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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)













Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Dizia o meu pai, filho e neto de gente do mar (pescadores, negociantes de peixe de...) que no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o diabo andava à solta... 

Dizia o meu pai, dizia o povo. 

Na minha terra, Lourinhã, Oeste, costa atlântica, era dia de lançar os meninos ao mar, agarrados nus ou pelos fundilhos dos calções. Nos idos anos 40/50... 

Resquícios de um tradição antiga ? ... Talvez.  Como ainda hoje se faz, em São Bartolomeu do Mar, em Esposende, que  mantém o ritual  coletivo do Banho Santo de São Bartolomeu... (Dizem, é único no país e no mundo.)

Também passei por esse ritual de iniciação... Traumático.

 O meu tio Silvano Constâncio, casado com a minha tia materna Ema Barbosa, com casa térrea e logradouro no Nadrupe (terra dos meus avós maternos, e a onde a minha mãe, que vivia na Lourinhã,  me foi parir...), levava-nos na sua carroça à Praia da Areia Branca, eu, a minha irmã Graciete,  mais os nossos primos e as nossas mães, em dias de festa... Com destaque para o São João, 24 de junho, feriado municipal na Lourinhã. Mas também no 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, se calhasse a um domingo. O meu pai ia lá ter, de bicicleta.

Deve ter sido no domingo de 24 de agosto de 1952. Só se ia à praia, no verão, nos dias feriados e domingos. Duas a três vezes por ano, no máximo, mesmo com o mar ali a 3 km...  Eu tinha 5 anos. Tive o meu batismo de mar. Recordo-me ainda hoje, passados 74 anos (!), de o meu tio Silvano, que era o meu "herói" (e que morreu tão cedo aos 40 e tal anos, para meu/nosso grande desgosto!),  me ter pegado pelos fundilhos dos calções e eu, a berrar e a espernear, ter sido  lançado, sem dó nem piedade, às "ondas gigantes" do Oceano Atlântico!...

Ainda hoje não confio muito no mar e só tomo banho com pé... Mas gosto agora de recordar essas memórias da minha ida à praia (e do meu "batismo atlântico" )... São memórias precoces da minha infância, que já deixei em verso algures:

(..) Ah, os camponeses e os seus burros com as albardas e as canastas,
que ainda não estavam em extinção,
nem uns nem outros,
iam aos magotes até à praia da Areia Branca,
no feriado do são João,
entre brincadeiras e dichotes,
levavam a trouxa e a merenda, os tremoços e as pevides,
as peras, os peros, os alperces, as ameixas e os abrunhos,
os melões e as melancias,
o pão de trigo do moleiro cozido em forno a lenha,
a broa de milho com sardinha,
as azeitonas mal curadas,
bebiam vinho pelo palhinhas, o garrafão de palha,
comiam o arroz de cabidela, de galo ou de coelho,
misturado com a areia e o vento e as lágrimas de sal,
em cima de mantas grossas, feitas de trapos, berrantes, multicolores.

(...) Sangravam de saúde os camponeses da tua aldeia,
“muita saúde, pouca vida, que Deus não dava tudo”,
no tempo em que “beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses”.

Nunca lhes perguntaste se eram felizes,
nem essa era pergunta de se lhes fazer!...
Por uma questão de vergonha, de pudor.
Mas achavas que sim, que eram felizes,
com o pouco que tinham,
já que a bem pouco podiam aspirar naquele tempo (...)


Passei a ter medo do mar e prometi a mim mesmo ( vã promessa de menino!) nunca vir a ser marinheiro, que “na água de mares, não procures cabelos para te agarrares”.

Misóginos os provérbios da minha terra que, quando o mar estava manso, lhe chamava “mar de mulher” (sic), para logo a seguir acrescentarem que “da mulher e do mar, não há que fiar”. Ou então: “do mar se tira o sal e da mulher muito mal”.



