sábado, 8 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19267: Agenda cultural (662): lançamento do Livro "Família Regalla: Hora da Verdade!", de Ricardo Moreira Regalla Dias-Pinto, 5 de janeiro de 2019, pelas 18h30, no Hotel Aveiro Center, Aveiro




1. Mensagem do nosso leitor Ricardo Dias-Pinto (*):

Data: quarta, 5/12/2018 à(s) 20:43

Assunto: Lançamento do Livro "Família Regalla: Hora da Verdade!"


Exmos(as). Senhores(as),

Venho por este meio convidar V. Exa. a estar presente no lançamento do meu livro que decorrerá no Hotel Aveiro Center,  no próximo dia 5 de Janeiro de 2019 pelas 18.30 horas.

Aproveito para informar que o Hotel Aveiro Center fez um acordo para que todos possam beneficiar de melhores condições caso pretendam permanecer, bastando para isso reservar quartos o quanto antes através do número de telefone: 234380390 e mencionando a vossa presença no evento. (**)

Melhores cumprimentos,

Ricardo Moreira Regalla Dias-Pinto
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(...) Estou a escrever um livro sobre a minha família.

O meu bisavô Francisco Augusto Regalla, combateu em 1915 na Coluna de Operações em Bissau pelo que gostava muito de pedir autorização para colocar uma vossa fotografia, mais propriamente a nº 3 da Fortaleza de Amura de cuja guarnição o meu bisavô fez parte durante algum tempo.

Naturalmente que, caso autorizem, terei o maior prazer em nomear o vosso blogue nos agradecimentos do referido livro que terá o título: Família Regalla: A Hora da Verdade!" (...) 


(**) Último poste da série > 4 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19257: Agenda cultural (661): "Voando sobre um ninho de Strelas", livro de memórias de António Martins de Matos, ten gen pilav ref. Sessão de apresentação: 11 de dezembro, 3ª feira, 18 horas, no Hotel Travel Park, na Av. Almirante Reis 64, Lisboa (metro Anjos). Estamos todos convidados.

Guiné 61/74 - P19266: Os nossos seres, saberes e lazeres (296): Viagem à Holanda acima das águas (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Setembro de 2018:

Queridos amigos,
Um dos aspetos que acicata a viagem é o facto de que por mais informação que se possua e até visualização dos lugares, o completamente inesperado acaba por nos encher o espírito. Foi logo o caso desta igreja de São Pedro, uma dicotomia entre a pompa contida e a severa linha calvinista, reduzindo a amostra religiosa a túmulos e epitáfios, lápides e memoriais, alguns túmulos e pintura. A surpresa veio de se verificar que os Peregrinos, em fuga às perseguições religiosas de Henrique VIII, aqui tiveram guarida, até partir para a América do Norte, onde fundaram comunidade e se transformaram num dos pilares da História norte-americana.
É por isso que a viagem nunca acaba desde que a curiosidade permaneça desperta.

Um abraço do
Mário


Viagem à Holanda acima das águas (2)

Beja Santos

A Igreja de São Pedro de Leiden é o monumento icónico da cidade. Começou por ser uma basílica cruciforme católica, com a Reforma transformou-se num bastião protestante, é hoje monumento nacional, considerado um lugar de reunião polivalente. Entra-se e é rapidamente percebido que o templo está marcado pelo rigor protestante. Dentro e fora, contudo, encontramos brasões de armas, monumentos, epitáfios, lápides, emblemas das corporações, escudos funerários, painéis religiosos, cruzes, túmulos, sinos, pintura em superfície seca… O mínimo que se pode dizer é que o viandante tem muitíssimo para ver naquele contexto aparente de imponência grave e de vigilância austera.




Este Juízo Final aqui exposto, é um empréstimo, a sua casa primitiva está em obras. É uma das mensagens mais poderosas que acompanham o Cristianismo em que a pintura exerce um papel pedagógico sem precedentes: no retábulo encerra-se a mensagem do que é viver bem praticando o bem e fugindo das fontes do mal, daí a advertência do fogo do inferno em contraposição à contemplação paradisíaca.


Memorial evocativo dos Peregrinos.

Entre o muito que há para ver neste grandioso templo, temos a história dos Peregrinos de Mayflower, alguns deles, em fuga dos rigores do protestantismo de Henrique VIII, que também se dedicou à perseguição religiosa, chegaram a Leiden em 1609. Daí a importância que os Peregrinos nos Estados Unidos dão a este templo. Os Peregrinos viajaram para a América do Norte a bordo do Mayflower, a sua expetativa era construir uma vida nova, não se davam muito bem com a severa moralidade holandesa. Estava iminente o fim da trégua de doze anos da República com o reino de Espanha, em 1621 sentiram-se forçados a abandonar o país. Era aqui que os Peregrinos celebravam as suas missas, o batistério e uma parede exterior conservam placas comemorativas. E deixaram outra lembrança, o Pacto do Mayflower, onde declararam a intenção de formar uma comunidade política que pretendiam estabelecer no norte da colónia britânica da Virgínia (atualmente Plymouth, Massachusetts).



A grelha do Coro de São Pedro em Leiden é tida como a mais antiga dos Países Baixos, trata-se de uma construção com vigamento de carvalho velho que data de 1410, sendo o friso do século XVI.


Leiden é quase completamente plana. Fora do quase há um castelo, hoje uma reminiscência de uma cidadela que vem do século IX, ainda há muralhas com uma altura de seis metros para lembrar o seu papel defensivo. Hoje é uma atração turística para desfrutar panorâmicas que o solo da cidade não permite desfrutar. O viandante entusiasmou-se com esta visão da igreja de São Pedro incrustada no casco histórico, não deixa de ser impressionante.


