sexta-feira, 21 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17610: Notas de leitura (979): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (7) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Julho de 2017:

Queridos amigos,
Não hesito em propor a todo e qualquer interessado no estudo da Guiné Portuguesa a consultar este levantamento documental tão laborioso, como o fez Armando Tavares da Silva, foi pena que o seu levantamento documental rarissimamente faça interpretações e quando as faz não aparecem cabalmente documentadas. Dá como certa uma permanente tensão entre a administração e os comerciantes, é verdade que se registaram tensões ligadas por vezes a interesses menos nobres, mas nunca foram uma constante, os atores mudavam de campo com relativa facilidade. E o autor despede-se deixando no ar a existência de analogias entre o movimento de libertação e o que se passara em três períodos distintos, entre 1891 e 1915, na esfera de Bissau. Nada de mais equívoco fazer suposições sem demonstrações de conteúdo.
E gaba-se a edição de Caminhos Romanos, é um livro para ficar, belas imagens e muito bons mapas.

Um abraço do
Mário


A presença portuguesa na Guiné: história política e militar 1878-1926, 
Por Armando Tavares da Silva (7)

Beja Santos

“a Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar 1878-1926”, por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos, 2016, é um contributo documental inescapável doravante para quem se dedicar à historiografia desta região. Nenhum outro investigador, até ao presente, carreara, em sequência cronológica, tanta documentação que viesse dar mais visibilidade aos atos políticos da governação e aos empreendimentos militares a partir do momento em que se criou a província da Guiné. Fica à disposição de todos, sem sombra de dúvida, uma narrativa de decisões políticas, sublevações, operações, avanços e recuos, e sobretudo o histórico da crescente presença portuguesa, partindo de praças e presídios para a criação de povoações, postos militares, gradual desobstrução às práticas comerciais; e também em narrativa de conjuras, confrontos tremendos, apeamento de heróis, clarificação de alianças entre colonizador e colonizado.

Estamos agora em 1919, Souza Guerra é um governador que assiste a um ato insólito, a greve dos funcionários públicos, coisa nunca vista na província. Armando Tavares da Silva insiste na luta entre duas fações: a fação ligada à generalidade do funcionalismo público, maioritariamente cabo-verdiano, e a fação dos comerciantes de Bissau. Não é por indícios espúrios que se pode constituir uma teoria, quanto muito, e mesmo na posse de informações irrefutáveis num dado período, não se pode generalizar a toda a história da Guiné este confronto. No momento exato em que concluo a apreciação desta louvável investigação histórica, estou a passar a pente fino os relatórios da gerência da filial em Bolama do BNU, neste período. Lêem-se nestes documentos coisas surpreendentes e uma delas passa pela crítica acerba de que uma boa parte dos funcionários desapareciam metade do ano de Bolama para virem até ao continente fazer negócios e tratar das propriedades, e depois voltavam à capital para cuidar dos impostos, mormente do imposto de palhota. Terá base de sustentação falar num confronto estruturado entre funcionários e comerciantes? Duvido, até prova em contrário. É facto que aparecem figuras de prática maquiavélica, caso de Sebastião Barbosa, um secretário-geral reizinho, pronto a minar uma governação conducente ao desenvolvimento e à harmonia entre etnias, funcionalismo e interesses comerciais.

E assim chegamos à governação de Vellez Caroço, um dos nomes mais prestigiantes para a consolidação da presença portuguesa nesse período que antecede outros governadores que irão preparar o terreno para o trabalho exemplar de Sarmento Rodrigues. Ele chega à Guiné em 1921, põe em funcionamento os órgãos legislativos e executivos da colónia, vai quebrando a influência de Sebastião Barbosa. Começa a pôr a casa em ordem, exige a correção e porte aos funcionários, dirige-se aos administradores de circunscrição, pede-lhes equilíbrio nos seus atos políticos: “Acabem as dissensões, dominemos as más disposições próprias deste clima depauperante e unidos trabalhemos todos para o engrandecimento da província”. É criada a circunscrição de Cacine, é uma forma de fazer sair da obscuridade uma zona do sul sujeita a muita pressão externa. É um tempo em que se misturam a dignidade do cargo político com atos de comércio, mesmo que praticados posteriormente.

É o caso do ex-governador Carlos Pereira que requerera a concessão por aforamento de 25 mil hectares de terreno na circunscrição civil da Costa de Baixo, era notória uma escandalosa concessão. Vellez Caroço dá a conhecer ao ministro que Carlos Pereira, como governador da província, informara sobre o requerimento de outros pretendentes que esta concessão não podia ser dada, por os terrenos estarem todos ocupados pelos indígenas… Era assim que se agia na maior das impunidades.

Vellez Caroço não hesita em mandar fazer sindicâncias a alguns administradores de circunscrição, e até mesmo a figuras de prestígio como o coronel de engenharia Guedes Quinhones, a quem se deve o traçado do que virá a ser a artéria principal da nova Bissau, que Sarmento Rodrigues embelezará. O governador procedeu em conformidade para moralizar a vida pública, procurou melhorar os serviços e deixou impressões dignas de atenção no seu primeiro relatório anual. Está focado no saneamento da província, vive um momento de paz e de ausência de revoltas, procura dar consciência aos seus superiores de que é necessário que a Guiné Portuguesa não seja encarada como uma colónia de Cabo Verde.

