíveis. Fui tomar banho ao rio, chegou o condutor com a comida e também se foi molhar, é ele que está à direita. Estes são os meus fiéis companheiros, Sousa Pires está no centro, o Alferes encolheu-se, não se quer mostrar em cuecas, exibe despudoradamente a patorra de quem calça 45, feliz pela companhia, tristonho na relembrança, a generalidade destes homens já partiu para as estrelinhas, mas eles só morrerão quando deles não se falar, por isso deixei o nome de todos eles escrito num dos meus livros.
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Nota do editor

Último post da série de 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25651: Notas de leitura (1701): Cuidado com o material em falta! (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Novembro de 2022:

Queridos amigos,
Andamos a ler as peripécias vividas por um engenheiro civil em Bolama, em 1928, era Governador o Major Leite de Magalhães, o sr. engenheiro tinha as contas no caos, ofendia gente e levava lambada, era sancionado pelo Governador em pleno boletim oficial, contestava sempre, e não esconde que tinha amizades em Lisboa. Nisto saltaram recordações de material em falta, a necessidade urgente de fazer processos de abate para ferros retorcidos de camas, colchões, fronhas e lençóis queimados, armas escavacadas. E logo um alferes na sede do batalhão, em Bambadinca, me pedia para em cada flagelação eu meter as faltas que ele tinha nos seus depósitos. Fatal como o destino, apareceu-me um coronel com cara de poucos amigos a perguntar como é que eu tinha mais abates que 2 batalhões juntos... Tudo se explicou, tudo se perdoou, mas isto do material em falta, deteriorado ou avariado, pode dar as mais inusitadas chatices, regressara a Portugal há bem 6 meses e bateu-me à porta um polícia, tinha que pagar um lençol rasgado (que, evidentemente, recebera rasgado, e com a calmante explicação que não tinha importância nenhuma) ou então teria que o acompanhar à esquadra.
Cuidado com o material em falta!

Um abraço do
Mário



Cuidado com o material em falta!

Mário Beja Santos

A situação de que vou falar foi vivida por muitos combatentes e relaciona-se com material deteriorado sobre o qual havia exigências severas de processo de abate. Imagine o leitor como o assunto sobreveio, lendo documentação manuscrita com um século ou mais que se encontra nos reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Folheando uma grossa pasta, dei com uma novela vivida por um engenheiro civil, diretor das obras públicas em Bolama, no primeiro semestre de 1928, era governador da Guiné o Major Leite Magalhães e o engenheiro chamava-se Caetano Marques de Amorim, recusou ir para o Estado da Índia, foi despachado para a Guiné onde teve muitíssimos problemas, desde ter levado forte pancadaria de deportados ofendidos, uma advertência feita pelo governador em pleno boletim oficial e ser dado como um diretor de obras públicas altamente negligente. O inspetor extraordinário José Manuel de Oliveira e Castro envia ao governador em 29 de agosto de 1928 o resultado da inspeção financeira que levara a cabo na Direção das Obras Públicas.

Escreve:
“A inspeção teve início em 14 de abril último, pelo balanço dado ao cofre e pela verificação dos documentos nele exigentes, representando despesas efetuadas.
E dada a forma irregular como se haviam realizados os pagamentos constantes da documentação ali encontrada, no montante de muitas centenas de escudos, foi necessário proceder a um estudo e confronto demorados com a escrituração da Direção da Fazenda.
Relativamente ao Depósito de Materiais e Ferramentas, não podia ter lugar qualquer exame à sua escrita, porque ela não existia. Existia, sim, um livro sem obediência aos mais rudimentares preceitos legais, mal escriturado e atrasado. Os materiais e ferramentas existentes no Depósito, encontravam-se aos montes, sem indicação de preços e sem referência a faturas.
Foi, portanto, necessário promover a regularização da escrita, o inventário de toda a existência e a organização do novo livro, por onde se pudesse conhecer as espécies dos materiais e dos artigos à carga desse Depósito. Tal serviço foi protelado por parte do respetivo Fiel, durante muito tempo, e, para a sua mais breve conclusão indispensável se tornou que a Direção da Fazenda lhe suspendesse os vencimentos até concluírem e apresentarem os respetivos trabalhos.
Só em 10 de julho do ano corrente, o Sr. Diretor das Obras Públicas, engenheiro Marques de Amorim, me comunicou que o Fiel do Depósito tinha regularizado a escrita. Mas, vista ela, notou-se-lhe a falta de vários elementos que verbalmente lhe foram pedidos e que não apresentou, até que os pedi oficialmente. Em 11 do mesmo mês, vieram esses elementos com a nota da Direção das Obras Públicas, e no mesmo dia estava ultimada a inspeção financeira, cujos resultados levei ao conhecimento daquela Direção.
Verificado está que a demora havida se deve ao caos em que se encontrava a parte financeira daquela Direção, que, é indispensável acentuar-se, a mim, como inspetor extraordinário me pertencia apenas verificar e não organizar e compor, como fiz, não só pelo natural empenho da regularidade de todos os serviços da colónia, como também para satisfazer às instâncias do engenheiro Marques de Amorim, abraços com as dificuldades resultantes dos mais processos adotados anteriormente ao seu exercício.”


