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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província!"... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920


Governo da Província da Guiné Portuguesa | 5ª Circunscrição CFivil (Brames) | Secretaria dos Negócios Indígenas | 2ª Secção | Ano de 1920 | *Processo nº 41 | Objeto: Agressão ao adminstrador da 5ª circunscrição civil (Brames), António Augusto de Barros, e assuntos que a mesma se prendam 

(A letra manuscrita, lê-le: "Concessão de terreno, Okika de Sá")


Governo da Província da Guiné  | Administração da Circunscrição Civil dos Brames |  

Bula, 9 de abril de 1920 
À Secretaria dos Negócios Indígenas   
Bolama

Registo de entrada: Governo da Província da Guiné Portuguesa | 3ª Secção  Nº 0717 | 17 abr 1920 | Secretaria Geral | Procº nº 9/1920

Despacho (ao alto, em letra manuscrita): 

Mo mo "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província. 24-4-920.  


Para conhecimento dessa Secretaria e devidos efeitos, tenho a honra de comunicar o seguinte:

Em 1917, por informação que obtive, os indígenas da povoação de Pete reclamaram ao então administrador interino desta circunscrição, Eugénio Veloso da Veiga, a entrega de uns terrenos destinados à cultura de arroz, os quais, segundo se afirma, desde há muitos anos eram cultivados pelo concessionário João Gomes Okika [de Sá] que os adquiriu por compra ao antigo régulo do Brame Grande, Muncuruco. 

Aquele, porém, receando que as insistentes reclamações dos indígenas conseguissem  tirar-lhe uns terrenos que só a ele pertenciam, quis pôr termo a essas reclamações apresentando, 



para esse efeito, o documento da compra e o alvará da sua concessão na qual supunha que entravam os terrenos em litígio e, ainda, para maior segurança, requereu uma nova medição.

 Esta, porém, tendo sido feita por pessoal competente, veio demonstrar, muito ao contrário do que ele, Okika, imaginava, que as terras não tinham entrado nos 200 hectares da concessão.

Restava-lhe, pois, a última prova, além da testemunhal,  o documento de compra, mas este não o pôde apresentar por lhe ter desaparecido juntamente com outros papéis e dinheiro num incêndio que dias antes houvera na sua casa.

Muito desanimado, teve que assistir à posse que foi dada aos mancanhas de Pete, das suas bolanhas, mas ainda convencido que lhas restituiam logo que ele pudesse provar que desde há

2.

muitos anos, essas bolanhas eram por ele cultivadas e que, para as desbravar e preparar para a cultura de arroz, tinha gasto algumas centenas de escudos, aproveitou as disposições da Portaria nº 588, de 5 de dezembro findo, requerendo a S. Exª o Governador a  mera posse dessas terras. 

Seguindo para Bolama a fim de tratar do assunto, de lá voltou com umas tabuletas para a demarcação das mesmas, pedindo-me para eu assistir à sua colocação.

Anui ao pedido para evitar um conflito entre os mancanhas de Pete e o Okika, o que, certamente, se dava logo que eles vissem aquele a colocar as referidas tabuletas.

Seguindo, pois, para aquela povoção às 5 horas da manhã do dia 8 do corrente, mandei chamar os indígenas para lhes dizer que as tabuletas não representavam para eles nenhum prejuízo e que eu muito desejava que entre todos houvesse um entendimento sobre a futura cultura das bolanhas, afim de se pôr termo a rivalidades e a questões que, a todo o transe, eu não permitiria.

Ouviram-me muito desconfiados e, um tanto exaltados, pediram-me para os

acompanhar a fim de eu ver o terreno demarcado pelo pessoal da agrimensura e também verificar que as bolanhas eram só deles e não do Okika. 

Para ali me dirigi no intuito de examinar essa demarcação e verificar se os marcos tinham ou não sido deslocados do seu primitivo lugar.

No momento, porém, em que eu, a cavalo, examinava uma dessas tabuletas, fui agredido por um indígena de nome [ espaço em branco ] o qual, devo confessar, não matei a tiro em seguida à agressão, porque as nossas leis não permitem que uma autoridade civil, quando gravemente ofendida por um indígena, execute imediatamente esse indígena para que o respeito e o prestígio sejam sempre, e através de tudo, bem mantidos.

Limitei-me, pois, a defender-me o melhor que pude, arrancando-lhe das mãos o cacete com o qual continuava a ameaçar-me e apenas o castiguei com o mesmo o cacete. O castigo, porém, foi pequeno mas... Dura Lex... Sed Lex...

Encontra-se  aqui, sob prisão, o indígena que me agrediu, à disposição de S. Exª o Governador, e, por intermédio dessa Secretaria, eu peço licença ao mesmo Exmo. Sr. para me dispensar de propor a penalidade que lhe deve ser imposta.

3.

Devo ainda acrescentar que, se a falta de respeito praticada por esse indígena é grave, a altivez desrespeitosa como  os indígenas me falaram, fazendo até ameaças, não é a meu ver menos grave. 

Mas, infelizmente, não é só nos Brames que se nota a pouca consideração e a falta de respeito que os indígenas têm, ultimamente, pelas ordens da autoridade; em outras circunscrições o mesmo está acontecendo. 

Dão-se ordens para os indígenas trabalharem nas estradas, recusam-se ou fogem. O comércio precisa de trabalhadores, não os encontra porque eles preferem morrer de fome ou afogados em aguardente do que trabalhar; e,  não tendo necessidades, têm no entretanto abundância de dinheiro e este não se esgota rapidamente porque o álcool, ultimamente, tem faltado na Província.

Finalmente, sou de opinião que os indígenas estão carecendo, presentemente, de castigos muito severos e que as autoridades administrrativas devem ter poderes mais latos para poderem proceder com o máximo rigor nos casos em que seja preciso mostrar e manter bem íntegros o respeito e os poderes das mesma autoridade Não são as deportações para os Bijagós que os


incomoda, como eles de resto confessam: as multas, pouco ou nenhuma diferença lhes fazem - há dinheiro em quantidade -  e na aplicação de castigos corporais todo o cuidado é pouco porque as leis da metrópole, tendo aplicação nos julgamentos indígenas, aparece nos Tribunais um ou outro advogado para defender e exigir uma condenação severa para os administradores por terem abusado da sua autoridade.