A situação financeira é o calcanhar de Aquiles da sua governação, haverá uma onda de protestos pelos comerciantes afetados. O governador volta a Lisboa mas é reconduzido no seu posto, regressa à província em Abril de 1924, há incidentes em Acra, ocorre uma nova operação a Canhabaque e a outras localidades. O governador procura pôr em execução uma política de desenvolvimento, interfere na Agricultura, na Saúde, na Educação, nas comunicações. Só que a crise fiduciária estende-se enquanto o governo central parece alheado ao problema. Formam-se falanges de apoio e de oposição à prática governativa de Vellez Caroço, os ataques são constantes, é preciso fazer frente à crescente influência da Casa Gouveia, encontrar uma solução para a questão dos cambiais e aliviar as dificuldades para as transferências. Vellez Caroço será exonerado e vai chegar à Guiné em Março de 1927 o Major Leite de Magalhães. Está aberto o caminho a um conjunto de governações dotadas de solidez e que funcionarão dentro dos parâmetros do Ato Colonial. Vive-se um período de paz, que o autor enfatiza, referindo a viagem do Secretário de Estado do Ultramar em 1947 e a visita do Presidente Craveiro Lopes em 1955.

E termina numa forma críptica, assim: “Uma paz que viria a durar uns escassos trinta anos! – Seria o ressuscitar do conflito de interesses e das velhas tensões que estiveram na base das questões de Bissau de 1891, 1894 e 1915!”.

Diga-se em abono da verdade que o final está totalmente desfasado da realidade dos factos. A paz que se quebra a partir de 1961 e que é um processo contínuo de 1963 a 1974,  tem um contexto totalmente distinto de sublevações, conjuras e intrigas, as tais questões de Bissau prenderam-se a revoltas de certos grupos étnicos que só se mostrarão pacificados depois da campanha de Bissau liderada por Teixeira Pinto. Insinuar analogias é não ter o mínimo de compreensão histórica do que foi o processo descolonizador orientado por um movimento de libertação que tinha Amílcar Cabral à frente, que trazia um quadro ideológico preciso, uma organização eficaz, que foi crescendo e que se disseminou por uma boa parte do território, era dirigida por uma pequena burguesia, não havia tensões com os comerciantes como nos exemplos dados do autor.

Enfim, Armando Tavares da Silva levanta mais uma hipótese infundada, culmina o seu notável levantamento documental de uma forma tristemente desastrada.
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Nota do editor:

Vd. postes de:

30 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17526: Notas de leitura (973): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

3 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17536: Notas de leitura (974): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

7 de Julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17554: Notas de leitura (975): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

10 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17563: Notas de leitura (976): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

14 de Julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17582: Notas de leitura (977): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (5) (Mário Beja Santos)

17 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17591: Notas de leitura (978): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17609: Historiografia da presença portuguesa em África (82): o caso de Abdul Injai: "Roma não paga a traidores" (António J. Pereira da Costa).... "mas Lisboa e Paris também não" (Cherno Baldé)... Ainda comentários de Hélder Sousa, Mário Beja Santos e Nuno Rubim



Foto de Abdul Injai em 1915, herói das "campanhas de pacificação",  no auge da sua glória, tenente de 2ª linha, régulo do Óio e do Cuor



1. O nosso editor LG mandou um email a alguns dos nossos amigos e camaradas que se interessam mais por temas de história, que se reproduz a seguir, seguir dos comentários recebidos (*)

Assunto - Abdul Injai: quem foi afinal ? Herói ou vilão ? Nacionalista ou mercenário ? Cabo de guerra ou bandido ?...

Amigos e camaradas:

Lembrei-me dos nomes de alguns de vocês porque se interessam pela história da Guiné-Bissau e de Portugal e pelas "pontes" que temos vindo a construír juntos...

Infelizmente não temos muitos "interlocutores" na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, nem sequer muitos amigos e camaradas, na Tabanca Grande, que se interessam pela historiografia da presença portuguesa em África...

Estes são temas "maçudos", para muitos dos nossos leitores, que obrigam a ler e a refletir, e que não são compagináveis com o formato Facebook, Reader's Digest, Correio da Manhã e similiares...

Ficamos gratos, os editores do blogue, àqueles de vocês que quiserem e puderem acrescentar algo mais (nem que seja duas linhas...) ao nosso limitado conhecimento sobre esta figura, "tão lendária quanto controversa", que foi o Abdul Injai, "companheiro de armas" do capitão Teixeira Pinto, tenente de 2ª linha, régulo do Oío e do Cuor, e que acabará por morrer no desterro...

Todos os heróis, santos e similares são controversos, por que são "mais do que homens e menos do que deuses"...