Concluída a visita a Leiden, regressa-se a Alphen aan den Rijn, é tempo de conhecer o lugar onde se dorme e come, é uma cidade com cerca de 110 mil habitantes, tem uma população próxima de Leiden, a cidade dispersa-se, mas mantém uma densidade por quilómetro quadrado bem alta. Há quem critique esta casa de cultura, considerando-a uma monstruosidade que atenta contra os princípios ecológicos. Vista de perto, tem este gigantismo de cimento e vidro, o viandante sentiu-se atraído pelas linhas curvilíneas, uma sensação de profundidade, enganadora pela ilusão ótica da escala.



Em plena artéria comercial ultramoderna é possível encontrar entretenimentos que vêm do passado, aquela caranguejola musical atrai muita gente, o burrico não está para conversas, mais comunicativo é o cão, que parece zelar pela caixa de música enquanto o patusco empresário recolhe as moedas.

Fim do primeiro dia acima das águas da Holanda.

(Continua)
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Nota do editor

Último poeta da série de 1 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19250: Os nossos seres, saberes e lazeres (295): Viagem à Holanda acima das águas (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19265: E as nossas palmas vão para... (18): O Arquivo Geral do Exército pela excecional colaboração prestada na pesquisa, de 5 anos, para o meu Livro dos Heróis Limianos... apesar das tremendas dificuldades em instalações e pessoal: 10 milhões de fichas individuais e 20 quilómetros de prateleiras todos os dias em risco, está lá toda a Guerra do Ultramar! (Mário Leitão)


Mário Leitão e o Director do Arquivo-Geral do Exército, tenente-coronel Fernando Felício



Capa do livro "Heróis Limianos da Guerra do Ultramar", de Mário Leitão (Ponta de Lima, ed. autor, 2018, 272 pp.) (*)

[O Mário Leitão, hoje farmacêutico reformado, foi fur mil, na Farmácia Militar de Luanda, Delegação n.º 11 do Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos (LMPQF), no período de 1971 a 1973; é natural de (e residente em) em Ponte de Lima, é membro da nossa Tabanca Grande, e já tem 3 livros publicados: "Biodiversidade das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d´Arcos" (2012), "História do Dia do Combatente Limiano" (2017) e, agora, "Heróis Limianos da Guerra do Ultramar" (2018)].


Fotos: © Mário Leitão  (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Mensagem do nosso amigo e camarada limiano, António Mário Leitão: 

Data: sexta, 7/12/2018 à(s) 12:23
Assunto: Livro dos Heróis Limianos

Caro Luís, um grande abraço!

Como não podia deixar de o fazer, entreguei pessoalmente um livro ao Sr. Director do Arquivo-Geral do Exército, tenente-coronel Fernando Felício, a quem devo a minha gratidão pelos serviços extraordinários que a sua instituição me prestou durante 5 anos de pesquisa.

É claro que na ocasião também agradeci ao seu adjunto, major dr. Marcelo Borges, e ao sargento-ajudante Fonseca, que foram incansáveis no fornecimento de processos para análise!

A propósito deste meu agradecimento devo denunciar as tremendas dificuldades de pessoal e de instalações com que esta unidade militar se debate, as quais tardam a ser solucionadas pelos governantes da nossa praça!

Aqueles 10 milhões de fichas individuais e os 20 quilómetros de prateleiras não podem continuar a correr os riscos actuais! A Guerra do Ultramar está lá toda, à espera de digitalização e de tectos seguros, e as calamidades dos incêndios não acontecem só em Terras de Santa Cruz! (Que o diabo seja surdo!)

Agradeço a publicação no nosso blogue!

Outro abraço e até breve! 
Mário Leitão 

2. Poste publicado, em 5 do corrente, na página do Facebook de António Mário Leitão:

Missão cumprida!

As biografias dos 53 Rapazes da minha terra que morreram na tropa durante a Guerra Colonial só puderam ficar registadas para a História porque este cidadão, tenente-coronel Fernando Felício, compreendeu, logo que iniciei as minhas pesquisas, a grande importância dessa missão de cinco anos.

Como Director e Comandante do Arquivo Geral do Exército (**), e no estrito cumprimento da sua missão, facultou-me todo o apoio e todas as facilidades para escrever este livro, o qual, sem disso eu ter consciência, catapultou Ponte de Lima para o primeiro dos concelhos a escrever a história da vida de cada um dos seus filhos mortos ao serviço da Pátria naquele conflito.

A par desta figura, uma outra se destaca como grande destinatário da minha gratidão: o forjanense coronel dr. Luís Coutinho de Almeida, que partilhou comigo muitos dias de pesquisa no Convento de Chelas.

Aqui deixo, com garantia de perenidade, um grande abraço de amizade e gratidão para esses dois senhores Oficiais Superiores!

Não vos admireis, pois, por no dia de hoje me sentir particularmente feliz. (***)
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19264: Notas de leitura (1128): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (63) (Mário Beja Santos)

Selo Comemorativo do I Centenário do BNU


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2018:

Queridos amigos,

Estamos pois em 1961, na China formam-se os jovens quadros do PAIGC, em Conacri Amílcar Cabral teria a escola-piloto, acolhe aqueles que Rafael Barbosa envia para a luta armada, há grande tensão com outros partidos e grupos hostis ao PAIGC, gente que consegue apoio e granjeia simpatias junto de acólitos de Sekou Touré. 

No Senegal, as simpatias de Senghor não apontam para o PAIGC, os Manjacos do Movimento de Libertação da Guiné [MLG]têm carta livre para agir, e vão mesmo agir, ao longo do segundo semestre de 1961, a correspondência do gerente de Bissau isso certifica.