Concluindo, são estas as considerações que tomo a liberdade de levar ao conhecimento dessa Secretaria, informando-a igualmente que o indígena em questão também já faltou ao respeito ao meu colega Eugénio Veloso da Veiga quando ele aqui esteve como administrador interino, tentando agredi-lo, tendo o referido administrador que o mandar amarrar e conduzir para esta Administração onde o mesmo se conservou algum tempo sob prisão.

O administrador, António Augusto de Barros,

Instituição: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Bissau

Pasta: 09907.085 | Assunto: Envio de nota da 5.ª circunscrição civil (Brames), respeitante a concessão de terrenos, assinada pelo administrador António Augusto de Barros | Remetente: Secretaria Geral do Governo | Destinatário: Secretaria dos Negócios Indígenas | Data: Sexta, 21 de Maio de 1920 | Fundo: C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas | Tipo Documental: Correspondencia | Cota Original: C1.6/01.085 

Fonte: (1920), Sem Título, Fundação Mário Soares / C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09907.085 (2026-6-25)
[ Com a devida vénia...]


1. É um documento (de 3 páginas ) interessante para que se conhecer as "agruras" da vida de administrador de circunscrição na "província da Guiné Portuguesa", mal acabada de "pacificar" em plena República..

Esta "nota" do administrador António Augusto de Barros, da 5ª Circunscrição Civil (Brames), não é um simples "fait-divers",   tem um enorme valor documental para a historiografia da presença portuguesa em África e, em especial, para a história do  colonialimo na Guiné.

Não temos dados biográficos deste administrador, possivelmente de origem cabo-verdiana. Mas sabemos por onde andou nos anos de 1920, de acordo com registos da plataforma Casa Comum (que disponibiliza a reprodução e descrição de documentos custodiados pela Fundação Mário Soares e Maria Barroso, neste caso do .Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), Bissau):

  • Administrador da 13.ª circunscrição civil (Bijagós) em 1924;
  • Administrador da circunscrição civil de Buba em 1928;
  • Intendente, Intendência de Bolama, em 1930.

É contemporâneo de Eugénio Veloso da Veiga, outro administrador colonial português na Guiné, com atividade registada nas décadas de 1920 e 1930, de acordo coma a mesma fonte (INEP / Casa Comum):

  • Administrador de Bubaque (Arquipélago dos Bijagós): documentos entre 1927 e 1928 registam a sua correspondência com a Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas; as suas funções incluíam a cobrança do imposto de palhota pelas ilhas e o envio de mapas de importação de bebidas;
  • Administrador de Gabu, em  1933 e 1934; 
  • Administrador da Circunscrição Civil de Bafatá em 1934;
  • Membro da Comissão de Limites (1934):  a 25 de janeiro de 1934, integrou a comissão portuguesa de representação do governo da Guiné Portuguesa que se reuniu com as comissões da Guiné Francesa na região de Catabá, para definir a fronteira.


Augusto de Barros
(1917-1969). Arquivo da família.
Não sabemos quando terminou a  carreira do António Augusto de Barros.. Mas há mais nomes de apelido Barros, ligados à administração ultramarina na Guiné: por exemplo, António Augusto de Barros Júnior, bem como Augusto de Barros.  É possível que tenham alguma relação de parentesco. 

Este último, Augusto de Barros,  nasceu em 1 de março de 1917 e faleceu em 21 de maio de 1969.  Foi administrador do concelho de Nova Lamego (1960/69). Deixou em vida um primeiro volume de  um livro inacabado em língua fula, que ele intitulou “Rudimentos da Língua Fula” e escreveu no final da década 1950 enquanto chefe de posto de Piche. 

O seu filho, António Augusto de Jesus Ferreira de Barros (nascido em Piche, em 17 de setembro de 1958) publicou em coautoria o livro "Rudimentos da língua fula: fúlbé rímbé ê djiábé = fulas forros e pretos" (Lisboa, Edições Nimba, 2023, 223 pp.).

Mas voltando ao administrador António Augusto de Barros, acrescente-se que à data da "nota" acima transcrita, era Govcrnador da Guiné Henrique Alberto de Sousa Guerra (de 31 de maio de 1919 a 16 de Junho de 1920).

Será dele o despacho, seco e cru, "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província. 24-4-920" ?.



Durante a República (1910-1926), a taxa de "turnover" dos governadores da Guiné era altíssima: praticamente o governador mudava todos os anos (ou a cada governo da Metrópole)...

Enfim, não somos especialistas da historiografia da presença portuguesa em África, e muito menos da história do nosso colonialismo.  Talvez o nosso especialista, amigo, camarada e colaborador permanente do blogue, o Mário  Beja Santos, queira e possa acrescentar algo mais sobre este caso e sobre esta época, bem co.o sobre o papel da Secretaria dos Negócios Indígenas.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, parênteses retos, links e título: LG)
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  25 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina

terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27831: (De)Caras (244): Alf mil inf MA Machado, natural do Porto, e alf mil inf Eduardo Figueiredo, que tinha casa em Bissau; ambos já falecidos (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744... À direita, o alf mil MA Machado, seguido do nosso camarada Virgílio Teixeira, ambos naturais do Porto.


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744. Do lado direito, ten SGE Godinho, alf Azevedo do Pelotão de Morteiros, Alf Carvalheira da Ferrugem e eu, Vt. Não está o alf Figueiredo. Este de óculos não sei quem é (à esquerda, em primeiro plano).


Foto nº 3 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 24 de dezembro de 1967 > Ceia de Natal > Presidida pelo comandante de Batalhão, tenente coronel Armando Vasco de Campos Saraiva, pessoa de uma rara delicadeza e personalidade. (**)

No segundo ano, 1968, já assim não aconteceu, o trágico desfecho de uma mina A/P em 20 de novembro desse ano, levou-o definitivamente para a Metrópole, onde após operações sucessivas, conseguiu sobreviver e se encontrou, passados mais de 15 anos, com os seus militares num almoço realizado em Tomar. (Foi substituído pelo ten cor inf Renato Nunes Xavier; o 2º cmdt era o maj inf Américo Correia.)