São Bartolomeu, Penafiel
2. Todos os anos, no dia 24 de agosto, realiza-se a romaria de São Bartolomeu do Mar, padroeiro da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Esposende, Minho, durante a qual as crianças são levadas a mergulhar, pelo menos três vezes, mas sempre em número ímpar, na água fria do mar. 

E para quê ? Para que fiquem livres ("esconjuradas") dos males da gaguez, do medo e da epilepsia, doenças atribuídas ao diabo. Mas para esta prática ter efeito terapêutico ou preventivo, as crianças têm que ir ao banho de mar  antes de completar os sete anos de idade, como manda a tradição.

Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo, o qual  durante o resto do ano traz preso, representado num medonho  cão negro  atado com uma grossa corrente de ferro. E só volta à noite. 

É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia 24 de agosto, para que aproveitem as águas excepcionalmente  puras e terapêuticas. O "banho santo" é um dos pontos altos da romaria de São Bartolomeu, uma das mais importantes do Minho. 

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma "galinha preta" (aqui diz-se "pito"), dando três voltas em redor da capela,  antes de nela entrarem e procederem à oferenda sacrificial. Colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. (E, já agora, porquê, uma "galinha preta" ? Há / havia a crença popular de que uma galinha preta em casa livra / livrava o dono ou a dono de ser atacado pelo diabo...)



Foto: Alfredo Cunha  (2025) (com a devida vénia...)

Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar (e aonde o diabo regressará ao anoitecer).  

Com a ajuda de um sargaceiro, cada crianca   é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar (três, cinco, sete ou nove).

De tarde, faz-se o agradecimento ao santo, através de uma imponente procissão. Apesar de o percurso ser curto, menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso, pode demorar  duas a três horas.

Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte. Durante a romaria, a praia local enche-se de gente, incluindo muitos forasteiros,  apesar do frio e da temperatura gelada da água.

O São Bartolomeu é, no céu e na terra, o "advogado do medo". 

Além de Sao Bartolomeu do Mar (Esposende), é  um santo venerado em muitas terras, de Norte a Sul do País, a começar por São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã),  Penafiel, Ponte da Barca, Sabugal, Cavez (Cabeceiras de Basto), etc.

Camaradas do Portugal ribeirinho, esta tradição do "banho santo", das nossas terras e das nossas gentes, merece esta bela e bem humorada BD como só o  ilustrador do ChatGPT sabe fazer, embora seja muito conservador, púdico e teimoso como um raio...(Imaginem, obrigou-me a ir ao mar de calções!... Com 5 anos, em 1952!...Nada de mostrar a pilinha!).

Tive um diálogo áspero com a menina IA do ChatGPT que não aceitou a foto do Alfredo da Cunha (foto acima, capa do livro "Mar de Fé:  S. Bartolomeu do Mar: 1996 -2024", da autoria de Alfredo da Cunha, fotografia, e Rui A. Faria Viana, texto. Lisboa: Guerra e Paz, 2026, 154 pp.)

Eis o nosso diálogo de surdos (de resto, frequente, entre nós):

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - Tens cada uma !... A criança mal se vê, vai entrar na água, sem roupa... P*rra, isto não é pornografia infantil, é etnografia, é o meu Portugal sacroprofano! Mete isto na p*ta da tua cabeça inteligente!...

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - F*da-se! Esquece a m*rda da fotografia (fabulosa!) do Alfredo Cunha!....E faz-me a BD!... Estás-me a decionar, camarada!

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

... E tive que retirar mesmo a foto "pornográfica" do Alfredo Cunha, o nosso maior fotógrafo vivo!... E submeter um novo prompt!

PS - Foram vinte e um (21) os mortos do concelho de Esposende, na guerra do ultramar / guerra colonial. Dez eram das freguesinhas ribeirinhas: Belinho (3), São Bartolomeu do Mar (2) (hoje freguesia do Mar), Marinhas (1), Fão (1) e Apúlia (3). Na década de 1960/70, Esposende tinha c. 24 mil habitantes, hoje tem 35 mil. 