Despede-se com os cumprimentos da época (Saúde e Fraternidade), continuei a ler o processo, Marques de Amorim tentou agredir o deportado político José Simões da Piedade, disse a quem o ouviu que se estava a “cagar na revolução”, os deportados ajuramentaram-se para lhe dar um corretivo, Leite Magalhães irá puni-lo por comportamento desrespeitoso, enfim, uma perfeita cegada. Enquanto tudo isto lia, ocorreu-me o que vivera em Missirá, corria o mês de agosto de 1968. Peripécias inesquecíveis, e como é próprio destes casos, com ameaças de punição à vista.

Estava acerca de 1 mês a comandar Missirá e Finete, vivi em Missirá mais tempo, e um dia o cabo-quarteleiro, de nome Veloso, de voz ciciante e sempre a retorcer para baixo a sua bigodaça me recordou que havia uma divisão que eu ainda não visitara, um depósito de material sem préstimo, que conviria urgentemente denunciar à CCS do novo batalhão que ia chegar em breve a Bambadinca. Lá fui visitar o dito depósito, emanava um cheiro nauseabundo a podridões várias, ali havia de tudo, ferros de cama enferrujados, capacetes que tinham perdido préstimo, umas estranhíssimas peças em couro a cheirar a mofo, restos de terrinas metálicas rachadas ou amolgadas, enfim, um mundo inesperado de sucata com que eu não sonhara. E começou uma aventura kafkiana: interrogado o furriel que estava encarregado da contabilidade e manutenção, declarou nunca ter feito autos de abate, nem lhe conhecias a fórmula; anotado como prioritário o assuno na minha agenda, vou a correr falar com o tenente da secretaria do BART 1904, entregam-me formulários, insistem que devo fazer rapidamente o preenchimento dessa documentação, partirão em breves semanas. E preencheu-se aquela burocracia, senti alívio de meter em sacos toda aquela traquitana nauseabunda.

Não tinha passado 1 mês desde a chegada do novo batalhão, sofro uma flagelação de monta em Missirá, na noite de 6 de setembro, fez-se o relatório e descriminaram-se as perdas, o novo alferes encarregado da manutenção do material pede-me para eu alterar os números: na flagelação perderam-se 2 camas, ele recomendou que eu pusesse 20; arderam lençóis, fronhas e colchões, “Epá, põe aí qualquer coisa como 30 pares de lençóis e fronhas e mesmo os colchões, fiz o inventário aqui do batalhão, nem podes imaginar o material que falta, tenho que pedir auxílio a quem sofre flagelações para não vir a ter chatices”.

E cada vez que eu tinha uma flagelação aquele brioso alferes da CCS avolumava perdas.

Até que um dia desceu um helicóptero em Missirá, dele saiu um coronel com ar de poucos amigos, depois de um seco aperto de mão pediu-me um ambiente reservado para conversarmos, foi direito ao assunto, em Bissau achava-se completamente inacreditável que naquele quartelzinho com um pelotão de milícias e um pelotão de caçadores nativos houvesse perdas que excediam à vontade as de um batalhão que estivesse permanentemente a ser atacado. Respondi-lhe sem hesitar que tinha perdas e não enjeitava a camaradagem, como o Sr. Coronel podia imaginar ninguém estaria interessado em levar para a metrópole cobertores malcheirosos, ferros de cama, pedaços de fronha, rolos de arame farpado, procedera com solidariedade e não estava arrependido. O Sr. Coronel então sorriu, deve ter considerado que era com aquela franqueza chamar os bois pelos nomes que valia a pena encerrar o assunto, como aconteceu, meses depois o tal inquérito que foi arquivado.

Enfim, enquanto lia na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa os infortúnios e os disparates de Caetano Marques de Amorim, veio-me à lembrança que não se deve descurar o material em falta, quem descura arrisca-se a muitos amargos de boca. E fica aqui a última lembrança. Já em Bissau, pronto para regressar, aboletado num dormitório infecto a que chamávamos “Vaticano III” entregaram-me um lençol esfarrapado, que não me preocupasse, entregava-o assim na data da partida, era material para abate, não havia mais. Acreditei e 6 meses depois, a viver na Avenida do Brasil, em Lisboa, bate-me à porta um polícia e mostra-me um documento em que eu tinha que repor uma maquia por ter esgarçado um lençol em Bissau, se não pagasse imediatamente teria de o acompanhar à esquadra. Mais uma vez se mostrava que é preciso ter muito cuidado em manusear material para abate…

Prestando-se assistência sanitária na Guiné, 1967, Arquivo Global Imagens, com a devida vénia
A messe em Missirá (Cuor) em 1966, imagem do blogue
A minha morança em Missirá, ardida em 19 de março de 1969
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Nota do editor

Último post da série de 14 DE JUNHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25639: Notas de leitura (1700): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, anos 1858 a 1861) (7) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 21 de março de 2022

Guiné 61/74 - P23098: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento, ex-Fur Mil Art) (22): Lugares da Guiné

Carta Geral da Província da Guiné
© Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Em mensagem do dia 18 de Março de 2022, o nosso camarada José Nascimento (ex-Fur Mil Art da CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71), lembra os locais da Guiné por onde peregrinou.