Pode ver-se no topo da mesa o nosso saudoso comandante, fardado, ladeado, como ele gostava, de duas senhoras, a mulher do tenente mil médico Cortez, e da mulher do alferes mil Figueiredo, recrutado na Guiné, onde vivia. Perto dele, os dois majores, Américo Correia e Graciano Henriques, bem como o médico.

Podem ver-se o cap inf José Bento Guimarães Figueiral Figueiral (comandante da CCS), Martins (o oficial de informações e ainda o oficial de pessoal e reabastecimentos), e outro que não conheci muito bem.

No outro topo da mesa, está o pessoal menor, os alferes milicianos.


Foto nº 4 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais, o Comandante à civil, a brindar a todos. Os protagonistas são os mesmos, vê-se de óculos, o alferes comandante do Pel Rec Daimler 1143, Carvalho. Foi a última fotografia que tenho do nosso Comandante Campos Saraiva. O Machado será o primeiro da esquerda.



Foto nº 5 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais. O Figueiredo só se vê a cabeça, em grande plano, e a esposa, ao lado.

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



O Virgílio e a esposa Manuela, na Tabanca de Matosinhos, 
Restaurante Espigueiro (ex-Milho Rei), 
5 de setembro de 2018 
(Foto: LG, 2018)

1. Seleção de fotos do álbum do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). Mensagem de 13 do corrente, sexta, 000:01:

Luís estou a enviar algumas fotos onde aparecem os nossos visados (*), todos da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), a que eu pertenci:
  • Machado - Alf Mil de Minas e Armadilhas, natural do Porto;
  • Eduardo Figueiredo - Alf Mil de Pelotão de Reconhecimento e Informações, a viver em Bissau na altura do recrutamento;
  • Carlos Alberto Cardoso - Cap inf, cmdt da CCS (em substituição  do Figueiral).

Tens fotos em jantares na messe de oficiais, com ou sem a presença do nosso comandante de batalhão, quer em Nova Lamego quer em São Domingos.

Tinha muito que procurar e não há tempo por agora. A ideia é ver como eram estes três camaradas no tempo em que estivemos juntos,

Tens numa das fotos o Figueiredo, de costas e a sua esposa ao lado. Mas já te enviei mais.

Tens o Machado na messe ou noutros eventos. É fácil reconhecer. Tens o capitão Cardoso, oriundo da academia e a sua jovem esposa em lua de mel. Também está, em muitas fotos, o nosso médico, capitão mil Cortez, e a sua esposa. (A ver em próximo poste desta série.)

Faz o que entenderes, pois eram, os três camaradas impecáveis, que só conheci na tropa. Com o Figueiredo e o Machado tive convivência mais chegada no nosso quarto de 5 ou 6 pax. E na messe.

Se tiveres dúvidas pergunta por favor. Tentei legendar mas dava sempre erro.
Abraço, Vt.




Foto do Eduardo Figueiredo (*)


2. Comentários do Vt, ao poste P27811 (*)

Tenho ideia deste acontecimento que não causou vítimas.

O Machado, a que chamávamos na brincadeira de Machadão, pelo seu porte acima do normal, era também colega de quarto comigo e outros oficiais, alferes e um tenente. Era um grande amigo. Depois em 20nov68, houve a tal mina e emboscada às portas do quartel onde o comandante ten cor Saraiva ficou ferido com as pernas ao dependuro.

Morreu alguém que não posso precisar e o nosso Machadão ficou ferido e foi também evacuado. (Náo parece ter morrido ninguém, no CTIG, em 20/11/1968 | LG.)

Encontrei-o uns anos depois. No Porto. Na praça D. João l. Mais tarde soube que morreu antes do tempo.

Tinha algumas cenas para contar, talvez num próximo dia. Dele e do Figueiredo.

O nosso capitão Cardoso, foi substituir o nosso primeiro comandante da CCS, o capitão Figueiral (que foi para o QG). Estivemos em alguns almoços. Mas já faleceu também. O capitão Cardoso esteve lá em São Domingos. Com a mulher em lua de mel.

Tenho várias fotos com ambos que enviarei ainda hoje, sexta feira, por email para o Luís Graça. Tenho alguma nostalgia estar agora a relembrar esses tempos. (...)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 00:50:00 WET
 

(...) Agora reparei melhor o nosso homem das minas e armadilhas, baixado,  a retirar uma enorme mina! Pelo aspecto vê-se bem o seu bom aspecto de homem grande!

Era mesmo assim. Não sei nada de minas. Tenho um cunhado que também era sapador em Mueda, Moçambique. (Teve uma cruz de guerra, enaltecendo a sua pessoa, mas em particular, pela sua descontração e paciência na sua missão. Acho que era outra adjectivação mas já não me lembro. Essa condecoração valeu-lhe vários privilégios entre eles regalias nos estudos dos filhos. Ainda hoje é de uma calma impressionante. Era essa a palavra que me faltava. Calma. 
Nunca falámos das suas missões.)

O Machado era mesmo assim. Também de uma grande calma. 

O também já falecido Eduardo Figueiredo, enorme nas suas brincadeiras, teve aqui uma bela e inolvidável foto.

Quanto ao alf mil Figueiredo, conforme HU, apresentou-se na CCS /BCAÇ 1933, em 19nov67. Não era da formação do batalhão do RI15.

Era de infantaria, não constando ser de operações especiais, nem nunca se falou disso. Salvo melhor opinião.

Foi um companheiro que se integrou bem junto dos seus camaradas de quarto e vivência.
Mas nas alturas em que estava a esposa, encontrávamo-nos na messe ao almoço e jantar.
Ele teria outros aposentos, em Nova Lamego e em São Domingos, que nunca soube onde eram. (...)