Em março de 1962, o PAIGC dentro da Guiné sofre um grande abalo, alguns dos melhores quadros são apanhados com a boca na botija. O gerente de Bissau prevê um período de apaziguamento, está redondamente enganado, a subversão do Sul vai pôr a vida das pessoas em bolandas, nunca mais o Sul será o mesmo.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (63)

Beja Santos

1961 marca o início das hostilidades na Guiné, o Movimento de Libertação da Guiné  (MLG), orientado por Manjacos, muitos deles a residir no Senegal, procuram antecipar-se ao PAIGC, o seu grande rival. Temos notícias dos acontecimentos por carta confidencial dirigida ao governo do BNU pelo gerente de Bissau em 21 de julho:

“Por informações fidedignas, colhidas em meio competentes, informamos V. Exas. de que na madrugada de ontem se verificou um assalto à povoação de S. Domingos, que dista 130 km de Bissau, visando especialmente o edifício onde está instalado um pelotão de tropas europeias e indígenas.

Pela escuridão da noite, não foi possível calcular o número de assaltantes. Supõe-se que tenham sido cerca de 50, pela diversidade de pontos por onde partiam os disparos. Os bandoleiros usavam caçadeiras de zagalotes e apenas por este facto ficaram feridos 3 soldados, um com gravidade.

O ataque foi prontamente repelido. Não se conseguiu fazer qualquer prisioneiro, nem apurar o número de feridos ou mortos, porque os bandoleiros levaram-nos para o território vizinho, certamente para não serem identificados eles ou a família. São, todavia, portugueses, pelas frases que foram ouvidas alguns, quando atingidos pelas balas dos nossos soldados.

Uma hora depois da refrega, tudo voltou à normalidade, mas foram imediatamente enviados reforços. Não se nota que o criminoso acto tenha tido qualquer reflexo na população indígena ou europeia, que se mostra confiante.

As autoridades redobraram de vigilância, especialmente junto à fronteira, mas estranha-se que o miserável ataque tenha partido de um território com quem mantemos relações de amizade, e não da fronteira da Guiné de Sekou Touré”.

O Movimento de Libertação da Guiné andou dias depois a praticar vandalismo em Susana e Varela, deu sinais de atividade nos meses seguintes, queimando pontões, incendiando armazéns. No acervo documental do Arquivo Histórico do BNU encontra-se um interessante relatório relativo ao saque e incêndio de Guidaje, tem a data de 18 de novembro de 1961 e foi elaborado pela gerência da Sociedade Comercial Ultramarina em Bissau.

Leia-se a introdução, abona alguns dados relevantes:

“Começadas em Julho as incursões no norte da Província, na sequência já conhecida de S. Domingos, Varela e Susana, e a relativa falta de apoio militar naquela zona, o nosso encarregado de Ingoré apresentou-se em Bissau dada a insegurança da área, que está guarnecida apenas com um pelotão indígena, do qual uma secção era destacada para servir Bigene, e do qual dois ou três soldados tinham desertado levando consigo as espingardas.

Após conversa com V. Ex.ª o Governador que garantiu ao signatário que o Ingoré acabara de ser fortemente reforçado e que na véspera não houvera qualquer incidente, enviámos um empregado para o Ingoré, acompanhado do Sr. Manuel de Figueiredo que levou instruções e plenos poderes para decidir em face da situação sobre a atitude a tomar. Analisada localmente a situação, o Sr. Figueiredo determinou a continuação da actividade com abaixamento de stock.

Em conversa havida anteriormente com Sua Ex.ª o Governador, este chamou a nossa atenção para absoluta necessidade de se manter a vida normal da Província a todo o custo, não se deviam diminuir os stocks, ao qual lhe respondemos que os montantes de stocks nada tinham como movimento comercial dada a existência sempre de quantidades de mercadoria em depósito durante a época das chuvas, que de qualquer modo não valia a pena arriscar.

Em 9 de Agosto, fomos apresentar cumprimentos, nas instalações do BNU, ao Sr. Dr. Castro Fernandes, nosso Exm.º Presidente da Mesa da Assembleia Geral, que aproveitou a oportunidade para reafirmar a necessidade expressa por sua Ex.ª o Governador, preconizando mesmo que o Governo da Província estabelecesse sanções severas contra qualquer das firmas grandes que reduzisse a sua actividade, fechando sucursais, por motivos da situação existente, dadas as perturbações que daí poderiam advir. Disse S. Ex.ª também que não devíamos reduzir os stocks. Por outro lado, afirmou da necessidade dos indivíduos se manterem na Província com as suas famílias, mulheres e crianças, mantendo-se o regime normal de vida anterior aos incidentes. Declarou-nos que estava disposto até a vir todos os meses estar na Província com a sua esposa e filha”.

O que se vai seguir no relatório é um caso exemplar de suspeição por rumor ou boato ou mesmo ajuste de contas, bem típico de uma atmosfera em que os protagonistas sentem que a paz vivida abriu fissuras, e que se temem traições ou graves infidelidades.

O gerente da Sociedade desloca-se a Farim onde fizera concentrar os empregados de Bigene e Guidage, procura dar apoio moral e dar conhecimento da orientação a seguir, determinando que certas mercadorias seriam transferidas para Bissau através de Farim. Estamos em 15 de agosto e o Governador chama de novo o gerente da Sociedade à noite. O Chefe de Gabinete do Governador mostrou ao gerente um telegrama acabado de receber do Administrador de Farim pedindo a transferência do encarregado da Sociedade em Guidage, “dada a colaboração que vinha fazendo com o inimigo, vendendo-lhe arroz, gasolina, etc., recebendo em casa as autoridades da localidade senegalesa de Tanafe, promovendo reuniões noturnas, etc.”. O gerente reage apontando os inconvenientes de tal transferência. E o gerente é convidado a ir averiguar os factos a Guidage, o gerente contesta. A 16 de agosto chega um telegrama de Farim transmitindo o pedido do Administrador para transferir o empregado de Guidage. Nova conversa com o Governador, é sugerido que o empregado venha a Bissau imediatamente para se ajuizar da sua boa ou má-fé, seria a PIDE a proceder a averiguações.

