Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quinta-feira, 9 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28167: Ser solidário (297): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (22): Modelo educatico tradicional (Renato Brito)
Bom dia Carlos Vinhal,
Espero tudo bem consigo.
Partilho a “cartolina” de mais um evento da campanha de angariação de fundos para construir uma escola na Guiné-Bissau.
Neste endereço do site é possível visualizar o documentário:
Sotigui Kouyaté, um griot no Brasil (2007)
https://sostegnoguineabissau.weebly.com/pubblicazioni/sotigui-kouyate
Cumprimentos,
Renato
_____________
Nota do editor
Último post da série de 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28111: Ser solidário (296): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (21): Etnia Mandinga (Renato Brito)
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
Guiné 61/74 - P27160: Humor de caserna (211): a Maria-tira-cabaço, uma história pícara de Empada... (José Teixeira, régulo da Tabanca de Matosinhos)
Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
1. Já sabíamos que o nosso veteraníssimo Zé Teixeira (um histórico da Tabanca Grande, régulo da Tabanca de Matosinhos) era um excelente contador de histórias, incluindo histórias pícaras...
Ele tem uma ligação umbilical à Guiné e à sua gente. Por favor, vejam este delicioso microconto como um ato de ternura... em tempo de guerra.
Também sabemos que o exército, no nosso tempo, era púdico e forreta, nem camisinhas de Vénus distribuía ao pessoal... E muito menos Vénus em carne e osso... (Mas a verdade é que a Vénus acompanha todos os exércitos do mundo desde que a Eva e o Adão foram expulsos do paraíso e depois que o Caim matou Abel.)
Em contrapartida, sempre nos ensinaram, desde a recruta, que a tropa manda...desenrascar! Em Ingoré, em Aldeia Formosa, em Mampatá, em Empada, etc., era isso o que acontecia...
Se a Massiel não vinha à Guiné, a malta tinha uma varinha de condão e transformava um bocado de lata (uma Daimler da II Guerra Mundial) num fetiche: "erotizava-se" a viatura... A "Massiel" ajudava a "climatizar os pesadelos" da rapaziada... Aliás, a G3 era a nossa "namorada"...
Já as Marias de Empada (e havia-las um pouco por todo o lado), que nunca poderiam vencer nenhum festival da Eurovisão, essas, souberam tirar partido da situação de guerra e da economia de guerra. Puseram um anúncio na morança: "Maria tira cabaço di tuga"... E, ao que parece, não faltava procura!
Um comércio pouco honesto, perguntarão alguns ? Tão ou mais do que a guerra!, responderão outros... Claro que era ilegal... Mas a polícia de costumes assobiava para o lado. E a cama das Marias de Empada estava sempre quente!
Não sabemos o que lhes aconteceu, às Marias de Empada, a seguir à independência, mas é muito provável que tenham sido acusadas de "colaboracionismo" pelos novos senhores da guerra... "Partir catota com os tugas" era um ato contrarrevolucionário aos olhos dos "libertadores" como o 'Nino' Vieira...
Enfim, a cada um a sua moral... e a sua polícia de costumes!
Humor de caserna > A Maria tira cabaço di brancu por Zé Teixeira |
Um alferes, a quem não foi contada a história da pequena, tenta o engate e, zás!, arranjou namorada que até ia ao quartel, durante o dia, prestando-se para todo o serviço.
Houve cenas engraçadas com a Maria-tira-cabaço. Um camarada e amigo, encabaçado, tinha vontade e.… inexperiência, vergonha, medo, falta de jeito, etc. Então foi meter uma cunha a outro companheiro para pedir à Maria para o atender bem. Este foi, meteu a cunha e gozou... de borla. O outro pagou a dobrar, isso de tirar cabaço a branco tinha de ser bem pago!
Tanto quanto pude apreciar até o 'Nino' sabia da sua vida, pois num célebre ataque ao cair da noite, as primeiras canhoadas foram para a casa da Maria, só que os brancos que lá estavam eram velhinhos e voaram ao sentirem o som das saídas do canhão.
O pobre do alferes é que, quando soube, rebentou de raiva. E foi uns dias depois, quando foi à sua procura na morança, um dia ao fim da tarde (talvez a fosse convidar para jantar): encontrou o lugar ocupado e gente à espera...
sexta-feira, 13 de outubro de 2023
Guiné 61/74 - P24752: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (8): "Se tens galinha pedrês, não a mates nem a dês" (Luís Graça)
Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 2011 > O velho carro de bois, centenário, típico da região de Entre Douro e Minho. Não existe mais, hoje, a não ser as rodas...Símbolo de um mundo que desapareceu... E com ele, uma certa ruralidade e rusticidade do homem português, características socioantropológicas sem as quais muito possivelmente não teria sido possível manter a nossa longa guerra colonial / guerra do ultramar (1961/74)... E a resistência, ativa e passiva, contra a violência de Estado e dos senhores da nobreza e do clero... E a guerrilha contra os invadores da Pátria, os Junot, os Soult, os Massena... E a cumplicidade com os Zé do Telhado, os Brandão, os Remexido...
Como era simples a vida da camponesa que ia ao monte buscar lenha, a moinha, as pinhas, as giestas. No carro de bois, que chiava pelo estradão, com a ca(n)ga(nça) toda de uma junta de bois nados e criados em Entre Douro e Minho.
Que quadro, que pintura, que pitoreco, que beleza, tardo-naturalística, desta humilde cena portuguesa, desta gente sem rosto, sem nome, sem registo, sem trilho, sem a mística nem a estética do Movimento Nacional Feminino. Sem dom nem dó. Mas com fé, esperança e caridade.