E Viva São Domingos,  que também aparece neste enorme blogue. (...) (***)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 10:13:00 WET

(Revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 11 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27811: Fotos à procura de... uma legenda (200): mina anticarro reforçada... na estrada de S. Domingos-Susana, 10/8/1968... 13 kg de trotil... Felizmente detetada e levantada em segurança, o sapador do IN era um trolha da construção civil... (Eduardo Figueiredo / José Salvado)

(**) Vd. poste de 24 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19329: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LVII: Festas de Natal e Ano, Nova Lamego 67, São Domingos 68

(***) Último poste da série > 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27688: (De) Caras (243): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte III

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27702: Os nossos capelães (20): José Júlio Antunes (1939 - 2025), ex-alf grad capelão, BART 6523/73 (Nova Lamego, 1973/74): pertencia à diocese da Guarda (Ricardo Figueiredo)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART /BART 6523/73 (1973/74) > c. 1973 >  Missa campal, rezada pelo alf grad capelão José Júlio Antunes. A assitsir ao ato religioso, estaria ao todo uma meia centena de militares. 

Não sabemos o mês, mas deve ser do início da comissão. O Carlos Boto ainda estava lá.   O BArt 6523173 rendeu em 8/9/73 o BCav 3854, assumiu a responsabilidade
do sector L3 com sede em Nova Lamego. lª Comp: Madina
Mandinga; 2ª Comp: Cabuca; e 3ª  Comp: Nova Lamego.


S/l > S/d> Convívio da 3ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74) > O Ricardo Figueiredo (à esquerda) e o padre José Júlio Andrade, à entrada do restaurante. Terá sido a último vez ques e encontraram. De acordo com o blogue "Abustres de Cabuca", a malta 2ª Companhia só ao fim de 34 anos é que se encontrou, uns tantos elementos, almoço da 3ª Companhia, 6.9.2008 em Vilar do Pinheiro. Nesse encontro apareceu tanto antigo comandante,ex-cap mil Franquelim Vaz.


Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Padre José Júlio Andrade (1939 - 2025). 
Foi alf grad capelão no CTIG, de 9/3/73 a 18/9/74. 
Esteve em Nova Lamego, com  o BART 6523/73 (1973/74)


1. A notícia é da Agência Ecclesia, a que só agora tivemnso acesso:


Guarda: Faleceu o Padre José Júlio Antunes
6 Novembro, 2025 11:06

Guarda, 06 nov 2025 (Ecclesia) – A Diocese da Guarda comunica o falecimento do padre José Júlio Antunes, nascido a 25 de maio de 1939, natural do Casal de Cinza, naquela cidade

Filho de António Joaquim Antunes Morgado e Maria Justina, o padre José Júlio frequentou os Seminários Diocesanos do Fundão e da Guarda entre 1951 e 1963, onde se formou para o sacerdócio.

Foi ordenado diácono a 19 de dezembro de 1962, na capela do Seminário da Guarda, e presbítero a 28 de julho de 1963, na Sé Catedral, por D. Policarpo da Costa Vaz.

O seu ministério sacerdotal foi marcado por dedicação pastoral e espírito de serviço. Logo após a ordenação, foi nomeado coadjutor da Sé e de São Vicente (Guarda). Em 1965, tornou-se pároco de Algodres, Vilar de Amargo e Vale de Afonsinho.

Em 1972, iniciou o serviço como capelão militar, primeiro na Academia Militar e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e, entre 1973 e 1974, na Guiné, ao serviço das Forças Armadas Portuguesas.

Regressado à diocese, foi capelão do Quartel da Guarda (1974-1975) e, a partir de 1976, pároco de Pínzio e Safurdão, acumulando depois o cuidado pastoral de Gagos. 

Em 1987, foi nomeado pároco de Atalaia e Carvalhal, permanecendo depois responsável por Pínzio, Safurdão e Carvalhal até 2004.

A partir desta data, enquanto a saúde lhe permitiu, colaborou com colegas sacerdotes em diversos serviços paroquiais.

O Padre José Júlio Antunes deixa a memória de um sacerdote simples, próximo das comunidades e fiel à sua vocação. As cerimónias fúnebres acontecem dia 07 de novembro, pelas 15h00, na Igreja Matriz de Casal de Cinza.

LFS


2. Mensagem do Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74)



Data - 02/02/2026, 15:58 
Assunto - Capelão José Júlio Antunes

Olá,  Luís,

Não sabia do falecimento recente do nosso Capelão. Que descanse em paz.

Da Guiné, que seja do meu conhecimento, não me lembro de qualquer facto importante de que ele tivesse sido protagonista.  De resto, a passagem dele por Cabuca foi pontual, dois ou três dias, tendo sido um deles ocupado pela Missa campal.

Já cá, e num almoço da 3ª Companhia em que participaram três ou quatro elementos da 2ª Companhia, sendo um deles, eu próprio, e em que também esteve presente o Capelão José Júlio, tivemos oportunidade de ficarmos na mesma mesa e a meu lado o também já saudoso José António Sousa, da CCav 3404 e,  salvo erro,  também o 1º cabo cripto da nossa Companhia, o Victor Machado.

O almoço, caríssimo para a época,foi muito mal servido e as sobremesas miseráveis. O Padre José Júlio, que era um bom garfo, também ele manifestou o seu desagrado como de resto a maioria dos convivas.

Porém, junto à nossa mesa, encontrava-se um expositor de bolos. Lancei um desafio ao Padre José Júlio:

- Se eu desviar uns bolitos para a nossa mesa, absolve -me ?!

A resposta não se fez esperar:

-  Absolvidissimo !

E lá desviei dois bolitos ,que souberam que nem ginja !

Anexo :

(i) a fotografia da Missa Campal, celebrada pelo Capelão José Júlio, em Cabuca;

(ii) a última fotografia que tirámos, antes da entrada para o restaurante, num almoço da 3ª Companhia,  em que fomos três ou quatro elementos da 2ª.