A 18 de agosto o empregado de Guidage chegou a Bissau.

“Demos-lhe conhecimento das suspeitas que a seu respeito tinham sido levantadas e procurámos inteirar-nos da situação. Nada de concreto pudemos apurar do empregado, a não ser o que já sabíamos, que comprara durante a campanha cerca de 400 toneladas de mancarra. O empregado mostrou-se alarmado, declarou que as afirmações feitas eram redonda mentira com excepção evidente da parte das vendas por quanto não recebera ordens de ninguém para deixar de vender aos clientes que se apresentavam ao balcão, ainda que soubesse que viviam além-fronteiras. Se estes ultrapassavam a fronteira, nada lhe podiam imputar uma vez que não é a ele que lhe compete a vigilância da fronteira. Quanto a fazer reuniões nocturnas em sua casa e ausentar-se de Guidage durante a noite, desafiava quem quer que fosse a prová-lo. Quanto a receber em sua casa indivíduos do lado de lá da fronteira, sendo a única casa da localidade com condições e até dada a ausência de outros comerciantes, como sempre, a quem lhe apareceu para comer qualquer coisa ou que vindo a Guidage e que consigo contactara, dera comida ou oferecera um uísque. Na realidade, entre essas pessoas contava-se até o enfermeiro de Tanafe que viera a Guidage ver um doente ou até mesmo fazer uma autópsia e que teve de dormir em sua casa”.

Este imbróglio terá novos desenvolvimentos, desconfiança de um, desconfiança de outro, até o irmão do empregado de Guidage acabará por ser ouvido, entretanto haverá saque e incêndio em Guidage, os assaltantes, diz o relatório, eram Manjacos, Mandingas e Balantas-mané, estavam armados com carabinas de calibre militar de 7,7 mm e espingardas de caça calibre 12.

Em 16 de março de 1962 a confidencial enviada de Bissau para Lisboa refere dados que são bem conhecidos e historicamente relevantes:

“Levamos ao conhecimento de V. Exas. que na madrugada de terça-feira, dia 13, agentes da PIDE em colaboração com os Serviços Secretos do Exército assaltaram uma casa num dos bairros indígenas da cidade, prendendo os principais responsáveis na Guiné, do chamado ‘Partido Africano Independente da Guiné e Cabo Verde’, célula comunista dirigida e orientada por Amílcar Cabral, refugiado em Conacri.

Eram cinco os dirigentes que se encontravam reunidos, conseguindo um deles iludir a vigilância dos guardas e evadir-se de forma audaciosa, rompendo por um cordão de caçadores especiais que estabeleciam o dispositivo de segurança em redor da casa.

Nos dias imediatos sucederam-se várias prisões, entre elas a do contínuo do nosso Banco, Inácio Soares de Carvalho, que foi ontem detido, dia 15, pelas 8,15 horas.

Vário material subversivo foi apanhado, que conduzirá à detenção de mais elementos, tanto residindo nesta cidade como espalhados pela Província. Envolvidos no assunto encontram-se alguns régulos, cuja detenção ainda não foi feita.

Do material apreendido constam:

- Um plano de ataque a organismos oficiais e casas comerciais, a fazer por elementos disfarçados djilas transportando balaios contendo armas;
- Plantas do Quartel de Santa Luzia, aeroporto, Associação Comercial, Pastelaria Império, cinema, BNU, Casa Gouveia, Sociedade Comercial Ultramarina, Barbosas e Ctª., Alfândega, etc.;
- Uma planta do local ainda não identificado onde se encontram escondidas algumas armas;
- Ficheiro contendo nomes e fotografias;
- Máquinas de escrever, arquivos, etc.;
- Vária correspondência de Amílcar Cabral, contendo instruções e normas de orientação.

O material apreendido permite supor que esta célula comunista levou, pelo menos, dois anos a organizar-se.

A sua descoberta e eliminação afasta, também, por muito tempo, o perigo de qualquer actividade terrorista, sendo difícil reorganizarem-se por estes tempos mais próximos.

Entre os detidos figuram alguns polícias indígenas da PSP, nenhum deles, porém, fazendo parte da Esquadra que fornece os efectivos de vigilância e defesa do edifício do Banco.

Juntamos o crachá utilizado pelos elementos do Partido, que nos foi cedido pela PIDE.

Deverão ser longas as diligências da PIDE para a conclusão do caso, mas logo que estejamos na posse de mais informes, transmiti-lo-emos a V. Exas.”

Enganava-se o gerente de Bissau quanto ao afastamento de perigo nos tempos mais próximos devido à prisão dos dirigentes do PAIGC no interior da Guiné. Em 26 de junho de 1962 vai dar notícia de que o Sul está em plena efervescência.

(Continua)



Imagem retirada do livro 'Portugal no Ultramar', 1954, Edições Sotramel - Sociedade de Comércio e Propaganda, Lda com o apoio na cedência de fotos da Agência Geral do Ultramar.


Imagem retirada do livro 'Portugal no Ultramar', 1954, Edições Sotramel - Sociedade de Comércio e Propaganda, Lda com o apoio na cedência de fotos da Agência Geral do Ultramar. 


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Notas do editor:

Poste anterior de 30 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19246: Notas de leitura (1126): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (62) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de > Guiné 61/74 - P19253: Notas de leitura (1127): “Lineages of State Fragility, Rural Civil Society in Guinea-Bissau”, por Joshua B. Forrest; Ohio University Press, 2003 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19263: Em bom português nos entendemos (20): "Partir mantenhas"... (Virgínio Briote)


Amadora > Academia Militar > Campus Amadora > 1963... O Virgínio Briote foi aqui aluno... Não seguiu a carreira das armas, mas fez a guerra da Guiné, em 1965/67; trabalhou depois como quadro superior numa multinacional farmacêutica... E é nosso editor, jubilado. Tem mais de 200 referências no nosso blogue e textos notáveis como os publicados na série Guiné, Ir e Voltar...