"Porra e lenha, é quanto a venha", diz o meu home, que anda num virote, enquanto a água de Covas é benção do céu para o milho e a vinha que cresce, apertada, na bordadura, nos solcalcos de granito...
Como era simples e bruta a vida da mulher do campo, no tempo em que ainda havia a distinção socioantropológica entre a cidade e o campo, ou a diferenciação teológica entre o céu, o purgatório e o inferno. E cada coisa estava no seu lugar. E a freima também matava a gente. A freima da lavoura, mais a salgadeira. E "na casa deste home, quem na trabalha na come"-
E havia o carro de bois, e o penso para o tourinho, e a lavagem para os cevados, e a maçã, biológica, do paraíso perdido, e o império colonial, e as expedições do Serpa Pinto, vizinho ali de Cinfáes, à distância de um tiro de canhão, e as campanhas de pacificação do Teixeira Pinto (a quem os guinéus chamavam o "capitão-diabo")...
Como eram imutáveis as leis que regiam as relações entre a terra e o sol, o solstício do verão e do inverno, entre presas e predadores, entre machos e fêmeas, entre fidalgos e rendeiros, entre donzelas e donzéis, entre soldados e capitães, entre operários e patrões, entre ricos e pobres. entre cabaneiros e os sem eira nem beira. E a sexta-feira era o dia de praticar a caridade, dar aos pobres, que o mesmo era emprestar a Deus. E o filho do "manjor" e da criada brincava com o "morgadinho" que nunca poderia ser seu irmão à luz das leis de Deus e dos homens. Porque fora feito no pecado, em cima da palha do milho na eira e não em lençóis alvos e castos e bentos de linho.
"Se queres conhecer o vilão mete-lhe o mando na mão". E cada um tomava o seu lugar no desconcerto da nação e no palco do teatro da vida e da morte.
Como era estupidamente alegre e feliz e livre a infância, breve, dos rapazes e raparigas, no tempo em que a sardinha era para três. E sobrevivia o mais forte e o pai era pai e patrão e a mãe era mãe, pai e patroa, quando o home partia para os brasis ou outros eldorados que ficavam para além do mar, ou simplesmente para lá ou para cá das serras do Marão,das Meadas, de Montemuro, da Aboboreira, de Montedeiras. E muitas vezes já não voltava, muito menos rico, muito menos vivo ou inteiro.
E o galo cantava para a galinha pedrês, e a vida fiava-se e tecia-se linha a linha, em branco fio de linho, no tear da dor e da solidão.
Como era curta a vida, a esperança de vida, e certas, tão certas, a velhice e a morte. Mais a morte que a velhice, que "esta vida não chega a netos nem a filhos com barba", garantia o coveiro e certificava o facultativo.
"Muita saúde, pouca vida, porque Deus não dava tudo", lembrava o sino da igreja da aldeia, quando morria algum cristão, velho, que os novos já tinham seguido nas naus da Índia, fugidos da santa inquisição.
E "quem não poupa lenha não poupa nada que tenha", acrescentava, misógino, o rifão. Ou noutra variante, quiçá feminista "avant la letre": "Se tens galinha pedrês, não a mates nem a dês".
Quinta de Candoz,
setembro de 2008,
Último poste da série > 9 de outubro de 2023 > Guiné 61/74 - P24737: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (7): O Pão que Deus Amassou (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)
domingo, 14 de junho de 2020
Guiné 61/74 - P21075: Manuscrito(s) (Luís Graça) (185): por favor, não destruam o que resta da caixinha de Pandora, porque nela ainda está o segredo da nossa salvação, a Esperança, o veneno do mal que nos liberta do mal
e puseram-lhe o nome de Pandora.
Diziam os gregos antigos que fora por castigo,
como presente envenenado,
oferecido aos homens,
a quem Prometeu, o titã, tinha dado o fogo,
roubado aos céus.
Na sua fabricação,
à imagem e semelhança dos deuses,
trabalharam Hefesto e Atena,
sob as ordens do próprio Zeus,
e com o auxílio do resto do Olimpo.
Cada dividindade se esmerou
e lhe deu uma qualidade:
a graça,
a beleza,
a meiguice,
a paciência,
a compaixão,
a persuasão,
a generosidade,
a inteligência emocional,
a sensibilidade,
a sensualidade,
o sexto sentido,
a graciosidade na dança,
a arte da sedução,
o erotismo,
o talento para a cozinha,
a destreza para os trabalhos manuais,
o amor maternal…
Porém Hermes, o pérfido
o vírus da traição, da mentira, da intriga, do ciúme e da intolerância.
Zeus, o colérico e vingativo pai dos deuses
e de todas as demais criaturas,
mandou então a sua obra-prima
para a terra, qual cavalo de Tróia.
Epimeteu, irmão de Prometeu, estava por este avisado:
- Do céu nunca virá nada de bom!
Nunca aceites nenhum presente divino…
Deslumbrado com a sua beleza,
Epimeteu tomou Pandora como esposa.
Em casa, ele tinha uma misteriosa caixa
que outrora lhe enviara o céu.
Pandora fora instada a nunca a abrir,
em circunstância alguma.
Mas a curiosidade feminina foi superior às suas forças.
Outros dizem
que era... o seu dote de casamento,
um presente envenenado.