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Nota do editor LG:

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28245: O nosso livro de visitas (230): Emília da Silva Balula procura informações sobre o seu tio, sold at cav Francisco da Silva Oliveira, CCAV 2540 / BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71), falecido em 24/2/1971, na sequência de acidente de viação



Guião do BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71) (Fonte: Coleção Carlos Coutinho)


1. Mensagem de  Emília da Silva Balula, sobrinha do nosso camarada Francisco da Silva Oliveira, morto no CTIG , em Ingoré, em 24/21971, por acidente de viação:


Data - 02/08/2026, 09:04

Procuro uma fotografia do meu tio:

(i) Francisco da Silva Oliveira,
(ii) natural de Liceiras, Ermesinde,
(iii) soldado atirador n.º 04316469,
(iv) Companhia de Cavalaria 2540 / Batalhão de Cavalaria 2876,
(v) falecido na Guiné em 24 de fevereiro de 1971.

Se algum antigo camarada ou familiar possuir fotografias da companhia ou o reconhecer, ficaria imensamente grata pela partilha. Muito obrigada

Emília da Silva Balula 

2. Comentário do editor LG:

Cara amiga Emília pp: pelo seu endereço de email, vejo que vive  em França

Em relação ao seu contacto, que muito nos honra, e respondendo ao seu pedido, tenho a dizer-lhe que infelizmente não temos nenhuma referência ao seu tio (e nosso camarada) Francisco. 

São escassas, de resto, as nossas referências ao seu batalhão, BCAV 2876 (cerca de uma dúzia) e à sua companhia, a CCAV 2540 (Ingoré, 1969/71) (apenas meia dúzia).

Experimente, todavia, contactar o fur mil vagomestre João Manuel Félix Dias, que vive no Montijo, e que é capaz de ter conhecido o seu tio.Vou-lhe mandar, por mensagem, o seu endereço de email. 

Quanto à foto, é mais seguro pedir ao Arquivo Histórico Militar; invoque a sua condição de sobrinha, para consultar o seu processo individual (donde constam, pelo menos, duas fotos  do tempo da incorporação militar). (Email: ahm@exercito.pt | telef : + 351 218 842 415 ).

Junto mais alguma informação adicional sobre o seu tio (que morreu no hospital, HM 241, Bissau) e o seu batalhão.

Obrigado pelo seu contacto. Luís Graça
___________________

Nome: Francisco da Silva Oliveira
Posto: Soldado - Atirador Número: 04316469
Unidade: Companhia de Cavalaria N º 2540 / Batalhão de Cavalaria nº 2876
Unidade Mob: Regimento de Cavalaria n.º 3 · Estremoz 
Estado civil: casado, com Berta Cardoso Oliveira
Pai: António Moutinho Alves
Mãe: Emília da Silva Oliveira
Lugar: Liceiras
Freguesia: Ermesinde 
Concelho: Valongo
Data do falecimento: 24 de Fevereiro de 1971, no HM 241 - Bissau
Causas da morte: acidente de viação
Local de operações: lngoré, região do Cacheu fronteira com o Senegal
Local da sepultura: cemitério paroquial de Ermesinde.