[Sobre esta foto: recorde-se que a Academia Militar toma esta designação em 1959, e tem o seu antecedente histórico na Escola do Exército, fundada em 12 de Janeiro de 1837 pelo Marquês de Sá da Bandeira. A sua sede é no Paço da Rainha ou Palácio da Bemposta, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, com um polo na Amadora, desde 1959. No Campus Amadora,  sito na Amadora
Na Amadora, na Avenida Conde Castro Guimarães, situa-se hoje a parte significativa do corpo de alunos, nomeadamente os alunos internos, os serviços académicos, e parte proporcional dos serviços de apoio e administração.

O município da Amadora, por sua vez,  foi criado em 11 de setembro de 1977, por secessão das freguesias da Amadora e da Venteira, do nordeste do concelho de Oeiras. Entre os seus símbolos, contam-se o Aqueduto das Águas Livres, bem como os campos de aviação que tiveram tanta importância na emergência da aviação em Portugal, sendo que ainda hoje o Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa se situa no concelho, na freguesia de Alfragide. Na foto acima, vêem-se os primeiros prédios da Reboleira, a célebre Reboleira do J. Pimenta, mais tarde freguesia, hoje extinta com a reforma administrativa de 2013, tendo  a parte Norte da freguesia sido anexada à freguesia da Venteira, e a parte Sul, para a recém-criada freguesia de Águas Livres].

Foto: © Virgínio Briote (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



I. Mais um exemplo de um vocábulo, desta feita do crioulo da Guiné-Bissau e de Cabo Verde,  "mantenhas",  que vem grafado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sendo citado o seu uso (na expressão "partir mantenhas") no nosso blogue (Luís Graça & Camaradas da Guiné) (*)

mantenhas

2ª pess. sing. pres. conj. de manter
fem. pl. de mantenha

man·ter |ê| - Conjugar
(latim vulgar manutenere, de manus, -us, mão + teneo, -ere, ter, segurar)

verbo transitivo e pronominal

1. Deixar ou ficar em determinada posição ou estado.

2. Conservar; defender; observar.

3. Guardar.

4. Dar ou obter o necessário para viver. = Alimentar, Sustentar

verbo pronominal

5. Alimentar-se.

6. Conservar-se, permanecer. [...]

 man·te·nha

(da locução portuguesa [que Deus te] mantenha)

substantivo feminino

[Cabo Verde Guiné-Bissau] Saudação, cumprimento, lembrança (ex.: mantenhas nesta casa).

"mantenhas", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/mantenhas [consultado em 06-12-2018].



II. Uso na expressão "partir mantenhas" no nosso blogue:


Partir mantenhas (**)
Virgíno Briote,
Seatlle,Washington,
 EUA, julho de 2014


Por Virgínio Briote

[ex-aluno da Academia Militar; ex-alf mil, CCAV 489, Cuntima e alf mil 'comando', cmdt Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67; nosso coeditor, jubilado]


Temos aqui um guia apanhado aos terroristas e outro daqui, um caçador nativo, bom conhecedor da região e homem da nossa confiança, o tenente-coronel de óculos chegados à ponta do nariz, cócegas no mapa com o pingalim.

Deixaram Aldeia Formosa pelas 15 horas daquela tarde, dois grupos de combate de uma companhia de caçadores atrás, mais um pelotão de milícias, uma Fox à frente, outra a fechar a coluna.


Estava prevista a chegada à base de ligação, Saala Delta, pelas 18h30, deixar aí o apoio, e começar a progressão rumo ao objectivo, que deveria ser alcançado ao alvorecer. Segundo a ordem de operações, os grupos de combate da companhia de apoio deveriam estacionar, emboscados na estrada, frente a Nhantafará. 

Paragens, algumas demoradas, devidas a problemas com uma das viaturas e alguns atascamentos atrasaram a caminhada. Saala Delta só foi atingida pelas duas da madrugada.  Pararam, chamaram o intérprete, falaram com um guia, depois com o outro. O guia IN dizia não conhecer a estrada, o caçador que estávamos mesmo, mesmo, em Saala Delta, um soldado das milícias que já passou, que talvez seja para trás. Melhor esperar pelo acordar do dia, progredir depois. 

Por volta das cinco, o grupo reiniciou a progressão, companhia para trás, emboscada. A certa altura, de um momento para o outro, o tal guia apanhado aos terroristas ajoelhou-se e não quis continuar. Bem se insistiu, tentou saber-se o que se passava, nada. Embora tivessem perdido tempo a tentar resolver o assunto, não ficaram com dúvidas que estavam no rumo certo, que o objectivo estava próximo. Prosseguiram com cautelas redobradas até que avistaram, recortadas na neblina, duas ou três barracas. 

Duas equipas destacaram-se com o guia, o tal caçador da inteira confiança do comandante do batalhão. Enquanto os dez homens procuravam dispor-se em linha, com os olhos no acampamento, deixaram de prestar atenção ao caçador. E, quando o soldado guineense que o acompanhava se lembrou dele,  ainda o viram, mas a desaparecer entre as casas de mato.

Na mesma altura, como se estivesse tudo combinado, aparece o PCV às voltas em cima deles, a solicitar indicação de posição. Uma rajada foi disparada sobre os intrusos. Ataque imediato à tabanca mesmo em frente, alguns guerrilheiros com armas nas mãos e população a correrem, cada um para seu lado, todos misturados, mulheres e crianças aos gritos.