RECORDAÇÕES DA CART 2520

22 - LUGARES DA GUINÉ

A CART 2520 enquanto sediada no Xime exerceu uma grande actividade fora do arame farpado, tanto a nível de Companhia ou de pelotão e conjuntamente com a CCAÇ 12 e os Pelotões de Caçadores Nativos 52 e 54, originando para os operacionais um enorme trabalho e também um grande desgaste físico e psicológico. O 3.º pelotão a que pertenci, percorreu praticamente todos os cantos, trilhos e picadas da zona operacional. Por mero acaso fui tomando alguns apontamentos numa pequena pasta onde guardava a minha correspondência e que actualmente a conservo quase religiosamente.

A partir destes curiosos apontamentos, da minha memória e com recurso à carta do Xime e de outros locais, elaborei uma lista que vou partilhar com os camaradas da nossa Grande Tabanca, ou melhor, da Tabanca Grande, dos lugares da Guiné por onde andei, incluindo também os lugares da segunda fase da nossa passagem pelo Ultramar quando a nossa Companhia assentou arraiais em Quinhamel:

Bissau - Início da comissão em 30 de Maio de 1969, alguns dias. Em Junho e Julho de 1970 várias vezes e em Março de 1971
Brá - Primeiras dormidas na Guiné antes da partida para o Xime
Xime - Base da CART 2520 durante o 1.º ano, Junho de 1969 a Junho de 1970
Bambadinca - Um sem número de deslocações com a finalidade de alguns reabastecimentos, ir buscar e levar correio e outros serviços
Mansambo - Primeiras 3 semanas para o treino operacional com o 3.º pelotão
Bafatá - Várias idas com a finalidade do Vaguemestre comprar vacas para nossa alimentação
Ponte Rio Udunduma - Por inúmeras vezes como mini destacamento e de passagem para Bambadinca
Enxalé - Mais de dois meses como destacamento e para segurança da população
Finete - Patrulhamento até ao Enxalé
Mato de Cão - Patrulhamento a partir de Finete até ao Enxalé
Mato Madeira - No percurso entre Finete e Enxalé
Malandim - Zona do Enxalé, patrulhamento
Gambana - Nas proximidades do Enxalé, patrulhamento
Madina Colhido - Inúmeros patrulhamentos e montagem de emboscadas e de seguranças aos barcos que passavam no rio Geba
Ponta Varela - Em operações
Ponta do Inglês - Três passagens em Operações
Foz do Corubal - Uma passagem em Operação
Ponta Coli - Dezenas de seguranças para a passagem de colunas da nossa Companhia e de outros militares
Ponta Luís Dias - Passagem durante Operação
Mouricanhe - Em Operação
Chacali - Em patrulhamento
Chicamiel - Em Operação
Poidon - Em patrulhamentos
Háfio - Em operações
Darsalame/Baio - Em Operações
Buruntoni - Em Operações
Colicumbel - Em patrulhamentos
Lantar - Proximidades do Xime em patrulhamentos
S. Belchior - Em operações
Malafo - Patrulhamento
Bissilão - Em Operações
Gundagué Beafada -Em operações
Amedalai - Ponto de passagem obrigatório para colunas a Bambadinca
Samba Silate - Em patrulhamento, passando por Amedalai
Taibatá - Colunas de apoio à população
Demba Taco - Colunas de apoio à população
Quinhamel - Base da CART 2520, tendo divergido para Safim, João Landim e posteriormente para o Biombo
Safim - Base do 3.º pelotão - Junho, Julho e parte de Agosto de 1970
João Landim - Permanência de dois meses com uma secção
Nhacra - Breve passagem
Biombo/Ondame - Entre Setembro de 1970 e Março de 1971 como destacamento
Blom - Tabanca nas proximidades do Biombo
Blimblim - Tabanca nas proximidades do Biombo
Dorce - Tabanca nas proximidades do Biombo
Ponta Biombo - Patrulhamentos e momentos de descontração
Ilondé - De passagem
São Vicente da Mata - De passagem
Cais de Pigiguidi - Chegada a Bissau e "Adeus Guiné"

José Nascimento

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Nota do editor

Último poste da série de 23 DE JUNHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22311: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento, ex-Fur Mil Art) (21): Martins, o caçador de rolas

sábado, 9 de outubro de 2021

Guiné 61/74 - P22614: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (17): as meninas do rio Gambiel, no regulado do Cuor, à pesca...


Foto nº 1A


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 5A

Guiné-Bissau > Leste > Região de Bafatá > Setor de Bambadinca > Regulado do Cuor > Rio Gambiel > Junho de 2021

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. M
ensagem de Patrício Ribeiro (português, natural de Águeda, da colheita de 1947, criado e casado em Nova Lisboa, hoje Huambo, Angola, ex-fuzileiro em Angola durante a guerra colonial, a viver na Guiné-Bissau desde meados dos anos 80 do séc. XX, fundador, sócio-gerente e director técnico da firma Impar, Lda; membro da nossa Tabanca Grande, com 107 referências no blogue):


Data - 05/10/2021, 22:39 (há 3 dias)


Assunto - Fotos de Finete, Bambadinca, pesca

Luís,

Conforme teu pedido (, "Patrício, quando passares lá pelos meus lados - Contuboel, Bafatá, Bambadinca, Fá Mandinga, Xime, Xitole, Saltinho, Rio Corubal - bate umas chapas"), mando-te fotos do Leste.