Um Alfabravo com amizade,
Ricardo

________________________

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27660: Prova de vida (10): George Freire, ex-cap inf Renato Jorge Cardoso Matias Freire, que vive nos EUA desde outubro de 1963, e foi 2º cmdt da CCAÇ 153 (Fulacunda, 1961) e cmdt da 4ª CCAÇ (Bissau, Nova Lamego e Bedanda, 1961/63)



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego > 4ª CCAÇ (1961/63) > Jorge Freire, ex-cap inf, que esteve na Guiné, em 1961/63, e desde então a viver nos EUA; conhecido por George Freire, foi engenheiro e empresário e está reformado desde 2003. Vive hoje em Colúmbia, Carolina do Sul. Imagem: fotograma do vídeo que nos mandou em 2009 (*).

Foto: © George Freire (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Lisboa > Escola do Exército > 1955 > Curso finalista da Escola do Exército (hoje, Academia Militar) do ano de 1955, do qual faziam parte (além do George Freire, residente nos EUA desde outubro de 1933, hoje com 92 anios antigo comandante da 4ª CCAÇ - Fulacunda, Bissau, Nova Lamego Bedanda, Maio de 1961/ Maio de 1963, de seu nome completo Renato Jorge Cardoso Matias Freire), os seguintes oficiais reformados do exército português, que ainda náo conseguimos identificar:

  • generais Hugo dos Santos, António Rodrigues Areia, Adelino Coelho e António Caetano;
  • coronéis João Soares, Costa Martinho e Maurício Silva, entre tantos outros; capitão José Manuel Carreto Curto, ex-cap inf, CCAÇ 153 (Fulacunda, 1961/63) era "do curso um ano mais velho do que o meu" (diz o George Freire). (Faleceu em 18/11/2018, com ten gen ref.

O oficial que está ao centro, de óculos, seria o 2ª comandante da Escola do Exército na altura. O George Freire só indica as iniciais do seu nome (M.A.),

Por outro lado, o cadete que está na 3ª posição (só se vè a cabeça), do lado direito, parece-nos ser o meu antigo cap inf, comandante da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, Junho de 1969/março de 1971), Carlos Alberto Machado de Brito (cap Carlos Brito)

Falei há tempos com ele, estava num lar de professores, em Braga, sentia-se muito bem, em boa forma. Acabo de tomar conhecimento, pelo Facebook, da triste notícia da sua morte,  em 4 de dezembro de 2025. Tinha 93 anos, nasceu em 1932. Vou fazer uma nota de pesar. Era cor inf ref, e foi tambénm comandante da GNR. Era uma pessoa afável. Estive c0m ele no primeiro encontro  do pessoal de Bambadinca (1968/71), em Fão, Esposende, em 1994.

Foto (e legendagem): © George Freire (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Acabámos de receber notícias do nosso grão-tabanqueiro, o ex-cap inf Renato Jorge Cardoso Matias Freire; está registado na Tabanca Grande, desde 28/12/2008 como Jorge (George) Freire, a viver nos EUA (*). Foi cap inf, CCAÇ 153 e 4.ª CCAÇ (Fulacunda, Nova Lamego e Bedanda, 1961/63)


Mensagem enviada através do Formulário de Contacto do Blogger:


Data - 22 jan 2026, 02:16

Ainda estou aqui de boa saúde para os meus 92 anos de idade. Vendemos a nossa casa e mudámo-nos para um apartamento numa organização para retiro chamado "Lakeview Retirement" em Colúmbia, Carolina do Sul. Estamos felizes e sem problemas de maior.

Cumprimentos,
George Freire | gfreire@att.net



2. Por curiosidade fomos ver se ainda mantinha o seu blogue... Lá está, é incrível, sempre ativo, proativo, produtivo, saudável!...Um grande exemplo para todos nós. Parabéns, George!


Há 17 anos eu tinha escrito sobre o George Freire:

(...) Com 76 anos, está reformado, foi empresário na área da engenharia. Vive em Chapin, South Carolina, Estados Unidos... Vem frequentemente a Portugal. Gosta de conviver e de viajar, do golfe, da pesca e da vela. Tem um blogue relacionado com a informática e aelectrónica: http://whatisyourquestionblog.blogspot.com/

Título do blogue: "COMPUTER AND ELECTRONICS WORLD SHARING AND LOTS OF OTHER GOOD STUFF NOT RELATED TO COMPUTERS"...

É um homem do seu tempo que se descreve-se a si próprio como "a retired engineer deeply interested and involved in the solving of problems and frustrations of the computer and electronics world that surround us all" (...).

Eis que o que escreveu ainda ontem, no seu velho blogue (tradução de LG):

(...) Estou de volta e dou as boas vindas aos novos e antigos visitantes do nosso blog

Quanto tempo! Eu sei, já se passaram anos. Envelheci e cheguei aos 92 anos, mas continuo muito envolvido no mundo dos truques de informática para lidar com falhas, evitá-las e melhorar a segurança operacional dos computadores. São novos tempos, diferentes do passado, mas nós (a maioria de nós) ainda usamos o Windows 11.

Agora, estou ansioso para ajudar as pessoas e discutir qualquer assunto sobre computadores e computação. Você tem perguntas? Qualquer pergunta? Por favor, voltem e vamos recomeçar o Blog do zero.

Meus melhores cumprimentos a todos vocês que costumavam nos visitar no passado. Ainda estou aqui, com 92 anos, mas com boa saúde de corpo e mente.

George Freire Postado por George Freire às 20h58 | 0 comentários (...)



3. Resposta de hoje do editor LG:

George, camarada:

Ficamos felizes por saber de ti e da tua esposa, Edite. Está feita a prova de vida (**). O Virgínio Briote, que andou na Academia Militar, no princípio da década de 60 (é do curso de 1962 e depois saiu, tendo sido no CTIG alferes comando em 1965/67) faz hoje anos e foi quem te apresentou à Tabanca Grande em 29/12/2008: ele é nosso coeditor jubilado, e vai ficar muito contente por ter notícias tuas. Sei que durante algum os dois corresponderam-se.