Os atacantes a recolherem as crianças, as mães, os anciãos e o IN a esgueirar-se de qualquer maneira, a disparar sobre aquela gente toda, sem contemplações. Nada mais havia a fazer, só tirar dali as pessoas e procurar abrigo. A pouco mais de cem metros, foram disparados roquetes para a zona do abarracamento. E, pelo mesmo caminho, com os civis à frente, dirigiram-se ao reencontro da companhia de apoio. Uns quilómetros depois ainda se ouviram alguns rebentamentos, vindos da mata do acampamento que tinham deixado a arder.

Quatro mulheres, 6 crianças, 3 velhos, uma pistola Seska, cinco calças de caqui, duas camisas, um par de polainitos, três barretes, seis bornais, três almotolias de óleo, três centenas de cartuchos de calibres diversos, caixas de fósforos do Ghana, suspensórios, recipientes de material de limpeza, portas-cartucheiras Simonov, calças civis, prospectos "Faúlha", documentos em marabú, uma revista francesa sobre África, quatro exemplares de "O nosso primeiro livro de leitura", cadernos escolares de Augusto Sanco, exemplares de jornais "Libertação", foi tudo, meu tenente-coronel.

Uma aselhice que, afinal, acabou por trazer algum benefício ao batalhão. Sem que ninguém se apercebesse, as duas equipas a organizarem-se para o ataque, e o guia de toda a confiança do tenente-coronel a ir “partir mantenhas” (#) com os parentes que tinha no acampamento do PAIGC. 

Alguém do batalhão disse mais tarde que o comandante tinha recebido a informação que o guia morrera durante a fuga, nas proximidades do acampamento. 

A Fox à frente, luzes no máximo, os picadores a pé a abrirem caminho à coluna, o regresso interminável a Buba, os olhos a fecharem-se-lhes de cansaço e sono, uma sensação de frustração que nem visto. Depois, no cais, em Buba, continuaram a dormitar, à espera da lancha para Bolama.

Chegaram já quase à noite, àquela cidade do passado. Parada nos tempos, mesmo assim uma beleza.

(#) Cumprimentar
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19262: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LIV: O aquartelamento de Piche, ao tempo da CCAV 1662


Foto nº 5


Foto nº 4


Foto nº 3

Foto nº 2

Foto nº 1


Foto nº 11


Foto nº 10


Foto nº  9


Foto nº 7


Foto nº  9


Foto nº 6

Foto nº 6A

Guiné > Região de Gabu > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) (*)


CTIG - Guiné 1967/69 - Álbum de Temas:
T029 – O AQUARTELAMENTO DE PICHE


I - Anotações e Introdução ao tema:

Junto mais algumas fotos para o Blogue, para postar das quando houver espaço, para a malta que não sabe, conhecer um pouco de Piche – que agora alguns escrevem Pitch.

Dizem respeito a Piche – Sector de Nova Lamego – L3 – nos anos de 67/68.

Durante a minha estadia em Nova Lamego – 21set67 a 26fev68 – fiz muitas deslocações e saídas as diversos aquartelamentos, em missões de comando de colunas de reabastecimentos, e outras na minha função de controlo e fiscalização das contas das Companhias sob o nosso comando, eram no total 17 Unidades independentes. Não fui a todas, mas a algumas

Cortesia da página do Facebook
"Guerra Colonial Portuguesa 1961-1974"
Uma delas tem a ver com Piche, fui lá umas 3 a 4 vezes no total, no tempo da CCAV 1662.

[Sobre a  CCAV 1662:  (i) mobilizada pelo RC 7, partiu para o CTIG em 1/2/1967 e regressou em 19/11/1968;  (ii) esteve em Nova Lamego e Piche; (iii) cmdt: cap mil art António de Sousa Pereira; (iv)  em 6 de abril de 1967,  rendendo a CCAÇ 1586, assumiu a responsabilidade do subsector de Piche com um pelotão em Nova Lamego,  tendo de seguida sido deslocado para Madina do Boé, onde a 4 de novembro foi substituído, seguindo para Bissau para regressar.]

As viagens eram por estrada de terra batida, não eram boas nem más, e alguns troços eram mesmo de picadas.

Para Piche nunca fui a comandar nada, eram colunas já grandes, comandadas por oficiais ditos operacionais, não sei nem me lembro de nenhum, porque enfiava-me nos camiões e não queria saber do resto, ia tirando umas fotos. Nunca houve qualquer percalço, apenas me ficou na mente a morte do Alferes [Augusto Manuel Casimiro] Gamboa, num dia em que eu devia ter ido nessa coluna, que sofreu a emboscada fatal.

Assim, tirando essa fatalidade, tenho recordações de um jovem que não conhecia os perigos, nem estava para aí virado, não era essa a sua missão.

II – Legendas e fotos do tema


As fotos aqui inseridas, dizem respeito apenas a uma deslocação a Piche, a primeira, onde se encontrava na altura a CCAV 1662, cujos nomes do Comandante e outro pessoal não me lembro.

As seguintes estão inseridas noutros temas, misturados com outros assuntos. Todas as fotos aqui reproduzidas são do mês de Novembro – não sei o dia certo – do ano de 1967, tinha eu nessa altura quase 2 meses de Guiné.

F01 – Saída de uma coluna de Nova Lamego para Piche, dentro, da caixa, de um Unimogue.  Virgílio Teixeira ao centro, Alferes capelão [Carlos Augusto Leal] Moita, à esquerda, e Alferes Mesquita,  das TSM.

F02 – Sentado na caixa do Unimogue, com uma Bazuca, ao lado o Capelão Moita.

F03 – Junto a um templo fula, na zona da CCav 1662, em Piche, com o seu zelador, o homem vestido à civil, que me pareceu ter visto recentemente noutro poste, e noutra zona.  Ao lado o capitão da companhia, ao centro o médico Lema Santos [, irmão do Manuel Lema Santos,], e do outro lado, outro militar que tendo eu tantas fotos dele, nem sei o nome, nem, o que fazia no Batalhão.