Tu e o Beja Santos, poderão encontrar nestas fotos as bisnetas … (dos vossos camaradas de armas) à pesca no rio Gambiel, nos finais de julho de 2021. (Fotos nºs 1 e 2).

Junto à ponte de betão que atravessa o rio (Foto nº 3), no meio da bolanha onde se cultiva o arroz no tempo da chuva, entre Finete e Bantajã, perto de Bambadinca, onde as bajudas e mulheres, se juntaram às dezenas para fechar o rio, com as sua redes artesanais, para pescarem na maré baixa. (Fotos nºs 4 e 5).

Esta pesca, é muito comum nos diversos rios da Guiné, com água até ao peito e com o balde à cabeça.

O rio, um pouco mais a nascente, é alimentado por lagoas de água doce, onde há mais de 30 anos eu comprava peixes para a alimentação dos meus colegas de trabalho.

Neste rio e lagoas, eu também “pescava” patos bravos para as minhas refeições, quando durante 3 anos, tive uma casa na tabanca de Gambiel, para os meus trabalhos nos diversos projetos da empresa pública de madeira SOCOTRAN, financiados pela Cooperação Sueca.

Esta ponte  (sobre o rio Gambiel, afluente do Rio Geba Estreito)
 foi construída depois da Independência (Foto nº 3).

Em 1998, era uma das muitas fronteiras; entre os militares da Junta militar do Ansumane Mané do lado norte, e os militares da Guiné-Conacri, que apoiavam o presidente 'Nino' Vieira que estavam do lado sul, tinham carros blindados na encosta de Bantajã debaixo das árvores.

Quando por lá passei de viatura a caminho de Dacar, levando alguns amigos comigo, para apanhar avião para Lisboa, não fomos autorizados a sair de Bissau. Tivemos que fugir… apanhámos muitos sustos, passamos por 20 controlos militares e policiais, até Dacar. Nesta altura, o aeroporto de Bissau, esteve fechado durante muitos meses.

Tabanca onde anteriormente a Soares da Costa e a Somec, Empresas Portuguesas de Construção Civil, tinham as suas pedreiras, para as extrações da pedra duralite, semelhante ao granito, utilizada nas maiores construções de obras publicas, pós-independência. (Vamos ver os comentários que o nosso amigo António Rosinha tem, sobre o assunto !!!???)

Nota: Ver o que o nosso amigo Beja Santo escreveu nos seus livros sobre esta zona, e continua a escrever …

Abraço, Patricio Ribeiro

IMPAR Lda
Av. Domingos Ramos 43D - C.P. 489 - Bissau , Guine Bissau
Tel,00245 966623168 / 955290250
www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com


Guiné >Leste >  Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Bambadinca, Nhabijõs, Mato Cão, Finete, Mero, Santa Helena, Bantajá,Ponta Brandão, Fá Mandinga, Canturé,  Missirá, Aldeia do Cuor, rio Geba e tio Gambiel... Lugares "míticos" que alguns de nós conhecemos...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2021)

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Nota do editor:

Último poste da série > 2 de outubro de 2021 > Guiné 61/74 - P22589: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (16): Mais algumas fotos dos meus passeios: Bolama, junho de 2021

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Guiné 61/74 - P21608: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (29): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2020:
Queridos amigos,
Annette está de regresso a Bruxelas, atira-se ao trabalho, esse trabalho não é só profissional, trouxe de Lisboa documentos, cartas, aerogramas, folhas soltas e imagens correspondentes ao primeiro trimestre de 1969, tudo referente a Paulo Guilherme e a um tal regulado do Cuor, por quem ele sente uma paixão inextinguível.
Escrevendo a Paulo, Annette pergunta se a realidade não supera quase sempre a ficção, basta ler estes patrulhamentos, estas operações, a flagelação sobre Missirá e a dura resistência a que ela obrigou aqueles homens que juraram entre si que jamais se renderiam. Como o leitor verificará, esta regra do jogo de escrever para uma ficcionada mulher amada leva a que todo este estado amoroso acaba por absorver aquela estranhíssima proposta do tal português que fizera a Annette, inesperado encontro, ele disse-lhe que tinha imaginado um romance em que um português contaria a uma estrangeira toda a sua experiência numa guerra de que ela nunca tinha ouvido falar, de um país que é um pequeno ponto no mapa, a Guiné-Bissau, e que aquele encontro a pretexto do romance desaguara numa coisa séria, romance mais dentro do romance é pouco imaginável que possa vir a acontecer.
Deixemo-los nesta felicidade pois quem anda a mexer nos cordelinhos da prosódia também ganha em satisfação, à distância de mais de meio século ele sabe que o renascimento de Missirá foi um dos episódios determinantes da existência, aprendeu que há lutas que não se enjeitam, há causas que dão mais vida aos anos, e quanto mais as sentimos mais tempo vivemos, com dignidade e respeito por nós próprios.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (29): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Mon adorable Paulo, chegou o momento de te agradecer a minha primeira estadia em Lisboa, apreciei muito comovida o modo como me acolheste, bem como os teus entes queridos e amigos, é uma cidade magnífica, já a visitara duas vezes para conferências, primeiro quando Portugal aderiu à CEE e depois na presidência de 1992, fiquei impressionada nesta última com as mudanças, agora ainda fiquei mais, tu fizeste-me a grande surpresa de me levar ao Parque das Nações, é fascinante, acredito que toda aquela parte velha que vai até ao Terreiro do Paço sofrerá ao longo dos anos grandes benefícios, foi o que eu senti naquele longo passeio que demos no último dia do ano, regressei a casa cansadíssima, tu adoras andar a pé e eu acompanho-te entusiasmada com as tuas descrições, gostei mesmo muito de conhecer o Palácio do Duque de Lafões, imagine-se numa zona ainda relativamente degradada.