Seguindo a linha editorial do blogue, não diabolizamos nem santificamos ninguém, do Teixeira Pinto ao Amílcar Cabral, do Alpoim Calvão ao 'Nino' Vieira...São figuras históricas que fazem parte da nossa galeria de referências e memórias...

Um abraço e boas férias, se for caso disso. Mantenhas. Luís Graça

18 de julho de 2017 às 14:30


2. Comentário de Mário Beja Santos

Luís,

 Vale sempre a pena retomar a análise de personalidades históricas face às quais não existe o crivo da imparcialidade, como é o caso do régulo e chefe da guerra Abdul Indjai. 

Quem vai mais longe no seu estudo é Armando Tavares da Silva em "A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar, 1878-1926" (Caminhos Romanos, 2016). Vale a pena ler o que o investigador refere deste herói caído em desgraça. Logo em 1906 Abdul Indjai, por ordem do governador Almeida Pessanha vê dissolvido o seu bando de homens armados, Abdul é preso e deportado para S. Tomé.

 Por ocasião da visita do príncipe real D. Luiz Filipe a S. Tomé em Julho de 1907, Abdul terá obtido do príncipe permissão para regressar à Guiné. Será figura cimeira ao lado de Oliveira Muzanty nas campanhas de Badora e Cuor, Infali Soncó procurara uma sublevação com outros régulos, tornou mesmo o Geba intransitável, o que obrigou as autoridades de Lisboa a autorizarem uma impressionante mobilização de topas europeias, moçambicanas e muitíssimos auxiliares guineenses. Nunca se vira no Geba tantos brancos tantas lanchas, tantos canhões, tantos animais de tiro. Infali deixou uma imagem desgraçada no Cuor, anda sempre cercado pela sua tropa de choque, expolia, sequestra, reduz à servidão, é um tiranete.

 Calvet de Magalhães, administrador de Bafatá, vê nele o homem certo para apoiar Teixeira Pinto. Abdul Indjai ganha uma fama terrível, no que permite matar e destruir e roubar. O poder, enquanto régulo do Oio, ter-lhe-á chegado à cabeça, desrespeita as autoridades administrativas, preparou um brutal confronto que o levará ao desterro, irá morrer em Cabo Verde, sem antes, porém, ter procurado levar por diante um processo que conduzisse ao seu julgamento. 

A minha opinião, Abdul Indjai pertencer ao rol de figuras que atingiram um certo pico de glória ou fama, como Marques Geraldes ou Graça Falcão e que tiveram depois a faculdade de se atirar para o abismo. Dir-se-á sem hesitação que foi a figura fulcral nas campanhas de Teixeira Pinto e que o seu rasto de prepotências, extorsões, violências sem controlo o precipitaram na desgraça, tornou-se no antigo herói de comportamento intolerável que importava deixar ao abandono.

19 de julho de 2017 às 11:00


 3. Comentário de António José Pereira da Costa

Olá,  Camaradas

Há quem diga que "Roma não paga a traidores" e eu acrescento "e não consta que o venha a fazer brevemente", mas isto sou a pensar...

19 de julho de 2017 às 12:13

["Roma não paga a traidores" é uma expressão que a voz do povo, ou seja, o mito, a lenda, atribui ao general romano Quinto Servilio Cipião, vencedor dos Lusiatanos (139 a:C.), aos carrascos de Viriato, seus companheiros, quando vieram reclamar o prémio prometido. (LG)]


4. Comentário de Hèler Sousa.

Olá

O António José tem razão.... mas pode acontecer que os "traidores" não o cheguem a ser.... podem ser dedicados cúmplices!

19 de julho de 2017 às 14:46



5. Comentário de Cherno Baldé:


Caros Amigos,

O Abdul Indjai foi homem da sua época, época de uso da força pela forçaa, da prepotência, da violência extrema para dominar e sujeitar o homem à razão do mais forte.

Pedir ou exigir ao Homem (Abdul Indjai=desenraizado-guerreiro-aventureiro++) que fosse razoável e correcto no exercício das funções da Regência de populações civis, que em África, apesar de selvagens e primitivos, era uma função hereditária e de longa e metódica preparação, a semelhança do que se passava no "Velho Continente", era confundir o Deus com o Diabo.

O que aconteceu ao Abdul Indjai já tinha acontecido ao Alfa Iaia, Chefe do Labé (Futa-Djalon) em finais do Sec. XIX. Os Franceses para conquistarem o território do Futa-Djalon (cobiçado por Franceses, Ingleses e Portugueses), precisavam de uma aliança interna para conquistarem o poder e foi o Alfa Iaia que foi habilmente utilizado,  para depois o afastarem com um pretexto idêntico ao usado pelos Portugueses para afastar o Abdul Indjai.

Sim,  senhora. "Roma não paga a traidores", também Lisboa e Paris, idem, aspas...  Da mesma forma que não se pode esperar que o Lobo seja um excelente pastor de ovelhas.

Como se não bastasse, a história voltaria repetir-se com o não menos famoso caso do gen. Brik-Brak, aliás Ansumane Mané, quem é que não se lembra?