F04 - Junto ao templo fula, o comandante da Companhia[, a CCAV 1662], o Alferes Mesquita e eu.

F05 – Uma foto do autor, junto ao templo fula [", mesquita"].

F06 – O almoço do dia, com o comandante da CCAV 1662, o capelão Moita, o Mesquita, o Teixeira e outros.

F07 – Uma foto do autor, dentro do aquartelamento da CCAV1 662, num dia normal.

F08 – Uma foto do autor, junto ao mastro e bandeira dentro do aquartelamento.

F09 – Uma foto do autor, dentro de um jeep, na estrada para Canquelifá, mas ficamos pelo caminho e voltamos para trás.

F10 – Uma coluna de Piche ao Curval, dentro de um Unimogue, numa mata cerrada.

F11 – Uma coluna de Piche ao Curval, num Unimogue, mata dentro.

«Propriedade, Autoria, Reserva e Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano do SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BCAÇ 1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

NOTA FINAL DO AUTOR:

# As legendas das fotos em cada um dos Temas dos meus álbuns, não são factos cientificamente históricos, por isso podem conter inexactidões, omissões e erros, até grosseiros. Podem ocorrer datas não coincidentes com cada foto, motivos descritos não exactos, locais indicados diferentes do real, acontecimentos e factos não totalmente certos, e outros lapsos não premeditados. Os relatos estão a ser feitos, 50 anos depois dos acontecimentos, com material esquecido no baú das memórias passadas, e o autor baseia-se essencialmente na sua ainda razoável capacidade de memória, em especial a memória visual, mas também com recurso a outras ajudas como a História da Unidade do seu Batalhão, e demais documentos escritos em seu poder. Estas fotos são legendadas de acordo com aquilo que sei, ou julgo que sei, daquilo que presenciei com os meus olhos, e as minhas opiniões, longe de serem ‘Juízos de Valor’ são o meu olhar sobre os acontecimentos, e a forma peculiar de me exprimir. Nada mais. #

Acabadas de legendar, hoje,

Em, 2018-12-05

Virgílio Teixeira
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 27 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19238: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LIII: As fontes e as lavadeiras de Nova Lamego

Guiné 61/74 - P19261: Pelotões Independentes em Gadamael: A Memória (Manuel Vaz, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 798) (1): 1 - O contexto operacional e 2 - Os Pelotões de Reconhecimento que estiveram em Gadamael

1. Começamos hoje a publicar um trabalho sobre os Pelotões Independentes que estacionaram em Gadamael, da autoria do nosso camarada Manuel Vaz (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 798, Gadamael Porto, 1965/67), há muito prometido e que finalmente está pronto. 
Confiou-nos o Manuel Vaz que foram imensas as horas de pesquisa e de contactos, com algumas alegrias e algumas frustrações. 

Em princípio vamos ter uma periodicidade bimensal e estender-se-á por seis, mais um, postes.

Desde já aqui deixamos o nosso agradecimento ao Manuel Vaz por mais este trabalho, que terá a qualidade de outros similares da sua autoria, já publicados nosso Blogue. 

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Nota do editor

Vd. último poste do trabalho anterior do ex-Alf Mil Manuel Vaz de:

11 de setembro de 2015 Guiné 63/74 - P15105: Como Tudo Aconteceu (Manuel Vaz, ex-Alf Mil da CCAÇ 798): Parte V - A Guiné a ferro e fogo

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19260: Historiografia da presença portuguesa em África (138): As tribos da Guiné Portuguesa na História, pelo Padre A. Dias Dinis (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Maio de 2018:

Queridos amigos,
Atendendo aos conhecimentos da época (o trabalho foi escrito em 1946, no âmbito das comemorações do V Centenário do Descobrimento da Guiné) temos que tirar o chapéu à laboriosa investigação deste padre franciscano, consultou o que na nossa historiografia e na francesa era demais relevante acerca de Felupes, Baiotes, Banhuns, Cassangas, Manjacos, Brames ou Mancanhas, Papéis ou Pepéis, Biafadas ou Beafadas ou Beafares, Mandingas, Fulas e as respetivas subdivisões, Balantas, Nalus, Bijagós, e um pouco mais.
Trata-se de um trabalho consciencioso de alguém que viveu seis anos na Guiné e se rendeu ao fascínio daquele inextrincável mosaico étnico, uma das pujanças e deslumbramentos da Guiné.

Um abraço do
Mário


As tribos da Guiné Portuguesa na História, pelo Padre A. Dias Dinis (1)

Beja Santos

Em quatro números da publicação “Portugal em África, Revista de Cultura Missionária”, com datas de 1946 e 1947, o padre franciscano Dias Dinis, que viveu alguns anos na colónia, deu à estampa um seu trabalho sobre as etnias da então Guiné Portuguesa. Diz à partida tratar-se de um despretensioso trabalho, um simples registo de notas, se bem, de acordo com a bibliografia apresentada, fique claro que consultou o que então era cientificamente mais válido e que constitua atualidade, caso de O Manuscrito “Valentim Fernandes”, edição da Academia Portuguesa de História, 1940, Guiné Portuguesa, de Luís António de Carvalho Viegas, 1936, Babel Negra, de Landerset Simões, está a par de diferentes publicações francesas, leu claramente André Alvares de Almada, Duarte Pacheco Pereira, Guiné. Apontamentos Inéditos, pelo General Dias de Carvalho, 1944, e muito mais.