Tu tens muito bons amigos, e isso é consolador para nós os dois, sinto que tu és estimado e correspondido nos teus afetos. Aquela passagem de ano em casa da tua amiga Belmira Coutinho, a vermos os fogos de artifício, a comer as vossas iguarias e vir depois para a varanda com as doze passas e o copo de espumante foi mais um momento de felicidade, meti todas aquelas passas à boca a pensar no futuro promissor dos meus filhos e viver permanentemente ao pé de ti. Imagina que enquanto todo aquele fogo ribombava me veio ao espírito uma conversa havida com a minha mãe a propósito do meu pai que faleceu tão novo, seguramente que os sofrimentos a que foi sujeito durante a II Guerra pesaram muito. Depois dizia a minha mãe que recebera na véspera do casamento uma carta do seu noivo a confessar-lhe a adoração que sentia por ela, a exaltar os primores de caráter da noiva e que a frase final a marcara para sempre: “Se te couber um dia fechares os meus olhos no leito de morte, lembra-te que foram olhos que agradeceram os dons da vida em que estiveste como minha aliada permanente, olhos brilhantes de paixão, olhos que te seguiram para todo o lado com enlevo e admiração. E ao fechares os meus olhos tu terás para o resto da tua vida a grata lembrança que soubemos permanecer unidos pelo respeito e na plena fusão dos nossos projetos. E amanhã serás a mulher desse homem que em circunstância alguma abdicará da luminosidade da tua companhia”.

Pois regressei, procurei pôr em ordem o que trouxe de Lisboa, conversei com os filhos e organizei a semana de trabalho. Como é meu hábito, à noite organizo em parte todo o material que me envias, e desta vez trouxe debaixo do braço tudo quanto faltava para saber ao pormenor o primeiro trimestre da tua guerra em 1969. Aqui vai um resumo de tudo quanto pude captar.

A 1 de janeiro, a caminho de Finete e da missa na Capela de Bambadinca, encontras vestígios da passagem de elementos ligados à guerrilha. No dia seguinte regressas a Bambadinca para fazer um reconhecimento aéreo com o major de operações, descobres que a escassos quilómetros de Missirá há bolanhas cultivadas. Não perdes tempo, saem na madrugada seguinte e foram até à ponte do rio Gambiel que já escreveste dizendo é um sítios mais formosos do mundo. Caminham pela orla que separa os regulados do Cuor dos de Mansomine e Jaladu. Vocês foram avistados e logo fogueados com morteiros. Respondem ao fogo e um dos apontadores de bazuca fica ferido, não se sabe a dimensão da gravidade.

Enquanto se fazem obras no arame farpado e anda por ali atarefado o alferes sapador (tu dizes chamar-se Mena Reis) com quem terás contencioso, ele pretende armadilhar locais acessíveis a crianças, descobre-se uma conjura de gente de Finete que se queixou de ti ao comandante, haveria milícias que se queixariam de maus-tratos e que não darias apoio à tabanca, privilegiando Missirá. Não foi precisa uma longa investigação para descobrires que por detrás da cabala estava o comandante da milícia, o vaidoso e pouco amigo do trabalho Bazilo Soncó. Escreves ao comandante do batalhão alertando-o para várias urgências, achavas que a vida militar do Cuor podia estar intimamente associada ao Enxalé, recordavas o estado degradado em que se encontravam os dois destacamentos de Missirá e Finete, mandaram-te teres paciência. Anotei o acervo de leituras que fizeste, as cartas enviadas e recebidas.

Pelas consequências havidas, reproduzi ao pormenor o que tu me mandaste sobre a primeira visita do General Spínola a Missirá, a sua rispidez contigo e também a do comandante de Bafatá. Ri perdidamente com aquele episódio em que o dito general falando aos soldados os chamava por “luz do mato” e um deles interpelou-o da seguinte maneira: “Comandante fala na luz do mato. Mas nunca falou no gerador. Gerador é que dá luz. Quanto traz gerador para Missirá?”. Serás punido com dois dias de prisão simples e assim impedido de teres férias, e ao mesmo tempo recebes o primeiro louvor dado por general considerando que a tua mentalidade ofensiva deve ser apontada como exemplo. Vão seguir-se vários patrulhamentos, cada vez mais próximos dos locais onde se fixa a guerrilha. Há aquela operação Andorra e também escrevi com pormenor o ataque de abelhas em que vocês corriam espavoridos por um lado e os guerrilheiros por outro. Registei aquela ameaça que tu recebeste de Mamadu Jaquité, irás ao seu encontro em 1991, ele era então comandante do Cumeré, transcrevi o teor da ameaça: “Tu não passas de um alferes de merda. Andas a chatear um povo que quer ser livre. Tu vais morrer ou eu ter vergonha de viver na minha pátria. Se quiseres desertar, tu vens cultivar a bolanha de Madina. O meu nome é Mamadu Jaquité”.