… Lá dentro, na caixa de Pandora,
estavam todos os males,
que haveriam de afligir a humanidade,
até ao fim dos séculos dos séculos…
Mas, no fundo da caixa, ficou ainda
um resto do recheio original,
o único elemento que não se chegara a libertar,
porque Pandora, assustada,
ainda conseguira fechar a tampa,
na derradeira fracção de segundo …
E esse elemento era… a Esperança,
disfarçada de mal !
Apesar do erro, terrível, irreparável,
Pandora vai permitir aos homens,
empunhar com orgulho o archote de fogo
que lhes dera Prometeu,
manter acesa a luz ao fundo do túnel,
manter vivo esse outro fogo do conhecimento e da paixão,
dominar alguns dos piores males
que estiveram prestes a destruir a humanidade,
conquistar o direito ao futuro,
lutar contra a doença e a morte,
alimentar a esperança,
combater o fatum, a condenação ao absurdo,
levá-los, enfim, aos seres humanos
a superar as limitações da sua condição animal...
Com Pandora, não somos definitivamente criaturas divinas,
nem obras-primas da criação,
somos assumidamente seres livres,
humanos,
frágeis,
vulneráveis,
mortais,
bons e maus,
mas donos do nosso destino.
Com Pandora, tornámos irrisórios os deuses,
libertámos criadores e criaturas,
deixámos a suburbanidade do Olimpo,
humanizámos a vida,
hospedámo-nos no sistema solar,
começámos a escrever a história,
mas escrevemos,
e ganhámos a terra como nossa casa comum,
conhecemos a vertigem e o sabor
da aventura e da liberdade...
Pandora, nossa mãe negra, branca, amarela, vermelha...
mãe de todas as cores do arco-íris,
não és o pecado original,
és afinal “a que tudo dá",
em grego.
Com Pandora somos fogo e estopa,
mas já não vem o diabo... e assopra!
Para quê o diabo,
se voltámos a ter, de volta,
a caixinha de Pandora,
agora domada e explicada às criancinhas,
e outrora mortal brinquedo dos deuses ?
o que resta da caixinha de Pandora,
__________
Último poste da série > 3 de junho de 2020 > Guiné 61/74 - P21037: Manuscrito(s) (Luís Graça) (184): a magia do pôr do sol no Mar do Cerro, Porto das Barcas, Lourinhã, na casa "Atira-te ao Mar!", dos "Duques do Cadaval"
quinta-feira, 8 de março de 2018
Guiné 61/74 - P18390: Blogpoesia (557): No Dia Internacional da Mulher - "Mulher", por Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor do BCAÇ 3872
1. Em mensagem de ontem, 7 de Março de 2018, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro,
1971/74), autor do livro "A Tropa Vai Fazer de ti um Homem", enviou-nos este poema, a propósito do Dia Internacional da Mulher que hoje se celebra.Olá Carlos e Luís,
Aproxima-se o Dia Internacional da Mulher. Aqui vai um apontamento.
Celebrar a mulher é um prazer e não sabem aquelas culturas que a segregam, que a querem menorizar como individuo, a grande alegria que elas nos dão com a sua companhia e partilha.
Há dias a Sara Tavares disse que o sorriso era a parte mais bonita do corpo humano. Como podem em certos países obrigar a esconder esses sorrisos?
Um abraço
Juvenal Amado
MULHER
Mostra um lindo sorriso
Põe uma flor no cabelo
Veste o teu melhor vestido
Solta a rebeldia
Grita bem alto a tua condição
Esquece as dores nas pernas
As mãos maltratadas
O transporte público incómodo
O assédio na fábrica
Ri-te com desprezo de quem não te respeita
Porque o teu rosto nos ilumina
Mostra o teu poder
Não deixes que te ignorem
Sai para a rua
Reclama-a como tua
Assume-te de corpo inteiro
Canta aquela canção em voz alta
Celebra que este é o teu dia
Tu és a alegria dos nossos dias
Exige que eles sejam todos teus
E salta para o palco da vida
Dança como uma bailarina em pontas
Salva-nos com a tua magia
Mostra-nos o teu sorriso
E transforma o cinzentismo em vibrante cor
Juvenal Amado
8 de Março 2018
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Nota do editor
Último poste da série de 4 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18377: Blogpoesia (556): "Devasso minha alma...", "Moinho de vento", e "As regras...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Guiné 63/74 - P16889: Agenda cultural (533): "Buruntuma: algum dia serás grande", coleção "Fim do Império", livro de fotografia, a lançar oficialmente em janeiro ou fevereiro de 2017... 10 pp de texto, 100 pp. de fotografia. Autor: Jorge Ferreira, ex-alf mil, 3ª CCAÇ (Nova Lamego, 1961/63)
Cartaz de divulgação do livro do nosso camarada Jorge Ferreira, "Buruntuma: um dia serás grande", edição no âmbito do Programa Fim do Império, da Liga dos Combatentes, e que conta com o apoio do nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, Tabanca Grande
1. Mensagem do nosso camarada Jorge Ferreira, com data de 20 do corrente
:[Foto à esquerda: Jorge Ferreira, ex-alf mil da 3ª CCAÇ, tendo estado em Buruntuma com o seu pelotão (20 metropolitanos e 20 guinenses) entre novembro de 1961 e julho de 1962; a 3ª CCAÇ estava sediada em Nova Lamego, tendo mais tarde dado origem à CCAÇ 5, "Gatos Pretos"] (*)
Caro Luís
Na sequência da nossa conversa telefónica, junto além da Capa, como sugeriste, outros elementos que poderão interessar para uma 1ª divulgação do livro no teu /nosso Blogue. (**)
Relativamente à Sinopse deixo ao teu critério as alterações que entendas por bem fazer.