Fonte:Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 8.º volume: mortos em campanha. Tomo II: Guiné: livro 2. Lisboa: 2001, Livro 2, pãg. 35.
______________

Ficha de unidade:

Batalhão de Cavalaria n.º 2876
Identificação BCav 2876
Unidade Mob: RC 3 - Estremoz

Cmdt: TCor Cav José Carlos Sirgado Maia |
2º Cmd: Maj Cav Luís Maria Coelho Casquilho | Maj Cav Luís Francisco Pinto de Sousa Moreira
OInfOp/Adj: Maj Cav Luis Francisco Pinto de Sousa Moreira | Maj Cav José Luis Jordão de Ornelas Monteiro

Cmdts Comp:

CCS: Cap Mil Cav Jorge Maria Lemos Pereira Máximo | Cap Cav Rogério da Silva Guilherme | Cap Mil Cav José Mendes Fernandes Martins

CCav 2538: Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar | Cap Cav Rogério da Silva Guilherme

CCav 2539: Cap Cav Raul Fernando Durão Correia

CCav 2540: Cap Cav Jaime Gomes Vieira

Divisa: "Viver pra Vencer"
Partida: Embarque em 19Ju169; desembarque em 24Jul69 | Regresso: Embarque em 04Jun71
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Síntese da Actividade Operacional

Em 01Ag069, rendendo o BCaç 1933, assumiu a responsabilidade do Sector 06, cuja sede foi transferida durante a sobreposição para Ingoré e abrangendo os subsectores de Susana, S. Domingos, Ingoré e Barro, este retirado então à área do BCaç 1932 e transferido de novo para a zona de acção
do COP 3, em 07Fev70.

 As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do Batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional de patrulhamento, reconhecimento e emboscadas, com vista a impedir a infiltração de grupos e reabastecimentos inimigos, restabelecendo ainda a ligação rodoviária Ingoré-S. Domingos e efectuando a segurança e controlo dos itinerários. 

Da sua actividade ressaltaa captura de 1espingarda e a detecção e levantamento de 86 minas.

Em 31Mai71, foi rendido no sector pelo BCav 3846, recolhendo a Bissau para embarque.

A CCav 2538 seguiu em 29Jul69 para Susana, a fim de render a CCaç 1791, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector em O lAgo69, tendo destacado um pelotão para Varela. Por períodos variáveis, destacou ainda pelotões para reforço temporário de Ingoré.

Em 31Mai71, foi substituída pela CCav 3366 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.
***
A CCav 2539 seguiu em 29Ju169 para S. Domingos, a fim de render a CCaç 1790, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector em 01Ago69.

A partir de meados de Out69, cedeu um pelotão para reforço do subsector de Ingoré, o qual se instalou em Antotinha.

Em 31Mar71, foi substituída pela CCav 3365 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***
A CCav 2540 seguiu em 28Jul69 para Ingoré, a fim de render a CCaç 1801, assumindo, em O lAgo69, a responsabilidade do respectivo subsector, com pelotões destacados em Sedengal e Antotinha a partir de meados de Out70.

Em 31Mai71, foi substituída pela CCav 3364 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n.º 126 - 2ª Div/ 4ª  Sec, do AHM - Arquivo Histórico-Militar)

Fonte -Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 282/ 283

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27497: O nosso livro de visitas (229): M’bana N’tchigna, balanta, da Guiné-Bissau, professor do ensino médio em Vitória, no Brasil, autor do Blogue "Intelectuais Balantas na Diáspora", autor de uma texto sobre Pansau Na Isna (1938-1970)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27926: Esposas de militares no mato (8): Nem tudo foi "amor e uma cabana": vivi com a minha mulher em Bissau (entre set 71 e jun 72) e depois em Mansabá (entre set 72 e mar 73), até ela ser "corrida" do mato pelo cor pqdt Rafael Durão... O caso de outras foi bem mais dramático: a Romy, mulher do Ramos, ia perdendo o seu bebé de 3 meses numa ataque ao aquartelamento; a Júlia perdeu o marido o Costa, numa emboscada, a 2 km de Cutia, em 10/12/1973

 
José Fernando de Jesus Costa, natural de Pinha, Sabacheira, Tomar; era fur mil at art, CART 3567 (Mansabá, 1972/74)

Fonte: Adapt de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 8.º volume: mortos em campanha. Tomo II: Guiné: livor 2.  Lisboa: 2001, pãg. 234




António José Pereira da Costa 

Nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref, natural da Amadora, vive no concelho de Sintra; conhecido por TZ (Tó Zé, pelos amigos; PK, pelos camaradas da Academia Militar do seu tempo):

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69;

 (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau; 

(iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo; 

(iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.