Um abraço amigo,

Cherno AB

6. Comentário de Nuno Rubim:

Caro Luís Graça

Este é um dos casos em que julgo que cada um deve tirar as sua próprias conclusões depois de consultar obras sobre o assunto.

No acervo do AHM [Arquivo Histórico Militar]  que te envio, a obra de Teixeira Pinto é fundamental, mas Pélissier constitui para mim a obra mais objectiva e isenta.

- A Ocupação Militar da Guiné, Lisboa: Agencia Geral das Colónias, 1936

- História da Guiné, René Pélissier,  trad. Franco de Sousa, Lisboa: Estampa, 2001, 2 v

21 de julho de 2017 às 08:03


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Nota do editor:

(*) Vd. último poste de 18 de julho de  2017 > Guiné 61/74 - P17596: Historiografia da presença portuguesa em África (81): quem foi Abdul Injai, companheiro de armas do capitão Teixeira Pinto, nas 'campanhas de pacificação' de 1913-1915, e por ele promovido a tenente de 2ª linha, régulo do Oio e do Cuor ?... Herói ou vilão ? Mercenário ou nacionalista ? Aliado ou inimigo ? Cabo de guerra ou bandido ?

Guiné 61/74 - P17608: "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", brochura de 2002, da autoria do nosso camarada Gabriel Moura do Pel Mort 19 (7): Págs. 49 a 56

Capa da brochura "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra"

Gabriel Moura

1. Continuação da publicação do trabalho em PDF do nosso camarada Gabriel Moura, "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", enviado ao Blogue por Francisco Gamelas (ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 3089, Teixeira Pinto, 1971/73).


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17595: "Tite (1961/1962/1963) Paz e Guerra", brochura de 2002, da autoria do nosso camarada Gabriel Moura do Pel Mort 19 (6): Págs. 41 a 48

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17607: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (45): Instruções para indicação de pontos na carta de 1/50.000 (Nuno Rubim, cor art ref, historiador militar)


Guiné > Carta do Xime (escala 1/50 mil) (1961)... Com os 9 quadrantes numerados, de acordo com o esquema B... Clicar aqui para ver em formato grande.

Esquema  A

Esquema B 





1. Mensagem de Nuno Rubim, com data de hoje, às 3h42, em complemento do pedido no poste anterior (*)

Caro Luis

Talvez isto ajude.
Material recolhido no A.H.M. [Arquivo Histórico Militar]

A minha única dúvida reporta-se a qual dos dois esquema, A ou B, era o utilizado.
Abraço

Nuno Rubim

2. Comentário do editor LG:

Nuno:
Obrigado, fez-se luz!.. As tuas instruções são preciosas... Posso confirmar, pela minha experiência operacional (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71),  relatórios de operações e leitura das cartas, nomeadamente do setor L1, que o esquema que se aplica é o B: de cima para baixo e da esquerda para a direita: 3/2/1 | 6/5/4 | 9/8/7....
Aqui vão algumas localizações:

Vd. carta do Xime (1 /50 mil)

(i) proximidades da ponte do Rio Jago (estrada Mansambo-Xitole): Xime 8A 5-36;
(ii) acampamento IN em Baio/Buruntoni: Xime 2D-81;
(iii) duas tabancas civis sob controlo IN entre a Foz do Rio Corubal e Ponta do Inglês: Xime 3A 2-46 e Xime 3A 4-11.

Mas também experimentei com outras cartas, em regiões onde fizemos operações: por exemplo, Namboncó, a norte do Rio Geba:

(iv) acampamento IN na região de Belel, oito moranças com colmo e 7 de adobe: NAMBONCO  7I4-97;
(v) fuga do IN na direção de NAMBOCÓ 8G6-32.

Também encontrei a referenciação mais detalhada, acima referida, com graus e minutos, por exemplo, no relatório da Op Lança Afiada, comandada pelo cor inf Hélio Felgas (iniciada em 8 de março de 1969, com a duração de 11 dias, envolvendo mais de 1300 militares e carregadores, que bateram toda a margem direita do Rio Corubal, ao tempo do BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70)... Por exemplo, algumas localizações de posições IN (ao longo da margem direita do Rio Corubal, que corresponde à carta do XIME):

(vi) Gã Garnes (Ponta do Inglês) (subsetor do Xime): 1500 1150 B5-5; 
(vii) Fiofioli (subsetor do Xime): 1500 1145 E4 ou D5;
(viii) Galo Corubal (subsetor do Xitole): 1455 1145 B5 ou D5.

Salvaguarda-se alguma eventual gralha datilográfica...

Espero ter ajudado. Um alfabravo. Luís

PS - O Nuno Rubim tem uma documentação, em suporte digital e em papel, absolutamente fabulosa sobre o TO da Guiné, onde fez duas comissões, no princípio e no fim da guerra (no QG)... Na primeira comissão comandou duas das unidades que passaram por Guileje: a CCAÇ 726 (out 1964/jul 1966) e a CCAÇ 1424 (jan 1966/dez 1966)...