Reitero os meus Votos de um Santo Natal e de um Novo Ano, pleno de alegrias e muita saúde.
Um Abraço de Amizade e os meus agradecimentos pela confiança depositada.
Jorge Ferreira
S I N O P S E
“BURUNTUMA – algum dia serás GRANDE …” é um Livro de Fotografia, uma Reportagem Fotográfica (Páginas: texto: 10; fotos: 100; dimensões: 22 x 22 cm) sobre um Pelotão misto (20 militares guinéus e igual número de metropolitanos pertencentes ao Esquadrão de Cavalaria 252) que durante 11 meses (1961 / 62) esteve destacado naquela povoação fronteiriça [vd. mapa abaixo da Guiné-Bissau].
Através de imagens “velhinhas” de mais de 50 anos, pretende-se testemunhar a actividade militar desenvolvida naquela Região “Chão Fula” a que chamámos nomadização e traçar um retrato das gentes que o habitavam e que constitui um verdadeiro MOSAICO HUMANO .
Relativamente às imagens de Jovens Fulas ostentando os seios descobertos, em MOSAICO HUMANO, manda a Verdade e Realidade Antropológica e Cultural do Povo Fula não lhe atribuir qualquer manifestação de erotismo, pondo de parte os princípios e convenções da nossa tradição judaico-cristã.
Mesmo as actividades relacionadas com a astorícia são os “meninos” que as desempenham.
Assim, não será de estranhar que a Mulher Fula assumindo os trabalhos mais árduos e para fazer face aos ardores do Sol impiedoso desnude o tronco e de quando em quando se refresque recorrendo à água dos poços (poças) disseminados pelos campos de cultivo.
Naturalmente que a nudez do tronco também funciona como factor de sedução, pois um casamento com um Régulo, Chefe de Tabanca ou proprietário abastado, libertará a “eleita” dos trabalhos mais pesados.
A todos os que me acompanharam nesta Missão, metropolitanos e guinéus de quase todas as etnias, dedico, em particular, esta reportagem fotográfica.
Jorge Ferreira
INFORMAÇÔES GERAIS
Preço: 12,5€ + Portes (disponíveis a partir de 20 de dezembro de 2016)
Lançamento formal: Jan / Fev 2017
Encomendas: jorgeferr@netcabo.pt
(*) Vd. poste de 19 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16502: Tabanca Grande (495): Jorge Ferreira, ex-alf mil, 3ª CCAÇ (Bolama, Nova Lamego e Buruntuma, 1961/63), nosso grã-tabanqueiro nº 728...
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Guiné 63/74 - P16356: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (2): Cadi suma outra mulher
1. Mensagem do nosso camarada Adão Pinho da Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68), com data de 22 de Julho de 2016:
Amigo Carlos
Aí vai mais um conto, rigorosamente verdadeiro, de alguns que escrevi e publiquei há vários anos, e que considero um dos mais belos poemas que me aconteceram na vida.
Adão Cruz
MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA
2 - Cadi
Cadi era uma mulher esbelta. Uma verdadeira Balanta-Bravo. Não tão bonitas como as Futa-Fulas, as balantas tinham um corpo de fazer inveja a quaisquer outras. A Cadi era o ver-dos-olhos de soldados, sargentos e oficiais. Mas apenas o ver-dos-olhos. Mais do que isso Cadi não permitia. Nós vivíamos dentro de uma cerca de arame farpado, de onde só se podia sair, praticamente, de avioneta. Uma companhia militar e uma população rondando os mil e oitocentos negros. Não é de admirar que qualquer mulher pusesse “os olhos em bico” aos militares. Cadi sabia-o muito bem, e, com uma postura digna e distanciada, contrabalançava a sua condição de negra. Cadi sabia que todos gostariam de “fazer conversa gira” com ela (fazer amor), mas tinha grande orgulho em não deixar que lhe tocassem. Eu admirava muito a maneira de ser da Cadi, que assim se valia do que a natureza lhe dera para impor a sua dignidade de mulher, ainda que negra, faminta, e rudemente colonizada pela “supremacia” branca.
Um dia, começou a constar na tabanca que Cadi não era normal. Cadi “ca tem catota, Cadi ca suma outra mulher”. Na mais rudimentar tradução à letra, isto queria dizer que Cadi não era igual às outras mulheres, pois não tinha “buraquinho”, e, por conseguinte, não podia “fazer conversa gira” nem ter filhos. O boato explodiu como uma granada, e, em pouco tempo, a Cadi transformou-se em “avis rara”, vítima da vingança dos que nunca puderam tocar-lhe e da chacota dos que, mesmo assim sendo, gostariam de o comprovar pessoalmente.
Como as neuroses e as depressões não são apenas doenças de brancos e ricos, Cadi começou a andar muito triste e cabisbaixa. Não parecia a mesma, aquela que todos os dias atravessava a picada com ar garboso, peitos erectos, cabeça erguida e um menear de ancas capaz de provocar desmaios
O meu amigo e Chefe de Posto, cabo-verdiano, numa daquelas conversas que nos ajudavam a matar as intermináveis horas que faziam o eterno tempo de guerra que éramos obrigados a viver nestas paragens do norte da Guiné, disse-me com ar pesaroso:
-Doutor, ando chateado com aquele problema da Cadi. Coitada da moça, quer ir embora, quer ir viver para Binta. Sente uma grande vergonha por aquilo que dizem. Não seria possível fazer alguma coisa por ela? Por exemplo o doutor examiná-la? Ela aceitaria imediatamente. Apesar dos seus vinte anos e de nunca ter saído daqui, é uma rapariga com mentalidade evoluída e uma personalidade admirável.
Combinámos o dia e a hora do exame. Exigi a presença do Chefe de Posto e do meu enfermeiro, o qual, apesar de ser electricista de profissão, foi dos melhores enfermeiros que tive na Guiné.
O exame ginecológico da Cadi era absolutamente normal. Tinha “buraquinho” no mesmo lugar do buraquinho das mais famosas artistas de cinema, e com todos os demais apetrechos com que a natureza dotou as mulheres, brancas ou negras. Cadi podia fazer “conversa gira” com quem quisesse e podia ter filhos.
No dia seguinte, o Chefe de Posto reuniu, debaixo do mangueiro que ensombrava o pátio da sua pequena casa, todos os “Homens Grandes” da tabanca. Eram mais de dez, vestindo a túnica branca de cerimónia, e ostentando o turbante que a sua origem muçulmana impunha. Com ar grave, compenetrados da importância da sua presença, ouviram a comunicação em crioulo que o Chefe de Posto lhes fez.
Não sou capaz de reproduzir na íntegra, e tenho pena, mas posso dizer que foi das coisas mais bonitas que ouvi na minha vida de médico e de homem:
- Homem Grande de tabanca, toda gente conhece Doutor. Doutor ser aquele homem que cura meningite de tanto menino, que ensina maneira certa de parir, que faz fanado limpo de infecção, que levanta de noite toda hora para acalmar sezões. Doutor ter palavra sagrada. E Doutor disse: "Cadi suma outra mulher, Cadi ter catota suma outra mulher, Cadi pude fazer conversa gira e ter filho”.
Os “Homens grandes” da tabanca desfizeram-se em vénias e Cadi foi reabilitada. Ganhou até uma certa auréola de heroína, não só entre a população negra como entre os militares.
Eu tinha um jipe muito velho, quase só rodas e chassi. Com ele costumava ir ver o pôr-do-sol na orla da floresta, junto do arame farpado. Embora a distância não fosse grande, cerca de oitocentos metros, dava uma certa ficha e era motivo para entreter a pequenada em gincanas à volta da tabanca.
Já o sol se havia posto há muito. Demorei-me um pouco mais com a ternura desta gente negra e com as carícias que um velho cego de noventa anos me fazia, todos os dias, à volta da cara e nos cabelos, quando desligava o motor frente à sua palhota, onde me esperava sempre à hora do crepúsculo. Na pequena subida para a povoação, já fora da zona das palhotas, em contraluz, vi um vulto de mulher em estilo de aparição, com os pés na terra mas bem desenhado no céu, que parecia querer falar-me. Aproximei-me o mais possível e parei. Com o seu rosto de diamante negro espelhado de orgulho balanta, envolto num lenço negro como ele, eu tinha na minha frente a Cadi.
- Cadi, que surpresa!
- Dôtô, Cadi manga de satisfação, Cadi feliz, Cadi ca sabe como agradecê, dôtô tudo merece. Cadi mist conversa gira.
____________
Nota do editor
Último poste da série de 25 de junho de 2016 Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
quinta-feira, 19 de março de 2015
Guiné 63/74 - P14386: Blogpoesia (404): No dia do pai, um poema escolhido pelo camarada Armando Faria, "Ter um Pai", de Florbela Espanca (1894-1930)
É também, segundo o entendimento dos nossos editores, uma homenagem a uma grande mulher portuguesa, e uma grande poetisa, nascida em Vila Viçosa, e que em Matosinhos, aos 36 anos, pôs termo à vida... Uma morte de(a)nunciada!...E, claro, é ainda uma homenagem à nossa bela e amada língua: foi em português que aprendemos a dizer, pai e mãe..."Ter um Pai". [Ler aqui a sua biografia, no sítio "Vidas Lusófonas"].
Ter um Pai
Florbela Espanca (1894-1930)
Ter um Pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos;
É ter dois olhos no mundo
Que vêem pelos nossos olhos!
Ter um Pai! Um coração
Que apenas amor encerra,
É ver Deus, no mundo vil,
É ter os céus cá na terra!
Ter um Pai! Nunca se perde
Aquela santa afeição,
Sempre a mesma, quer o filho
Seja um santo ou um ladrão;
Talvez maior, sendo infame
O filho que é desprezado
Pelo mundo; pois um Pai
Perdoa ao mais desgraçado!
Ter um Pai! Um santo orgulho
Pró coração que lhe quer
Um orgulho que não cabe
Num coração de mulher!
Embora ele seja imenso
Vogando pelo ideal,
O coração que me deste
Ó Pai bondoso é leal!
Ter um Pai! Doce poema
Dum sonho bendito e santo
Nestas letras pequeninas,
Astros dum céu todo encanto!
Ter um Pai! Os órfãozinhos
Não conhecem este amor!
Por mo fazer conhecer,
Bendito seja o Senhor!
Florbela Espanca
Último poste da série > 10 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14344: Blogpoesia (403): o meu mar da Ericeira (J. L. Mendes Gomes)
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Guiné 63/74 - P14257: In Memoriam (217): Britt-Marie, esposa do nosso camarada José Belo, faleceu no passado dia 12 de Fevereiro
Joaquim Mexia Alves
2. Em nome da Tertúlia da Tabanca Grande, aqui deixamos ao camarada José Belo, a seus filhos e demais familiares, o nosso abraço solidário e o profundo pesar pelo falecimento de sua esposa e mãe.
Caro amigo Zé Belo, que vos sirva de consolo saber acabou o sofrimento da vossa ente querida e que apesar de vos ter deixado fisicamente, ficará para sempre no vosso coração.
A Tertúlia
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Nota do editor
Último poste da série de 31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Guiné 63/74 - P14041: In Memoriam (212): Ana Paula G. Pires Dias (1962-2014), esposa do nosso camarada Armando Pires (jornalista da rádio reformado, ex.-fur mil enf, CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/71)
A doença e a morte não escolhem idades, e cada dia somos confrontados com o desaparecimento de amigos e familiares. Mesmo sendo uma coisa que se entende como natural, na hora em que enfrentamos a triste realidade, ficamos sem palavras e sem jeito.
Ontem chegou-nos ao conhecimento a notícia brutal do falecimento da esposa do nosso querido amigo e camarada Armando Pires. A Ana Paula, ao fim de muito sofrimento, não resistiu mais e partiu para o Eterno Descanso.
Mais não podemos fazer se não, neste doloroso momento, dar um abraço apertado ao nosso amigo Pires e algumas palavras de conforto. Nestas horas, a presença física dos amigos é uma prova de solidariedade.
Para quem quiser e puder, de alguma maneira, estar junto deste nosso amigo, aqui ficam algumas informações:
O Corpo da nossa amiga Ana Paula estará em Câmara Ardente na Igreja de Linda-a-Velha, concelho de Oeiras, a partir das 18h00 de hoje.
Amanhã, dia 18, pelas 14h30, será rezada Missa de Corpo Presente nesta mesma Igreja.
O funeral sairá de seguida para o Cemitério de Barcarena (, também no concelho de Oeiras), onde, pelas 16h00, o corpo será Cremado.
Embora de viva voz já tenha manifestado o nosso pesar ao Armando Pires, pela partida da sua esposa, aqui fica a renovação da nossa solidariedade e o envio dos nossos sentidos pêsames ao resto da família.
Os editores
PS - O telemóvel do Armando Pires está disponível na sua conta no Google: 962 938 817. Os seus camaradas e amigos mais íntimos mais íntimos, mesmo à distância, podem e devem dar-lhe a palavra de conforto que qualquer homem precisa quando de perder a sua companheira de uma vida ou de parte de uma vida (, como era o caso na Ana Paula).
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Nota do editor
Último poste da série de 16 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14035: In Memoriam (211): Manuel Jorge Martins Gomes, ex-alf mil at art, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/74 (António J. Pereira da Costa)
domingo, 5 de maio de 2013
Guiné 63/74 - P11529: Blogpoesia (336): Suadê, nome de mãe (José Teixeira)
Caríssimos editores.
Aproxima-se o DIA DA MÃE.
Estarei na Guiné-Bissau, talvez no Centro Materno-Infantil de Elalab que a Tabanca Pequena ajudou a construir para apoiar as mães de hoje.
Gostava que colocassem no blogue este poema que escrevi em memória daquela mãe que no dia 14 de Janeiro de 1969 viu a sua bebé morrer ficando ela gravemente ferida no corpo e no espírito ao ponto de desejar a morte o que me dificultou imenso a sua estabilização.
Fevereiro, 1969 / Buba / 20
...Tive muito que fazer na Enfermaria. Um dos feridos da população mais graves foi a mãe da menina que morreu. Tinha o corpo cheio de estilhaços, felizmente não foi atingida nos órgãos vitais e deve recuperar. O seu sofrimento interior impressionou-me.
É seu hábito dormir com a criança amarrada às costas para poder levá-la para o abrigo subterrâneo quando o IN ataca. Como já era de manhã desamarrou-a pouco antes do ataque se dar. Quando ouviu o fogo correu para o abrigo e só nessa altura é que se apercebeu que a bebé estava a dormir na tabanca. Saiu a correr, mas foi atirada ao chão pelo rebentamento da granada de canhão que caiu em cima da sua casa e lhe matou a menina....
Suadê, nome de mãe.
Estava viva,
Estava morta,
Pobre mãe preta,
Desesperada,
A morte bateu-lhe à porta,
No sopro de uma granada.
Chorava lágrimas de sangue,
No seu corpo dilacerado.
Dos olhos vítreos e secos,
De tanta lágrima corrida,
Um grito soava ardente.
Não tenho direito à vida.
Era alta madrugada,
Quando a guerra eclodiu,
E aquela mãe assustada,
Da morte, a correr fugiu.
Sua filhinha dormia,
Dos justos, um sono forte,
A granada explodiu,
E com ela veio a morte.
Chegou à porta do abrigo,
Em noite de mau agoiro,
E para trás voltou, apressada
Na esperança de salvar,
O seu mais valioso tesoiro.
A razão do seu viver.
E viu sua filha amada morrer
Sem lhe poder valer.
A mesma granada,
Que sua filha matou,
No calor do incêndio que lhe esmagou a alma
Seu corpo cruelmente dilacerou,
Prostrando-a no chão, inanimada.
Num misto de sofrimento e dor.
Que dor, pobre mãe,
Tu viste tua filha morrer,
A razão do teu viver.
Sem lhe poderes valer.
Já não choras mãe.
Esgotaste o cloreto de sódio,
Teus olhos espelham ódio,
À vida que teima em soprar.
Queres morrer,
Desaparecer.
Ir ao encontro da tua amada,
Que partiu, para não voltar.
Zé Teixeira
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Nota do editor
Último poste da série de 1 DE MAIO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11515: Blogpoesia (335): Estamos à espera de quê ?...(J. L. Mendes Gomes)
sexta-feira, 8 de março de 2013
Guiné 63/74 - P11214: Blogpoesia (326): No dia Internacional da Mulher, que deveria ser todos os dias... um poema (António Eduardo Ferreira)
1.
Em mensagem de hoje, 8 de Março de 2013, o nosso camarada António
Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga e Bissau, 1972/74) enviou-nos este poema subordinado à data hoje se comemora, o Dia Internacional da Mulher:
O dia da mulher deveria ser todos os dias, mas como isso por enquanto ainda não é possível que haja pelo menos um...
Ela era assim,
Mulher que soube sofrer em silêncio,
Mulher que sabia ouvir,
Escutava, mesmo que fosse apenas ruído…
Nunca dizia não, quando alguém necessitava de ajuda,
Exigente, apenas para consigo,
Sabia sorrir, mesmo quando o seu coração chorava;
Na maternidade com o filho, viu o esposo partir,
Enviava correspondência sem lamentos…
Mulher que não sabia como era África.
Mulher que de guerra pouco ouvia falar,
Tinham medo os que dela falavam…
Mulher que sofreu com a ausência,
Mulher a quem o filho perguntava pelo pai
E a resposta tantas vezes era uma lágrima apenas.
Por favor, guerra nunca mais,
As mulheres não merecem a guerra.
António Eduardo Ferreira
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Nota do editor:
Vd. último poste da série de 8 de Março de 2013 > Guiné 63/74 - P11212: Blogpoesia (325): No dia Internacional da Mulher, um poema dedicado à minha irmã, à mulher africana e a todas as mulheres do mundo (Cherno Baldé)
Guiné 63/74 - P11212: Blogpoesia (325): No dia Internacional da Mulher, um poema dedicado à minha irmã, à mulher africana e a todas as mulheres do mundo (Cherno Baldé)
1. Mensagem do nosso irmão guineense Cherno Baldé, com data de 8 de Março de 2013:
Caros amigos Luís e Carlos Vinhal,
Com os mais respeitosos cumprimentos a todos os Editores e Grã-Tabanqueiros da nossa bela e hospitaleira Tabanca Grande, envio algum material tirado do baú do meu tempo de estudante que pomposamente intitulei de poemas de juventude.
Claro que não custa muito adivinhar d´onde vem a inspiração.
Por ocasião do dia 8 de Março que será celebrado amanhã em todo o mundo, num dos ficheiros poderão encontrar um poema dedicado à minha irmã, à mulher africana e, de certa forma, à todas as mulheres do mundo que trabalham e lutam diariamente para um mundo mais justo e equilibrado e onde o respeito pela dignidade humana de todos os membros da sociedade não será um simples slogan politico.
Também aproveito esta abertura para vos enviar outros poemas que poderão sempre publicar quando houver disponibilidade e interesse em o fazer.
Um grande abraço,
Cherno Baldé
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Nota do editor:
Vd. último poste da série de 7 de Março de 2013 > Guiné 63/74 - P11209: Blogpoesia (324): Sinopse Lúdico-Histórica da CCAÇ 2444 (João Rebola)
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Guiné 63/74 - P11060: Do Ninho D'Águia até África (50): A mulher e o conflito (Tony Borié)
1. Quadragésimo nono episódio da série "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177, chegado até nós em mensagem do dia 2 de Fevereiro de 2013:
DO NINHO D'ÁGUIA ATÉ ÁFRICA (50)
A foto com que o Cifra inicia este texto, veio-lhe parar às mãos, na região do Oio, na então província da Guiné, nos anos de 1964/66.
Não sabe se são mesmo guerrilheiras, ou se é somente uma foto para impressionar, mas ambas mostram uma cara com alguma angústia, também não sabe se foi o Cifra que a tirou, nas suas andanças de fim de mês, na entrega de material classificado de cifra, pela região onde estavam as forças militares que pertenciam ao seu agrupamento, que estava estacionado em Mansoa. O Cifra acredita que foi ele que a tirou, mas não sabe em que situação ou em que lugar, ou se estava mais algum militar com ele nesse momento com máquina fotográfica, sabe que foi na região do Oio, e talvez em Mansoa, Mansabá, Bissorã, Olossato, Cutia, Nhacra, Encheia, ou qualquer outro lugar, na região do Oio ou próximo. As armas que elas seguram são parecidas com as que as milícias usavam, e que acompanhavam os militares, servindo de guias tradutores. Se os antigos combatentes, que nessa altura lá se encontravam e souberem a sua proveniência, por favor contem a história, o Cifra e os demais agradecem, oxalá que ainda estejam vivas, e esta fotografia, é uma homenagem de respeito e apreciação, pelo seu sofrimento e pela sua coragem, não só delas, como todas as mulheres africanas que de uma maneira ou de outra estiveram envolvidas no conflito, e é assim que deve ser vista.