Vou dar conhecimento das tuas boas novas também ao João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque desde 1977, e é o "régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona. Ele assumiu a "obrigação" de reunir no nosso "redil" todas as "ovelhinhas" tresmalhadas dos "tugas" que andaram na "verde-rubra" Guiné entre 1961 e 1974 e que hoje vivem no Novo Mundo (e em especial na terra do Tio Sam). Vou-lhe pedir que te contacte, por telemóvel, para te dar de viva voz o abraço da malta toda. Vou-te mandar aqui os contactos dele. Um alfabravo fraterno do Luís Graça.

PS - Temos bastantes "bedandenses" (4ª CCAÇ / CCAÇ 6) na Tabanca Grande... Vou-lhes dar conhecimento. Quem já faleceu, infelizmente, em 2024, foi o Aurélio Manuel Trindade (tenente general inf, reformado) que era de 1933 (como tu, e possivelmente do mesmo curso de infantaria na Escola do Exército). Foi o último comandante da 4ª CCAÇ (Bedanda, 1965/67) e o 1º da CCAÇ 6.

O cor iinf ref Mário Arada Pinheiro também é do teu tempo. É igualmente nosso grão-tabanqueiro.

3. Recordamos aqui, para os nossos leitores, e em especial para os nossos leitores "bedandenses" a lista (dedse 1961) dos comandantes da 4ª CCAÇ (que deu origem depois, em 1967, à CCAÇ 6):

Cap Inf Manuel Dias Freixo
Cap Inf António Ferreira Rodrigues Areia
Cap Inf António Lopes Figueiredo
Cap Inf Renato Jorge Cardoso Matias Freire
Cap Inf Nelson João dos Santos
Cap Mil Inf João Henriques de Almeida
Cap Inf Alcides José Sacramento Marques
Cap Inf João José Louro Rodrigues de Passos
Cap Inf António Feliciano Mota da Câmara Soares Tavares
Cap Inf Aurélio Manuel Trindade

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
_________________________

Notas do editor LG:


(...) A companhia (CCAÇ 153) de que originalmente fiz parte quando partimos para a Guiné, no dia 26 de Maio de 1961, foi criada em Vila Real de Trás-os-Montes, onde eu ainda tenente, segundo comandante e o capitão Curtoo, comandante, (do curso um ano mais velho do que o meu), passámos semanas a organizar a companhia.

De Vila Real todo o pessoal viajou para Lisboa de comboio e passados talvez uma ou duas semanas, partimos de avião, (dois aviões transportes da FA), do aeroporto de Lisboa para Bissau, onde chegámos no mesmo dia ao anoitecer (...)

De Bissau, onde passámos a noite, seguimos logo para Fulacunda, onde permaneci à volta de dois meses, após os quais chegou a minha promoção a capitão.

De Fulacunda fui transferido para Bissau para comandar uma companhia de nativos (4ª CCAÇ) e render o capitão Helder Reis. Passei 4 ou 5 meses em Bissau, daí para o Gabu (outros 6 meses) e daí para Bedanda onde passei o resto da minha comissão.

Voltei para Portugal e fui novamente colocado na Academia Militar, (nesse tempo ainda chamada Escola do Exército), onde tinha sido instrutor desde 1957 até à minha ida para a Guiné.

Durante os anos de 1958 até 1961, tive a oportunidade de trabalhar (nas horas livres) com um tio direito, que tinha uma firma de serviços de engenharia e caldeiras industriais. Durante as férias de verão todos esses anos viajei aos EUA duas ou três semanas para ajudar o meu tio em assuntos relativos aos seus negócios com duas companhias no estada da Pensilvânia.

Quando voltei da Guiné, uma dessas companhias ofereceu-me uma posição, (com o título de gerente de operações internacionais), e com uma remuneração muito difícil de recusar.

Nos fins de Agosto pedi a minha demissão e parti com a minha família, (mulher e duas filhas de 3 e 2 anos), para os EUA onde me encontro faz este ano 45 anos. Desde então tirei um curso de engenharia mecânica, trabalhei para outras duas companhias e, em 1989, formei a minha própria companhia de consultaria de projectos relacionados com energia de gás, co-geração, etc.

Em 2001 parei de trabalhar full time, e estou basicamente reformado. Felizmente de boa saúde, vou a Portugal todos os anos onde me encontro com um bom grupo de antigos camaradas de curso e família. Tenho 3 filhas, a mais nova nasceu aqui, embora todas casadas, somente tenho um neto e uma neta da filha mais velha. A filha do meio e a mais nova não têm descendentes.

Comecei há pouco um Blog dedicado a ajudar amigos e quem quer que o siga, sobre problemas de computadores:

http://whatisyourquestionblog.blogspot.com/ (...)

sábado, 20 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27551 A nossa guerra em números (48): é provável que em média um soldado gastasse, mensalmente, só em cerveja, até 1/3 do pré; e, quando não tinha "patacão", bebia fiado...


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (1963/65) > 1964 > Uma pausa nos trabalhos ciclópicos de construção do famoso "Forte Apache" (perímetro defenbsivo feito por troncos de  cibes)... Num dos piores lugares do inferno verde e vermelho que foi, para muitos de nós, a Guiné... Mas hoje seria uma fantástica imagem de publicidade a uma marca de cerveja (que por sinal não seria a Sagres mas a Cristal). Fotograma  de vídeo, do álbum do José Colaço (ex-soldado trms,  CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65).

Foto (e legenda): © José Colaço (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

Guiné > Notas 100  escudos (ou "pesos") Banco emissor: BNU - Banco Nacional Ultramarino (1971). Efígie: Nuno Tristão. No câmbio e no comércio, em relação ao escudo da metrópole, emitido pelo Banco de Portugal, havia uma quebra de 10%... Ou seja: 100 "pesos" (escudos do BNU) só valiam 90 escudos (do Banco de Portugal)... Recorde-se que o BNU foi criado em 1864 como Banco Emissor para as ex-colónias portuguesas (tendo também exercido funções de banco de fomento e comercial no país e no estrangeiro; vd. aqui a sua história).

Uma nota destas, em 1969, dava para pagar à lavadeira, diz o nosso editor LG,  ou comprar uma garrafa de uísque do bom... Na cantina do Zé Soldado, rm Bambadinca, dava para comprar,  cerca de 14 cervejas de 0,33 l. 

Foto: © Sousa de Castro (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quanto é que um soldado bebia de cerveja,  em média, por mês ?   É  arriscado calcular médias.  Porque nem toda a gente bebia (e muito menos cerveja).

O nosso 1º cabo cond auto  José Claudino Silva, da 3ª CART /BART 6250/72 (Fulacunda, 1972/74) dá-nos algumas pistas: promovido pelo 1º sargento a cabo dos reabastecimentos, compete-lhe controlar o "stock" de bebidas e não deixar o pessoal morrer de sede... 

 Estamos na companhia dos "Serrotes", a que pertenciam também os nossos camaradas Jorge Pinto e Armando Oliveira.

Escassos meses depois da chegada (em finais de junho de 1972), "os serrotes de Fulacunda" (sic)  passam, em outubro, a consumir  ( ou, com mais rigor, a requisitar,  em média, 12 mil cervejas por mês, em vez das 10 mil) (*). Era bom ter alguns "excedentes" no armazém, para o caso do mundo acabar...

Pelo menos era esse o "stock" mensal. Já lhe pedi para confirmar esses números, distinguindo entre existências e compras/consumos.

 Admitindo que houvesse, no máximo,  cerca 200 militares  em Fulacunda (1 companhia de quadrícula + 1 Pel Art), um consumo médio de 12 mil cervejas, dava 2 cervejas por dia  por cada militar, o que não é muito. ( Não sabemos a proporção de cervejas de 0,33 l e de "bazucas",. de0,. 66 l.)

Também não temos termos de comparação com outros sítios da Guiné, com mais facilidades de reabastecimento (por ex., Bambadinca, por onde se abastecia todo a Zona Leste,as regiões de Bafatá e Gabu, que iam do Xime a Buruntuma).

A cerveja no meu tempo (Bambadinca, 1969/71) era a 3$50,e a "bazuca a 6$00. As duas marcas eram a Sagres e a Cristal, em garrafa de 33 cl (a "bazuca", a 0, 66 l). Acho que também já havia a enlatada, mais cara (mas já não tenho a certeza: as bebidas enlatadas eram a coca-cola e outros refrigerantes, que vinham da África do Sul, supono, juntamente com as fritads em calda).

De qualquer modo, modo lá se ia 1/5 a 1/3 do pré de um soldado (que era 900$00, enquanto um 1º cabo ganhava 1200$00).

Estamos a falar de uma média estatística (que é sempre enganadora): 

  • 2 a 3 cervejas por dia, em média,  é perfeitamente aceitável, se considerarmos as condições (de clima e de guerra) que enfrentávamos na Guiné;
  • temos, por outro lado, que considerar o número (desconhecido) dos abstémios... e o consumo de outras bebidas (coca-cola, uísque, vinho...);
  • provavelmente não se bebia mais cerveja porque o "patacão" não chegava, nem muito menos havia capacidade de frio (que melhora,apesar de tudo,  no tempo do gen Spínola);
  • como muitos de nós diziam, "a cerveja quente sabia a mijo"...

Já agora reproduz-se  aqui, de novo,   um interessante documento que é o  "Rol das despesas mensais de um soldado". Permite-nos  reconstituir, de certo modo, o quotidiano e o padrão de consumo de um soldado-tipo. Não temos  a certeza se a situação se reportava à Guiné ou outro TO (Angola ou Moçambique). Para o caso, também não interessa muito. De qualquer modo diz respeito a março de 1973.

Encontrámos esta informação numa nota de despesa, fotografada, que consta de um livro de que é primeiro autor o nosso saudoso grão-tabanqueiro Renato Monteiro (1946-2021), ex-fur mil art (CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego e Piche, 1969; e CART 2520, Xime e Enxalé, 1969/70).

Despesa de 3 [março]/1973:

  • Cerveja > 54 x 6$00 = 324$00 [=54 x 0,66 l= 35, 6 litros]
  • Cerveja > 24 x 4$00 = 92$00 [= 24 x 0,33 l= 7,92 litros]
  • Floid (sic) = 55$00
  • Pasta p/ dentes = 18$00
  • 1 frasco de cola = 30$00
  • 1 bloco de escrever = 15$00
  • 1 lata de fruta = 11$00
  • 1 garrafa de Porto = 55$00
  • Sabão = 7$00
  • Selos = 30$00
  • Envelopes = 8$00
  • Fotos = 44$00
  • Carne patoscada (sic) = 77$00
  • Vagaço (sic) = 14$00
  • 1 lata de leite = 8$00
  • Subtotal = 788$00
  • FIO (sic) = 750$00
  • Despesa total = 1538$00

1/4/1973
Assinatura ilegível


[ Fonte: Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.]








Excertos do capítulo IV (Quotidiano do soldado, pp. 193-259) do livro  de Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.] 


Legenda da foto de cima, com o militar a um canto no bar: 

"Bar de Sargentos e Oficiais, Nova Lamego, Guiné-Bidsau: sujeito  a grandes períodos de isolamento no mato ou nos aquartelamentos avançados das zonas de combate, o militar encontra nas pastuscadas e no consumo, por vezes imoderado, de bebidas alcoólicas, uma compensação para o esgotamento psicológico e moral. Nesses consumos dissipa o grosso do seu pré melhorado, que começa a auferir assim que  inicia a sua condição de 'mobilizado' ". 

Repare-se que a decoração da parede do fundo, do bar,  ainda é a do fur mil op esp Pechincha, que foi camarada do Renato Monteiro, do Valdemar Queiroz e do Abílio Duarte, em 1969, em Nova Lamego  na  CART 2479 / CART 11, os "Lacraus".

A legenda da foto com a lista das despesas diz apenas isto: "Rol de despesas mensais de um soldado" )(sic). Pela data do documento (1/4/1973) já não é do tempo do Renato Monteiro.

2. Repare-se que numa despesa mensal de 788$00 (equivalente hoje a 164, 26 euros) já nada restava do pré do soldado do Ultramar, uma parte do qual era de resto depositado na Metrópole.  Era um militar que comprava a fiado. E o cantineiro devia ser nortenho, que trocava os "bês" pelos "vês"...