O Nuno Rubim, hoje cor art ref, é um dos membros mais antigos do nosso blogue. Chegou até nós, no último trimestre de 2005, pela mão do nosso querido coeditor Virgínio Briote. Estiveram ambos nos comandos, na Guiné, em 1966, sendo na altura comandante da CCmds da Guiné o Nuno Rubim.

É um dos nossos camaradas que mais sabe da história militar da guerra colonial na Guiné (1963/74) e é um reputado especialista em história da artilharia portuguesa.  Terá mais de 90 GB de informação sobre o CTIG em geral e a região de Tombali, em particular. É um profundo conhecedor do Arquivo Histórico Militar.

Deus, Alá e os bons irãs te protejam, Nuno!
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Guiné 61/74 - P17606: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (44): Como se localizava, por exemplo, na Carta de Cacine 1:50.000, a posição CACINE 6 D4/78 ? (José Nico / Miguel Pessoa / António J. Pereira da Costa)



Guiné > Região de Tomvali > Carta de Cacine (1960) > Escala 1/50 mil > Pormenor: quadrante 7 (e não o 9)...


Infogravura:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)





1 Mensagem do Miguel Pessoa, ex-ten pilav, FAP, BA 12, Bissalanca, 1972/74, cor pilav ref, com data de 10 do corrente

Caros editores

O General José Nico já colaborou anteriormente com a Tabanca Grande publicando no blogue textos sobre a actuação da FAP na Guiné. Pede-me agora colaboração no sentido de esclarecer o sistema de identificação de pontos nas cartas 1/50.000 que utilizávamos na Guiné.

O facto é que os 45 anos já passados não me ajudam a reavivar a memória sobre este assunto mas, dispondo o blogue de uma alargada e diversificada panóplia de leitores, pode ser que entre eles exista alguém com a memória mais fresca que possa dar a sua colaboração sobre esta matéria. Por isso aqui fica o pedido.

Abraço.
Miguel
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Texto do ten gen ref José [Francisco Fernando] Nico :
José Nico, ten pilav, CTIG, 1968

"(...) Trata-se do método que utilizávamos na marcação de pontos na carta 1:50.000 da Guiné. Tenho tido dificuldades em marcar os pontos que encontro nos SITREPs porque já não me lembro completamente do método que usávamos. Ando lá perto mas não tenho a certeza de nada.

Aqui vão uma série de pontos retirados dos SITREPs para exemplo:

CACINE 6 D4/78

CACINE 3 I0/57

GUILEGE 8 H1/59

GUILEGE 8 H6/63

Talvez na Tabanca Grande haja alguém que ainda se lembre deste sistema de referenciação e do que representava cada um dos algarismos ou letras. Por exemplo, estou convencido que o primeiro número a seguir à designação da carta (Por ex. CACINE 6) representa um dos nove quadrados em que a carta está dividida e que esses quadrados são contados de baixo para cima e da esquerda para a direita. Assim o quadrado 6 é o do meio no topo da carta. E o resto como é? É também de baixo para cima e da esquerda para a direita?

Por exemplo, o D no quadrado 6 encontra-se dividindo o quadrado 6 em nove quadrados iguais em que o que fica no canto esquerdo em baixo é o quadrado A. Acima deste fica o B e assim por diante. Se estou certo o quadrado D seria o que fica logo à direita do A.

E o resto como é?

É esta dúvida que te peço que vejas se consegues aclarar e até pode ser que tu te lembres ainda disto.

Abraço
J. Nico"


2. Mensagem que o nosso editor enviou, no mesmo dia, a três dezenas de membros da nossa Tabanca Grande que foram comandantes operacionais no TO da Guiné (capitães ou alferes):


Camaradas: lembrei-me de alguns de vocês que foram comandantes operacionais, infantes, fuzileiros, cavaleiros e artilheiros (mas também de outras armas e especialidades: transmissões, operações e informações, habituados a usar, no mato, em colunas logísticas ou no quartel as cartas 1/50.000 da Guiné... 

Eu sei que lá vão mais de 50 anos... mas nesta pequena amostra de grã-tabanqueiros, espero haja alguém ainda capaz de saber responder às dúvidas dos nossos camaradas da FAP, Miguel Pessoa e José Nico... Também gostava de saber para poder interpretar melhor os nossos relatórios...

Com um alfabravo,
Luís Graça

PS - As cartas 1/50.000 estão disponíveis "on line" (procurar na coluna do lado esquerdo do nosso blogue)


3. Resposta do António J. Pereira da Costa,  cor art ref , ex-alf art CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74),


Olá Camaradas

As NEP do ComChefe - que existem em depósito na DHCM - esclarecem melhor este tema.

A palavra indica o nome da folha que, normalmente está relacionado com o da povoação mais importante contida na folha.

Recordo-me de um, a título de exemplo, - MAMBONCÓ - que era uma povoação a Sul de Mansabá e que, no nosso tempo, estava abandonada. Era a aldeia dos macacos. 

Depois eram "aproveitados" os nove quadrados em que a folha estava dividida. Daí o CACINE 6. 

Tenho ideia de que os quadrados eram numerados como quem lê. 