Vai seguir-se a terrível e desastrosa operação Anda Cá, antes durante um patrulhamento a Quebá Jilã vocês capturaram um jovem que seguirá na operação como guia. A narrativa que tu deixas do estado calamitoso de 300 homens depois da frustração da operação que é interrompida quando tu já avançavas para o objetivo de Madina é quase um quadro de horror, gente no maior sofrimento, a gritar por água e por tratamento dos pés feridos. Segue-se uma operação onde foste a um local chamado Mansambo, pela primeira vez tu entrarás no acampamento abandonado e segues para Bissau para extraíres uma cartilagem formada atrás do joelho direito que praticamente te impedia de andar, é comovente o teu encontro na enfermaria com Fodé Dahaba, não sei se alguém poderá escrever um quadro de dor parecido com o que tu nos dás. E comovente também o facto de o Fodé ter pedido a um enfermeiro para tu ficares numa cama ao lado da dele.

Encadeiam-se mais tragédias. Mal te consegues pôr em pé, vais ao Batalhão de Engenharia, numa localidade chamada Brá e consegues obter muitos materiais para as obras dos teus quartéis. Quando tens alta, a 20 de março e entregas a guia de marcha no Quartel-General, um sargento atira-te a seco uma mensagem há pouco recebida, Missirá fora na véspera atacada, pouco passava das nove da noite, e uma parte muito importante do quartel ou da povoação fica em cinzas. Em estado de estupor, regressas ao hospital militar, à procura de feridos, pois o relato incluía dois mortos, dois soldados feridos e seis civis hospitalizados. Encontras o régulo Malan Soncó numa enfermaria, foram-lhe extraídos estilhaços do peito. Como se fosse o acontecimento mais importante de toda aquela flagelação, o régulo insiste na notícia: “A tua morança desapareceu completamente, só ficaram os ferros da cama. Na tua ausência puseram lá uns cunhetes de granada que aumentaram a explosão. Prepara-te porque não vais encontrar nada”. Consegues, depois de muito insistires, um transporte que rapidamente te leva a Bambadinca e daqui a Missirá. Tu escreves que vai começar um dos momentos mais empolgantes da tua existência, decidiste que em tempo recorde Missirá será construída, disseste isto aos teus soldados e à população, não se pode ler o relato que te fizeram da resistência àquele formidável ataque sem sentir um tremor no corpo, aquela resistência durante horas, as munições já praticamente esgotadas, o pacto de sangue estabelecido entre os soldados, lutariam até ao fim, cada um ficaria com duas balas, se entretanto os guerrilheiros ousassem avançar, receberiam a penúltima bala, a última culminaria na morte do combatente, nunca se renderiam. E quando termina este primeiro trimestre tu dizes que Missirá está a renascer entre a lama e o cimento. É tudo isto que eu estou a coligir para tu depois forjares as tais cartas a que eu vou responder no que tu chamas o romance da Rua do Eclipse. Há momentos, meu adorado Paulo, em que eu me interrogo se de facto a realidade não é mais pujante que a ficção. Como é que foi possível tudo isto ter acontecido? Obviamente tenho lido como toda a gente livros sobre a II Guerra Mundial, aqui bem a sofremos com perseguições, penúria, prisões arbitrárias e até execuções. Há romances notáveis sobre a luta nos guetos, as batalhas na frente russa, as fugas audaciosas de prisioneiros, mas arrepia décadas depois, por causa de uma obstinação em querer ter um império contra os ventos da História, a tua geração ter sido forçada a participar nesta calamidade.

Interrompo por aqui esta narrativa para te contar que eu e vários colegas fomos convidados pela colega Nelly Alter a uma festa em sua casa, numa localidade chamada Saint-Marc, a poucos quilómetros de Namur, um acolhimento formidável e depois do repasto, que se realizou cedo, a Nelly sugeriu que fôssemos passear, não dentro de Namur mas para visitar duas localidades e monumentos que ela muito aprecia. São essas as imagens que te envio, para prazer dos teus olhos.

Renovo a minha gratidão de tudo quanto me ofereces. Hoje sinto-me muito otimista e nada melancólica. Percebi que balbuciavas quando me disseste na terceira semana do mês a reunião da tua Associação se realiza em Florença, acontece que tenho praticamente trabalho todos os dias este mês de janeiro, as instituições comunitárias já estão em pleno funcionamento e tu disseste-me que ainda tinhas quatro dias úteis de férias do ano anterior para gozar e que seriam integralmente passados comigo, em fevereiro. Vou amanhã mesmo falar com o responsável pelo meu calendário de trabalho e ver se é possível em ter uma semana em branco. Telefono-te imediatamente.

