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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Considero que nesta fase da narrativa do Capitão Brosselard surgem várias observações francamente atrativas para a investigação historiográfica. Já vimos como ele aprecia a importância estratégica do Ziguinchor, como, implicitamente, se tornava de toda a conveniência necessário afastar a presença portuguesa do rio Casamansa. Dá-nos uma descrição de Ziguinchor no exato momento em que partimos. Faz uma apreciação da presença portuguesa na região desde o século XVII, refere ou Grumetes e Manjacos e a riqueza das madeiras que se encontram tanto na colónia francesa como na colónia portuguesa. Eu desconhecia que desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos eram exploradas pelo Governo português, e Brosselard não se acanha de propor a exploração destas madeiras na região do rio Cogon. Goste-se ou não, até porque a História não pode ser posta em tribunal nem sujeita a ressentimentos, é implícito nas observações de Brosselard que havia uma coerência territorial que a ganância política desconsiderou. A memória da identidade não se perde e vejam-se as sublevações do Casamansa que não se sente integrado no Senegal.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 17
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando a narrativa, estamos em pleno Casamansa, o Capitão Brosselard rememora dados históricos da presença portuguesa, refere que no século XVII os portugueses se tinham estabelecido no Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e um conjunto de outros lugares. Quem vinha, casava ou coabitava, com as mulheres do país, daí a numerosa população mestiça existente na Guiné. Estas alianças luso-africanas facilitaram as aproximações e as boas relações com os indígenas porque o islamismo não impede ainda que o negro aceite os princípios dos europeus.

Também uma multidão de indígenas fixados perto dos portugueses e unidos por laços de sangue se adaptaram sem resistência aos costumes dos recém-chegados, sofrendo a sua influência religiosa. Assim se formou a população dos Grumetes e dos Manjacos. Os que nós vimos trazem muitas vezes um Cristo em cobre sobre o peito: é uma herança dos seus ancestrais. Apresentando-se como cristãos, os Manjacos são polígamos, bebedores e muito debochados. Porém, são bons agricultores e bons marinheiros. As suas mulheres vestem-se com uma certa elegância e muitas vezes com distinção. Todas as cerimónias, casamentos, enterros, etc. são para os Manjacos uma ocasião para beber aguardente e vinho de palma. Quando uma rapariga se casa, todas as mulheres da povoação se juntam, vestem-se a primor e acompanham-na com cantos e gritos, de casa em casa. É do uso oferecer um presente à noiva e vinho de palma ao cortejo.

Nos dias de festa religiosa ou de procissões passeia-se igualmente pela povoação e os manifestantes fazem novas libações por cada casa por onde passam. Pode avaliar-se da compostura dos fiéis após algumas horas de peregrinação nas ruas. Toda esta gente fala um português incorreto.

O pântano de Cajanolle é um canal de comunicação entre o Casamansa e o rio Cacheu, desagua neste rio, perto de Bolor, que era, há alguns anos, um estabelecimento de uma grande importância, e servia de sanatório a Cacheu. Esta povoação está hoje em decadência; fundada em 1588, foi outrora o centro mais importante dos portugueses nesta costa e o único estabelecimento que tinha a aparência de uma povoação. Tinha alguns funcionários, uma numerosa população branca e as relações com a Europa eram frequentes.

A povoação de Cacheu tinha um aspeto muito especial bastante pitoresco. Existia aqui, ao que parece, uma sociedade de gente destemida que operava com a maior tranquilidade fazendo vigilância desde o anoitecer. Não era preciso contar com a guarnição porque as rondas que eles faziam eram quase tão temidas como os encontros com os bandidos. Atualmente a povoação de Cacheu compõe-se de 1800 habitantes, um terço são brancos. Um forte em más condições, armado de doze canhões, protege a povoação encravada nos limites estreitos de uma muralha feita de terra. O rio Cacheu é navegável até ao posto de Farim, cuja situação no interior corresponde à de Selho; mas esta escala está longe de ter a importância da sua vizinha do Casamansa.

A região compreendida entre Cacheu e o Casamansa a este do pântano de Cajanolle está coberta de magníficas florestas mais ou menos impenetráveis, alguns caminhos permitem passar do rio francês para o rio português. Paralelamente a estes dois rios, é praticamente impossível circular à volta, porque as florestas só têm claridade na vizinhança da fronteira mandinga, no Alto Casamansa.