É autor da série e do livro com o mesmo n0me, "A Minha Guerra a Petróleo" (Lisboa, Chiado Books, 2019, 192 pp. ); tem cerca de 210 referências no blogue. Foi diretor da Biblioteca do Exército (até finais de 2011); tem-se dedicado à investigação no domínio da História Militar.

CART 3567
Mansabá (1972/74)

1.  Mensagem enviada, através do Formulário de Contacto do Blogger, pelo nosso camarada António J. Pereira da Costa, cor art ref, 


Data - sábado, 4/04/2026, 19:32


Olá,  Camaradas Tenho reparado que no blog vão aparecendo referências à presença de jovens esposas de militares na guerra (*).Resolvi, por isso dar notícias sobre o tema.

Assim quero dizer que a minha mulher também esteve comigo na Guiné. Inicialmente em Bissau, enquanto comandava a Btr AA 3434.

Eu estava aquartelado no Gr Art.ª n.º 7 que acabou por ser incumbido da defesa da BA 12. Morávamos na Av. Arnaldo Schulz n.º 15 e lá vivemos entre set1971 e jun1972. quando eu fui para o Xime e ela recolheu a casa dos meus sogros.

Obviamente que as coisas correram bem, havendo a registar as "aventuras" do maj Gaspar que já contei noutro local.

Em set72 ela voltou à Guiné e ficámos juntos em Mansabá até mar73. O quartel era bastante cómodo e espaçoso como já sabemos pelas descrições que vão surgindo. Foi assim até o cor Rafael Durão dar por ela e obrigar-me a fazê-la regressar a Lisboa.

Entretanto dois furriéis mandaram vir as respectivas esposas: a Romy (Rosa), esposa do Ramos das M/A e que trabalhava comigo. Tinham um bebé como pouco mais de 3 meses e que ia desaparecendo no dia em que fomos atacados e em que foram queimadas  21 moranças.

Foi um susto grande, mas tudo se resolveu porque um soldado  recolheu o bebé 
e o entregou à mãe.

A esposa do [fur mil at art José Fernando de Jesus]  Costa que vivia numa morança que encontraram,  teve a infelicidade de o perder numa vez em que ambos foram a Bissau e, quando ele regressou a Mansabá,  foi assassinado numa emboscada montada a uma unidade de comandos recém-formada  [ a 2 km de Cutia; morreu no HM 241, Bissau, em 10/12/1973].

Não tenho elementos sobre a sobrevivência, em Bissau, da pobre Júlia [Maria Júlia de Jesus Siulva Costa, de seu nome completo],  mas imagino. Sei que voltou a casar com outro combatente da Guiné, mas nunca mais a revimos.

Vou procurar fotos para completar estes factos.
Cumprimentos, António José Pereira da Costa.

(Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

No livro da CECA sobre a actividade operacional (1971/74) lê-se:

(...) Acção - 10Dez  [1973] 

Pelas 07h40, na região de Momboncó (próximo de Mansabá), sector 04, numeroso
grupo inimigo emboscou uma subunidade do BCmds que executava
uma missão de escolta a uma coluna-auto no itinerário Mansoa--Mansabá.

As NT sofreram 8 mortos, 8 feridos graves e 20 feridos ligeiros.

Foram destruídas 2 viaturas e 5 ficaram danificadas.

O inimigo sofreu 3 mortos e foi-lhe capturado 1 lgfog "RPG", 1 granada de lgfog "RPG-2" e 1 granada de mão. (...)

Fonte: Adapt de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 6º volume: aspectos da actividade operacional. Tomo II: Guiné: livro 3.  Lisboa: 2015, pág. 347.