Como é evidente, a antropologia, a etnologia e etnografia guineenses evoluíram muito, cuide o leitor de que há inexatidões e pontos desatualizados, mas o ponto central era o estado dos conhecimentos, a visão do missionário ocidental rendido à curiosidade de naquele território com pouco mais de 36 mil quilómetros quadrados ali coexistirem etnias como Felupes, Baiotes, Banhuns, Manjacos, Mancanhas, Biafadas, Papéis ou Pepéis, Mandingas, Fulas e suas derivações, Balantas, Nalus, Bijagós e outras. Observa, citando um trabalho do professor Mendes Correia que não estava ainda esclarecido o problema das origens e afinidades raciais de todos os grupos étnicos guineenses. Estudiosos como Deniker tinham tentado categorizar, Deniker adotou a seguinte classificação: Fulas e Mandingas provenientes de uma mistura de Etíopes e de Nigríticos (negros sudaneses e nilóticos); as demais tribos constituiriam o grupo dos Nigríticos litorais ou guineenses, que usam línguas bantos.

Em termos etnográficos, antes da chegada dos portugueses à Guiné, ali residiam populações indígenas autóctones e outras adventícias e é inquestionável a existência de grupos étnicos bastante diferenciados, o que demonstra sucessivas imigrações. Das populações autóctones, algumas sofreram influências islâmicas, outras não. O autor apresenta-se perante os seus leitores dizendo que a recolha a que procedeu assenta, essencialmente, na Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné, de Zurara, nas Navegações do veneziano Luís de Cadamosto, no Manuscrito «Valentim Fernandes», no Esmeraldo "de situ orbis" de Duarte Pacheco Pereira. Estes autores são invocados porque nalgumas das suas obras nem sempre figuram as diferentes etnias guineenses. E escreve mesmo: “Nem todas as tribos citadas por Valentim Fernandes e Duarte Pacheco Pereira estão representadas na Guiné Portuguesa de hoje. Algumas desapareceram, fundiram-se com outras ou mudaram de nomes". E vai passar em revista, sempre a insistir que são notas ligeiras, as etnias que conheceu e que são objeto deste estudo.

Logo os Felupes, instalados entre o Atlântico e os rios do Arame, de Casamansa e Cacheu. Valentim Fernandes situa os Felupes nas margens de um braço do rio Casamansa dizendo que no vestir, adorar e comer, os Felupes podem-se equiparar aos Balantas. O mesmo autor trata-os por grandes guerreiros, possuidores de canoas em que remavam 50 a 60 homens e eram governados por um Mansa, dependente do Imperador. Era uma majestade verdadeiramente selvagem, punha e dispunha da vida dos seus súbitos, chegava a praticar atrocidades. André Alvares de Almada chamava os Felupes “pretos muito negros”. Francisco de Azevedo Coelho, comerciante nas margens do rio Buba no século XVII fala também dos Felupes, entre outros autores. Landerset Simões diz que pertencem à família dos Djolas.

Quanto aos Baiotes, estariam confinados entre o Cacheu, os Felupes, os Banhuns e a fronteira. Em tudo idênticos aos Felupes, tinham dialeto próprio. O Padre Marcelino Marques de Barros considerava tratar-se uma subdivisão dos Felupes.

Passando para os Banhuns, Valentim Fernandes dedicou-lhes muita atenção. Eram gente pacata que aceitou a chegada dos cristãos mercadores. Tinham uma feira semanal a cerca de 7 léguas do rio Casamansa, que atraía muito gentio. Eram idólatras. Valentim Fernandes descreve como sagravam os seus deuses, que eram simples forquilhas, implantadas no terreno, com longo e custoso cerimonial. Duarte Pacheco Pereira não teve conhecimento direto da tribo dos Banhuns que localiza, tanto quanto parece, entre o Geba e o Cabo da Verga. Adianta o Padre Dias Dinis que no século XVII trabalharam ativamente no território dos Banhuns os missionários franciscanos.

Temos agora os Cassangas, limitada territorialmente pelos Banhuns, pela fronteira, pelo rio Cacheu e supõe-se que pelo rio Abul, a leste. O rei vivia na povoação de Brucama, aqui se efetuava uma grande feira onde se vendiam escravos, produtos da terra e outras mercadorias. Era um chefe não eleito pelos seus súbitos, era nomeado de entre as pessoas da Casa Real e às vezes o novo chefe era imposto pelas armas. A terra era segura para os mercadores portugueses. Coisa que ali se perdesse logo sabia o rei dela e entregava ao seu dono. Os indígenas criavam abelhas em colmeia. Nas guerras, usavam azagaias, frechas, adargas, facas, espadas curtas e até paus. Belicosos, viviam em casas boas. Reverenciavam ídolos que eram “uns paus fincados no chão, de baixo de alguma árvore grande e sombria”. A estas Chinas ofereciam vinho de palma e de milho, ofereciam comida e vinho aos seus defuntos.

Segundo o autor, os Balantas habitavam principalmente os territórios das circunscrições de Mansoa e Bissorã, a zona média do rio Cacheu e o estuário dos rios Geba-Corubal. A primeira notícia que temos dos Balantas é dada por Valentim Fernandes, provavelmente escrita ainda no século XV, ele descreve os seus usos e costumes, como se vestem, o que cultivam, o gado que criam, as suas armas, a expressão da sua idolatria, a sua habitação. André Alvares de Almada, Duarte Pacheco Pereira referem-nos, Almada refere-se aos Balantas quando trata dos Brames do Geba e da ilha de Bissau. Os Balantas dão-se a si mesmos o nome de Brásà, ainda não se sabe o motivo. O desfile étnico vai prosseguir, logo com os Manjacos e com os Mandingas.

(Continua)

Povo Nalu – Aldeia de Cacine – Guiné-Bissau – África Ocidental
Foto: Jose Valberto Teixeira Oliveira – abril de 2010, retirado do site http://www.povonalu.com/, com a devida vénia.

Imagem retirada de Independent, com a devida vénia.
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de novembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19217: Historiografia da presença portuguesa em África (137): Relatório Anual da Circunscrição Civil dos Bijagós, 1935 (Mário Beja Santos)