Depois era aplicada um mica graduada onde era feita a leitura pelo sistema Abcissa/Ordenada (`à Descartes').

Creio que teoricamente era possível localizarmo-nos a menos de 50 metros.

Os fuzileiros eram muito eficazes neste sistema, sendo o imediato da força o responsável pelo fornecimento das coordenadas em caso de pedido de apoio.

Um Ab.
António J. P. C
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Guiné 61/74 - P17605: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV - Regresso à guerra, depois de um mês no HM 241...Lembranças do "amor de perdição", a Maria do Céu, MiMê, a jovem de Lamego, que esteve quase a transformar o "ranger" em desertor...



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/67) >  Tânia (*), Maria do Céu (**), Miriam (***)... algumas das mulheres do "Calças de Palanco", aliás, "Vagabundo", aliás  "Ranger", aliás "Mamadu"... Umas cuidavam das feridas do corpo, outras as das feridas da alma...


Foto: © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67. Do mesmo autor já aqui publicámos, em 2008, em dez postes, o seu fascinante livro "Pami N Dondo, a guerrilheira", ed. de autor, Estoril, 2005, 112 pp. (****)



Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. Foto em baixo, à direita, Tabanca da Linha, Oitavos, Guincho, Cascais, março de 2016]



Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > XXIII Parte > Cap XIV  (pp. 81-83)

por Mário Vicente

Sinopse:

(i) faz a instrução militar em Tavira (CISMI) e Elvas (BC 8),

(ii) tira o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na
Guerra");

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra;

(ix) início da atividade, o primeiro prisioneiro;

(x) primeira grande operação: 15 de maio de 1965: conquista de Cufar Nalu (Op Razia):

(xi) a malta da CCAÇ 763 passa a ser conhecida por "Lassas", alcunha pejorativa dada pelo IN;

(xii) aos quatro meses a CCAÇ 763 é louvada pelo brigadeiro, comandante militar, pelo "ronco" da Op Saturno;

(xiii) chega a Cufar o "periquito" fur mil Reis, que é devidamente praxado;

(xiv) as primeiras minas, as operações Satan, Trovão e Vindima; recordações do avô materno;

(xv) "Vagabundo" passa a ser conhecido por "Mamadu"; primeira baixa mortal dos Lassas, o sold at inf Marinho: um T6 é atingido por fogo IN, na op Retormo, em setembro de 1965;

(xvi) a lavadeira Miriam, fula, uma das mulheres do srgt de milícias, quer fazer "conversa giro" com o "Vagabundo" e ter um filho dele;

(xvii) depois de umas férias (... em Bissau), Mamadu regressa a Cufar e á atividade operacional: tem em Catió, um inesperado encontro com o carismático capelão Monteiro Gama...

(xviii) Op Tesoura: dezembro de 1965, tomada de assalto a tabanca de Cadique, cujas moranças são depois destruídas com granadas incendiárias.

(xix) Cecília Supico Pinto e outras senhoras do MNF visitam Cufar no início do ano de 1966 e Mamadu é internado no HM 241 (Bissau).

(xx) um mês depois, regresso a Cufar, regresso à guerra. Põe o correio em dia. Lê e relê a carta de Maria de Deus [MiMê],  uma paixão escaldante dos tempos de "ranger" em Lamego e por quem estava quase para desertar, antes da data de embarque para a Guiné; a jovem morrerá prematuarmente, em França, aos 24 anos.




Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XXIII Parte: Cap XIV:  Regresso à guerra (1) (pp. 81-83)



XIV Regresso à Guerra [1]


Passado um mês, e aí está Mamadu, embora sem forças e mais magro que um cão, com cinquenta e cinco quilos apenas, na sua bela Cufar para entrar na má vida. Aos poucos, com os caldos de galinha de Miriam, vai recuperando e passados quin­ze dias, é dado como operacional.

Tinha correio para ler para mais de um mês, pois Maria de Deus continuava a escrever todos os dias, mandando poesias e dando sugestões pelas recebidas. Foi tempo de pôr a escrita em dia. Seus pais andavam alarmados pela não recepção de notícias, mas não lhes iria contar o que acontecera. Como o António de Salzedas, com ele tudo estava bem, tinha sido só uma distracção, coincidente com problemas de correios pela época Natalícia.

Mas, no mato há sempre a tentação do retorno a pensa­mentos anteriores. Salta da cama, vai à mala e retira uma carta daquelas que se lêem muitas vezes, e, estendendo-se novamente sobre a cama, relê:


................ 


"2 Fevereiro de 1966

"My love:

Espero encontrar-te completamente restabelecido fisicamente, e que psiquicamente te mantenhas forte.

Meu Bem!

Esperava que a tua fuga em frente se desse em breve mas, de facto, não tão rapidamente. Piamente reconheço, teres absoluta razão.

Seria neste momento ideal a metamorfose da envolvente existência dos nautas desta caravela. Mas é impossível pois, eu não posso metamorfosear-me em Tânia, nem tu em Jorge ou vi­ce-versa.

Somos a peculiar expressão da vontade de alguém supe­rior, que nos exige expiação pecaminosa, na própria existência neste vale de lágrimas. Continuo no Colégio. Há pouco, à saída da missa mati­nal, falei sobre tudo isto com a nossa Comadre. Enquanto não temos a primeira aula, vim para o quarto falar um pouco con­tigo.

Sim, não há dúvida que estás certo. A tua deserção e a concomitante minha menoridade, ir-nos-ia levantar sérios pro­blemas.

Ainda bem que a corrente em que Tânia te envolveu é inexpugnável.
Enquanto orava na missa, ia pensando em nós e cada vez mais confirmo que cometemos e estamos cometendo adultério. Mais grave! Considero incestuosa a nossa ligação. Como tu dizes, é verdade que estamos no fim da picada.

Meu bem, fomos amantes, somos e seremos eternamente amigos, mas mais que tudo isso, é real existir entre nós um rela­cionamento como irmãos.

Eu reconheço que voltaria na minha vulnerável forma de ser, a pecar de novo. Adúltera assumo, novamente adoraria abrir-te a camisa, e repousar a cabeça na almofada do teu pei­to, sentindo o teu coração bater e as tuas mãos em doce "cha­mego" acariciarem a minha cabeça.

É adorável recordar! Fragilizada, choraria de novo no teu peito. Está retida como se neste momento fosse a tua calma e suave voz, depois de me enxugares os olhos com os teus melí­fluos lábios: "MiMê! Como é? Tens o mar nos olhos? São cris­tais de sal as tuas lágrimas!?"

Como foste doce e meigo, meu irmão! Não consigo compreen­der! Como consegues homem para a guerra, transformares-te em doação total?

Meu bem, estás com o pensamento noutro local?

Não! ... Não ... tenho ciúmes de Tânia, assim como sei que não tens ciúmes de Jorge.

Só que ... Pronto! Esqueçamos, meu bem!

A vida pregou-nos esta partida, mas a culpa é totalmente minha, fui eu, reconheço-o perfeitamente, e reafirmo eu!

Pratiquei incesto em espírito! Que Deus me perdoe, por­que tu, meu querido irmão, sempre me tens perdoado. Não for­çaste nada, apenas eu me doei!

Querias ser missionário, não era? Estou portanto em confissão! Segredo!

Brincadeira... não ligues, como poderia um missionário transformar-se em guerreiro? Não é? Mas é dúvida onde ainda não cheguei.

Tenho de terminar por agora. O sino tocou para as aulas. Logo continuo ...

Cá estou de novo. Agora, já noite, posso estar contigo o tempo que quiser.

Levei todo o dia a pensar nas tuas últimas cartas e vou rebatê-las com uma certa dureza. Não penses que são ciúmes, é a pura verdade. Palavra de MiMê!

Meu querido, se Tânia gostasse de ti, meu tonto, já te tinha dado um sinal! Não sejas ingénuo, meu bem. Perdes a inteligência com Tânia? Agora que temos as coisas bem defini­das e que para mim és mais que tudo um irmão, ouve o que em momento puro de loucura tenho para te dizer:

A única forma de saíres da quadratura em que estamos envolvidos, é fazeres a guerra, meu amigo! A guerra, meu irmão!

Já viste?! ...

Se morreres aí, ainda que no caixão venha um preto em substituição, por tu teres ficado feito em picado, ninguém dá por isso. E será maravilhoso! Ficas um herói. A dor do teu pobre pai será exposta ao mundo Português no Terreiro do Paço rece­bendo a Cruz de Guerra a título póstumo. Terás o nome inscri­to numa rua da tua terra na tua planície. Os teus amigos e con­terrâneos acompanhar-te-ão até à última morada, onde terás honras militares com descargas e tudo. E porque não a própria banda dos excluídos que dizes existir na Escola de Reeducação onde trabalhaste, não te acompanhará, tocando marchas fúne­bres!?

E quem sabe? A própria Tânia se vestirá de preto e esta­rá presente, depositando uma rosa branca sobre a bandeira na­cional que cobrirá o teu féretro?! ... Já viste coisa tão linda, poé­tica e sentimental?

Para ti é que seria o pior, partirias. Se morreres ... apagou-se! Meu irmão e amigo.

Desculpa a morbidez! Mas também hoje não sou eu!

Estou completamente fragilizada, extenuada! Como deves repa­rar pelos borrões na carta, estou a chorar.

Quereria fazê-lo no teu peito. Amei-te, doei-me total e incondicionalmente a ti, ho­mem transformado em ídolo.

ln this moment, I need you, my friend, my brother. Forever yours,

MiMê! 
Finalmente Maria de Deus terá compreendido!

Embora preocupado com a forma louca como escreveu tudo isto, Mamadu não teve dúvidas em que continuariam bons amigos. MiMê, quem seria Mamadu para não te perdoar, ou para te jogar a primeira pedra? São reconhecidas as tentativas de fuga às encruzilhadas tecidas, na teia da vida. Mas um ser superior traçou estes percursos. Mesmo descalços, coração sangrando, percorram-se esses destinados caminhos. O odor do corpo de Mimê, voltou como loucura às narinas do furriel. 

Regredindo, voltou aos momentos de volúpia e de total entrega entre dois seres na alvorada da vida, fez um esforço de negação, e o homem guerra, sentiu a rala barba orvalhada, por pérolas saindo dos olhos e o coração doeu. Mamadu reflectiu e teve reconhecimento perante a dádiva de tantas outras, mulheres grandes quase crianças, da obra que fizeram levando o seu alento junto daqueles jovens, homens fabricados à força e perdendo os melhores anos da sua juventude, vivendo nas mais miseráveis e terríveis situações. 

Não!... Não haverá palavras para agradecer a todas elas aquilo que levaram junto do soldado Português.

(Continua)
________________


(...) Tânia, comigo irão sempre a tua franzina figura e teus negros olhos cintilantes. A tua negação ficará eternamente cica­triz aberta, dentro do peito do cigano errático em que me trans­formei. O resto será aventura. Olhou para os amigos e lembrou-se das palavras de Niotetos: nunca mais seria a mesma pessoa. Um abraço a todos e até ao meu regresso. Esperem pelo Vagabundo, gritou, sem nenhum som lhe sair da garganta. (...)

(**) Vd. poste de 8 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16063: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - IX Parte: VI - Por Terras de Portugal: (iii) Lamego, Oeiras...

(...) Os esgotos da cidade [de Lamego] tomam-se caminhos conhecidos pela matula, em noites de percursos fantasmas, com petardos de trotil pelo meio. Aqui existe outra mulher especial na vida do ranger que consegue incutir força para a resistência. Apesar dos seus dezoito anos, Maria de Deus explica ao jovem militar a razão das coisas, mas não consegue influenciá-lo a fugir das terras para Norte. No entanto aqui começou uma louca doação. Ao aquartelamento de Cufar na Guiné chegarão, mais tarde, montes de cartas e aerogra­mas, trocar-se-ão poemas, falar-se-á da vida, da guerra e da mor­te. Haveria que fazer qualquer coisa!... A jovem incute no militar a aventura da fuga para França durante as férias. O militar prepara-se para a loucura, mas… há os velhotes e, nas terras para os lados do Norte, Tânia essa estranha força mais forte que o vento, não deixa voar o pensamento acorrentado de Vagabundo. Tão forte na guerra e tão frágil pela imagem de uma mulher que nunca será sua!... Uma mulher, que possivelmente até a sua existência já desconhece.  (...) 


(...) – Furiel!... tu é Mamadu, home balente, bó na bai na mato e cá tem medo, Miriam gosta de furiel. Eu sabo tu é branco, a mim preto! Miriam quer fazer cumbersa giro com furiel Mamadu! (...)

Guiné 61/74 - P17604: Blogpoesia (520): Não é possível conservar o tempo (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto)

Recruta no CICA 4. Foto: © Juvenal Amado


1. Em mensagem de 17 de Julho de 2017, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74) enviou-nos um poema de sua autoria.


TEMPO

Não é possível conservá-lo,
O Tempo escorre líquido,
Corre entre nós, célere.
Hoje é espesso, ontem vibrante.
A luz filtra-se na rocha escorregadia,
Trespassa-me o peito.
Sangro húmido viscoso e quente,
Os olhos afogam-se nos rios e mar,
Aspiro a brisa que nos transporta,
Nós que navegámos contra o vento,
Escorregamos no esquecimento.
Falta-nos sempre algo mais além,
O que nos vale
é o conforto de um trago amargo.
O álcool queima-nos a garganta,
Entorpece-nos e bebemos aos idos.
Na neblina julgo ver vultos,
Fugazmente vislumbro algo indefinido,
Vejo jovens enlaçados que flutuam,
Não sabem ainda que a juventude
é um momento fugaz.
É uma pétala que se solta,
Que se esmaga entre os dedos
e solta a fragância.
Esse é o aroma do tempo que passa,
e os cemitérios são os nossos fieis depositários

Juvenal Amado
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17587: Blogpoesia (519): "A gaivota sozinha..."; "No bar do Reichelt..." e "Adoração ao sol...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P17603: "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é já hoje", da autoria do 2.º Sargento Ref António dos Anjos, Tipografia Académica, Bragança, 1937 (7): Págs. 61 a 69 (Alberto Nascimento, ex-Soldado Condutor Auto)



1. Continuação da publicação do livro "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é hoje", da autoria do 2.º Sargento António dos Anjos, 1937, Tipografia Académica, Bragança, enviado ao Blogue pelo nosso camarada Alberto Nascimento (ex-Soldado Condutor Auto da CCAÇ 84 (Bambadinca, 1961/63).


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17590: "Resumo do que era a Guiné Portuguesa há vinte anos e o que é já hoje", da autoria do 2.º Sargento Ref António dos Anjos, Tipografia Académica, Bragança, 1937 (6): Págs. 52 a 60 (Alberto Nascimento, ex-Soldado Condutor Auto)