Morreram nesta emboscada, na estrada Mansoa - Cutia - Mansabá, de triste memória, para além do fur mil at art José Fernando de Jesus Costa, mais os seguintes militares das NT:

  • António Gonçalves Amaral, 1º cabo, Cart 3567, natural de Cinfães, solteiro;
  • Bacar Sissé, fur grad 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bolama, casado (2 esposas):
  • Carlos Manuel Matos Faustino, sold cond auto, CTransp 9040/72, solteiro, natural de Queluz, Sintra;
  • José Manuel Neves T0jo, fur serv transp rodo, CTransp 9040/72, solteiro, natural de Portel;
  • Sabana Fonhá, sold 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bafatá, solteiro;
  • Sori Baldé,  sold 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bafatá, casado.
Todos foram dados como mortos no HM 241, Bissau, em 10/12/1973, segundo o livro da CECA (2001), acima citado.

_________________

Nota do editor LG:

(*) Últrimo poste da série > 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II


Guiné > Região de Gabu  > Carta de Madina do Boé (1958) (Escala  1/50 mil)  (Esta carta ainda não  está disponível  "on line" no nosso blogue) > Posição relativa de Madina do Boé, a 12 km da fronteira da Guiné-Conacri, a sul. Era rodeada de pequenas colinas, que iam dos 100 aos 200 metros de altitude. A amarelo, algumas das cotas. Os rios eram sazonais. A região semidesértica, mas impraticável no tempo das chuvas. Sem qualquer povoação, no tempo da guerra. As poucas que haviam desapareceram.  Distâncias: Madina do Boé até à fronteira, a leste (Vendu Leidi) > 60 km; Cheche-Madina: 20 km; Cheche- Béli > 35 km.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil,  CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.



Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Foto do álbum do Manuel Coelho, o grande fotógrafo de Madina do Boé; aliás, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68); natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem c. 50  referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) | Sócio da Liga dos Combatentes nº 80.393 | Colaborador permanente da Tabanca Grande | Histórico do nosso blogue | Vai a caminho das 500 referências | VIve em Odivelas.


Madina do Boé: contributo para sua história

por José Martins

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.


Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. 

Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contuboel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em maio de 1965 onde permaneceu até abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.



A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965. 

Posteriormente, em maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.




A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em agosto de 1966, ficando instalada em Bissau. 

Daqui foi enviada para Fá Mandinga em dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em abril de 1967, onde permaneceu até janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.


CMIL 15

Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. 

Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em dezembro de 1971.


A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. 

Quando chegou à Guiné em outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em janeiro de 1968 onde permaneceu até 6 de fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em julho de 1969. 

Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em junho de 1968.


O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. 

Sei que só aterrámos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, alferes graduado capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar,  saltas e corres para junto dos abrigos".

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.


A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790). 

Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. 

Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969. 

A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852,  forrmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. 

Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405,  28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):


Furriéis Milicianos (n=2)

  • Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
  • Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos (n=7)
  • Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
  • Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
  • Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
  • Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
  • José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
  • José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados (n=37) 
  • Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
  • Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
  • Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
  • Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
  • Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
  • António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
  • António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
  • António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
  • António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
  • António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
  • Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
  • Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
  • Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
  • David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
  • Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã  – CCAÇ 2405
  • Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
  • Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
  • José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
  • José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
  • José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
  • José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
  • José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
  • José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
  • José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
  • José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
  • José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
  • Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
  • Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
  • Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
  • Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
  • Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
  • Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
  • Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
  • Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis (n=1)
  • Um caçador nativo não identificado

José Martins 
Janeiro de 2006

(Revisão / fixação de texto, negritos, realces, links, título: LG)
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Nota do editor L.G.

(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I


Guiné> Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude >  "Aeroporto da Portela de Canjadude, 2-11-68 - CCAÇ 5, CART 2338". Sentado na placa toponímica, em pedra, o fur mil enf João Carvalho, CCAÇ 5 (1973/74) e hoje farmacêutico. c. 1973/74.