Agora vamos ao texto:
O Cifra, entende que nos relatos em que lembramos as nossas memórias, os homens, antigos combatentes, sempre falam de si, contam isto e aquilo, às vezes até criam um certo protagonismo. E então as mulheres, não estiveram por trás dos homens, não sofreram, não sentiram a ausência, não ficaram viúvas, não ficaram sem noivos, namorados, filhos, irmãos, netos, não choraram a ausência do marido, não ficaram sozinhas, às vezes com filhos bebés? E não foram só as mulheres dos militares europeus, foram também as mulheres africanas, das famílias dos guerrilheiros, isto é uma verdade, que alguns de nós, mas infelizmente poucos, ainda lembramos. Somos sobreviventes de uma guerra horrorosa, que não desejo, em nenhuma circunstância, se volte a repetir, mas vou mencionar algumas passagens de relatos de textos anteriores, onde o Cifra fala da mulher, portanto cá vai:
“Na aldeia havia somente uma mulher, magra, já de uma certa idade, nua da cinta para cima, com algumas argolas em volta do pescoço, servindo de enfeite, talvez. Estava sentada, ao lado de um balaio de arroz com casca, com as mãos ao lado da cara, falando aflita, numa linguagem incompreensível, e de vez em quando, tirava as mãos da cara, fazia gestos para a frente, ao mesmo tempo que balançava o corpo para a frente e para trás. Na sua frente, estavam duas crianças, também magras e nuas. Estas três pessoas, eram no momento, os habitantes da aldeia.
Os soldados africanos, chamados pelo alferes, para traduzirem as palavras da mulher, diziam:
- Ela se lastima, por os militares lhe terem morto os seus dois filhos, e diz para se irem embora, que aqui não há mais ninguém. Também diz que tem quatro filhas, que desapareceram um certo dia pela madrugada, e que as visitam de vez em quando, pois neste momento eram guerrilheiras, transportadoras de material de guerra”.
E agora, outro relato tirado de outro texto:
“Em Portugal, o Cifra, visitou a família deste militar, por diversas vezes. Era de uma aldeia da serra da Estrela, tinha uma irmã e um irmão, ambos casados. A mãe andava sempre vestida de preto e dizia:
- Ainda não fui, mas não tarda muito tempo. Sou viúva duas vezes, do meu Joaquim, que Deus lhe guarde a alma em descanso, e do meu António, que era a cara do pai, quando nasceu, e que foi dar o corpo às balas, e que morreu na guerra, lá na África. E mostrava sempre o farrapo do camuflado ensanguentado, que o Cifra lhe mandou, e a fotografia do António, que beijava e encostava ao coração”.
Estes relatos exprimem dor, angústia e sofrimento, da mulher, tanto africana com europeia, e o Cifra acredita, que não existe nenhum ser humano, por mais estudos e experiência que tenha, que esteja qualificado para analisar o que ia na mente destes seres humanos, que perderam os seus entes queridos.
Só para terminar, o Cifra fez o arranjo desta foto que é uma simples homenagem À MULHER, que de algum modo, esteve envolvida no conflito, tanto africana como europeia, que colocou frente-a-frente, os militares de Portugal contra os guerrilheiros que lutavam pela independência do seu território.
O Cifra fez um arranjo com uma cara jovem, não expressando muita alegria, porque nós também éramos jovens, quando lá nos encontrávamos, e a nossa família, tanto a que ficou na Europa, como a que vivia em África, sabendo que os seus estavam envolvidos num conflito armado, como era de prever, também não expressavam muita alegria.
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Nota do editor:
Vd. último poste da série de 2 de Fevereiro de 2013 > Guiné 63/74 - P11044: Do Ninho D'Águia até África (49): Eram guerreiros (Tony Borié)
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Guiné 63/74 - P7781: Blogpoesia (113): Mulher, minha irmã (Felismina Costa)
Boa-noite, editor e amigo Carlos Vinhal!
Junto envio um pequeno poema, que provém da minha análise ao comportamento humano.
Apesar de já ter idade para saber, que o ser humano é assim mesmo diverso e complexo, não entendo os porquês comportamentais.
Deve ser preciso ser-se assim, para que haja mudança, evolução, mas, porque é preciso que seja sempre tudo resolvido pela força em vez do diálogo?
Um Abraço Fraterno
Felismina Costa
Mulher, minha irmã!
Mulher, minha irmã
Na alegria e na dor
No desencanto e no amor
Na fraqueza e na coragem!
Mulher, do passado e do presente,
Que semeaste contente,
Esperançosa, enquanto crente,
Sementes de felicidade
Nos quatro cantos do mundo!
Quiseste sempre o sorriso,
E ainda mais do que isso…
Uma total liberdade,
Onde crescessem felizes
Os filhos que semeaste!
Mas, a tua crédula esperança
Regista cedo a tardança
Desse querer que lideraste!
Cansaste os anos na espera.
Acreditaste que era possível
Converter a negação,
Porque… era lógico o teu querer!
E arriscaste!
E continuaste, semeando a esperança
Sem desistir de lutar.
Sem desistir de gritar,
Que a liberdade, é um direito de todos!
Que ninguém, é de ninguém.
E que as vidas que arriscaste
São um todo, supremo bem,
Iguaizinhas para ti
Porque és… a sua mãe!
Mulher, minha irmã
Na alegria e na dor,
Porque foi que tu deixaste
Que alguns dos que criaste
Ignorassem a dor,
Que a mãe sente
Quando um filho, trata o irmão… sem amor?
Felismina Costa
Agualva, 8 de Fevereiro de 2011
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Notas de CV:
(*) Vd. poste de 9 de Janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7578: Blogpoesia (103): Em ti meu amor (Felismina Costa)
Vd. último poste da série de 12 de Fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7772: Blogpoesia (112): Quando os ventos sopram em Assuão (Luís Graça)



