Ando com o teu anel, os colegas perguntam-me de onde vem, elogiam-no. “É presente do meu noivo, é anel para toda a vida”. Despeço-me com o maior carinho, com a muita saudade (que é portuguesa e belga), e com os votos de que janeiro passe depressa para eu te ter ao pé de mim, tua, Annette.

(continua)
Fogo de artifício na passagem de ano
Château de Spontin, Bélgica
Basilica Saint-Materne (Walcourt), Bélgica
Fodé Dahaba, a nossa grande perda na Operação Anda Cá
Operação na área do Xime, o Pel Caç Nat 52 participa, à direita António da Silva Queirós, também conhecido pelo 81, segue-se Ieró Baldé, 1.º guarda-costas de alfero, segue-se Serifo Candé, amigo de peito de alfero e o barbeiro Manuel Costa, hoje detentor do blogue A Nova Barbearia Costa, de onde se retirou esta imagem, com a devida vénia.
Festa do Natal de 1970 do Pel Caç Nat 52, imagem herética, como é possível aquele garrafão de vinho junto de bravos Fulas e Mandingas? Mistério insondável
Festa de Natal de 1969 na ponte do rio Undunduma, perto de Bambadinca
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Nota do editor

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Guiné 61/74 - P21178: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (11): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2020:

Queridos amigos,
O arrependimento pós-guerra era inevitável, havia que assumir causas do incumprimento, de pura negligência, de comportamentos menos corretos, atendendo à qualidade daquele capital humano, gente fidelíssima que me seguia no mato, aquela população civil vivia na maior das misérias e que, paradoxalmente, esperava que lhes levássemos outros padrões de civilização, dentro da tormenta da guerra. Aqui se fala de dois casos de arrependimento, havendo mais. Não foi suficiente saber, no regresso, que eu ia acompanhando quem aqui vivia com próteses ou outros infortúnios, e que nessa dimensão se cumpriu bem e deu atenção.
As desatenções ainda hoje me pesam, embora eu sinta algum alívio em dizê-lo publicamente.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (11): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Chère Annette,
Continuo muito comovido com a sua longa carta que chegou ontem, já a li vezes sem conta, gratíssimo fico pelas suas manifestações de ternura. Não se deixe dominar pela ansiedade, dentro de breves dias indicarei a data do meu regresso, estou impaciente pela sua companhia, preciso da viva-voz para lhe falar do que tem sido a minha vida e como a sua companhia me subtrai aos desertos da alma, depois dos meus amores frustrados. Mas continuemos a falar da Guiné, como tanto insiste. Estou a desvelar os primeiros meses, apresento-lhe o meio em que me insiro, sou subjugado à pressão dos acontecimentos: é crucial remodelar o aparelho defensivo, as estacas do arame farpado apodreceram, já lhe falei dos abrigos que têm palmeiras cheias de bichos, é tudo inseguro, o lugar em que comemos, pomposamente chamado messe, é uma imundície, dentro de dias vai começar o trabalho de trolha para cimentar as paredes e ladrilhar o chão, estou ansioso que cheguem os bidões e venha um bom volume de chapas para se renovar o balneário, é para o facilitar para os homens da população civil; falta constantemente arroz, mais ou menos de 15 em 15 dias é necessário fazer uma coluna para Bambadinca e trazer a viatura com sacas, são toneladas; foi-me distribuído um auto de averiguações referente à deflagração de uma granada incendiária que feriu gravemente uma criança, tenho que fazer deprecadas, isto é, contactar oficiais, sargentos e praças de uma determinada unidade militar que aqui esteve há uns anos atrás para procurar apurar a responsabilidade de quem deixou uma granada abandonada num reboque que essa criança acionou; com os meus colaboradores reparto um sem-número de atividades que vão desde o expediente burocrático, à verificação de existências, à elaboração dos mapas de pagamentos, nunca descurando os tais patrulhamentos naquele local chamado Mato de Cão, são 25 quilómetros a qualquer hora do dia ou da noite, com chuvas torrenciais ou a fornalha do sol. E procuro resistir, há quem pense que eu sou insociável, os minutos disponíveis são para escrever aerogramas, ler, ouvir música, recordar quem sou, quais as minhas bases culturais, manter a chama acesa para o que pretendo fazer após a guerra; este agora é o meu território, sou o responsável n.º 1 pela defesa intransigente destes homens, mulheres e crianças. Daí a necessidade de com eles conviver, percorrer o interior de Missirá ou Finete, sentar-me à porta das moranças e conversar, quando é extremamente penoso para o meu interlocutor, só fala crioulo ou mandinga, peço ajuda ao Cabo Domingos Silva para interpretar, ao fim de umas semanas deste trabalho de intérprete perguntou-me se eu vou escrever algum livro sobre estas pessoas a quem pergunto de onde vêm, o que sonham fazer depois da guerra, o que eu devo fazer para as ajudar, o Cabo Domingos Silva andou numa escola de missionários e já me perguntou se eu tinha andado a estudar para padre… Daí voltar a falar-lhe neste Adulai Djaló, valoroso soldado, arranja-me problemas porque é um galanteador infrene e os maridos ou pais não estão pelos ajustes; a fotografia em que eu estou a caminho de uma operação, que como lhe disse, não serviu para coisa nenhuma a não ser para nos moer os ossos, é tanto quanto me recordo a primeira fotografia a cores que tenho desse tempo.

Chère Annette, demorei muitos anos a perceber esse sentimento tão profundo que dá pelo nome de arrependimento. Arrependimento de quê, já que estou a falar da Guiné? De não ter cuidado, nem acompanhado nem manifestar a minha presença a camaradas em provação ou apoiado a tempo e horas quem precisava de mim. Fora deste contexto destes primeiros anos de guerra, conto-lhe só aquilo que mais tarde irá ter um peso enorme do meu olhar sobre a dor e o sofrimento humano, uma mina anticarro que roubou uma vida e feriu sete soldados, escapei milagrosamente, só com o rosto queimado e os olhos em péssimo estado, um oftalmologista em Bissau fez prodígios, recuperei rapidamente.

 Adulai Djaló, bazuqueiro e grande destroçador de corações das bajudas de Missirá

A caminho de uma operação na região do Xime

Veja-me nestas obras de reconstrução, a pressão do tempo era horrível, dentro de escassas semanas ia começar a época das chuvas, estávamos a renovar abrigos, aproveitavam-se os tijolos anteriores e usava-se o material novo para a cobertura, cimentando as paredes exteriores, seguiam-se algumas instruções dadas a partir do Batalhão de Engenharia em Bissau. Alguém captou a imagem em que eu conversava com os meus soldados exatamente quanto ao bom assentamento daqueles troncos de palmeiras, eles eram conhecedores da boa técnica. Ao fundo, do lado esquerdo, está o 1.º Cabo Alcino Barbosa, um colaborador como não há memória, muito discreto, ouvindo e cumprindo, responsável por uma secção de um furriel que fazia para se ausentar em consultas médicas, um calaceiro e um verdadeiro biltre, o Alcino trabalhava noite e dia, fora assim a sua vida desde pequeno. Muito mais tarde, Annette, depois dessa mina anticarro que em 16 de outubro de 1969 alterou a vida do Alcino, que ficou com fratura no calcâneo, e depois evacuado para Bissau, jamais procurei saber dele, muitos anos depois escrevi-lhe uma carta, um documento público, expressando o meu arrependimento:
“Escrevo-te pedindo-te perdão pelo meu silêncio e pela minha ausência. É legítimo que tu nunca me tenhas perdoado a incúria de ter esquecido, de não te ter procurado como se tu não fosses o meu caríssimo Alcino por quem eu nutria uma amizade correspondida. Não sei exatamente porque te escrevo hoje, talvez por me ter aparecido uma fotografia da Capela de Bambadinca, e associei que fora junto da sua porta que tu me apresentaste. Busco alívio nesta minha confissão. Vivemos num mundo onde não há barreiras informativas para se descobrir onde tu ou eu estamos. A ver se ganho coragem e te procuro. Mas se acaso tu leres esta carta, ou alguém te falar dela, meu estimadíssimo Alcino, tal como nós dizíamos nos aerogramas, que a mesma te encontre cheio de saúde e prosperidade”.

 Durante os trabalhos de reconstrução de Missirá, junho de 1969

Exterior da capela de Bambadinca, imagem do blogue

Continuo a falar consigo sobre o arrependimento. Aprendi que quando se comunica com um familiar a morte de um filho na guerra, há que tentar procurar suavizar a dor, evitando aspetos mais dolorosos, escrevendo sempre que o filho ou marido não sofreu muito. Pois nessa mina anticarro de 16 de outubro de 1969 morreu o condutor, com que sofrimento, praticamente todo desmembrado nos membros inferiores, dava gritos lancinantes, não havia maqueiro nem material para o socorrer, foi transportado numa padiola improvisada até Finete, eu entretanto fui a Bambadinca pedir o apoio médico, nada pôde fazer perante a gravidade das contusões, o helicóptero veio buscá-lo na manhã seguinte, levou um morto. Escrevi ao pai, procurei suavizar a morte do Manuel Guerreiro Jorge. O pai exigiu a clara certidão da verdade, uma descrição cabal dos últimos momentos. Andei vários dias a remoer a história, e quando voltei a escrever de novo menti, fora uma morte rápida, morrera na explosão da mina, e apressei-me a dizer que esperava em breve visitá-lo, no concelho de Ourique. Ele prontamente me respondeu. A vida trocou-me as voltas, não mais nos encontrámos, perpassa uma mágoa de ter faltado ao cuidado, ser solícito com quem estendia as mãos, aquele homem sabia que tinha visto tudo, aquele testemunho era tão importante, ou quase, como a urna lhe entregaram naquele ponto do Alentejo.

Annette, esta foi uma expressão de arrependimento, mas há muito mais para contar, quando, com a sua preciosa ajuda, escrevermos este livro. Ainda não me habituei a tratá-la por tu, não é estranheza, é uma ponta de pudor, vai passar, talvez já com o nosso próximo encontro. Bien à toi, Mário




(continua)
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Último poste da série de 10 de julho de 2020 > Guiné 61/74 - P21157: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (10): A funda que arremessa para o fundo da memória