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude >  CCAÇ 5 > "Vista geral do aquartelamento... Foto tirada de cima duma das grandes pedras existentes em Canjadude. Em Abril de 1973, as NT são surpreendidas por um ataque certeiro de 6 foguetões 122 mm... Mais uma escalada na guerra". Foto do álbum do João Carvalho, um histórico da Tabanca Grande para a qual entrou há 20 anos, em 23/1/2006.

Fotos (e legendas): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 


José Martins, nosso
colaborador permanente,
tem 490 referèncias no blogue;
participou na Op Mabecos
Bravios, no apoio de retaguarda
1. Textos de José Martins, ex-fur mil trms,  CCAÇ 5 (Canjadude, 1968/70), que voltamos a reproduzir, em duas partes (na II parte publica-se a lista dos 47 mortos no desastre de Cheche)


A retirada de Madina do Boé 

por José Martins
 

A minha "ligação" a Madina é pequena mas muito intensa. Escrevi este texto em 2000, trinta anos após o meu regresso: faz parte de um livro não editado, que escrevi (e continuo a escrever), pois que todos os 
dias surgem histórias e estórias que faz desta compilação de emoções um livro nunca acabado.

O mês de fevereiro de 1969 tivera início há poucos dias quando passou, no aquartelamento de Canjadude [entre Nova Lamego e Cheche], uma coluna cuja missão era retirar a Companhia de Caçadores 1790 do seu destacamento de Madina do Boé. 

Paralelamente a guarnição do posto do Cheche, pertencente à Companhia de Caçadores n.º 5, também retiraria e juntar-se-ia à nossa companhia em Canjadude.

Esta operação cumpria, da Diretiva n.º 1/68 do Comandante-Chefe, apenas na retirada desta martirizada e heróica companhia da sua isolada posição. 

A base inicialmente prevista para a região do Cheche ficar-se-ia pela reunificação da Companhia de Caçadores n.º 5 no seu aquartelamento em Canjadude, ficando este a ser o posto militar mais avançado, no Leste, desde Nova Lamego até á zona do Boé.

Esta operação contava com cinquenta e seis viaturas, uma vez que a retirada de Madina envolvia a recolha e transporte de todo o material que fosse possível recuperar.

Em 6 de fevereiro de 1969, as tropas até então estacionadas em Madina do Boé e as das companhias que tinha escoltado o comboio de viaturas, iniciavam o regresso. Estava, assim, consumado o abandono do local.

Chegados à margem sul do Rio Corubal, do lado oposto ao Cheche, tinha de se utilizar uma jangada constituída por um estrado assente em três grandes canoas e auxiliado, na travessia, por um barco com motor fora de borda, um "sintex".

A operação era perigosa, dado que as viaturas tinham de descer uma rampa em direcção ao rio, entrando na jangada utilizando pranchas e, após a travessia, sair de novo sobre pranchas e subir a ravina que partia do rio.

Eram cerca das seis da tarde do dia 5 quando se iniciou a travessia, que se estendeu por toda a noite e pela manhã do dia seguinte.

As companhias estacionadas em Canjadude (CCAÇ 5 e CART 2338) estavam em alerta e preparadas para prestar todo o apoio necessário e possível a esta operação. 

Havia que estabelecer um controlo para o parqueamento das viaturas dentro do perímetro do arame farpado e, em conjunto com os comandantes das companhias empenhadas na operação, indicar-lhes os locais em que deviam pernoitar, estas sim, em zonas em redor do destacamento e aldeamento.

Na operação estavam envolvidos centenas de efectivos e, sendo conhecedores de que na região não havia água, foi destacada, para a estrada entre Canjadude e Cheche, uma viatura com cerca de quinze bidões de água, para que os soldados fossem abastecidos.