Do total do consumo mensal (788$00), 52.8% ia para a cerveja! Em todo o caso, estes valores tem que ser vistos como um "outlier"; este militar, "soldado" (sic), chegaria ao fim da comissão  completamente endividado. 

Convertidos em litros,  o consumo de cerveja daria c.  de 43,5 litros por mês, 1,5 litros por dia... Se este fosse o "comportamento típico" do nosso Zé Soldado, o consumo anual de cerveja devia ultrapassar os 300 litros "per capita", admitindo-se  que na época das chuvas se bebia menos...(Parece-nos um valor exagerado.)

Havia dois tipos de garrafa: a de 0,66 litros (a chamada bazuca, na Guiné) e a de 0,33 l. 

Em 1973, o preço era, respetivamente, 4$00 e 6$00 (0,83 euros e 1, 25 euros, respetivamente, a preços atuais). Terá aumentado a cerveja de 0,33 l (de 3$50 para 4$00). Admitimos que o preço da cerveja se tenha mantido relativamente estável, ao longoi da guerra, por vezes razões "psicossociaias"...

Parece-nos mais razoável apontar para, no máximo, um 1/3 o valor da despesa em cerveja,  tendo em conta os consumos em junho de 1970 em Nova Sintra  (***).

3. Já agora, vamos rever os preços de alguns bens de consumo, na época, bem como outros valores de referência (vencimentos, por exemplo) (**).

2.1. O Sousa de Castro diz-nos que no seu tempo (1972/74) "não era muito diferente: os preços que se praticavam, eram mais ou menos os mesmos" [que em  1969/71]...

  • eu como 1º cabo radiotelegrafista ganhava 1.500$00, sendo 1.200$00 por ser 1º cabo e mais 300$00, de prémio de especialidade" [tudo somado, 1500$00 em 1973, era o equivalente, a preços de hoje,  a 312,67 €];
  • por lavar a roupa, como cabo pagava 60 pesos [em 1973][=12, 51 euros ]

Em 1969, diz o nosso editor LG:

  • recordo-me que os soldados da minha CCAÇ 12 (que eram praças de 2ª classe, oriundos do recrutamento local), recebiam de pré 600 pesos/mês [=181, 92 €];
  • além de mais uma diária de 24$50 [=7,43€] por serem desarranchados. 600 pesos deviam dar para comprar uma saca de arroz de 100 kg ( o arroz irá passar de 6 escudos o quilo para 14 em 1974, com a inflação)...

2.2. Elementos fornecidos por outros camaradas (**):

José Casimiro de Carvalho:

  • 100 pesos dava para comprar uma garrafa de Old Parr (em 1972/74);
  • como furriel, o Carvalho ganhava por mês entre 5400$00 e 6240$00 (isto já em 1974).

Humberto Reis:

Dos produtos que ele mais consumia, entre 69 e 71, referei:
  • 1 maço de SG Filtro: 2,5 pesos (sempre que saía para o mato, levava 3 a 4 maços para 2 dias);
  • 1 garrafa de whisky novo (J. Walker Juanito Camiñante de 5 anos, rótulo vermelho, JB): 48,50 pesos;
  • Idem, de 12 anos, J. Walker rótulo preto;
  •  Dimple e  Anti query: 98,50
  • Idem, de 15 anos, Monkhs e kOld Parr: 103,50
  • um uísque, no bar da messe de sargentos, eram 2,50 pesos sem água de sifão e com água eram 3,00 pesos;
  • o uísque era mais barato que a cervejola : 2$50, simples, contra 3$00 ou 3$50, além de que dava direito, o uísque,  a gelo;
  • as cervejas nunca estavam suficientemente geladas pois os frigoríficos da messe, a petróleo, não tinham poder de resposta para a quantidade de pedidos.
  • quanto à lerpa, ou ramim, uma noite boa, ou má, poderia dar, em média,  200 a 300 pesos para a lerpa e 50 a 100 para o ramim.
Luís Graça:
  • para uma família africana 100 pesos era muito dinheiro;
  • para a maior parte dos nossos militares, era muito dinheiro;
  • uma lavadeira em Bambadinca devia receber, nesse tempo (1969/71) 100 pesos por mês (era quanto ele pagava à sua)...(Elas tinham diferentes preçários, conforme a hierarquia militar; e tinham mais do que um cliente).
Com a inflação provocada pela guerra (era tudo importado!), houve uma progressiva degradação dos preços...e dos rendimentos. O problema agrava-se a partir de finais de  1973, com a chamada crise petrolífera...

Recorde-se que em 1973 os países árabes organizados na OPEP aumentaram o preço do petróleo em mais de 400% como forma de protesto pelo apoio norte-americano a Israel durante a Guerra do Yom Kippur... A nossa economia foi muito afetada...E a inflação disparou, pondo seriamente em risco a capacidade do país para poder continuar a financiar a guerra.

4. O melhor termo de comparação em relação a preçário, existências e compras de bebidas alcoólicas nas cantinas, é com Nova Sintra, ao tempo da CCAV 2483, e do nosso querido amigo e camarada,  ex-fur mil SAM Aníbal José da Silva.

Recorde-se m junho de 1970, a companhia (160 homens)  consumiu 7,8 mil garrafas de cerveja de 0,33 l , o que dava dava cerca de 2,6 mil  litros (uma média de 16 litros "per capital"... num só mês, meio litro por mês, perfeitamente aceitável, naquelas circunstâncias: um aquartelamento isolado, sem população, com reabastecimento apenas mensal)...

Claro que nem todos bebiam (cerveja ou outras bebidas alcoólicas). Mas seria raro aquele que só bebia água da torneira: na Guiné era intragável...
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22 de abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6212: O 6º aniversário do nosso blogue (12): Cem pesos ? Manga de patacão, pessoal! ( Luís Graça / Humberto Reis / A. Marques Lopes / Afonso Sousa / Jorge Santos / Luís Carvalhido / Sousa de Castro)

(***) Último poste da série > 6 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)