Todas as madeiras que aqui se encontram são apropriadas para construção; podem convir tanto para marcenaria como para a construção de mobiliário de luxo e poderão ser objeto de um comércio próspero. Porém, será necessário escolher com discernimento os territórios de exploração, porque haverá dificuldades intransponíveis de penetrar em certos lugares destas florestas, e tentar uma exploração longe de zonas pantanosas que não permitem o escoamento de madeira pelos rios.

No Casamansa e Cacheu constroem-se numerosas embarcações com estas madeiras admiráveis, e desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos são exploradas regularmente pelo Governo português.

Trabalhadores vindos de Lisboa escolhem as madeiras e dirigem a operação; a exploração faz-se do lado do rio Cacheu. Todos os anos, um ou dois barcos vindos de Lisboa carregam estas madeiras destinadas às construções navais. Os barcos que fazem este transporte são construídos com as madeiras provenientes destas florestas.

Uma das árvores mais procuradas pelos portugueses pela sua duração e inalterabilidade é a missanda ou árvore de água vermelha, a sua casca avermelhada é um veneno violento, serve para compor a vida que os negros empregam na prova do julgamento de Deus.

Esta madeira não é atacada nem pela humidade nem pelas térmitas. Creio que poderia ser vantajosamente utilizada para fornecer as chulipas dos caminhos de ferro do Senegal.

Podemos constatar com satisfação que todas as essências do Casamansa se encontram igualmente nas margens do Cogon. Sobre um percurso de 400 a 500 quilómetros, este rio está bordejado por uma espessa floresta onde se amontoam árvores magníficas. Nas margens do Cogon mais ainda do que nas do Casamansa, será fiável explorar as madeiras. Poder-se-ão lançar as árvores no rio e levá-las pela corrente até ao baixo Compony, onde será fácil estabelecer uma serração.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Neste bilhete postal faz-se referência aos 212 mil africanos de toda a África ocidental francesa que combateram pela França na I Guerra Mundial. O corpo dos atiradores senegaleses foi criado por Louis Faidherbe, familiar próximo do capitão Henri Brosselard-Faidherbe, Louis Faidherbe foi governador geral da África ocidental francesa. Só muito recentemente a França se ressarciu do tremendo silêncio da sua historiografia, estavam esquecidos os 30 mil mortos vindos da África ocidental.
Bilhete postal da Guiné francesa, um caçador Coniagui
Bilhete postal antigo mostrando o porto de Dakar
Comerciante de Cayor, Senegal, 1910

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não foi por acaso que juntei a este texto a imagem de uma carta geográfica elaborada pelo Capitão Brosselard mostrando o Casamansa e a colónia portuguesa na Guiné. O oficial francês explica com meridiana clareza as razões pelas quais a diplomacia francesa se bateu estrenuamente para se desembaraçar da presença portuguesa dá margens do Casamansa. Durante as conversações realizadas em Paris e que levaram à elaboração da Convenção Luso-Francesa assinada em 12 de maio de 1886, os representantes portugueses bem argumentaram a nossa longa presença histórica em Ziguinchor, para os franceses era a pedra no sapato, contornaram a questão prometendo oralmente que iriam apoiar a diplomacia portuguesa na questão do Mapa Cor de Rosa. Na hora própria, assobiaram para o lado, e ganharam a pérola de Ziguinchor.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 16
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Estamos agora na apreciação que o Capitão Brosselard faz de Ziguinchor. No meu ponto de vista, constitui algo de muito relevante para se perceber das motivações geopolíticas que levaram o Governo de Paris a tudo fazer para nos afastar liminarmente do Casamansa. Damos a palavra na primeira pessoa do singular ao narrador.

No percurso do rio Casamansa só se encontra uma escala digna desse nome. É Ziguinchor. Tem um fundo de sete metros no cais. A montante desta ancoragem, os navios com um calado de três metros podem subir até à ponta Piedras; com um calado de dois metros podem atingir Selho, a 170 Km da foz; abaixo desta dimensão, as embarcações podem subir algumas milhas para lá de Dianah. Deste ponto às nascentes, a distância só poderá ser feita por pirogas ou canoas de fundo liso.

De Adéane a Dianah, as duas margens são bordejadas por uma vegetação luxuriante e árvores gigantescas, principalmente em Yatacounda onde as únicas clareiras que se encontram são ocupadas pelas povoações. A maré faz-se sentir até Selho, e facilita a navegação a veleiros de um só mastro e escunas da ilha de Gorée que, com exceção de alguns navios costeiros ingleses, carregado de nós de cola, frequentam sozinhos este rio. Um vapor demora doze horas desde a foz do rio Casamansa a Selho; os veleiros precisam de três dias. O principal afluente do Casamansa, o Songrogou, é praticável até Tabor para os pequenos veleiros de um só mastro ou bateiras com um calado de 80cm.

Com a concordância do comissário português, a missão francesa dirige-se a Ziguinchor, em 24 de abril, no aviso Goéland. E toma posse desta Praça portuguesa que fora evacuada dias antes. O pavilhão francês foi hasteado no dia seguinte de manhã na presença dos principais habitantes e saudada pelos regulamentares vinte e um tiros de canhão.

Em Ziguinchor as habitações confortáveis são raras; quando muito, encontram-se três ou quatro casas de comerciantes construídas à europeia; as outras habitações são casas bastante elevadas, de forma quadrangular ou retangular, de vinte e cinco metros (?) de lado, cujas paredes são em barro e o teto em palha; comportam geralmente quatro divisões e um corredor central. Em grande número de povoações do Casamansa as habitações têm mais conforto que as de Ziguinchor. Quando eu explorava os arredores desta antiga escala portuguesa, fui um dia à povoação de Brin. Ergue-se no meio de um bosque de alta floresta; as casas são construídas com terra e têm um primeiro andar que lembra uma sobreloja. Como nas casas de Ziguinchor, esta parte é destinada a guardar as provisões de milho e arroz. Um largo teto de palha cobre tudo; a este teto são adaptados algerozes feitos com palmeira, através deles as águas fluviais escoam-se longe das povoações. Estas casas, no interior, com a sua grande altura, os seus corredores compridos e escuros, os seus postigos e pequenos recantos, lembram muito os velhos castelos medievais.

A ocupação de Ziguinchor regula a questão da posse do Casamansa, que se torna de facto um rio francês. Nós possuímos, além disso, a única escala favorável ao carregamento de grandes navios, Ziguinchor.

Os vapores podem subir com toda a carga e acostar aos pontões acima de seis ou sete metros de água. Esta situação, altamente favorável, atrai há bastante tempo os comerciantes que criam agora em Ziguinchor entrepostos gerais.

Antes da posse da escala portuguesa, os vapores que vinham da Europa descarregavam a sua carga em Gorée, onde tomavam os produtos do Casamansa, trazidos por um vaivém incessante de veleiros de um só mastro ou escunas. Doravante estes vapores virão diretamente aos pontões de Ziguinchor.

A floresta, a quinhentos metros da povoação, presta-se admiravelmente à criação de construções e jardins. Basta arrancar o matagal entre as palmeiras que procuram a sombra, a frescura e fornecem vinho, gordura, tecidos, etc. É um acontecimento feliz para a nossa nova possessão, porque apertado no meio dos seus arrozais, Ziguinchor sufoca nos seus limites atuais e a administração terá que tomar a iniciativa da criação e uma nova povoação na qual poderão estabelecer-se os habitantes que fazem atualmente dinheiro alugando as suas casas a comerciantes.

Graças à brisa marítima que se faz sentir regularmente todos os dias, o clima é relativamente doce, reconhece-se uma reputação de salubridade, porque os únicos franceses que têm descendentes do Casamansa são os que se estabeleceram nesta povoação. O senhor Chambas, um francês, viveu aqui 27 anos. Os habitantes intitulam-se europeus. Ziguinchor é assim uma pequena colónia que parece vir a tornar-se a principal localidade do Casamansa; Selho conservará a sua importância militar e Carabane será o posto alfandegário do rio.

Os habitantes da antiga povoação portuguesa têm somente pirogas, são talhadas a machado no tronco de árvores enormes e atingem grandes dimensões.

Durante muito tempo o tráfico de escravos era o grande negócio de Ziguinchor. Mais tarde, os portugueses contentaram-se em comprar escravos para o cultivo das terras vizinhas. Em 1860, a irmã do governador tinha ainda, só para ela, uma centena de escravos. Hoje os Grumetes não têm mais que os cativos estritamente necessários para as suas necessidades.

Quando os franceses se estabeleceram no Casamansa, os portugueses só mantinham dois soldados negros para guardar a bandeira. O serviço alfandegário era dirigido por um diretor e o culto religioso assegurado por um padre. Em certas alturas, os portugueses tinham posto uma guarnição de vinte homens comandados por um alferes.

A população mostrou muitas vezes antipatia pelo seu governador e que se traduzia por atos de revolta. No entanto, os portugueses manifestavam uma grande tolerância; tinham mesmo deixado subsistir usos e costumes inadmissíveis à sombra de uma bandeira de uma nação civilizada; assim um dos meus primeiros atos foi suprimi-los.

O mais horrível dos costumes que subsistiam ainda era o do julgamento do veneno, que remontava aos maus dias da Inquisição. Em certas épocas do ano, fazia-se beber o veneno às pessoas suspeitas de ser indiferentes à religião. O chefe da povoação (juiz do povo), desempenhava o papel de inquisidor, e o paciente não podia escapar à morte a não ser que se subornasse os seus juízes.

Há na povoação dois partidos: os que habitam o bairro oeste (Vila Fria) e o outro que habita o bairro este (Tabourka). As discórdias entre estes dois partidos levam muitas vezes à morte de homens.

No século XVII, os portugueses estabeleceram-se em Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e num dédalo de outros lugares, fixaram-se na maior parte dos casos sem espírito de regresso. 

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Saúde de Cuntima (também conhecida por Colina do Norte), Guiné-Bissau, em estado de ruína, é manifesto o abandono. Imagem retirada da tese de doutoramento de Ibrahima Dione disponível no site: https://theses.hal.science/tel-00945314/file/THESE_DIONE.pdf, prende-se com os cuidados de saúde na República do Senegal
Carta do Casamansa e do distrito de Cacheu, elaborada pelo Capitão Henri Brosselard
Imagem extraída do livro La Guinée Portugaise, Subsides pour son Études, pelo antigo Governador Carlos Pereira, 1914
Povoação Mancanha, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 7 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Poder-se-á dizer que este trabalho de investigação de Howard W. French está implicado na defesa de uma causa: retirar o papel do negro africano do nével secundário em que a historiografia o pôs, dando ênfase ao papel que os escravos tiveram nos seis séculos de desenvolvimento mundial, isto a contrariar a historiografia que atribui a criação do mundo moderno ao desempenho europeu, às explorações marítimas e aos avanços científicos e tecnológicos ou mesmo a expansão dos ideiais judaico-cristãos. Sendo verdade que a Europa teve um papel central na criação do mundo moderno, o que Howard French vem contrapor é que se impõe trazer África dos africanos para contar verdadeiramente a história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, não deixa de trazer um elemento polémico, tal desenvolvimento construiu-se à custa da desumanização e da exploração da África e dos negros, e este continente e este grupo humano precisam de retomar no quadro histórico o papel primacial que lhes cabe.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 6

Mário Beja Santos

Despedimo-nos hoje deste apanhado de notas ao estudo histórico Origem: África, por Howard W. French, Bertrand Editora 2022. Em jeito de recapitulação, recorda-se que o autor inicia a sua investigação pelas primeiras explorações do litoral africano, século XV, segue-se a criação da fortaleza de São Jorge da Mina, ouro e escravos começam a inundar a Europa, nos séculos subsequentes o comércio negreiro tornar-se-á crucial para a agricultura de plantação, primeiro o açúcar, seguir-se-á o tabaco e por último o algodão, este elemento económico determinante na industrialização.

Haverá guerras neste Oceano Atlântico, nos dois continentes, África e América, como o autor observa:
“A transição da era do comércio transatlântico de escravos para o advento das colónias europeias em África foi um processo gradual e prolongado, que se estendeu desde o final do século XVIII até ao final do século XIX. Depois dos Estados Unidos terem conquistado a sua independência da Grã-Bretanha, este país começa, pela primeira vez, a pensar seriamente acerca do império em África. O continente tinha sido vital enquanto fonte de escravos para as suas colónias geradoras de prosperidade nas Caraíbas. No entanto, no final da guerra da independência americana, a França tinha-se tornado, graças à sua colónia de Saint-Domingue, o maior beneficiário europeu do complexo de plantação de escravos da região.”

Também o autor questiona as frágeis fundações económicas e institucionais africanas, partiram milhões de escravos de África, o que não impediu que este continente tenha passado no século XX de cerca de 130 milhões para 1000 milhões de pessoas. Durante séculos, os escravos foram submissos, mas no início do século XIX começaram a dar sinais declarados de rebelião. Em dezembro de 1810, um pequeno grupo de escravos, que trabalhava nas terras agrícolas no vale do Baixo Mississípi, conspirou para levar a cabo a maior revolta de escravos da história dos Estados Unidos. Espalharam-se as contestações, a plantação e colheita do algodão era trabalho brutal, atingia as raias do desumano.

A repressão dos colonos foi igualmente brutal, teve um grande impacto na história política do Luisiana e o autor observa:
“Comunidades de plantadores que em tempos tinham olhado para a ideia de integração dos Estados Unidos com desconfiança e hostilidade mostravam-se agora aberto à ideia do Estado. Isto foi fruto de uma crença partilhada de que as suas milícias jamais voltariam a ser adequadas à tarefa de impor a desigualdade radical.”

Temos depois um extenso curso de eventos sobre a Revolução Haitiana, todo o poder branco que a procurou sufocar, de britânicos a franceses, falhou rotundamente. E a análise que o autor faz a estes acontecimentos leva-nos até Nova Orleãs, à cultura dos blues, ao aparecimento de uma dimensão musical que irá ganhar expressão universal. A historiografia norte americana considera que a criação dos Estados Unidos e a sua expansão para oeste se deveu à componente tecnológica, ao engenho dos homens brancos que partiram da Costa Leste e fizeram nascer o vasto deserto americano que se situa a oeste e a sudoeste das montanhas Apalaches. A componente tecnológica teria sido a invenção de um dispositivo, o descaroçador de algodão, introduzido em 1793. Não querendo contestar o papel deste descaroçador, o autor recorda a componente negra e o aumento maciço da produtividade dos escravos nas plantações depois da Luisiana ter sido vendida pelos franceses aos Estados Unidos.

E o autor enfatiza o papel colonizador da expansão americana com sucessivos massacres de nativos americanos para terras dos territórios ocidentais para além do Mississípi. Não esquecer que muitos dos fundadores americanos eram esclavagistas. Tendo procurado comprovar que foram estes africanos que catapultaram a ascensão económica da Europa e conduziram os EUA ao quadro de uma superpotência, o autor deixa aqui derradeiras reflexões:
“O principal pensamento que gostaria de deixar aos leitores é o da participação crucial do povo negro na sua própria libertação e na preservação da jovem união americana. Este foi o segundo ato extraordinário da diáspora africana no sentido de tornar o Novo Mundo seguro para a democracia, sessenta e um anos após a Revolução Haitiana. Em cada secção deste texto, através de histórias sobre o ouro e escravatura em África e de açúcar e algodão, cada uma mais importante do ponto de vista económico e mais transformadora do que a anterior, esforcei-me não só por colocar os africanos e as pessoas de origem africana no Novo Mundo no centro da história da Modernidade e do seu advento, mas também para retratá-los como impulsionadores fundamentais em todas as fases desta história.

A história da escravatura, das plantações e do trabalho negro que gerou o produto mais importante daquela época, o algodão, é, à luz de qualquer padrão razoável, um elemento central nesta imensa mudança humana. Mas isso não é tudo: a atividade económica relacionada com o algodão também impulsionou a banca e os seguros e promoveu o comércio globalizado em escalas nunca vistas. Reformulou profundamente os mapas políticos dos continentes. Posicionou os Estados Unidos como a maior e mais dinâmica potência económica do mundo já no final do século XIX. E ajudou a propulsionar o novo colosso americano a atingir rapidamente o dobro da dimensão da economia britânica em 1914.”


As grandes revoltas do Sul propulsionaram a migração negra para outras partes do país, Chicago foi uma delas. A ideologia da supremacia branca passou a reclamar a deportação do negro para África, foi uma tentativa fruste de querer apagar o movimento historicamente transformador dos povos que saíram de África, atravessaram o Atlântico e chegaram depois ao que se tornou os Estados Unidos continentais. Vinham acorrentados e aprenderam a lutar pelos seus direitos, espalharam-se depois do êxodo dando ao país líderes municipais negros, grandes escritores como Toni Morrison e James Baldwin.

O autor despede-se a falar de si e a razão que o levou a esta investigação:
“A história dos meus antepassados colocou-me no caminho certo para estudar a história mais alargada do mundo Atlântico contida no interior deste livro. O fim da invisibilidade de África na construção daquilo que todos nós conhecemos e experienciamos como o moderno está no cerne dessa luta.”

Impossível não deixar de ter em conta este livro que reconta a história da expansão marítima colocando o continente africano e os seus povos no centro das atenções, o mesmo é dizer que oferece um novo enquadramento da história mundial.


Professor Howard W. French
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.

Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.

Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.

Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.

Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.

Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.

Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.

Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.

Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.

A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Temos agora uma narrativa sobre a caça ao hipopótamo na região de Kandiafara. Vai aparecer o comissário português, o Tenente Costa Oliveira, da Armada Real, vem acompanhado, traz dez dias de atraso, tinha desembarcado nas margens do rio Cajet, só encontrara obstáculos, por embarcação pôde subir até Cantagniès (provavelmente o Cantanhez). A partir de agora as duas missões andarão irmanadas, irão prosseguir até encontrar as respetivas colunas de carregadores; outro membro da comissão francesa irá reconhecer o curso do Corubal, saber se este comunica com o rio Grande de Bolola. Creio que o leitor apreciará este documento histórico alusivo à primeira demarcação das fronteiras da Guiné, será aqui que se selará o destino de Ziguinchor e de todo o Casamansa de português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 9
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Sr. Galibert recebeu a incumbência por parte do Capitão Brosselard para fazer uma exploração no rio Cogon; experiência sem sucesso, agora o Capitão Brosselard relata uma experiência que ele viveu e que culminou com a morte de um hipopótamo, como se escreve.

Avistou-se um dia na margem oposta um enorme crocodilo que espreitava macacos. Querendo afastar estes perigosos animais das águas de Kandiafara, nas quais as pessoas da nossa missão se banhavam diariamente, dei ordens para atirar sobre eles quando os avistássemos na vizinhança do acampamento. O crocodilo não parecia mover-se, mas depois se ter atirado várias vezes embarquei no barco à vela com o Sr. Galibert e dois estivadores, e dirigimo-nos para a margem oposta.

O crocodilo mergulhou e apareceu a uma certa distância, a embarcação vigiava os seus movimentos e cada vez que ele aparecia davam-se mais tiros. De repente, na vizinhança do barco apareceram dois hipopótamos e olharam-nos com surpresa. Tive o despropósito de disparar sobre um deles, o monstro deu um salto enorme acompanhado de um barulho tal que quem estava na margem se apavorou, pensando o pior. O Sr. Galibert manobrou o barco para meio do rio, sabia por experiência que se navegássemos para um baixio, onde a besta tivesse pé, estávamos perdidos. De súbito, a um metro apenas da embarcação o monstro pôs a cabeça fora de água: a proa guinou e ergueu-se e houve um barulho sinistro que parecia anunciar que a frágil embarcação ficaria em mil pedaços. Achando-me de pé, fui atirado borda fora, isto enquanto a embarcação se enchia de água. Chegou-se à margem direita com dificuldade: não era sem tempo.

Contrariamente a uma opinião muito difundida, os hipopótamos só atacam quando pensam estar ameaçados, os indígenas dão-lhes caça, conhecendo esta particularidade. Tivemos ocasião de assistir a estas caçadas e, em cada uma delas, é utilizado o mesmo método: os monstros eram assinalados na proximidade de um banco de areia e os indígenas atiravam sobre os que se encontravam fora de água. Uma piroga dirigia-se ao mesmo tempo para um deles, o hipopótamo não demorava a dar caça à embarcação que se refugiava prudentemente no banco de areia. O hipopótamo não parava, perseguia os caçadores, começava o tiroteio e o animal ficava num estado enfurecido, dirigia-se contra os agressores, mas, como a sua marcha é lenta não lhes permitia chegar aos caçadores a tempo. Estes vão atirando à queima-roupa, especialmente sobre os olhos e a besta enorme ficava rapidamente cega. Seguiam-se as arremetidas com lanças e golpes de sabre usados para lhes quebrar os jarretes (acima do joelho). O animal cambaleava, a luta tornava-se desigual: o sangue escorrendo por todas as feridas. Nesta altura aumenta o número de caçadores, o solo está empapado de sangue.

Animal esgotado, a sentir que chegou a sua hora, a procurar ainda fugir para o rio, aqui entrando e mergulhando. A superfície da água a ficar rapidamente vermelha, e este indício sangrento indica aos carrascos onde ele está, perseguem-no dando gritos horríveis. O animal, a morrer, é, entretanto, obrigado a vir frequentemente respirar à superfície. A piroga segue-o de perto, levada por dois negros vigorosos: um rema, o outro maneja uma lança de ferro, fere o animal sempre que pode. Não é raro ver a piroga erguer-se e afundar-se. Quando isto acontece, os negros nadam e põem-na a flutuar; a sua vítima, que já não pode distingui-los também já não pode atacá-los com as suas poderosas mandíbulas. Por último, o hipopótamo dirige-se em direção a terra para expirar. Aqui chegado, ele para, a sua respiração é ruidosa, o seu dorso agita-se com violência. Os indígenas dançam, gritam e assistem à agonia do monstro, agonia que por vezes se prolonga por horas.

Os negros são apreciadores da carne de hipopótamo; os primeiros colonos portugueses da Guiné gostavam muito deste alimento e os padres autorizavam mesmo que a comessem à sexta-feira, pois consideravam que o hipopótamo era um peixe.

Durante a nossa estadia em Kandiafara enviei mensagens em diferentes direções para recolher informações sobre a digressão dos portugueses. Ninguém podia atravessar as linhas de demarcação marcadas pelo limite atual da invasão Fula. Todos os caminhos estavam sob vigilância, faziam-se emboscadas nas florestas aos infelizes Nalus quando procuravam escapar aos seus invasores.

A presença da missão não fez cessar os ataques invasores. Assim vi-me obrigado a fazer advertências a Bacar-Lombi, fazendo-lhe saber oficialmente que se eu soubesse que uma povoação Nalu fosse atacada eu iria defendê-la, tomando partido contra o agressor. Na esperança de obter algumas informações, enviei um intérprete a Buba, mas o comandante da praça nada sabia. Temia-se que o Sr. Costa Oliveira estivesse a enfrentar grandes dificuldades: a situação política do país permitia admitir a hipótese de uma resistência armada dos indígenas.

Bacar-Lombi pôs muitas dificuldades para fornecer carregadores. Foi enviando gente em pequenos contingentes, exigindo caso a caso um novo testemunho de reconhecimento. Os que estavam prometidos para 22 só chegavam a 23; enviei ao chefe Fula o intérprete Ibrahima, com ordem de pedir explicações. Nessa circunstância este chefe ganancioso respondeu que “lhe tinha sido prometido como presente dois barris de pólvora e que ele só tinha recebido um; que os brancos não cumpriam a sua palavra e que ele não se sentia obrigado a cumprir a sua”.

O intérprete observou-lhe tinha sido enviado um barril com um conteúdo com o dobro que os de uso habitual. “Pouco importa, respondeu Bacar: prometeram-me dois barris e eu só recebi um”. O intérprete deu-me conta da sua missão e foi enviado um segundo barril a Bacar-Lombi. Ele decidiu agradecer e aproveitou para dar sinal que exigia mais para haver boas relações, pediu açúcar e frascos de perfume. Recebeu açúcar e o incidente ficou sanado. No mesmo dia chegava um correio do Sr. Oliveira, o comissário português estava em Cantagniès (provavelmente Cantanhez) e anunciava-se para o dia 25. A 24, chegou um segundo correio: a missão portuguesa estava em Simbéli. A 25, encontro-me com os portugueses, com os Srs. Oliveira e Cabral. O Capitão Bacelar, teve de regressar a Bolama para repatriar uma parte do pessoal, recrutar novos carregadores e organizar uma coluna de víveres. O comissário português explica que veio atrasado dez dias porque procurou atravessar a região essencialmente pantanosa que separa o Cacine do Compony. Após ter desembarcado nas margens do rio Cajet, não pôde fazer uma só etapa em direção ao leste, detido pela vegetação cerrada e os lodos profundos, precisou de subir a norte e assim alcançar o Cacine. Neste rio, graças a Sayon-Sallifou, que no cumprimento das minhas instruções procurara embarcações, a missão portuguesa pôde subir até Cantagniès. A partir daqui dirigiu-se para Kandiafara seguindo o caminho anteriormente utilizado pelo Tenente Clerc.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Carta geográfica da autoria do capitão Henri Brosselard referente ao Casamansa e o distrito de Cacheu, podemos ver como o Governo português reivindicava o território até ao Rio Casamansa e como acabou o esbulho
Os homens sobem para a piroga, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Cúter (designação do barco) da ilha de Gorée, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O Casamansa em Carabane, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)