Tocou-me o comando da escolta a esta viatura, tendo-me posicionado a cerca de cinco a sete quilómetros de Canjadude. Quando começaram a passar os militares que vinham na frente da coluna, notei que algo de estranho se tinha passado. Os soldados passavam cabisbaixos e praticamente ninguém aproveitou para se abastecer de água. Constatara, também, que havia um silêncio rádio, apesar de ter entrado na frequência da operação.

No regresso ao aquartelamento, soube que tinha havido um desastre na travessia do Rio Corubal, com um elevado número de mortes. As causas ainda eram muito obscuras. O necessário era providenciar apoio aos militares das companhias que tinham sofrido as baixas, alguns dos quais ainda se encontravam em estado de choque.

Fui, na qualidade de furriel de transmissões [da CCAÇ 5], encarregado de saber, interrogando os graduados das companhias atingidas, os nomes e patentes das vítimas, a fim de ser dado conhecimento aos escalões superiores, nomeadamente ao Quartel General, em Bissau.

Fui anotando, um a um, os nomes das vítimas. Entrecortados por soluços, os nomes foram sendo recordados pelos camaradas e, terminada a pesquisa, contei quarenta e sete nomes: quarenta e seis militares – dois furriéis, sete cabos, trinta e três soldados metropolitanos, quatro do recrutamento provincial - e um milícia.

Era um dia negro. Sentei-me no Centro Cripto, peguei no livro de codificações rápidas e transcrevi, para o impresso de mensagem, o texto cifrado que indicava que os nomes a seguir pertenciam aos militares mortos no acidente.

Procurei o comandante do destacamento, capitão Pacífico dos Reis e, em silêncio, entreguei-lhe a mensagem para assinar, sendo esta devolvida sem que fosse trocada qualquer palavra.

Momentos depois, no mais profundo silêncio possível, no posto de rádio, a voz pausada e comovida do radiotelefonista lançava ao ar, via VHF, os quarenta e sete nomes, como se fosse um toque a finados.

Pouco tempo depois, como que impulsionados por uma mola, começaram a chegar ao Centro de Mensagens pedidos de envio de telegramas para a Metrópole, em que os remetentes diziam estar de boa saúde, embora cheios de saudade.

Pretendiam com isto serenar os seus familiares, para que ao receberem o telegrama soubessem que estavam bem e de saúde. 

Esses telegramas não foram emitidos. Não valia a pena. Na metrópole só muito dias depois se soube deste desastre, e, se os telegramas saíssem da companhia, decerto que os escalões seguintes nunca lhes dariam seguimento.

Mais de vinte e cinco anos depois, o Diário de Notícias editou uma cassete vídeo, com uma reportagem no local, em que intervinham o tenente coronel José Aparício e o jurista Gustavo Pimenta, ao tempo capitão e alferes miliciano da CCAÇ 1790.

Já não era o primeiro vídeo que via sobre a Guerra do Ultramar, mas este falava de algo que eu tinha vivido, este reproduzia uma fase da minha própria vida de militar, e não me trazia boas recordações. 

Só nessa altura soube que a queda desordenada na água de muitos dos militares que se encontravam na jangada estava relacionada com o som de uma saída de morteiro, não identificado nem localizado, que tinha lançado o pânico.

Entretanto o meu filho mais velho, o Tiago, entrou na sala e respeitou o que viu. Eu estava a chorar. As lágrimas corriam-me pela face sem as poder conter. Pelo ecrã corriam os nomes que, anos antes, no desempenho das minhas funções de sargento de transmissões, tinha manuscrito em mensagem.

Os heróis de muitos combates tinham morrido afogados e, ainda hoje, os onze que foram recuperados duas  semanas depois, descansam lá longe, em país agora estrangeiro, nas ravinas que servem de margem ao Rio Corubal.

José Martins, 3 de Setembro de 2000

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

(Continua)
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Nota do editor LG: